quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Histórias da Casa Amarela: a minha avó e o palácio da Rua de Elvas...







Quando a minha mãe e o meu tio eram pequenos, os meus avós compraram um palácio que ficava ao cimo da Rua de Elvas, em Portalegre.
E passaram a viver ali, com as três irmãs mais novas da minha avó: a Tia Zézinha, a Tia Joana e a Tia Leopoldina.

A minha mãe contava-nos histórias que se passavam nesse palácio: as grandes festas, os carnavais, os disfarces, as brincadeiras no quintal. Falava das idas da minha avó, encoberta na sua côca às vezes acompanhada pela tia Zezinha, à procura do meu avô, quando chegavam à cidade as companhias de Lisboa ele ia para o teatro todas as noites.

Mas, também, aquela vez que o meu avô, republicano autêntico, foi ameaçado de morte, quiseram bater-lhe e ele se defendeu com bravura. Durante muito tempo, depois, a minha avó passou a sair atrás dele, e seguia-o, sem ele o saber nunca, com uma arma debaixo da mantilha.
Não sei exactamente quando isso aconteceu, mas foi nos primeiros trinta anos do século vinte.

“Eram grandes as salas, as escadarias imponentes, e havia um quintal para a frente da casa com um pomar, e um jardim com flores variadas...”, contava a minha mãe.

“E havia um cão, que parecia um São Bernardo, enorme e bom, chamado Dorico, que nos levava a passeio numa carrocinha que o avô mandou fazer para mim e para o tio Fausto...”

Sei que por essa altura, o meu avô teve um carro, dos primeiros a chegar a Portalegre, um “Spa”, creio, de que resta apenas o relógio que me faz lembrar um grande despertador redondo de metal, e que o meu tio guarda no seu escritório.
Um escritório cheio de revistas, de colecções de selos, de páginas de palavras cruzadas, uma parede cheia de livros da colecção “Livros do Brasil”, “Dois Mundos” ou da “Vampiro”, que o meu avô lhe deixou.
E onde passa grande parte do dia a recordar, a ler velhos papéis, a arrumar, a querer deitar fora e a não ter coragem para o fazer...

Quando os vou ver a Portalegre, ele e a minha tia -ainda linda como no dia do casamento-, vou logo ao escritório procurar na estante alta um dos escritores policiais mais antigos, que não encontro nos alfarrabistas, de que me vêm logo saudades... E que depois lhe devolvo pelo correio, apesar de ele me dizer para ficar com eles.

O que a minha mãe contava sobre a família, parece-me hoje uma coisa nebulosa, cheia de falhas, na memória: eram coisas que eu ouvia distraída e tenho pena dessa falta de atenção.

Falava do avô dela, egoísta e vaidoso, conquistador de conquistas fáceis, e que acabou por ir parar África, voltando, para morrer, a casa do sogro, o meu gentil avô que acolhia toda a gente debaixo do seu tecto...

A tia Zézinha recordava muito a mãe, mulher doce e forte, adorada pelas filhas, que ficou sozinha muito nova a endireitar a vida que o marido desmoronara.
- Era um anjo!, dizia comovida a tia Zézinha. Não era deste mundo...

E contava-nos histórias que pareciam saídas do Romanceiro...
- Sentava-se no laranjal, sempre no mesmo banco de pedra, a bordar um lencinho, um avental. Triste, mas nunca se queixava...

A tia Zézinha era uma pessoa alegre, mas, a falar da mãe, ganhava um ar melancólico, tinha a voz diferente, de uma tristeza que lhe não conhecíamos.
- Era muito bonita. Todos diziam que se parecia com a Branca (que era a nossa avó). Tinha os cabelos negros, a pele muito clarinha, um nariz perfeito e boca sonhadora...

A minha avó protestava:- Oh! Isso não! A nossa mãe era muito mais bonita!
A mãe delas era intocável, perfeita, não se podia comparar com um mortal...
- Bem, claro que era mais bonita!... Mas tens a pele dela, o seu nariz... Eu sou morena e o meu nariz é grande...

A minha avó era bonita, tinha uma pele muito branca, acetinada, quase transparente. Só me lembro dela já de cabelos brancos, que ela enrolava no alto da cabeça, acima do pescoço fino com os seus lenços de seda de cores suaves.
Tinha um sorriso bom quando estava contente. Rigorosa, parcial, pendendo para os seus preferidos, quando se zangava, era uma fúria: ia pelos ares tudo o que tivesse nas mãos.
Eu não era uma das suas preferidas, mas gostava muito dela.

Lembro a sua alegria nos Natais, nos jantares de família, nas nossas idas com ela ao Calvário, ver o Senhor dos Passos, da sua
devoção. Vejo-a, muito mais tarde, na quinta da Vista Alegre, a subir a ladeira, afogueada, vinda da horta onde tinha ido, a correr, buscar hortelã...

E a tia Zézinha continuava:
- Quando a nossa mãe morreu, eu adivinhei a sua morte!
- Adivinou?, estranhávamos nós. Como?
- Não sei bem... Estava tão ligada a ela que me senti mal nesse momento preciso. E já vivia longe dela, em Alegrete, casada, com o primeiro filho nascido. Foi ela que me mandou-me o aviso. Até desmaiei...
Parecia-nos impossível a tia Zézinha fraquejar, ter um desmaio...
- O Mouzinho é que me disse... Vieram de Portalegre trazer a notícia da sua morte.

E um véu de tristeza descia sobre os olhos negros da tia Zézinha, deixando-nos espantadas, habituadas como estávamos à sua boa disposição, às gargalhadas sonoras, às histórias pícaras e engraçadas que sempre tinha para contar.

Nesses dias, não parava de recordar coisas.
- A Leopoldina também sentiu! Estava no quarto e veio a correr escadas abaixo e encontrou-a desmaiada no banco do jardim... E a vossa avó também se sentiu estranha... Falou com todas antes de morrer...
Nós já estávamos tristes, só de olhar para os olhos dela, se bem que nos parecesse muito esquisito tudo aquilo, mas não éramos capazes de a contradizer e aquela história encantava-nos.
- A minha mãe era uma santa... Quis comunicar com as filhas todas...

No fundo, hoje não sei onde morreu essa bisavó, nem por que morreu ainda jovem, mas uma coisa sei: associo-a, e à sua morte, ao período do palácio.

Imagino-a nesse quintal, diáfana e infeliz, mulher solitária com quatro filhos pequenos, passeando devagar nas áleas cheias de flores, sentindo o perfume das laranjeiras, olhando os limões pequeninos ainda verdes.
Vejo-a tocar ao de leve o tronco rugoso das árvores, contemplar os muros altos do quintal e o céu lá no alto, azul e parado, indiferente à sua sorte. Ouço-a suspirar nesse banco de pedra onde desmaiou e morreu.

Os meus avós foram felizes no palácio, com os filhos e as irmãs. O meu avô era bom, generoso, acolhia toda a gente em sua casa.
Um dia, por razões que já não recordo, mas que implicavam a sua palavra, por um compromisso que fez, foi obrigado a vender essa casa que a minha avó adorava e cuja venda nunca lhe perdoou.

A minha avó andou com certeza pelos corredores, pelos salões, a despedir-se de tudo o que adorava. Olhou pela janela manuelina a ver a rua estreita cá em baixo e as lágrimas corriam-lhe pelo rosto.

Era sempre a Tia Zézinha que contava.
- Ela nunca perdoou ao mano João, ao vosso avô, coitado... Mas sabia que ele era um homem de palavra... E aceitou.

A minha avó nunca nos falou desse desgosto. Às vezes dizia: “Sim, lá no palácio...”
Havia sempre uma coisa diferente “lá no palácio”...

1 comentário:

  1. Acho sempre que entre as mulheres e os Palácios há mistérios tecidos de infessáveis... Acho, também, que são as memórias-saudades que, muitas vezes, nos definem! Faz-me sempre tão bem lê-la!!! Beijinhos

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