sábado, 22 de agosto de 2009

José Régio: mais um Poema



Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura
que olhava nos olhos de minha Mãe...

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Tennyson e a lenda da "Lady of Shalott" e do espelho quebrado...




























"The Lady of Shalott" é um ser mágico que vive só numa ilha perto e Camelot, o reino do lendário Rei Artur.


(O Rei Artur é uma figura lendária britânica que, de acordo com histórias medievais e romances, teria comandado a defesa contra os invasores saxões chegados à Grã-Bretanha no início do século VI. Os detalhes da história de Artur são compostos principalmente pelo folclore e pela literatura, e a sua existência histórica é debatida e contestada por historiadores modernos.
O lendário Artur cresce como uma figura de interesse internacional em grande parte pela popularidade do livro de Geoffrey de Monmouth, Historia Regum Britanniae (História dos Reis Britânicos).
Mais tarde, foi Chrétien de Troyes, escritor francês do século XII, que adicionou a figura de Sir Lancelote do Lago (Lancelote e o Santo Graal) à história, e iniciou o género de romance arturiano que se tornou uma importante vertente da literatura medieval.
Nestas histórias francesas, a narrativa foca frequentemente, em vez do Rei Artur, outros personagens, como os Cavaleiros da Távola Redonda. )

A "Dama de Shalott" olha para o mundo que rodeia o seu castelo através de um espelho, vendo apenas o reflexo desse mundo, e vai tecendo o que vê, numa tapeçaria. Foi proibida, pelo mágico que a criou, de olhar para o mundo fora do espelho. Sabe da maldição que cairá sobre ela se olhar directamente para Camelot. Ela obedece. Os camponeses que vivem ao pé da sua ilha, habituaram-se a ouvi-la cantar mas nunca a viram. Pelo seu espelho vê o que se passa em redor: as pessoas normais, os pares de namorados e os cavaleiros eos seus pagens. Um dia vê no espelho mágico o reflexo de Sir Lancelot, que passeia só, a cavalo.
Apesar de saber que é proibido, ela olha para ele, da janela. O espelho parte-se em mil pedaços, a tapeçaria voa no vento e ela sente o poder da maldição cair sobre ela.
Nessa violenta tempestade de Outono, em que sopra o vento leste, a tapeçaria é levada por um vento forte e todo a harmonia se quebra.
Sabe o que a espera. Tal como a mulher de Lot, que desobedeceu, ela vai sofrer um castigo. Será que ela escolhe a morte que vai ter? Por que pega no barco e vai até Camelot? Ou é a força do destino que a conduz, a morrer ao pé de Camelot?
A verdade é que a Dama de Shalott deixa o seu castelo, encontra um barco ancorado na margem da ilha, debaixo de uns salgueiros, escreve na proa o seu nome, entra ,e começa a cantar a canção de adeus e de morte, enquanto o barco singra rio abaixo em direcção a Camelot.
Os habitantes encontram, mais tarde, o barco e o corpo, adivinham quem ela é, e ficam tristes. Sir Lancelot pede a Deus que receba a sua alma.

The Lady of Shalott é um dos poemas mais famosos -e muito belo- de Tennyson, o grande poeta romântico inglês. Não posso transcrever o poema todo, mas deixo-vos algumas estrofes -tentando traduzir o seu conteúdo o melhor possível...

The Lady of Shalott

On either side the river lie
Long fields of barley and of rye,
That clothe the wold and meet the sky;
And through the field the road runs by
To many-tower'd Camelot;
And up and down the people go,
Gazing where the lilies blow
Round an island there below,
The island of Shalott.
(ao pé do rio campos de aveia e de bagas, entre céu e mar, e nos campos passa estrada que vai para Camelot a das muralhas, as pessoas vão e vêm, vendo os nenúfares à roda da ilha de Shalott)

Willows whiten, aspens quiver,
Little breezes dusk and shiver
Through the wave that runs for ever
By the island in the river
Flowing down to Camelot.
Four grey walls, and four grey towers,
Overlook a space of flowers
And the silent isle embowers
The Lady of Shalott.
( salgueiros esbranquiçados estremecem, a brisa fresca do anoitcer, a ondulação que tudo leva na corrente para Camelot, quatro muros e quatro torres sobre um espaço de flores)

Only reapers, reaping early,
In among the bearded barley
Hear a song that echoes cheerly
From the river winding clearly;
Down to tower'd Camelot;
And by the moon the reaper weary,
Piling sheaves in uplands airy,
Listening, whispers,
" 'Tis the fairy Lady of Shalott."
(só os ceifeiros que ceifam de manhãzinha a cevada, ouvem cantar e, ao luar, cansados a empilhar os molhos, ouvem suspirar e dizem: é a fada, a Dama de Shalott.)

There she weaves by night and day
A magic web with colours gay.
She has heard a whisper say,
A curse is on her if she stay
To look down to Camelot.
She knows not what the curse may be,
And so she weaveth steadily,
And little other care hath she,
The Lady of Shalott.
(e ela tece dia e noite uma tela mágica de alegres cores, ouvindo num suspiro alguém dizer que a maldição cairá sobre ela se olhar para Camelot. Assim, ela tece e só pensa nisso.)


And moving through a mirror clear
That hangs before her all the year,
Shadows of the world appear.
There she sees the highway near
Winding down to Camelot;
There the river eddy whirls,
And there the surly village churls,
And the red cloaks of market girls
Pass onward from Shalott.
(no espelho mágico pendurado em frente dela vê todo o ano as sombras do mundo lá fora: a estrada que desce para Camelot, o rio, a tosca aldeia e as raparigas que passam de chapéu vermelho para o mercado.)

Sometimes a troop of damsels glad,
An abbot on an ambling pad,
Sometimes a curly shepherd lad,
Or long-hair'd page in crimson clad
Goes by to tower'd Camelot;
And sometimes through the mirror blue
The knights come riding two and two.
She hath no loyal Knight and true,
The Lady of Shalott.
(Às vezes vê grupos de donzelas alegres, um pastor de cabelo encaracolado, o pajem de manto carmesim, a caminho de Camelot ou os cavaleiros dois a dois mas ela não nenhum que lhe seja fiel.)

(...)

He rode between the barley sheaves,
The sun came dazzling thro'the leaves,
And flamed upon the brazen greaves
Of bold Sir Lancelot.
A red-cross knight for ever kneel'd
To a lady in his shield,
That sparkled on the yellow field,
Beside remote Shalott.
(um dia, entre as searas, descobre, debaixo do sol ofuscante que passa pelas folhas, Sir Lancelot, cavaleiro da cruz vermelha que ajoelha perante as damas e as protege com seu escudo, que cintila nos campos dourados, ao pé da distante Shalott.)

(...)

All in the blue unclouded weather
Thick-jewell'd shone the saddle-leather,
The helmet and the helmet-feather
Burn'd like one burning flame together,
As he rode down to Camelot.
As often thro' the purple night,
Below the starry clusters bright,
Some bearded meteor, burning bright,
Moves over still Shalott.
(no ar azul sem nuvens, com seu selim ricamente enfeitado de jóias, com a pluma no elmo, parece arder numa chama, cavalga para Camelot e, na noite púrpura, surge um meteoro brilhando sobre a tranquila Shalott)

................................
As he rode down to Camelot.
From the bank and from the river
He flashed into the crystal mirror,
"Tirra lirra," by the river
Sang Sir Lancelot.
(vai para Camelot, pela beira-rio, Sir Lancelot e de repente a sua imagem brilha no espelho de cristal, enquanto, pelo rio, vai cantando "tirra lirra".)


She left the web, she left the loom,
She made three paces through the room,
She saw the water-lily bloom,
She saw the helmet and the plume,
She look'd down to Camelot.
Out flew the web and floated wide;
The mirror crack'd from side to side;
"The curse is come upon me," cried
The Lady of Shalott.
(vendo-o, Dama de Shalott larga a tela, deixa o tear, passeia pelo quarto, vê os nenúfares, vê o elmo e a pluma e olha para Camelot. Logo, a tapeçaria voa, o espelho estilhaça-se ,e ela grita: "a maldição caíu sobre mim!")

In the stormy east-wind straining,
The pale yellow woods were waning,
The broad stream in his banks complaining.
Heavily the low sky raining
Over tower'd Camelot;
Down she came and found a boat

Beneath a willow left afloat,
And around about the prow she wrote
The Lady of Shalott.
(na tempestade, os campos dourados minguam, a corrente forte leva tudo e chove sobre Camelot; ela vai junto do rio e, debaixo de um salgueiro, encontra um barco, na proa do qual escreve Dama de Shalott, e entra nele.)

And down the river's dim expanse
Like some bold seer in a trance,
Seeing all his own mischance
- With a glassy countenance
Did she look to Camelot.
And at the closing of the day

She loosed the chain, and down she lay;
The broad stream bore her far away,
The Lady of Shalott.
(rio abaixo, como em transe, vê toda a sua desgraça e olha com um olhar vidrado para Cammelot. E ao cair do dia é arrastada pela corrente para longe e ali fica.)

(...)

Heard a carol, mournful, holy,
Chanted loudly, chanted lowly,
Till her blood was frozen slowly,
And her eyes were darkened wholly,
Turn'd to tower'd Camelot.
For ere she reach'd upon the tide
The first house by the water-side,
Singing in her song she died,
The Lady of Shalott.
(canta o seu canto de adeus e de morte, cantado baixinho, devagar, até o sangue se lhe gelar nas veias e os olhos escurecerem completamente, virados para Camelot; a maré leva-a até à margem e cantando morre a Dama de Shalott.)


Mais tarde, no século XIX, os pintores Pré-Rafaelitas (*)imortalizam-na nos seus quadros. Waterhouse fez três quadros sobre o tema, e muitos outros o fizeram, como Meteyard, William Gley.
Agatha Christie, a nossa conhecida Lady do Crime, escreve uma novela com a Miss Marple intitulada "The Mirror Crack'd From Side to Side".

Recentemente, baseado neste tema, surgiu um romance, Tirra Lirra by the River, escrito pela escritora australiana Jessica Anderson, que é a história de uma mulher moderna que decide quebrar as grilhetas da sua prisão exterior (família, constrangimento social) e, logo, interior. Não li, não sei qual o seu interesse.
Mas li "O espelho quebrado", da Agatha Christie (reeditado em 2007 pela
ASA) , e desse gostei mesmo.

"O Espelho Quebrado" foi originalmente publicado na Grã-Bretanha ("The Mirror cracked from side to side"), em 1962, ano em que seria igualmente publicado nos Estados Unidos sob o título "The Mirror Crack’d". Foi adaptado ao cinema em 1980, com Angela Lansbury no papel de Miss Marple, contando ainda com as interpretações de Elizabeth Taylor e Kim Novak.
Em 1992 é sua adaptado à televisão com a inesquecível Joan Hickson como Miss Marple.

Aliás, recordo um outro livro dela -mas com Poirot- em que se refere "ao olhar da Lady de Shalott": é Poirot que encontra, no olhar de uma mulher, esse desespero de alguém que sabe que uma maldição, ou algo de inelutável, caíu sobre si.
Acima falei da maldição que recai sobre a mulher de Lot, que se pode também tomar como referência ao que é "permitido" e "proibido" pelos deuses. Podemos também lembrar o mito da caverna, de Platão...-quando pensamos no castelo em que ela está fechada e no espelho, única forma de ver o que se passa no exterior (tal como na caverna, os homens vêem apenas as "projecções" das sombras na parede da "verdadeira" imagem que passa lá fora.)
Em Platão, os reflexos são o mundo do "fenómenos"; em Tennyson, o mundo fenomenal capta os reflexos.
Basta de filosofias, deixo-vos com o poema lindíssimo, puro e musical, de Tennyson e as imagens que encontrei para ilustrar a história da "Lady of Shalott", algumas das quais vi na Tate Britain em Londres.
(*) A Irmandade Pré-Rafaelita (Pre-Raphaelite Brotherhood ou PRB em inglês), também chamada Fraternidade Pré-Rafaelita ou, simplesmente, Pré-Rafaelitas, foi um grupo artístico, fundado em Inglaterra em 1848 por Dante Gabriel Rossetti, William Holman Hunt e John Everett Millais e dedicado principlamente à pintura. Este grupo, organizado ao modo de uma confraria medieval, surge como reacção à arte académica inglesa -que seguia os moldes dos artistas clássicos do Renascimento.
Inseridos no espírito revivalista romântico da época, os pré-rafaelitas desejam devolver à arte a sua pureza e honestidade anteriores, que consideram existir na arte medieval do Gótico final e Renascimento inicial (Proto-Renascimento). Por se auto nominarem "pré-rafaelitas", realçam o facto de se inspirarem na arte anterior a Rafael, artista que tanto influencia a academia inglesa e que é consequentemente criticado.
Ilustrações:
1. Sidney Meteyard, Lady of Shalott
2. Capa do livro de Tennyson, The Lady of Shalott
3. J.W. Waterhouse, The Lady of Shalott (um dos 3 quadros que lhe dedica)
4. retrato do poeta Tennyson
5. William Gley, The Lady of Shalott
6. John William Waterhouse (2º dos 3 quadros dedicados à figura)
7. Grim's Lady of Shalott
8. capa da reedição de "O Espelho quebrado" da editora ASA

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Carson McCullers: "O coração é um caçador solitário" ou, na tradução portuguesa, "Coração, solitário caçador"...



















































A história passa-se numa pequena cidade do Sul, na América dos anos 40. Diz-nos Carson Mc Cullers, falando desse lugar:

“Era uma pequena cidade do Sul com longos verões e raros meses de frio. No céu, de um azul brilhante e transparente, o sol espalhava com profusão os raios ardentes. As chuvas finas e frias começavam em Novembro e, mais tarde, podia aparecer a geada. Um curto período de frio. A temperatura dos invernos variava mas os verões eram sempre tórridos.
A cidade tinha uma certa importância. A sua rua principal mostrava numerosos armazéns de dois ou três andares e escritórios. Mas as construções mais imponentes eram as fábricas que empregavam a maior parte da sua população. A fiação de algodão florescia e a maioria dos trabalhadores era muito pobre. Muitas vezes as figuras que se viam na rua tinham a expressão desesperada da fome e da solidão.
É neste ambiente, descrito assim sucintamente, que tudo se passa.
E as personagens? e a história?
Começo por Mick Kelly, a inesquecível adolescente, e a sua paixão pela 3ª Sinfonia de Beethoven que descobre numa noite, sozinha, em frente de uma casa. 
O seu hábito, no Verão, era deambular de rua em rua a ouvir o que as pessoas ouviam na rádio, até que uma noite, nessa casa, descobre a sinfonia que vai amar para sempre. E fica a ouvi-la toda a noite. E percebe que nunca mais vai ser a mesma: tem de escrever a sua música!
A música começou. Micky ergue a cabeça e leva a mão à garganta. (...) Sente-se gelada exteriormente, só dentro aquela música a aquece. (...) Era ela, Mick Kelly marchando pelas ruas à luz do dia ou sozinha na noite. Debaixo do calor a na noite com todos os seus planos e sentimentos. Esta música era ela...o seu eu real.”
Há Mick, que nos aparece pela primeira vez no Bar de Biff, a comprar cigarros, e nos deixa presos à sua figurinha esguia e à personalidade directa e corajosa;
E há Biff Brannon, o dono do restaurante “Café de New York”, que, com paixão, se interessa por todas as coisas da vida  e essa é a sua diferença. Detrás do balcão, dia e noite, observa os clientes, com um olhar atento e compreensivo;
Há Jack Blount, o socialista, o revolucionário que chega uma noite à cidade e, não conseguindo trabalho, vai ficando por ali. Fala de liberdade, de acção, fala da verdade e da justiça e passa os dias e as noites no café do Biff, a beber (e a comer, pois Biff não lhe pede dinheiro e deixa-o estar a comer e a beber);
Depois, há o Dr. Copeland, o médico negro, que vive desiludido porque os filhos (Hamilton, Karl Marx, William e Portia) se resignam e se inserem como negros, deixando-se humilhar, aceitando essa sua condição, que ele rejeitara e rejeita. O Dr. Copeland tem um ideal! Vive a esperança de arrancar os homens da sua raça à ignorância e à condição de humilhados.
Sem parar, ia de casa em casa para realizar a sua missão e ensinar a verdade. O sofrimento sem esperança da sua raça punham-no louco, e excitava no seu peito um selvagem sentimento de destruição!”
E, mais adiante, a autora acrescenta:

“Sozinho,e só o seu ideal que o sustenta e lhe permite continuar. Por que é que continuava sempre em frente? Por que é que não podia repousar enfim neste fundo de completa humilhação, e, uma vez por todas, aceitar? Mas, continuava em frente.”

(Sem querer, penso no que sentiria hoje o Dr. Copeland ao ver Obama ser o presidente negro dos Estados Unidos, de todos os Estados, mesmo dos estados racistas, os do Sul...? Veria uma parte do seu 'ideal' realizado.)


E, finalmente, há Singer, John Singer, o judeu surdo-mudo, personagem de grande doçura que todos procuram para desabafar os desgostos, a miséria, e que tudo e todos observa - e sorri, com ternura.
Lê nos lábios o que os outros querem dizer e “ouve-os”, compreende-os, fazendo às vezes com as mãos uns gestos vagos, na sua linguagem de mudo, que ninguém entende. E ele? A ele ninguém o escuta.
Todos os que sofrem e precisam de comunicar o procuram: Blount, Biff, Mick Kelly, o Dr Copeland.

“No quarto dele, o Dr. Copeland esquecia a sua solidão e quando saía sentia-se em paz uma vez mais.”

Na “Introdução” da edição francesa de “Le coeur est un chasseur solitaire”, (Le Livre de Poche, 1947) o escritor Denis de Rougemont conta-nos o seu encontro com a escritora, poucos anos depois de ela ter publicado este livro, que sai em 1940:
“Eu disse-lhe :
-Não há histórias de amor neste romance...
Ela olhou para mim espantada, quase indignada:
- Não há senão isso!...
Queria referir-se ao amor dos outros, ao amor real e não ao dos romances.”
E, mais adiante, ele pergunta-lhe:
“Qual o assunto deste romance? Não tem intriga e no entanto tem uma construção perfeita como a de um canto a cinco vozes que se sobrepõem, se fazem sinal, vêm, uma a uma, procuram-se, encontram-se uma vez só, ou perdem-se, inexoravelmente, no ruído informe da vida quotidiana. Uma série de incidentes surdamente emocionantes, com rasgos de beleza insólita que acabam todos num gesto mortal, cortante, atroz? O assunto será a solidão, a frustração? Ou, antes, a infância mais séria e metafísica do que a idade adulta? Ou o problema negro? Ou apenas a descrição de uma cidade pobre do Sul? Ou tudo ao mesmo tempo?”
Um livro bom e terno. Procurem lê-lo. Cada um terá as suas respostas a cada uma destas perguntas.

Pequena Biografia da escritora: Carson McCullers nasce em 1917, em Columbus (Georgia). Em 1940 publica "The heart is a lonely hunter", que fará data na história da literatura Americana. Com 17 anos, deixa a casa dos pais, e vai para Nova Iorque, num barco de transporte, onde pensa estudar música na Julliard School of Music. O que nunca consegue pois perde o dinheiro que pusera de parte para pagar as propinas. Trabalha em pequenos 'jobs', tem uma vida difícil, estuda "escrita criativa" na escola nocturna da Universidade de Columbia. Decide que vai ser escritor. Publica em 1936 Wunderkind na Story Magazine onde fala do falhanço de um jovem prodígio musical e da insegurança da adolecência. Escreve outros livros que têm algum sucesso, Reflexos nuns Olhos de Ouro (1941), The member of the Wedding (1946) que descreve os sentimentos de uma adolescente no dia do casamento do irmão mais velho. Em 1946, sai, com outros contos, o inesquecível e duro, impiedoso conto “Balada do café triste”.
Carson McCullers sofre de várias doenças, tem febre reumática e desde os 31 anos que um dos lados do corpo está paralisado.
Casa em 1937 com Reeves McCullers, separam-se em 1940 e divorciam-se em 1941. Vida irregular, acidentada, confusão sentimental, Carson alccoliza-se.
Em 1945, ela e Reeves voltam a casar. Três anos mais tarde, Carson entra em depressão, e tenta o suicídio.
Em 1953 o marido quer suicidar-se com ela, mas Carson foge. Depois de ela sair, Reeves suicida-se, com comprimidos, no hotel onde estavam em Paris.
Morre em 1967, hemiplégica, depois de uma vida acidentada e infeliz.

Ilustrações:
1. "Le coeur est un chasseur solitaire", Le Livre de Poche
2. "Coração, solitário caçador", capa da ed. Europa-América (reed. 1987, trad. J. Rodrigues Miguéis)
3/4. fotografias de Carson McCullers
5. "Coração Solitário caçador", ed. Estúdios Cor
6. "O Coração é um caçador solitário", Companhia das Letras, Brasil
7."The heart is a lonely hunter", edição americana
8." A Balada do Café triste", ed. Planeta d'Agostino. Há também a edição da Relógio de Água.

Poesia, poesia, poesia... Fernando Pessoa e os heterónimos









Começo por Ricardo Reis e Alberto Caeiro, mais positivos: lembro-me de algumas reacções de "desconforto" de alunos que descobriam Fernado Pessoa e se chocavam no desprendimento de tudo, na frieza, secura, desespero de Álvaro de Campos e Fernando Pessoa, que deixo para o fim... E uso este belo quadro do Chagall em que tudo está: o mundo circunstante na sua realidade e na imaginação infindável dos poetas.









Para ser grande, sê inteiro


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis, Poemas


A Espantosa Realidade das Cousas

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta. Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais.
Naturalmente. Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"













Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa, ortónimo












Lisboa revisited




(...) Outra vez te revejo,

Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...
Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...
Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

Álvaro de Campos, Poemas, Lisboa Revisited
Ilustrações:
1. Chagall
2. Van Gogh, noite estrelada
3. Foto de Valangui
4. Paisagem da Northumbria (norte de Inglaterra)
5. Vista sobre Lisboa e a Sé

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A minha África outra vez: O Nini e a candonga




O Nini e as mangas do quintal

Uma manhã tranquila, no meu quintal. A brisa fresca faz esquecer por momentos o calor que vai chegar em breve. Vejo as mangueiras enormes, cheias de mangas, o papiro delgado que nasce ao lado da janela do quarto. Debaixo do coqueiro enorme, na cadeira de repouso, leio.
Ouço a Milly aos gritos. Acabou o sossego.
-Dôtôra, é vêrgonha! Nini levou manga do quintal e estava a vender à porta da escola.
O Nini estava atrás dela e ela puxava-lhe uma orelha.
- Deixa-o, Milly! Que mal faz? Há por aí tanta manga caída... Pode comer, levar o que quiser...
- É vêrgonha! A vender cada montinho a 100 dobras!
Na sua indignação agitava o corpo forte, ajeitava o avental repuxado na barriga, como se quisesse mostrar melhor a sua dignidade ofendida.
- Sim... O que vai mundo dizer? O quê? Candongueiro?
Eu sorria virando a cara para o lado para ela não me ver.
- Sim, que vai dizer?! Que mãe dele vive tão mal que manda seu filho vender manga?
Conhecia as fúrias da Milly e, sem querer, sorria a imaginar o Nini sentado num banquito –como eu via fazer tantos meninos como ele, à porta do mercado do Ponto- com um caixote virado a fazer de mesa e os montinhos de mangas bem empilhadas. Via-o a guardar as notas de 100 dobras bem arrumadinhas no bolso dos calções sempre a cair.
Eu tinha uma grande ternura pelo Nini. Era um menino frágil, enfezado, com um ar assustado e sempre a fugir das sovas da mãe. Quando a Milly se irritava, o Nini desaparecia do jardim com medo que ela lhe batesse. Ela batia sempre com força.
Ficava lá fora a ouvir, e só voltava quando ela estava calma e a tempestade tinha passado. O que acontecia de repente, pois a Milly nunca estava muito tempo zangada. As fúrias dela iam e vinham.
Quando ia pela rua acontecia às vezes ao Nini encontrar o pai -que abandonara a mãe logo que ele nascera, dois anos depois da Dáy- e também ele lhe dava uns sopapos.
Na escola era um aluno fraco, tímido, nunca respondia, parecia parado. Dizia o professor que não aprendia.
Uma tarde fui falar com ele à escola para saber que problemas eram os do Nini afinal. Aliás, do Wildger, pois Nini era "nome de casa".
- O Wildger? Oh! Esse menino não presta atenção, não aprende...
- Porquê? É um miúdo esperto...
- É preguiçoso, distrai-se a olhar para fora, não gosta de estudar!
Resolvi pôr-me a estudar com ele. Comecei a ensiná-lo a ler. Devagarinho, ia soletrando antes dele. Ficávamos de livro aberto em frente, íamos falando e ele ia lendo.
Como é natural -é o que acontece com todas as crianças, mais tarde ou mais cedo- de repente começou a ligar as palavras escritas às que conhecia, e leu. Vejo bem os seus olhos a brilharem de contentes. Depressa acabou a cartilha e já espreitava com curiosidade o jornal, as revistas. Ia dar com ele a ler alto: "no-jar-dim ha-vi-a-flo-res. Faus-ti-no-mai-z-a-gi-ra-fa..."
- E eu acabava: "acharam uma garrafa!"...
Ele ria-se. Não parecia o mesmo, ganhara confiança em si. Agora queria que eu lhe ensinasse matemática...
Como acabou a história das mangas?
Confesso que não sei. A Milly esqueceu-se, suponho, ou ele prometeu não voltar ao “negócio” da banca.
A verdade é que hoje o Nini (Wildger, na rua), já crescido, tem dois filhos e é "comerciante". A ideia do tal negócio das mangas à porta da escola desenvolveu-se, aumentou na sua cabeça, e vende na “candonga”, termo são-tomense para dizer que troca divisas, vende artigos sem licença, onde calha, tudo o que calha, a quem calha...

Outro soneto lindo: Antero de Quental e o sonho









O Palácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!


Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!


Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!


Abrem-se as portas d'ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!


Antero de Quental , Sonetos
ilustrações:
Giovani Bellini, S. Jorge e o dragão
Paolo Ucello, S. Jorge e o dragão

Anne Frank

Aconselho-vos a nota hoje sobre Anne Frank, no blog http://sobreorisco.blogspot.com
É bom não esquecer... Passaram 65 anos, foi ontem...

domingo, 16 de agosto de 2009

Histórias da Casa Amarela: O Carnaval, ratinhos e violetas...





O Carnaval era nesse tempo da minha infância um momento mágico, para nós. Começávamos muito cedo a fazer os preparativos: descobrir os fatos de carnaval, o que, muitas vezes, se reduzia a ir à arca no sótão ver o que lá havia e tudo nos servia: saias de seda, blusas de rendas e as costumadas roupas “à moda do Minho”, lenços garridos, aventais de riscas coloridas, saias vermelhas.
A mim bastavam umas calças de pijama brancas do meu pai, as botas da escola, um pano branco por cima dos cabelos, atado com o cinto de fios torcidos de um velho robe de seda, para me sentir transformada em Lawrence das Arábias e estar preparada para seguir o meu avô nas deambulações dele pela cidade.
Preparávamos com antecedência saquinhos de pano com feijões para, depois, lançarmos, nas matinées do Carnaval, do velho Cine-Teatro.
A Hermínia parava com as suas costuras habituais e cosia à máquina os tais saquinhos que a minha mãe cortava em bocados de seda e de riscado, e alinhavava. O nosso trabalho era virá-los para ficarem do direito e enchê-los de feijão fradinho e atá-los no alto com uma fitinha ou mesmo só com linhas de coser bem apertadas. Pouco a pouco, o cesto da costura era um arco-íris de cores e desenhos variados.
O meu pai afastava-se desses divertimentos. Penso que detestava o Carnaval, considerando-o um período de estupidez e de primitivismo. Tinha razão. Recordo a brutalidade com que, nessas matinées, aparentemente inofensivas, visto que o público era, na maioria, constituído por crianças, se jogava afinal com violência. Contra os nossos saquinhos –que, ingenuamente, fazíamos ligeiros- eram lançadas autênticas pedradas, sacos pesados, cheios de grão, que eram catapultados lá de cima, da galeria ou do 3º balcão. Num intervalo dessas sessões (era no intervalo que a fúria da guerra dos saquinhos se desencadeava), a minha irmã mais velha recebeu um desses projécteis na cara o que lhe causou um derrame num dos olhos e teve de sair com o meu pai, furioso, para ser tratada.
Para nós, pelo contrário, cada dia era uma brincadeira nova a inventar: uma partida à Florinda, as caudas de papel ou de serpentinas penduradas nas costas com um alfinete de cabecinha, igual àqueles que eu costumava usar, dobrados, com uma linha, para tentar pescar os peixinhos encarnados no lago da Corredoura, coisa que nunca consegui, e, no fundo, nem queria.
Ou os sustos dos mascarados que batiam à porta ou amigos que vinham visitar-nos.
No café do meu avô, o Café Central, lembro-me de estar sozinha por detrás de uma grande vidraça sem saída e vir um grupo de mascarados brincar comigo, bater no vidro e assustar-me. Eu sabia que eles não podiam entrar mas a verdade é que eu também não podia fugir deles porque aquela sala estava ao fundo de um corredor que me separava da salvação da cozinha. Encostei-me ao lado do grande cortinado de veludo, fazendo-me pequenina até se esquecerem de mim e irem rua abaixo até ao Arco.
Uma noite, a nossa prima Helena veio pelas escadas e entrou, pela porta da cozinha, vestida com um pijama negro, um barrete de lã na cabeça, luvas brancas e uma máscara branca e dourada que era uma caveira.
Foi uma gritaria. A Florinda metia-se pela chaminé adentro, agachada, de mãos na boca, e aos "ais". A Hermínia encolhia-se detrás da máquina de coser, olhos esbugalhados como se visse o lobisomem de que costumava contar-nos histórias. A Rosalina ia recuando para a sala, escondendo-se no avental, a chamar pela minha mãe.
E nós ríamos, ríamos, um pouco histéricas, agarradas à mão do nosso pai, entre o medo e o prazer da cena. No fim, dávamos palmas quando ela era “desmascarada” pelo meu pai –que deixara a porta da rua aberta para ela poder entrar- e agora com medo que aquela excitação e aquele susto nos fizesse mal.

Mas houve uma história de um carnaval que não esqueci. Uma manhã, ainda cedinho, bateram ao martelo da porta. A Florinda, que andava a varrer as escadas, veio trazer ao quarto uma encomenda para a minha mãe.
Ainda deitada, e nós ao pé dela, começou a abrir o embrulho. Era uma caixa pequena de chocolates, e, dentro, com os chocolates, fitas, papéis de seda e violetas que cheiravam maravilhosamente. De repente, aturdidos, saem do meio das flores três ratinhos brancos minúsculos. A minha mãe largou a caixa e os ratinhos espalharam-se pela cama e saltaram para o chão. Era uma confusão no quarto.
Encostámo-nos ao espaldar da cama, de mãos na boca e olhos abertos: eram lindos os ratinhos, só tinha visto outros assim nas histórias da “Gata Borralheira”. Mas assustavam-nos.
A Florinda com a vassoura empurrou-os para a pá do lixo e levou-os.
- Florinda, não os mates! Por favor...
Ela disse que os ia deitar fora. Matou-os? Nunca soube, não quis saber.
Que culpa tinham os ratinhos das brincadeiras inconscientes dos humanos? Razão tinha o meu pai para não gostar do Carnaval...
Fechei os olhos e deu-me uma grande vontade de chorar.

sábado, 15 de agosto de 2009

Camilo Pessanha: dois sonetos

Deixo hoje dois sonetos de Camilo Pessanha:













Floriram por engano as rosas bravas

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?


Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!


E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

Camilo Pessanha "Clepsidra e outros poemas"
Colecção Poesia
Edições Ática, 1973










Passou o Outono já, já torna o frio...


Passou o Outono já, já torna o frio...
– Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
– O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Aguas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
– E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

Camilo Pessanha (Paisagens de Inverno), "Clepsidra e outros poemas"
Colecção Poesia
Edições Ática, 1973
Ilustrações:
1.Valandgui, magnólias
2. Odilon Redon, Ofélia entre as flores
3. Claude Monet, Inverno com neve

Camilo Pessanha: o poema "ao longe os barcos de flores"








~Ao longe os barcos de flores~

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
– Perdida voz que de entre as mais se exila,
– Festões de som dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Júlio Dinis e a Casa Amarela

































Júlio Dinis é outro escritor da minha infância. Que foi um prazer ler e muito me deu.
Dizem os manuais que foi o criador do romance "campesino" (rural) e, de facto, só "Uma Família Inglesa" é citadino (passa-se na cidade do Porto).
Mas mais importante do que isso é a força com que se afirmam os caracteres que põe em cena.
As suas personagens, tiradas, na sua maioria, da vida real, inspiradas nas pessoas com quem contactou e observou com cuidado, têm tanta naturalidade que muitas delas ainda hoje as "vemos". É o caso da tia Doroteia que aparece em "A Morgadinha dos Canaviais", imagem da tia, em casa de quem viveu um tempo, ou de Jenny, a maravilhosa Jenny de "Uma Família Inglesa", para a qual recebeu inspiração da sua prima e madrinha, Rita de Cássia. Ou Madalena e Cecília que ignoramos em quem se inspirou...
Escritor de análise psicológica preciosa, criador de mundos que eu tocara de perto -porque, vivendo perto do campo, fazendo férias em quintas, estavam-me próximos- e me interessavam; de personagens femininas cheias de contradições, de fraquezas, ou de grande rectidão; de ambientes verdadeiros.
Júlio Dinis viu (ou quis ver) sempre o mundo pelo prisma da fraternidade, do optimismo, dos sentimentos, do amor e da esperança. Isso para mim é positivo, sabe-me bem ler quando pego num livro dele.
Quanto à forma, é considerado um escritor de transição entre o romantismo e o realismo (click para ver).
Associo-o à minha infância e à Florinda e à minha casa amarela...
Foi um dos primeiros autores portugueses que li, com Camilo ("Doze casamentos Felizes" - sei lá porquê, foi um dos primeiros...), Alexandre Herculano e o “Eurico, o Presbítero” e a sua Hermengarda, “O Bobo", “O Arco de Sant’Ana" e "O Alfageme de Santarém", de Garrett, mais os "Contos" de Eça são os que recordo melhor desses tempos de leitura, quase à luz do fogão, diria...

Pois bem, os livros de Júlio Dinis lembram-me a Florinda...
Já aqui falei dela, pessoa inesquecível de inteligência e sensibilidade a quem faltou um pouco de beleza para ser mais feliz. Sofria muito com isso, era extremamente sensível à beleza, à elegância, à arte, gostando de música, pintura, era um ser belo no seu interior.
Gostava de aprender, imitava com admiração tudo o que nós fazíamos desde o andar de patins, às cópias, leituras e, mais tarde, quando chegámos ao Liceu, quis aprender algumas palavras de francês e de inglês.
Depois do jantar, o nosso serão passava-se muitas vezes na cozinha, sobretudo de Inverno, à braseira que lá estava debaixo da mesa redonda, junto da chaminé.
A braseira aquecia-nos mas o calor que o fogão de lenha mantinha durante horas era bem mais agradável, dando-nos um certo torpor. Mesmo apagado, por causa das brasas aquecia o ambiente todo e, sobretudo, as costas da Florinda que punha a cadeira de modo que se sentava quase em cima do fogão.
E começava a noite dos "trabalhos" de casa, a lição: cópias, ditados, leituras em voz alta ou, então, apenas leitura.
A minha irmã pequenina gostava de ditar e, mais do que tudo, de corrigir os erros da Florinda -que sublinhava com grossos traços de lápis vermelho.
- Flor! Tens cinco erros e dez faltas!, comunicava, contente.
- Não são erros, menina, é da letra, eu faço o “o” assim, com esta perninha...
E mostrava.
- Não é nada disso, falta-lhe mas é um “o”, puseste um "a"!
- Mas aqui está certo...
- Não, é erro, é uma falta de acento!, dizia sempre peremptória a pequenina, cheia de si.
Por vezes, os erros mereciam reguadas, dadas com uma tabuinha de madeira. A Florinda queixava-se "ai, ai", para ajudar à brincadeira, e a minha irmã ria.
E discutiam as duas até passarmos a outra distracção. Normalmente, era a leitura. Cada uma ia buscar o seu livro e ficávamos a ler, com os cotovelos encostados à camilha de cor clara, e o rádio a tocar baixinho.
A Rosalina começava a cabacear e dormia passados poucos minutos. Não conseguia ler um livro, apesar de ter aprendido connosco a ler e a contar. A Florinda embrenhava-se na história de “Os Fidalgos da Casa Mourisca” que passava, nessa altura, em folhetim radiofónico, e a entusiasmava. De vez em quando parava, a “pedir um significado”. O dicionário estava ao lado e todas corríamos a ver o que era. Às vezes, sabíamos o tal significado e ficávamos contentes a explicar à Florinda o que a palavra queria dizer.
Ela lia, atentamente, seguindo a leitura com um dedo que ia avançando, primeiro devagar, depois a uma certa velocidade. Aí, esquecia-se de pedir os significados.
Via as mãos dela vermelhas, brilhantes da gordura, gastas das lavagens, do uso de produtos que as estragavam. Ainda não havia cremes para as proteger, nem esfregões suaves: era o “espago”, a soda cáustica, a areia (para arear os tachos e ficarem brilhantes), e era a cré para polir os metais.
Eu pensava:
- Se calhar, vai sujar o livro...
Mas ela nunca deixava uma nódoa: lavava as mãos com sabão e limpava-as bem no avental antes do serão.
O livro dela (era dela, nós tínhamo-lo oferecido num Natal) estava amachucado nos cantos, com as páginas dobradas para “marcar” o sítio onde ficava, outras vezes enrodilhado porque pousava a cabeça em cima dele, adormecendo de repente.
Por fim, ficava só eu a ler e elas as duas a dormir. Eu era a última a largar os livros. A mais pequena fugira para as brincadeiras dela, a cantarolar, a mais velha impacientava-se, insatisfeita, e ia ter com os nossos pais à sala. Eu continuava a ler “A Morgadinha dos Canaviais”, engolindo páginas atrás de páginas.
A minha mãe chamava lá de dentro, mas nós não ouvímos: a Florinda e a Rosalina tinham adormecido profundamente e eu não queria ouvir nada.
Tinha que vir ela à cozinha acordá-las e dizer-me para ir já para a cama....
A Rosalina de olhos estremunhados e com as farripas da franja loira despenteadas espreguiçava-se. A Florinda, que tinha a cara deitada sobre o livro, bem agarrado com os dedos, resmungava que não estava a dormir.
Eu fingia não ouvir e continuava a ler, enrolando os cabelos num dedo, até a minha mãe ralhar.
- Já para a cama!
- É só mais um bocadinho, mamã, para acabar a página...
- Não.
Não valia a pena insistir, ela sabia bem que eu não ia só ler até ao fim da página. Levantava-me da cadeira, ia à sala arranjar a pasta, dizia "boa noite" e ia-me deitar.
Suspirava com o livro debaixo do braço, a caminho do nosso quarto.
O quarto estava às escuras, mas bastava a luz dos candeeiros da rua. Ia pôr o livro na estante em frente da minha cama, e despia-me. Sabia que a minha irmã mais velha estava acordada ainda. Começava já a sussurrar "Jana, Jana, quero falar só um bocadinho", dizia ela.
Tinha insónias e gostava de ficar a conversar comigo até adormecermos.

Passara mais um serão.
Desta vez com os livros de Júlio Dinis
e a sua Morgadinha dos Canaviais...
Ilustrações:
1. Cézanne, casa no campo
2. Mary Cassatt, o jardim
3. retrato de Júlio Dinis
4. capa de A Morgadinha dos Canaviais (Porto Editora)
5. capa de Uma Família Inglesa (Porto Editora)
6. Desenho de Júlio Dinis

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Mais escritores portugueses: E por que não os contos de Eça de Queirós?





"A aia"





São lindos os contos de Eça...
"A Aia"
Um dos meus preferidos foi sempre “A Aia”. Falo-vos dele tal como o recordo, lido na minha juventude, com os sentimentos que então tive...
Nunca esqueci esta história terrível!
Num castelo, o Príncipe dorme no seu berço de oiro e marfim. Abandonado ao sono, dorme envolto em panos de linho e de brocado.
Na noite, os bárbaros, o tio usurpador vêm para matar o príncipe, indefeso.
Só a aia, a fiel escrava, vela. Ouve, sente o barulho dos homens armados. Estremece mas decide. Depois esconde-se detrás dum reposteiro. Espera.
O príncipe, quase um bébé, é levado pelo seu agressor, sem piedade.
Os homens partem deixando para trás o vazio e a dor.
A Rainha, jovem e viúva, chora desesperada, todos gritam, arrancam as vestes. Mas o usurpador é morto pelas tropas fiéis ao futuro Rei. Lamentam, porém, o corpozinho roxo que encontraram ao pé do seu algoz.
Do seu canto, a Aia move-se devagar e vai ao outro berço, um berço pobre, de verga, e pega ao colo num menino. Estende-o à Rainha.
Era o príncipe, embrulhado numa lã áspera mas quentinha. O principezinho estava salvo.
Tudo quer oferecer, à Aia, a Rainha que a abraça como irmã. Leva-a à arca do tesouro real, para escolher o que quiser.
Ela, silenciosa, tudo recusa. E diz:
- Salvei o meu príncipe, agora vou dar de mamar ao meu filho.
Tira da arca aberta um punhal cravejado de diamantes e espeta-o no coração.

Esta é a ideia que guardo, neste ponto já eu chorava sem consolo. Para mim isto era o máximo da tragédia, da dor, do sacrifício.
Suspirava enquanto enxugava as lágrimas...
~

"O Suave Milagre"(1898)
(e "Outro Amável Milagre", em forma contracta, em páginas puríssimas, escrito, com outro título, em 1885)

Sim, há dois milagres, os dois igualmente puros, um mais reduzido na forma, o outro, mais tardio, com a opulência do estilo de Eça.
Os dois falam daquele menino doente, deitado na sua enxerga -e esta palavra estava, para mim, carregada de sugestões e imagens de sofrimento: evocava a palha húmida, envolta num pano sempre de riscas, o cheiro a mofo, a bolor, ao suor da doença e da fome. Jazia, pois, o menino, na enxerga, no chão de pedra de um velho casebre.
Jesus andava pela Galileia. Todos falavam dos milagres, da sua bondade, da pureza do seu olhar.
E o menino dizia:
- Mãe, eu queria ver Jesus...
A mãe sabia que Jesus não viria a uma pobre choupana, ver um pobre menino sem nada, que o chamava. E como poderia ela tentar ir buscá-lo, se nem os ricos o tinham encontrado?
Tentava consolá-lo, como as mães costumam fazer, quando não podem fazer mais nada, e dizem:
- Dorme, meu filho...
Lembro um filme lindo de Pasolini, “Ucellacci, Ucellini”, e uma cena arrepiante em que uma pobre mãe a quem o filho pede pão e que o não tem, à espera que venham buscar o dinheiro da renda que ela não tem, torce as mãos em desespero, e diz:
- Dorme! É ainda noite. Dorme...
Na história de Eça, o menino continuava a pedir:
- Mãe, eu queria ver Jesus...
Neste momento da leitura, eu só “queria” que Jesus chegasse, “sabia” que ele tinha de vir.
Esperava, ansiosa, de lágrimas nos olhos, e perguntava sempre o mesmo, sabendo bem como a história acabava, mas com medo:
- Virá?
Sim, ainda hoje pergunto: Jesus virá?


São Cristóvão

E depois havia a história do bom gigante, Cristóvão.
Um dia, Cristóvão, já velho, repousa junto do rio e vê aproximar-se um menino que lhe pede:
- Cristóvão, levas-me a casa dos meus pais, do lado de lá do rio?
É Inverno, a corrente é forte, as águas revoltas, e Cristóvão receia, mas põe o menino às costas, pega no cajado e entra pelo rio dentro.
A casa é longe, parece-lhe não avançar com a turbulência das águas, perde as forças:
- É ainda longe a casa dos teus pais, meu menino?
- É já perto... Mais um pouco, Cristóvão, é ali...
O menino pesa no seu ombro, um menino tão pequeno, e ele fraqueja, sente que vai cair.
- É longe, meu menino?
- Chegámos Cristóvão, esta é a casa dos meus pais.
Cristóvão não percebe, mas sente uma paz enorme. Está-se bem na casa do menino.
E adormece para sempre.

Era um conto que me sossegava, foi o que me ficou desta história...
Ilustrações:
1. retrato de Eça de Queirós
2. Zinaida Serebriakova, " jovem mulher", que eu associo à imagem que guardei da aia.
3. Perugino, "a entrega das chaves".
4. Um São Cristóvão popular.

(*) Sabem que Cristóvão quer dizer: "carregador de Cristo" (cristos+phoros)?

Viveu no século III DC, a lenda conta levava pessoas a atravessar o rio aos ombros, e, segundo a lenda, teria transportado Jesus menino...
Mas lindo, lindo de verdade é o "S. Cristóvão", de Eça, publicado nas "Lendas de Santos". Comovente, cheio de movimento e de vida, com uma linguagem simples e ao mesmo tempo muito rica. Vão procurar e ler!

Mais poetas e escritores portugueses: hoje António Nobre

















Hoje, António Nobre, um dos nossos maiores.

Enterro de Ophelia

Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar..
Deixal-a! (Fallae baixinho: agora mesmo se ficou...)
Como padres orando, os choupos formam ala,
Nas margens do ribeiro onde ella se afogou...
Toda de branco vae, n'esse habito de opala,
Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou,
Mas para um outro, horror! que tem por nome Valla,
D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!...
O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella,
Que a perseguia sempre, em palacio e na rua,
Vede-o, coitado! mal pode suster a vela...
Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros,
E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua,
Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!

António Nobre, in 'Só'























Ballada do Caixão

O meu vizinho é carpinteiro,
Algibebe de Dona Morte:
Ponteia e coze, o dia inteiro,
Fatos de pau de toda a sorte:
Mogno, debruados de velludo
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vae a aborrecer
Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,
Havia immenso que fazer!...)
- Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva?
- Vamos ver...
Olhou, mexeu na caza toda...
- Eis aqui um e bem barato.
- Está na moda? - Está na moda.
(Gostei e nem quiz apreçal-o:
Muito justinho, pouca roda...)
- Quando posso mandar buscal-o?
- Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:
(Poz-se o bom homem a aplainal-o...)
Ó meus amigos! salvo-erro,
Juro-o pela alma, pelo céu!
Nenhum de vós, ao meu enterro,
Irá mais dandy, olhae! do que eu!
António Nobre, in 'Só'
************
Ilustrações:
1. "Ofélia", de John Everett Millais
2. fotografia de António Nobre
3. "Nenúfares" (nympheas) , de Monet
4.Busto de António Nobre, no Penedo
5. fotografia de António Nobre

domingo, 9 de agosto de 2009

Hoje tive saudades dos nossos poetas...Deixo-vos Cesário e "Cristalizações"







Hoje olhei o meu blog e pensei: falo pouco escritores portugueses, dos nossos poetas, e é injusto...
Logo me veio à memória Cesário Verde, um dos mais amados, e os versos de"Cristalizações.

O poeta passeia pela cidade e observa. E leva-nos com ele, atrás das cores, das figuras, a perceber a luz, os cheiros, os sentimentos.


Começa o poeta:

"Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,/vibra uma intensa claridade crua./ De cócoras, em linha, os calceteiros,/ Com lentidão, terrosos e grosseiros,/ Calçam de lado a lado a longa rua."

E nós vemos a imagem frente aos olhos: o trabalho bruto, a força física, o olhar boçal dos calceteiros, "a sua barba agreste! A lã dos seus barretes!"

São, depois, as peixeiras que chegam, na manhã fria, "dando aos rins que a marcha agita,/ Disseminadas, gritam as peixeiras;/ Luzem, aquecem na manhã bonita,/ Uns barracões de gente pobrezita/ E uns quintalórios velhos com parreiras."
Mais o povo, a gente pobre, os quintalórios...

E, logo, contraposta, a poética elegância friorenta da actrizita que, com "ar matinal de quem saiu da toca", atravessa a rua, nessa manhã de Dezembro, de árvores desfolhadas e sem flores, com seu perfil fino e aguçado, a tiritar, "toda abafada, num casaco à russa".
Tudo o poeta observa e sente, à luz do sol de Inverno. E tem vontade de viver. E pinta o que vê...

"Lavo, refresco, limpo os meus sentidos. /E tangem-me, excitados, sacudidos, /O tacto, a vista, o ouvido, o gosto e o olfacto!"; vê : "os ares, o caminho, a luz reagem"; cheira e saboreia a vida à volta : "Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;/ Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura."
Os trabalhadores vão calcetando a rua e a actriz, que à noite o poeta tanto cumprimenta -"e a quem, na plateia, atraio/ Os olhos lisos como polimento" - passa de leve, absorta, tiritando em suas peles "nestes sítios urbanos, reles!"
E compara-os, quando ela os cruza:

"Eles, bovinos, másculos, ossudos, /Encaram-na sanguínea, brutamente" . Ela "vacila, hesita, impaciente/ Sobre as botinhas de tacões agudos./ (...) arrisca-se, atravessa/Covas, entulhos, lamaçais, depressa", afastando-se na sua fragilidade forte.
E um grito de revolta do poeta pela dureza da vida do homem que trabalha, em tão duras condições: "Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!/ Que vida tão custosa! Que diabo!"
E ainda: "Povo! No pano cru rasgado das camisas/Uma bandeira penso que transluz!/
"(...) Com ela sofres, bebes, agonizas;/Listrões de vinho lançam-lhe as divisas, / E os suspensórios reaçam-lhe uma cruz!"
E fecha com a imagem saltitante da actriz que corre para o seu ensaio.

Aqui vos deixo uma coisa bela...

“Cristalizações”
A Bettencourt Rodrigues, meu amigo.

Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócoras, em linha os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações secaram do relento,
E o descoberto Sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças de água, como um chão vidrento,
Reflectem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã bonita,
Uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra - que união sonora! -
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros , baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas, os coletes;
E eles descalçam com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras.

E nesse rude mês, que não consente as flores,
Fundeiam, como a esquadra em fria paz,
As árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
Atiram terra com as largas pás.

Eu julgo-me no Norte, ao frio - o grande agente!-
Carros de mão, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!

Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;
Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O céu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto, que eu diria
Ter ante mim lagoas de brilhantes!

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exacto.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
De tão lavada e igual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um pára enquanto eu passo;
Dois assobiam, altas as marretas
Possantes, grossas, temperadas de aço;
E um gordo, o mestre, com um ar ralaço
E manso, tira o nível das valetas.

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custosa! Que diabo!
E os cavadores descansam as enxadas,
E cospem nas calosas mãos gretadas,
Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se aguça;
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina, desemboca,
Toda abafada num casaco à russa.

Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento
E a quem, à noite na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio.

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como lajões. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lezírias, dos montados:
Os das planícies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
Furtiva a tiritar em suas peles,
Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
Neste Dezembro enérgico, sucinto,
E nestes sítios suburbanos, reles!

Como animais comuns, que uma picada esquente,
Eles, bovinos, másculos, ossudos,
Encaram-na, sanguínea, brutamente:
E ela vacila, hesita, impaciente
Sobre as botinas de tacões agudos.

Porém, desempenhando o seu papel na peça,
Sem que inda o público a passagem abra,
O demonico arrisca-se, atravessa
Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
Com seus pezinhos rápidos, de cabra!

Lisboa, Inverno de 1878
(Publicado na Revista de Coimbra, no.1 1879 & Correspondência de Coimbra, 17 de Junho de 1879.)
In “Obra Completa”, colecção POETAS DE HOJE, Portugália
Ilustrações:
1. Vlaminck (Escolhi esta obra de Vlaminck ...porque me pareceu próxima de "Cristalizações")
2. Bailarinas, de Degas -a actrizita vai para um ensaio. Por que não?
3.Retrato de Cesário Verde
4. Outra dançarina, agora de Zinaida Serebriakova de quem já vos falei aqui.