quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Histórias da casa Amarela: o meu primo Marco Aurélio e Jules Verne














Trazia-me livros do Jules Verne, encadernados a vermelho, com imagens na capa e lá dentro, para eu ler.
Olhava-me por detrás dos óculos dourados, num sorriso irónico.
Como eu gostava muito de ler, ele decidira que ia ler também os livros dele. Passados uns dias voltava e queria logo saber se tinha gostado e o que pensava. E falava, falava...
Foi assim que li “Dois anos de férias”, “20.000 léguas submarinas”, “ A volta ao mundo em 80 dias” e o inesquecível “Miguel Strogoff”.
Chegava sem ninguém esperar, e começava logo a falar na cozinha com a Florinda. Trazia novidades, contava as coisas novas que tinha estudado, e queria ensinar-nos.
Uns dias depois de a nossa irmã ter nascido, ele estava lá...

Estávamos a conversar com a Florinda e, de repente, perguntámos uma coisa que nos preocupava:
- Como é que chegou a nossa irmã?
- Veio pendurada num paninho que a cegonha segurava no bico....
- Não acredito... , respondia eu. Como é que podia vir pelo céu?
- No bico da cegonha, dizia ela.
- E não caía?!, tornava eu, incrédula.
- Não, porque as cegonhas voam sempre devagarinho quando trazem os bébés.
Meio convencidas meio desconfiadas com a explicação, íamos espreitar a nossa irmã, a ver se não teria ficado magoada pelo bico da cegonha.
Ele ouvia e não dizia nada.

Uns tempos mais tarde, o meu primo Marco Aurélio explicou-nos que era tudo mentira, que os bébés vinham na barriga das mães, o que achámos desde logo impossível...
- O quê? A Florinda disse-nos que foi a cegonha...
- Era mentira...
Ria-se, divertido e um pouco cínico, dizendo que a Florinda era mentirosa.
E acrescentou:

- E o Pai Natal também não existe!
- O quê? És parvo? Tu é que és um mentiroso!
Quase nos zangámos com ele nesse dia, ofendidas.
No seu racionalismo procurado, no seu cientifismo de adolescente estudioso e solitário, com certeza infeliz, destruía-nos os mitos. Não conseguia, porém, abalar a nossa imaginação...
-Não acredito! Tu não sabes!, dizia eu.

Eu era uma rebelde e tinha a mania da contradição, e agora recusava aquela explicação que tirava poesia à vida: a cegonha com um bébé no bico, o Pai Natal no seu carro puxado por renas não eram verdade?

E as histórias de fadas: o Pássaro Azul, a Princesa Zoé, o sapatinho de cristal da Gata Borralheira e a abóbora que se transformava em coche dourado, os ratinhos... também não existiam?
A minha irmã insistia, preocupada:
-Foi uma cegonha... Nós vimos, não vimos?
E virava-se para mim, para eu confirmar.
-Não sei... Vimos uma cegonha, nesse dia...
A dúvida já se instalara, porque eu respeitava os conhecimentos do Marco. Ele era o nosso grande amigo. O seu saber, a sua conversa prendiam-nos horas a fio e eu gostava muito de o ouvir.
Não eram só os livros do Jules Verne, emprestava-me também, sempre que vinha, uma revistinha semanal, chamada O Mosquito.

Mais tarde, já depois da sua doença, deu-me uns livros de História da Grécia e de Roma, em espanhol, para preparar o 7º ano.
Era um miúdo fechado, que de vez em quando se expandia, se entusiasmava a contar coisas, a querer provar a sua verdade, tudo aquilo que estudara nos livros.

Tinha ficado órfão muito cedo, praticamente ao nascer.
Tomou conta dele a irmã do meu pai, que o criou como filho, juntamente com os seus, que foram nascendo a seguir.
Era uma mulher generosa, possessiva e com uma personalidade marcada. Em jovem tinha ido estudar escultura para o Porto, quando o meu pai lá esteve a fazer os preparatórios de Medicina.
Mas o meu avô morrera inesperadamente, ainda novo, e ela teve de voltar sem acabar o curso para junto da mãe, viúva, a ajudá-la a orientar a casa e tratar dos irmãos, todos rapazes. A sua carreira ficara assim partida ao meio, os seus sonhos e ambições cortados.
Quando a visitava, era meiga comigo.
A última vez que a vi, pouco antes de morrer, estava sentada numa poltrona confortável, rodeada de livros policiais, parecia-me as “generalas” russas dos livros de Tolstoï...
Lembro-me dela quando me enrosco no sofá, rodeada de almofadas, agarrada a um livro da colecção Vampiro, horas seguidas, esquecida do mundo...
Talvez tenha herdado também daquele lado o meu gosto pela literatura policial -que começou quase logo que aprendi a ler e ia à estante do quarto dos meus pais escolher o livrinho que às vezes lia, às escondidas, metida na cama com um candeeirinho preso ao espaldar.
A mãe do Marco era uma bonita jovem mulher, diziam, de olhos sonhadores, cheios de melancolia, verdes como os dele; o pai era o irmão mais velho do meu pai, homem que parecia bom, e que voltou a casar com uma senhora espanhola, uma das pessoas mais alegres que me lembro de ver na minha infância. Talvez só a tia Zézinha fosse tão divertida...
Quando íamos visitá-los a Espanha, lembro-me dela que ria sempre e contava histórias tão engraçadas das quais ela era a primeira a rir, com gargalhadas cristalinas que subiam e desciam e recomeçavam no meio de exclamações de espanto e de alegria.
Foi ela quem ensinou à minha mãe o primeiro gaspacho e uma sopa deliciosa de peixe e amêijoas, com imenso açafrão.


O Marco vivera alguns anos com eles e passara ali parte da Guerra Civil espanhola. Contava depois a minha mãe que, em Alegrete, onde fora passar umas férias, ainda rapazinho, olhava aterrorizado para o céu, quando passava um avião.
Perguntava:
-“Tia, os aviões deitam bombas?”
E fugia do jardim, indo esconder-se dentro de casa.
Um dia, o meu primo Marco teve uma crise de nervos, no meio da rua Direita, pouco depois de ter saído de nossa casa.
Uma crise violenta em que foi difícil dominar a sua agressividade.
Foi levado para Lisboa para ser tratado e estivemos muito tempo sem o ver. Melhorou, mas quando voltou, não me parecia o mesmo.
Como se um pouco da fagulha da sua inteligência e da sua sensibilidade se tivessem apagado.
Restava-nos o seu sorriso irónico e um pouco triste.
Lembro-me dele quando passam as cegonhas...

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