segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Outra Música: Clara Wyeck e Robert Schumann









Robert Schumann nasce em 8 de Junho de 1810, em Zwickau, na Saxónia. O pai era um livreiro, a sua família era culta e tudo o empurrava para o estudo.



Como o seu pai era bibliotecário, Schumann, pôde ler e entusiasmar-se com a obra de Shakespeare, verdadeiro emblema para os jovens que se rebelavam contra a ortodoxia do Classicismo, ou, outros escritores mais próximos, Lord Byron e autores como Walter Scott.
Depois da formatura em Direito, Robert Schumann decide estudar música, uma das suas grandes paixões, juntamente com a literatura.
Nessa altura, vai para Leipzig e procura o professor de música mais famoso da Alemanha, o Professor Frederich Wieck, pai da pianista, Clara Wieck.

Schumann foi um dos "pais" do Romantismo Alemão, amigo Franz Lizt, Fredéric Chopin, e do escritor Heines.

Mas na altura em que vai para Leipzig Schumann era desconhecido, um estudante mais, dos muitos que procuravam o Professor Wyeck para ter lições de piano.

Quando conheceu a filha do professor, Clara, ela ainda era muito nova. Interessa-se muito por ela, conversam muito, Schumann conta-lhe as histórias folclóricas, fantásticas, com personagens invulgares tão caras aos "românticos"- algumas inventadas possivelmente - e prende a atenção da jovem.
Tornam-se bons amigos.
Schuman é uma pessoa complicada. Muitas dessas histórias falam não só de seres sobrenaturais como de seres "duplos", sósias, duplas personalidades (como não pensar em Dostoievski e o seu "Duplo"?)
Ele próprio é contraditório: parece ter duas naturezas em conflito constante: uma arrebatada e arrebatadora e enérgica, a outra calma e meditativa, com tendência para a melancolia, o mal do século...

Apaixonam-se, mas quando o pai sabe, tem uma fúria, esse amor é contrariado. O pai receia a personalidade complexa e contraditória de Schumann.
E, sobretudo, queria que Clara fosse a pianista que ele tinha sonhado e o casamento poderia opor-se a isso.

Ela seria uma grande pianista (ainda hoje famosa), fora criada para ser concertista de piano. Este era o destino que o Porfessor Wyeck queria para ela.
A tudo isto renunciou para ser mulher de Schumann.
Quando Clara completa 21 anos conseguem casar.

sábado, 7 de novembro de 2009

"Os Olhos de Jade": Capítulo 9







CAPÍTULO 9


No dia seguinte, Joan levantou-se cedo. Desceu as escadas a correr, deixando a mão escorregar pelo corrimão de madeira como fazia quando era pequenina. A luz estava acesa no escritório de Gabriel, que ficava no rés-do-chão, ao fundo do corredor. A porta entreaberta deixava filtrar uma claridade suave.
-“Já se terá levantado? Ou não se foi deitar?”
Sem ruído, Joan espreitou e viu Gabriel, adormecido, com a cabeça apoiada nos braços. Um monte de folhas amarrotadas estavam espalhadas pela secretária. Pareciam cartas velhas. Uns cadernos de capa preta estavam arrumados ao lado. O écran do computador brilhava numa miríade de estrelas. Apagou a luz e deixou-o dormir.
-“Coitado, pensou, devem ter sido dias tremendos! Esqueci-me que teve um desgosto tão grande como o nosso. Ontem fui bruta... Ainda bem que acabámos por falar...”
Foi buscar a chave à terrina, onde Mary a deixava de costume, e saíu de casa pela porta da cozinha.


Dirigiu-se para o jardim. Ao fundo, na descida para a estrada de Arundel, estendiam-se os campos a perder de vista.
Perto do muro que costeava o jardim e dava para uma azinhaga, havia uma pequena casa de tijolos, com um telhado de duas águas, de um vermelho igual ao da vivenda grande, uma janela e uma porta pintada de verde escuro. Era a casa do jardineiro, onde Zurigo vivia e guardava os poucos bens numa mala de couro velha.
Joan caminhava depressa.
“O que teria querido dizer Gabriel sobre a última noite? Que conversa teria tido Zurigo com a mãe, na noite em que morreu?”- pensava.
De repente, por detrás do muro, pareceu-lhe ouvir os passos de alguém que tropeçara nas pedras soltas da azinhaga. Parou e pôs-se a ouvir, atenta. O som afastara-se.
“Como da outra vez?”
Lembrou-se do rosto que vira à janela.
"Será sugestão?"
Podia, claro, mas também podia não ser. Pensou que se alguém matara a mãe, podia muito bem voltar, para matar outra vez... "
Não teve coragem de ir ver por cima do muro, nem de se aproximar da pequena porta de ferro fechada a cadeado.

"E se o assassino estava aqui ao meu lado?!"
Fosse quem fosse, a correr pela vereda inclinada, devia já ter chegado à estrada principal. Pareceu-lhe ouvir um motor arrancar.
“Tal como pensei! Alguém estava aqui e fugiu!”

Estremeceu. Pôs-se a pensar a toda a velocidade, para se acalmar.
Teria sido tudo impressão? Só nervos? Estava a ficar medrosa? Onde estava o seu sangue frio, a sua coragem?
Ontem parecera-lhe ver um rosto que espreitava, agora ouvia passos, ruídos de motores...Estaria tudo apenas na sua cabeça? Os pensamentos sucediam-se uns atrás dos outros. Teve medo e correu para a porta verde, viu que estava apenas encostada e entrou sem bater.
-Zurigo! Não ouviste um barulho? Passos na azinhaga? Ah! Estás a dormir...
Ao lado da mala de couro, roupas espalhadas, um par de sapatos cardados, uns botins de borracha, camisolas de lã, os utensílios do jardim. Zurigo estava deitado em cima da cama, virado para a parede. Deu um salto e virou-se.
-Oh! Menina! Eu cá não ouvi nada! Não estava a dormir. Eu nunca durmo! Só fecho os olhos...

- Então o que estavas a fazer?...
- Estava a pensar... Ontem à noite pensei, pensei até me doer a cabeça. Deixei-me dormir de manhãzinha. Mas estou acordado!
Levantou-se e a camisola de lã grossa descaíu-lhe sobre um dos ombros do corpo magro. Trazia um par de velhos jeans desbotados e uns botins de borracha cheios de lama.
-Deixa estar, Zurigo, não ouviste, não faz mal... Se calhar foi impressão minha...
Olhou-o com um ar sério.
- Ouve, preciso de falar contigo! Tens que me dizer tudo o que sabes.
- O que é que eu sei? Sou um pobre desgraçado...
- Como é que a minha mãe morreu? Sabes quem a matou?
- Matou? Ó mãezinha pequenina... Eu?! Saber quem a matou? Eu não sei nada! Eu não vi nada! Estava aqui deitado!
Começou a chorar.
-A minha senhora morreu e eu só espero a minha hora, que há-de vir depressa! Sei que está marcada!
Abanou os ombros, limpou as lágrimas.
- Não sirvo para nada...
-Zurigo, não chores, não serve para nada... Tens muito para fazer! O meu irmão vem aí. Tu vais ter que nos ajudar!
-Não sirvo para nada é que é...
- Cala-te, não digas isso! Lembras-te de me dizeres que ela tinha medo?
- Eu não sei...
- Medo de quem, diz lá?
-Eu não sei nada... não me lembro!, teimava Zurigo.
-Tu falaste com a mãe nessa noite! Sei que lhe prometeste uma coisa... O Mr. Green ouviu-te prometer!
- Eu não sei, menina...
- Claro que sabes, não me queres é dizer... De que é que estavam a falar?
-Eu não me lembro! Estava aqui, a dormir...
Recomeçou a chorar.
- Ela morreu e eu aqui, um inútil... Eu, que sou o guarda! Deixei-a morrer! Sou estúpido, eu não sabia...
-Sabias, sim!... Sabes muita coisa! O que é que a mãe contou nessa noite, Zurigo? Fala!
Os olhos dele enevoaram-se, parecia que as pupilas fugiam pelas paredes do quarto, escondiam-se nos cantos. Cambaleou e foi sentar-se na cadeira de braços, de madeira, com a cabeça apertada nas mãos.
-Eu não sei! Eu não vi!
O cigarro que tinha na orelha, entalado na carapinha branca, caíu para o chão. Encostadas à parede em frente estavam as suas ferramentas de jardineiro e de guarda, um pau com uma ponta de lança, a tesoura da poda, a vassoura metálica, os ancinhos.
Pendurado por cima da porta de entrada, um machim de ferro, bem afiado. Todas as noites rondava a casa, batia ritmadamente com a lança no chão, tossindo, para mostrar que estava acordado, que vigiava e que os protegia no sono. Nunca perdera essa mania dos velhos tempos de África.
Só se ia deitar com a primeira claridade da manhã, e adormecia então com a sensação do dever cumprido, de os ter defendido. Era a sua maneira de mostrar como os amava.
Joan teve pena dele e não insistiu.
-Está bem, Zurigo, depois falamos quando estiveres mais tranquilo...
Saíu, encolhendo os ombros, desanimada. Sabia que ele lhe escondia qualquer coisa e que tinha medo.
"Não vale a pena insistir..."
Pelo menos para já. Ia esperar que Michael chegasse.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Morreu Claude Lévi-Strauss: como não falar dele?...













Como não saudar este homem especial, no momento em que desaparece? Num momento em que se agudizam os racismos étnicos e de todos os tipos, em tempo de intolerância contra o outro, o diferente, o que não é igual a nós, como não lembrar uma pessoa como ele e o que ele escreveu?





A propósito do seu desaparecimento, disse o etnólogo japonês, Junzo Kawada, tradutor de muitas das seus obras como por exemplo "Tristes Tropiques"(1955):
"Quando desaparece uma grande personalidade, nós dizemos que uma estrela gigante caíu do céu. Claude Lévi-Strauss foi sem dúvida uma dessas estrelas. Voou para o infinito e é com esse sentimento que esta noite olho para o céu cintilante de estrelas..."
Kawada, seu amigo e discípulo, acentua deste modo o lugar enorme que o antropólogo desaparecido tem no pensamento contemporâneo japonês: diríamos, no pensamento contemporâneo universal.

"O Brasil foi a experiência mais importante da minha vida", disse Lévi-Strauss que ali viveu de 1933 a 1939, depois de ter sido nomeado Professor de Sociologia, na Universidade de S. Paulo.
É no Brasil que realiza os seus primeiros trabalhos, vivendo junto dos índios Bororo, no estado do Mato Grosso.

O Brasil que hoje o recorda com respeito, pela voz do Professor José Ribamar Freire (citado pelo jornal Le Monde de hoje):
"O respeito por Claude Lévi-Strauss é incrível, aqui. Lembro-me de estar a estudar em Paris, seguindo o curso do Professor Maurice Godelier. Já nessa altura, quando Lévi-Strauss fazia uma conferência, esse professor famoso deixava o seu curso para ir assistir à conferência. E nós seguíamo-lo ..."

Numa entrevista ao jornal "Le Monde", em 14 de Julho de 1962, afirmava Lévi-Strauss:

"Longe de ver no pensamento selvagem ("La pensée sauvage" (1962) é o título de uma das suas obras mais importantes) um parente pobre do pensamento domesticado ("pensée domestiqué"), considero-o antes como um ser natural. A natureza engendra o pensamento como outras formas de vida: animal, vegetal e mineral. E mais. Este pensamento selvagem é racional. Codifica, quer dizer, classifica, rigorosamente, apoiando-se em oposiçãoes e contrastes, o universo físico, a natureza viva e o próprio homem, tal qual se exprime nas crenças e nas suas instituições. O pensamento selvagem tem o seu princípio numa ciência do concreto, uma lógica das qualidades sensíveis tal como a encontramos em certas actividades".





Quando o entrevistador lhe pergunta se não será exagero falar de "ciência" responde: "O pensamento selvagem não é filho do acaso. Os motivos que o inspiram são verdadeiramente científicos, se é verdade que a ciência implica um desejo de conhecimento só pelo prazer de conhecer, uma vontade vocacionada para a observação e que dirige todos os seus esforços para a classificação.
O conhecimento zoológico e botânico de certas populações ditas primitivas cobre centenas se não milhares de espécies, distingue variedades e sub-variedades..."
Aluna de Letras, fiz Etnologia Geral e Antropologia, apesar de estar no curso de Filologia Românica: escolhi-as como cadeiras de opção. E lembro bem a capa do livro "La pensée sauvage": uns amores-perfeitos. Associo-a ao meu pai porque foi ele que mo deu. Nessa altura "descobri" que era também esse (la pensée) o nome do amor-perfeito.
E penso agora nos amores-perfeitos selvagens, do campo, les pensées sauvages, que o meu pai tanto gostava de colher: iguais aos outros dos jardins, mas pequeninos, e, se possível, ainda mais delicados apesar de "selvagens"...

Hoje Le Monde dedicou cinco páginas a esta figura notável de historiador, Mestre de antropologia, etnólogo, homem de cultura, criador...
Cito uma passagem da bela "editorial" de Eric Fottorino, director do jornal:
"Adepto do "olhar distante" ("Le regard éloigné" é o título de um livro publicado em 1992) para melhor abranger a espessura do real, Lévi-Strauss disse, muitas vezes sozinho, verdades duras. Em especial que o outro, porque é diferente, não é inferior. Que a diversidade não pode justificar a desigualdade. Que "le barbare, c'est d'abord l'homme qui croit à la barbarie". Que o olhar etnocentrado, ou tecnocentrado, confundindo progresso material e civilização superior, é uma falta (falha) do espírito, um excesso de si-próprio. A sua obra oferece um antídoto ao racismo et aux preconceitos. Lévi-Strauss terá conseguido este equilíbrio tão precioso quanto precário, que vê o próprio do homem no que ele tem de comum com todos os homens para viver juntos, corrigido pela diversidade das culturas, sem a qual desapareceria a riqueza das minorias, sal da terra humana".
Haveria tanto a dizer... Limito-me a saudar a estrela gigante que, em 30 de Outubro, caíu ... mas que ontem, hoje, e sempre, vagueia e vagueará pelo céu estrelado, alumiando esta terra que amou na diversidade das suas culturas...
***********************
Algumas datas da sua vida:
1908: nasce em 28 de Novembro, em Bruxelas
1931: Curso de Filosofia
1935: partida para o Brasil e primeira investigação sobre os Bororo e os Caduveo
1939: a Guerra, é mobilizado, reintegrado no ensino e depois afastado, pelas leis anti-judaicas
1941: partida para os Estados Unidos
1942: curso de Etnologia na Escola Livre dos Altos Estudos de N.Y.
1948: regresso a Paris e defesa de uma tese, na Sorbonne: "Les Structures élémentaires de la parenté", publicada em 1949
1959-82: professor no Collège de France
1973: eleito para a Académie Française
1995: eleito Presidente de Honra da comissão instalada para elaborar o projecto de um Museu das artes primitivas
2006: assiste à inauguração do Musée du Quai Branly
2009: 30 de Outubro: morre em Paris
Títulos de algumas obras:

1952: Race et Histoire
1955: Tristes Tropiques
1958: Anthropologie structurale
1962: Le Totémisme aujourd'hui e La pensée sauvage
1971: L'homme nu
1973: Anthropologie structurale II
1983: Le regard éloigné
1985: La potière jalouse
1991: L'histoire du lynx
1993: Regarder, écouter, lire
1994: Saudades do Brasil
********************+
Legendas das imagens:
1. Quadro de Júlio Pomar
2. fotogafia de indios ameríndios
3. Lévi-Strauss, no seu escritório
4. capa de "Tristes Tropiques"
5. Lévi-Strauss, no Brasil (entre 1933-39)
6. capa de "La pensée sauvage"

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Ainda a tese sobre Raymond Chandler: pedido de correcção






Referi há dias um trabalho que se está a fazer na Faculdade de Letras da Universidade do Porto: um curso (mestrado) em Literatura Policial.
Ora, eu falei da tese de Mestrado da aluna Magda Barbeitos, mas tratava-se apenas ainda (o resto há-de vir...) de um trabalho de Seminário (O Policial na Literatura e no Cinema) da mesma aluna.
Não é importante: é um começo... no bom sentido, pois faz falta também quem saiba apreciar e falar, com preparação e sentimento, dessa literatura policial...

Recebi da professora que rege a cadeira, a Doutora Lurdes Sampaio, um pedido: aqui vai...
"Peço-lhe uma correcção: trata-se de um trabalho final de seminário e ainda não da tese de Mestrado. A Magda vai fazer a tese comigo (já sou a orientadora oficial), mas ainda não se decidiu pelo tema em concreto (ou autores). O prazo começa a contar agora e tem um ano para a escrever – ou mais, se decidir pedir prorrogação."

domingo, 1 de novembro de 2009

Sakamoto em Londres: a curiosidade, o aborrecimento e a paixão pelo piano...





"Sakamoto? Mas quem é Sakamoto?", perguntarão alguns...

Pois, Sakamoto é Ryuichi Sakamoto, o compositor de músicas inesquecíveis, o grande intérprete de piano. E um actor, como veremos...

Em Londres, agora, deu uma longa intervista.

Fala do piano e do seu album "Playing the piano" e da sua curiosidade por tudo que logo leva ao cansaço por tudo...

Em "Playing the Piano", Sakamoto volta atrás, recorda e parte: para o reviver de certas emoções, velhas músicas suas, coisas íntimas.

Assim, Sakamoto reinterpreta, ao piano, algumas peças conhecidas do seu repertório, muitas delas famosas músicas da banda sonora de fimes como:
"Merry Christmas, Mr. Lawrence", "The Last Emperor", ou a velha canção, o solo "Thousand Knives Of".

O músico explica a razão pela qual decidiu fazer este disco: no fundo um "remake" de velhos êxitos.
"Por quê?", perguntam-lhe:
"Não... Não é uma ideia nova, coisa que me tenha aparecido assim de repente... Para mim é a maneira de tocar as minhas canções em directo. Além disso, posso dizer que a maior parte destas músicas foram ioriginalmente escritas para piano. Desde miúdo (aprendeu a tocar piano aos três anos) que é o meu instrumento. O piano é uma parte da minha vida... parte de mim próprio.
Adoro-o!"

Mais adiante:

"Aborreço-me com facilidade, por isso é que, ao longo da vida, experimentei todos os géneros de música."

Tudo o interessa, de Beethoven aos Beatles... Continua:

"Quando alguma coisa me interessa, corro velozmente...mas com a mesma rapidez me canso. Refiro-me ao que é novo para mim, não para os outros... "
Actualmente, anda entusiasmado com a música barroca, escuta Bach, incansável:

"Pareço um miúdo..."

Diz que não há nada no mundo que, potencialmente, lhe não interesse.
Menos as canções. Curiosa "aversão" para um músico, nascido no século XX.

"O que quero dizer é que, para mim, a música e a letra são dois elementos totalmente diferentes. Pienso que a música está primeiro que tudo desenhada por sons... Na Yellow Magic Orchestra (grupo em que participou) quasi não púnhamos significado, sentido, nas letras. Eram prácticamente um sinal".

Com a Yellow Magic Orchestra, Sakamoto foi um dos precursores do uso de sintetizadores das técnicas de gravação digitais. Pegavam em elementos da tradición era como um desafio: justapondo temas sobre videojogos ou fogos de artifício.


No Japão eram tão famosos como foram os Beatles. No resto do mundo revelaram-se aos olhos dos que viam a música japonesa como um jardim oriental, coisa exótica.




Breve biografia essencial:
Nascido a 17 de Janeiro1952, em Tokyo, Sakamoto aprende piano desde os três anos e, enquanto estuda, no Liceu, toca em bandas de jazz.

Os seus gostos musicais têm grande amplitude e, rapidamente, o "empurram" para tudo: qualquer tipo de música desde os Beatles a Beethoven ou a John Cage.

Foi também fortemente influenciado pela "avant-garde" cinematográfica arte que, muito cedo, o interessou. Estudou música electrónica na Universidade de Arte de Tóquio e, dois anos depois de acabar o curso, volta e cria o trio “techno-pop” o Yellow Magic Orchestra. (ver)

Os YMO tornam-se um grupo popular (de massa) e eles tornam-se stars conhecidas no seu Japão natal.

Enquanto participante do grupo dos YMO, Sakamoto grava o seu primeiro solo (1978) Thousand Knives Of.

Em 1980, o single intitulado "Computer Game" atinge os “Top 20” em Inglaterra.
Dois anos mais tarde grava com os B-2 Unit, e as enormes diferenças entre esses dois discos dá indicação nítida do eclecticismo que vai definir o seu trabalho futuro.
Depois do corte com os YMO, em 1983, Sakamoto prossegue sozinho a sua carreira, com sucessos artísticos e comerciais.

No mesmo ano sai o filme “Merry Christmas Mr. Lawrence” (Furyo, de 1983, realizado pelo japonês Nagisa Oshima, com o actor David Bowie e o próprio Sakamoto).

Seguem-se várias colaborações entre Sakamoto e David Sylvian, ou Iggy Pop, Tony Williams -no album de 1988, Neo Geo (fusão de música da Ásia e música clássica ocidental-, ou com David Byrne, com quem dividiu o prémio (Academy Award-winning de 1987), atribuído ao filme: The Last Emperor.

Outros trabalhos importantes nessa altura: a música do filme de Almodóvar “Tacones Altos”.
Aparece também o album de 1990 “Beauty” um sucesso que assinala o começo da "ligação" de Sakamoto com a língua inglesa – as vozes de
Brian Wilson (cantor dos Beach Boys) ou de Robbie Robertson - lembrar o disco "Gueffen": nascido em 1943, de mãe mohawok e pai judeu, R.R. esteve ligado a Bob Dylan, aos U2, e a Peter Gabriel. Sakamoto associa-se, pois com estes famosos cantores.



















Em 1993, regressa ao grupo da Yellow Magic Orchestra.

Reencontra os velhos amigos: o batedor

Yukihiro Takahashi e o terceiro membro, o “bassista” Haruomi Hosono.

sábado, 31 de outubro de 2009

Citando uma tese sobre Raymond Chandler e Marlowe










Falei aqui de Chandler, do seu herói, Phillipe Marlowe e do mestrado de Literatura Policial : "O Policial na Literatura e no Cinema", na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Há dias li uma tese de mestrado de uma aluna desse curso, sobre Philip Marlowe...




Seminário: O Policial na Literatura e no Cinema
Docente: Maria de Lurdes Sampaio
Mestranda: Magda Peixoto Barbeita
Título: PHILIP MARLOWE

A tese apresenta em epígrafe dois versos de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos):

Dêem-me Água de Vidago, que eu quero
esquecer a Vida!
Álvaro de Campos

Não vou fazer a crítica do trabalho, mas aproveito para dizer que o achei muito bem escrito, numa linguagem clara que é agradável de ler, (há talvez em alguns nós um certo "parti pris" contra a "linguagem universitária") bem documentado, vivo e interessante. Li-o sem parar!
Fiquei a saber mais coisas e gostei sinceramente, Magda!
Penso que a professora que "soube" interessar a sua aluna merece também uma palavra de apreço. Aqui fica, Dra Lurdes Sampaio...

Não resisto a "citar" o próprio Marlowe na sua autopsicografia (a citação de Pessoa oblige...), nos três excertos escolhidos por Magda Barbeita (um deles não é "só" de Chandler):

I
"Sou um investigador privado e já há uns bons anos. Sou um lobo solitário, nunca casei,aproximo-me da meia-idade e não sou rico. Já estive mais que uma vez na cadeia e nãotrabalho em casos de divórcio. Gosto de beber, de mulheres, de xadrez e mais umas quantascoisas. Os chuis não me vêem com muito bons olhos, mas há alguns com quem me vou
dando. Sou natural daqui, nascido em Santa Rosa, os meus pais já morreram, não tenhoirmãos nem irmãs, e quando derem cabo de mim nalgum beco escuro, como acontece, como podia acontecer a qualquer um na minha actividade, bem como a muita gente em qualquer outra ou mesmo nenhuma, o que não é raro hoje em dia, ninguém irá sentir que a sua vida, dele ou dela, tenha perdido o sentido. "
II
«Ao volante do meu oldsmobile pela estrada de Idle Valley, pela estrada deserta o cigarro esquecido ao canto da boca. Agora os néons brilhantes iluminam um sorriso cínico, agora as sombras das sarjetas sujas, sórdidas e mesquinhas da cidade adensam um sorriso cansado. Ando expiando um crime numa mala, à procura dos cacos de um vaso vazio estatelados no chão pela mão de uma criada descuidada. Uma mosca varejeira voa em círculos à volta de uma lâmpada fosca.
Nada me prende a nada. Não, já disse que quero ser sozinho. Nunca fiz mais do que fumar a vida. E o que me resta é só um extremíssimo cansaço, uma náusea uma angustia uma traça morta. Vencido, lúcido, amargo. O correio não me traz nada.»
Este texto II é uma "composição" feita por Magda Barbeitos: trata-se dela, Eliot, Chandler e Álvaro de Campos... Confesso que o aceitaria por "Marlowe" puro e duro...
Dou-vos a solução (dada por ela nas notas), a seguir:

«Ao volante do meu oldsmobile pela estrada de Idle Valley[1], pela estrada deserta o cigarro esquecido ao canto da boca. Agora os néons brilhantes iluminam um sorriso cínico, agora as sombras das sarjetas sujas, sórdidas e mesquinhas da cidade adensam um sorriso cansado. Ando expiando um crime numa mala[2], à procura dos cacos de um vaso vazio estatelados no chão pela mão de uma criada descuidada[3]. Uma mosca varejeira voa em círculos à volta de uma lâmpada fosca.
Nada me prende a nada.[4] Não, já disse que quero ser sozinho.[5]
Nunca fiz mais do que fumar a vida.[6] E o que me resta é só um extremíssimo cansaço[7], uma náusea uma angústia uma traça morta. Vencido, lúcido[8], amargo. O correio não me traz nada.»
[1] Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra
[2] Opiário
[3] Construção a partir do poema Apontamento
[4] Lisbon Revisited (1926) ou Passagem das Horas
[5] Lisbon Revisited (1923): Não me peguem no braço!/ Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho,/Já disse que sou só sozinho!”
[6] Opiário
[7] O que há em mim é sobretudo cansaço -: “Um supremíssimo cansaço”
[8] A referência à angústia, à lucidez e ao vencido é muito frequente nos poemas de Campos.




III
"Pus o tabuleiro de xadrez em cima da mesa do café e dispus as pedras para um problema chamado A Esfinge. Vem nas páginas finais de um livro sobre xadrez de Blackburn, o mago xadrezista britânico, talvez o jogador mais dinâmico que já existiu, embora ele não tivesse conseguido chegar a lado nenhum com o tipo de xadrez de guerra-fria que hoje se pratica. A Esfinge é em onze jogadas e justifica o nome que tem. Os problemas de xadrez raramente vão além de quatro ou cinco jogadas. Para além disso, a dificuldade em os resolver aumenta quase em proporção geométrica. Um problema de onze jogadas é tortura em estado puro.
Acendi o candeeiro de pé, voltei junto da porta e apaguei a do tecto; atravessei outra vez o aposento e parei junto do tabuleiro de xadrez, colocado em cima da mesa de jogo.
Tinha um problema para resolver, mas, como acontecia com muitos outros problemas da minha vida, não sabia que solução dar-lhe. Desloquei um peão e, em seguida, tirei o chapéu e o sobretudo e atirei-os para uma cadeira.
Olhei de novo para o tabuleiro de xadrez. O movimento do peão fora asneira; por isso repu-lo na casa anterior. Os peões não valem nada, no xadrez; não é um jogo para peões.”
Raymond Chandler, The Big Sleep


Acho que devo juntar um pouco do poema de Pessoa -do heterónimo Ricardo Reis, agora:

Os Jogadores de Xadrez

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

(...)

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...

O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.




Mas, para mim Marlowe, apesar do seu cepticismo, apesar da vida parecer passar ao lado, apesar dos problemas da vida que não resolve... não é capaz da indiferença!
Vai sempre, mesmo de coração ferido, desiludido, enojado...
Como diz Magda B. a dada altura:
"Apesar da escrita surrealista, onírica e metafórica de Chandler, e dos devaneios, delírios e reflexões de Marlowe, este é um detective com uma consistência bem real, se bem que esta sua existência real, mais do que do realismo, advém do seu carácter romântico e sentimental, por mais contraditória ou paradoxal que esta ideia possa ser. Claro que muitas vezes Marlowe é preso, batido, insultado..., mas esta dimensão parece aproximar-se mais de um herói da Marvel. É a sua dimensão interior, os seus pensamentos que ondulam ao sabor da sua errância pela cidade de Los Angeles, os seus fracassos e fraquezas que o aproximam de nós. Marlowe é um herói, sim, mas um herói humano."
Vou deixar-vos com este desabafo de Marlowe, num momento de "desconforto", em que ao desgosto, ao cepticismo, reage, criticando-se: "Esta noite não estás humano, Marlowe!"
IV
"Tudo quanto sei é que algo não é o que parece ser e que o velho mas sempre seguro
palpite me diz que estou caminhando em sentido errado e o justo vai pagar pelo pecador. Isso diz-me respeito? Acaso o sei? Acaso alguma vez o soube? Não falemos disso. Esta noite, não estás humano, Marlowe. Talvez nunca o tenhas sido nem nunca o venhas a ser. Talvez eu seja um ectoplasma com uma licença privativa. Talvez todos nós sintamos o mesmo, no mundo frio e meio iluminado, em que acontecem sempre as coisas más e nunca as boas. Malibu. Mais estrelas de cinema. Mais banheiras cor-de-rosa e azuis. Mais camas enfeitadas com borlas. Mais Chanel n.º 5. Mais Lincoln Continentals e Cadillacs. Mais cabelos ao vento, mais óculos de sol, mais atitudes e vozes pseudo-requintadas, mais baixa moral. Mas, um momento! Há imensas pessoas honestas que trabalham no cinema. Estás mal disposto, Marlowe. Esta noite, não estás humano."
Porque, normalmente, Marlowe "está humano"!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Um novo escritor policial: Hartley Howard/Harry Carmichael e etc...





































Novo escritor policial...

Novo? Há anos e anos que publica...
Falo de Hartley Howard? Ou de Harry Carmichael? Ou afinal de Ognall, verdadeiro nome do autor -que morreu em 1979- mas deixou publicadas dezenas de livros, pelas mais prestigiosas editoras (Collins, em Londres, a colecção "Gialli" (equivalente à "série noire" francesa) da Mondadori! Giallo (amarelo) era -e é ainda- a cor das capas dos policiais italianos desta casa editora.
Escreveu cerca de 50 histórias como Harry Carmichael e 45 como Hartley Howard.




Hartley Howard é o pseudónimo de Leopold Horace Ognall, que nasceu em Glasgow em 1908 e foi jornalista, antes de escrever começar a escrever romances policiais. Acaba por ir viver para os Estados Unidos, onde se torna famoso. Por curiosidade, o seu filho mais novo, Harry, é um conceituado juiz que participo nas audições no processo ao ditador chileno, Augusto Pinochet.
Mas Ognall escreveu também com o "heterónimo" Harry Carmichael.
Livros violentos mas cheios de humor, um humor britânico em terras da América.
Ognall/Hartley e Harry faces do mesmo escritor...

Há muitos anos que o leio na sempre maravilhosa “velha” amiga, a colecção Vampiro. Tenho ainda dezenas de livros dele porque os vou lendo, oferecendo, voltando a comprar: não resisto às capas dos bons velhos livros da Vampiro.

Habituei-me às suas histórias aventurosas, com o mesmo Bowman, o detective sem dinheiro mas com princípios, à maneira do Marlowe de Chandler ou do Sam Spade de Dashiell Hammett.
Ou de John Piper (inspector de seguros) mais o seu amigo Quinn, figura de marginal, anarquista e repórter, sempre ensonado e a beber taças de café para acordar, que trabalha para a Polícia do Estado, outros heróis de Howard.

De perseguição em perseguição, regularmente perseguidores e perseguidos, procurando os diamantes roubados, falsos roubos cobertos pelo seguro, correndo atrás de falsas loiras platinadas, em descapotáveis brilhantes, ou patinando entre pseudo ingénuas perversas que os querem persuadir a ajudá-las...
Lembro essas perseguições fantásticas, pelas estradas poeirentas da Califórnia, seguindo assassinos crapulosos até ao Texas e às vilas da fronteira com o México.


Sempre com a sua exigência ética e o respeito por si próprios, que lhes ditam atitudes dignas e não os deixam ficar ricos.
Todas as histórias acabam com a conta debaixo de água, à espera de novo caso para "recuperarem"...





Recapitulando... Hartley Howard (1908-1979) era um dos nomes com que escrevia Leopold Horace Ognall, escritor policial britânico. Outro dos seus pseudónimos era Harry Carmichael.
Ognall nasceu em Glasgow e trabalhou como jornalista antes de começar a sua carreira de escritor ficcionista. Escreveu mais de 90 livros antes de morrer em 1979.

Aconselho-vos que, para o próximo fim de semana de repouso (como dizia o Snoopy: "hão-de chegar melhores dias: sábados e domingos!", levem um destes livros: prometo que se esquecerão de tudo: aulas, alunos, colegas, chefes, bosses, vices etc... E até os professores!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Um comentário sobre o meu post de 26 de Outubro: "O meu pai dizia": Conto de Natal









Manuel Poppe deixou um comentário na minha mensagem de dia 26 de Outubro intitulada O meu pai dizia..."Um Conto da Natal":


" As razões que levaram Felicano Falcão a deixar a meio as suas memórias? No livro citado na evocação que acompanha o belo conto de F.F., no livrinho intitulado "Feliciano Falcão, Memória Viva", publiquei um breve texto, "Lancelote e o Nevoeiro", em que, a dada altura, explico: "os 'camaradas' subestimaram-no e calaram-no: viu condenada e recusada a colaboração na saudosa 'Rabeca', onde deixou magníficas páginas autobiográficas, intituladas 'Evocação das Raízes'. E silenciaram-no por as considerarem demasiado egotistas, pequeno-burgueses..."

(F. F. era filiado no PCP.)

Tem razão o Manuel Poppe, que o conheceu bem...
O meu pai sofreu por não poder deixar o seu testemunho escrito, o seu livro que tanto o "assustava" escrever: "como se faz?", perguntava, com humildade.
Depois dessa crítica aos seus escritos "individualistas", e não tendo aquele estímulo de ir sempre publicando n' A Rabeca, "calou-se" e não escreveu mais nada...

Foi pena, porque a sua humanidade teria ainda muito para contar. Da sua experiência de médico em Alegrete e Castelo de Vide e de tantas outras coisas, memórias da sua infância, da sua adolescência, da sua aprendizagem de vida...
Vem a minha casa ajudar-me, mais à maneira de amiga do que outra coisa, uma das irmãs da célebre Florinda Solano que aparece em tantas das minhas histórias sobre a casa amarela: a Adélia.






A família das irmãs Solano era de Alegrete. Conheceram muito bem o meu pai e a Adélia ainda fala das histórias passadas nesse tempo, quando meu pai era "médico e curandeiro por terras medievais" (assim se intitula um artigo dele, publicado na República de 27/11/1945). Diz ela:

"Toda a gente gostava do seu paizinho, ele era amigo dos pobres e não fazia diferenças; para ele éramos todos iguais, atendia todos da mesma maneira..."





Sobre a admiração de meu pai por Régio, e da amizade indefectível dos dois, ao longo de 25 anos feitos de conversas, discussões, convergências em situações políticas graves e outras pequenas e grandes coisas, haveria muito que contar. Deixo apenas um apontamento, excerto de carta a um amigo, escrita depois da morte de José Régio:

“Eu não sou literato mas sempre lhe digo: a nossa literatura já realizada (não falo da jovem que vai em progressão para o definitivo e com a qual em muito me identifico) não vejo quem o iguale.

Fica-se nela na maior parte nem num humoralismo, num instintivismo e num esteticismo que parcializa e paralisa a vida. Distantes, sem o compromisso com o cerne...

A síntese, a síntese vital, onde cabem todos os gritos, só José Régio no-la deu com a sua tónica de claridade e de sombras que vai do subterrâneo ao humano –no nocturno e no diurno- e ao cósmico e ao místico. Nesta síntese, conforme as tipologias, emergimos e, desta catarse, fazemo-nos seres livres para a emoção, para a lucidez e para a praxis. É que com José Régio sentimos agudíssima a nossa condição de enjaulados e de alienados. Na jaula estreita entre o nascer e o morrer. Na alienação da nossa mente –com o cérebro, um órgão maravilhoso- de funções embotadas por enleio intrínseco e extrínseco que faz de nós subgente, cega e surda ao canto trágico da nossa finitude” (1).

1. vista de Portalegre, no nevoeiro (site da Câmara Municipal)
2. capa do livro "Feliciano Falcão, Memória Viva"
3. o meu pai, a minha mãe e nós, as mais velhas, de férias em Sesimbra, já nos tempos de Alegrete
4. o meu pai, José Régio, David Mourão-Ferreira, e o Prof. Adelinos Santos, na Quinta da Vista Alegre, Serra de S. Mamede
**********
(1) Esta carta era destinada a Fernando Martinho e nunca seguiu. Foi mais tarde publicada na Vida Mundial nº 1633 em 25 de Setembro de 1970. Vem transcrita neste livro "Memória Viva" (Câmara Municipal de Portalegre, Edições Colibri, 2003)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O meu pai dizia..."Um Conto da Natal"




















Sim, o meu pai dizia..., como Jacques Brel... E contava-me coisas, não de Scheveningen, como na canção, mas de Portalegre e dos anos que passara como médico em Alegrete, pequena aldeia dos arredores da cidade.
O meu pai também escrevia. O seu sonho era escrever um livro onde deixasse o testemunho dos sonhos, das utopias que viveu. Deixasse os seus escritos, as suas memórias da vida, rica de humanidade.
Por motivos vários, que não vale a pena referir, pouco deixou escrito.
Em Portalegre, em Dezembro de 2003, quinze anos depois da sua morte, foi publicado pela Câmara Municipal, um livrinho de homenagem ao meu pai ("MemóriaViva") e, nele, se encontram alguns dos poucos textos de ficção que ele escreveu, bem como artigos sobre pintura, música e literatura publicados n'"A Rabeca" -o semanário mais importante da terra, conhecido pelas suas posições oposicionistas.Permitam-me que vos apresente uma história dele:
Um conto de Natal...

FAZ ANOS AGORA...

Feliciano Falcão

Os meus já haviam demandado a cidade, duas léguas de distância, ao encontro da família para a reunião da grande Noite.
Eu ficava na aldeia, preso por um caso grave de psicose carencial, lá para o alto, nas escarpas da serra (“puxe-me o
sengue para baixo, Sr. Dêtor, senão rebento” –é a expressão que ainda guardo através do esfumado que o tempo dá).

A volta fora à tardinha, empolgado com uma paisagem bela e bárbara. Sob um céu de cinza sujo, vales cortados a pique, de cima, em equilíbrio muito instável por veredas apertadas, entre castanheiros e pinheiros, mergulhavam-se os olhos nos fundões de águas turbulentas. E de um cabeço, já a dominar a aldeia, abarcava-se a várzea com uma luz esverdinhada e um poente a diluir-se de um róseo húmido com manchas de tons ictéricos.
No casarão desconfortável –em preparativos para meter-me a caminho, a pé, pela estrada fora, até à cidade- bateram-me à porta àquela hora, já adentrada a noite, era coisa muito séria, sinal de grossa aflição a que urgia dar remédio rápido.
De dia, nunca uma chamada se me prenunciava de gravidade. De noite, não enganava: o caso era sempre desesperado.
O som das pancadas repercutia-se na casa toda –assustava os ratos e os gatos vadios- e chegava aos meus ouvidos com uma ressonância medonha que acordava os terrores infantis que em todos nós dormem.

Alumiado com uma fruste candeia –que nem petróleo havia com a escassez da Guerra-, chego à janela que dá para a rua (rua estreita e primitiva, de um empedrado tosco e de casas atarracadas), abro o postigo e em baixo dou com uma esguia figura de camponês:

- Senhor doutor, tenho lá a mulher com trabalhos!
Vou pelo capote e, com a pasta inseparável em semelhantes emergências, desço as escadas e, num ápice, estamos ambos na azinhaga que contorna as muralhas delidas.
Brisa agreste que entra até ao tutano dos ossos. A lua com ensombrações intermitentes de nuvens densas, mais frígidas que com propensão a água.

O passo é estugado e enquanto o diabo esfrega um olho deixamos a perder de vista o casario e só os altos esfarelados do castelo algum tempo ainda negrejam.
Boa caminhada que desentorpece os membros enregelados.
Azinhagas lamacentas intérminas. Veredas e mais veredas. Oliveiras e sobreiros que atiram sobre nós, à passagem, espessas gotas de água com peso de chumbo. Terra molhada com o trigo já aflorado.

Tudo silencioso. Nem vivalma encontramos e os raros casebres avistados não dão sinal de vida. O homem, avizinhando a quarentena, hirto e calado a meu lado, com passadas largas.

Foi um concurso à sobreposse de podestreanismo célere. Ficamos ex aequo ao chegar à meta. Casa térrea na aba de uma encosta. Fogachos que tremeluzem ao fundo. Chão de lajedo com descontinuadas frequentes, em que as covas dão ameaços de entorses aos meus pés já doridos pela maratona feita.
Guiado pelo homem, no compartimento de entrada tropeço com uma esteira onde se enroscam dois varões de idade tenra.
O pai, entre orgulhoso e contrito, diz-me que ambos já fazem pela vida, a guardar cabras e suínos, acomodados nas proximidades. No outro compartimento, dou com uma cama a um canto, junto à parede, da qual a luz de azeite pende. Cama de ferro desengonçada e cheia de empenos, das típicas camas rústicas de bilros.
E sobre esta, enrodilhada e gemente, uma mulher no apogeu do amadurecimento, pálida e de cabelo negro, com o ventre volumosos como uma abóbora sob a manta que a cobre, lança para mim um olhar de dor, mesclado de alívio pela assistência que lhe trago.
Na parede desnudada, ao alto, como único adorno, um calendário antigo do papel de fumar “La Bascula”, com uma figura bochechuda e grotesca.
A dois passos da cama –a visão lentamente se adapta à luminosidade fosca- no seguimento da parede, com o tampo encostado a esta, uma arca aberta de onde, ao fundo, chega aos meus ouvidos o ronronar miudinho de um ser humano pueril.
Nela, protegida contra as paredes arregoadas da casa, pelas quais o vento frio se filtra, dorme a sono alto o benjamim da prole –uma menina.
Quadro de uma mansão rústica, com o realismo rude da natureza.
Um grito de dor, agudo, rasgante, corta-me o exame surpreso da casa triste e chama-me à consciência o sucesso próximo.
Num instante, liberto do capote e do casaco, arregaço as mangas da camisa. Desinfecção simples. Exame preliminar para precisar a disposição do ser que dentro da mãe luta para saltar para a Vida.
Ponho um ouvido sobre o ventre disforme, quente e doloroso. Expectativa esperançosa – a criança pulsa com ritmo de normalidade, sem sobressaltos- que com palavras de carinho transmito à mulher dorida, afagando-lhe a tez húmida de suor. "Frio, frio, tenho frio, senhor doutor! "

E a pobre, inesperadamente, cai numa convulsão, correndo-lhe o corpo todo, com um indomável castanholar de dentes que abana a ferragem desconjuntada da cómoda e faz guizalhar os bilros que ainda restam à cabeceira. O vento álgido entra pelas rachas da parede, ora com um silvo de agudeza quase musical, ora com ar de sucção de cava arrepiante. É o mesmo que estar lá fora, à intempérie, sob as estrelas.

Aos poucos, sem o pressentir, as mãos se me vão engadanhando e o mesmo castanholar irresistível se apossa de mim.
(- Qual sugestão, se a temperatura rondava os zero graus?...)
E seria curioso de ver como eu e a mulher somos assistidos, nesta dança de S. Vito dentária, pelo homem, impávido, com copos de aguardente.
(Ai, os ortodoxos que são capazes de atirar pedras a esta terapêutica vil...).

Poucos minutos se escoam e nova dor molesta aquele corpo macerado. A voz crispada avisa-me do momento capital.
O homem, hierático sempre –filósofo dos silêncios nesta noite de trabalhos- serve-me de ajudante.
E nada perturba o sono daqueles inocentes – os da esteira e o da arca- nesta azáfama dramática que vai pela casa.

Na arca, onde dorme a menina, há panos e toalhas necessários para a assistência iminente. O pai ergue a menina com cuidado, não acorde, e deposita-a, agasalhada, no chão de lajem. Tira os trapos brancos do fundo e devolve o corpito adormecido para a sua cama singular.
E a hora, violenta e catártica, chega. Di-lo o ar lívido da mulher. Hirta, como que se imobilizara num espasmo titânico, numa rigidez irreversível.
Foi num relâmpago o desenlace: um pequeno corpo luzidio, redondinho, surge sobre a cama e uma mancha vermelha, inundando o ambiente de eflúvios mornos, a alastrar, a alastrar no branco do lençol.
Um burro invisível, muito próximo, atira para o ar uma zurrada, tal como uma trombeta a anunciar o nascimento do menino.
Depois, os vagidos do recém-chegado ao mundo e o esmaecimento suave, recobrador da mãe.

O corpito da arca é outra vez removido para o chão de lajem para procurara mais panos brancos. O mesmo respirar miúdo, a mesma paz de sonho.
Não sei que mais possa amolecer a minha natureza sensível: se o quadro dos dois homens pequeninos aconchegados no outro canto, se a menina da cama singular, insensível ao vaivém da arca para o chão e do chão para a arca, se a máscara incomovível do homem, qual figura de retábulo, se a mulher arrepiada e heróica no transe da maternidade, se o rebento rosado caído na vida em meio tão humilde.
Um enternecimento viril vem-me súbito e, de mistura com o frio, sinto humedecerem-se-me de lágrimas os cantos dos olhos.
Agasalho a mãe o melhor que posso e, cuidados ambos –mãe e filho-, procuro a lareira, onde o homem, curvado, atiça os chamiços do lume pobre.
Sento-me num banco baixo e o meu companheiro puxa da garrafa de aguardente e dá-me outro copo com que me retempero. Fixado nas chamas débeis, ouço-lhe palavras humílimas de reconhecimento e um tom lamentoso em que há surda revolta, misto de coisa instintiva e fulgurância lúcida, ante a mísera condição.

Olho-o, silencioso e bem de frente, bebendo-lhe as palavras. É que estas coisas acordam em mim lembranças infantis, com os mesmos ressaibos de suor e amargura no trabalho de agro alheio, de manhã à noite no amanho da terra, em pura existência vegetativa, sem vislumbre do ser bípede racional.

Vida de animal.
Volvida a paz à casa rústica, deixo a lareira, a aguardente e o companheiro da noite tormentosa e, embuçado, atiro-me para o escuro, rumo à aldeia. Era um negro de breu. Não se via um palmo adiante do nariz. Nortada fina e cortante. Nem a fermentação do álcool ingerido, nem o agasalho forte protegiam contra a crueza da atmosfera.

Todos os caminhos eu conhecia às cegas, não iria empecer-me com esta outra experiência. Planícies, vales e escarpas, ribeiras medonhas no pino do Inverno, quilómetros sob a torrina do sol de Julho ou nas gélidas noites de Dezembro, tudo afrontava como andarilho incorrigível.
Meto-me por uma azinhaga encharcada e, no chope-chope das passadas nas poças de água e na lama, encontro uma companhia para afugentar a solidão.
As mesmas veredas indistintas. Sombras de oliveiras carcomidas subitamente se interpõem na minha frente, quais seres gigantescos e terríficos. Num relance, vejo a lua chapar-se na lombada de um penhasco. Sobreiras contorcidas e de capa larga assemelham-se a cogumelos monstruosos.
Com esta aventura tão vívida, cobro, a pouco e pouco, uma sensação de contentamento virginal. Apetece-me cantar com o coração liberto, neste silencioso nocturno, sob a fina, quase imperceptível, poalha luminosa, esparsa no céu. Sinto haver crescido na compreensão humana das coisas e dos seres.

Chegam-me as ocorrências da infância e da adolescência. E de meus ancestrais, amarrados à paisagem rústica. Uma cadeia de lembranças se engrena na minha vida presente e tão vivas, tão similares às minhas experiências de agora, que quase tudo me parece de ontem, de hoje, de todos os dias.
A expressão daquele camponês jovem, simples, que na agonia chama por mim, confundo-a com a de um tio nos longes da minha infância, na mesma luta inglória com a terra sáfara, e a parca o leva no vigor da maturidade.
E a daquela petiza loura, botão fechado ainda, que um garrotilho estrangula, cujo enterro acompanhei de longe, solitário e desesperado –a mancha branca do caixão entre manchas negras moventes, que a acompanham- lembra-me uma irmãzita que ali para uma aldeia, ao norte, ficou no verdejar da segunda infância.
E, nestas meditações encadeadas, andando sob a noite, um optimismo são me alanceia a par do desconforto que me circunda.

Chego à estrada lasso. Olho debaixo o castelo projectar-se na imensidade negra. Um cão late para as bandas do Pico. Cinjo mais o capote ao corpo e –deixando à direita a azinhaga que leva ao meu casarão –resolvo continuar pela estrada fora, até à cidade, ao encontro dos meus, para chegar a tempo de festejar a grande Noite, com a minha descendência nascente.

In “A Rabeca”, nº 1513-1514, de 22/12/1948

Música: hoje Winton Marsalis: Retrato de Louis Amstrong





Louis Daniel Armstrong (Nova Orleans, 4 de agosto de 1901 — Nova Iorque, 6 de julho de 1971), é considerado "a personificação do jazz".

domingo, 25 de outubro de 2009

A Lady do Crime: um olhar de Agatha Christie sobre as "suas" Miss Marple...

O OLHAR CRÍTICO DE AGATHA?
















Margaret Rutherford...












Julie MacKenzie
















Geraldine Mc Ewans












Joan Hickson




























Joan Hickson, Margaret Rutherford, Geraldine McEwan, Julie Mackenzie ...



Lista enorme - e incompleta, ainda- que prova o interesse que sempre despertou a figura criada por Agatha Christie.
Hoje apeteceu-me lembrar estas actrizes tão diferentes.
Qual a melhor no seu papel? Difícil de dizer...
"Why didn't you ask Agatha?" , podíamos perguntar, não é? Qual seria aopinião dela? Talvez tenham razão... Mas ela não as conheceu todas...
Quanto a mim, gosto imenso de as ver todas: mais caricaturais, quase cómicas (Margeret Rutherford) ou um pouco aéreas (Geraldine McEwan), ou demasiado secas (Joan Hickson), ou compreensivas como esta última, Julie Mackenzie.
Confesso que estou a gostar muito da última Miss Marple: Julie Mackenzie.
Talvez seja a que sinto "mais próxima" da minha imagem inicial e bem viva de Joan Marple, a visão que tive dela à primeira leitura, desprevenida, ao descobrir os primeiros livros da "Lady do Crime".
Era a simplicidade e a naturalidade da figura que me atraíram logo, uma certa doçura aliada à severidade, o sentido de justiça mais a inteligência viva, mas suave, a compreensão das pessoas simples e a curiosidade do "mal" sem a cuscuvilhice de St. Mary Mead...

Gostava que me dissessem o que pensam.
Ponham comentários, anónimos se quiserem (depois podem assinar em baixo...), pois eu sei quão difícil é "pôr um comentário no blog"!
Falha tecnológica minha, se calhar...
Pergunto em especial à minha querida amiga, e fan da Agatha, muito crítica em relação às representações das "suas" personagens tão amadas , a Ana Luísa:


"Olá! Já viste a nova Miss Marple? O que achas desta vez? Bem... se não viste, vai já comprar!"
(O mesmo digo à Guida, à Lurdes, à Lívia...)

Para já, aconselho aos apreciadores da escritora - e do género policial- e aos curiosos por natureza a compra do DVD "Marple" 3 -porque são a continuação dos dois DVDs, que saíram intitulados do mesmo modo, ainda com a actriz Geraldine McEwan no papel de Miss Marple.
Existe na FNAC e traz duas belas e horríveis histórias, cheias de peripécias e de mistério:
"Perguntem a Evans" e "Um bolso cheio de aveia", considerado pela própria Agatha como um dos seus melhores romances.
Sei que já saíram mais DVDs em Inglaterra, mas ainda não os encontrei...

Para quem quiser relembrar alguns factos sobre esta nova série e a sua nova actriz, copio a notícia que apareceu por altura do aniversário de Agatha Christie em 15 de Setembro passado no Guardian de 6 de Setembro:

"Julia McKenzie's debut as Agatha Christie's Miss Marple attracted 5 million viewers to ITV1 last night, Sunday 6 September, but lost out to a new series of BBC1's Waking the Dead.
A Pocket Full of Rye, the first of four new feature-length Marple mysteries, drew an average of 5 million viewers and a 21% share between 8pm and 10pm, according to unofficial overnight ratings.
This was well ahead of the 3.8 million and 15% who tuned in for Geraldine McEwan's final outing in the same role on New Year's Day between 9pm and 11pm.
While McKenzie's debut as the elderly sleuth was the best rating show in the first hour of its running time, beating BBC1's Antiques Roadshow, it had stiffer competition from Waking the Dead at 9pm.
The first episode of the dark detective drama's eighth series was watched by 6.1 million and a 25% share, better than the 4.8 million and 20% averaged by Marple in that hour.