sábado, 31 de outubro de 2009

Citando uma tese sobre Raymond Chandler e Marlowe










Falei aqui de Chandler, do seu herói, Phillipe Marlowe e do mestrado de Literatura Policial : "O Policial na Literatura e no Cinema", na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Há dias li uma tese de mestrado de uma aluna desse curso, sobre Philip Marlowe...




Seminário: O Policial na Literatura e no Cinema
Docente: Maria de Lurdes Sampaio
Mestranda: Magda Peixoto Barbeita
Título: PHILIP MARLOWE

A tese apresenta em epígrafe dois versos de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos):

Dêem-me Água de Vidago, que eu quero
esquecer a Vida!
Álvaro de Campos

Não vou fazer a crítica do trabalho, mas aproveito para dizer que o achei muito bem escrito, numa linguagem clara que é agradável de ler, (há talvez em alguns nós um certo "parti pris" contra a "linguagem universitária") bem documentado, vivo e interessante. Li-o sem parar!
Fiquei a saber mais coisas e gostei sinceramente, Magda!
Penso que a professora que "soube" interessar a sua aluna merece também uma palavra de apreço. Aqui fica, Dra Lurdes Sampaio...

Não resisto a "citar" o próprio Marlowe na sua autopsicografia (a citação de Pessoa oblige...), nos três excertos escolhidos por Magda Barbeita (um deles não é "só" de Chandler):

I
"Sou um investigador privado e já há uns bons anos. Sou um lobo solitário, nunca casei,aproximo-me da meia-idade e não sou rico. Já estive mais que uma vez na cadeia e nãotrabalho em casos de divórcio. Gosto de beber, de mulheres, de xadrez e mais umas quantascoisas. Os chuis não me vêem com muito bons olhos, mas há alguns com quem me vou
dando. Sou natural daqui, nascido em Santa Rosa, os meus pais já morreram, não tenhoirmãos nem irmãs, e quando derem cabo de mim nalgum beco escuro, como acontece, como podia acontecer a qualquer um na minha actividade, bem como a muita gente em qualquer outra ou mesmo nenhuma, o que não é raro hoje em dia, ninguém irá sentir que a sua vida, dele ou dela, tenha perdido o sentido. "
II
«Ao volante do meu oldsmobile pela estrada de Idle Valley, pela estrada deserta o cigarro esquecido ao canto da boca. Agora os néons brilhantes iluminam um sorriso cínico, agora as sombras das sarjetas sujas, sórdidas e mesquinhas da cidade adensam um sorriso cansado. Ando expiando um crime numa mala, à procura dos cacos de um vaso vazio estatelados no chão pela mão de uma criada descuidada. Uma mosca varejeira voa em círculos à volta de uma lâmpada fosca.
Nada me prende a nada. Não, já disse que quero ser sozinho. Nunca fiz mais do que fumar a vida. E o que me resta é só um extremíssimo cansaço, uma náusea uma angustia uma traça morta. Vencido, lúcido, amargo. O correio não me traz nada.»
Este texto II é uma "composição" feita por Magda Barbeitos: trata-se dela, Eliot, Chandler e Álvaro de Campos... Confesso que o aceitaria por "Marlowe" puro e duro...
Dou-vos a solução (dada por ela nas notas), a seguir:

«Ao volante do meu oldsmobile pela estrada de Idle Valley[1], pela estrada deserta o cigarro esquecido ao canto da boca. Agora os néons brilhantes iluminam um sorriso cínico, agora as sombras das sarjetas sujas, sórdidas e mesquinhas da cidade adensam um sorriso cansado. Ando expiando um crime numa mala[2], à procura dos cacos de um vaso vazio estatelados no chão pela mão de uma criada descuidada[3]. Uma mosca varejeira voa em círculos à volta de uma lâmpada fosca.
Nada me prende a nada.[4] Não, já disse que quero ser sozinho.[5]
Nunca fiz mais do que fumar a vida.[6] E o que me resta é só um extremíssimo cansaço[7], uma náusea uma angústia uma traça morta. Vencido, lúcido[8], amargo. O correio não me traz nada.»
[1] Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra
[2] Opiário
[3] Construção a partir do poema Apontamento
[4] Lisbon Revisited (1926) ou Passagem das Horas
[5] Lisbon Revisited (1923): Não me peguem no braço!/ Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho,/Já disse que sou só sozinho!”
[6] Opiário
[7] O que há em mim é sobretudo cansaço -: “Um supremíssimo cansaço”
[8] A referência à angústia, à lucidez e ao vencido é muito frequente nos poemas de Campos.




III
"Pus o tabuleiro de xadrez em cima da mesa do café e dispus as pedras para um problema chamado A Esfinge. Vem nas páginas finais de um livro sobre xadrez de Blackburn, o mago xadrezista britânico, talvez o jogador mais dinâmico que já existiu, embora ele não tivesse conseguido chegar a lado nenhum com o tipo de xadrez de guerra-fria que hoje se pratica. A Esfinge é em onze jogadas e justifica o nome que tem. Os problemas de xadrez raramente vão além de quatro ou cinco jogadas. Para além disso, a dificuldade em os resolver aumenta quase em proporção geométrica. Um problema de onze jogadas é tortura em estado puro.
Acendi o candeeiro de pé, voltei junto da porta e apaguei a do tecto; atravessei outra vez o aposento e parei junto do tabuleiro de xadrez, colocado em cima da mesa de jogo.
Tinha um problema para resolver, mas, como acontecia com muitos outros problemas da minha vida, não sabia que solução dar-lhe. Desloquei um peão e, em seguida, tirei o chapéu e o sobretudo e atirei-os para uma cadeira.
Olhei de novo para o tabuleiro de xadrez. O movimento do peão fora asneira; por isso repu-lo na casa anterior. Os peões não valem nada, no xadrez; não é um jogo para peões.”
Raymond Chandler, The Big Sleep


Acho que devo juntar um pouco do poema de Pessoa -do heterónimo Ricardo Reis, agora:

Os Jogadores de Xadrez

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

(...)

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...

O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.




Mas, para mim Marlowe, apesar do seu cepticismo, apesar da vida parecer passar ao lado, apesar dos problemas da vida que não resolve... não é capaz da indiferença!
Vai sempre, mesmo de coração ferido, desiludido, enojado...
Como diz Magda B. a dada altura:
"Apesar da escrita surrealista, onírica e metafórica de Chandler, e dos devaneios, delírios e reflexões de Marlowe, este é um detective com uma consistência bem real, se bem que esta sua existência real, mais do que do realismo, advém do seu carácter romântico e sentimental, por mais contraditória ou paradoxal que esta ideia possa ser. Claro que muitas vezes Marlowe é preso, batido, insultado..., mas esta dimensão parece aproximar-se mais de um herói da Marvel. É a sua dimensão interior, os seus pensamentos que ondulam ao sabor da sua errância pela cidade de Los Angeles, os seus fracassos e fraquezas que o aproximam de nós. Marlowe é um herói, sim, mas um herói humano."
Vou deixar-vos com este desabafo de Marlowe, num momento de "desconforto", em que ao desgosto, ao cepticismo, reage, criticando-se: "Esta noite não estás humano, Marlowe!"
IV
"Tudo quanto sei é que algo não é o que parece ser e que o velho mas sempre seguro
palpite me diz que estou caminhando em sentido errado e o justo vai pagar pelo pecador. Isso diz-me respeito? Acaso o sei? Acaso alguma vez o soube? Não falemos disso. Esta noite, não estás humano, Marlowe. Talvez nunca o tenhas sido nem nunca o venhas a ser. Talvez eu seja um ectoplasma com uma licença privativa. Talvez todos nós sintamos o mesmo, no mundo frio e meio iluminado, em que acontecem sempre as coisas más e nunca as boas. Malibu. Mais estrelas de cinema. Mais banheiras cor-de-rosa e azuis. Mais camas enfeitadas com borlas. Mais Chanel n.º 5. Mais Lincoln Continentals e Cadillacs. Mais cabelos ao vento, mais óculos de sol, mais atitudes e vozes pseudo-requintadas, mais baixa moral. Mas, um momento! Há imensas pessoas honestas que trabalham no cinema. Estás mal disposto, Marlowe. Esta noite, não estás humano."
Porque, normalmente, Marlowe "está humano"!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Um novo escritor policial: Hartley Howard/Harry Carmichael e etc...





































Novo escritor policial...

Novo? Há anos e anos que publica...
Falo de Hartley Howard? Ou de Harry Carmichael? Ou afinal de Ognall, verdadeiro nome do autor -que morreu em 1979- mas deixou publicadas dezenas de livros, pelas mais prestigiosas editoras (Collins, em Londres, a colecção "Gialli" (equivalente à "série noire" francesa) da Mondadori! Giallo (amarelo) era -e é ainda- a cor das capas dos policiais italianos desta casa editora.
Escreveu cerca de 50 histórias como Harry Carmichael e 45 como Hartley Howard.




Hartley Howard é o pseudónimo de Leopold Horace Ognall, que nasceu em Glasgow em 1908 e foi jornalista, antes de escrever começar a escrever romances policiais. Acaba por ir viver para os Estados Unidos, onde se torna famoso. Por curiosidade, o seu filho mais novo, Harry, é um conceituado juiz que participo nas audições no processo ao ditador chileno, Augusto Pinochet.
Mas Ognall escreveu também com o "heterónimo" Harry Carmichael.
Livros violentos mas cheios de humor, um humor britânico em terras da América.
Ognall/Hartley e Harry faces do mesmo escritor...

Há muitos anos que o leio na sempre maravilhosa “velha” amiga, a colecção Vampiro. Tenho ainda dezenas de livros dele porque os vou lendo, oferecendo, voltando a comprar: não resisto às capas dos bons velhos livros da Vampiro.

Habituei-me às suas histórias aventurosas, com o mesmo Bowman, o detective sem dinheiro mas com princípios, à maneira do Marlowe de Chandler ou do Sam Spade de Dashiell Hammett.
Ou de John Piper (inspector de seguros) mais o seu amigo Quinn, figura de marginal, anarquista e repórter, sempre ensonado e a beber taças de café para acordar, que trabalha para a Polícia do Estado, outros heróis de Howard.

De perseguição em perseguição, regularmente perseguidores e perseguidos, procurando os diamantes roubados, falsos roubos cobertos pelo seguro, correndo atrás de falsas loiras platinadas, em descapotáveis brilhantes, ou patinando entre pseudo ingénuas perversas que os querem persuadir a ajudá-las...
Lembro essas perseguições fantásticas, pelas estradas poeirentas da Califórnia, seguindo assassinos crapulosos até ao Texas e às vilas da fronteira com o México.


Sempre com a sua exigência ética e o respeito por si próprios, que lhes ditam atitudes dignas e não os deixam ficar ricos.
Todas as histórias acabam com a conta debaixo de água, à espera de novo caso para "recuperarem"...





Recapitulando... Hartley Howard (1908-1979) era um dos nomes com que escrevia Leopold Horace Ognall, escritor policial britânico. Outro dos seus pseudónimos era Harry Carmichael.
Ognall nasceu em Glasgow e trabalhou como jornalista antes de começar a sua carreira de escritor ficcionista. Escreveu mais de 90 livros antes de morrer em 1979.

Aconselho-vos que, para o próximo fim de semana de repouso (como dizia o Snoopy: "hão-de chegar melhores dias: sábados e domingos!", levem um destes livros: prometo que se esquecerão de tudo: aulas, alunos, colegas, chefes, bosses, vices etc... E até os professores!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Um comentário sobre o meu post de 26 de Outubro: "O meu pai dizia": Conto de Natal









Manuel Poppe deixou um comentário na minha mensagem de dia 26 de Outubro intitulada O meu pai dizia..."Um Conto da Natal":


" As razões que levaram Felicano Falcão a deixar a meio as suas memórias? No livro citado na evocação que acompanha o belo conto de F.F., no livrinho intitulado "Feliciano Falcão, Memória Viva", publiquei um breve texto, "Lancelote e o Nevoeiro", em que, a dada altura, explico: "os 'camaradas' subestimaram-no e calaram-no: viu condenada e recusada a colaboração na saudosa 'Rabeca', onde deixou magníficas páginas autobiográficas, intituladas 'Evocação das Raízes'. E silenciaram-no por as considerarem demasiado egotistas, pequeno-burgueses..."

(F. F. era filiado no PCP.)

Tem razão o Manuel Poppe, que o conheceu bem...
O meu pai sofreu por não poder deixar o seu testemunho escrito, o seu livro que tanto o "assustava" escrever: "como se faz?", perguntava, com humildade.
Depois dessa crítica aos seus escritos "individualistas", e não tendo aquele estímulo de ir sempre publicando n' A Rabeca, "calou-se" e não escreveu mais nada...

Foi pena, porque a sua humanidade teria ainda muito para contar. Da sua experiência de médico em Alegrete e Castelo de Vide e de tantas outras coisas, memórias da sua infância, da sua adolescência, da sua aprendizagem de vida...
Vem a minha casa ajudar-me, mais à maneira de amiga do que outra coisa, uma das irmãs da célebre Florinda Solano que aparece em tantas das minhas histórias sobre a casa amarela: a Adélia.






A família das irmãs Solano era de Alegrete. Conheceram muito bem o meu pai e a Adélia ainda fala das histórias passadas nesse tempo, quando meu pai era "médico e curandeiro por terras medievais" (assim se intitula um artigo dele, publicado na República de 27/11/1945). Diz ela:

"Toda a gente gostava do seu paizinho, ele era amigo dos pobres e não fazia diferenças; para ele éramos todos iguais, atendia todos da mesma maneira..."





Sobre a admiração de meu pai por Régio, e da amizade indefectível dos dois, ao longo de 25 anos feitos de conversas, discussões, convergências em situações políticas graves e outras pequenas e grandes coisas, haveria muito que contar. Deixo apenas um apontamento, excerto de carta a um amigo, escrita depois da morte de José Régio:

“Eu não sou literato mas sempre lhe digo: a nossa literatura já realizada (não falo da jovem que vai em progressão para o definitivo e com a qual em muito me identifico) não vejo quem o iguale.

Fica-se nela na maior parte nem num humoralismo, num instintivismo e num esteticismo que parcializa e paralisa a vida. Distantes, sem o compromisso com o cerne...

A síntese, a síntese vital, onde cabem todos os gritos, só José Régio no-la deu com a sua tónica de claridade e de sombras que vai do subterrâneo ao humano –no nocturno e no diurno- e ao cósmico e ao místico. Nesta síntese, conforme as tipologias, emergimos e, desta catarse, fazemo-nos seres livres para a emoção, para a lucidez e para a praxis. É que com José Régio sentimos agudíssima a nossa condição de enjaulados e de alienados. Na jaula estreita entre o nascer e o morrer. Na alienação da nossa mente –com o cérebro, um órgão maravilhoso- de funções embotadas por enleio intrínseco e extrínseco que faz de nós subgente, cega e surda ao canto trágico da nossa finitude” (1).

1. vista de Portalegre, no nevoeiro (site da Câmara Municipal)
2. capa do livro "Feliciano Falcão, Memória Viva"
3. o meu pai, a minha mãe e nós, as mais velhas, de férias em Sesimbra, já nos tempos de Alegrete
4. o meu pai, José Régio, David Mourão-Ferreira, e o Prof. Adelinos Santos, na Quinta da Vista Alegre, Serra de S. Mamede
**********
(1) Esta carta era destinada a Fernando Martinho e nunca seguiu. Foi mais tarde publicada na Vida Mundial nº 1633 em 25 de Setembro de 1970. Vem transcrita neste livro "Memória Viva" (Câmara Municipal de Portalegre, Edições Colibri, 2003)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O meu pai dizia..."Um Conto da Natal"




















Sim, o meu pai dizia..., como Jacques Brel... E contava-me coisas, não de Scheveningen, como na canção, mas de Portalegre e dos anos que passara como médico em Alegrete, pequena aldeia dos arredores da cidade.
O meu pai também escrevia. O seu sonho era escrever um livro onde deixasse o testemunho dos sonhos, das utopias que viveu. Deixasse os seus escritos, as suas memórias da vida, rica de humanidade.
Por motivos vários, que não vale a pena referir, pouco deixou escrito.
Em Portalegre, em Dezembro de 2003, quinze anos depois da sua morte, foi publicado pela Câmara Municipal, um livrinho de homenagem ao meu pai ("MemóriaViva") e, nele, se encontram alguns dos poucos textos de ficção que ele escreveu, bem como artigos sobre pintura, música e literatura publicados n'"A Rabeca" -o semanário mais importante da terra, conhecido pelas suas posições oposicionistas.Permitam-me que vos apresente uma história dele:
Um conto de Natal...

FAZ ANOS AGORA...

Feliciano Falcão

Os meus já haviam demandado a cidade, duas léguas de distância, ao encontro da família para a reunião da grande Noite.
Eu ficava na aldeia, preso por um caso grave de psicose carencial, lá para o alto, nas escarpas da serra (“puxe-me o
sengue para baixo, Sr. Dêtor, senão rebento” –é a expressão que ainda guardo através do esfumado que o tempo dá).

A volta fora à tardinha, empolgado com uma paisagem bela e bárbara. Sob um céu de cinza sujo, vales cortados a pique, de cima, em equilíbrio muito instável por veredas apertadas, entre castanheiros e pinheiros, mergulhavam-se os olhos nos fundões de águas turbulentas. E de um cabeço, já a dominar a aldeia, abarcava-se a várzea com uma luz esverdinhada e um poente a diluir-se de um róseo húmido com manchas de tons ictéricos.
No casarão desconfortável –em preparativos para meter-me a caminho, a pé, pela estrada fora, até à cidade- bateram-me à porta àquela hora, já adentrada a noite, era coisa muito séria, sinal de grossa aflição a que urgia dar remédio rápido.
De dia, nunca uma chamada se me prenunciava de gravidade. De noite, não enganava: o caso era sempre desesperado.
O som das pancadas repercutia-se na casa toda –assustava os ratos e os gatos vadios- e chegava aos meus ouvidos com uma ressonância medonha que acordava os terrores infantis que em todos nós dormem.

Alumiado com uma fruste candeia –que nem petróleo havia com a escassez da Guerra-, chego à janela que dá para a rua (rua estreita e primitiva, de um empedrado tosco e de casas atarracadas), abro o postigo e em baixo dou com uma esguia figura de camponês:

- Senhor doutor, tenho lá a mulher com trabalhos!
Vou pelo capote e, com a pasta inseparável em semelhantes emergências, desço as escadas e, num ápice, estamos ambos na azinhaga que contorna as muralhas delidas.
Brisa agreste que entra até ao tutano dos ossos. A lua com ensombrações intermitentes de nuvens densas, mais frígidas que com propensão a água.

O passo é estugado e enquanto o diabo esfrega um olho deixamos a perder de vista o casario e só os altos esfarelados do castelo algum tempo ainda negrejam.
Boa caminhada que desentorpece os membros enregelados.
Azinhagas lamacentas intérminas. Veredas e mais veredas. Oliveiras e sobreiros que atiram sobre nós, à passagem, espessas gotas de água com peso de chumbo. Terra molhada com o trigo já aflorado.

Tudo silencioso. Nem vivalma encontramos e os raros casebres avistados não dão sinal de vida. O homem, avizinhando a quarentena, hirto e calado a meu lado, com passadas largas.

Foi um concurso à sobreposse de podestreanismo célere. Ficamos ex aequo ao chegar à meta. Casa térrea na aba de uma encosta. Fogachos que tremeluzem ao fundo. Chão de lajedo com descontinuadas frequentes, em que as covas dão ameaços de entorses aos meus pés já doridos pela maratona feita.
Guiado pelo homem, no compartimento de entrada tropeço com uma esteira onde se enroscam dois varões de idade tenra.
O pai, entre orgulhoso e contrito, diz-me que ambos já fazem pela vida, a guardar cabras e suínos, acomodados nas proximidades. No outro compartimento, dou com uma cama a um canto, junto à parede, da qual a luz de azeite pende. Cama de ferro desengonçada e cheia de empenos, das típicas camas rústicas de bilros.
E sobre esta, enrodilhada e gemente, uma mulher no apogeu do amadurecimento, pálida e de cabelo negro, com o ventre volumosos como uma abóbora sob a manta que a cobre, lança para mim um olhar de dor, mesclado de alívio pela assistência que lhe trago.
Na parede desnudada, ao alto, como único adorno, um calendário antigo do papel de fumar “La Bascula”, com uma figura bochechuda e grotesca.
A dois passos da cama –a visão lentamente se adapta à luminosidade fosca- no seguimento da parede, com o tampo encostado a esta, uma arca aberta de onde, ao fundo, chega aos meus ouvidos o ronronar miudinho de um ser humano pueril.
Nela, protegida contra as paredes arregoadas da casa, pelas quais o vento frio se filtra, dorme a sono alto o benjamim da prole –uma menina.
Quadro de uma mansão rústica, com o realismo rude da natureza.
Um grito de dor, agudo, rasgante, corta-me o exame surpreso da casa triste e chama-me à consciência o sucesso próximo.
Num instante, liberto do capote e do casaco, arregaço as mangas da camisa. Desinfecção simples. Exame preliminar para precisar a disposição do ser que dentro da mãe luta para saltar para a Vida.
Ponho um ouvido sobre o ventre disforme, quente e doloroso. Expectativa esperançosa – a criança pulsa com ritmo de normalidade, sem sobressaltos- que com palavras de carinho transmito à mulher dorida, afagando-lhe a tez húmida de suor. "Frio, frio, tenho frio, senhor doutor! "

E a pobre, inesperadamente, cai numa convulsão, correndo-lhe o corpo todo, com um indomável castanholar de dentes que abana a ferragem desconjuntada da cómoda e faz guizalhar os bilros que ainda restam à cabeceira. O vento álgido entra pelas rachas da parede, ora com um silvo de agudeza quase musical, ora com ar de sucção de cava arrepiante. É o mesmo que estar lá fora, à intempérie, sob as estrelas.

Aos poucos, sem o pressentir, as mãos se me vão engadanhando e o mesmo castanholar irresistível se apossa de mim.
(- Qual sugestão, se a temperatura rondava os zero graus?...)
E seria curioso de ver como eu e a mulher somos assistidos, nesta dança de S. Vito dentária, pelo homem, impávido, com copos de aguardente.
(Ai, os ortodoxos que são capazes de atirar pedras a esta terapêutica vil...).

Poucos minutos se escoam e nova dor molesta aquele corpo macerado. A voz crispada avisa-me do momento capital.
O homem, hierático sempre –filósofo dos silêncios nesta noite de trabalhos- serve-me de ajudante.
E nada perturba o sono daqueles inocentes – os da esteira e o da arca- nesta azáfama dramática que vai pela casa.

Na arca, onde dorme a menina, há panos e toalhas necessários para a assistência iminente. O pai ergue a menina com cuidado, não acorde, e deposita-a, agasalhada, no chão de lajem. Tira os trapos brancos do fundo e devolve o corpito adormecido para a sua cama singular.
E a hora, violenta e catártica, chega. Di-lo o ar lívido da mulher. Hirta, como que se imobilizara num espasmo titânico, numa rigidez irreversível.
Foi num relâmpago o desenlace: um pequeno corpo luzidio, redondinho, surge sobre a cama e uma mancha vermelha, inundando o ambiente de eflúvios mornos, a alastrar, a alastrar no branco do lençol.
Um burro invisível, muito próximo, atira para o ar uma zurrada, tal como uma trombeta a anunciar o nascimento do menino.
Depois, os vagidos do recém-chegado ao mundo e o esmaecimento suave, recobrador da mãe.

O corpito da arca é outra vez removido para o chão de lajem para procurara mais panos brancos. O mesmo respirar miúdo, a mesma paz de sonho.
Não sei que mais possa amolecer a minha natureza sensível: se o quadro dos dois homens pequeninos aconchegados no outro canto, se a menina da cama singular, insensível ao vaivém da arca para o chão e do chão para a arca, se a máscara incomovível do homem, qual figura de retábulo, se a mulher arrepiada e heróica no transe da maternidade, se o rebento rosado caído na vida em meio tão humilde.
Um enternecimento viril vem-me súbito e, de mistura com o frio, sinto humedecerem-se-me de lágrimas os cantos dos olhos.
Agasalho a mãe o melhor que posso e, cuidados ambos –mãe e filho-, procuro a lareira, onde o homem, curvado, atiça os chamiços do lume pobre.
Sento-me num banco baixo e o meu companheiro puxa da garrafa de aguardente e dá-me outro copo com que me retempero. Fixado nas chamas débeis, ouço-lhe palavras humílimas de reconhecimento e um tom lamentoso em que há surda revolta, misto de coisa instintiva e fulgurância lúcida, ante a mísera condição.

Olho-o, silencioso e bem de frente, bebendo-lhe as palavras. É que estas coisas acordam em mim lembranças infantis, com os mesmos ressaibos de suor e amargura no trabalho de agro alheio, de manhã à noite no amanho da terra, em pura existência vegetativa, sem vislumbre do ser bípede racional.

Vida de animal.
Volvida a paz à casa rústica, deixo a lareira, a aguardente e o companheiro da noite tormentosa e, embuçado, atiro-me para o escuro, rumo à aldeia. Era um negro de breu. Não se via um palmo adiante do nariz. Nortada fina e cortante. Nem a fermentação do álcool ingerido, nem o agasalho forte protegiam contra a crueza da atmosfera.

Todos os caminhos eu conhecia às cegas, não iria empecer-me com esta outra experiência. Planícies, vales e escarpas, ribeiras medonhas no pino do Inverno, quilómetros sob a torrina do sol de Julho ou nas gélidas noites de Dezembro, tudo afrontava como andarilho incorrigível.
Meto-me por uma azinhaga encharcada e, no chope-chope das passadas nas poças de água e na lama, encontro uma companhia para afugentar a solidão.
As mesmas veredas indistintas. Sombras de oliveiras carcomidas subitamente se interpõem na minha frente, quais seres gigantescos e terríficos. Num relance, vejo a lua chapar-se na lombada de um penhasco. Sobreiras contorcidas e de capa larga assemelham-se a cogumelos monstruosos.
Com esta aventura tão vívida, cobro, a pouco e pouco, uma sensação de contentamento virginal. Apetece-me cantar com o coração liberto, neste silencioso nocturno, sob a fina, quase imperceptível, poalha luminosa, esparsa no céu. Sinto haver crescido na compreensão humana das coisas e dos seres.

Chegam-me as ocorrências da infância e da adolescência. E de meus ancestrais, amarrados à paisagem rústica. Uma cadeia de lembranças se engrena na minha vida presente e tão vivas, tão similares às minhas experiências de agora, que quase tudo me parece de ontem, de hoje, de todos os dias.
A expressão daquele camponês jovem, simples, que na agonia chama por mim, confundo-a com a de um tio nos longes da minha infância, na mesma luta inglória com a terra sáfara, e a parca o leva no vigor da maturidade.
E a daquela petiza loura, botão fechado ainda, que um garrotilho estrangula, cujo enterro acompanhei de longe, solitário e desesperado –a mancha branca do caixão entre manchas negras moventes, que a acompanham- lembra-me uma irmãzita que ali para uma aldeia, ao norte, ficou no verdejar da segunda infância.
E, nestas meditações encadeadas, andando sob a noite, um optimismo são me alanceia a par do desconforto que me circunda.

Chego à estrada lasso. Olho debaixo o castelo projectar-se na imensidade negra. Um cão late para as bandas do Pico. Cinjo mais o capote ao corpo e –deixando à direita a azinhaga que leva ao meu casarão –resolvo continuar pela estrada fora, até à cidade, ao encontro dos meus, para chegar a tempo de festejar a grande Noite, com a minha descendência nascente.

In “A Rabeca”, nº 1513-1514, de 22/12/1948

Música: hoje Winton Marsalis: Retrato de Louis Amstrong





Louis Daniel Armstrong (Nova Orleans, 4 de agosto de 1901 — Nova Iorque, 6 de julho de 1971), é considerado "a personificação do jazz".

domingo, 25 de outubro de 2009

A Lady do Crime: um olhar de Agatha Christie sobre as "suas" Miss Marple...

O OLHAR CRÍTICO DE AGATHA?
















Margaret Rutherford...












Julie MacKenzie
















Geraldine Mc Ewans












Joan Hickson




























Joan Hickson, Margaret Rutherford, Geraldine McEwan, Julie Mackenzie ...



Lista enorme - e incompleta, ainda- que prova o interesse que sempre despertou a figura criada por Agatha Christie.
Hoje apeteceu-me lembrar estas actrizes tão diferentes.
Qual a melhor no seu papel? Difícil de dizer...
"Why didn't you ask Agatha?" , podíamos perguntar, não é? Qual seria aopinião dela? Talvez tenham razão... Mas ela não as conheceu todas...
Quanto a mim, gosto imenso de as ver todas: mais caricaturais, quase cómicas (Margeret Rutherford) ou um pouco aéreas (Geraldine McEwan), ou demasiado secas (Joan Hickson), ou compreensivas como esta última, Julie Mackenzie.
Confesso que estou a gostar muito da última Miss Marple: Julie Mackenzie.
Talvez seja a que sinto "mais próxima" da minha imagem inicial e bem viva de Joan Marple, a visão que tive dela à primeira leitura, desprevenida, ao descobrir os primeiros livros da "Lady do Crime".
Era a simplicidade e a naturalidade da figura que me atraíram logo, uma certa doçura aliada à severidade, o sentido de justiça mais a inteligência viva, mas suave, a compreensão das pessoas simples e a curiosidade do "mal" sem a cuscuvilhice de St. Mary Mead...

Gostava que me dissessem o que pensam.
Ponham comentários, anónimos se quiserem (depois podem assinar em baixo...), pois eu sei quão difícil é "pôr um comentário no blog"!
Falha tecnológica minha, se calhar...
Pergunto em especial à minha querida amiga, e fan da Agatha, muito crítica em relação às representações das "suas" personagens tão amadas , a Ana Luísa:


"Olá! Já viste a nova Miss Marple? O que achas desta vez? Bem... se não viste, vai já comprar!"
(O mesmo digo à Guida, à Lurdes, à Lívia...)

Para já, aconselho aos apreciadores da escritora - e do género policial- e aos curiosos por natureza a compra do DVD "Marple" 3 -porque são a continuação dos dois DVDs, que saíram intitulados do mesmo modo, ainda com a actriz Geraldine McEwan no papel de Miss Marple.
Existe na FNAC e traz duas belas e horríveis histórias, cheias de peripécias e de mistério:
"Perguntem a Evans" e "Um bolso cheio de aveia", considerado pela própria Agatha como um dos seus melhores romances.
Sei que já saíram mais DVDs em Inglaterra, mas ainda não os encontrei...

Para quem quiser relembrar alguns factos sobre esta nova série e a sua nova actriz, copio a notícia que apareceu por altura do aniversário de Agatha Christie em 15 de Setembro passado no Guardian de 6 de Setembro:

"Julia McKenzie's debut as Agatha Christie's Miss Marple attracted 5 million viewers to ITV1 last night, Sunday 6 September, but lost out to a new series of BBC1's Waking the Dead.
A Pocket Full of Rye, the first of four new feature-length Marple mysteries, drew an average of 5 million viewers and a 21% share between 8pm and 10pm, according to unofficial overnight ratings.
This was well ahead of the 3.8 million and 15% who tuned in for Geraldine McEwan's final outing in the same role on New Year's Day between 9pm and 11pm.
While McKenzie's debut as the elderly sleuth was the best rating show in the first hour of its running time, beating BBC1's Antiques Roadshow, it had stiffer competition from Waking the Dead at 9pm.
The first episode of the dark detective drama's eighth series was watched by 6.1 million and a 25% share, better than the 4.8 million and 20% averaged by Marple in that hour.

sábado, 24 de outubro de 2009

José Régio foi também o Dr. Reis Pereira...


















José Régio (José Maria dos Reis Pereira) foi também o “Dr. Reis Pereira”...


Faz quarenta anos no dia 22 de Dezembro próximo que morreu José Régio.

E que morreu, pois, o meu amigo Dr. Reis Pereira.

Conheci-o bem, foi meu professor, e muitas vezes sinto saudades. Toda a vida soube que contava com ele e, quando morreu, fez-me falta.

Era um professor exigente. Às vezes ríspido, calado, sempre sabedor. Achava que ele era justo, mesmo quando me classificava um pouco “abaixo” porque temia ser considerado influenciável, ou “fazer favores”. Porque o meu pai e ele eram amigos...

Eu era uma miúda que se distraía nas aulas. Levava o tempo a olhar pela janela por detrás da secretária do professor, mesmo na minha frente, pois estava na primeira fila. O que tinha coisas boas e coisas más...
Boas, porque era obrigada a dar mais atenção às lições, era frequentemente “chamada” para ler, para responder às perguntas de interpretação, etc.
Más, porque não podia brincar como teria feito se estivesse num lugar mais distante...

Por essa janela, via o céu azul, as árvores verdes, as nuvens e nunca me cansava de olhar para além dela.
As estações mudavam, vinha a chuva, as árvores perdiam as folhas, o céu ficava cinzento, mas depressa voltaria a Primavera, e lá se ouviam os pássaros e as andorinhas começavam os voos infindáveis.
Havia tanta coisa na Primavera. Na rua detrás do Corro, estava um senhor que nos vendia bichos da seda e era a procura desesperada de folhas de amoreira que a Florinda tinha de nos trazer do mercado.

Ele, o Dr. Reis Pereira, passeava na sala de aula, com sol ou mau tempo, para diante e para trás, de olhos fixos na parede, sem nos ver, ditando uma retroversão para francês.

Se tu viesses a minha casa, podíamos ir visitar os teus amigos que vivem...”
“Quando fores a casa dele, traz-me o livro que lhe emprestei... ”

Anos mais tarde, quando chegou a minha vez de ser professora de francês, bem percebi por que insistia tanto nessas frases, no “se”, no “quando”. E aproveitei esses textos que ainda sabia de cor...

Sim, era amigo do meu pai o Dr. Reis Pereira. Vinha muitas vezes à casa amarela, sobretudo nas noites de Primavera e de Verão, quando o grupo não se encontrava no “Café Central”, da Rua Direita, ou na esplanada debaixo do Cedro, no Rossio, perto do coreto que eu imagino sempre belo, tantas vezes a meio da névoa que cobria toda a cidade em certas manhãs de Outono.

O grupo era grande: recordo o Engenheiro Ventura Reis, o Capitão Saraiva e a Luisinha mais os quatro lindos filhos que tinham. Também, o pintor Arsénio da Ressurreição, muito dedicado a José Régio, e tantos outros que passavam pela cidade e o vinham procurar.

Quando não se reuniam nos cafés, vinham ouvir música clássica, nesses serões em nossa casa.
O meu pai tinha comprado um móvel moderno com rádio e pick-up, com divisões para guardar os "long play" -como se chamavam nessa altura os discos de 33 rotações. Para nós foi uma maravilha aquele aparelho e tudo o que tinha: agulhas novas, portas onde guardávamos um líquido e uma esponjinha para limpar os discos e outra de veludo só para lhes limpar o pó.

Lembro-me de ouvir nesse pick-up, em 1956, um disco que “tinha sido proibido”, pelo governo de Salazar, a seguir à “perda” das “nossas possessões” na Índia... : “Dilmen Chupake”, que era a música do filme “Prestígio Real” : grande drama sentimental, os amores impossíveis de uma inglesa e de um jovem Rajah indiano.
Nunca soube quem realizou o filme, quem eram os actores, mas ficou-me a música que ainda hoje tenho na cabeça e ouvia em som bem alto e de janelas abertas, exigindo, infantilmente, essa liberdade de ouvir...

Nos serões da casa amarela, ouvia-se Chopin, Lizt, Schuman e algumas canções de Schubert, que a minha mãe tocava ao piano, na salinha verde onde se reuniam.






E ouvia-se Beethoven, que o meu pai admirava de modo particular -com Bela Bartok, outro dos seus preferidos-, e Stravinsky, Prokofiev, Rachmaninoff, Moussorgsky, nomes de compositores que nunca mais esqueci.

Quando o meu pai “descobriu” a música dodecafónica (ver nota*), esta era escutada em grande silêncio surpreendido e curioso por todos, mas logo surgiram problemas e começaram as grandes discussões.

Ou continuaram, apenas, se bem que um pouco mais acesas, pois, sempre houve pequenas discordâncias: Lizt ou Beethoven?

Chopin era mesmo superior? (eu achava que sim...)

A "Ave Maria " de Schubert ou de Gounod?

Aparecia agora Xenakis, Schoenberg (**), Alban Berg, Luigi Nono (que mais tarde eu e o Manuel conhecemos em Veneza, casado com a filha de Schoenberg, uma mulher bonita e doce, com os cabelos castanhos ondulados de certas judias), e essa música moderna e esses compositores “desgovernavam” aquele auditório, tal como diria Croft, o inglês de "Os Maias" a propósito das cenas de “guerras e pazes” entre Alencar e Ega: "Estes desgovernam-me..."

Começavam os protestos: a minha mãe e o Dr. Reis Pereira estavam de acordo os dois: não gostavam. Os outros hesitavam, desconfiados, queriam ouvir outra vez.
- “ Ó Falcão, falta o ritmo...”
- “ Não é “musical”...
- " Onde está a harmonia?!"
-" É diferente! Tem de se seguir outro padrão... Esta técnica de composição é nova, sai do habitual!"
- "Técnica? Mas qual técnica?"
Os desabafos de incompreensão continuavam.
O meu pai encalorava-se, defendendo a sua descoberta. E explicava, explicava... Não recordo o que ele explicava, quais os argumentos para defender essa música, que chamavam de erudita, tão estranha aos nossos ouvidos habituados à melodia, à escala musical normal...

Nós as três olhávamos de uns para os outros, escutando, desorientadas, sem perceber nada, dando talvez, lá bem no íntimo, razão à nossa mãe.

Nessa primeira parte da noite, ouvia-se a tal música "modernista", dodecafónica, átona...
Mais tarde, lembro-me de procurar alguns desses compositores e ouvir com atenção, tentando perceber por que razão o meu pai gostava deles.

Sei por que gostava: o meu pai queria abarcar tudo, como o espírito renascentista que amirava. Para ele, o homem era, também, a medida de todas as coisas. A sua figura preferida era Leonardo da Vinci: o homem que queria experimentar tudo, saber de tudo. Ou que tentava ...

Foi nesses serões, que fiquei a conhecer melhor o meu professor e me habituei a “não ter medo” daquele que, por muitos alunos do Liceu, era considerado uma “fera”.
O seu feitio reservado, independente, o desejo doentio de salvaguardar a privacidade levavam as pessoas a considerá-lo snob, pedante, e, no fundo, alguém que não era da terra: um “estrangeiro”.

No entanto, hoje penso que era perfeitamente compreensível que um “professor de liceu” daqueles tempos, jovem, chegado àquela cidade pequena e desconhecida, se sentisse receoso, nesse ambiente de coscuvilhice, e de curiosidade malsã que é tantas vezes o mundo fechado da província.
O próprio isolamento em que vivia na grande casa da Boavista, não ajudava, e tornavam-no pessoa esquisita aos olhares da terra: era pessoa que “não privava” com os outros colegas, não “se dava” com ninguém e se "refugiava nos livros e nas aulas", queixavam-se. Para eles, isto não era uma atitude “normal”...

Felizmente, depressa surgiram os amigos, e o respeito pela pessoa de valor e íntegra, que sempre foi, veio também.

Na casa, rodeado de santos antigos, dos seus Cristos e dos objectos que amava, naquela casa “cercada de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros”, em Portalegre, de que tão bem fala, sentia-se ao abrigo dos temporais:


















“Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu Morar nela...”

A casa, com trepadeiras, a vista linda da capela de Sant'Ana, abarcando toda a planície alentejana lá em baixo, cheia de santos e das antiguidades que ia comprar nas redondezas e lhe faziam companhia. Como ele diz no lindíssimo poema:
"Tenho ao cimo das escadas,
de modo que ao subir os olhos me dão nela,
uma Sossa Senhora de madeira (...)
Fazemo-nos boa companhia..."
Cheia de pavores, de febre? e de algum desespero trazidos pelo vento suão? E por que não? É ele que diz na "toada de Portalegre":

Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras
Ao vento suão queimada
( Lá vem o vento suão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão...)”

De grandes alergias, isso sim, de estados de depressão, com a chegada das trovoadas secas, do vento suão também, isso lembro-me bem.
Nessas alturas, sei que se fechava em casa, sem atender ninguém.

Muitas vezes, ia a Florinda levar-lhe uma canja de galinha ou uma travessa com doces: arroz doce que ele adorava, manjar branco, leite-creme com açúcar queimado por cima, que a minha mãe fazia, pondo uma pá pequenina do fogão, nas brasas, e tostando o açúcar que parecia depois caramelo...

Nos sábados, gostava de sair da cidade, ia comprar coisas antigas, nos arredores de Portalegre, à Escusa, a Santo António das Areias, a Alegrete, montado num burro, e acompanhado por um homenzinho ali de perto.

Recordo-o, nessas noites musicais, sentado no sofá da sala verde, a falar ou a ouvir apenas, muito bem arranjado, cheirando discretamente a lavanda, sorridente, irónico, distendido –de facto diferente do professor que ainda nessa manhã me ditara a tal retroversão ou me falara d’ “Os Lusíadas”.

(Devo dizer que amo “Os Lusíadas”, o que quer dizer que, ao contrário do que tantos professores de Português, ele não “destruiu” o poema com análises de vários tipos, sem fazer sentir a tal música, que toca a sensibilidade...)

Com o cigarro na mão, levantava os olhos e sorria, enquanto afirmava qualquer coisa “de propósito” para contrariar o meu pai:
- “É só para ouvir o Dr. Falcão...”
Às vezes dizia Dr. Falcão, outras vezes só Falcão, mas sei que nunca o chamou pelo primeiro nome.
O meu pai protestava, fingindo-se indignado, com o seu ar de menino mimado, virando-se para a minha mãe:
- “Estás a ouvir, Zélia? É de propósito...”
A minha mãe ria. A minha mãe gostava muito do Dr. Reis Pereira, com quem conversava horas a fio. E disse-me sempre que eram conversas diferentes, que lhe contou muitas coisas e que ele sabia melhor que todos entender as mulheres.

Outras vezes ia connosco à quinta da Serra, que pertencia ao meu avô, a Quinta da Vista Alegre, e ainda guardo fotografias dele, ao pé do tanque de cima, segurando os suspensórios sobre uma camisa muito branca, e a rir para a máquina.
Sentava-se no rebordo dos muros da quinta, ou a meio dos campos de malmequeres, e fazia desenhos, enquanto nos explicava o que desenhava.
Eu que já me sentia crescida de mais para me sentar no chão ficava de pé, encostada a uma árvore, a ver.
Lembro a minha irmã mais nova e os filhos da Luisinha Saraiva, a falarem e a fazerem desenhos com ele, a puxarem-lhe os lápis de cor, a pedirem-lhe mais papel. Ele, com o seu ar divertido, a sua suave ironia, falava-lhes com paciência.

E, ao serão, lá vinha o Dr. Reis Pereira. Enrolava o cigarro que ele próprio preparava, calmamente -como vira tantas vezes fazer o meu avô, com papel “zig-zag”-, e sorria-nos, um sorriso muito seu, parecendo fungar...

Sim, gostava de brincar com o meu pai, gostava de ver a reacção dele. Provocá-lo... Penso que não resistia à vontade de provocar as pessoas, de ver talvez as suas reacções, experimentá-las...
“Só para ouvir o Dr. Falcão...”, repetia.

Havia um intervalo a meio da noite. Nessa altura a Florinda descia do segundo andar, onde ficava a cozinha, e trazia um tabuleiro com pão-de-ló, pãezinhos de leite, ou tigelinhas de arroz doce, chá ou café, às vezes vinho do Porto.

Iam-se buscar as chaveninhas “do serviço” ao armário da sala de jantar que eu achava lindo, pelas suas linhas anos 40, arredondadas nos cantos e de grande simplicidade de linhas, com vidros que deslizavam para os lados.

Eu, que já sabia, ia a correr atrás dela e punha-me a espreitar as loiças bonitas, o serviço de porcelana com uma barra prateada, os copos de cristal pequeninos.
Pegava com muito jeito nas bailarinas de miolo de pão que a minha mãe fazia por distracção depois dos almoços com os miolinhos de pão que sobravam: bailarinas esguias, nas suas pernas compridas, braços no ar, boca pequenina vermelha, corpo pintado com pó azul brilhante, um folhinho de renda a fazer de saia.

Eram sempre essas as loiças e os copos que se iam buscar quando “alguém” vinha jantar.
Pessoas de que eu gostava e, apesar de não jantarmos à mesa, vínhamos sempre as três ver as visitas do meu pai. Assim recordo as vindas de outro grande amigo desaparecido há muito: Alberto Marques Cardoso, o Dr. Cardoso para nós, o amigo do meu pai e de Régio, o homem bom, inteligente, que me acompanhou sempre, com a sua amizade, que foi depois o nosso médico, meu e do Manuel, e que muitas vezes participava desses serões, quando vinha de Lisboa.

Penso que talvez se encontrasse mais próximo dos gostos musicais do meu pai do que o Dr. Reis Pereira.

Mas voltemos às noites de sarau musical...
Quando a Florinda saía, depois de vir para buscar o tabuleiro, fazia-se outra vez silêncio, mas agora tranquilo, e o meu pai punha o disco escolhido para a segunda parte da noite: esta música não causava discussões. Chopin? Beethoven? Mussorgsky?

As cortinas das janelas abanavam, levemente, ao vento, ouviam-se fora as pessoas que iam para o jardim, os perfumes da noite entravam. Sentia-me bem.
O tempo passava ligeiro.

Às vezes antes da música acabar, eu adormecia, embalada na música e nas vozes.





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NOTAS:
(*) O dodecafonismo (do grego dodeka: 'doze' e fonos: 'som') é um estilo composicional, englobado na música erudita e criado na década de 1920 pelo compositor austríaco Arnold Schoenberg. O dodecafonismo é uma técnica de composição na qual as 12 notas da escala cromática são tratadas como equivalentes, ou seja, sujeitas a uma relação ordenada e não hierárquica.
(**) Schoenberg foi o expoente da atonalidade no modernismo musical. Ainda que vários outros compositores experimentassem abandonar o esquema arraigado da tonalidade, jamais o abandonaram completamente, fosse pela bitonalidade ou pela politonalidade.
Igor Stravinsky é exemplo dessas últimas.
Schoenberg, porém, logo considerou a linguagem atonal, ou seja, a não estruturação da composição sobre um eixo harmónico central, demasiadamente sem regras. Construiu então um método para organizar os doze tons da escala cromática igualmente.
Essa técnica foi apresentada como "sistema dos 12 tons" que logo ficou conhecida como dodecafonismo serial.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Música italiana: Paolo Conte e a sua ligação ao jazz




Um dos mais carismáticos cantores/compositor italianos das últimas 4 décadas, e de sucesso internacional, Paolo Conte criou o seu estilo de música único combinando o seu grande amor pelo jazz e pela música tout court. Tem uma visão do mundo irónica e compreensiva e uma simpatia pelas fraquezas humanas.


Nascido numa velha família do Piemonte (Asti), em 1937, Paolo Conte começa a aprender piano muito novo, juntamente com o irmão, Giorgio, (Giorgio Conte) -que também se tornou, mais tarde, famoso como compositor de canções-, por insistência do próprio pai, um distinto notário da terra, mas igualmente um apaixonado amador de...


Seguindo as passadas da família, Paolo Conte vem a ser advogado e exerce a sua profissão até aos trinta anos.

Contemporâneamente, tocou vibrafone (o vibrafone é uma espécie de xilofone, tocado por baquetas revestidas de lã ou feltro para produzir melodias e acordes) com várias bandas locais de jazz.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Histórias da Casa Amarela: ao serão...


Eram longas as noites de Inverno na província. E muito frias essas noites, na minha casa amarela, em Portalegre.
Na sala de jantar, que era ao mesmo tempo sala de estar, e onde se passava a maior parte do dia, havia de tudo.
Lembro a cómoda alta, com grandes gavetas arqueadas, na parte inferior, e pequenas gavetas numa espécie de escrivaninha na parte de cima, e que tinha, a meio, uma gavetinha disfarçada, a gaveta do segredo como nós lhe chamávamos.
Havia em cima de uma mesa um rádio, de forma arredondada, com um círculo coberto de tecido fino, que me parecia brilhar, e que vibrava quando as vozes e a música saíam. Punha-me a espreitar por detrás do aparelho para ver o que estava lá dentro e imaginava pessoas minúsculas a mexerem-se.
Havia quadros nas paredes e um velho relógio de pêndulo por cima da cómoda. E uma estante com livros e revistas, ao canto da janela. Do outro lado da sala, três degraus bem encerados eram o princípio de uma escada íngreme que levava ao sótão e à varanda de onde se avistava toda a cidade, com a Serra da Penha de um lado e a Serra de S. Mamede do outro.
Nessa varanda, num Verão inesquecível, li quase toda a colecção dos livros do Emilio Salgari que eram do meu tio e, não sei por qual milagre, um dia fomos descobrir num velho baú do sótão. Lembro-me que o meu pai nos obrigou a deixá-los ao sol horas sem fim porque tinha medo que tivessem estado em contacto com os ratos que habitavam esse entre-forro, como lhe chamávamos.
Na sala, ao centro, estava uma mesa de tampo octogonal, coberta de pesada camilha de fazenda azul escura. À roda da mesa, onde comíamos todos os dias, passava eu horas e horas, nos serões de Inverno, longos e frios, ouvindo o vento soprar lá fora e a chuva bater forte nas vidraças sem cortinas.
Debaixo, a aquecer-nos, ardia uma braseira.
De manhã ia à cozinha ter com a Florinda -que estava lá em casa desde que me lembro-, ver como acendia a braseira. Via-a pôr o picão, que um velhinho vinha, de burro, vender à cidade, em grandes ceiras de palha. Por cima, punha o álcool azul-turquesa a arder, e cobria a primeira chama, e as brasas que se formavam, com umas pratas que tirávamos dos chocolates e dos maços de tabaco do meu pai “para ajudar a pegar o lume”, como ela dizia.
A mesa da sala está ligada à minha infância. Nela, descobri, encantada, os companheiros da vida, os livros...
Foram as três irmãs Brontë, o maravilhoso Charles Dickens e o belo e triste “David Copperfield”, o "Sem Família", de Hactor Mallot, de que lia passagens à Florinda, para a fazer chorar, ou o “Pickwic’s Club” que me fazia rir tanto... Era o Tolstoi da “Guerra e Paz”, o “Vermelho e Negro” e Stendhal, o "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen, "O moinho à beira do rio", de George Elliot, todo o Walter Scott, Wilkie Collins e “A Mulher de Branco” e tantos, tantos outros!
Ali estudava, e às vezes acabava por adormecer, com a cabeça encostada nos braços.
À roda da mesa, a mãe contava-nos histórias sem fim, continuadas de noite para noite, como outras "mil e uma noites": a história dramática da infeliz "duquesa de Brabante", o Nils Olgerson e as suas viagens pela Suécia, e as histórias cómicas que ela tinha inventado de uma Teresa que vinha do campo, para nos divertir, e era ela a primeira a rir até às lágrimas, sem as conseguir contar...
O meu pai, sentado, de costas para a janela, com os livros e os jornais, lia, imperturbável, sublinhava, e escrevia apontamentos em papelinhos que depois dobrava e metia nos bolsos.
Uma vez, lembro-me que eu e a minha irmã mais velha viemos da escola com piolhos. Tornou-se um tormento a hora em que a mãe decidia “limpar-nos” a cabeça. Debaixo do candeeiro de vidrinhos verdes, embrulhadas num grande lençol branco, sofríamos quando ela nos penteava com um pente que arranhava a cabeça, e os nossos protestos não paravam. Até que uma noite, a minha mãe disse, como que espantada:
- Oh! O que eu estou a ver! Está quieta, não te mexas!
Era a vez da minha irmã.
- O que foi, mamã?, perguntou ela, curiosa.
- Não calculam o que eu vejo!...
- Mamã, diga!, perguntei eu.
- Uma piolhinha branca que está deitada na cama, com umas tranças atadas com fitinhas cor-de-rosa!
- Onde, mamã? , continuava a minha irmã.
-Na tua cabeça. Espera... E a mãe veio trazer-lhe bolachas à cama, e mel e leite...
- E que mais, mamã?, insistia, agora imóvel, a minha irmã, pronta a fantasiar ainda mais do que eu, ela que inventara a Lili Viloíno, sua companheira de sonhos...
E a mãe continuava a imaginar coisas para nós.
- Olha, neste canto estão três piolhinhas a fazer uma roda e a cantar. Têm um vestido vermelho às pintinhas...
- E o que vê mais, mamã?
- Não te mexas, se não elas fogem! Vejo...
Quando chegava a minha vez, eu protestava, fugia com a cabeça e não me deixava convencer com aquelas histórias que queria ouvir, mas em que não acreditava. Um dia, a minha mãe zangou-se e não me quis contar mais nada.
- Espera que amanhã já vais ver as piolhinhas!...
O meu pai era médico analista. A minha mãe levou-me, por um braço, ao laboratório. Depois de ver, bem ampliadas no microscópio, as patinhas peludas da "menina piolhinha", voltei para casa e deixei a minha mãe tratar-me da cabeça, em paz...
Mas o momento mais belo do serão era a chegada da avó e das tias! Vinham quase sempre ao bater das nove, nas noites de cinema. O avô acompanhava-as e depois seguia para o Cine-Teatro ver o filme. Passava a buscá-las, à meia-noite. Nessas noites, esperávamos o toque do martelo lá em baixo, na porta. Logo se ouvia a voz da avó, nas escadas, a dizer à Florinda que descera para lhes abrir a porta:
- Está um frio, mulher! Passei a comprar castanhas assadas...
Chegava com o seu casaco preto, a gola de peles e, à volta dos cabelos brancos, uma écharpe lilás que lhe emoldurava o rosto gelado, a cheirar a pó-de-arroz, e a pele macia que nos tocava na face quando nos dava um beijo sonoro.
As tias eram as suas irmãs: a tia Leopoldina, com o seu ar de manequim fora de moda, empertigada e sempre bem vestida, a tia Mariquinhas, a rir por tudo e por nada, na sua ingenuidade boa, e a tia Zézinha, a mais viva, a mais divertida das três, com os seus olhos negros de azeitona a brilharem, prontos para uma provocação.
O meu pai arrumava a pilha de livros e, impaciente, fazia o gesto de se levantar mas, a um olhar da mãe, hesitava e tornava a sentar-se.
- Fico?, perguntava ele com o olhar.
- Sim..., respondiam os olhos da mãe.
Eram sempre as mesmas exclamações de espanto, de alegria. Lá fora chuviscava, mas na sala havia um calor bom que me embalava. O meu pai voltava aos jornais, disfarçadamente, afastando-se para o seu mundo, até as tias o interromperem, lastimando:
- Coitadinho! A trabalhar ainda a esta hora!...
Levantava os olhos do jornal, limpava os óculos, suspirava, dizia duas ou três palavras e voltava a refugiar-se nos papéis. Às vezes, interrompia a conversa quando a tia Zézinha começava as suas histórias, cheias de mistério, de lobishomens e de homens encobertos, histórias picantes e aventurosas, sempre com o seu toque anti-clerical.
- E o padre estava agarrado a ela...
- Oh! Tia Zézinha! Que exagero! Olhe as miúdas!, protestava ele.
- É verdade! Era o padre!...
Nós ríamos mesmo sem perceber. As vozes, as conversas, as novidades da terra, aumentadas por ela e com pormenores vivíssimos, aqueciam-nos.
Era tarde, quando o avô passava. Meio adormecida, com a cabeça sobre um livro, via-as numa espécie de nevoeiro despedirem-se. Soavam as badaladas do relógio, era meia-noite. Depois de saírem, a minha mãe vinha acordar-nos e mandava-nos para a cama.
Saudosos serões da minha infância...

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1. Zinaida Serebryakova, menina a ler
2. rua de Portalegre
3. vista de Portalegre, com a Sé e a Srra da Penha