domingo, 26 de julho de 2009

Encontro em Londres















Surpresa? Não, não foi surpresa. Eu sabia que ela estava em Londres. Tempos antes, insatisfeita, tinha-me dito que partia à procura de vida melhor. Mantivemo-nos em contacto, mas nunca pensei que fosse possível encontrarmo-nos aqui, mesmo em Trafalgar Square!


Esperava-me sentada nas escadas da St. Martin’s Place e começámos a passear sem destino, de braço dado, como duas velhas amigas, pelas ruas cheias de gente, olhando os prédios, a coluna de Nelson, Picadilly Circus, a National Gallery, os teatros, distraidamente, porque o mais importante era estarmos ali as duas.


Eu, que sou um pouco sorumbática às vezes, perdia-me a rir com tudo o que víamos, os turistas iguais em toda a parte, e até os tiffosi do "Celtic" -a cantar, de cervejas na mão e embrulhados em bandeiras, ridículos- nos divertiam.
Lembrámos coisas do nosso passado comum, das aulas da noite em que eu fui a professora, ela a aluna. Foi uma das maravilhosas pessoas que encontrei nessa altura e tanto me deram: confiança, amizade, o sentimento de ser útil, emprestando-me a juventude, a esperança, dando-lhes a minha experiência, falando-lhes dos mundos que tinha conhecido.

A aula de Francês era a ultima da noite e acabava às onze horas. Conversávamos, líamos, ouvíamo-nos umas às outras, era desse tempo a Karen, a miúda da Guiné que ouvia, ouvia e às vezes erguia o seu protesto ou desatava às gargalhadas, frescas, que nunca esqueço.
A Alexandra ouvia, pouco falava, sonolenta, cansada, depois de um dia de trabalho, e, para o fim, havia um acordo tácito entre nós: ela saía meia hora mais cedo. Entre sorrisos de compreensão, um pouco de sentimento de culpa da parte dela, lá dizia “boa noite” e ia embora. Todas aceitavam.
No fundo, pensava eu, não era mais essa meia hora que lhe iria melhorar o “francês”, mas com certeza que um pouco mais de sono só lhe faria bem.


Agora, anos depois, ríamo-nos disso tudo.
Ela, uma jovem mulher bonita, de olhar directo e sorriso aberto que me esperava, eu, a professora mais velha, contente de a reencontrar e de podermos ver, juntas, coisas belas, de que tanto tinha querido falar com elas nas aulas.
Fomos ao “Café Nero” –italiano, of course o melhor café do mundo...- tomar um “capuccino” com “biscotti”.
Depois, com o Manuel, passámos num “pub” a beber uma half pint de cerveja escocesa, talvez em honra do "Celtic".
E separámo-nos. À espera de nos voltarmos a encontrar outra vez..

sábado, 25 de julho de 2009

Outras histórias: O meu cão e a matilha
























O meu cão era um rapozinho abandonado, rafeiro lindo, de pêlo vermelho, olhar inteligente e doce, com as orelhas macias, caídas quando estava a descansar, ou arrebitadas quando alguma coisa lhe despertava o interesse. Uma vez vi-o ao pé de uma raposa verdadeira e havia um ar de parecença entre os dois. Na fotografia, vejo agora como olha para ela, curioso, e, ao mesmo tempo, sem espanto, como se fosse um encontro natural.
De facto, nada o espantava, o que não quer dizer que aceitasse tudo. Pelo contrário: uma vez, em S. Tomé apareceu-lhe em frente da casa um grupo de cabrinhas selvagens que desciam da rua que levava à Trindade e à Roça do Monte Café. Nessa altura, ainda morávamos perto da Rua Morta e do Água Grande, o rio que atravessa a cidade e, ali perto, debaixo das pontes, ia ter ao mar.

Elas rodearam-no, cheiraram-no, e baliram, contentes. Talvez reconhecessem o cheiro ancestral do cão de guarda, do protector dos rebanhos, ou talvez achassem o seu ar doce um pouco familiar e o aceitassem no grupo. Ele, porém, não apreciou aquelas confusões. Ladrou, ladrou, olhando para mim, indignado, como se me dissesse que não gostava
de tais intimidades... O meu filho encontrara-o, de noite, à porta de um café, no bairro da Giustiniana, em Roma. O café ia fechar e ele esperava que alguém reparasse nele e o quisesse. Trouxe-o para casa, julgava que era um cão pastor (talvez, daí, a confusão das cabrinhas, que o “reconheceram” como tal!).
Pequenino, com o pelo eriçado, tal porco-espinho despenteado, só se viam brilhar os olhos, cor de avelã, interrogativos e confiantes, como sempre foram para mim.
-“Deixa-me ficar..., diziam os seus olhos. Gosto de ti, gosto de vocês, gosto da vossa casa, está quentinha...”, pareciam dizer...
Foi um longo amor, logo à primeira vista.


Ficou. Para sempre, seguindo-nos por toda a parte por onde andámos, viu terras, continentes, com o mesmo ar tranquilo, sem espanto, aceitando, compreendendo. Ficava horas deitado ao meu lado no sofá onde eu lia, em África, esperava-me, à torreira do sol, quando o não levava porque tinha medo que figisse e se perdesse. Éramos bons companheiros.
Uma vez, em S. Tomé, lembro uma história engraçada. Tinham deixado a porta da cerca do jardim aberta, ele não resistia, fugia à procura de uma emoção nova, acho eu. Ouviam-se cães ladrar na rua ao lado e ele correu para lá e foi ver.


Era uma matilha de cães vadios, pobres cães abandonados e com fome, que girava pela cidade ao anoitecer, iam e vinham, ladrando agressivos, e uivando nas noites de lua.
O meu cão não tinha medo de nada e sabia, também, que, ao menor perigo, eu estava lá para o proteger. Provocou-os do fundo da rua, ladrando, até que eles vieram, aproximando-se devagar. Eram muitos, não lhes metia medo aquele cão pequeno, elegante, com seu ar de setter traçado de perdigueiro e de raposa, ainda por cima sozinho.
A tarde caía, na calma dos dias de Gravana que era a estação mais fresca em que eu podia estar no quintal, a ler até mais tarde, porque, nessa altura, os mosquitos não atacavam como na estação das chuvas. E mosquitos, ali, queria dizer paludismo e paludismo era doença má.
A Dáy, a filha da minha cozinheira, andava pelo jardim, gostava de estar por perto, a ver se eu a dava por ela. Sentava-se na erva a contar-me coisas, subia à goiabeira ou ia buscar-me os frutos da caramboleira. Às vezes, punha-se a saltitar num pé só, para me chamar a atenção. Quando eu não lhe ligava, continuando a ler, ia-se embora, amuada, espreitar quem passava na rua.
Lá atrás, na zona da cozinha, ouvia-se a voz da mãe, a Milly, a chamá-la:
- Dáy, Didaiti! Deixa dôtôra em paz e vem-m’ ajudar...!
Ela escusava-se sempre:
- Foi dôtôrra que disse para vir fazer companhia a ela...
Ela adorava o meu cão, gostava de o levar a passear, preso pela trela, ou fazia-lhe festas e trazia-o ao colo. Dessa vez, foi à porta e reapareceu de repente:
- Cão di dôtôrra vai ser comido por cães vadios! São muitos, dôtôrra, e têm fome... Vem a correr!
E eu corri, num desespero, até à esquina. Ele ladrava, firme, nuns ladridos agudos e, de vez em quando, olhava para trás, estranhando que eu não viesse. Foi por um triz, pois os cães, vendo-o desamparado, tinham-se aproximado, sem medo. Gritei, a chamá-lo, num berro enorme, que, por sorte, os assustou. Fugiram, rosnando baixo, em direcção à praia.
Ele fez ainda uns ruídos de garganta, aliviado, e fugindo para mim, roçando-se na saia como se dissesse:
- “Onde estavas? Desta vez, nunca mais vinhas...”
Peguei-lhe ao colo e levei-o para casa.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Histórias da casa amarela: "O Garruda"






Na minha rua havia uma taberna. A dona da taberna vinha espreitar cá fora, de avental aos quadradinhos empinado na barriga enorme, cabelos mal frisados e um grande sorriso. Via-a quando ia para a escola.
Lá estava ela, à ombreira da porta, afastando com a vassoura as franjas metálicas, que se usavam para não deixar entrar as moscas, e faziam um barulho estranho. Punha-se também a enxotar as galinhas que vinham para a rua, e cacarejavam de asas abertas. Mas o que ela gostava era de ver quem passava, ou dar conversa à vizinha da frente, a D. Mariana, uma senhora gorda e simpática, que se apoiava com os cotovelos no parapeito da janela e que tinha um filho aviador.
- Então, dona Mariana, o seu filho já por aí passou hoje?
E apontava para o céu, com a mão livre.
- Não, hoje ainda não o ouvi...
Enquanto agitava a vassoura, fingindo limpar o passeio, olhando para os dois lados, a mulher dizia, convencida:
- Bem me parecia. Mas como estou sempre lá para dentro, não oiço nada... Perco muita coisa do que se passa...
O filho da dona Mariana voava, certos dias, sobre a cidade. Via o avião descer, fazer um voo rasante acima da nossa rua, para a mãe saber que ele ia ali. E ela vinha à janela, tapava os olhos por causa do sol e às vezes, agitava a mão, quando ninguém estava a olhar. Eu também corria, assim que ouvia o roncar do aparelho e via-o ainda subir, pontinho preto a desaparecer, de repente, lá no alto.
Um dia falou-se na rua que o filho tivera um acidente e, na nossa casa, a Florinda que voltara do mercado, contava:
- Ai, meninas! Disseram que ficou com a pele da cabeça toda arrancada para trás, mas que depois no hospital voltaram a pôr-lha!
E olhava para nós com olhos arregalados, para nos assustar.
Eu imaginei logo um escalpe, como vira os índios fazer nos filmes do Oeste que passavam no Cine-Parque, no Verão.
Nunca se soube ao certo o que acontecera ao filho aviador da D. Mariana.
A dona da taberna continuava à porta, todos os dias. Tinha um dente dourado e dizia-me, com um sorriso que eu achava horrível:
- Olá, menina, onde vai?
Eu respondia baixinho, quase a medo:
- Vou à escola.
Vinha de dentro um cheiro a vinho azedo e a aguardente e ouviam-se gargalhadas dos homens que, desde manhã, ali estavam, a jogar às cartas, a falar da vida e a beber. Eu atravessava para o outro lado da rua porque o cheiro me enjoava e me sentia mal.

Da janela, via sair o “Garruda” da taberna. Era um homem sem idade, barba por fazer, vestido com um velho fato sem forma e um cachecol com uma ponta deitada para trás. Vinha sempre bêbedo e eu tinha medo dele.
Passava em frente da minha casa e recordo ainda a sua voz, grossa e aos soluços e vejo a dificuldade que tinha em manter o equilíbrio.
Ia a tropeçar até ao fim da rua, trocando as pernas, endireitando-se de repente, invectivando tudo e todos. Apontava para o céu enquanto falava ou esticava o dedo para os passantes que fingiam ignorá-lo ou se riam dele. O chapéu caía-lhe para um dos lados da cabeça e ele tentava pô-lo direito. Quando havia alguém à janela, tirava o chapéu, num cumprimento.
Eu, quando o ouvia, ia espreitá-lo. Largava as bonecas ou os jogos e via-o -da janela mais alta, pois não era capaz de o ver das janelas cá de baixo.
Nessas alturas, quando ele passava, fugia ou escondia-me detrás das cortinas para ele não me ver.
Ilustrações:
Paul Cézanne, a casa
Paul Céanne, a menina e a boneca
Paul Cézanne, homens a jogar às cartas
Klee, pássaros

terça-feira, 21 de julho de 2009

Sherlock Holmes e o Doutor Watson em Baker Street














Sherlock Holmes e o Doutor John H. Watson, segundo a "história", viveram no número 221b de Baker Street, em Londres, entre 1881 e 1904. O herói criado por Sir Conan Doyle (ver Sir Arthur Conan Doyle) deveria ter habitado nessa casa... que, de facto, nunca existiu.
O actual Museu Sherlock Holmes (ver Sherlock Holmes), -que tem o (falso)número 221b- fica entre os números 237 e 239 da mesma rua e é, hoje em dia, o único prédio de estilo vitoriano que existe na rua. Foi feita uma reconstrução de como teria sido (se fosse) a sala de entrada do célebre detective e imensas recordações dos livros e dos filmes decoram as várias salas do museu.
A casa, que mantém o desenho e o aspecto dos tempos vitorianos, foi pela última vez usada como pensão de família em 1936 e o famoso estúdio do 1º andar com vista sobre Baker Street continua a fascinar quem o procura.
Ali, quantas vezes Sherlock Holmes, com o cachimbo na mão, afastando ao de leve as cortinas, via chegar -outras vezes hesitar e outras mesmo desistir- as pessoas que lhe vinham pedir ajuda! E nós começávamos a viver, logo nesse momento, com ele, essas aventuras.
Da janela, ia explicando ao Doutor Watson o que se passava, adivinhando pela observação, pelos pormenores, pelo vestuário, quem eram, de onde vinham, porque hesitavam, porque iriam voltar. Sublinho "adivinhando", pois era, sim, o "método" de Holmes a funcionar e, não, uma qualquer adivinha.
Vou falar-vos de "A Study in Scarlet" que é a primeira história, publicada em 1887, onde aparece esboçado o carácter de Sherlock Holmes, mais tarde um dos mais famosos detectives -e símbolo- da literatura policial que despertou, ao longo dos tempos, a mesma curiosidade e entusiasmo. Ele, o Doutor Watson e o inimigo, o pérfido Professor Moriarty.
O título do livro deriva de uma conversa de Holmes com o seu amigo Watson (Doctor Watson) sobre natureza do seu trabalho -durante a qual descreve a investigação de um assassínio como "um estudo em escarlate": "Há sempre, diz ele, o fio de linha escarlate do crime que corre debaixo do cinzento novelo [skein] da vida, e o nosso dever é descobri-lo, revelá-lo, isolá-lo, e expor todos os pedaços que o compõem"."
Sir Arthur Conan Doyle escreveu esta história com 27 anos. Exercia, nessa altura, medicina em Southsea, England, e já tinha publicado algumas short stories em revistas do seu tempo. A história intitulara-se, inicialmente, "A Tangled Skein" ("Uma meada enredada"), e acabara por ser publicada pela Ward Lock & Co, no "Beeton's Christmas Annual", de 1887, depois de várias outras recusas.
O Doutor Watson é o narrador das histórias que "teria vivido" com Holmes.
Nesse livro, A Study in Scarlet Watson descreve o seu encontro com Holmes, na pensão de 221B Baker Street, e a sua tentativa de descobrir a profissão do seu taciturno companheiro de alojamento. Faz um retrato de Holmes e de como conseguiu levá-lo a confiar nele. E Holmes revela-lhe o seu método de trabalho, em pormenor.
Qual método, afinal? O uso da observação, do raciocínio dedutivo, da inferência (a partir de determinadas premissas, chegar à conclusão e à consequência lógicas, o que não falha nunc em Sherlock Holmes
Vai contar, em seguida, os acontecimentos ligados a esse primeiro "caso", que vão resolver juntos, mas ...de um modo demasiadamente romântico e sentimental, para o gosto de Sherlock Holmes, que está sempre a insistir nisso...
A partir de aí ficam amigos inseparáveis.
De facto, o Doutor Watson é o amigo compreensivo, que nunca critica e sempre ampara nos momentos de maior depressão, melancolia, quando se ouvem as notas tristíssimas do violino, aqueles em que Sherlock Holmes recorre ao ópio para conseguir sobreviver, enquanto não "surja" um caso que o "salve".
Recordo os vários filmes que se fizeram sobre os livros de Conan Doyle (sobre o qual se fizeram mais filmes do que sobre qualquer outra personagem de livros, no mundo!) e as séries televisivas, das quais assinalo a última -pelo grande cuidado na recriação do ambientes, da época, e na direcção dos actores, actores inesquecíveis e de uma qualidade de representação fora do comum.
Neles, Jeremy Brett assume de tal modo a figura de Sherlock que a sua vida é completamente transtornada, pela droga, alterada pela depressão.
Seu companheiro de aventuras, David Burke, actor inglês nascido em 194 em Liverpool, é o suave Doutor Watson.
The Adventures of Sherlock Holmes foi o nome dado à série -adaptações produzidas pela Companhia Granada Television entre 1984 e 1994, em que Jeremy Brett representa o famoso detective, uma representação que muitos consideram a versão definitiva da figura de Sherlock Holmes no écran.
Brett uma vez explicou que "certos actores são mutáveis ('becomers')" -pela plasticidade e desejo de se "tornarem" no outro, no carácter que vão representar. Daí, continua ele, que (...)" quando isso funciona, o actor é como uma esponja que se espreme para deitar fora a sua própria personalidade e absorver totalmente os caracteres, como um líquido".
A sua preocupação -obsessão...- era trazer mais paixão para o papel de Holmes e, de facto, acrescentou à personagem certos gestos quase excêntricos da mão, e a gargalhada brusca e agressiva: "Ha!", que o torna inegualável.
Era capaz de se deitar no chão para observar uma pègada, ou uma qualquer impressão no terreno. Era capaz de se pôr em pé num móvel, num sofá, de repente, ou saltar para o parapeito de uma ponte, mesmo que isso pudesse implicar uma queda, ou perigo de vida.
Por outro lado, a personalidade doentia, obsessiva e depressiva de Holmes asustava-o e atraía-o simultaneamente. A personalidade de ambos era semelhante em muitas coisas, desde o rebentar de uma paixão, ou de uma descoberta, que o levava a um excesso de energia e de entusiasmo para, logo, passar a longos períodos de letargia e de desinteresse total.
Passou a sonhar com Holmes, a ter pesadelos a não conseguir libertar-se "dele". Ele, Holmes, 'you know who', ou apenas "him", era como ele se referia à personagem.
E dizia:
"Watson refere-se a 'you know who' como se ele fosse um espírito, um ser sem coração, o que é muito difícil de representar. O que eu fiz, foi 'inventar-lhe' uma vida interior".
E, assim, fez... Deu-lhe isso - a tal vida interior- que podemos descobrir, se quisermos, na personagem de Conan Doyle. Isso Jeremy Brett fez-nos sentir...
Viveu tão intensamente essa 'vida interior' que adoeceu, entrou numa depressão profunda, em consequência da qual vem a morrer em 12 de Setembro de 1995, esgotado, com um ataque de coração.
Para mim, este é o "verdadeiro" Sherlock Holmes!
Nota sobre a morte de Jeremy Brett:
Mel Gussow wrote in a New York Times obituary:
"Mr. Brett was regarded as the quintessential Holmes: breathtakingly analytical, given to outrageous disguises and the blackest moods and relentless in his enthusiasm for solving the most intricate crimes."

domingo, 19 de julho de 2009

Histórias da casa amarela: o meu Rossio
















Pela rua dos Canastreiros abaixo, a minha rua, saindo à esquerda, descendo sempre, ia-se dar ao Rossio.
O Rossio, o Passeio Público, onde, nas noites de Verão abafadas, quando o vento soão nos secava pele, íamos à procura do fresco debaixo das árvores do jardim.
Logo à entrada, depois de um largo, havia o plátano centenário que nos esperava com os troncos grandes como braços, as folhas com o desenho de mão aberta e as grandes bagas verde-amareladas, cheias de picos, que eu apanhava do chão para brincar.

Creio que uma vez por mês havia um mercado de queijos debaixo do plátano e, no Verão, vinham das aldeias vender melancias vermelhas ou rosadas, com as pevides pretas, que eu abria com os dentes para comer a sementinha branca.
Umas vezes era a Florinda e a Rosalina que nos acompanhavam, outras vezes, a minha avó e a tia Leopoldina. Os meus pais ficavam com a mais pequenina em casa, a ouvir música, com as janelas abertas para fazer um pouco de corrente de ar. Outras vezes, iam ao Cinema, na esplanada do Cine-Parque.
O Rossio era um terreiro amplo, que ia subindo, com árvores dos dois lados, canteiros de flores e bancos de pedra corridos, onde nos sentávamos.
A meio, ficava o coreto, de formas elegantes, que eu achava lindíssimo. Recordo as noites de domingo em que a banda vinha, de Verão, tocar. Os instrumentos brilhavam e os músicos, nas suas fardas azuis, limpavam o suor com grandes lenços, nos intervalos.
Um pouco mais adiante, havia um cedro enorme, de rama cerrada, por debaixo do qual, alguns anos mais tarde, apareceu uma esplanada com mesas e cadeiras de ferro pintadas de branco.
Costumávamos sentar-nos, então, com os meus pais, e bebíamos refrescos de groselha bem vermelha ou limonadas. O meu pai e a minha mãe gostavam de ficar até tarde, a tomar café e a conversar com os amigos. Eu adorava essas noites, gostava de os ouvir falar, parecia-me que aprendia coisas novas. Jogávamos às cartas, ao jogo dos palitos chineses, com fósforos, e lembro-me da atenção que tinha, ao pôr os dedos bem esticados, para não fazer tombar o monte de fósforos. Mas isso foi muito mais tarde, já eu era adolescente e não brincava no Rossio.
Ao cimo do jardim, ficava uma cascata, na zona que se chamava Caganita, cheia de pedrinhas e de plantas de folha pequenina, por onde a água escorria, e só o vê-la, refrescava no calor da noite.
A minha avó, quando vinha, sentava-se num banco, muito direita, a conversar com a tia ou com outras senhoras, ou, apenas, calada a olhar.
A minha irmã e eu corríamos o terreiro, para cima e para baixo, tirávamos flores, jogávamos ao “agarra”, à “cabra-cega”, ao “macaco”, porque havia sempre meninas da nossa idade que iam com as mães ou avós passear ao Rossio.
Lembro-me de uma história. Nela está a minha avó tal como era, com um grande coração, mas possessiva, com sentimento de protecção em relação a nós, como se fôssemos gatinhos pequenos, indefesos.
Uma noite, um miúdo, na brincadeira, deu um empurrão à minha irmã mais velha, ela caiu e magoou-se. Foi chorar para o pé da avó que ficou furiosa. Consolou-a com uns rebuçados que trazia sempre na mala, e não disse nada ao rapazito. Passado um bocado, chamou-o, com voz suave.
- Vem cá, meu menino. Queres um rebuçadinho também?
Ele foi, talvez um pouco receoso, pois devia ter a consciência intranquila, mas, ao mesmo tempo, guloso, não soube resistir aos rebuçados. A minha avó pegou-lhe na mão, sorriu, meteu-lhe um rebuçado na mão mas segurou-lhe o dedo mendinho e apertou-o com tanta força que eu vi que ele fez um esforço para não gritar.
Olhando para o fundo do Rossio, eu via a cidade branca, por cima do plátano, no escurecer da noite: a Sé, os pinheiros, a estrada para a Penha e um pouco do castelo nas nuvens e os campos a perder de vista. Respirava fundo, feliz, e corria a rincar com a minha irmã.
Por vezes, no regresso com a Florinda e a Rosalina, cansadíssimas já, a minha irmã que nunca estava contente ao voltar,antecipava-se a nós, abria o postigo da porta, metia a mãozinha pequena pela abertura e abria o fecho da porta. Depois, fechava a janelinha do postigo e batia com a porta. Ninguém podia entrar pois não levávamos chave.
Escolhia as noites em que os meus pais estavam no Cine-Parque, ou tinham ficado no café até mais tarde, e restava-nos ficar sentadas nos degraus da casa em frente, ensonadas, encostadas ao ombro da Florinda, ou no colo da Rosalina à espera que eles voltassem e nos abrissem a porta.
Eram assim os nossos passeios, nas noites quentes de Verão, no Rossio.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Uma vista de olhos pela pintura russa: Zinaida Serebriakova (1884-1967)


Hoje vou falar-vos de um mundo maravilhoso, que eu desconhecia: o da pintura impressionista e post-impressionista, na Rússia.
Para começar, apresento-vos Zinaida Yevgenyevna Serebriakova nascida em 10 de Dezembro de 1884 e que morreu em 19 de Setembro de 1967 e foi a primeira mulher pintora, russa que se distinguiu.
Nasceu perto de Kharkov (hoje, Kharkiv, na Ucrânia) numa família ligada às artes, a família de artistas Benois.
O avô, Nicholas Benois, fora um grande arquitecto, director da Sociedade dos Arquitectos e membro da Academia Russa das Ciências. O tio, Alexandre Benois, foi um pintor famoso, fundador do grupo de arte Mir Iskusstva (1). O pai, Yevegeny Nicolayevitch Lanceray, foi um escultor famoso, e a mãe, que era irmã de Alexandre Benois, era uma boa desenhadora. O irmão, Nicolay Yevgenyevitch Lanceray foi um arquitacto talentoso e o outro irmão, Yevgeny Yevgenyevitch Lanceray teve um lugar importante na arte da Rússia soviética, como autor de pintura monumental, e arte gráfica.
Peter Ustinov, o grande actor, também escritor, estava ligado à família dela.

Desde a juventude, Zinaida Serebriakova lutou para mostrar o seu amor pelo mundo e revelar a sua beleza. Os seus primeiros trabalhos, (por exemplo, Country Girl 1906, Russian Museum) falam, eloquentemente da sua procura, e da sua aguda percepção, da beleza da terra e das gentes russas. Estes estudos, inspirados pela natureza, já na juventude mostram o seu extraordinário talento, confiança em si, e força.


Em 1900 acaba o curso e entra para a Escola de Arte fundada pela Princesa M. K. Tenisheva. Estuda com o grande pintor Repin in 1901, depois entre 1903 e 1905, com o retratista Braz.
De 1902–1903 estuda em Itália, e de 1905–1906 estuda em Paris. Em 1905, Zinaida Lanceray casa com o primo, Boris Serebriakov, e adopta o seu apelido.
O reconhecimento público chega exactamente com o "Auto-retrato em frente do toucador” (1909, Tretyakov Gallery), apresentado pela 1ª vez numa grande exposição organizada pela União dos Artistas Russos, em 1910.
A esse segue-se Girl Bathing (1911, Russian Museum), e um retrato de Ye.K. Lanceray (1911, colecção particular)), trabalhos já precocemente maduros e sóbrios na composição.
Juntou-se ao movimento Mir Iskusstva, em 1911, mas afasta-se dos outros membros devido à sua preferência pelos temas populares e pela harmonia e plasticidade das suas pinturas.
De 1914–1917, Zinaida Serebriakova está no apogeu. Pinta quadros baseados em temas da vida rural russa, o trabalho dos camponeses, as paisagens da Rússia: Camponeses (1914–1915, Russian Museum), ou "A Seara" que, abaixo, reproduzo.
A mais importante dessas obras de tema rural russo é, talvez, Bleaching Cloth -"A corar a roupa" (1917, Tretyakov Gallery), que revelou o seu talento como artista “monumental”. As figuras das camponesas a pôr a roupa ao sol, contra o céu baixo, têm uma enorme força.
Quando, em 1916, Alexander Benois decorou a estação de comboio Kazan Railway Station (see) em Moscow, convidou-a, entre outros artistas, para o ajudar.
Serebriakova escolheu o tema do Oriente: Índia, China, Japão, Turquia e Sião que são alegoricamente representadas por lindas figuras de mulher. Começou, por essa altura, composições baseadas em temas mitológicos, que ficaram inacabadas.

Foi o que descobri sobre esta pintora que vos quis trazer.
A mim, deslumbrou-me a força de vida, a delicadeza, a beleza das ds traços, as composições e, sobretudo, impressionou-me o tal auto-retrato que vi na Tretyakov Gallery, em Moscovo. E os retratos dos filhos, a fazer um castelo de cartas, ou a comer. E, também, muito diferente, a imponência aliada à suavidade das mulheres a estender a roupa.
De repente, não conseguia olhar para mais nada: a harmonia, as cores, a sobriedade do requinte dos enfeites, o olhar directo e puro que nos defronta, no seu retrato, com um meio sorriso irónico e doce, é fantástico.
Não vi a "Menina a ler", mas acho que é de uma simplicidade fantástica.

Aqui vos deixo uma "pista"!
Podem sempre procurar na internet (há imensos blogs e sites sobre ela, o que eu ignorava, confesso...), ou nos livros de pintura ou... em museus de Moscovo!
1. Mir Iskusstva ou, "Mundo da Arte” foi um movimento artístico que floresceu na Rússia no início do século XX. Reuniu artistas de vários campo, desde a música, à literatura, dança, teatro e artes visuais que partilhavam ideias e inspirações ligadas à "arte pela arte" que aspiravam a criar uma arte russa paralela à da Europa Ocidental.
2. Zinaida Serebriakova, "figura de mulher em arlequim"
3. Z. Serebriakova, "rapariga do campo"
4. Z. Serebriakova, "paisagem russa"
5. Serebriakova, "auto-retrato frente ao toucador"
6. Serebriakova, "A Seara"
7. Serebriakova, "retrato dos filhos, à mesa"


segunda-feira, 13 de julho de 2009

histórias policiais: "Os Olhos de Jade", de Maria João Falcão


Mary Cassatt, chá para duas


CAPÍTULO 1

Numa tarde de fim de Outono, quatro mulheres conversam, numa casa perdida na província inglesa, entre Arundel e Brighton.
-Alguma de vocês já pensou em matar?
Fora Joan, a mais nova, quem falara. Trinta anos, alta e elegante, cabelos escuros cortados à altura dos ombros, camisola de gola alta beige, saia preta que lhe descia até meio da perna e botas altas.
Estava sentada num banco de couro, baixo, ao lado do sofá forrado de linho inglês, com flores em tons de cinzento e amarelo dourado, onde as outras duas, mais velhas, a fitavam sem compreender. A quarta, quase da sua idade, aninhavava-se num maple, cruzando as pernas bem feitas, e olhava em volta com ar irónico, não parecendo levar a sério o que ela dissera. Pousado na pequena mesa redonda em frente, um tabuleiro de madeira clara com o bule de chá de prata, quatro chávenas de porcelana com flores vermelhas e um prato de scones. O lume crepitava na ampla lareira de mármore.
Helen, no seu canto do sofá, exclamou.
-Matar? Eu?! Quem?!
E continuou:
-Bem. Acho que já pensámos: “Oh! aquela peste não merece viver! Era capaz de a matar
Riu, constrangida:
-Olha, o Rudolph... Quantas vezes já me apeteceu matá-lo! Agarrado àquela estúpida da Sally! Porque ela é nova...
-Deixa-o, já tem o que merece... –disse Joan.
E, a sorrir:
-Sabemos que não eras capaz de lhe tocar num cabelo. Dos poucos que tem...
Depois, séria:
-Não, tia Helen, não brincava, falei a sério.
Helen tentou interrompê-la, mas Joan insistiu, abanando a cabeça:
-Eu dizia matar mesmo!...
Hesitou e olhou-as devagar.
-A-ssa-ssí-nio!, soletrou. Planear a morte de alguém e realizá-lo. Nos últimos dias tenho-me interrogado se seria capaz... E cheguei à conclusão que sim.
As outras entreolharam-se, pouco à vontade.
-Pensas que eras capaz de matar? Tinhas que ter uma razão muito forte, acho e...
Helen hesitava, observando-a com atenção:
-Conhecendo-te, como te conheço... Talvez para defenderes alguém...
Tinham-se reunido, naquela tarde cinzenta, depois de longa separação. Joan tinha vivido a infância em África. Quando o pai os deixara, teria uns doze anos, viera para Inglaterra com a mãe e o irmão, Michael, mais novo do que ela. Depois, estudara Antropologia em Brighton e, terminado o curso, fora para os USA. Dali, voltara a África, onde trabalhava. Regressara à casa no Sussex, dias antes, quando soube da morte da mãe, ocorrida repentinamente e em circunstâncias que considerava estranhas.
Helen e Emily eram irmãs, velhas amigas de Abigail, mãe de Joan. Alice, a terceira amiga, conhecera Abigail na Universidade, onde fora sua aluna. Tinham vindo fazer-lhe companhia.
-Se eu era capaz de matar? Para defender alguém que corresse perigo?! Num momento de raiva? Deixa-me pensar... Não sei, sinceramente não sei...
Era Alice quem falava, agora, sacudindo os cabelos louros, lisos e muito curtos que lhe davam um ar de rapaz. Pequena e magra, tinha olhos cor de avelã, curiosos e inteligentes. Abanou várias vezes a cabeça, como se estivesse a medir o que dizia, agitou a mão e a cinza do cigarro espalhou-se pela saia cinzenta de bom corte.
-Claro que “nós” todas só mataríamos por uma causa justa, não é assim? Somos pessoas normais, bem formadas...
E o seu olhar vivo interrogava-as, divertido.
-Talvez não fosse bem isso, Alice...
Joan levantou-se, pegou no bule e começou a servir o chá. Depois, pousou-o e ficou a olhar pela a janela, de olhar perdido, com a chávena na mão. Via a fileira de árvores de troncos esbranquiçados e a folhagem vermelha que começara a cair, e disse, melancólica:
-Anoitece tão cedo...
Virou-se e continuou, dura:
-Não, Alice, é diferente, se calhar não me expliquei bem. A minha mãe morreu, e se eu estou aqui a falar de assassínio com vocês não é por acaso...

Falava, acentuando com força a palavra assassínio, enquanto as olhava uma a uma.
-Sim, assassínio a frio! Como nos livros...
-Mas porquê, Joan? -perguntou Helen.
-Porquê? Porque penso que a morte dela não foi acidental.
Insistia, martelando as palavras, quase com raiva.
-Percebem?! Tinha de vos dizer isto, não podia guardar para mim os pensamentos horríveis que me têm girado na cabeça. Desabafei, finalmente...
Olhou-as, calmamente, e continuou:
-A morte dela foi premeditada! Mataram-na.
Helen interrompeu-a, bruscamente:
-Premeditada? Assassínio... O que significa esse palavreado todo? Estás doida, Joan?
Helen reagia, com veemência. Continuou, num protesto:
-Oh! meu Deus!
Emily, que estivera calada a ouvir, metia-se agora na conversa:
-Assassínio como nos livros, dizes tu, minha querida? Tu pensas que a tua mãe, que a Abigail foi...
Fisicamente era o contrário de Helen e ninguém as julgaria irmãs. No vestido de lã mohair verde-marinho, que fazia ressaltar a brancura da pele, todo o corpo pequeno, suave e cheio, se movia. Médica, escolhera viver sozinha e as suas preocupações resumiam-se aos doentes e ao hospital.
-Falas assim porque a tua mãe morreu de repente, não é?...
Os olhos faiscavam e o verde límpido escurecia, quase violeta. Inclinou-se para a mesa, pegou numa chávena e continuou, sem olhar para Joan, concentrando-se no que fazia:
-Foi uma morte inesperada, é certo. Estranha, sim, talvez por isso mesmo. Ficaste chocada, entendo-te perfeitamente! Mas pensares isso!
-Sim, Emily, é o que eu penso!
-A que propósito? E dizes que és capaz de matar, tu? Oh! Não, Joan!
As mãos brancas, cheias de anéis, tremiam, afastando o cabelo ruivo da cara.
-Então... seria melhor “caça ao assassino”! Oh! meu Deus! O que é que eu estou para aqui a dizer?...
Os olhos fixavam ansiosamente as outras duas, como se esperasse uma palavra de apoio. Foi Joan quem voltou a falar:
-Sim, tens razão, talvez fosse melhor dizer "caça ao assassino"... Porque eu sei que a minha mãe foi assassinada e vou procurá-lo... Só sei que a morte dela não foi natural!
-Intuição...? -continuou Emily.
-É mais do que isso, é suspeita! Ela era saudável. Tinha tanta vontade de viver!
-Mas isso não basta!, exclamou Emily. Morre-se...
Joan continuava, numa excitação crescente:
-Mas "ela" foi morta!
-Acaba com isso, Joan! Domina-te!
Helen interrompera-a, num tom irritado.
-Até me arrepia ouvir-te falar assim, Joan! Deixa-te de histerias!
-Foi possível! Aconteceu...
-Como é que podes pensar isso?!
Emily voltou a falar, com um ar preocupado:
-E o que tencionas fazer, Joan?...
-Cala-te, Emily! Pareces parva tu também! Fazer, fazer o quê?!
-Deixa-a falar, tia Helen, ela está a perceber-me... Fazer o quê? Nada, por enquanto. Espero que o Michael chegue... Já lhe falei na minha suspeita, ele acredita em mim, pensa que posso ter razão. Há-de saber o que vamos fazer... Soube sempre, desde miúdo!
-O teu irmão vem aí? Não nos tinhas dito nada...
Helen sentia um certo alívio por poder falar de outra coisa.
-Sim, no fim de semana está cá...
-Claro, é normal que venha... Depois do que aconteceu.
Calou-se, com o olhar carregado de melancolia. Teria gostado de ter filhos, mas Rudolph nunca quisera. No fim e ao cabo, os filhos de Abigail eram um bocadinho os seus filhos, pensava.
-Não o vejo há tantos anos... Com quem é que ele se parece?...
-Cresceu muito, emagreceu. Tem os cabelos da mãe, acho que se parece com ela.
- E onde vive? O que faz?... isso...
-É jornalista, faz reportagens para uma revista de automóveis. Viaja muito, às vezes também participa em corridas, semi-profissional, claro. Esteve no Brasil, andou pela América do Sul. Agora fixou-se em Amesterdão.
Sorria, ao lembrar-se do irmão. Quase esquecera a fúria com que antes falara.
-Tem a mania que é um duro. Mas não é, eu conheço-o bem... É, apenas, um solitário e defende-se.
-Como é que pode ser um duro? , disse Helen.
Continuava a sorrir. Joan apontou para a mesa:
-Está arrefecer o chá...
Helen era a mais velha amiga de Abigail. Tinham-se conhecido no liceu, tinham sido como irmãs. Emily era mais nova, nunca tivera a mesma relação de amizade e de cumplicidade.
-“Não se comparava!” -pensou.
Nem agora podia sentir o mesmo que ela. Ficou a olhar para a boquilha de âmbar que lhe tremia nos dedos morenos. Era uma mulher alta, usava os cabelos, negros e lisos, penteados para trás e os olhos eram escuros. Voltavam-lhe à memória tantas recordações. Sorriu e continuou, falando devagar:
-Tínhamos dezassete anos eu e a tua mãe, éramos inseparáveis. Até o David chegar, claro. Depois... Bem, depois ele chegou, levou-a e nunca mais nos vimos. Voltámos a encontrar-nos muitos anos mais tarde, a Abigail já estava sozinha e eu tinha casado com o Rudolph.
E, como se recordasse:
-A amizade tinha continuado como se nunca nos tivéssemos separado. Acho que isto só acontece com raras pessoas. Sintonia? Quando nos vimos, recomeçámos a conversa...
Apagara o cigarro. Pousou a boquilha e pegou na chávena. Mexia, maquinalmente, o chá sem tirar os olhos do movimento da colher.
Capítulo 2

-Tens razão, Joan, deixámos arrefecer o chá...
-Deixa-te disso, Helen! És uma sentimentalona! E não estejas a mudar de assunto! A Joan pediu-nos ajuda...
Alice levantara-se e protestava, impaciente, quase agressiva. Foi à janela, limpou com a mão os vidros embaciados pela humidade. Depois virou-se para elas:
-Pensam que sou rica e fútil... E insensível. Não é?
Continuou, dirigindo-se a Joan:
-Estive a ouvir-te com toda a atenção, Joan. Acho que fizeste bem em falar connosco do que pensaste - e que é terrível! E, nós, não podemos fazer como a avestruz.
-O que queres dizer com isso da avestruz? Também tu?!
Helen parecia contrariada. No fundo desejara que a conversa acabasse. Mas Alice prosseguiu, sem lhe dar atenção:
-Não podemos fingir que não percebemos e mudar de assunto! Era demasiado fácil...
Hesitou um pouco:
-A verdade é que o ambiente que se “vivia” aqui nos dias que precederam a morte da tua mãe era bastante estranho. Até aquele jantar não foi nada normal...Vocês não se lembram? Foi poucos dias antes de ela morrer...
Emily e Helen entreolharam-se mas ficaram caladas.
-Não se lembram?! Ela não estava natural. Não era a Abigail do costume, calma e controlada. Estava agitadíssima. Insinuou coisas que não entendi, nem percebi por que razão as dizia. Parecia uma ameaça velada...
-Uma ameaça? A quem?...
Joan olhava-a com atenção.
-Não sei! Havia muita gente que entrava e saía. Estávamos sempre a encontrar-nos a toda a hora, não era habitual... E, de repente, soubemos da morte dela. Assim... inesperada...
-Era o paludismo... Ao jantar, já não se sentia bem...
Emily falara, absorta.
-Paludismo? Quem disse isso? A mãe vivia com o paludismo dela há anos! Morrer de paludismo?! Que estupidez! Bastava tratar-se. Foi envenenada, pura e simplesmente! Envenenada, percebem?!
Joan levantara a voz, estridente, mas Emily respondeu-lhe, pausadamente, acentuando bem as sílabas:
-Tem calma, Joan. “Quem disse?”, perguntas tu, -foi o médico dela, o Dr. Smith! A tua mãe tinha muitas crises. Costumava falar de “sezões”... Tremores, febre alta...
Emily agarrava-se àquelas frases, palavra dita atrás de palavra, como se desse modo pudesse alterar o que Joan dissera.
-... são sintomas de paludismo, sou médica...
E acrescentou, mais baixo, hesitante:
-Mas reconheço que podem ser de outra coisa...
-Vês, Emily, até tu concordas! Alguém se aproveitou da doença da mãe para encobrir o crime... O Zurigo também não acredita!
-O Zurigo? -perguntou Helen.
-Sim. O nosso guarda, que veio connosco de África e sempre viveu aqui. Quando cheguei, abraçou-se a mim e só me disse: “A senhora tinha medo e eu deixei-a morrer sozinha.”
-Medo? O que quer ele dizer com isso?...
Helen olhava-a, espantada. Joan continuou, sem lhe responder:
-Quando lhe falo na morte da minha mãe, afasta o olhar e não diz nada. Por que é que me disse que “ela tinha medo”? E que a “deixou morrer”? Penso e torno a pensar e não percebo.
Alice, que a escutara atentamente, abanava a cabeça.
-Também não percebo...
-Tenho a certeza de que ele sabe coisas! Sente-se culpado por não ter feito nada para impedir que a mãe morresse. E não é só isso... Há também a carta!
-Qual carta? -perguntou Helen, com o mesmo ar de espanto.
-A mãe escreveu-me uma carta, antes de morrer.
-E o que é que dizia de especial?
Helen falava, agora, em sobressalto, quase a medo.
-Falava duns papéis do meu pai. Espera, vou ler, tenho-a aqui no bolso.
E tirou um papel dobrado várias vezes.
-Está toda amachucada, tenho-a trazido sempre comigo, é a última coisa que tenho dela. Aqui já no fim escreve:
“...Ando preocupada. Se ao menos estivesses ao pé de mim! Encontrei uns papéis do teu pai, antigos. Pensei muito e seria bom falarmos de tudo isto. Há coisas que preciso de vos contar, a ti e ao teu irmão, antes que seja tarde...”
-Tinha “coisas” para nos contar, percebem?!
-Isso não quer dizer que fosse assassinada! Talvez tivesse medo de estar doente e sentisse urgência em falar com vocês...
Helen procurava desdramatizar o conteúdo da carta, que, no entanto, a impressionara.
-Antes que seja tarde... Esperava quaquer coisa, não acham?...
-Sim, mas não a morte! - murmurou Emily.
-Esperem!
E leu:
Às vezes tenho medo. Uma conversa que tive há dias, não importa com quem, trouxe-me de volta lembranças terríveis. Tremi como se alguém pudesse vir do passado e destruir-me...”
- Tinha medo e não me disse nada...", disse baixo Helen, como para si mesma.
-“Vir do passado e destruir-me”! Percebem? E isto?...
E continuou, lendo devagar, acentuando algumas palavras com mais
intensidade:
“Nos olhos de jade brilhavam todas as luzes do mundo...Enfim, tu não podes saber... Felizmente o Natal aproxima-se e tenho esperanças de nos encontrarmos nessa altura. Virás? É muito importante!...”
-O resto não interessa... Mas esta parte revela que tinha medo de alguém, temia uma coisa “terrível”. Queria falar connosco! “É importante”, diz ela...
E Joan dobrou a carta. As outras ficaram pasmadas a olhar para ela.

domingo, 12 de julho de 2009

ainda a Casa Amarela : a tia Joana e Cesário Verde




Depois da morte da minha mãe, encontrámo-nos uma vez e ela disse-me:
- Se quiseres, conto-te as histórias da nossa família... Sei muita coisa! E ainda tenho boa memória...
Eu olhei para ela e sorri: ela continuava igual, depois daqueles anos todos, e com certeza teria a memória de sempre. Continuou:
- Agora, já não somos muitos, não é?... Do lado da tua avó, claro, que era o lado da minha mãe.
Respondi:
- Claro que quero! Já não há quase ninguém, tens razão...

E lembrei com saudades os meus avós a cantarem ao desafio, as histórias sem fim da tia Zézinha, as canções do tio Mouzinho, os tempos da minha infância inesquecível.
Ela era a prima da minha mãe, de quem sempre gostei, que nos acompanhara nesses tempos de meninas, e com quem ficara longos dias, chorosa, quando me separei da minha irmã, doente com tosse convulsa, depois de o meu pai me deixar ali, triste também ele.
A casa da tia Joana...
Começou uma longa história, entremeada de gargalhadas sonoras que me lembravam as da tia Joana, a sua mãe.
A da tia Joana que protestava, vivamente, ainda muito jovem, quando as irmãs lhe falavam de casamento:
- “Casamento? Sim, mas não quero cá estudantes! Quero casar com um homem rico que me venha buscar a cavalo... Quero ter uma charrette, ser uma senhora e viver numa quinta...”
Era uma mulher alta, de cabelos claros, nariz levemente adunco e a pele muito branca que eu me lembro de ver já de cabelos brancos, sempre cheia de pó-de-arroz e perfumada, vestida de tons claros, muito azul, lilás, verde-marinho, a dar gargalhadas, franzindo os olhos pequeninos num sorriso eterno.
Casou com um homem mais velho, rico, de pele tisnada, traços duros, mas que era ao mesmo tempo uma pessoa simples e doce, que tinha quintas e carroças e andava a cavalo.
Sei que a minha mãe aprendeu a andar a cavalo nos cavalos dele, e que as festas da família eram muitas vezes na quinta, que tinha muitos olivais, campos a perder de vista e ficava nos arredores de Portalegre, onde ainda fui.

Era Páscoa e lembro a festa, as flores, os rebuçados e os folares enfeitados com ovos pintados, outros em forma delagartos com amêndoas brancas a fazer de olhos, o pão-de-ló fofinho, e o cabritinho frito mais o ensopado...
Contara-me a tia Zézinha das festas que faziam no quintal da minha avó, na velha casa, um palácio, onde primeiro viveram -e cuja venda a minha avó nunca perdoara ao meu avô e quase chorava ao falar nela- que tinha um quintal lindo, cheio de árvores de frutos, escadarias, paredes brancas em volta, rosas, hortênsias e lírios roxos; dos almoços e das brincadeiras em que todos participavam, já casados, que acabavam com lutas de cascas de melancia ou de melão, escondidos detrás dos troncos das árvores.
Eu ria dessa maneira ingénua de brincar.
Espantava-me essa euforia do divertimento, o "carpe diem" que hoje se perdeu, em tempos hoje bem menos divertidos e bem mais cheios de violento aborrecimento, vazio e solidão.
Falava-me, agora, a minha prima da patinagem, dos passeios de barco nas charcas, das “burricadas” que faziam, na estrada que vai para a estação, onde ficava a quinta da tia Joana, ou à volta da Serra de S. Mamede, e eu pensava em flores brancas nos cabelos, como recordo a minha mãe, nas velhas fotografias, e imaginava os risos, a aflição da tia Leopoldina sempre com as suas toilettes pouco práticas, as brincadeiras e as quedas da tia Zézinha.

E ao querer imaginar, via as boninas e os campos vermelhos de papoilas, que o Monet pintou de modo insuperável, tal como elas viram, e pensava na poesia de Cesário Verde, que não resisto a pôr aqui:










Naquele picnic de burguesas,
houve uma coisa simplesmente bela
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampávamos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro de papoulas!



(Lisboa, O Livro de Cesário Verde, 1887)

Ilustrações:

1. Berthe Morisot, as patinadoras

2. Monet, passeio de barco em Givérny
3. Monet, campo de papoulas

Histórias da casa amarela: "o gato"





Mesmo ali na minha rua, houve a história da vizinha do lado que nos roubou o gato...
Ela vivia ao pé de nós, numa casa baixa, e via-a muitas vezes à janela. Cumprimentava e nós também dizíamos “bom dia”.
O gato... era um gato! Um simples gato, um gato sem raça, a coisa mais vulgar deste mundo, cinzento e com malhas brancas, uma delas no focinho. Alguém o encontrou abandonado na rua e o trouxe para nossa casa.
Eu adorava animais, sobretudo os cães, mas nunca tínhamos podido ter nenhum porque o meu pai tinha medo das doenças deles, falava sempre no “quisto hepático” que eu não sabia bem o que era, mas um dia a tia Zezinha adoeceu com o tal quisto hepático, e foi o meu pai quem a salvou.
Demos-lhe leite com bolachas num pratinho e nunca mais o largámos.
Estava sempre no meio das nossas brincadeiras, mas a maior parte do tempo ia para o canto da sala, deitava-se nos degraus que subiam para a varanda e enrolava-se a olhar para nós. E adormecia.
Parecia-me que queria estar sozinho, e deixava-o em paz com o seu ronronar suave. Outras vezes, empoleirava-se no parapeito das janelas, sentado, a olhar para a rua, com o seu olhar verde, de esfinge.
Por causa dessa mania, um dia caiu da janela do primeiro andar, nunca soubemos como, e ficou com o focinho ferido guardando sempre uma cicatriz na manchinha branca que tinha ao pé da boca cor de rosa. Talvez por isso, me sentia mais presa a ele, e, quando desapareceu durante uns dias, e, depois, a filha da vizinha do lado se mostrou à janela abraçada a um gato que era igualzinho ao nosso, foi chorar e chorar.
O gato olhava-nos indiferente, lambia-se e não mostrava nenhum sentimento por nós, deixando-se abraçar por outra, uma estranha, o que me chocou.
Ninguém conseguia consolar-nos. Durante dias e dias protestámos, íamos espreitá-lo da porta da rua, umas atrás das outras, e cada uma chorava de sua vez, a pedir o gato.
Até que a minha mãe se aborreceu, vestiu o casaco, pôs a mala debaixo do braço como nas grandes ocasiões e foi bater à porta da vizinha. Nós ficámos à janela, a espreitar.
A outra protestou, que não que não era nada o nosso, que o gato era dela, que o tinham oferecido à filha e mais isto e mais aquilo!
Só que o nosso gato tinha a tal cicatriz, e o que ela dizia ser dela tinha a mesma, coisa estranha, explicou-lhe a nossa mãe, quase zangada.
Passados poucos minutos, da janela, vimos a mãe voltar vitoriosa, com o gato ao colo.
A vizinha nunca mais nos falou. Mas não me ralei porque ela era uma pessoa azeda, cinzenta e não gostava dela.
Ilustração:
Gatos e pintores
1. Mary Cassatt, Menina com o gato
2. Pierre-Auguste Renoir, Rapariga com um gato ao colo

mais histórias da casa amarela: " A mulher da Espanha"



Para nós, era “a mulher da Espanha”. Vinha da zona da raia, da fronteira que corria parte da Serra de S. Mamede- zona de contrabandistas que se estendia do Porto da Espada, S. Julião a S. António das Areias.
Lembro-me que cheirava bem, a roupa lavada e corada ao sol, usava brincos de ouro nas orelhas que espreitavam por debaixo do lenço de ramagens, com as pontas atadas no alto da cabeça.
Era alegre, desembaraçada e abria diante das crianças que nós éramos uma série de tesouros: cortes de sedas rosadas, ou tom de pele, cor de pérola, azul celeste ou rosa salmão, que formavam desenhos de folhinhas em relevo -ora baças ora acetinadas; perfumes, pós de arroz em caixas redondas com um rosto de mulher que me lembrava um Pierrot, meias de seda, um nunca acabar de maravilhas que iam saindo da trouxa de pano como do chapéu de um ilusionista.
Espalhava-se o perfume pela sala, nós queríamos cheirar tudo e ela deixava, rindo do nosso deslumbramento. Eu encostava a face nas sedas, tocava-as devagarinho com os dedos e só me apetecia envolver nelas e sentir melhor a suavidade do tecido.
Esta mulher, ainda jovem, era prima da Hermínia, nossa costureira, serrana também. Ficavam a conversar as duas, falando dos conhecidos, da família e era estranho ver o contraste entre as roupas de luto de uma e a alegria das cores vivas do vestuário da outra que, no queimado das faces vermelhas e no ar cheio de saúde, trazia o esplendor e a frescura dos pinheiros, o cheiro dos eucaliptos, enfim, a natureza e a vida.
A minha mãe pegava nas sedas, com as suas mãos muito brancas, escolhia um corte de tons suaves, dois ou três perfumes, umas meias finas.
Havia coisas que brilhavam nos seus rótulos dourados: sabonetes, garrafas de licores, e de Domecq, maços de tabaco, pulseiras, bugigangas várias.
Não sei quanto tempo durava aquela visita mas, quando a mulher da Espanha fechava a trouxa enorme, com um nó nas quatro pontas, eu suspirava, triste, por ver desfazer aquele sonho que me trouxera mundos novos, perfumes, cores.
Depois de ela se ir embora, corria ao quarto dos meus pais onde a minha mãe guardara já os perfumes, e ficava maravilhada em frente do toucador com espelho quadrado, onde via a minha mãe arranjar-se: o frasco esguio de cor amarelo-limão com uma flor de pétalas carnudas nacaradas dentro, que eu sabia que se chamava nardo, e que balançava quando eu pegava no frasco. Cheirava a lilases, a glicínias, um perfume suave e quente. O outro, cor de âmbar, com um pequeno feixe de pedacinhos de madeira atados por uma fita, tinha um cheiro intenso e chamava-se “Madeiras do Oriente”.
Oriente... Este nome sugestivo acrescentava algo de magia, cheiros de terras longínquas, mulheres com vestidos de seda e véus transparentes, a pentear os longos cabelos perfumados de óleos.
E havia um frasco mais pequeno que tinha escrito “Tabu” em letras pretas sobre verde e parecia sugerir-me a folhagem escura da selva, um feiticeiro de cabelos negros e emaranhados e colares de dentes de tigre, um derviche, imaginava eu, das histórias que andava a ler, misturadas com "A Gata Borralheira" cujos desenho adorava e imitava.
Não sabia qual escolher... Abria-os, um a um, cheirava e punha uma gotinha detrás de cada orelha como a minha mãe me tinha ensinado. Depois, não resistia e punha um pouco nos braços e ia a correr brincar, agitando-os à minha frente, sentindo-me perfumada como uma rainha.

Ilustrações:

1. Zinaida Serebryakova, diante do toucador, auto-retrato

2. Mary Cassatt, mãe e filha

3. desenho feito por mim, Cinderela

quarta-feira, 8 de julho de 2009

George Benson no Albert Hall, no passado dia 2









(Georges Benson, em concerto, Junho de 2009)
http://www.youtube.com/watch?v=HU3i6SoAxIg



(entrevistas sobre George Benson, gravações)




Georges Benson no Albert Hall, em Londres

Aqui deixo umas imagens do Concerto de George Benson em Londres, no passado dia 2 de Julho. Imagens de um bloguista que tem fotografias muito bonitas -que podem consultar http://arquivo-fotografico.blogspot.com/.
(Está na lista dos meus blogues.)













Sobre George Benson
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
George Benson
Informação geral
Data de nascimento
22 de Março de 1943 (66 anos) Pittsburgh, Pennsylvania
País
Estados Unidos
Gêneros
Jazz, Smooth Jazz, Jazz fusion, R&B, Funk
Instrumentos
Vocal, Guitarra elétrica
Período em actividade
1964 - actualmente
Gravadoras
Columbia Records, Verve, CTI, Warner Bros. Records
Afiliações
Miles DavisAl Jarreau
Página oficial
GeorgeBenson.com
George Benson (22 de Março de 1943 - EUA) è um guitarrista norte-americano de Smooth jazz.
Apesar de ter gravado seu primeiro compacto com apenas 10 anos de idade, não teve uma carreira fácil. Chegou mesmo a ser rejeitado como acompanhante pelos músicos de Jazz devido sua imagem de músico de R&B (Rhythm and Blues); e, por outro lado, a platéia de R&B não gostava quando ele tocava Jazz. Chegou a gravar para Columbia Records e A & M, com músicos diferentes. Mas foi só em 1975, quando já tinha 32 anos, que conseguiu na Warner Bros, maior liberdade para escolha de seus acompanhantes e arranjadores. Seu LP Breezin foi um sucesso, ganhando o "Grammy" em 76, além de um disco de ouro e um de platina. Desde então, a junção jazz-rock que caracteriza seu trabalho lhe trouxe fama internacional, que cresceu depois que sua versão de "On Broadway" ter sido usada na trilha sonora do filme All That Jazz.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Billie Holiday e Lester Young: já 50 anos!


http://www.youtube.com/watch?v=UJhKoFR7iD8
(ouvir a canção " A sailboat in the moonlight")


Volto hoje a falar da minha cantora preferida de jazz. Reconheço que Ella Fitzerald, Dina Washington, Sara Vaughan, Nina Simone, Diana Crall etc etc são fantásticas, mas ela "comove-me" de uma maneira única. Recordo um ballet em Israel, sobre ela, com as suas canções, maravilhoso, em que toda a sua fragilidade, dor e génio se sentia vibrar na música e no bailado em cena. No dia 17 deste mês passam 50 anos sobre a sua morte.

Billie Holiday (Eleanora Fagan) nasce em 7 de Abril de 1915 e morre no dia 17 de Julho de 1959) era uma cantora de jazz e também escritora das próprias canções.


Lester Young, seu companheiro e leal amigo, chamou-lhe Lady Day, enquanto ela lhe chamava Pres (President) e, assim, ficou Pres, para os amigos). Tinha uma voz especial, um estilo vocal diferente, que diziam ser inspirado pelos próprios instrumentos musicais de jazz e uma identificação profundamente pessoal com tudo o que cantava.
“Billie Holiday era uma cantora especial cuja voz é inesquecível. Nunca nenhuma outra cantora distilou despero naqueles tons", diz Bret Primack em artigo, na revista "Jazz Times".

Billie era, de facto, também, uma grande actriz-nata que exprimia com a voz todos os sentimentos possíveis, indo arrancá-los aos seus próprios sentimentos mais profundos, com uma grande honestidade.
Mais adiante, acrescenta Primack: "como muitos outros dos seus contemporâneos musicais sofreu de doença comum a muitos deles: ser negro naqueles tempos, na América.
Uma vez, em Detroit, fazendo um tour com Count Basie, foi obrigada a pintar a cara de escuro para cantar no famoso Fox Theatre, porque a sua tez era clara de mais e, nesses tempos, não podiam tocar músicos brancos juntamente com negros. Billie aceitou mas, mais tarde, reconheceu: "Tive de escurecer a cara para que o show pudesse ir para a frente. Não há profissão mais inglória do que o show business. Tens que sorrir para não mandares tudo ao ar!”
Na sua breve e dura vida (morre aos 44 anos, em Julho de 1959, portanto vão fazer anos) , Billie definiu um estilo e uma personalidade criando uma música sofisticada sem qualquer treino prévio, com uma dicção soulful e entoações tão especiais e tão intensas que as suas canções e a sua voz são logo reconhecíveis. E amadas... Algumas das canções mais inspiradas encontram-se no conjunto que fez com Lester Young, seu companheiro musical.
Lester Willis Young (nasce em 17 de Agosto de 1909 e morre em 15 de Março de 1959) era um cantor e músico de jazz americano, tocava também saxofone, trompete, violino e tambores. Tem um estilo que dizem sofisticado e cool. Torna-se conhecido quando toca com a banda de Count Basie. Billie entra para o grupo mais tarde.


Juntos, Pres (como ela lhe chamava)e Lady Day criaram obras-primas. Uma das preferidas de Pres era “A Sailboat in the moonlight” nas quais a voz dela e o saxofone se combinam como um só tom. O último espectáculo que deram juntos foi em 1957, com Ben Webster, Coleman Hawkins, Gerry Mulligan e Roy Eldridge –que escreveu para ela a canção “Fine and Mellow”.
Lester Young morre em 1959, poucos meses antes de Billie, já então muito doente. Por sua vez, os últimos anos da curta vida de Billie Holiday foram uma luta dramática e patética contra a dependência da droga –que deu cabo dela- e contra a perseguição da polícia.
As últimas gravações revelam uma voz devastada mas, segundo diz Roy Eldridge –que escreveu para ela a canção “Fine and Mellow” - conservam a sua técnica superior.

É uma pequena homenagem que quero deixar aqui a estas duas inesquecíveis figuras do jazz, tão perto um do outro em tantas coisas. Até na data da morte...




Ilustrações:


1. capa do duplo disco, com uma pequena "banda desenhada", de Claire Braud (Editions Nocturne, colecção "BD Jazz").

2. o saxofone de Lester Young

3. uma página da BD referida

4. Lester Young e o seu saxofone

5. capa do disco "Lady in satin"

6. Billie cantando

7. Billie e a sua banda
8. Count Basie