sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Manuel Bandeira: ainda um soneto de amor




poesia e flores para Valandgui
CONFISSÃO

Se não a vejo e o espírito a afigura,
Cresce este meu desejo de hora em hora...
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.

Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura...
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora...


E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo...


Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim...tão linda e rara...
Que hesito, balbucio e me acobardo.

Os Olhos de Jade: capítulo 6





CAPÍTULO 6

A noite estava fria. Joan sentia-se gelada, não sabia o que dizer.
"Sim, ele tem razão, estavam perdidos...", pensava.
- Ouve, Gabriel, não quero agredir-te, não falemos mais nisso. Percebo que tem sido muito penoso para todos, não devemos magoar-nos... Por isso mesmo é que não podemos aceitar a morte dela. Como se fosse uma fatalidade, e ficar parados! Não sei por onde começar, claro, mas há-de existir uma pista! Tem de haver uma razão!
-Mas, qual?...
-Não notaste nada de estranho, nesses últimos dias? Pessoas que apareceram... ou cartas que chegaram?!
-Como queres que me lembre? Como posso saber o que é importante recordar? É absurdo...
Joan passou a mão pelos olhos, abanou a cabeça e suspirou:
-Tens razão, é absurdo... Nada disto tem sentido. O melhor é irmo-nos deitar, não vale a pena insistir... Estamos demasiado cansados. É inútil...
Calou-se. Parecia ouvir a música pela primeira vez. Virando-se para ele, exclamou:
-É linda esta música, Gabriel. Faz impressão pensar que está morta, magoa tanto... A mãe ainda tocava piano? Lembro-me tão bem de a ouvir quando era pequenina. Escondia-me detrás dos cortinados de renda, com os joelhos bem apertados contra o peito, parecia que me doía tudo.
Gabriel olhava para a lareira.
-Tens razão, talvez a atitude dela tivesse mudado...Tinha deixado de tocar. Agora é que reparo nisso...
Gabriel olhava para a lareira.
-Tens razão, talvez a atitude dela tivesse mudado...Tinha deixado de tocar. Agora é que reparo nisso. Andava preocupada, parecia triste, fechava-se no quarto, escrevia. Estava sempre com papéis à volta...
-E onde estão esses papéis? O que é que escrevia? A mãe mandou-me uma carta. Falava de uns papéis, de coisas “horríveis”, do passado...Tens ideia do que era? O passado... Talvez haja aí uma pista.
-Nunca me falou em papéis. Como é que vamos encontrar uma pista nos papéis? Se nem sabemos do que se trata! Não faço a menor ideia onde possam estar!
-Mas procuramos. No passado...
-No passado dela? Podes ter razão... Sim, pode ser. Preciso de tempo para pensar...
Calou-se, e depois acrescentou:
-E o Zurigo? Sabe mais do que a gente julga. A tua mãe estava sempre a falar com ele. De África, dos amigos, das noites iguais aos dias, das marés. Sei lá que mais! Nunca se cansavam de falar...
Serviu-se de outro whisky e continuou:
-Na noite em que a Abigail morreu, passei no quarto a dar-lhe as boas noite. Ele estava sentado na cadeira, ao lado da cama. E ficou ainda muito tempo.
Hesitou e acrescentou, como se recordasse de repente:
-Ela não se sentia bem, tinha febre, queixara-se de dores. O Zurigo trouxe-lhe um chá de ervas. O Dr. Smith tinha-lhe receitado umas cápsulas, mas ela adorava os chás que ele lhe fazia.
-E depois?
-Ouvi-o dizer, quando fechava a porta: “Prometo, prometo...” E chamou-lhe “mãezinha”, como fazia nos momentos sérios. Tu lembras-te...
-Sim, eu sei, eu sei... Levava a vida a dizer que ela era uma mãe e uma filha... “Hoje sou seu filho, amanhã sou seu pai...” Lembro-me tão bem desta frase. Não me tinhas contado! O que é que lhe estaria a prometer?
-Não sei...
-Não te lembras de mais nada?
-Assim de repente, não...
-A Alice falou num jantar. Disse que a mãe estava muito nervosa nesse dia. Quem é que veio jantar?
-Sim, houve um jantar. Ela é que decidiu de repente. Marcou tudo, fez os convites. Foi uns dois ou três dias antes de adoecer...
-Isso é importante. As tias falaram nesse jantar.
Gabriel continuou, devagar.
-Ao jantar já tinha febre, disse-o à mesa, lembro-me agora. Daí termos pensado que fosse paludismo... E depois.. Sim, nessa mesma noite o médico deu-lhe o tal remédio. A doença não durou muito tempo, aliás. Ainda me parece impossível...Quando a vi...
-Foste tu que a encontraste? Eu não sei nada...
-Sim... Todas as manhãs ia saber dela...
-Sim, Gabriel...Diz.
Joan olhava para ele, ansiosa.
-Tinha os cabelos espalhados sobre a cara, julguei que dormia...
Gabriel suspirou:
- Estava morta...
-Desculpa, foi com certeza um choque tremendo, mas para mim é importante falar nisto. Era a minha mãe... Gabriel, tem paciência, tens de fazer um esforço, mesmo que seja doloroso. Tem de haver uma coisa qualquer! Daí é que temos que partir...
-Talvez tenhas razão...
-Oh! Gabriel, Gabriel, como é difícil. Que tristeza tão grande...
-Sim, é muito difícil...
Ficaram calados um momento. Depois Joan levantou-se lentamente da cadeira e disse:
-Acabou tudo... Estou muito cansada.Vou-me deitar. Vê se descansas um pouco, também... Não devia ser injusta, no fundo gostavas tanto dela como nós, desculpa...Talvez ainda vamos a tempo de ser amigos...
-Sim...
-Tanta coisa que aconteceu! Não julgues que sou só uma céptica, uma egoísta... Tenho tido os meus problema como toda a gente... Foi bom conversar contigo...
Olhou para ele com tristeza, estendeu a mão, hesitando no gesto incompleto. Virou-se para sair mas, de repente, fixou o canto da lareira e perguntou:
-Onde é que foram descobrir este candeeiro?
Apontava para um candeeiro pequeno sobre a mesa baixa ao lado da lareira. A base era uma figura de bronze, arte nova, com um abat-jour de vidro fosco branco que desenhava uma cabeça de mulher em forma de flor, com os olhos de jade, rasgados e oblíquos, pelos quais se filtrava uma luz suave e difusa.
-Ideias da tua mãe...
Fixava atentamente o candeeiro.
-Gostava muito do jade, comprava anéis sempre que os via. Dizia que o David tinha olhos de jade...
Hesitou:
-Não sei se isto é jade ou só vidro coalhado da mesma cor.
-Sim, o meu pai tinha olhos verdes. Da cor do jade. Um dia explicaram-me que o jade pode ter várias tonalidades, chega a ser castanho. Sabias? Nem queria acreditar! Para mim o jade foi sempre verde! É considerado o símbolo da virtude, sabias?...
-Será...
Gabriel parecia distraído.
-É muito bonito o candeeiro. Não estava cá da última vez...
-Não posso jurar... A Abigail comprou-o numa loja de antiguidades em Londres.
Parou como se pensasse.
-Tens razão, é recente. Perguntei-lhe onde o comprou, não me respondeu e foi pô-lo nessa mesa. Acendia-o todas as noites e sentava-se no sofá em frente. Às vezes, via-a a olhar para ele.
-Por que seria?
- Não sei. Fechava-se dentro dela.
Joan aproximou-se e tentou pegar-lhe. Era um objecto pequeno, mas pesado.
“O brilho nos olhos de jade”. Pensou na carta da mãe.
-É estranho... A base é de bronze? É pesadíssimo!
-Nunca lhe peguei.
Joan suspirou e acabou por dizer baixinho:
-Tudo me parece esquisito, no fundo é só um candeeiro...
Pegou numa caixa de chocolates que estava na mesa e tirou um.
-Qualquer coisa doce... Queres, Gabriel?
-Oh! Não, Joan, nem lhes posso tocar, sou alérgico... A tua mãe é que adorava todo os tipos de chocolate, não resistia...
-Eu sei, sou como ela... Boa noite...
Antes de chegar à porta, virou-se:
-Gabriel, queria pedir-te se me emprestavas o carro. Gostava de dar umas voltas por aí, antes do Michael chegar. Talvez vá a Brighton para desanuviar...
-É como se fosse teu, usa-o à vontade, eu não precisar dele, começaram as férias do Natal...
-Que Natal... Até amanhã, Gabriel. Repousa.
-Boa noite. Obrigado por teres falado e por me teres ouvido. Talvez não seja tarde para sermos amigos...

Gabriel ficou sentado a olhar para as chamas, agitando o whisky no copo. As horas iam passando e o sono não chegava. Levantou-se, serviu-se de outra bebida e pôs-se a andar pela sala de um lado para o outro. Tinha rugas vincadas na testa e as sobrancelhas franzidas como se pensasse em qualquer coisa que lhe custava a compreeender.
-Procurar no passado?, perguntou a si próprio em voz alta.
Ia pensando:
"No passado, em África? No fim, estivemos todos lá!"
E continuva a pensar:
"E o David? O que terá acontecido ao David?...Ainda hoje não sei o que lhe aconteceu exactamente... Por onde andará? E os outros? O que saberão? Conhecemo-nos ali todos... O Travis e o Croft também lá estiveram. Como é que posso saber onde andam os papéis?!? Onde hei-de procurar? Nos papéis dela, claro, como sugeriu a Joan... Oh! Sim! A pasta de veludo!"
Lembrara-se da velha pasta de veludo cinzento onde Abigail guardava tudo.
"Era a sua memória, dizia ela. Continha velhas fotografias, contas, as cartas que recebia de David. Chegavam todos os meses, regularmente. Lembrava-se bem dos envelopes sempre iguais. Nunca lhe perguntara o que eram, mas vira escrito o nome David Brenner e uma direcção de Nova Iorque".
No quarto de Abigail encontrou o que procurava. Dirigiu-se ao escritório, sentou-se à secretária e, quando abriu a pasta de veludo, descobriu três cadernos cobertos com a caligrafia irregular de Abigail.
Começou a ler e não deu pelas horas passarem. Amanhecia quando se foi deitar.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Ainda Agatha Christie: a "desaparecida"










Num comentário sobre o post "Agatha Christie, 15 de







Num comentário a um post meu em 15 de Setembro, "Agatha: o dia do seu aniversário", uma leitora refere os dias em que ela esteve "desaparecida", supõe-se que em choque -como diz muito bem a leitora- com a ideia do marido querer o divórcio.

Pergunta se sei onde poderia encontrar referências a esse desaparecimento. E confessa que o seu Poirot preferido é Albert Finney no filme "Expresso do Oriente". Concordo com ela que Finney é um actor magnífico ( e recordo tantos outros filmes dele, o último que me lmbro "O Peixe" de Tim Burton é lindo e com uma representação dele muito boa) mas David Suchet foi "tantas vezes" um bom Poirot -e bem- que não posso deixar de me lembrar sempre dele (até estou a "rever" DVDs que já "revi" há uns tempos...

Sobre a "fuga" encontrei muita coisa na Biografia que aqui referi de Laura Thompson, "Agatha Christie, An English Mystery" publicado em 2007 em Londres, no Headline Publishing Group (capítulo "The Quarry", pgs 186-258) em que a autora da biografia recria esses momentos.



No meu blog, em 7 de Julho (Agatha, a desaparecida), lembro-me que, baseando-me no que diz Laura Thompson, escrevi:




"Agatha Christie desapareceu na noite do dia 3 de Dezembro de 1926, perto da meia-noite.

Foi encontrada, onze dias depois, numa terrinha do Yorkshire, Harrowgate, onde esteve instalada todo esse tempo numas termas, dizendo chamar-se Mrs. Neele.

Muita tinta correu sobre este acontecimento, várias foram as explicações, muitas as dúvidas que ficaram ... E o mistério continua.
A "Mulher-Mistério", chamaram-lhe na altura. Amnésia? Tentativa de auto-publicidade? Ou, antes, vontade de desaparecer, num momento de desconsolo, de sentimento de abandono, de desconforto? Ou, porque não, chantagem afectiva ao marido?
Segundo a sua biógrafa Laura Thompson, os factos passaram-se do seguinte modo e as causas podem ter sido as que ela aponta.
As relações de Agatha e Archie, o grande (e único?) amor da sua vida, tinham esfriado há algum tempo.

Porque Agatha era uma mulher demasiado independente, exigia demasiado tempo para si e para os seus livros e teria abandonado Archie?

Porque Archie viera fragilizado da Guerra e dependia dela? E isolara-se, afastara-se quando a sentira distante?

Agatha Christie era uma mulher forte, auto suficiente, sem dúvida, mas Archie fora e era o seu grande amor.

Havia outra razão para esse aparente afastamento: a mãe da escritora, Clara Miller, com quem ela tinha uma relação fortíssima -e de dependência enorme, apesar da sua força-, adoecera gravemente e Agatha -abaladíssima, pois eram as duas inseparáveis-, fora para o pé dela uns dias. Archie, entretanto, estava a trabalhar em Espanha.

Quando a mãe morre, uns meses depois, Agatha inconsolável, devastada psicologicamente, volta à casa onde passara a sua juventude e não consegue separar-se da imagem da mãe, das recordações, e, quando Archie lhe pede que vá com ele para Espanha, recusa, deixando Archie voltar para trás, sozinho.

Demasiado deprimida para sair daquela casa que amara e onde todo o passado lhe volta à memória, fica por ali, com o pretexto de arrumar a casa, separar coisas. Quando Archie volta dessa estadia em Espanha, prefere ficar a viver no seu clube, em Londres, e, pouco a pouco, vão-se afastando.

Por outro lado, depois da gravidez, Agatha, que era linda, perdera a sua elegância, engordara nesses anos, vestia-se sem cuidado, deixara de ser a jovem bela, esguia, de cabelo loiro bem arranjado, que Archie conhecera muitos anos antes e por quem tivera uma paixão louca.Aquele “laisser-aller” da mulher desorienta Archie, sensível à beleza.

Nesse momento aparecera no horizonte uma jovem, bela morena, ágil e desportiva, sempre disponível, que o ouve atentamente. Com quem ele começa a jogar golf, primeiro, depois, a conversar e jogar bridge e cuja companhia lhe é extremamente agradável e passa a ser-lhe necessária.

Agatha, presa da sua dor, não se dá conta desse afastamento, ilude-se, pensa: “agora que voltei a estar magra como ele gostava, vai correr tudo bem”, procura Archie e começa a planear umas férias juntos. Archie, porém, não quer voltar atrás, sente-se bem com o que tem: aquele novo conhecimento, aquela pessoa que o envolve e acompanha, e não vem sequer passar um fim de semana com Agatha e a filha, Rosalind.

Ela percebe que ele prefere ficar perto do seu golf, sem se preocupar com o desgosto ou a solidão dela, e, nesse momento, sofre com o afastamento dele, mas ignora essa paixão do marido. Archie volta uma noite e ela sente-o mudado, nota-lhe uma expressão ausente, parece um estranho e acaba por lhe confessar o seu amor por Nancy Neele e a sua vontade de se divorciar.

Sem ouvir os protestos dela, parte para Londres. Agatha pede-lhe que volte. Não quer acreditar no fim do amor deles, insiste para que reatem a relação, ela ama-o da mesma maneira, e há a filha que precisa dele...

Ele volta e passam três meses juntos. Agatha faz planos para o futuro, viajam nos Pirinéus, mas sentem os dois que não é o mesmo sentimento que dantes era: Agatha anda deprimida, põe um ar passivo, sofredor, que o enerva. Archie sentindo-se culpado, reage, sendo cruel com ela.

Agatha não desiste. No regresso, propõe-lhe fazerem uma viagem a Itália, no Inverno, e, apesar de ele não se mostrar interessado, combinam uma data. O tempo vai passando.

Chega a noite de 6ª feira, 3 de Dezembro. Deveriam partir, na manhã seguinte para um fim de semana no Yorkshire. Mas Archie não volta a casa nessa noite, nem lhe diz nada. Agatha espera, com as malas feitas, desespera e decide ir-se embora quando percebe que ele não vem.

O que pensou nessa noite, o que decidiu fazer, realmente, ignora-se.

Talvez tenha pensado em suicidar-se, talvez tenha apenas encenado essa intenção: a verdade é que conduz o carro até uma ribanceira e, deixando-o destravado, deixa-o ir por ali abaixo.

Antes, pusera os documentos no assento.

Porquê? Para o carro ser identificado mais depressa e, assim, saberem do seu desaparecimento? Para se preocuparem com ela? Para acreditarem na sua morte? No seu assassínio? Num rapto?Vai a pé até à estação de comboio mais próxima e apanha um comboio para Londres. Ali, compra um casaco novo e alguma roupa e volta a apanhar o comboio, agora para Harrowgate, onde se apeia e procura um quarto numa pensão, dizendo ser Mrs. Neele (ironia) e ter chegado da África do Sul, à espera que lhe enviem as bagagens.

Antes, escrevera uma carta ao irmão de Archie, Campbell -que era o seu maior amigo e a única pessoa em quem confiava verdadeiramente. Diz-lhe que está cansada, deprimida, e que vai repousar para umas termas para os lados do Yorkshire.
Pretenderia deixar a carta como uma pista? Julgando que o cunhado, conhecendo-a bem, percebesse que era um pedido de socorro: que dissesse a Archie que ela estava mal e precisava dele ?

Laura Thompson é dessa opinião. Mas o que acontece é que a mensagem é mal interpretada, a carta é rasgada porque ele se convence que Agatha a enviou como “pista falsa” para esconder os seus reais movimentos.

Conclusão dele: Agatha não quer ser encontrada e ele não vai traí-la...E as buscas começam, a polícia é avisada, investiga, e a suspeita cai sobre Archie, acreditam que ele a matou –um drama e um mistério! Os jornais assinalam o desaparecimento, fotos dela surgem por toda a parte.

E os dias vão passando. Na pensão de Harrowgate, Agatha lê os jornais e aguarda que Archie chegue. Talvez ignore que a sua misteriosa ausência conduziu a polícia à hipótese de um crime -e Archie foi quase acusado do seu assassinato.

Agatha, parentemente, faz uma vida normal: sai, compra roupas, enfeita-se, faz tratamentos nas termas, fala com os outros hóspedes, dança, ouve jazz todas as noites –uma banda vem tocar à pensão-, interessa-se pelas pessoas.

Dura tudo onze dias, ao fim dos quais a polícia consegue descobrir o seu paradeiro. Alguém a reconhecera nas fotografias que apareciam constantemente nos jornais: Mrs. Neele é afinal Agatha Christie.

Archie vai procurá-la à pensão e, no dia seguinte, a irmã de Agatha vem buscá-la. Regressam a casa, mudando várias vezes de comboio, para despistar os jornalistas e ela vai refugiar-se no campo, na casa onde a mãe vivera.

Durante um tempo ela e Archie tentam viver juntos, até perceberem que tudo estava acabado.

E nunca se saberá, exactamente, a razão daquela fuga. Tudo o que imaginarmos não passará de simples suposição.

A Lady do crime fez do seu desaparecimento um mistério como nos seus livros..."







Ilustrações:



1. capa do DVD-filme de Michael Apted, "Agatha", 1979, com Vanessa Redgrave, Dustin Hoffman, Tymothy Dalton.

Nota: Michael Apted (nascido em Aylesbury, condado de Buckinghamshire, Inglaterra, 10 de Fevereiro de 1941), é um realizador de cinema inglês.

2. fotografias que constam do livro de Laura Thompson: jornais que anunciam o desaparecimento de Agatha Christie.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Poesia: Camões, Boticelli, a beleza e o amor

















A sua data de nascimento é incerta.
Camões morreu a 10 de Junho de 1580, ao que se diz, na miséria. No entanto, é difícil distinguir aquilo que é realidade, daquilo que é mito e lenda romântica, criados em torno da sua vida. O que se sabe é que a poesia dele é muito profunda e bela! Escolhi alguns sonetos e a redondilha "Sôbolos rios", como é conhecido o poema "Redondilhas de Babel e Sião" .














*

Está-se a Primavera trasladando
Em vossa vista deleitosa e honesta;
Nas belas faces, e na boca e testa,
Cecéns, rosas, e cravos debuxando.

De sorte, vosso gesto matizando,
Natura quanto pode manifesta,
Que o monte, o campo, o rio, e a floresta,
Se estão de vós, Senhora, namorando.

Se agora não quereis que quem vos ama
Possa colher o fruto destas flores,
Perderão toda a graça os vossos olhos.

Porque pouco aproveita, linda Dama,
Que semeasse o Amor em vós amores,
Se vossa condição produz abrolhos.









*

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando;
Num' hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um' hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.









*

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te
Algũa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

*

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjugaram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.


Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
Dei cousa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh, quem tanto pudesse que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

*

Aqueles claros olhos que chorando
ficavam, quando deles me partia,
agora que farão? Quem mo diria?
Se por ventura estarão em mim cuidando?
Se terão na memória, como ou quando
deles me vim tão longe de alegria?
Ou se estarão aquele alegre dia,
que torne a vê-los, na alma figurando?

Se contarão as horas e os momentos?
Se acharão num momento muitos anos?
e falarão co as aves e cos ventos?

Oh! bem-aventurados fingimentos
que, nesta ausência, tão doces enganos
sabeis fazer aos tristes pensamentos!





*


Redondilhas de Babel e Sião

Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
Onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

Ali, lembranças contentes
n'alma se representaram,
minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.


E vi que todos os danos
se causavam das mudança
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.
Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.


Vi aquilo que mais val,
que então se entende milhor
quanto mais perdido for;
vi o bem suceder o mal,
e o mal, muito pior,
E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
e vejo-me a mim, que espalho
tristes palavras ao vento.

Bem são rios estas águas
com que banho este papel;
bem parece ser cruel
variedade de mágoas
e confusão de Babel.
Como homem que, por exemplo,
dos transes em que se achou,
despois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo


suas armas pendurou,
assi, despois que assentei
que tudo o tempo gastava,
da tristeza que tomei,
nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,dizendo:
«Música amada,
deixo-vos neste arvoredo
à memória consagrada.


Frauta minha que, tangendo,
os montes fazíeis vir
para onde estáveis, correndo;
e as águas, que iam decendo,
tornavam logo a subir.
Jamais vos não ouvirão
os tigres, que se amansavam
e as ovelhas, que pastavam,
das ervas se fartarão
que, por vos ouvir, deixavam.


Já não fareis docemente
em rosas tornar abrolhos
na ribeira florecente;
nem poreis freio à corrente,
e mais, se for dos meus olhos.
Não movereis a espessura,
nem podereis já trazer
atrás vós a fonte pura,
pois não pudestes mover
desconcertos da ventura.


Ficareis oferecida
à Fama, que sempre vela,
frauta de mim tão querida;
porque, mudando-se a vida,
se mudam os gostos dela.
Acha a tenra mocidade
prazeres acomodados,
e logo a maior idade
já sente por pouquedade
aqueles gostos passados.
(...)


As estrofes da redondilha continuam: são 35.
Podem –devem- procurar lê-las.
Ilustrações:
1. Boticelli, pormenor de "Vénus e Marte"
2. retrato de Luís de Camões
3. Boticelli, "A Primavera"
4. Boticelli, pormenor de "O nascimento de Vénus"
5. Boticelli, retrato de mulher
6. Reuven Rubin, Jerusalém, ao longe
7. Reuven Rubin, Jerusalém mais perto
8. Jerusalém, gravura do séc. XIX

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Agatha Christie: um "Quiz" para investigarem o que sabem dela e da sua obra: difícil de resolver, aviso...



"QUIZ" SOBRE AGATHA CHRISTIE:
(O QUE SABES SOBRE ELA?)


Publicado no jornal inglês, The Guardian, de 14 September 2009


Escolher um dos nomes, ou respostas (quem souber inglês...) :


1. 1. Hercule Poirot and Miss Marple are Agatha Christie’s most famous detectives, but she also created a host of other mystery solvers. Which of the following is NOT a Christie detective?
*Tuppence Beresford
*Roger Ackroyd
*Harley Quin
*Parker Pyne


2. 2. How many murders did Miss Marple solve?
*3
*36
*47
*102


3. 3. And how many cups of tea did she drink over the 12 novels and 20 short stories in which she appears?
*22
*68
*143
*740


4. 4. Which Guinness world record does Christie hold?


*Oldest novelist to have had a book published
*Most murders in her novels
*World's bestselling novelist
*Novelist most frequently adapted for TV


5. 5. Under what name did Christie write general fiction?
*Mary Wesley
*Mary Westmacott
*LC Fisher
*Georgina McCullagh


6. 6. What happened to Christie in December 1926?
*She met a suave moustachioed Belgian detective who inspired the character of Hercule Poirot
*She disappeared for 11 days
*She was acclaimed by the press for solving a real-life murder in her local village
*She first set pen to paper


7. 7. What was Christie’s first novel?
*The Mysterious Affair at Styles
*Death on the Nile
*Murder for Christmas
*The Seven Dials Mystery


8. 8. Agatha Christie’s job during the first world war gave her knowledge that would later feed into her murder mysteries. What was the job, and what was the knowledge?
*As a servant in a stately home, teaching her about the life of the upper classes
*As a policewoman, giving her an insight into the way detectives work
*As a nurse, giving her a working knowledge of poisons
*As a sniper, teaching her about guns


9. 9. How did Christie describe Hercule Poirot, when explaining why he wouldn’t have liked *Miss Marple?
*As “a complete egoist”
*As “a silly little man”
*As “the embodiment of all my desires”
*As “a fussy Belgian twerp”


10. 10. Christie’s play The Mousetrap is the longest-running in history – how long has it been going for?
*80 years
*57 years
*42 years
*25 years


11. 11. And what is its plot?
*The passengers on a train conspire to kill a fellow passenger
*A serial killer is on the loose in a small Devon village
*A murder occurs in a hotel where the guests are trapped by snow
*After a murder at a butler's convention, everyone is a suspect

GOOD LUCK!


Printable version
Send to a friend
Share
Clip
Contact us
larger smaller
Email
Close
Recipient's email address
Your first name
Your surname
Add a note (optional)
books.editor@guardianunlimited.co.uk
Report errors or inaccuracies: userhelp@guardian.co.uk
Letters for publication should be sent to: letters@guardian.co.uk
If you need help using the site: userhelp@guardian.co.uk
Call the main Guardian and Observer switchboard: +44 (0)20 3353 2000
·
Advertising guide
License/buy our content
Books
Agatha Christie ·
Crime books
Culture
More quizzes
· More on this story
·
Agatha Christie and I
Val McDermid: It turns out that I have more in common with Miss Marple's creator than I thought
· More about Agatha Christie
Printable version
Send to a friend
Share
Clip
Contact us
Email
Close
Recipient's email address
Your first name
Your surname
Add a note (optional)

Agatha Christie: 15 de Setembro: é hoje o dia do seu aniversário!





































Agatha Christie e Poirot estão de parabéns...
Agatha Mary Clarissa Mallowan nasce em Torquay, a 15 de Setembro de 1890 e morre em Wallingford, a 12 de Janeiro de 1976. É mundialmente conhecida como Agatha Christie, e -como todos sabem- foi uma romancista policial inglesa autora de mais de oitenta livros.
Os seus livros são os mais traduzidos de todo o mundo, superados apenas pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare.
É conhecida como Dama do Crime, Duquesa da Morte, Rainha do Crime, eu chamo-lhe Lady do Crime (em homenagem a outra Lady: Billie Holiday, Lady Day para os amigos).
Hoje, pois, é o dia do aniversário da Lady do Crime.
O primeiro detective que Agatha Christie criou é de nacionalidade belga, chama-se Poirot e surge no livro The Mysterous Affair at Styles.






Incluindo Poirot, os seus personagens mais famosos são:

Hercule Poirot é um grande detective criado pela autora em 1920, e conhecido pelo poder das suas "celulazinhas cinzentas" que o fazem resolver os casos todos e protagonista da maioria dos seus livros. Grande número das obras onde Poirot deram origem a filmes, séries de televisão, rádio e teatro, etc.;




Miss Marple é uma personagem de ficção presente em doze obras de Agatha Christie. É uma velha solteirona que desvenda os mais intrincados mistérios baseando-se apenas no profundo conhecimento que tem da natureza humana. Vive numa aldeia, St. Mary Mead, e conhece toda a gente. Aparece pela primeira vez, em 1930, no romance The Murder at the Vicarage (Crime no Vicariato, em Portugal e Assasinato na Casa do Pastor no Brasil);







Tommy e Tuppence Beresford aparecem pela prmeira vez em The Secret Adversary (O Inimigo Secreto, Brasil ou o O Adversário Secreto, Portugal) é um romance de espionagem, publicado em 1922. Este é o primeiro livro de Agatha em que entram o casal de detectives amadores Tommy (Thomas Beresford) e Tuppence (Prudence Cowley).



















Em Inglaterra esta semana ( a de 13 a 20) é uma Semana especial dedicada a Agatha Christie, escritora amada pelos seus compatriotas como talvez nenhum outro...
Diz a notícia no suplemento literário, Guardian-Books, de ontem, 14 de Setembro:
“A semana de 13 a 20 de Setembro foi oficialmente designada por “semana de Agatha Christie” em honra do aniversário da Rainha do Crime. Vamos celebrar com "blogs", “podcasts” e “top 10s”, durante toda a semana; antes do mais: torne-se detective e investigue o seu conhecimento sobre o trabalho e a obra dela..
E segue-se um Questionário de 11 perguntas (difíceis!) que vou pôr a seguir noutro "post"...



















Outra notícia importante, também no Guardian: vão ser publicadas este mês (já terão sido?) duas histórias –inéditas- com o famoso Poirot!
O artigo de Maev Kennedy e Katie Allen, (do passado dia 5 de Junho) começa assim:
"There were more "little grey cells" than anyone dreamed of: two previously unpublished Hercule Poirot stories have emerged from a mass of family papers."

Pois é, afinal havia mais “little grey cells”, as famosas “células cinzentas” do que se julgava...

Soube-o, por acaso, porque uma jovem amiga, professora de Literatura Policial (sim, isso mesmo, Literatura Policial é uma cadeira, aliás, um curso, na Faculdade de Letras e com bastantes alunos!), na Universidade do Porto, me avisou, se não nunca me lembraria...
Mandou-me um site da BBC e do Guardian com imensas informações, entre as quais um "QUIZ" sobre a vida e a obra de Agatha Christie e a notícia – que deixei escapar em Junho, no Guardian, dessa descoberta fantástica (só os leitores dela é que compreendem...) de duas novas histórias, surgidas do nada: quer dizer, das malas de papéis deixados pela escritorae guardadas até há pouco na casa de férias.

Sim, é verdade: apareceram mais histórias de Agatha Christie: novas histórias com o “nosso” vaidoso, convencido, às vezes insuportável (mas sempre perdoado...), o maravilhoso Poirot!

O Poirot tão celebrado, interpretado, “re-incarnado” por tantas vozes e imagens, em folhetins da radio, em filmes e na TV –BBC Granada -incarnado pelo actor David Suchet que “agarra” de tal modo a personagem que hoje se me torna impossível pensar em Poirot sem “ver” David Suchet...

O detective belga "renasce"... das montanhas de cartas, rascunhos e notas guardadas por Christie em Greenway.
Greenway -a casa que comprou, em 1938, e onde viveu com o segundo marido, o arqueólogo Max Mallowan- era uma casa branca, rodeada de roseiras que desciam até ao mar e que aparece, sob diversos aspectos, retratada nos livros dela.
Dizia Agatha que “era o sítio mais lindo do mundo”
Deixou a casa à filha, Rosalind, que ali viveu com o marido, Antony Hick.


Em 2000, os Hick doam-na ao National Trust mas continuaram a viver ali. A casa era deles mas o jardim foi aberto ao público e podia ser visitado. Com a morte recente de ambos, a casa abriu neste Verão pela primeira vez.

Há pouco tempo, uma amiga, fan da Agatha -a Ana Luísa-, disse-me:

Já viu? Não posso ler mais nada da Agatha Christie! Ando deseperada à procura... Li tudo! Onde vou encontrar outra como ela?”, perguntava-me.

Dei-lhe outros nomes de grandes escritores de romances policiais, mas a verdade é que ela tinha razão: como Agatha Christie não há. Nem é melhor, nem é pior: é diferente, é única...
Neste momento já lhe posso dizer: “Ana Luísa! Ainda há mais duas histórias!"

É uma alegria saber que podemos ler mais histórias dela!

Saem na Harper Collins (que a publica desde O assassínio de Roger Ackroyd), incluídas no livro “Agatha Christie's Secret Notebooks: Fifty Years of Mysteries in the Making”.
São pequenos contos (short stories), como às vezes ela costumava fazer, desenvolvendo-as, ou não, um dia.
A primeira, “The Mistery of the dog’s ball” possivelmente transformou-a Agatha, mais tarde, na novela: “Dumb Witness” (1937). A segunda chama-se “The capture of Cerberus” (que faria parte dos “trabalhos de Hércules”, os últimos 12 casos de Poirot, dos quais teria escrito 11, publicados no Strand Magazine entre 1939-40, tendo o último aparecido em 1947). É uma história completamente “nova", da qual guarda apenas o título.

Boas notícias, portanto...

Outra boa notícia no mesmo jornal: Julia McKenzie, a nova Miss Marple da série televisiva tirada das histórias de Agatha Christie, atraiu 5 milhões de espectadores no canal inglês ITV1 tendo altos níveis de audiências
.
A Pocket Full of Rye
é a primeira de quatro novas histórias.

Quer dizer que a Miss Marple volta também.

Uma nova cara...







Outras "caras" de Miss Marple, nossas conhecidas:





segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Ver Virginia Woolf e "Rumo ao Farol"









































Por erro meu, o primeiro "post" em que falo de Virginia Woolf (alguns dados bio-bibliográficos) saíu no dia 9, sendo publicado antes do "post" Virginia Woolf e o Grupo de Bloomsbury...
Acrescento algumas imagens novas...

sábado, 12 de setembro de 2009

Ainda Virginia Woolf e o Grupo de Bloomsbury




Virginia Woolf é uma personalidade literária cuja vida foi marcada emocionalmente por várias mortes e perdas.

A morte da mãe muito cedo, em 1895, com treze anos de idade, a morte da meia-irmã em 1897, a morte do pai em 1904 e do irmão em 1906 são traumatismos que a sua sensibilidade não aguentou.

Sofre de problemas de origem nervosa, que se sucedem a partir da morte da mãe, ataques de depressão, anorexia. Passa longas temporadas em clínicas.









A sua vida afectiva é complexa, o que não espanta numa geração que se revolta contra a sociedade victoriana do tempo. Marcadamente anti-victoriana, a geração a que pertence Virginia caracteriza-se por atitudes provocatórias, aceitas como forma de anti-conservadorismo, indefinição amorosa, aceitação da efemeridade das relações.

Gostaria de falar hoje do Grupo de Bloomsbury de que fizeram parte escritores e artistas plásticos, ou filósofos, economistas -hoje todos famosos.























Depois de mais uma crise nervosa, por volta de 1904, Virginia muda-se com os dois irmãos e a irmã, Vanessa, a quem estará sempre ligada, para uma casa em Gordon Square, em Bloomsbury, e aí se formará o Grupo que mais tarde se chamará Grupo de Bloomsbury, porque muitos dos seus membros viveram períodos de tempo razoáveis no distrito do West Central de Londres, conhecido por as Bloomsbury.

Tudo o que se sabe deste grupo é pouco e controverso, mas é certo que o grupo inicial foi constituído pelos novelistas e ensaístas Virginia Woolf, E. M. Forster, e Mary (Molly) MacCarthy, o biógrafo e ensaísta Lytton Strachey, o famoso economista John Maynard Keynes, os pintores Duncan Grant, Vanessa Bell e Roger Fry, e os críticos de literatura, arte, e política, Desmond MacCarthy, Clive Bell (mais tarde, marido de Vanessa), e Leonard Woolf (com quem Virginia casará em 1912). Lytton Strachey -que pedira em casamento Virginia alguns anos antes- é agora o companheiro da pintora Dora Carrington.
Os irmãos de Virginia, o mais velho Thoby e o mais novo, Adrian, também fizeram parte do grupo desde o início.
Quase todos os membros masculinos do grupo vinham de Cambridge, do King’s College ou do Trinity onde os irmãos de Virginia estudaram e, mais tarde em Londres, apresentam-nos às irmãs.
Os que estudaram em Cambridge excepto Clive Bell e os irmãos Stephen eram também membros de uma sociedade secreta conhecida por Apostles; aí encontraram outros componentes mais velhos tais como: Desmond MacCarthy and Roger Fry e também E. M. Forster e J. M. Keynes, que tinham vindo do King’s College. Através dos Apostles, Bloomsbury relaciona-se com os filósofos analíticos G. E. Moore and Bertrand Russell que revolucioinara a filosofia britânica.

De notar que todos eles –ou os com eles relacionados mais intimamente- foram famosos como escritores, artistas ou pensadores.










Desde muito cedo que Virginia Woolf se considera escritora e em 1905 começa a escrever para o Times Literary Supplement.
Interessa-se pelos problemas do seu tempo e pela situação das mulheres, critica a sociedade vitoriana.
Ensinou numa escola de adultos, trabalhou a favor do sufrágio feminino, partilhou vivamente o entusiasmo de Roger Fry na sua Exposição Post-Impressionist, em 1910.
Todos os outros membros do grupo seguem caminhos culturais nas mais diversas acepções, cruzam-se afectivamente, discutem, conversam.


Por curiosidade queria deixar-vos algumas obras dos pintores do grupo, alguns deles pintando-se a si próprios ou pintando outros membros do grupo.. pessoas que, de um modo ou de outro, estiveram próximos de Virginia Woolf.







































































Formado, como vimos acima, por escritores, pintores, críticos de arte, economistas e filósofos, o grupo de Bloomsbury é dos mais representativos e activos do Modernismo inglês. Foi responsável pela organização da Primeira e da Segunda Exposição Pós-Impressionista em Londres. É, então, por meio dos colegas pintores que Virginia Woolf travará contacto com os movimentos impressionistas e pós-impressionistas.
.......
Ilustrações:
1. Virginia Woolf, selo comemorativo da National Portrait Gallery
2. retrato de Virginia e Leonard Woolf
3. o grupo de Bloomsbury
4. Bloomsbury, casa da Gordon Square
5. Roger Fry, autoretrato
6. Roger Fry, retrato de Edith Sitwell
7. Dora Carrington, retrato de Lytton Stacey
8. Duncan Grant, retrato de Vanessa Bell
9. Vanessa Bell, interior com figura da filha da artista
10. Duncan Grant, autoretrato
11. Duncan Grant, "log-box"