terça-feira, 18 de agosto de 2009

Poesia, poesia, poesia... Fernando Pessoa e os heterónimos









Começo por Ricardo Reis e Alberto Caeiro, mais positivos: lembro-me de algumas reacções de "desconforto" de alunos que descobriam Fernado Pessoa e se chocavam no desprendimento de tudo, na frieza, secura, desespero de Álvaro de Campos e Fernando Pessoa, que deixo para o fim... E uso este belo quadro do Chagall em que tudo está: o mundo circunstante na sua realidade e na imaginação infindável dos poetas.









Para ser grande, sê inteiro


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis, Poemas


A Espantosa Realidade das Cousas

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta. Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais.
Naturalmente. Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"













Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está de pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa, ortónimo












Lisboa revisited




(...) Outra vez te revejo,

Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...
Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...
Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

Álvaro de Campos, Poemas, Lisboa Revisited
Ilustrações:
1. Chagall
2. Van Gogh, noite estrelada
3. Foto de Valangui
4. Paisagem da Northumbria (norte de Inglaterra)
5. Vista sobre Lisboa e a Sé

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A minha África outra vez: O Nini e a candonga




O Nini e as mangas do quintal

Uma manhã tranquila, no meu quintal. A brisa fresca faz esquecer por momentos o calor que vai chegar em breve. Vejo as mangueiras enormes, cheias de mangas, o papiro delgado que nasce ao lado da janela do quarto. Debaixo do coqueiro enorme, na cadeira de repouso, leio.
Ouço a Milly aos gritos. Acabou o sossego.
-Dôtôra, é vêrgonha! Nini levou manga do quintal e estava a vender à porta da escola.
O Nini estava atrás dela e ela puxava-lhe uma orelha.
- Deixa-o, Milly! Que mal faz? Há por aí tanta manga caída... Pode comer, levar o que quiser...
- É vêrgonha! A vender cada montinho a 100 dobras!
Na sua indignação agitava o corpo forte, ajeitava o avental repuxado na barriga, como se quisesse mostrar melhor a sua dignidade ofendida.
- Sim... O que vai mundo dizer? O quê? Candongueiro?
Eu sorria virando a cara para o lado para ela não me ver.
- Sim, que vai dizer?! Que mãe dele vive tão mal que manda seu filho vender manga?
Conhecia as fúrias da Milly e, sem querer, sorria a imaginar o Nini sentado num banquito –como eu via fazer tantos meninos como ele, à porta do mercado do Ponto- com um caixote virado a fazer de mesa e os montinhos de mangas bem empilhadas. Via-o a guardar as notas de 100 dobras bem arrumadinhas no bolso dos calções sempre a cair.
Eu tinha uma grande ternura pelo Nini. Era um menino frágil, enfezado, com um ar assustado e sempre a fugir das sovas da mãe. Quando a Milly se irritava, o Nini desaparecia do jardim com medo que ela lhe batesse. Ela batia sempre com força.
Ficava lá fora a ouvir, e só voltava quando ela estava calma e a tempestade tinha passado. O que acontecia de repente, pois a Milly nunca estava muito tempo zangada. As fúrias dela iam e vinham.
Quando ia pela rua acontecia às vezes ao Nini encontrar o pai -que abandonara a mãe logo que ele nascera, dois anos depois da Dáy- e também ele lhe dava uns sopapos.
Na escola era um aluno fraco, tímido, nunca respondia, parecia parado. Dizia o professor que não aprendia.
Uma tarde fui falar com ele à escola para saber que problemas eram os do Nini afinal. Aliás, do Wildger, pois Nini era "nome de casa".
- O Wildger? Oh! Esse menino não presta atenção, não aprende...
- Porquê? É um miúdo esperto...
- É preguiçoso, distrai-se a olhar para fora, não gosta de estudar!
Resolvi pôr-me a estudar com ele. Comecei a ensiná-lo a ler. Devagarinho, ia soletrando antes dele. Ficávamos de livro aberto em frente, íamos falando e ele ia lendo.
Como é natural -é o que acontece com todas as crianças, mais tarde ou mais cedo- de repente começou a ligar as palavras escritas às que conhecia, e leu. Vejo bem os seus olhos a brilharem de contentes. Depressa acabou a cartilha e já espreitava com curiosidade o jornal, as revistas. Ia dar com ele a ler alto: "no-jar-dim ha-vi-a-flo-res. Faus-ti-no-mai-z-a-gi-ra-fa..."
- E eu acabava: "acharam uma garrafa!"...
Ele ria-se. Não parecia o mesmo, ganhara confiança em si. Agora queria que eu lhe ensinasse matemática...
Como acabou a história das mangas?
Confesso que não sei. A Milly esqueceu-se, suponho, ou ele prometeu não voltar ao “negócio” da banca.
A verdade é que hoje o Nini (Wildger, na rua), já crescido, tem dois filhos e é "comerciante". A ideia do tal negócio das mangas à porta da escola desenvolveu-se, aumentou na sua cabeça, e vende na “candonga”, termo são-tomense para dizer que troca divisas, vende artigos sem licença, onde calha, tudo o que calha, a quem calha...

Outro soneto lindo: Antero de Quental e o sonho









O Palácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!


Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!


Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!


Abrem-se as portas d'ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!


Antero de Quental , Sonetos
ilustrações:
Giovani Bellini, S. Jorge e o dragão
Paolo Ucello, S. Jorge e o dragão

Anne Frank

Aconselho-vos a nota hoje sobre Anne Frank, no blog http://sobreorisco.blogspot.com
É bom não esquecer... Passaram 65 anos, foi ontem...

domingo, 16 de agosto de 2009

Histórias da Casa Amarela: O Carnaval, ratinhos e violetas...





O Carnaval era nesse tempo da minha infância um momento mágico, para nós. Começávamos muito cedo a fazer os preparativos: descobrir os fatos de carnaval, o que, muitas vezes, se reduzia a ir à arca no sótão ver o que lá havia e tudo nos servia: saias de seda, blusas de rendas e as costumadas roupas “à moda do Minho”, lenços garridos, aventais de riscas coloridas, saias vermelhas.
A mim bastavam umas calças de pijama brancas do meu pai, as botas da escola, um pano branco por cima dos cabelos, atado com o cinto de fios torcidos de um velho robe de seda, para me sentir transformada em Lawrence das Arábias e estar preparada para seguir o meu avô nas deambulações dele pela cidade.
Preparávamos com antecedência saquinhos de pano com feijões para, depois, lançarmos, nas matinées do Carnaval, do velho Cine-Teatro.
A Hermínia parava com as suas costuras habituais e cosia à máquina os tais saquinhos que a minha mãe cortava em bocados de seda e de riscado, e alinhavava. O nosso trabalho era virá-los para ficarem do direito e enchê-los de feijão fradinho e atá-los no alto com uma fitinha ou mesmo só com linhas de coser bem apertadas. Pouco a pouco, o cesto da costura era um arco-íris de cores e desenhos variados.
O meu pai afastava-se desses divertimentos. Penso que detestava o Carnaval, considerando-o um período de estupidez e de primitivismo. Tinha razão. Recordo a brutalidade com que, nessas matinées, aparentemente inofensivas, visto que o público era, na maioria, constituído por crianças, se jogava afinal com violência. Contra os nossos saquinhos –que, ingenuamente, fazíamos ligeiros- eram lançadas autênticas pedradas, sacos pesados, cheios de grão, que eram catapultados lá de cima, da galeria ou do 3º balcão. Num intervalo dessas sessões (era no intervalo que a fúria da guerra dos saquinhos se desencadeava), a minha irmã mais velha recebeu um desses projécteis na cara o que lhe causou um derrame num dos olhos e teve de sair com o meu pai, furioso, para ser tratada.
Para nós, pelo contrário, cada dia era uma brincadeira nova a inventar: uma partida à Florinda, as caudas de papel ou de serpentinas penduradas nas costas com um alfinete de cabecinha, igual àqueles que eu costumava usar, dobrados, com uma linha, para tentar pescar os peixinhos encarnados no lago da Corredoura, coisa que nunca consegui, e, no fundo, nem queria.
Ou os sustos dos mascarados que batiam à porta ou amigos que vinham visitar-nos.
No café do meu avô, o Café Central, lembro-me de estar sozinha por detrás de uma grande vidraça sem saída e vir um grupo de mascarados brincar comigo, bater no vidro e assustar-me. Eu sabia que eles não podiam entrar mas a verdade é que eu também não podia fugir deles porque aquela sala estava ao fundo de um corredor que me separava da salvação da cozinha. Encostei-me ao lado do grande cortinado de veludo, fazendo-me pequenina até se esquecerem de mim e irem rua abaixo até ao Arco.
Uma noite, a nossa prima Helena veio pelas escadas e entrou, pela porta da cozinha, vestida com um pijama negro, um barrete de lã na cabeça, luvas brancas e uma máscara branca e dourada que era uma caveira.
Foi uma gritaria. A Florinda metia-se pela chaminé adentro, agachada, de mãos na boca, e aos "ais". A Hermínia encolhia-se detrás da máquina de coser, olhos esbugalhados como se visse o lobisomem de que costumava contar-nos histórias. A Rosalina ia recuando para a sala, escondendo-se no avental, a chamar pela minha mãe.
E nós ríamos, ríamos, um pouco histéricas, agarradas à mão do nosso pai, entre o medo e o prazer da cena. No fim, dávamos palmas quando ela era “desmascarada” pelo meu pai –que deixara a porta da rua aberta para ela poder entrar- e agora com medo que aquela excitação e aquele susto nos fizesse mal.

Mas houve uma história de um carnaval que não esqueci. Uma manhã, ainda cedinho, bateram ao martelo da porta. A Florinda, que andava a varrer as escadas, veio trazer ao quarto uma encomenda para a minha mãe.
Ainda deitada, e nós ao pé dela, começou a abrir o embrulho. Era uma caixa pequena de chocolates, e, dentro, com os chocolates, fitas, papéis de seda e violetas que cheiravam maravilhosamente. De repente, aturdidos, saem do meio das flores três ratinhos brancos minúsculos. A minha mãe largou a caixa e os ratinhos espalharam-se pela cama e saltaram para o chão. Era uma confusão no quarto.
Encostámo-nos ao espaldar da cama, de mãos na boca e olhos abertos: eram lindos os ratinhos, só tinha visto outros assim nas histórias da “Gata Borralheira”. Mas assustavam-nos.
A Florinda com a vassoura empurrou-os para a pá do lixo e levou-os.
- Florinda, não os mates! Por favor...
Ela disse que os ia deitar fora. Matou-os? Nunca soube, não quis saber.
Que culpa tinham os ratinhos das brincadeiras inconscientes dos humanos? Razão tinha o meu pai para não gostar do Carnaval...
Fechei os olhos e deu-me uma grande vontade de chorar.

sábado, 15 de agosto de 2009

Camilo Pessanha: dois sonetos

Deixo hoje dois sonetos de Camilo Pessanha:













Floriram por engano as rosas bravas

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?


Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!


E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

Camilo Pessanha "Clepsidra e outros poemas"
Colecção Poesia
Edições Ática, 1973










Passou o Outono já, já torna o frio...


Passou o Outono já, já torna o frio...
– Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
– O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Aguas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
– E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

Camilo Pessanha (Paisagens de Inverno), "Clepsidra e outros poemas"
Colecção Poesia
Edições Ática, 1973
Ilustrações:
1.Valandgui, magnólias
2. Odilon Redon, Ofélia entre as flores
3. Claude Monet, Inverno com neve

Camilo Pessanha: o poema "ao longe os barcos de flores"








~Ao longe os barcos de flores~

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
– Perdida voz que de entre as mais se exila,
– Festões de som dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Júlio Dinis e a Casa Amarela

































Júlio Dinis é outro escritor da minha infância. Que foi um prazer ler e muito me deu.
Dizem os manuais que foi o criador do romance "campesino" (rural) e, de facto, só "Uma Família Inglesa" é citadino (passa-se na cidade do Porto).
Mas mais importante do que isso é a força com que se afirmam os caracteres que põe em cena.
As suas personagens, tiradas, na sua maioria, da vida real, inspiradas nas pessoas com quem contactou e observou com cuidado, têm tanta naturalidade que muitas delas ainda hoje as "vemos". É o caso da tia Doroteia que aparece em "A Morgadinha dos Canaviais", imagem da tia, em casa de quem viveu um tempo, ou de Jenny, a maravilhosa Jenny de "Uma Família Inglesa", para a qual recebeu inspiração da sua prima e madrinha, Rita de Cássia. Ou Madalena e Cecília que ignoramos em quem se inspirou...
Escritor de análise psicológica preciosa, criador de mundos que eu tocara de perto -porque, vivendo perto do campo, fazendo férias em quintas, estavam-me próximos- e me interessavam; de personagens femininas cheias de contradições, de fraquezas, ou de grande rectidão; de ambientes verdadeiros.
Júlio Dinis viu (ou quis ver) sempre o mundo pelo prisma da fraternidade, do optimismo, dos sentimentos, do amor e da esperança. Isso para mim é positivo, sabe-me bem ler quando pego num livro dele.
Quanto à forma, é considerado um escritor de transição entre o romantismo e o realismo (click para ver).
Associo-o à minha infância e à Florinda e à minha casa amarela...
Foi um dos primeiros autores portugueses que li, com Camilo ("Doze casamentos Felizes" - sei lá porquê, foi um dos primeiros...), Alexandre Herculano e o “Eurico, o Presbítero” e a sua Hermengarda, “O Bobo", “O Arco de Sant’Ana" e "O Alfageme de Santarém", de Garrett, mais os "Contos" de Eça são os que recordo melhor desses tempos de leitura, quase à luz do fogão, diria...

Pois bem, os livros de Júlio Dinis lembram-me a Florinda...
Já aqui falei dela, pessoa inesquecível de inteligência e sensibilidade a quem faltou um pouco de beleza para ser mais feliz. Sofria muito com isso, era extremamente sensível à beleza, à elegância, à arte, gostando de música, pintura, era um ser belo no seu interior.
Gostava de aprender, imitava com admiração tudo o que nós fazíamos desde o andar de patins, às cópias, leituras e, mais tarde, quando chegámos ao Liceu, quis aprender algumas palavras de francês e de inglês.
Depois do jantar, o nosso serão passava-se muitas vezes na cozinha, sobretudo de Inverno, à braseira que lá estava debaixo da mesa redonda, junto da chaminé.
A braseira aquecia-nos mas o calor que o fogão de lenha mantinha durante horas era bem mais agradável, dando-nos um certo torpor. Mesmo apagado, por causa das brasas aquecia o ambiente todo e, sobretudo, as costas da Florinda que punha a cadeira de modo que se sentava quase em cima do fogão.
E começava a noite dos "trabalhos" de casa, a lição: cópias, ditados, leituras em voz alta ou, então, apenas leitura.
A minha irmã pequenina gostava de ditar e, mais do que tudo, de corrigir os erros da Florinda -que sublinhava com grossos traços de lápis vermelho.
- Flor! Tens cinco erros e dez faltas!, comunicava, contente.
- Não são erros, menina, é da letra, eu faço o “o” assim, com esta perninha...
E mostrava.
- Não é nada disso, falta-lhe mas é um “o”, puseste um "a"!
- Mas aqui está certo...
- Não, é erro, é uma falta de acento!, dizia sempre peremptória a pequenina, cheia de si.
Por vezes, os erros mereciam reguadas, dadas com uma tabuinha de madeira. A Florinda queixava-se "ai, ai", para ajudar à brincadeira, e a minha irmã ria.
E discutiam as duas até passarmos a outra distracção. Normalmente, era a leitura. Cada uma ia buscar o seu livro e ficávamos a ler, com os cotovelos encostados à camilha de cor clara, e o rádio a tocar baixinho.
A Rosalina começava a cabacear e dormia passados poucos minutos. Não conseguia ler um livro, apesar de ter aprendido connosco a ler e a contar. A Florinda embrenhava-se na história de “Os Fidalgos da Casa Mourisca” que passava, nessa altura, em folhetim radiofónico, e a entusiasmava. De vez em quando parava, a “pedir um significado”. O dicionário estava ao lado e todas corríamos a ver o que era. Às vezes, sabíamos o tal significado e ficávamos contentes a explicar à Florinda o que a palavra queria dizer.
Ela lia, atentamente, seguindo a leitura com um dedo que ia avançando, primeiro devagar, depois a uma certa velocidade. Aí, esquecia-se de pedir os significados.
Via as mãos dela vermelhas, brilhantes da gordura, gastas das lavagens, do uso de produtos que as estragavam. Ainda não havia cremes para as proteger, nem esfregões suaves: era o “espago”, a soda cáustica, a areia (para arear os tachos e ficarem brilhantes), e era a cré para polir os metais.
Eu pensava:
- Se calhar, vai sujar o livro...
Mas ela nunca deixava uma nódoa: lavava as mãos com sabão e limpava-as bem no avental antes do serão.
O livro dela (era dela, nós tínhamo-lo oferecido num Natal) estava amachucado nos cantos, com as páginas dobradas para “marcar” o sítio onde ficava, outras vezes enrodilhado porque pousava a cabeça em cima dele, adormecendo de repente.
Por fim, ficava só eu a ler e elas as duas a dormir. Eu era a última a largar os livros. A mais pequena fugira para as brincadeiras dela, a cantarolar, a mais velha impacientava-se, insatisfeita, e ia ter com os nossos pais à sala. Eu continuava a ler “A Morgadinha dos Canaviais”, engolindo páginas atrás de páginas.
A minha mãe chamava lá de dentro, mas nós não ouvímos: a Florinda e a Rosalina tinham adormecido profundamente e eu não queria ouvir nada.
Tinha que vir ela à cozinha acordá-las e dizer-me para ir já para a cama....
A Rosalina de olhos estremunhados e com as farripas da franja loira despenteadas espreguiçava-se. A Florinda, que tinha a cara deitada sobre o livro, bem agarrado com os dedos, resmungava que não estava a dormir.
Eu fingia não ouvir e continuava a ler, enrolando os cabelos num dedo, até a minha mãe ralhar.
- Já para a cama!
- É só mais um bocadinho, mamã, para acabar a página...
- Não.
Não valia a pena insistir, ela sabia bem que eu não ia só ler até ao fim da página. Levantava-me da cadeira, ia à sala arranjar a pasta, dizia "boa noite" e ia-me deitar.
Suspirava com o livro debaixo do braço, a caminho do nosso quarto.
O quarto estava às escuras, mas bastava a luz dos candeeiros da rua. Ia pôr o livro na estante em frente da minha cama, e despia-me. Sabia que a minha irmã mais velha estava acordada ainda. Começava já a sussurrar "Jana, Jana, quero falar só um bocadinho", dizia ela.
Tinha insónias e gostava de ficar a conversar comigo até adormecermos.

Passara mais um serão.
Desta vez com os livros de Júlio Dinis
e a sua Morgadinha dos Canaviais...
Ilustrações:
1. Cézanne, casa no campo
2. Mary Cassatt, o jardim
3. retrato de Júlio Dinis
4. capa de A Morgadinha dos Canaviais (Porto Editora)
5. capa de Uma Família Inglesa (Porto Editora)
6. Desenho de Júlio Dinis

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Mais escritores portugueses: E por que não os contos de Eça de Queirós?





"A aia"





São lindos os contos de Eça...
"A Aia"
Um dos meus preferidos foi sempre “A Aia”. Falo-vos dele tal como o recordo, lido na minha juventude, com os sentimentos que então tive...
Nunca esqueci esta história terrível!
Num castelo, o Príncipe dorme no seu berço de oiro e marfim. Abandonado ao sono, dorme envolto em panos de linho e de brocado.
Na noite, os bárbaros, o tio usurpador vêm para matar o príncipe, indefeso.
Só a aia, a fiel escrava, vela. Ouve, sente o barulho dos homens armados. Estremece mas decide. Depois esconde-se detrás dum reposteiro. Espera.
O príncipe, quase um bébé, é levado pelo seu agressor, sem piedade.
Os homens partem deixando para trás o vazio e a dor.
A Rainha, jovem e viúva, chora desesperada, todos gritam, arrancam as vestes. Mas o usurpador é morto pelas tropas fiéis ao futuro Rei. Lamentam, porém, o corpozinho roxo que encontraram ao pé do seu algoz.
Do seu canto, a Aia move-se devagar e vai ao outro berço, um berço pobre, de verga, e pega ao colo num menino. Estende-o à Rainha.
Era o príncipe, embrulhado numa lã áspera mas quentinha. O principezinho estava salvo.
Tudo quer oferecer, à Aia, a Rainha que a abraça como irmã. Leva-a à arca do tesouro real, para escolher o que quiser.
Ela, silenciosa, tudo recusa. E diz:
- Salvei o meu príncipe, agora vou dar de mamar ao meu filho.
Tira da arca aberta um punhal cravejado de diamantes e espeta-o no coração.

Esta é a ideia que guardo, neste ponto já eu chorava sem consolo. Para mim isto era o máximo da tragédia, da dor, do sacrifício.
Suspirava enquanto enxugava as lágrimas...
~

"O Suave Milagre"(1898)
(e "Outro Amável Milagre", em forma contracta, em páginas puríssimas, escrito, com outro título, em 1885)

Sim, há dois milagres, os dois igualmente puros, um mais reduzido na forma, o outro, mais tardio, com a opulência do estilo de Eça.
Os dois falam daquele menino doente, deitado na sua enxerga -e esta palavra estava, para mim, carregada de sugestões e imagens de sofrimento: evocava a palha húmida, envolta num pano sempre de riscas, o cheiro a mofo, a bolor, ao suor da doença e da fome. Jazia, pois, o menino, na enxerga, no chão de pedra de um velho casebre.
Jesus andava pela Galileia. Todos falavam dos milagres, da sua bondade, da pureza do seu olhar.
E o menino dizia:
- Mãe, eu queria ver Jesus...
A mãe sabia que Jesus não viria a uma pobre choupana, ver um pobre menino sem nada, que o chamava. E como poderia ela tentar ir buscá-lo, se nem os ricos o tinham encontrado?
Tentava consolá-lo, como as mães costumam fazer, quando não podem fazer mais nada, e dizem:
- Dorme, meu filho...
Lembro um filme lindo de Pasolini, “Ucellacci, Ucellini”, e uma cena arrepiante em que uma pobre mãe a quem o filho pede pão e que o não tem, à espera que venham buscar o dinheiro da renda que ela não tem, torce as mãos em desespero, e diz:
- Dorme! É ainda noite. Dorme...
Na história de Eça, o menino continuava a pedir:
- Mãe, eu queria ver Jesus...
Neste momento da leitura, eu só “queria” que Jesus chegasse, “sabia” que ele tinha de vir.
Esperava, ansiosa, de lágrimas nos olhos, e perguntava sempre o mesmo, sabendo bem como a história acabava, mas com medo:
- Virá?
Sim, ainda hoje pergunto: Jesus virá?


São Cristóvão

E depois havia a história do bom gigante, Cristóvão.
Um dia, Cristóvão, já velho, repousa junto do rio e vê aproximar-se um menino que lhe pede:
- Cristóvão, levas-me a casa dos meus pais, do lado de lá do rio?
É Inverno, a corrente é forte, as águas revoltas, e Cristóvão receia, mas põe o menino às costas, pega no cajado e entra pelo rio dentro.
A casa é longe, parece-lhe não avançar com a turbulência das águas, perde as forças:
- É ainda longe a casa dos teus pais, meu menino?
- É já perto... Mais um pouco, Cristóvão, é ali...
O menino pesa no seu ombro, um menino tão pequeno, e ele fraqueja, sente que vai cair.
- É longe, meu menino?
- Chegámos Cristóvão, esta é a casa dos meus pais.
Cristóvão não percebe, mas sente uma paz enorme. Está-se bem na casa do menino.
E adormece para sempre.

Era um conto que me sossegava, foi o que me ficou desta história...
Ilustrações:
1. retrato de Eça de Queirós
2. Zinaida Serebriakova, " jovem mulher", que eu associo à imagem que guardei da aia.
3. Perugino, "a entrega das chaves".
4. Um São Cristóvão popular.

(*) Sabem que Cristóvão quer dizer: "carregador de Cristo" (cristos+phoros)?

Viveu no século III DC, a lenda conta levava pessoas a atravessar o rio aos ombros, e, segundo a lenda, teria transportado Jesus menino...
Mas lindo, lindo de verdade é o "S. Cristóvão", de Eça, publicado nas "Lendas de Santos". Comovente, cheio de movimento e de vida, com uma linguagem simples e ao mesmo tempo muito rica. Vão procurar e ler!

Mais poetas e escritores portugueses: hoje António Nobre

















Hoje, António Nobre, um dos nossos maiores.

Enterro de Ophelia

Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar..
Deixal-a! (Fallae baixinho: agora mesmo se ficou...)
Como padres orando, os choupos formam ala,
Nas margens do ribeiro onde ella se afogou...
Toda de branco vae, n'esse habito de opala,
Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou,
Mas para um outro, horror! que tem por nome Valla,
D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!...
O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella,
Que a perseguia sempre, em palacio e na rua,
Vede-o, coitado! mal pode suster a vela...
Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros,
E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua,
Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!

António Nobre, in 'Só'























Ballada do Caixão

O meu vizinho é carpinteiro,
Algibebe de Dona Morte:
Ponteia e coze, o dia inteiro,
Fatos de pau de toda a sorte:
Mogno, debruados de velludo
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vae a aborrecer
Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,
Havia immenso que fazer!...)
- Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva?
- Vamos ver...
Olhou, mexeu na caza toda...
- Eis aqui um e bem barato.
- Está na moda? - Está na moda.
(Gostei e nem quiz apreçal-o:
Muito justinho, pouca roda...)
- Quando posso mandar buscal-o?
- Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:
(Poz-se o bom homem a aplainal-o...)
Ó meus amigos! salvo-erro,
Juro-o pela alma, pelo céu!
Nenhum de vós, ao meu enterro,
Irá mais dandy, olhae! do que eu!
António Nobre, in 'Só'
************
Ilustrações:
1. "Ofélia", de John Everett Millais
2. fotografia de António Nobre
3. "Nenúfares" (nympheas) , de Monet
4.Busto de António Nobre, no Penedo
5. fotografia de António Nobre

domingo, 9 de agosto de 2009

Hoje tive saudades dos nossos poetas...Deixo-vos Cesário e "Cristalizações"







Hoje olhei o meu blog e pensei: falo pouco escritores portugueses, dos nossos poetas, e é injusto...
Logo me veio à memória Cesário Verde, um dos mais amados, e os versos de"Cristalizações.

O poeta passeia pela cidade e observa. E leva-nos com ele, atrás das cores, das figuras, a perceber a luz, os cheiros, os sentimentos.


Começa o poeta:

"Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,/vibra uma intensa claridade crua./ De cócoras, em linha, os calceteiros,/ Com lentidão, terrosos e grosseiros,/ Calçam de lado a lado a longa rua."

E nós vemos a imagem frente aos olhos: o trabalho bruto, a força física, o olhar boçal dos calceteiros, "a sua barba agreste! A lã dos seus barretes!"

São, depois, as peixeiras que chegam, na manhã fria, "dando aos rins que a marcha agita,/ Disseminadas, gritam as peixeiras;/ Luzem, aquecem na manhã bonita,/ Uns barracões de gente pobrezita/ E uns quintalórios velhos com parreiras."
Mais o povo, a gente pobre, os quintalórios...

E, logo, contraposta, a poética elegância friorenta da actrizita que, com "ar matinal de quem saiu da toca", atravessa a rua, nessa manhã de Dezembro, de árvores desfolhadas e sem flores, com seu perfil fino e aguçado, a tiritar, "toda abafada, num casaco à russa".
Tudo o poeta observa e sente, à luz do sol de Inverno. E tem vontade de viver. E pinta o que vê...

"Lavo, refresco, limpo os meus sentidos. /E tangem-me, excitados, sacudidos, /O tacto, a vista, o ouvido, o gosto e o olfacto!"; vê : "os ares, o caminho, a luz reagem"; cheira e saboreia a vida à volta : "Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;/ Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura."
Os trabalhadores vão calcetando a rua e a actriz, que à noite o poeta tanto cumprimenta -"e a quem, na plateia, atraio/ Os olhos lisos como polimento" - passa de leve, absorta, tiritando em suas peles "nestes sítios urbanos, reles!"
E compara-os, quando ela os cruza:

"Eles, bovinos, másculos, ossudos, /Encaram-na sanguínea, brutamente" . Ela "vacila, hesita, impaciente/ Sobre as botinhas de tacões agudos./ (...) arrisca-se, atravessa/Covas, entulhos, lamaçais, depressa", afastando-se na sua fragilidade forte.
E um grito de revolta do poeta pela dureza da vida do homem que trabalha, em tão duras condições: "Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!/ Que vida tão custosa! Que diabo!"
E ainda: "Povo! No pano cru rasgado das camisas/Uma bandeira penso que transluz!/
"(...) Com ela sofres, bebes, agonizas;/Listrões de vinho lançam-lhe as divisas, / E os suspensórios reaçam-lhe uma cruz!"
E fecha com a imagem saltitante da actriz que corre para o seu ensaio.

Aqui vos deixo uma coisa bela...

“Cristalizações”
A Bettencourt Rodrigues, meu amigo.

Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócoras, em linha os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações secaram do relento,
E o descoberto Sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças de água, como um chão vidrento,
Reflectem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã bonita,
Uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra - que união sonora! -
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros , baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas, os coletes;
E eles descalçam com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras.

E nesse rude mês, que não consente as flores,
Fundeiam, como a esquadra em fria paz,
As árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
Atiram terra com as largas pás.

Eu julgo-me no Norte, ao frio - o grande agente!-
Carros de mão, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!

Negrejam os quintais, enxuga a alvenaria;
Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O céu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto, que eu diria
Ter ante mim lagoas de brilhantes!

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exacto.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
De tão lavada e igual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um pára enquanto eu passo;
Dois assobiam, altas as marretas
Possantes, grossas, temperadas de aço;
E um gordo, o mestre, com um ar ralaço
E manso, tira o nível das valetas.

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custosa! Que diabo!
E os cavadores descansam as enxadas,
E cospem nas calosas mãos gretadas,
Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se aguça;
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina, desemboca,
Toda abafada num casaco à russa.

Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento
E a quem, à noite na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio.

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como lajões. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lezírias, dos montados:
Os das planícies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
Furtiva a tiritar em suas peles,
Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
Neste Dezembro enérgico, sucinto,
E nestes sítios suburbanos, reles!

Como animais comuns, que uma picada esquente,
Eles, bovinos, másculos, ossudos,
Encaram-na, sanguínea, brutamente:
E ela vacila, hesita, impaciente
Sobre as botinas de tacões agudos.

Porém, desempenhando o seu papel na peça,
Sem que inda o público a passagem abra,
O demonico arrisca-se, atravessa
Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
Com seus pezinhos rápidos, de cabra!

Lisboa, Inverno de 1878
(Publicado na Revista de Coimbra, no.1 1879 & Correspondência de Coimbra, 17 de Junho de 1879.)
In “Obra Completa”, colecção POETAS DE HOJE, Portugália
Ilustrações:
1. Vlaminck (Escolhi esta obra de Vlaminck ...porque me pareceu próxima de "Cristalizações")
2. Bailarinas, de Degas -a actrizita vai para um ensaio. Por que não?
3.Retrato de Cesário Verde
4. Outra dançarina, agora de Zinaida Serebriakova de quem já vos falei aqui.

sábado, 8 de agosto de 2009

E volto a "Os Olhos de Jade"...




"Os Olhos de Jade"



Capítulo 3


Todas pensavam na morte de Abigail. A doce Abigail, desaparecida. Emily, de repente, perguntou:
-E o que diz o Gabriel, Joan? perguntou Emily. O que diz ele? É uma pessoa estranha... -acrescentou.
Calou-se logo. A sua timidez não a deixava continuar, respeitava demasiado os outros, não gostava de ser injusta nos julgamentos. Procurou as palavras certas, sem conseguir encontrá-las.
-Do assassínio da minha mãe, queres tu dizer? O Gabriel? Nada. Nem lhe falei nisso...Quase não nos vimos desde que cheguei e pouco falámos. Aliás, como sempre...
Joan olhou-a nos olhos e continuou:

- Nunca nos entendemos bem, quando aqui vivi... Vinha de férias e queria estar sozinha com a mãe, passear com ela, brincar só as duas, à volta da casa...
Pensava nos verões enormes, nas áleas cheias de flores, nos outonos, como o de agora, com as árvores vermelhas...
-Sim. Era bom nesse tempo. Hoje penso que tinha ciúmes dele. De certa forma, era um intruso. Viera substituir o meu pai. Admito ter sido injusta ...
-Eu sei, concordou Helen, nenhuma de nós o conhece bem, não é?...
E continuou, escolhendo as palavras:
-É uma pessoa complicada... Introvertido demais para o meu gosto, que sou espontânea! Fecha-se, nunca sabes o que se passa lá dentro. É um intelectual! Nunca percebi por que é que a tua mãe casou com ele...
Hesitou:
-Toda a gente sabe... Creio que tu sabes... aliás a tua mãe também sabia, tinha que saber. Bem, quero dizer... Ele é...
E olhava de lado para Joan. Ela sorriu:
-É gay, como se diz hoje. Era o que as duas queriam dizer. Pois é. Um dia a mãe disse-me que o casamento deles era como um negócio, não me explicou porquê. Mas sei que o estimava.
Emily levantou os olhos para Joan, parecia mais descansada por a ver reagir daquela maneira.
- Ainda bem...
- É um intelectual, repetiu Helen.
- Eu evitava-o, mas reconheço que tem valor, é um homem culto, uma pessoa sensível...
E Joan continuou, irritada:
-Um intelectual, dizes tu?... Mas isso é positivo!
-Eu não estava a criticar...
-O Michael gosta dele, respeitou-o desde miúdo e as crianças sabem avaliar as pessoas. Têm uma sensibilidade e uma intuição enormes, “sentem” o bem ou o mal, a afectividade, a sinceridade dos adultos... Ele viveu mais com eles, eu estava a maior parte do tempo no colégio, vinha só nas férias...

-Talvez o Michael tenha razão, eu acho-o apenas diferente, talvez delicado demais...
Helen parecia desculpar-se:
-A tua mãe falou num negócio? Estranho negócio, na verdade. Sabes como a respeitámos sempre, por isso, se o fez, alguma razão teve. Chegou aqui, sozinha, com vocês os dois, pequenos. O teu pai tinha desaparecido.
- Sim, foram tempos muito duros, foi difícil arranjar um trabalho..., suspirou Emily.
-Pois foi, concordou Helen, muito duros mesmo. Só depois é que teve notícias do David... Já não vivia com a mulher com quem fugiu, tinha arranjado uma americana rica...
E Helen acrescentou, preocupada:
-Isto era a tua mãe que contava, não estou a inventar nada! Mas não sei qual era a verdade, nem soube o que se passou na realidade. Ela falava de maneira vaga. Era como se estivesse a ver, ao longe, uma imagem horrível que quisesse afastar.
-É verdade. Eu tinha a mesma sensação... -concordou Emily.
Helen continuou:
-Às vezes era misteriosa... Assustavam-me os olhos dela. Havia tristeza, é certo, mas ao mesmo tempo tanta dureza. Diria, quase ódio! Percebi que não queria falar do passado...
Fixou os olhos na boquilha de âmbar, que, momentos antes, pousara na mesa, voltou a pegar-lhe e apertou-a com força.
-Mas que ódio? A minha mãe não era pessoa de odiar. Era boa... Como puderam matá-la!?
-Ela morreu... Não podes ter a certeza que a mataram!
E continuou, séria:
-Do passado dela, nunca perguntei pormenores. Via que a magoava. Anos depois é que casou com o Gabriel. Sei que tiveram que ir casar à América, por causa do divórcio e essas coisas todas. Nem sei bem como foi, ela não explicou.
As outras ouviam-na sem a interromper.
-Vocês ficaram com a avó, a mãe da Abigail, que ainda era viva nessa altura. Tu, Joan, não olhavas para ninguém, sempre triste. O Michael era um miúdo...
- O Michael... Demo-nos sempre bem!
- Eu sei... Andava por aí, a brincar. Lembro-me do seu sorriso com duas covinhas na cara... Tu quiseste ir para um colégio, interna... Foi um casamento rápido, talvez um negócio como ela te dizia... Mas, porquê o Gabriel?
Emily arregalara os olhos:
-Não percebes? Como é que não percebes? Porque no fundo ela ainda amava o David, sempre o amou... O Gabriel era o Gabriel... Tinha confiança nele, sabia que nunca lhe pediria nada, nem amor...
Helen continuou, como se não a tivesse ouvido:
-Conheceram-se todos em África. Parece-me que o Gabriel foi o que viveu lá menos tempo, voltou para Inglaterra antes, arranjou aquele lugar na Universidade de Brighton. É professor de arte, não é? Ou será comerciante de arte?
-Tem uma pequena galeria de restauro de quadros antigos..., atalhou Joan. E é professor...
-Não sei, nem interessa para o caso. Tinha o seu club, vivia a sua vida, independente, não incomodava ninguém... E a Abigail casou com ele...
Helen falava devagar, controlando-se, não queria deixar-se dominar pela emoção, mas tudo a tocava como se estivesse em carne viva. Abigail fora a sua maior amiga. E continuou:
-O Rudolph conheceu-o em África. Depois de casarmos.
Helen calara-se, de repente, pensativa.
- Foi sozinho. Ou fui eu que não quis ir? Bem, ele nem me perguntou... Nessa altura ganhou muito dinheiro, falou de negócios importantes. Andou pela África do Sul e sei lá que mais!
Helen calara-se outra vez, fixando os olhos no cigarro aceso. Parecia concentrar-se. Depois, acrescentou:
-Quando voltou, parecia uma pessoa diferente. Estranhei-o. Só nessa altura é que a tua mãe o conheceu. Nunca simpatizou com ele... E o Rudolph também não gostava dela...
-Da mãe? Como é possível? Toda a gente gostava dela!
-Nunca mo disse claramente, mas eu percebia. Evitava-a. Receava o que ela dizia, o seu sentido do humor...
-E ela?
-Ignorava-o, não lhe dirigia a palavra. Devia achar que eu podia ter escolhido melhor. E tinha toda a razão...
Baixou os olhos e apagou o cigarro.
Ficaram caladas, a olhar para fora. As árvores do jardim, de folhas vermelhas, pareciam chamar Abigail.

Agatha Christie, sempre! "The Mousetrap" (A Ratoeira), no St. Martin's Theatre

"The Mousetrap", em Londres no St. Martin's Theatre, do West End
































Não resisti. Sabia que não resistiria: fui ver a representação da peça de Agatha Christie, The Mousetrap”, no St. Martin’s Theatre, em Londres. Tinha que ir, mas tinha medo de não conseguir bilhetes, de chegar o momento de me ir embora sem ser possível, enfim, uma data de medos. Mas consegui!
Ainda cá fora, ao ver a rua, a pequena West St. (dificílima de encontrar -no dédalo de courts, streets, lanes, que rodeiam Trafalgar Square) e o edifício do teatro, que vira nas fotos da internet, senti o coração apertado, numa ânsia.
Perto, do outro lado da rua, o teatro onde a peça se estreara, 57 anos antes (faz 58 que está em cena: em 25 de Novembro) -o "Ambassador’s Theatre"-, com actores como o hoje célebre realizador Sir Richard Attenborough, no papel do Sergeant Trotter e Sheyla Sim, sua mulher, no de Mollie Ralstom.

Seria como sonhara? Iria perceber o inglês dos actores? Viria desiludida?
Antes, lera o primeiro acto da peça, para poder estar “preparada” e, pelo menos, ter uma ideia da intriga, que é a mais secreta que se possa imaginar.
Entrei no hall, fiquei a olhar para as fotografias de actores, de personagens importantes, espectadores da peça (até a rainha, em 2002, quando passaram os 50 anos da estreia) e quase ia comprando uma T-shirt preta, com um ratinho e a ratoeira a encarnado, mas tive vergonha e agora estou arrependida...
E lá fui sentar-me nas cadeiras de veludo vermelho de uma pequena sala harmoniosa.
Rodeei-me de programas (um “souvenir book”), papéis, guardei religiosamente os bilhetes, tirei fotografias da sala, das pessoas, sempre de nariz no ar.

Quem me viu, disse que parecia uma criança. Talvez. De facto, sentia-me como quando chegava a feira à minha terra -a expectativa dos dias anteriores tinha sido enorme!- e sabia que vinha aí o circo, e as barracas cheias de bonecos, de brinquedos e de luzes, e o carrocel: tudo aquilo de que eu mais gostava.
Durante todo o tempo o coração bateu. Inclinava-me para a frente para não perder uma palavra e lá fui percebendo tudo. Os actores ingleses são sempre bons e estes não falharam, pelo menos à minha vista e ouvido.
Posso ter imaginado Mollie Ralston de um certo modo, Chistopher Wren mais austero (impossível, mesmo no livro ele é extravagante, impulsivo, nervoso, infantil...), tendo-se revelado Crispin Shingler, no entanto, um bom actor, ou Mr. Palavicini um pouco mais italiano, o Detective Sergeant Trotter mais polícia, enfim, pequenos pormenores apenas. Muito bom também (o perfeito actor inglês) o actor Graham James no papel do Major Metcalf.
Representação sem falhas, julgo, mas é claro que eu não sou a pessoa indicada para “criticar” nada que se refira à Lady do Crime, por isso não vou criticar nada.
Já agora, uma explicação da “origem” da peça, que o tal "livrinho-souvenir" dá.
Estreia em 1947, na rádio. E porquê?

A BBC procurava um espectáculo na rádio (a televisão era desconhecida) para festejar os 80 anos da Rainha-Mãe, em 26 de Maio.

Foi feito um inquérito: Ópera? Shakespeare? A resposta era infalível, sempre a mesma: “Uma peça de Agatha Christie”.
Então, a Lady do Crime escreveu uma peça de trinta minutos para o aniversário da rainha, intitulada Three blind Mice (“Três ratos cegos”). À roda dos ratinhos perdidos (ou serão os ratos cegos o que se vêm fechados na ratoeira?) gira toda uma trama infernal.
E assim nasce a lenda! Porque a peça “Três ratos cegos”, acrescentada pela autora, vai dar origem ao texto de The Mousetrap ("A Ratoeira").
A peça estreia (é a estreia mundial...), no Theatre Royal, em Nottingham, no dia 6 de Outubro de 1952.
Passa, a seguir, pelos grandes teatros de Oxford, Manchester, Liverpool, Leeds, e outras cidades, antes de se instalar, definitivamente, tal como a sua autora decidiu, no West End, em Londres, em 25 de Novembro, num teatro tão pequeno que teria de ser um êxito súbito para sobreviver.
Diz o tal livrinho: “Pois bem, teve-o e sobreviveu! Como? Ninguém sabe. Talvez por ser uma peça familiar, um bom “whodunit” (assunto misterioso: “quem foi?”), ao mesmo tempo comédia e suspense, bem construída (mais do que se possa pensar). Mas o mesmo sucedeu com outras peças. Além disso, depois de 18 meses, a estrela do cast, Richard Attenborough (actor muito famoso no momento), afastou-se, o que teria sido a morte para a maioria das peças. Mas, mesmo sem “nomes” soantes, The Mousetrap continua, triunfante, até se transformar numa instituição. E o público continua a rir, a admirar e a sonhar.”






os actores da 1ª representação



No tal “souvenir book”, li que os actores do cast mudam praticamente todos os anos (os actuais começaram em Março de 2009) e poucos voltam a repetir o papel (excepção feita para o Mr. Palavicini que eu vi, John Fleming, que fazia o papel pela 4ª vez).
Neste momento já são mais de 390 os actores que representaram os diversos caracteres, numa peça com 8 personagens...
Outra curiosidade: o revólver que foi usado na peça, foi leiloado na Sotheby’s, em 1985, atingindo o preço de 600 libras, e foi comprado pelo "Departamento de Teatro" do Museu Victoria e Albert.

E a única peça do "décor" que esteve presente em todos os espectáculos foi o relógio que está sempre em cima da lareira...

No final, depois dos aplausos -que achei poucos: vi que o público inglês é menos caloroso do que muitos outros: o italiano e o russo, por exemplo, com os seus “bravos” entusiasmados, ou o português, a fazer vir à cena os actores uma ou duas vezes, ou mais-, veio à boca da cena um dos actores (o Sergeant Trotter) e disse:
“Agora somos parceiros no crime... Não revelem a ninguém o que aqui se passou... "


Sorrisos e mais palmas, sempre poucas. Eu fiquei ainda a olhar, de olhos brilhantes, feliz, e a bater palmas até o pano descer.
Tive pena que acabasse, claro. Como quando o Circo fazia a despedida, trazendo palhaços, acrobatas, trapezistas, de roda, fazendo a volta e agradecendo...
Ilustrações:
1. vista exterior do St. Martin's Theatre, na noite de 4 de Agosto 2009
2. capa do livro-souvenir sobre The Mousetrap, de A. Christie
3.cartazes, afixados fora do teatro, com quatro dos actores do cast actual
4. cartazes com fotografias dos outros quatro actores
5. fotografia do interior da sala (má..., da autora)
6. fotografias dos actores do actual espectáculo, 57º ano, 2009 (do souvenir book)
7. fotografias dos actores do 1º espectáculo, 1952 (do souvenir book)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A "saga" de "Kristina Lavransdatter" -uma trilogia: "A Coroa", "A Mulher" e "A Cruz"




















Esta trilogia de Sigrid Undset retrata a vida de uma mulher, desde que nasce, até à morte, na Escandinávia medieval (século XIV), onde os invasores Vikings tinham chegado desde o século VIII.
Kristina Lavransdatter é filha de Lavrans -um respeitado proprietário rural, numa zona da Noruega-, e de sua mulher, Ragnfrid -que sofre de depressão desde a perda de três filhos varões, e da morte da filha, num acidente. Criada num ambiente de amor e de devoção religiosa, Kristina é um carácter sensível mas teimoso, desafiando a família em pequenas e grandes coisas. Ainda muito jovem expõe-se a várias situações dramáticas. Depois de uma tentativa de violação, a sua reputação sofre com isso e é enviada para um convento, em Oslo. O que a marca e a leva a definir a sua maneira de ver a vida.
É prometida em casamento a Simon Darre, filho de um vizinho de casa, mas apaixona-se pelo cavaleiro Erlend Nikulausson, do condado de Husaby, em Trondelag.
Erlend Nikulausson fora excomungado pela Igreja católica por coabitar com Eline, arrojando com os preconceitos sociais e religiosos, mulher de um juiz considerado, que abandonara o velho marido para ir viver com ele. Têm dois filhos, Orm e Margaret.
Mas Erlend apaixona-se também por Kristina e tudo na vida dela vai mudar. Erlend começa por a seduzir e acabam os dois cúmplices na morte de Eline.A Igreja condena-os, a sociedade também. Mas Kristin decidiu viver com Erlend. O pai Lavrans proíbe a ligação mas, depois de três anos em que Kristina desafia o pai e toda a gente, Lavrans fragilizado pela morte da mulher, acaba por aceitar o casamento .
Kristina casa, já grávida, sem o dizer a ninguém, nem ao próprio Erlend, usando indevidamente a coroa dourada, símbolo de virgindade (o primeiro volume chama-se “A Coroa”).
Vão viver para as terras de Husaby que pertencem a Erlend (daí o segundo volume se chamar "A Senhora de Husaby", em norueguês), nasce o filho, Nikulaus, uma criança forte e saudável, ao contrário do que receara Kristina, com medo que Deus a castigasse por essa falta.
Kristina confessa-se ao padre e ele manda-a, como penitência, ir em peregrinação a Santo Olav, figura mítica de rei e santo. A sua religião afirma-se neste momento ainda mais, é nela que a vai apoiar no futuro que a espera.
Erlend é um fraco e ela vê-se obrigada a tomar conta das propriedades, cria os filhos que vão nascendo (mais cinco) assim como os filhos da antiga amante de Erlend.
O tempo passa, o pai morre, a seguir à mãe, e a irmã, Ramborg, casa com o antigo pretendente de Kristin, Simon Darre, que continua, no entanto, a amá-la.
Erlend, impulsivo até à inconsciência, vira-se contra o poder político do momento e é preso. Os esforços de Simon Darre conseguem salvar-lhe a vida, mas os bens passam para a coroa e eles perdem tudo, inclusivamente o domínio de Husaby. A única propriedade que resta para viverem é a quinta onde Kristin passou a infância.
Voltam então, com os filhos, à terra onde Kristin crescera, mas a comunidade não os aceita. Kristina preocupa-se com a família e sente-se obrigada a proteger o futuro dos filhos, agora que Erlend tudo perdeu.


O resto não vou contar...
Na esperança de que, em breve, a obra seja reeditada. Nos tempos que correm de entusiasmo pelo romance histórico, seja ele qual for e qualquer que seja o seu nível, pode ser que alguma editora tenha a coragem e o gosto de “escolher” um fantástico romance histórico: "Kristina Lavransdatter"!
Uma história que se passa na Idade Média escandinava, reconstituição fiel da época, dos costumes e dos ambientes (não podemos esquecer o ”background” de Sigrid Undset: o pai era um homem de cultura, especialista de História, professor e conferencista, apreciado na Noruega e no estrangeiro, que lhe incutiu o gosto pela história, lhe ensinou a literatura, lhe criou o entusiasmo pelas “sagas” (“saga”, histórias ligadas aos países escandinavos, medievais -aventurosas e trágicas, de conflitos de famílias e consequentes “feud” -“vendette”, “faidas”), pela poesia e contos populares.
Evoca o passado e narrra histórias...
Mas não é “apenas” um romance histórico; é uma recriação de um momento, feito por uma escritora de grande qualidade, com um sentido profundo da análise psicológica, capacidade de criar caracteres, personagens que se movem e nós “vemos”, sentido da acção e uma intriga forte. Tudo isto constituiria por si só um pretexto válido para a sua reedição. Houve editoras que já o fizeram com outros autores, clássicos e contemporâneos, hoje esquecidos do grande público que os não encontrava mesmo que os quisesse ler...
E lembro o “Cavalo de Ferro”, com Katherine Mansfield, Virgínia Woolf , ou a “Biblioteca Independente (BI)” (união de três editoras: Relógio de água, Assírio & Alvim, e a Cotovia) que criou uma colecção de bolso, apresentando nomes como K. Mansfield, Stefen Zweig, Conrad, Kipling, Stendhal, Florbela Espanca, Selma Lagerlöff (outro Prémio Nobel-mulher), Emily Brontë; Doris Lessing.

Quem sabe se não vai surgir essa reedição?

Kristina segue o seu percurso na vida, entre vicissitudes, alegrias, dores e nós vamos com ela.
O espírito de supersitição, as crenças antigas, os medos, a religiosidade doentia destes tempos, as culpas, as ofensas e a violência dos castigos, as vinganças são magnificamente dados e tudo nós sentimos.
Os lugares por onde passa ficam-nos na memória: a peregrinação a Santo Olav, em Oslo, a passagem pelo Convento de Trondheim, onde trata os doentes e ajuda os que morrem, durante a Grande Peste Negra -que assola a Europa no ano de 1349 e seguintes, e mata grande parte da população da (actual) Europa.
As pessoas que conhece, Lavrans e a mulher, os filhos, o marido, deixam-nos os olhos com lágrimas que acompanham a coragem e força da maravilhosa Kristina.
Também Sigrid vive várias experiências de rebelião e conflito. Na sua coragem indomável.
Recebeu o Prémio Nobel no ano de 1928, por essa trilogia publicada de 1920 a 1922 e pelos seguintes dois livros sobre “Olav Audunsson” (outra "saga" familiar) , publicados de 1925 a 1927.
Razões evocadas para a atribuição do Prémio Nobel: “(...) principalmente o seu fortíssimo poder de descrição da vida na Idade Média norueguesa.”
É essa a riqueza do livro, não esquecendo, porém, a riqueza psicológica como já referi.
Boa leitura!
Ilustrações acima:
1. Igreja de S. Olav (Nidaros)
2. Vitral da Igreja de S. Olav, em Oslo
3. Capa do Iº volume de "Kristina Lavransdatter
4. Capa do IIº volume do mesmo romance
5. Guerreiros vikings