segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Clarice Lispector: "Perto do Coração Selvagem"... e outras coisas do coração








Hoje a minha amiga Tatiana, amiga virtual mas amiga, fala de Clarice Lispector e aconselha a leitura de "Perto do Coração Selvagem".

Há tempos tínhamos "falado" as duas, em diálogo bloguista, da escritora e deste livro.

Adorei "Perto do coração selvagem", de Clarice Lispector. Acho que vou reler o livro...
Ando, como se costuma dizer em linguagem bem coloquial, "numa" de releituras...

Re-comecei "O moinho à beira do rio", da grande romancista inglesa George Elliot, história que logo me empolgou e me não deixou parar...

Re-tomei a leitura dos inúmeros livros do Comissário Maigret, de Simenon :"Un crime en Hollande", "Maigret et le clochard", "Chez les flamands" -sempre magníficos, óptimos para uma pessoa se sentir bem.


Porque nos faz entrar logo num mundo feito de vida, de pessoas, de humanidade - de dificuldade e incompreensão e solidão, também, não é?, mas isso faz parte da vida...














E vou re-ler mais outros livros: já os tenho ali guardados num montinho:
Henry James e "The wings of the dove", Katherine Mansfield e "Garden Party"...
E, como andei a dar umas voltas pelo "meu" Alentejo fui encontrar numa velha casa amiga, três livros que eram da minha mãe: o chamado "Tríptico dos Löwenskold": O anel dos Löwensköld (1925), Charlotte Löwensköld (1925) e Anna Swärd (1928) - de Selma Lagerlöff, grande escritora e Prémio Nobel sueco - que vou "re-ler".










Depois, prometo dizer as "re-impressões" que tive...











Nota: Saíu há tempos, na Relógio d'Água, o livro "Cidade sitiada" de Clarice Lispector




Existem várias traduções portuguesas dos livros de Selma Lagerlöff, mas a edição do "Tríptico dos Löwenskold" a que me refiro é a edição francesa (tradução de M. Metzger e T. Hammar, Editions "Je Sers", Paris, de 1935, com capas muito bonitas)


Os livros do Comissário Maigret... leio-os em francês, mas encontram-se com facilidade traduzidos, para quem quiser.

Com certeza que os apreciadores de Simenon sabem que estão a ser publicadas as Obras Completas de Simenon ("Tout Simenon", nas edições Gallimmard, colecção "Omnibus", em papel "bíblia", a partir de 2002) que já as edições Presses de la Cité (que foram a casa editora inicial de Simenon) em 1988 tinha também começado a publicar...

domingo, 11 de outubro de 2009

José Régio e o livro:"Filho do Homem"











No post com poema de Régio, "Epitáfio para um Poeta" (dia 7 deste mês) esqueci-me de assinalar a obra de onde foi tirado.




Mas antes quero mostrar o comentário que nesse dia me deixou Tatiana (blog: Hora de Leitura, que fala mesmo de livros) prova de como a poesia é sempre poesia, sentida, quando "poeta é mesmo poeta"...
Diz ela:
"POETA É POETA MESMO NÉ....QUE POEMA PROFUNDO ...SABER USAR AS PALAVRAS DESTA MANEIRA É DIFÍCIL.!!!!"
Pois o poema que tanto impressionou a minha amiga virtual, Tatiana, fui buscá-lo aos "Epitáfios" do maravilhoso "Filho do Homem", publicado em Maio de 1961, pela Portugália Editora, (capa de Tóssan).
Não resisto a deixar-vos mais uns poemas deste livro, tirados do "Cancioneiro de João Bensaúde".
(NOTA: José Régio agrupa os poemas de "Filho do Homem" em diversos "sub-títulos", chamemos-lhes assim.
Os Epitáfios, Cancioneiro de João Bensaúde, O Amor e a Morte, e O Pólo Sumo. )
Aqui vão, pois, dois poemas tirados do "Cancioneiro de João Bensaúde":


Canção da Primavera
Eu, dar flores já não dou. Mas vós, ó flores,
Pois que Maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar flor, já não dou.

Eu, cantar já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul, calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar já não canto.


Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arripio...
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio.

Eu, Maio, já não tenho. Mas tu, Maio,
Vem, com tua paixão,
Prostrar a terra em cálido desmaio!
Que eu, ter Maio, já não.

Que eu, dar flor, já não dou; cantar, não canto;
Ter sol, não tenho; e amar...
Mas, se eu não amo,
Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

Outro poema:

















Posse

Não, não quero dinheiro!
dinheiro meu, -não.
Se há fome no mundo,
Queimar-me-ia a mão.

Quero é a borboleta
Que no ar adeja.
Tem oiro nas asas,
Ninguém lho deseja.
Ter a borboleta
Foi fechar a porta:
Pegou-se-me aos dedos,
ficou ali morta...

sábado, 10 de outubro de 2009

Mais um capítulo de "Os Olhos de Jade": capítulo 8









CAPÍTULO 8



Arrefecera durante a noite e a manhã chegara fria mas sem nuvens. Um sol fraco brilhava, no alto. Emily e Helen tomavam o pequeno almoço, junto da janela virada para a rua.
Viviam juntas há três anos. Decidida a separação, e antes do divórcio, Rudolph mudara-se para casa de Sally. Helen vendera a velha casa perto da Market Street e fora viver com a irmã. Era um belo apartamento na parte central de Brighton. A solidão e o gosto pela independência de ambas equilibravam-se assim.

Emily saía cedo para o Hospital, raramente vinha almoçar. Helen retomara as explicações de filosofia, tinha poucos alunos e muito tempo livre. Descia pela Kensington Street, ia à Church Street, entrava nas livrarias, parava a beber um café e a ler o jornal. Outras vezes pegava no carro, ia até à Promenade, sentava-se numa das esplanadas, a tomar chá sozinha. Lá em baixo, na beira-mar havia quiosques de fish & ships mas disso não gostava. Ficava sentada, encostada à parede do café, a ver o mar, o Pier ao longe, nas suas linhas delicadas. À noite, costumavam jantar as duas em casa, viam um pouco de televisão, liam, ou conversavam.
Tomavam, silenciosas, o pequeno almoço e pensavam no dia anterior. Tinham saído de casa de Joan desorientadas, pouco falaram durante o serão e tinham-se deitado cedo. A noite de sono tranquilo, e a luz da manhã, aquele céu azul que não parecia de Inverno, desanuviara-lhes o espírito e os acontecimentos ganharam um certo distanciamento. Ficara a dúvida.
-Pensas que a Joan tem mesmo razão? Não estará a exagerar?
Helen ia barrando o pão com doce de laranja, enquanto falava.
-Emily, não estás a ouvir? Nunca respondes! Pareces um muro...
Emily ouvira mas queria pensar antes de responder, não tinha a certeza do que pensava.
"Tinha sido tudo tão inesperado!"
-Ouvi, ouvi, disse ela, mas não sei o que hei-de dizer... Confesso que ontem à noite não conseguia adormecer, virava-me e revirava-me na cama, com uma insónia terrível. Talvez exagerasse, talvez não...
-O que ela nos confiou é o suficiente para ficarmos preocupadas, esta é a realidade -continuou Helen.
-O que é que nós duas podemos fazer? Estamos velhas...
Emily suspirou. Sorvia devagarinho o chá.
-Velhas?! Estás parva! -reagiu Helen, violentamente. O que podemos fazer para já é pensar! Como a Joan disse!
- O quê?
-Lembrar os últimos dias que a Abigail viveu. Todos os pormenores. Pessoas, gestos, frases estranhas...Creio que era a isso que ela se referia, não era? Tudo o que fosse fora do normal...
-E recordar as coisas de que ela falou no jantar, não achas? Mas não me lembro de nada...
-Lembras-te do jantar, disso lembras-te com certeza. Não costumamos ter jantares assim, nem ver tanta gente! Até te lembraste da conversa do James Bond. E a Alice falou em coisas estranhas. A que se quereria ela referir?
- A Abigail estava muito excitada...
-E estava... Tenho uma ideia das tais ameaças veladas a que se referiu a Alice. Não eram dirigidas a ninguém em particular. Era assim como uma coisa dita no ar. Uma ameaça vaga, uma coisa difusa... Não te lembras?
-Não, sinceramente, não me lembro. Sabes que me distraio muito, e que não ouço metade do que as pessoas dizem. E nesses jantares, há uma confusão tal de vozes, uma quantidade de comida! E não estou habituada a beber...
- Pois é, mas pensa lá...
- Tens razão, vou tentar...O que terá sido? Consegues lembrar alguma coisa?
Helen levantou-se e foi buscar um maço de cigarros novo. Abriu-o, acendeu um e voltou a sentar-se.
-Tenho uma ideia. Ela falou...
-Nem acabaste de comer e já estás a fumar! Faz-te mal... - protestou Emily.
-Por amor de Deus, não comeces também tu com a fúria anti-tabaco! Já me chega aturar as pessoas nos cafés, nos transportes, em toda a parte! Dizem que até o Hitler era contra o tabaco! Gostava de saber por que é que ninguém se preocupa com o que para aí se bebe!
- Calma, Helen! não te enerves...
- Podiam ir aos pubs, para se entreterem e se cultivarem sobre a matéria. Li numa revista que Brighton é a cidade com maior densidade de pubs! Uma vergonha!
-É normal, Helen, é uma cidade cheia de gente nova, de estudantes.
Emily sorria.
-Desculpas... Sempre foi assim, com estudantes ou sem eles! -disse Helen, secamente.
De repente, começou a pensar em Rudolph. Não sabia porquê, mas, por uma associação de ideias, lembrara-se dele.
- “Pois é, foram os pubs...”
Imaginava-o agora a passear com a Sally, a irem os dois beber uns copos ao pub. Às vezes ia espreitá-lo, ao “Dorset”ou ao “O’ Donovan’s”. A discutir com o Higgins. Estavam sempre juntos, aqueles dois! A planear as apostas. Apostavam sobre tudo o que era possível.
-“E eu? Parecia um amor que não acabaria nunca”- pensou. “O nosso, claro”.
Depois, começara a abrir-se um fosso. Para o fim, já não falavam.
“Cansou-se de viver comigo...”
Soube, depois, da história com a Sally, uma loira deslavada com um corpo bonito.
-“Uma criatura insípida!"
Ele parava na farmácia, entrava, e ficava a falar enquanto ela atendia os clientes. Tinham-lhe contado.
- A parva da caixeira...
-Lembraste-te de alguma coisa? –perguntou Emily, sobressaltada.
-Oh! não! Estava a pensar no Rudolph e na Sally.
-A que propósito, Helen?! Por amor de Deus!
-Ele e a caixeira! Era um charmeur, uma pessoa tão interessante... Hoje, vendo-o assim, gordo e velho, ninguém diria...
- Isso acabou, Helen!
- Tens razão, acabou...Lembras-te do velho Higgins? Era o pai da Sally, claro que te lembras. Dantes, a farmácia era dele...
Dirigia-se a Emily, mas olhava pela janela, como se se limitasse a pensar alto.
-Que homem estranho! Aqueles cabelos louros espetados... Coitado, morreu com um cancro. Magríssimo, com os olhos encovados, parecia ainda mais alto.
-Quando adoeceu, passou a farmácia à filha, pois foi. Não era amigo do Rudolph?, perguntou Emily.
-Quem? O Higgins? Era, claro que era, por isso é que me lembrei dele.
Deu um suspiro, e continuou:
-Por causa dele é que começou a frequentar a farmácia. Jogavam às cartas, apostavam sobre tudo o que havia neste mundo! E no outro...Aposto!...
Riu-se, aliviada.
-Apostas? Tu, Helen?!...
- Não! Estava a brincar. Sim, ligava-os uma velha amizade. Estiveram em África, ele e o Rudolph, daquela vez que te contei.
-Contaste, claro...
- O que é que ele sabia de mim?...
Continuava o raciocínio, a pensar em Rudolph, agora em voz alta, sem se dar conta de que o fazia. Emily olhou para ela, espantada.
-De ti? Quem? Estás a falar comigo?
-Desculpa, estava a pensar alto. Que estúpida! Sabes, o pior foi quando percebi que já não tinha medo de viver sem ele...
-Helen, acabou...
-Tens razão, acabou mesmo. Mas sei que houve qualquer razão para pensar nele. Não sei o quê. Espera, de repente veio-me à ideia que a Abigail poderia estar-se a dirigir ao Rudolph naquela noite. Falava de drogas, pensei que até podia estar a referir-se a produtos farmacêuticos. Se ela foi envenenada...Não, não faz sentido... Devo estar doida!
- Doida? Por que dizes isso?
- Pus-me a pensar na Sally por causa do veneno... Foi um choque quando ele me deixou. Ou fui eu que o deixei, Emily?
-Foste tu...
-Sim, eu é que o pus fora, senão teria ficado por ali...Quando os vi os dois juntos, pela primeira vez depois do divórcio, fiquei louca, perdi-me pelas ruas de Brighton, a falar sozinha, não sei se te contei...
-Contaste...
-Bem dizia ontem a Alice, que sou uma parva sentimental. Estúpida e masoquista!
-Helen! Não te martirizes... Um divórcio é um divórcio...
-O que é que tu sabes disso? De divórcio, de separação? De duas pessoas que, por uma razão qualquer, ou sem razão nenhuma, se amaram, viveram juntas...Não sabes!
-Sim, é verdade, não sei. De facto não sei. Nunca me casei, nunca dividi a minha vida com ninguém.
Calou-se, afastou a chávena para o lado e continuou:
-Há bocadinho perguntavas: o que é que “ele” sabia de ti? Agora pergunto eu: o que é que sabes de mim? E somos irmãs... Preocupaste-te em saber de mim? Da minha solidão?
Emily falava devagar, com os olhos baixos, a mexer nos miolos de pão.
-Foste tu que escolheste ficar sozinha, não foi, Emily?
-Julgas que é assim tão simples? Escolhe-se e pronto! E o que há por detrás dessa escolha?
-Eu sei, foi o David... Ele preferiu a Abigail...
E Helen olhava-a de lado, preocupada.
-Pois é. Mas não foi só isso.
-Odeias o David? E a Abigail, odiaste-a por ter ficado com ele? Estava a pensar se serias capaz de a matar, se terias ódio para tanto? Lembrei-me que a Abigail, nesse jantar, uma das coisas que disse foi que o David vinha aí...
-Disse? Já não sei se disse! A conversa da Joan deu-te volta à cabeça...Odiar a Abigail, eu? Nunca seria capaz... Gostava tanto dela! Exerceu sempre um fascínio enorme sobre mim, desde pequenina. Eu era muito mais nova do que vocês, gostava de a imitar, vestir o que ela vestia, pintar-me como ela. O David conheci-o pouco... Ele veio naquele Verão e decidiram casar-se, foi tudo tão rápido. No fundo, imitei também o amor dela pelo David. Foi apenas isso...
-Estás a ser demasiado simplista...Sofreste. E ficaste sozinha.
-Claro que sofri. Mas ficar sozinha não foi uma escolha que tivesse que ver com o David, ou talvez só indirectamente. Quando escolhi ser médica, percebi que teria de ser uma dedicação profunda, completa, que a não podia partilhar com mais nada... Não podia haver uma divisão entre essa e outras paixões. Talvez viesse daí o medo de me apaixonar, de sair de mim, de perder o controle e, assim, estragar a minha vida profissional... Essa, sim, era uma paixão...
-Foste feliz? Devia ter-te perguntado há mais tempo, não é?
-Oh! Não te estejas a culpabilizar! Para quê? Vias que eu estava bem... Quanto à felicidade, o que é a felicidade? Uma sucessão não-contínua de momentos felizes. Momentos de contemplação, de beleza, roubados ao absoluto... Momentos de intensidade? Chamemos-lhe plenitude, satisfação interior... E calcula tu que se pode sentir tudo isso sozinha...
-Eu sei que se pode...
-A nossa própria solidão pode ser uma companhia. Parece um contra-senso mas não é, pode acontecer... Sim, fui feliz muitas vezes. Até pelo sentido do dever, que se cumpre todos os dias. Dar aos outros o que se pode...
-Tens razão, é como um saltitar de instantes felizes... E dar aos outros pode ser também a felicidade.
Olhava um pouco espantada para a irmã, quase receosa, não lhe conhecia aquela força, estranhava a veemência e a segurança, ela sempre tímida e calada. Voltou a desconfiança:
“Seria ela capaz de uma violência que ignorava?”
-Mas retomando a nossa conversa...
E Emily continuou, agora num tom tranquilo, distante:
-Não, nunca odiei a Abigail, não matei a Abigail... Ficas mais descansada?
-Fico...Acho que sim...
Helen parecia hesitar:
-Reconheço que foi uma pergunta estúpida, mas fico mais descansada...
Esmagou o cigarro no cinzeiro de estanho.
-Quem terá sido, então?
-Tens razão, quem terá sido?
Por um momento, calaram-se. Na rua ouviam, abafado, o ruído do tráfico, uma buzina, os travões de um autocarro.
-Todos estavam lá! - exclamou Helen.
-Quem? Onde? - sobressaltou-se Emily.
-“Estivemos lá todos”, foi o que ela disse. Queria referir-se a África. No tal jantar...
-Mas nós não estivemos ...
E Emily acentuava o lá, como Helen fizera.
-Nós duas, não, mas eles sim. Repara que todos passaram por África, num momento ou noutro. Podiam muito bem ter-se encontrado, quem sabe? Terem-se cruzado os destinos deles. Estaria nisso um motivo para a Abigail se referir a esse facto. Alguém que queria esconder coisas do passado.
-São hipóteses, claro, mas podes ter razão. Mas o quê? E quem seria a pessoa a quem ela se dirigia? Stephen Travis? É uma personagem estranha! E o que a Alice disse não o colocou em melhor luz. Ou o Rudolph Croft? O teu Rudolph... Repara que o que estiveste a dizer dele também não o coloca em muito boa luz.
E Emily olhava-a ironicamente. Helen ignorou o olhar:
-E o Dr. Smith? Não te parece misterioso? Não sabemos muito ou, antes, não sabemos mesmo nada, dele! Sempre calado. Até o nome é demasiado vulgar, anónimo... Smith! Ou Schmidt? Porque não um alemão?
Hesitou:
-E se reparares, o próprio Gabriel viveu lá...
-O Gabriel? Estás doida! O que ele gostava da Abigail!
-Ainda ontem reconhecias que ele era esquisito, já não te lembras?
Agora era Helen que se mostrava irónica, como se tivesse apanhado a irmã em falta:
-Todas as hipóteses são válidas! E o David?
-Sim, é verdade. Há bocado lembraste que a Abigail dissera que o David vinha aí. Mas eu não...
-Claro! Até o David? Por que não ele?...Pode ter voltado para a matar!
Helen mostrava-se excitada com a ideia. Acendeu outro cigarro e aspirou o fumo com força.
-Por que não?
-Oh! Helen! Parece impossível...O David era bom, não fazia mal a uma mosca! Que disparate! Só a tua imaginação distorcida!
-Imaginação? Apenas lógica: ele vinha aí, não vinha? Podiam ser ciúmes...
-Ciúmes? Se foi ele que a deixou! E ciúmes de quem? Do Gabriel...? Estás parva...
Parou um momento e continuou:
-Não era verdade que o David vinha... Acreditaste nela? Eu não. Olhei-a, nesse momento, e percebi que não era verdade. O tom de voz, triste, o olhar sem brilho... Não, não podia ter dito aquilo daquela maneira, se fosse verdade. Amou sempre o David... Não o dizia assim, não podia...
-Está bem, aceito! Mas quem, então? Só um grande ódio! Ou interesse, ou medo, é que podiam ter levado alguém a assassinar a Abigail. Ódio, não acredito... Interesse? Qual? Medo? De quê? Conclusão: não chegamos a lado nenhum! Temos que nos espevitar!
-Estamos a usar a cabeça, como sugeriste...Que outra actividade nos resta?
Emily encolhia os ombros.
-Já não somos novas... Medo? Medo de que ela revelasse o segredo! Podia ser o motivo...
-Gostava de fazer qualquer coisa. Vou voltar a casa dela, quero falar com a Mary. Há pormenores que ignoramos!
- Sim, praticamente tudo...
- O que aconteceu nos dias antes da morte dela, por exemplo! Talvez a Mary se lembre. E quero falar com o tal guarda. Vou assustá-lo!
-Talvez seja boa ideia... Eu fico por aqui. Dou um jeito na casa e depois sento-me a ouvir música. E a pensar...
Apontava para a salinha ao lado, confortável, com os seus maples pequeninos forrados de chintze às flores, a cadeira de baloiço e a estante cheia de livros onde se via uma boa aparelhagem sonora que Helen trouxera da outra casa para substituir o seu velho pick up.
-Faz como quiseres, eu sou mais activa, preciso de movimento, tenho que me mexer...Tu és a contemplativa da família...
-Contemplativa, ou não, acredito que vai ser na nossa memória que vamos encontrar a solução. Se existir... No fundo, guardamos mais cá dentro do que julgamos e, às vezes, é como um filme antigo a desenrolar-se e as coisas a ligarem-se por fios ténues umas às outras.
E apontava para a cabeça.
-Talvez...
Helen parecia duvidosa.
- Sim. Imagens, olhares que julgávamos perdidos, esquecidos... Fui a casa da Abigail muitas vezes nos últimos dias. Vi muita gente. Vou-me concentrar a ver o que “aparece” no filme...
-Óptimo! Compro umas coisas e vou almoçar com a Joan. É só buscar o casaco e a mala...
Parou e, à porta, virou-se para Emily:
-Sabes? Acho que um dia destes tenho que falar com o Rudolph...
E saíu, sem lhe dar tempo de perguntar fosse o que fosse.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Barack Obama é o Prémio Nobel da Paz! A pomba da Paz é de todas as cores: hoje é negra...








Paul Gauguin, Victor Segalen ("Hommage à Gauguin") e a procura da felicidade
















VICTOR SEGALEN E PAUL GAUGUIN











Victor Segalen (1878-1919), o incomparável autor dos "Immémoriaux", historiador e etnólogo, passando pelo arquipélago das Marquesas, poucos meses depois da morte de Gauguin, foi o primeiro herdeiro objectivo da obra "selvagem" do artista colossal.

Segalen é o autor de uma rica e vasta grande obra consagrada à Oceania, onde foi médico militar, e à China.


Victor Segalen (14 de Janeiro, 1878 - 21 de Maio, 1919 , médico naval francês, etnógrafo e arqueólo, escritor, poeta, explorador, teórico de arte, linguiasta e crítico literário.
Nasce em Brest. Estudou medicina naval em Bordeaux. Viajou e viveu na Polynesia (de 1903 a 1905) e na China (1909-1914 and 1917).

Morre acidentalmente, na floresta de Huelgoat, em França (em circunstâncias misteriosas e, segundo contam, com um exemplar, aberto, do Hamlet ao lado).
Escreveu:

Les Immémoriaux (sob o pseudónimo Max Anély, em 1907)
Stèles (poemas em prosa 1912)
Peintures (1916)


Publicações póstumas :
Orphée-Roi (1921)
René Leys (1922)


Cito algumas passagens da Introdução de Aníbal Fernandes ao livro "A Cidade Proibida", traduzido por ele em português, que ajudam a perceber o percurso de vida de Segalen:

"Literariamente marginalizado em vida, Victor Segalen é agora uma boa reputação póstuma com direito ao inquérito que apenas consegue dar realce, numa biografia neutra, à mãe autoritária, à miopia forte e à morte singular.
Mal damos por ele nas suas viagens de fim de mundo, vinte e cinco anos depois de nascido em Brest, 1878, quando seis planetas em signos de terra lhe concertam no céu astrológico um "horror ao mar" que passa a ironia maior na sua carreira da Marinha. E sendo ironia, por certo vai também ser privilégio do médico de bordo todo literato e entregue aos seus livros do Deferente (lembremos aqui “Os Imemoriais” sobre os Maoris; os poemas chineses de Stèles; os poemas de Thibet; o romance — à falta de melhor palavra “Equipée”...), ou seja, entregue aos seus livros de homem das lonjuras que vê o mundo e diz sempre por escrito as suas visões assombradas quase sempre por um "Real-Limite" a todo o passo tocado pela fluidez do Imaginário.

Subitamente esvaído, Victor Segalen regressa à Europa: ainda vai ser amigo de Gourmont, Debussy e Huysmans antes de preparar a morte prematura, doente não se sabe nunca de quê.

"Fui cobardemente traído pelo meu corpo!" — queixume numa carta dos últimos dias a Jean Lartigue — "De há muito este corpo me incomodava mas lá ia obedecendo, razão de eu ter podido arrastá-lo a corrupios vários que não eram, na aparência, feitos para ele (...) Sífilis: zero; tuberculose: zero; anemia: zero; paludismo: zero. (...) Não tenho nenhuma doença conhecida, apanhada, verificável, e assim mesmo tudo é como andar gravemente afectado. Já não me peso; não quero saber de remédios; só vejo, muito simplesmente, a vida afastar-se de mim."

Solitário, em Maio de 1919 hospeda-se num albergue do Finisterra, na floresta de Huelgoat, que é centro mítico do Ciclo do Rei Artur, e, manhã mal nascida, sai de aparente passeio para morrer debaixo de uma árvore com o Hamlet aberto numa cena do III Acto”.

(Aníbal Fernandes, na Introdução de A Cidade Proibida).



PAUL GAUGUIN

Viveu em Lima mas nasceu em Paris até aos 7 anos, data em que o pai decide partir para o Peru procurando um lugar de jornalista. Porém, durante a longa e terrível viagem de navio, acabou por ter complicações de saúde e faleceu. Assim, o futuro pintor desembarcou em Lima apenas com sua a mãe e irmã.
Quando voltou para França, em 1855, segue os estudos em Orléans e, aos 17 anos, ingressa na marinha mercante e corre o mundo. Em 1873, casou-se com a dinamarquesa Mette Sophie Gad, com quem teve cinco filhos.

Aos 35 anos, tomou a decisão mais importante de sua vida: dedicar-se totalmente à pintura. A sua obra, longe de poder ser enquadrada em algum movimento, foi tão singular como as de Van Gogh ou Paul Cézanne.
As primeiras obras tentavam captar a simplicidade da vida no campo, o que ele consegue com a aplicação arbitrária das cores, em oposição a qualquer naturalismo, como demonstra o seu famoso Cristo Amarelo.

O pintor parte para o Taiti, em busca de novos temas, para se libertar dos condicionamentos da Europa. As telas surgem carregadas da iconografia exótica do lugar, e não faltam cenas que mostram um erotismo natural, fruto, segundo conhecidos do pintor, de sua paixão pelas nativas. A cor adquire mais preponderância representada pelos vermelhos intensos, amarelos, verdes e violetas.
Morou durante algum tempo em Pont-Aven, na Bretanha, onde sua arte amadureceu. Posteriormente, morou no sul da França, onde conviveu com Vincent Van Gogh. Numa viagem à Martinica, em 1887, Gauguin passou a renegar o impressionismo e a empreender o "retorno ao princípio", ou seja, à arte primitivista.
Tinha idéia de voltar ao
Taiti, porém não dispunha de recursos financeiros. Com o auxílio de amigos, também artistas, organizou um grande leilão de suas obras.
Colocou à venda cerca de 40 peças. A maioria foi comprada pelos próprios amigos de Gauguin, como por exemplo Theo Van Gogh, irmão de Vincent van Gogh.
O Cristo Amarelo, 1889.
Conseguindo menos de 3 mil francos, em meados de 1891 regressou ao Taiti, onde pintou cerca de uma centena de quadros sobre tipos indígenas, como "Vahiné no te tiare" ("A moça com a flor") e "Mulheres de Taiti", além de executar inúmeras esculturas e escrever um livro, Noa noa.
Quando voltou a Paris, realizou uma exposição individual na galeria de Durand-Ruel, voltou ao Taiti, mas fixou-se definitivamente na ilha Dominique.
Em setembro de 1901, transferiu-se para a ilha Hiva Oa, uma das
Ilhas Marquesas, onde veio a falecer de sífilis."
(in Wikipedia)
Depois desta biografia sumária (quem não conhece Gauguin?), deixo-vos algumas imagens das suas pinturas inspiradas quer em Tahiti, quer nas Ilhas Marquesas.

Victor Seagalen escreve um livro muito interessante sobre esta passagem de Gauguin pelas ilhas: chama-se "Homenagem a Gauguin, o insurrecto das Marquesas" (Hommage à Gauguin, l'insurgé des Marquises, Magellan & Cie, colecção Traces & Fragments, Paris, 2003)


















Nota:

O livro “Noa, Noa”, de Paul Gauguin, precedido de “Homenagem a Gauguin”, de Victor Segalen foi publicado na Assírio & Alvim em 1985
Tradução: Aníbal Fernandes
Existe a tradução de "A Cidade Perdida" e do livro "Maoris" (editorial Estampa), de Segalen

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Poema de José Régio: Epitáfio para um Poeta






José Régio morreu há quase 40 anos (em 22 de Dezembro de 1969)



Epitáfio para um poeta


As asas não lhe cabem no caixão!

A farpela de luto não condiz

Com seu ar grave, mas, enfim, feliz;

A gravata e o calçado também não.

Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!

Descalcem-lhe os sapatos de verniz!

Não vêem que ele, nu, faz mais figura,

Como uma pedra, ou uma estrela?

Pois atirem-no assim à terra dura,

Ser-lhe-à conforto:

Deixem-no respirar ao menos morto!

Leonard Cohen 2009, Live in Israel



terça-feira, 6 de outubro de 2009

Miles Davis, The Bird, os blues e o jazz... A "Ladies do Jazz"...E os outros?


the Bird
















































Jazz, Jazz, Jazz...
Miles Davis ? As "ladies do jazz"...
E os outros?, pergunto eu. Há sempre um nome no jazz a descobrir ou a querer voltar a ouvir.
Lembro-me que foi a minha filha que me ensinou a gostar de jazz e dos blues.
Estava em S. Tomé nessa altura. Não havia electricidade a maior parte do dia, pelo menos durante algumas horas, ou porque o barco que trazia o gasóleo que vinha de Angola se atrasara, ou porque na Central, a EMAE, se gastara o combustível antes do tempo previsto. Tudo podia acontecer e, normalmente, eram os “cortes” e o chamado “plano do corte! Que variava de zona para zona conforme os dias: corta aqui e não corta ali, hoje há no bairro deste e não há no bairro daquele: um inferno e uma “luta” titânica diária para conseguir ter a luz...

Para evitar sofrimentos inúteis, como tentar ouvir os CDs na aparelhagem própria, e, claro, estragar os mesmos com o “corte” súbito, arranjei um aparelho portátil, a pilhas, com rádio e cassettes... E aí ouvia a minha música.
Todas as semanas, a minha filha mandava, por mala diplomática, 3 ou 4 cassettes gravadas e ... as pilhas.
Comecei por ouvir a "escolha" dela...
E passei a ouvir muito jazz. E, logo, aderi ao jazz. Assim chegaram a S. Tomé as maravilhosas “Ladies do Jazz”: Billie Holiday, Ella Fitzgerald (a força da voz dela e a sua alegria de viver acho que conseguiriam trazer qualquer morto à vida!), Sarah Vaughan e Dinah Washington foram as embaixatrizes que me mandou.
Hoje ao ouvir esse CD, vêm-me de repente à memória os cheiros de África, o barulho lá fora no meu jardim, o calor abafado da estação das chuvas, e o fresco perfumado da Gravana. As “ladies” ficaram ligadas a tudo isso. E à Milly, ao Nini, à Dáy e ao meu cão Zac, deitado a meu lado no sofá, a ouvir jazz comigo e a fazer-me aquela companhia fantástica e a ternura que só ele sabia dar...
Depois, chegou o Chet Baker, o Miles Davis, o Count Basie. Foi outro deslumbramento. Pelo meio, chegou também as vozes de Marvin Gaye e Stevie Wonder.
Mais tarde, foi o meu filho que me trouxe Dexter Gordon e “Round midnight”, Wynton Marsalis e John Coltrane.
A seguir, fui eu que continuei sozinha a descoberta.
Em Israel, havia uma loja de música jazz, maravilhosa, na rehov Sheinkin, onde se encontrava tudo o que era imaginável.
E passei a conhecer assim Herbie Hancock, Johnny Hartman, Coleman Hawkins, Curtis Mayfield (outra vez a minha filha…), Oscar Peterson, Lionel Hampton, Johnny Hamilton e o inesquecível, doce “Bird”, Yardbird, Charlie Parker que morre aos trinta e poucos anos, e The Cole Porter songbook. Para não falar de Louis Amstrong ou Lester Young ou Duke Ellington que sempre conheci.
E, mais tarde, veio Diane Krall...
Esqueci alguns? Tem de ser... A lista não teria fim... Ouçam, por favor.

















segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Jacques Brel e a canção "Amsterdam"


Histórias de mulheres 3ª : "A mulher de Amsterdão"
































A luz outonal envolvia, dourada, a pequena praça não muito longe do Herengrachs. Na esplanada do café, grupos barulhentos aproveitavam os últimos raios de sol de um dia inesperadamente quente.
- Oh! minha querida! Venha sentar-se aqui!...
A voz pertencia a uma mulher ainda nova, de cabelos castanhos já com alguns fios brancos, e franja mal cortada. Trazia um vestido vermelho com flores e, pousada sobre os joelhos, uma mala preta, de verniz. Os olhos azuis, límpidos, espreitavam por detrás de uns óculos de lentes redondas.
Era um grupo de quatro pessoas mas ela estava à parte, isolada. Os outros bebiam cerveja, falavam alto, davam gargalhadas e nem se lembravam que ela estava ali. Agitava-se na cadeira e esticava o braço magro na direcção da praça. Na outra mão, um copo de vinho branco.
Dirigia-se a uma jovem mulher que passeava do lado de fora das mesas e via as horas no relógio de pulso.
- Oh! meu Deus! Que angústia!, continuava a mulher de vermelho, a falar sozinha.
Torcia as mãos, mexia-se na cadeira, tentava chamar a atenção da outra que a não via e ia até ao fundo da praça, parando ora na montra da agência de viagens, já fechada, ora na loja de modas de luzes vivas.
Vestia um casaco curto, saia de xadrez, e os cabelos escuros cortados ondulavam em movimentos leves. Usava um lenço de seda branca ao pescoço e segurava uma ponta com a mão.
A mulher de vermelho gesticulava, continuando a chamá-la. Os parceiros de mesa ignoravam-na e bebiam.
De repente, a outra ouviu. Foi-se aproximando, devagar, até à mesa, constrangida, sem saber o que fazer. Seria que a chamava?
Perguntou:
- Eu...?
- Sim, minha querida, sente-se ao meu lado um bocadinho!, insistia a mulher de vermelho.
E puxava-lhe pelo braço.
- Estou a vê-la há tanto tempo! A andar dum lado para o outro...
A outra sentou-se, sem perceber nada. A veemência e a indignação daquela voz contrastavam com a suavidade do olhar azul; a fragilidade do corpo magro, inclinado para a frente, aliada à voz, surpreendiam-na. Olhava a mão pequenina que poisara no seu braço e disse:
- Obrigada, estou à espera de uma pessoa...
- Eu sei que está à espera dele!
- Dele? Não. Espero umas amigas. Não devem demorar...
- Deixou-a aqui, como um cão... Ele não sabe que está à espera? Está lá dentro, não é?
A outra olhava-a, admirada.
“O que queria aquela mulher?”
Olhou para o café, olhou para a mulher, sem perceber.
- Lá dentro?... Não entrei, estive só à porta, mas não gostei, preferi passear por aqui. Combinámos encontrar-nos nesta praça...


Era um café frio, sem o mínimo conforto, com as paredes cheias até acima de garrafas brilhantes e um balcão corrido, de zinco, onde alguns homens apoiavam os cotovelos e bebiam pequenos copos de genebra. Cá fora, a esplanada animava-se no fim da tarde.
A mulher de vermelho continuava a segurar o copo de vinho branco, quase vazio, na mão direita. A outra mão estava apoiada no braço da mulher do lenço de seda e apertava-lho.
- Deixou-a sozinha..., insistia ela.
Olhou-a, quase com inveja.
- É tão bonita. E honesta... Eu estava a vê-la... E a pensar em mim... E em si. Por que é que ele não vem ter consigo?! Não são de cá, pois não?
- Mas eu não...
- Eu vi logo que não eram de cá. O meu inglês é mau... Há tanto que não falo com ninguém de fora. Estão de passagem?
- Sim, viemos passar uma semana de férias, eu e umas amigas... Não conhecíamos Amesterdão... Elas foram ver o mercado das tulipas, eu não quis, preferi deambular pelas pontes, ver os canais...
A outra interrompeu-a, sem a ouvir:
- Férias?! Vêm de férias e ele deixa-a e está-se a divertir lá dentro... É quase noite e está frio. Esqueceu-se de si! Vou lá ver!
Levantou-se e entrou, com o copo vazio na mão e o saco preto debaixo do braço.
A outra ficou virada a vê-la, indecisa, preocupada. Tinha um perfil delicado e a pele muito branca e apertava com a mão o lenço de seda que lhe envolvia o pescoço esguio. Havia espanto no olhar dela. Talvez pensasse por que razão aquela mulher desconhecida decidira que ela esperava um namorado, quando ela nem tinha namorado...
Por que se preocupava com ela? Por que queria saber da sua vida?
A mulher de vermelho saiu do café. Trazia um copo de vinho branco em cada mão e o saco, entalado no braço. Desequilibrou-se e quase caiu quando se sentou.
- Pegue! É para si...Vi-o!
A voz tremia-lhe, ansiosa, como se isso fosse importante.
- Viu quem? Desculpe... Não conheço ninguém que esteja lá dentro...
Parecia desiludida. Mas continuou:
- Eles sentem-se sempre livres...
Ficou a olhar como se não visse nada à sua frente, e calou-se, durante muito tempo.
- Sabe o que eu penso? Eles julgam-se sempre especiais. Têm direito a tudo na vida! Fui casada dez anos...
Suspirou, olhando-a.
- O meu marido era professor de Botânica na Universidade. Eu também dava lá aulas... Agora não sou ninguém, tive uma depressão enorme. Perdi o emprego, não sou capaz de fazer nada.
- E ele? –interessou-se a outra.
- Continua a ensinar na Universidade.
Desviou o olhar, bateu com os dedos na mesa, quase com impaciência.
- O que eu desci na escala social... Se soubesse onde eu vivo hoje... Foi assim...
E a mão, inclinada, mostrava a descida, a pique. Bebeu um gole de vinho e olhou a outra nos olhos.
- Beba, faz-lhe bem!... Quer saber o que me aconteceu?
Não esperou pela resposta.
- Perdi a casa onde vivia. Abandonei-o. Abandonei-o, eu? Ele tinha-me abandonado há tanto tempo! A nossa casa era linda. De um dos lados via-se o canal. Ficava horas a olhar para as árvores no Outono.
Olhou a praça em volta delas e disse:
- Como agora, vê-as? Só que não conseguia aguentar mais! Sabe o que é?
Olhou-a nos olhos e encolheu os ombros.
- Oh! Eu sei que sabe, minha querida, vejo a ansiedade nos seus olhos. Eles são sempre diferentes, génios, artistas, não é?...
A outra fixava-a, presa das palavras, como se ouvisse uma história inesperada e que lhe interessava.
- E nós não os percebemos, não é assim? Queremos tirar-lhes a liberdade... O seu trabalho que era magnífico! A sua Botânica! As plantas, as experiências... A sua criação! O mundo extraordinário onde se perdia... Sabe? Um dia esqueceu-se de vir jantar e eu esperei, esperei...
- E ele não voltou?, perguntou, baixinho, a outra.
- Claro que não, esqueceu-se... Voltou de manhãzinha. Depois, passou a esquecer-se mais frequentemente. Não avisava, sequer. Eu cozinhava um bom jantar, punha as velas na mesa e esperava...
Parou, como se recordasse tudo nos pormenores.
- Às vezes passava da meia-noite quando chegava. Explicava sempre que lhe tinham acontecido coisas extraordinárias.
Bebeu um gole, girou o copo devagar e continuou, quase a sorrir:
- Era um homem bonito, inteligente, interessante... Havia sempre meninas bonitas a girar à volta dele. Borboletas... O “homem bonito” esquecia-se de mim, entre as plantas e as “borboletas”...
A outra fixava-a, com uma sombra de tristeza nos olhos.
- E ele não lhe dizia nada?, perguntou a rapariga do lenço de seda.
- Oh, sim, fingia que não percebia, desculpava-se com o trabalho. Dizia que eu gostava de estar sozinha...
- Que cínico!
- Não, não era cínico...era apenas egoísta. Pensava assim, porque lhe convinha, claro... Eu desculpava-o.
Ficou a olhar para longe, calada.
- Um dia fui ter com ele ao Laboratório. Empurrei a porta de vidro, vi-o. Estava de costas, beijava uma qualquer...
- E depois?, perguntava a outra, curiosa, presa das suas palavras.
- Depois? Nesse dia fiz as malas e saí de casa... A minha bela casa confortável, cheia de luz, com a fachada para o canal para ali ficou... O jardim pequenino nas traseiras... E os meus livros, os meus quadros, o meu mundo...
- E depois?!
Havia ânsia na voz da rapariga do lenço.
- Foi horrível a minha vida, depois... Ele era o meu homem...
Virava-se para ela, a ver se a compreendia.
- Tinha escolhido viver com ele e envelhecermos juntos...
- E deixou a sua casa, as suas coisas?... Onde é que vive agora?
- Vivo num sítio imundo... Cheio de pessoas com vidas difíceis, algumas mesmo de mão estendida... Eu não estava habituada, sabe? Não pertencem ao meu mundo... Ainda hoje sofro. Eu sou uma pessoa culta, pertencia a uma classe com um certo nível...
Olhou em volta, à procura das palavras, para dar a entender à outra a sua dor.
- Nem sei explicar o que sinto. Eu até aceitava conhecer essas pessoas, vê-las, falar-lhes, ajudá-las... Mas viver no meio delas...
A outra tentava compreender:
- Imagino, não são da sua classe...
- Nem sei explicar. São pobres, não têm educação, e não têm culpa. Eu falo com elas, gosto de alguns vizinhos, converso... Mas não é o meu mundo. Percebe? Falta-me a minha cultura. Desisti de tudo, nem procuro ler, não vou aos museus. Afundo-me...
- Percebo...
- Falta-me o conforto da minha casa, a vista do meu jardim...
Hesitou.
- Por que não o hei-de dizer, se é verdade? Falta-me a comodidade dessa vida que tive.
- Não tem família?
- A minha família era ele...
- Não trabalha? Isso ajudava...
- Faço coisas, nada de interessante. A depressão fez-me perder o emprego, não conseguia concentrar-me...
- Mas o que faz?
- Deram-me um trabalho na Câmara. Apoio pessoas desempregadas. Foi assim que fui parar ao bairro onde vivo e por lá fiquei... Não ganho o suficiente para poder ter outra casa como a antiga e não aceito nada dele...E desinteressei-me de tudo... Posso viver em qualquer lado, é-me indiferente...
A rapariga do lenço de seda comovera-se, chorava, de mansinho. As lágrimas, penduradas das pestanas, iam caindo sobre o colo. Agarrou na mão da outra, apertou-a:
- Não pode viver assim!, protestou. Há outras pessoas...
-São todos iguais, minha querida... Vai ver! Se não tem namorado, há-de arranjá-lo um dia... E vai ver!
Queria magoá-la porque, ao relembrar o sofrimento antigo, se magoara? Havia dureza no olhar e ao mesmo tempo uma forma de indulgência.
Bateu com a mão no braço da outra.
- No fundo, está aqui sozinha, não é?...
- Não, não estou sozinha, estou consigo... E as minhas amigas estão a chegar.
Num impulso disse:
- Podemos ficar a fazer-lhe companhia...
-Não preciso de esmolas, disse, áspera.
E continuou, com raiva na voz:
- Eu sei muito bem... Só conta o que eles sentem! Mas porquê?
Virou-se para a jovem, com os olhos com um brilho quase louco, agressivo:
- Quando a vi, pensei que estava à espera...Quis ajudá-la. Não posso resolver os problemas todos do mundo! Claro que não posso. Os meus ombros são frágeis, não aguentam esse peso...
Riu, amarga. E, num grito:
- Ah! Mas quando um problema vem ter comigo, eu sou responsável! Esse problema já é meu! Tenho que o pôr nos meus ombros, passa a ser o meu problema! Percebe?!
Apertou-lhe o braço com força.
- Tive que a chamar! Não podia vê-la e continuar para aqui a beber o meu vinho, como se não tivesse visto nada! Essa indiferença não a aceito! São coisas que não consigo entender!”
Abismou-se nos pensamentos:
- Afinal não estava sozinha como eu... Vem alguém ter consigo, não é? Vão passear, ver o pôr do sol nos canais...
E logo mudou, voltando ao pensamento que a obcecava:
- As pessoas vivem uma vida, têm um passado... E depois? Deitam-nas para o lixo?! Como se isso não fosse nada?!...
Ficara a olhar em frente, de olhar perdido, com o copo vazio na mão. Abanava a cabeça ligeiramente e os cabelos grisalhos agitavam-se devagar. Começara a soprar uma brisa, refrescara de repente e ela estremeceu nas roupas leves. A rapariga dizia agora, sem a olhar:
- Acha que também não vou ter sorte?...
- Não sei, sinceramente não sei... Os homens são assim, nem dão por isso... Iguais no egoísmo, na capacidade de sorverem a vida, de quererem tudo. No medo que têm de perder um bocadinho do prazer da vida. E nós?
- Nós vivemos ali ao lado Temos a nossa vida também...
- Não!
Voltou a erguer a voz num tom peremptório:
- Não, minha querida! Nós somos apenas a rede de protecção por debaixo do trapézio que lhes permite voltear no ar da sua diferença, minha querida! Da sua aventura, do seu risco!
- Não estará a ser injusta?...
E continuou, quase a medo:
- É sempre assim?!
Mas reagiu logo e continuou, decidida, como se o desespero da outra lhe desse força:
- Não acredito no que diz... A senhora é que se deixou vencer! Devia continuar a amar a vida, os outros! Ninguém é único...
- Que ingénua...
Havia satisfação na sua voz. Mas voltou a agarrar-lhe no braço, ansiosa:
- O que é que eu lhe tenho estado a dizer? Não, minha querida, não! Talvez tenha sorte...Tem de acreditar! Claro que um dia há-de encontrar alguém... O príncipe encantado..., murmurou com uma certa ironia.
Queria salvar a outra da situação em que ela própria se via? Deixar-lhe uma esperança? A possibilidade de acreditar? Evitar-lhe aquela solidão que se lhe colara ao corpo?
- Talvez, tem razão... O príncipe azul..., disse a jovem, e sorriu para ela.
A mulher de vermelho agitava-se, preocupada, não queria ouvir, como se receasse repetir qualquer coisa, ou sentisse medo. Pôs-lhe a mão no braço:
- Sim, por favor, acredite nisso! Existem os príncipes encantados! A solidão é uma coisa horrível! A solidão é pior do que tudo e eu hoje sei...
Bebeu outro gole de vinho, segurou o copo com as duas mãos, encolheu os ombros.
- Estou sozinha há tanto tempo... É duro não ter ninguém. Chegar a casa... Casa, aquilo? Uma casa onde não tenho as minhas coisas, onde ninguém vem saber de mim...”
Interrompeu-se, pensativa. Girava o copo nas mãos e fixava o vidro vazio.
- Às vezes saio, com amigos. Como hoje...
E com a cabeça apontou para o grupo.
- Vão buscar-me a casa, vamos a um museu, vimos ao café. E o meu dia acaba... Eles voltam para as casas deles, para a família e eu fico sozin
ha. O meu apartamento está sempre frio. O tempo não passa...
Ouvem-se vozes e risos e um grupo de jovens aproxima-se da mesa, depois de olharem em volta. Têm rostos vermelhos, suados, como se tivessem estado ao sol muito tempo.
- Ó Ana, o que estás aí a fazer sentada? Uh!Uh!
Uma rapariga loira agitava a mão, a chamar a rapariga do lenço. As outras duas tinham ficado para trás, paradas em frente da loja de modas, e davam-se empurrões, rindo às gargalhadas.
Olhou para elas e suspirou, aliviada por um lado, mas também um pouco impaciente: “elas não percebiam nada da vida...”
Como se, neste encontro, tivesse vivido uma vida. Sentia-as de repente demasiado inexperientes.
“Que tontas, com aquelas brincadeiras...”
- Estou aqui... -disse, num tom sério.
- Elas nunca mais se despachavam das flores. Andámos de ponte em ponte. Vimos a Leidsplein! Uma praça tão gira! Apanhámos sol de mais... E bebemos cerveja. Vamos jantar?
Não parava de falar. Ana virou-se para a mulher ao seu lado, e perguntou, com delicadeza:
- Não quer vir connosco? Está um fim de tarde tão bonito... Venha!
- Não, minha querida. Ia-lhe estragar a festa, levar comigo o meu peso... Vá! Não acredite no que eu disse, ouviu? Seja feliz!
- Obrigada. Não me vou esquecer de si!
A mulher de vermelho ficou a vê-las afastarem-se. De cabeça inclinada para um lado, apoiava-se com um braço à grade da esplanada, para as ver melhor. O outro braço pendia e a mão segurava o copo vazio. Olhou-as até desaparecerem na rua que ia dar ao canal.

Ilustrações: as pontes e os canais maravilhosos de Amsterdam

1. ponte da Spiegelstraat
2. ponte sobre o Herengracht
3. esquina do canal Regulier com o canal Prinsen
4. vista panorâmica do canal oriental (eastern ring)
5. a praça Leids (Leidsplein)

Serge Reggiani e Boris Vian :"Le déserteur"





Serge Reggiani: canta "Ma Liberté", com música e letra de Georges Moustaki






Ma liberté
C'est toi

Ma liberté
Longtemps je t'ai gardée
Comme une perle rare
Ma liberté
C'est toi qui m'a aidé
A larguer les amarres
On allait n'importe où
On allait jusqu'au bout
Des chemins de fortune
On cueillait en rêvant
Une rose des vents
Sur un rayon de lune

Ma liberté
Devant tes volontés
Ma vie était soumise
Ma liberté
Je t'avais tout prêté
Ma dernière chemise
Et combien j'ai souffert
Pour pouvoir satisfaire
Toutes tes exigences
J'ai changé de pays
J'ai perdu mes amis
Pour gagner ta confiance

Ma liberté
Tu as su désarmer
Mes moindres habitudes
Ma liberté
Toi qui m'a fait aimer
Même la solitude
Toi qui m'as fait sourire
Quand je voyais finir
Une belle aventure
Toi qui m'as protégé
Quand j'allais me cacher
Pour soigner mes blessures

Ma liberté
Pourtant je t'ai quittée
Une nuit de décembre
J'ai déserté
Les chemins écartés
Que nous suivions ensemble
Lorsque sans me méfier
Les pieds et poings liés
Je me suis laissé faire
Et je t'ai trahi
Pour une prison d'amour
Et sa belle geôlière

Et je t'ai trahi
Pour une prison d'amour
Et sa belle geôlière