domingo, 28 de março de 2010

Literatura! O Clã dos Irlandeses: James Joyce, John McGahern e Edna O'Brien

O CLÃ DOS IRLANDESES...









James Joyce, que todos conhecemos bem, nasce em 2 de Fevereiro de 1882, em Dublin, na Irlanda, e morre em 13 de Janeiro de 1941, em Zürich, Suíça.
Os “Dubliner’s” (Gentes de Dublin) é um livro que recordo como qualquer coisa de infinitamente belo e duro simultaneamente (a mesma sensação que me deixou a escritora –irlandesa também- Flannery O’ Connor. “Retrato do Artista quando Jovem” é outro livro sagrado, ligado à minha juventude (como –diferente, mas não tanto- Truman Capote ou Sherwood Anderson) com a mesma ternura.
Fragilidade, crueza, amargura. Realidades humanas do dia a dia, “ditas” cruamente, friamente quase, como a sacudi-las de nós.Fizeram-me chorar muitos contos de Joyce.
Romancista irlandês famoso, autor de Dubliner's e de Portrait of the Artis As Young Man, ficou conhecido também pelo uso experimental da linguagem e pela exploração, chamemos-lhe assim, de novos "métodos" literários em longas obras de ficção, como Ulysses (1922) e Finnegans Wake (1939).
Edna O’Brien talvez a conheçam um pouco menos...

John McGahern conheci-o por acaso, graças a um livro do escritor francês Michel Déon (autor dos inesquecíveis Póneis Selvagens” e de “Taxi Mauve”, este último romance história lindíssima e bem estranha que se passa na Irlanda onde o escritor viveu ( e vive ainda).

Nasceu em Dublin em 1930 e morre em 2006. Descobri “The Barracks”, de McGahern, numa livraria do aeroporto de Lisboa, quando já tinha lido “That they may face the rising sun”.




Na Irlanda, país a que não faltam bons escritores, John McGahern está um pouco àparte. Conhecido melhor, a partir da premiada novela pelo Booker, Amongst Women, McGahern – que morre em 2006 aos 71 anos – escreve com um estilo claro e perceptível, de modo encantador sobre a vida ordinária e o mundo simples do campo.

Hoje queria falar um pouco de uma mulher escritora: Edna O' Brien...
Edna O’Brien nasce em Twamgraney em 15 de Dezembro de 1930, no Condado de Clare, na Irlanda, um lugar que viria a descrever como "ardente", "fechado" e "catastrófico". Foi educada no Convent of Mercy, em Loughrea. Em 1950 acaba o curso de farmacêutica e começa a trabalhar em Dublin num laboratório de análises químicas.


É por essa altura que compra o livro -e lê, entusiasmada- Introducing James Joyce, uma antologia de prosa do escritor, com uma introdução de T.S. Eliot ("a book that taught me more than any other about writing") que, lhe ensinou a escrever, mais do que qualquer outro livro. Nesse ano casa com Ernest Gebler, um escritor judeu, de origem Tcheca .

Estava selado o seu fado de escritora!


A mãe de O'Brien era uma mulher forte, controladora, manipuladora mesmo, que emigrara durante a sua juventude para a América. Trabalhou durante algum tempo como empregada doméstica em Brooklyn, Nova Iorque, junto de uma família irlandesa-americana, antes de regrssar à Irlanda para criar uma família.

Edna é a autora do romance “Country Girls” (1960), livro muito “contestado” logo que sai, pela temática considerada "demasiado livre", sexualmente.


Conta a história de duas jovens que crescem num meio rural, repressivo da Católica Irlanda.

Desde esse momento, escreveu mais de 20 romances ou novelas incluindo In the Forest, história de ficção baseada nos factos verídicos -os assassínios de Cregg Wood - que desencadeiou a ira dos críticos e o recente The Light of Evening, obra semi-autobiográfica sobre uma mãe que parte para New York à procura de nova vida, antes de voltar para a Irlanda, para formar uma família (tal como sua mãe o fez).
Country Girls (1960) é o primeiro livro do que vai ser, pois, uma trilogia (posteriormente recolhidos num volume e publicados como: The Country Girls Trilogy). Incluiu também A Lonely Girl (1962) e Girls in Their Married Bliss (1964).

The Country GirlsQuem são as suas heroínas, as raparigas do campo, que tão mal compreendidas foram no seu país?
Chamavam-se Kate Brady e Baba Brennan. Conhecem-se de pequeninas. Kate e Baba vivem numa terra de província.
Edna pega nelas, na adolescência, acompanha-as pelo colégio, depois por Dublin e pela vida fora, com as suas procuras de outra coisa


Muito diferentes as duas, uma mais frágil, mais profunda, mais sensível e exigente Kate, com os seus lindos olhos verdes; a outra mais vulgar, sem grandes “estados de alma”, prática e egoísta Baba, têm no entanto, a mesma sede de “mudar”, de conhecer outras realidades, ver como é a cidade, enfim descobrir a vida e vivê-la intensamente.

Pouco depois da sua publicação, os livros de Edna são proibidos na Irlanda, nalguns casos queimados mesmo, devido à sua franqueza nos retratos da vida sexual das suas personagens femininas.
De facto, falam, livremente, da realidade da “mulher irlandesa”, da sua repressão, dos seus males, desgraças, lutas pela libertação sexual, ou apenas igualdade etc., o que é muito mal recebido na Irlanda conservadora e puritana dos anos 60.
Mal amados no próprio país, Joyce e Edna.
Joyce nunca mais lá voltaria depois do fogo purificador e “inquisitorial” lhe ter queimado toda a edição dos “Dubliner’s”;  Edna cedo se refugia em Inglaterra, continuando porém a publicar, retomando os mesmos temas.

O romance A Pagan Place, de 1970, fala da infância numa repressiva cidade irlandesa.
Tudo o que se relacionasse com a literatura e a mãe desaprovou sempre a sua carreira de escritora, o que magoou e perturbou Edna.

Em 1981 escreveu uma peça, Virginia, sobre Virginia Woolf que passou primeiro no Canada e depois no West End de Londres no Theatre Royal Haymarket com a conhecida actriz Maggie Smith e dirigida por Robin Phillips.

Anos mais tarde, em 1985, a peça passa no "Public Theater" de New York .
Outros trabalhos notáveis são uma biografia de James Joyce, por quem tem grande admiração, saída em 1999, e outra do poeta Lord Byron, "Byron in Love," em 2009.
Recebeu numerosos prémios pelas suas obras, nomeadamente o Prémio
Kingsley Amis em 1962, e o "Los Angeles Times Book Prize", em 1990, pelo livro Lantern Slides.Em 2006, Edna O' Brien é nomeada Professor Adjunto de Literatura Inglesa, no University College de Dublin.


Em 2009, Edna O’Brien foi homenageada com um Prémio especial para a carreira, o Bob Hughes Lifetime Achievement Award – numa ceremónia importante, a do Prémio Irish Book , em Dublin.
Hoje com 80 anos, a escritora irlandesa, descrita, alternadamente, por Philip Roth como "the most gifted woman now writing in English" e censurada pela Censura do governo irlandês como "uma nódoa sobre as mulheres irlandesas" nada perdeu do seu fôlego.
Ou fogo sagrado...
Diz ela numa entrevista:
"Escrevi Triptych [peça de teatro] numa espécie raiva branca, ou calor frio"(...) "Não sou o tipo de andar atrás de lindezas sociais, mas também não sou pessoa que goste de chocar só pelo prazer de chocar."
Pode ser que sim, mas a verdade é que no decorrer de quase 50 anos de escritura, ganhou a dúbia honra de ser o autor mais "banido" na Irlanda, a seguir ao seu herói, James Joyce, e viveu numa espécie de exílio auto-imposto, em Londres, a maior parte da sua carreira...

(Alguns elementos aqui usados foram encontrados in "Suplemento Sunday", The Independent, 10 de Abril de 2008, artigo de Alice Jones)

A própria Edna fala do perigo que corre o escritor ao dizer a verdade - contra a sociedade repressiva em que vive. Pior, ainda, se for uma mulher!

Escolho algumas frases de uma Conferência que O' Brien pronuncia (em 15 de Maio de 2002, reproduzida pelo New Yorker em 27 de Maio desse mesmo ano).

O título da Conferência é “The Danger Zone” e começa assim:

"Desde o nascer dos tempos, a palavra escrita foi perseguida: cruxificada, decapitada, apedrejada, castrada, queimada, ultrajada, com veemência, intemperança, ~pelo fanatismo/intolerância que viram o justo para supersticioso.

(...)
Desde a alba do conhecimento, os escritores viram-se obrigados a refugiar-se nas trincheiras (“Writers have been in the trenches from the time begining”).

Eurípedes, para mim o maior dos trágicos Gregos, foi expulso de Atenas por volta de 409 AC., sendo o seu crime a impiedosa denúncia do mal existente nos Deuses e no homem. Cortando com as glorificações orquestradas pelo poder da pilhagem e do saque, escreveu sobre a monumental loucura da Guerra de Tróia, supostamente combatida por causa da atracção sensual e total culpabilidade de Helena de Tróia. Fugiu para a Macedónia onde foi devorado pelos cães de caça do rei, às mordeduras dos quais morre.
O perigo pode ocorrer de vários modos: político, religioso, sexual, psicológico e linguístico. A perseguição do pensamento teve precedentes em várias épocas.”

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