
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Clarice Lispector: "Perto do Coração Selvagem"... e outras coisas do coração

domingo, 11 de outubro de 2009
José Régio e o livro:"Filho do Homem"


No post com poema de Régio, "Epitáfio para um Poeta" (dia 7 deste mês) esqueci-me de assinalar a obra de onde foi tirado.
Mas antes quero mostrar o comentário que nesse dia me deixou Tatiana (blog: Hora de Leitura, que fala mesmo de livros) prova de como a poesia é sempre poesia, sentida, quando "poeta é mesmo poeta"...
Pois o poema que tanto impressionou a minha amiga virtual, Tatiana, fui buscá-lo aos "Epitáfios" do maravilhoso "Filho do Homem", publicado em Maio de 1961, pela Portugália Editora, (capa de Tóssan).
Que eu, dar flor, já não dou; cantar, não canto;
Não, não quero dinheiro!
sábado, 10 de outubro de 2009
Mais um capítulo de "Os Olhos de Jade": capítulo 8

Arrefecera durante a noite e a manhã chegara fria mas sem nuvens. Um sol fraco brilhava, no alto. Emily e Helen tomavam o pequeno almoço, junto da janela virada para a rua.
Viviam juntas há três anos. Decidida a separação, e antes do divórcio, Rudolph mudara-se para casa de Sally. Helen vendera a velha casa perto da Market Street e fora viver com a irmã. Era um belo apartamento na parte central de Brighton. A solidão e o gosto pela independência de ambas equilibravam-se assim.
Emily saía cedo para o Hospital, raramente vinha almoçar. Helen retomara as explicações de filosofia, tinha poucos alunos e muito tempo livre. Descia pela Kensington Street, ia à Church Street, entrava nas livrarias,
Tomavam, silenciosas, o pequeno
Helen ia barrando o pão com doce de laranja, enquanto falava.
-Emily, não estás a ouvir? Nunca respondes! Pareces um muro...
Emily ouvira mas queria pensar antes de responder, não tinha a certeza do que pensava.
-O que é que nós duas podemos fazer? Estamos velhas...
Emily suspirou. Sorvia devagarinho o chá.
-Velhas?! Estás parva! -reagiu Helen, violentamente. O que podemos fazer para já é pensar! Como a Joan disse!
-E recordar as coisas de que ela falou no jantar, não achas? Mas não me lembro de nada...
-Lembras-te do jantar, disso lembras-te com certeza. Não costumamos ter jantares assim, nem ver tanta gente! Até te lembraste da conversa do James Bond. E a Alice falou em coisas estranhas. A que se quereria ela referir?
- A Abigail estava muito excitada...
-E estava... Tenho uma ideia das tais ameaças veladas a que se referiu a Alice. Não eram dirigidas a ninguém em particular. Era assim como uma coisa dita no ar. Uma ameaça vaga, uma coisa difusa... Não te lembras?
-Não, sinceramente, não me lembro. Sabes que me distraio muito, e que não ouço metade do que as pessoas dizem. E nesses jantares, há uma confusão tal de vozes, uma quantidade de comida! E não estou habituada a beber...
Helen levantou-se e foi buscar um maço de cigarros novo. Abriu-o, acendeu um e voltou a sentar-se.
-Tenho uma ideia. Ela falou...
-Nem acabaste de comer e já estás a fumar! Faz-te mal... - protestou Emily.
-Por amor de Deus, não comeces também tu com a fúria anti-tabaco! Já me chega aturar as pessoas nos cafés, nos transportes, em toda a parte! Dizem que até o Hitler era contra o tabaco! Gostava de saber por que é que ninguém se preocupa com o que para aí se bebe!
-É normal, Helen, é uma cidade cheia de gente nova, de estudantes.
Emily sorria.
-Desculpas... Sempre foi assim, com estudantes ou sem eles! -disse Helen, secamente.
De repente, começou a pensar em Rudolph. Não sabia porquê, mas, por uma associação de ideias, lembrara-se dele.
- “Pois é, foram os pubs...”
Imaginava-o agora a passear com a Sally, a irem os dois beber uns copos ao pub. Às vezes ia espreitá-lo, ao “Dorset”ou ao “O’ Donovan’s”. A discutir com o Higgins. Estavam sempre juntos, aqueles dois! A planear as apostas. Apostavam sobre tudo o que era possível.
-“E eu? Parecia um amor que não acabaria nunca”- pensou. “O nosso, claro”.
Depois, começara a abrir-se um fosso. Para o fim, já não falavam.
Soube, depois, da história com a Sally, uma loira deslavada com um corpo bonito.
-“Uma criatura insípida!"
Ele parava na farmácia, entrava, e ficava a falar enquanto ela atendia os clientes. Tinham-lhe contado.
-Oh! não! Estava a pensar no Rudolph e na Sally.
-A que propósito, Helen?! Por amor de Deus!
-Ele e a caixeira! Era um charmeur, uma pessoa tão interessante... Hoje, vendo-o assim, gordo e velho, ninguém diria...
Dirigia-se a Emily, mas olhava pela janela, como se se limitasse a pensar alto.
-Que homem estranho! Aqueles cabelos louros espetados... Coitado, morreu com um cancro. Magríssimo, com os olhos encovados, parecia ainda mais alto.
-Quem? O Higgins? Era, claro que era, por isso é que me lembrei dele.
Deu um suspiro, e continuou:
-Por causa dele é que começou a frequentar a farmácia. Jogavam às cartas, apostavam sobre tudo o que havia neste mundo! E no outro...Aposto!...
Riu-se, aliviada.
-Apostas? Tu, Helen?!...
- Não! Estava a brincar. Sim, ligava-os uma velha amizade. Estiveram em África, ele e o Rudolph, daquela vez que te contei.
-Contaste, claro...
- O que é que ele sabia de mim?...
Continuava o raciocínio, a pensar em Rudolph, agora em voz alta, sem se dar conta de que o fazia. Emily olhou para ela, espantada.
-De ti? Quem? Estás a falar comigo?
-Desculpa, estava a pensar alto. Que estúpida! Sabes, o pior foi quando percebi que já não tinha medo de viver sem ele...
-Helen, acabou...
-Tens razão, acabou mesmo. Mas sei que houve qualquer razão para pensar nele. Não sei o quê. Espera, de repente veio-me à ideia que a Abigail poderia estar-se a dirigir ao Rudolph naquela noite. Falava de drogas, pensei que até podia estar a referir-se a produtos farmacêuticos. Se ela foi envenenada...Não, não faz sentido... Devo estar doida!
- Doida? Por que dizes isso?
- Pus-me a pensar na Sally por causa do veneno... Foi um choque quando ele me deixou. Ou fui eu que o deixei, Emily?
-Foste tu...
-Sim, eu é que o pus fora, senão teria ficado por ali...Quando os vi os dois juntos, pela primeira vez depois do divórcio, fiquei louca, perdi-me pelas ruas de Brighton, a falar sozinha, não sei se te contei...
-Contaste...
-Bem dizia ontem a Alice, que sou uma parva sentimental. Estúpida e masoquista!
-Helen! Não te martirizes... Um divórcio é um divórcio...
-O que é que tu sabes disso? De divórcio, de separação? De duas pessoas que, por uma razão qualquer, ou sem razão nenhuma, se amaram, viveram juntas...Não sabes!
-Sim, é verdade, não sei. De facto não sei. Nunca me casei, nunca dividi a minha vida com ninguém.
Calou-se, afastou a chávena para o lado e continuou:
-Há bocadinho perguntavas: o que é que “ele” sabia de ti? Agora pergunto eu: o que é que sabes de mim? E somos irmãs... Preocupaste-te em saber de mim? Da minha solidão?
Emily falava devagar, com os olhos baixos, a mexer nos miolos de pão.
-Foste tu que escolheste ficar sozinha, não foi, Emily?
-Julgas que é assim tão simples? Escolhe-se e pronto! E o que há por detrás dessa escolha?
-Eu sei, foi o David... Ele preferiu a Abigail...
E Helen olhava-a de lado, preocupada.
-Pois é. Mas não foi só isso.
-Odeias o David? E a Abigail, odiaste-a por ter ficado com ele? Estava a pensar se serias capaz de a matar, se terias ódio para tanto? Lembrei-me que a Abigail, nesse jantar, uma das coisas que disse foi que o David vinha aí...
-Disse? Já não sei se disse! A conversa da Joan deu-te volta à cabeça...Odiar a Abigail, eu? Nunca seria capaz... Gostava tanto dela! Exerceu sempre um fascínio enorme sobre mim, desde pequenina. Eu era muito mais nova do que vocês, gostava de a imitar, vestir o que ela vestia, pintar-me como ela. O David conheci-o pouco... Ele veio naquele Verão e decidiram casar-se, foi tudo tão rápido. No fundo, imitei também o amor dela pelo David. Foi apenas isso...
-Estás a ser demasiado simplista...Sofreste. E ficaste sozinha.
-Claro que sofri. Mas ficar sozinha não foi uma escolha que tivesse que ver com o David, ou talvez só indirectamente. Quando escolhi ser médica, percebi que teria de ser uma dedicação profunda, completa, que a não podia partilhar com mais nada... Não podia haver uma divisão entre essa e outras paixões. Talvez viesse daí o medo de me apaixonar, de sair de mim, de perder o controle e, assim, estragar a minha vida profissional... Essa, sim, era uma paixão...
-Foste feliz? Devia ter-te perguntado há mais tempo, não é?
-Oh! Não te estejas a culpabilizar! Para quê? Vias que eu estava bem... Quanto à felicidade, o que é a felicidade? Uma sucessão não-contínua de momentos felizes. Momentos de contemplação, de beleza, roubados ao absoluto... Momentos de intensidade? Chamemos-lhe plenitude, satisfação interior... E calcula tu que se pode sentir tudo isso sozinha...
-Eu sei que se pode...
-A nossa própria solidão pode ser uma companhia. Parece um contra-senso mas não é, pode acontecer... Sim, fui feliz muitas vezes. Até pelo sentido do dever, que se cumpre todos os dias. Dar aos outros o que se pode...
-Tens razão, é como um saltitar de instantes felizes... E dar aos outros pode ser também a felicidade.
Olhava um pouco espantada para a irmã, quase receosa, não lhe conhecia aquela força, estranhava a veemência e a segurança, ela sempre tímida e calada. Voltou a desconfiança:
“Seria ela capaz de uma violência que ignorava?”
-Mas retomando a nossa conversa...
E Emily continuou, agora num tom tranquilo, distante:
-Não, nunca odiei a Abigail, não matei a Abigail... Ficas mais descansada?
-Fico...Acho que sim...
Helen parecia hesitar:
-Reconheço que foi uma pergunta estúpida, mas fico mais descansada...
Esmagou o cigarro no cinzeiro de estanho.
-Quem terá sido, então?
-Tens razão, quem terá sido?
Por um momento, calaram-se. Na rua ouviam, abafado, o ruído do tráfico, uma buzina, os travões de um autocarro.
-Todos estavam lá! - exclamou Helen.
-Quem? Onde? - sobressaltou-se Emily.
-“Estivemos lá todos”, foi o que ela disse. Queria referir-se a África. No tal jantar...
-Mas nós não estivemos lá...
E Emily acentuava o lá, como Helen fizera.
-Nós duas, não, mas eles sim. Repara que todos passaram por África, num momento ou noutro. Podiam muito bem ter-se encontrado, quem sabe? Terem-se cruzado os destinos deles. Estaria nisso um motivo para a Abigail se referir a esse facto. Alguém que queria esconder coisas do passado.
-São hipóteses, claro, mas podes ter razão. Mas o quê? E quem seria a pessoa a quem ela se dirigia? Stephen Travis? É uma personagem estranha! E o que a Alice disse não o colocou em melhor luz. Ou o Rudolph Croft? O teu Rudolph... Repara que o que estiveste a dizer dele também não o coloca em muito boa luz.
E Emily olhava-a ironicamente. Helen ignorou o olhar:
-E o Dr. Smith? Não te parece misterioso? Não sabemos muito ou, antes, não sabemos mesmo nada, dele! Sempre calado. Até o nome é demasiado vulgar, anónimo... Smith! Ou Schmidt? Porque não um alemão?
Hesitou:
-E se reparares, o próprio Gabriel viveu lá...
-O Gabriel? Estás doida! O que ele gostava da Abigail!
-Ainda ontem reconhecias que ele era esquisito, já não te lembras?
Agora era Helen que se mostrava irónica, como se tivesse apanhado a irmã em falta:
-Todas as hipóteses são válidas! E o David?
-Sim, é verdade. Há bocado lembraste que a Abigail dissera que o David vinha aí. Mas eu não...
-Claro! Até o David? Por que não ele?...Pode ter voltado para a matar!
Helen mostrava-se excitada com a ideia. Acendeu outro cigarro e aspirou o fumo com força.
-Por que não?
-Oh! Helen! Parece impossível...O David era bom, não fazia mal a uma mosca! Que disparate! Só a tua imaginação distorcida!
-Imaginação? Apenas lógica: ele vinha aí, não vinha? Podiam ser ciúmes...
-Ciúmes? Se foi ele que a deixou! E ciúmes de quem? Do Gabriel...? Estás parva...
Parou um momento e continuou:
-Não era verdade que o David vinha... Acreditaste nela? Eu não. Olhei-a, nesse momento, e percebi que não era verdade. O tom de voz, triste, o olhar sem brilho... Não, não podia ter dito aquilo daquela maneira, se fosse verdade. Amou sempre o David... Não o dizia assim, não podia...
-Está bem, aceito! Mas quem, então? Só um grande ódio! Ou interesse, ou medo, é que podiam ter levado alguém a assassinar a Abigail. Ódio, não acredito... Interesse? Qual? Medo? De quê? Conclusão: não chegamos a lado nenhum! Temos que nos espevitar!
-Estamos a usar a cabeça, como sugeriste...Que outra actividade nos resta?
Emily encolhia os ombros.
-Já não somos novas... Medo? Medo de que ela revelasse o segredo! Podia ser o motivo...
-Gostava de fazer qualquer coisa. Vou voltar a casa dela, quero falar com a Mary. Há pormenores que ignoramos!
-Talvez seja boa ideia... Eu fico por aqui. Dou um jeito na casa e depois sento-me a ouvir música. E a pensar...
Apontava para a salinha ao lado, confortável, com os seus maples pequeninos forrados de chintze às flores, a cadeira de baloiço e a estante cheia de livros onde se via uma boa aparelhagem sonora que Helen trouxera da outra casa para substituir o seu velho pick up.
-Faz como quiseres, eu sou mais activa, preciso de movimento, tenho que me mexer...Tu és a contemplativa da família...
-Contemplativa, ou não, acredito que vai ser na nossa memória que vamos encontrar a solução. Se existir... No fundo, guardamos mais cá dentro do que julgamos e, às vezes, é como um filme antigo a desenrolar-se e as coisas a ligarem-se por fios ténues umas às outras.
E apontava para a cabeça.
Helen parecia duvidosa.
-Óptimo! Compro umas coisas e vou almoçar com a Joan. É só buscar o casaco e a mala...
Parou e, à porta, virou-se para Emily:
-Sabes? Acho que um dia destes tenho que falar com o Rudolph...
E saíu, sem lhe dar tempo de perguntar fosse o que fosse.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Paul Gauguin, Victor Segalen ("Hommage à Gauguin") e a procura da felicidade

Nasce em Brest. Estudou medicina naval em Bordeaux. Viajou e viveu na Polynesia (de 1903 a 1905) e na China (1909-1914 and 1917).
Escreveu:
Stèles (poemas em prosa 1912)
Peintures (1916)
Publicações póstumas :
Orphée-Roi (1921)
René Leys (1922)
Cito algumas passagens da Introdução de Aníbal Fernandes ao livro "A Cidade Proibida", traduzido por ele em português, que ajudam a perceber o percurso de vida de Segalen:
"Literariamente marginalizado em vida, Victor Segalen é agora uma boa reputação póstuma com direito ao inquérito que apenas consegue dar realce, numa biografia neutra, à mãe autoritária, à miopia forte e à morte singular.
Quando voltou para França, em 1855, segue os estudos em Orléans e, aos 17 anos, ingressa na marinha mercante e corre o mundo. Em 1873, casou-se com a dinamarquesa Mette Sophie Gad, com quem teve cinco filhos.
As primeiras obras tentavam captar a simplicidade da vida no campo, o que ele consegue com a aplicação arbitrária das cores, em oposição a qualquer naturalismo, como demonstra o seu famoso Cristo Amarelo.
Morou durante algum tempo em Pont-Aven, na Bretanha, onde sua arte amadureceu. Posteriormente, morou no sul da França, onde conviveu com Vincent Van Gogh. Numa viagem à Martinica, em 1887, Gauguin passou a renegar o impressionismo e a empreender o "retorno ao princípio", ou seja, à arte primitivista.
Tinha idéia de voltar ao Taiti, porém não dispunha de recursos financeiros. Com o auxílio de amigos, também artistas, organizou um grande leilão de suas obras.
Colocou à venda cerca de 40 peças. A maioria foi comprada pelos próprios amigos de Gauguin, como por exemplo Theo Van Gogh, irmão de Vincent van Gogh.
O Cristo Amarelo, 1889.
Conseguindo menos de 3 mil francos, em meados de 1891 regressou ao Taiti, onde pintou cerca de uma centena de quadros sobre tipos indígenas, como "Vahiné no te tiare" ("A moça com a flor") e "Mulheres de Taiti", além de executar inúmeras esculturas e escrever um livro, Noa noa.
Quando voltou a Paris, realizou uma exposição individual na galeria de Durand-Ruel, voltou ao Taiti, mas fixou-se definitivamente na ilha Dominique.
Em setembro de 1901, transferiu-se para a ilha Hiva Oa, uma das Ilhas Marquesas, onde veio a falecer de sífilis."
Tradução: Aníbal Fernandes
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Poema de José Régio: Epitáfio para um Poeta


José Régio morreu há quase 40 anos (em 22 de Dezembro de 1969)
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Miles Davis, The Bird, os blues e o jazz... A "Ladies do Jazz"...E os outros?

the Bird



Jazz, Jazz, Jazz...
Miles Davis ? As "ladies do jazz"...
Lembro-me que foi a minha filha que me ensinou a gostar de jazz e dos blues.
Estava em S. Tomé nessa altura. Não havia electricidade a maior parte do dia, pelo menos durante algumas horas, ou porque o barco que trazia o gasóleo que vinha de Angola se atrasara, ou porque na Central, a EMAE, se gastara o combustível antes do tempo previsto. Tudo podia acontecer e, normalmente, eram os “cortes” e o chamado “plano do corte! Que variava de zona para zona conforme os dias: corta aqui e não corta ali, hoje há no bairro deste e não há no bairro daquele: um inferno e uma “luta” titânica diária para conseguir ter a luz...
Para evitar sofrimentos inúteis, como tentar ouvir os CDs na aparelhagem própria, e, claro, estragar os mesmos com o “corte” súbito, arranjei um aparelho portátil, a pilhas, com rádio e cassettes... E aí ouvia a minha música.
Todas as semanas, a minha filha mandava, por mala diplomática, 3 ou 4 cassettes gravadas e ... as pilhas.
Comecei por ouvir a "escolha" dela... E passei a ouvir muito jazz. E, logo, aderi ao jazz. Assim chegaram a S. Tomé as maravilhosas “Ladies do Jazz”: Billie Holiday, Ella Fitzgerald (a força da voz dela e a sua alegria de viver acho que conseguiriam trazer qualquer morto à vida!), Sarah Vaughan e Dinah Washington foram as embaixatrizes que me mandou.
Hoje ao ouvir esse CD, vêm-me de repente à memória os cheiros de África, o barulho lá fora no meu jardim, o calor abafado da estação das chuvas, e o fresco perfumado da Gravana. As “ladies” ficaram ligadas a tudo isso. E à Milly, ao Nini, à Dáy e ao meu cão Zac, deitado a meu lado no sofá, a ouvir jazz comigo e a fazer-me aquela companhia fantástica e a ternura que só ele sabia dar...
Depois, chegou o Chet Baker, o Miles Davis, o Count Basie. Foi outro deslumbramento. Pelo meio, chegou também as vozes de Marvin Gaye e Stevie Wonder.
Mais tarde, foi o meu filho que me trouxe Dexter Gordon e “Round midnight”, Wynton Marsalis e John Coltrane.
A seguir, fui eu que continuei sozinha a descoberta.
Em Israel, havia uma loja de música jazz, maravilhosa, na rehov Sheinkin, onde se encontrava tudo o que era imaginável.
E passei a conhecer assim Herbie Hancock, Johnny Hartman, Coleman Hawkins, Curtis Mayfield (outra vez a minha filha…), Oscar Peterson, Lionel Hampton, Johnny Hamilton e o inesquecível, doce “Bird”, Yardbird, Charlie Parker que morre aos trinta e poucos anos, e The Cole Porter songbook. Para não falar de Louis Amstrong ou Lester Young ou Duke Ellington que sempre conheci. E, mais tarde, veio Diane Krall...
Esqueci alguns? Tem de ser... A lista não teria fim... Ouçam, por favor.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Histórias de mulheres 3ª : "A mulher de Amsterdão"


- Oh! minha querida! Venha sentar-se aqui!...
A voz pertencia a uma mulher ainda nova, de cabelos castanhos já com alguns fios brancos, e franja mal cortada. Trazia um vestido vermelho com flores e, pousada sobre os joelhos, uma mala preta, de verniz. Os olhos azuis, límpidos, espreitavam por detrás de uns óculos de lentes redondas.
Era um grupo de quatro pessoas mas ela estava à parte, isolada. Os outros bebiam cerveja, falavam alto, davam gargalhadas e nem se lembravam que ela estava ali. Agitava-se na cadeira e esticava o braço magro na direcção da praça. Na outra mão, um copo de vinho branco.
Dirigia-se a uma jovem mulher que passeava do lado de fora das mesas e via as horas no relógio de pulso.
- Oh! meu Deus! Que angústia!, continuava a mulher de vermelho, a falar sozinha.
Torcia as mãos, mexia-se na cadeira, tentava chamar a atenção da outra que a não via e ia até ao fundo da praça, parando ora na montra da agência de viagens, já fechada, ora na loja de modas de luzes vivas.
Vestia um casaco curto, saia de xadrez, e os cabelos escuros cortados ondulavam em movimentos leves. Usava um lenço de seda branca ao pescoço e segurava uma ponta com a mão.
A mulher de vermelho gesticulava, continuando a chamá-la. Os parceiros de mesa ignoravam-na e bebiam.
De repente, a outra ouviu. Foi-se aproximando, devagar, até à mesa, constrangida, sem saber o que fazer. Seria que a chamava?
Perguntou:
- Eu...?
- Sim, minha querida, sente-se ao meu lado um bocadinho!, insistia a mulher de vermelho.
E puxava-lhe pelo braço.
- Estou a vê-la há tanto tempo! A andar dum lado para o outro...
A outra sentou-se, sem perceber nada. A veemência e a indignação daquela voz contrastavam com a suavidade do olhar azul; a fragilidade do corpo magro, inclinado para a frente, aliada à voz, surpreendiam-na. Olhava a mão pequenina que poisara no seu braço e disse:
- Obrigada, estou à espera de uma pessoa...
- Eu sei que está à espera dele!
- Dele? Não. Espero umas amigas. Não devem demorar...
- Deixou-a aqui, como um cão... Ele não sabe que está à espera? Está lá dentro, não é?
A outra olhava-a, admirada.
“O que queria aquela mulher?”
Olhou para o café, olhou para a mulher, sem perceber.
- Lá dentro?... Não entrei, estive só à porta, mas não gostei, preferi passear por aqui. Combinámos encontrar-nos nesta praça...
Era um café frio, sem o mínimo conforto, com as paredes cheias até acima de garrafas brilhantes e um balcão corrido, de zinco, onde alguns homens apoiavam os cotovelos e bebiam pequenos copos de genebra. Cá fora, a esplanada animava-se no fim da tarde.
A mulher de vermelho continuava a segurar o copo de vinho branco, quase vazio, na mão direita. A outra mão estava apoiada no braço da mulher do lenço de seda e apertava-lho.
- Deixou-a sozinha..., insistia ela.
Olhou-a, quase com inveja.
- É tão bonita. E honesta... Eu estava a vê-la... E a pensar em mim... E em si. Por que é que ele não vem ter consigo?! Não são de cá, pois não?
- Mas eu não...
- Eu vi logo que não eram de cá. O meu inglês é mau... Há tanto que não falo com ninguém de fora. Estão de passagem?
- Sim, viemos passar uma semana de férias, eu e umas amigas... Não conhecíamos Amesterdão... Elas foram ver o mercado das tulipas, eu não quis, preferi deambular pelas pontes, ver os canais...
A outra interrompeu-a, sem a ouvir:
- Férias?! Vêm de férias e ele deixa-a e está-se a divertir lá dentro... É quase noite e está frio. Esqueceu-se de si! Vou lá ver!
Levantou-se e entrou, com o copo vazio na mão e o saco preto debaixo do braço.
A outra ficou virada a vê-la, indecisa, preocupada. Tinha um perfil delicado e a pele muito branca e apertava com a mão o lenço de seda que lhe envolvia o pescoço esguio. Havia espanto no olhar dela. Talvez pensasse por que razão aquela mulher desconhecida decidira que ela esperava um namorado, quando ela nem tinha namorado...
Por que se preocupava com ela? Por que queria saber da sua vida?
A mulher de vermelho saiu do café. Trazia um copo de vinho branco em cada mão e o saco, entalado no braço. Desequilibrou-se e quase caiu quando se sentou.
- Pegue! É para si...Vi-o!
A voz tremia-lhe, ansiosa, como se isso fosse importante.
- Viu quem? Desculpe... Não conheço ninguém que esteja lá dentro...
Parecia desiludida. Mas continuou:
- Eles sentem-se sempre livres...
Ficou a olhar como se não visse nada à sua frente, e calou-se, durante muito tempo.
- Sabe o que eu penso? Eles julgam-se sempre especiais. Têm direito a tudo na vida! Fui casada dez anos...
Suspirou, olhando-a.
- O meu marido era professor de Botânica na Universidade. Eu também dava lá aulas... Agora não sou ninguém, tive uma depressão enorme. Perdi o emprego, não sou capaz de fazer nada.
- E ele? –interessou-se a outra.
- Continua a ensinar na Universidade.
Desviou o olhar, bateu com os dedos na mesa, quase com impaciência.
- O que eu desci na escala social... Se soubesse onde eu vivo hoje... Foi assim...
E a mão, inclinada, mostrava a descida, a pique. Bebeu um gole de vinho e olhou a outra nos olhos.
- Beba, faz-lhe bem!... Quer saber o que me aconteceu?
Não esperou pela resposta.
- Perdi a casa onde vivia. Abandonei-o. Abandonei-o, eu? Ele tinha-me abandonado há tanto tempo! A nossa casa era linda. De um dos lados via-se o canal. Ficava horas a olhar para as árvores no Outono.

Olhou a praça em volta delas e disse:
- Como agora, vê-as? Só que não conseguia aguentar mais! Sabe o que é?
Olhou-a nos olhos e encolheu os ombros.
- Oh! Eu sei que sabe, minha querida, vejo a ansiedade nos seus olhos. Eles são sempre diferentes, génios, artistas, não é?...
A outra fixava-a, presa das palavras, como se ouvisse uma história inesperada e que lhe interessava.
- E nós não os percebemos, não é assim? Queremos tirar-lhes a liberdade... O seu trabalho que era magnífico! A sua Botânica! As plantas, as experiências... A sua criação! O mundo extraordinário onde se perdia... Sabe? Um dia esqueceu-se de vir jantar e eu esperei, esperei...
- E ele não voltou?, perguntou, baixinho, a outra.
- Claro que não, esqueceu-se... Voltou de manhãzinha. Depois, passou a esquecer-se mais frequentemente. Não avisava, sequer. Eu cozinhava um bom jantar, punha as velas na mesa e esperava...
Parou, como se recordasse tudo nos pormenores.
- Às vezes passava da meia-noite quando chegava. Explicava sempre que lhe tinham acontecido coisas extraordinárias.
Bebeu um gole, girou o copo devagar e continuou, quase a sorrir:
- Era um homem bonito, inteligente, interessante... Havia sempre meninas bonitas a girar à volta dele. Borboletas... O “homem bonito” esquecia-se de mim, entre as plantas e as “borboletas”...
A outra fixava-a, com uma sombra de tristeza nos olhos.
- E ele não lhe dizia nada?, perguntou a rapariga do lenço de seda.
- Oh, sim, fingia que não percebia, desculpava-se com o trabalho. Dizia que eu gostava de estar sozinha...
- Que cínico!
- Não, não era cínico...era apenas egoísta. Pensava assim, porque lhe convinha, claro... Eu desculpava-o.
- Um dia fui ter com ele ao Laboratório. Empurrei a porta de vidro, vi-o. Estava de costas, beijava uma qualquer...
- E depois?, perguntava a outra, curiosa, presa das suas palavras.
- Depois? Nesse dia fiz as malas e saí de casa... A minha bela casa confortável, cheia de luz, com a fachada para o canal para ali ficou... O jardim pequenino nas traseiras... E os meus livros, os meus quadros, o meu mundo...
- E depois?!
Havia ânsia na voz da rapariga do lenço.
- Foi horrível a minha vida, depois... Ele era o meu homem...
Virava-se para ela, a ver se a compreendia.
- Tinha escolhido viver com ele e envelhecermos juntos...
- E deixou a sua casa, as suas coisas?... Onde é que vive agora?
- Vivo num sítio imundo... Cheio de pessoas com vidas difíceis, algumas mesmo de mão estendida... Eu não estava habituada, sabe? Não pertencem ao meu mundo... Ainda hoje sofro. Eu sou uma pessoa culta, pertencia a uma classe com um certo nível...
Olhou em volta, à procura das palavras, para dar a entender à outra a sua dor.
- Nem sei explicar o que sinto. Eu até aceitava conhecer essas pessoas, vê-las, falar-lhes, ajudá-las... Mas viver no meio delas...
A outra tentava compreender:
- Imagino, não são da sua classe...
- Nem sei explicar. São pobres, não têm educação, e não têm culpa. Eu falo com elas, gosto de alguns vizinhos, converso... Mas não é o meu mundo. Percebe? Falta-me a minha cultura. Desisti de tudo, nem procuro ler, não vou aos museus. Afundo-me...
- Percebo...
- Falta-me o conforto da minha casa, a vista do meu jardim...
Hesitou.
- Por que não o hei-de dizer, se é verdade? Falta-me a comodidade dessa vida que tive.
- Não tem família?
- A minha família era ele...
- Não trabalha? Isso ajudava...
- Faço coisas, nada de interessante. A depressão fez-me perder o emprego, não conseguia concentrar-me...
- Mas o que faz?
- Deram-me um trabalho na Câmara. Apoio pessoas desempregadas. Foi assim que fui parar ao bairro onde vivo e por lá fiquei... Não ganho o suficiente para poder ter outra casa como a antiga e não aceito nada dele...E desinteressei-me de tudo... Posso viver em qualquer lado, é-me indiferente...
A rapariga do lenço de seda comovera-se, chorava, de mansinho. As lágrimas, penduradas das pestanas, iam caindo sobre o colo. Agarrou na mão da outra, apertou-a:
- Não pode viver assim!, protestou. Há outras pessoas...
-São todos iguais, minha querida... Vai ver! Se não tem namorado, há-de arranjá-lo um dia... E vai ver!
Queria magoá-la porque, ao relembrar o sofrimento antigo, se magoara? Havia dureza no olhar e ao mesmo tempo uma forma de indulgência.
Bateu com a mão no braço da outra.
- No fundo, está aqui sozinha, não é?...
- Não, não estou sozinha, estou consigo... E as minhas amigas estão a chegar.
Num impulso disse:
- Podemos ficar a fazer-lhe companhia...
-Não preciso de esmolas, disse, áspera.
E continuou, com raiva na voz:
- Eu sei muito bem... Só conta o que eles sentem! Mas porquê?
Virou-se para a jovem, com os olhos com um brilho quase louco, agressivo:
- Quando a vi, pensei que estava à espera...Quis ajudá-la. Não posso resolver os problemas todos do mundo! Claro que não posso. Os meus ombros são frágeis, não aguentam esse peso...
Riu, amarga. E, num grito:
- Ah! Mas quando um problema vem ter comigo, eu sou responsável! Esse problema já é meu! Tenho que o pôr nos meus ombros, passa a ser o meu problema! Percebe?!
Apertou-lhe o braço com força.
- Tive que a chamar! Não podia vê-la e continuar para aqui a beber o meu vinho, como se não tivesse visto nada! Essa indiferença não a aceito! São coisas que não consigo entender!”
Abismou-se nos pensamentos:
- Afinal não estava sozinha como eu... Vem alguém ter consigo, não é? Vão passear, ver o pôr do sol nos canais...
E logo mudou, voltando ao pensamento que a obcecava:
- As pessoas vivem uma vida, têm um passado... E depois? Deitam-nas para o lixo?! Como se isso não fosse nada?!...
Ficara a olhar em frente, de olhar perdido, com o copo vazio na mão. Abanava a cabeça ligeiramente e os cabelos grisalhos agitavam-se devagar. Começara a soprar uma brisa, refrescara de repente e ela estremeceu nas roupas leves. A rapariga dizia agora, sem a olhar:
- Acha que também não vou ter sorte?...
- Não sei, sinceramente não sei... Os homens são assim, nem dão por isso... Iguais no egoísmo, na capacidade de sorverem a vida, de quererem tudo. No medo que têm de perder um bocadinho do prazer da vida. E nós?
- Nós vivemos ali ao lado Temos a nossa vida também...
- Não!
Voltou a erguer a voz num tom peremptório:
- Não, minha querida! Nós somos apenas a rede de protecção por debaixo do trapézio que lhes permite voltear no ar da sua diferença, minha querida! Da sua aventura, do seu risco!
- Não estará a ser injusta?...
E continuou, quase a medo:
- É sempre assim?!
Mas reagiu logo e continuou, decidida, como se o desespero da outra lhe desse força:
- Não acredito no que diz... A senhora é que se deixou vencer! Devia continuar a amar a vida, os outros! Ninguém é único...
- Que ingénua...
Havia satisfação na sua voz. Mas voltou a agarrar-lhe no braço, ansiosa:
- O que é que eu lhe tenho estado a dizer? Não, minha querida, não! Talvez tenha sorte...Tem de acreditar! Claro que um dia há-de encontrar alguém... O príncipe encantado..., murmurou com uma certa ironia.
Queria salvar a outra da situação em que ela própria se via? Deixar-lhe uma esperança? A possibilidade de acreditar? Evitar-lhe aquela solidão que se lhe colara ao corpo?
- Talvez, tem razão... O príncipe azul..., disse a jovem, e sorriu para ela.
A mulher de vermelho agitava-se, preocupada, não queria ouvir, como se receasse repetir qualquer coisa, ou sentisse medo. Pôs-lhe a mão no braço:
- Sim, por favor, acredite nisso! Existem os príncipes encantados! A solidão é uma coisa horrível! A solidão é pior do que tudo e eu hoje sei...
Bebeu outro gole de vinho, segurou o copo com as duas mãos, encolheu os ombros.
- Estou sozinha há tanto tempo... É duro não ter ninguém. Chegar a casa... Casa, aquilo? Uma casa onde não tenho as minhas coisas, onde ninguém vem saber de mim...”
Interrompeu-se, pensativa. Girava o copo nas mãos e fixava o vidro vazio.
- Às vezes saio, com amigos. Como hoje...
E com a cabeça apontou para o grupo.
- Vão buscar-me a casa, vamos a um museu, vimos ao café. E o meu dia acaba... Eles voltam para as casas deles, para a família e eu fico sozin
ha. O meu apartamento está sempre frio. O tempo não passa...Ouvem-se vozes e risos e um grupo de jovens aproxima-se da mesa, depois de olharem em volta. Têm rostos vermelhos, suados, como se tivessem estado ao sol muito tempo.
- Ó Ana, o que estás aí a fazer sentada? Uh!Uh!
Uma rapariga loira agitava a mão, a chamar a rapariga do lenço. As outras duas tinham ficado para trás, paradas em frente da loja de modas, e davam-se empurrões, rindo às gargalhadas.
Olhou para elas e suspirou, aliviada por um lado, mas também um pouco impaciente: “elas não percebiam nada da vida...”
Como se, neste encontro, tivesse vivido uma vida. Sentia-as de repente demasiado inexperientes.
“Que tontas, com aquelas brincadeiras...”
- Estou aqui... -disse, num tom sério.
- Elas nunca mais se despachavam das flores. Andámos de ponte em ponte. Vimos a Leidsplein! Uma praça tão gira! Apanhámos sol de mais... E bebemos cerveja. Vamos jantar?
- Não quer vir connosco? Está um fim de tarde tão bonito... Venha!
- Não, minha querida. Ia-lhe estragar a festa, levar comigo o meu peso... Vá! Não acredite no que eu disse, ouviu? Seja feliz!
- Obrigada. Não me vou esquecer de si!
A mulher de vermelho ficou a vê-las afastarem-se. De cabeça inclinada para um lado, apoiava-se com um braço à grade da esplanada, para as ver melhor. O outro braço pendia e a mão segurava o copo vazio. Olhou-as até desaparecerem na rua que ia dar ao canal.

Serge Reggiani: canta "Ma Liberté", com música e letra de Georges Moustaki



Ma liberté
C'est toi
Ma liberté
Longtemps je t'ai gardée
Comme une perle rare
Ma liberté
C'est toi qui m'a aidé
A larguer les amarres
On allait n'importe où
On allait jusqu'au bout
Des chemins de fortune
On cueillait en rêvant
Une rose des vents
Sur un rayon de lune
Ma liberté
Devant tes volontés
Ma vie était soumise
Ma liberté
Je t'avais tout prêté
Ma dernière chemise
Et combien j'ai souffert
Pour pouvoir satisfaire
Toutes tes exigences
J'ai changé de pays
J'ai perdu mes amis
Pour gagner ta confiance
Ma liberté
Tu as su désarmer
Mes moindres habitudes
Ma liberté
Toi qui m'a fait aimer
Même la solitude
Toi qui m'as fait sourire
Quand je voyais finir
Une belle aventure
Toi qui m'as protégé
Quand j'allais me cacher
Pour soigner mes blessures
Ma liberté
Pourtant je t'ai quittée
Une nuit de décembre
J'ai déserté
Les chemins écartés
Que nous suivions ensemble
Lorsque sans me méfier
Les pieds et poings liés
Je me suis laissé faire
Et je t'ai trahi
Pour une prison d'amour
Et sa belle geôlière
Et je t'ai trahi
Pour une prison d'amour
Et sa belle geôlière














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