sábado, 12 de dezembro de 2009

A banda dos Digby Fairweather com Paul Jones em 2008












Aqui vai -com uns minutos de atraso- a Meia Dúzia dos Jazz Band "Digby Fairweather" e o cantor Paul Jones (em concerto de 2008...) que ontem tive o prazer de ouvir no Ronni Scott's Club Jazz, Londres, em boa companhia...


Para quem estiver interessado em conhecer melhor o que é o "Ronnie Scott's" aqui vai a explicação que encontrei, dada pelos próprios.



We are one of the oldest jazz clubs in the world. We opened in 1959 and since that time have featured most of the legendary and popular names in modern jazz and jazz fusion. The club officially reopened on Monday 26th June 2006, after 3 months of refurbishment. We look forward to welcoming you to the new Ronnie Scott's!

Ronnie Scott's Club Jazz, em Londres: Paul Jones (ex-Manfred Mann) e a banda de Jazz Digby Fairweather









Paul Jones (the Manfreds, The Blues Band, and RADIO 2) em concerto com os half dozen (Meia- Dúzia) dos Digby Fairweather no velho Ronnie Scott's o histórico Club de Jazz de Londres (fez este ano 50 anos...) num novo show ’ROCKIN’ IN RHYTHM.’



O novo album do grupo vai ser lançado ainda este ano...

Paul Jones tem ainda uma voz maravilhosa e a jazz band dos Digby é inesquecível, pela qualidade, empenho, fantasia!

Deixo-vos o pouco que encontrei e recordem Paul Jones nos Manfred Mann...

Enjoy!!!!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Sherlock Holmes, o amigo da porta ao lado...



















Sherlock Holmes o amigo da porta ao lado

Saíu em Londres este ano a edição das obras completas de Sir Arthur Conan Doyle com o título “Sherlock Holmes”. A editora é a famosa Penguin Books, a colecção The Penguin Complete, e o Prefácio/apresentação é de Ruth Rendell, escritora de romances policiais inglesa de quem falarei em breve.

Curiosa, fui ver o que ela dizia.

Começa assim:


A fama definitiva de um autor e da sua criação é atingida quando a figura representada na ficção é vista pelos leitores como uma pessoa real.
Mais do que isso: quando a sua aceitação for feita sem pensar nem reflectir, mas aceita, simplesmente. Essa criação é tão convincente, a sua personagem tão cuidadosa e profundamente desenhada, as suas maneiras e hábitos, as propensões e virtudes tão bem definidas, a sua aparência tão fielmente descrita que o leitor tem poucas dúvidas de que se trata realmente de um ser humano vivo.”
E acrescenta Ruth Rendell:

O Pickwick de Dickens foi isso mesmo e penso que Shakespeare e o Falstaff de Verdi o são também. Mas poucos chegaram tão perto de merecer a absoluta confiança na sua existência como Sherlock Holmes.”

Sherlock Holmes bem vivo, o nosso conhecido, o amigo da janela ao lado...




No momento em que vai sair em Londres (e nas outras capitais europeias) o novo filme sobre esta figura inesquecível, penso que os leitores das maravilhosas histórias de Sherlock Holmes vão ter muito com que se entreter neste Natal...




Intitula-se "Sherlock Holmes" e é a nova adaptação, para o grande écran, da famosa personagem de Sir Conan Doyle do mesmo nome e do seu inseparável amigo, Dr. Watson.





O realizador é o inglês Guy Ritchie. Anthony Peckham e Simon Kinberg assinam o guião, baseando-se numa história cómica de Lionel Wigram e nas próprias personagens de Conan Doyle, apresentando um retrato completamente novo do famoso detective.
Os papéis principais pertencem aos actores Robert Downey Jr. (Sherlock Holmes) e Jude Law que será o John Watson. Terá ainda a actriz Rachel Mc Adams no papel de Irene Adler, o único amor de Holmes.

O filme vai ser apresentado, nas salas, em Londres, em 25 de Dezembro de 2009.

A publicidade é imensa, chegando ao ponto de haver na estação de Metropolitano de Baker Street –saída para a famosa rua onde morou Sherlock... - uma figura de cera em tamanho naturl, representando o detective sob os traços do seu novo intérprete.



Pessoalmente, penso que não terá nada a ver com a figura única de Jeremy Brett representando Holmes: dificilmente se recuperará a identificação, compreensão e inteligência da actuação deste grande actor, numa simbiose total...

Vejamos este Sherlock cómico, com ares de cowboy...
Não conheço nenhum livro de Lionel Wigram, não vi o filme por isso nada posso acrescentar, a não ser que só sei que é L.W. é americano e escreve livros cómicos...

Será Sherlock Holmes e o Far West?....
Let it be!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Histórias da Casa Amarela: o valete de paus e outras figuras da minha rua...








Vivia também, mesmo ao lado da nossa casa, um velho senhor, o lavrador da Mesquita, a quem chamavam “o valete de paus”, que me metia medo.
Era um homem magro, muito moreno, empertigado, com um pescoço esquelético a sair da gola da camisa branca, que parecia faiscar a meio do colete preto com alamares brilhantes e das calças negras de onde saíam umas pernas fininhas entaladas nas botas.
Usava um chapéu também negro, cortado a direito, como vira em certos cavaleiros nas touradas. Tinha uns bigodes brancos e esticados na cara severa, e uma varinha na mão.
Chegava a cavalo, ou guiando um carro. Quando estavam as janelas abertas, ouvia o barulho dos cascos e das rodas desde o fundo da rua, mas muitas vezes só dava por ele quando já estava abrir o portão verde-garrafa que dava para um quintal enorme com laranjeiras e limoeiros, que ficava mesmo detrás da minha casa.
Via-o da janela do quarto dos meus pais, no primeiro andar, e da janela da cozinha, lá em cima. A casa, ao fundo, parecia-me sempre vazia, com as portadas de madeira fechadas e não me lembro de lá ver ninguém. Só o cavaleiro vestido de negro...
Às vezes, ouvia na cozinha conversas sobre ele, diziam que tinha “amigas” na cidade e que a mulher era infeliz e preferia estar na herdade. Eu não conseguia perceber por que razão a mulher não gostava das amigas dele.
"É tão bom ter amigas"..., pensava. Mas havia qualquer coisa de misterioso e sombrio naquela personagem e nas suas aparições, e sei que não gostava dele.

Quando começavam os dias de Inverno, passava à porta o homem do picão com uns sacos enfarruscados, no dorso de um burro cinzento de olhos doces. Atrás, vinha a mulher com um molho de carqueja às costas sobre uma serapilheira, apoiando-se num pau que lhe servia de bengala.
Eram muito velhos e muito pobres. Custava-lhes a subir a rua inclinada. Ele ia repetindo um grito, de tempos a tempos, um pregão monótono e fraco, enquanto passavam:
- “Quem merc’ o picão?!”
Descia cá abaixo com a Florinda a comprar o picão para acender a braseira, e uns raminhos de carqueja que cheiravam às giestas e urzes da serra. Sei que se usavam par pôr no coelho manso, para lhe dar um gosto bravio...
Ficava a espreitar, a vê-los, cheia de pena e escondida atrás da Florinda, sentindo-me protegida de tudo ao lado dela.
Lembro-me da cara enrugada que ele tinha, suja do carvão, e dos olhos vermelhos a lacrimejar, do sorriso sem dentes.

Vinha a nossa casa, por essa altura, a senhora Leonilde que trazia as perdizes ao meu pai, na época do defeso.
O meu pai comia quase sempre sem apetite, mas gostava muito de ovos de todas as maneiras, e de perdizes...
O marido dela era caçador furtivo, para mim uma personagem estranha que imaginava, no meio do nevoeiro, com a espingarda ao ombro, ou apontada a uma lebre e fazendo quebrar de repente o voo rápido das perdizes.
Ouvia o bater de asas flébil, a queda, que me comoviam sem ver.
Não o conheci, nem nunca o vi com ela.
Ela chegava embrulhada num xale preto que cheirava a chuva, a fumo de lareira e a campo e que lhe cobria a cabeça e o corpo.
Tinha um riso desagradável, rouco, que me parecia falso e não gostava de a encontrar quando subia as escadas.
Pensava sempre que, debaixo do xale, escondia as perdizes mortas, que, depois de ela se ir embora, via em cima da mesa da cozinha, com as patinhas vermelhas pousadas em cruz, ou algum coelho pequeno com as orelhas caídas e o pêlo suave que tinha vontade de acariciar e não era capaz.
Fugia à frente dela, sem a querer ouvir, quando me falava.
Também ela me assustava.
Lembrava-me do voo das perdizes, ali, agora, de olhos fechados, que ela trazia mortas.

Música: the good old times? Ou hoje ainda? Sim: Cat Stevens e "Wild World" são sempre um prazer ouvir...






segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Histórias de 4 Mulheres: A História de Susie H., a quarta mulher...















Susie, Gelsomino e Pizzy, à esquerda; eu e o meu cão Zac, à direita, no Jardim Ben Gourion.

A história de Susie H.

Há sítios que não se esquecem, pela força que têm, pelas marcas que deixam, pelas situações que neles se vivem, ou, ainda mais importante, pelas pessoas que se encontraram.
Por isso, Telavive, onde vivi cinco anos, me vem sempre à memória.
A vida em Telavive era vivida de modo intenso, como se houvesse a consciência de que cada minuto era precioso, cada dia único, porque, ali, se sentia mais do que noutros lugares, que a vida não dura sempre, ao contrário dos famosos diamantes do 007; é um momento efémero, um sopro, uma passagem, como diz o Salmo 39, e nem sempre e fácil encontrar um sentido para essa fragilidade e precariedade da vida humana


Em Telavive, ao viver-se o momento que já passou, espera-se que outro venha, igualmente intenso porque igualmente precário...



Ali conheci pessoas, vi algumas vidas dilaceradas, senti dúvidas, surpresas, esperanças.
Vou contar a história de uma pessoa que conheci bem, Susie , cuja vida sai fora de tudo o que se possa imaginar.




Costumava ir de manhã com o meu cão, ao jardim da Sederot Ben Gourion. A essa hora limpavam o jardim com longas vassouras metálicas, e ouvia-se o arrastar das folhas, sobre a areia.

Virávamos às vezes para o lado da Rehov Hayarkon e atravessávamos o pequeno viaduto que conduzia à Kikar Atarik, a praça, para ver do alto das escadarias o mar espreguiçando-se ao longo da Promenade. Depois voltávamos para trás até à esquina da Ben Yehuda.
Havia sempre pessoas a passear os cães, muita gente nova, conversávamos, e o meu cão adorava aquele passeio porque também ele se divertia.

Numa dessas manhãs, vi chegar uma senhora, de alguma idade, figura pequenina, frágil, com um olhar vivo, que andava virando a cabeça para todos os lados, curiosa, enquanto ralhava com os dois cães que levava pela trela.

- Gelsomino, non fare questo! Lascia la Pizzy! Vieni qua...

Gelsomino quer dizer “jasmim” em italiano, ora eu tinha vivido muitos anos em Itália e essa melodia da voz dela fez-me bem. Além disso, chamar jasmim a um cão achei que era uma ideia poética e muito especial...

Estava em Telavive há uns meses, não sabia ainda hebraico, recorria ao inglês e ao francês para comunicar e ouvindo aquela língua tão minha conhecida parecia-me quase impossível depois de tanto tempo.
Decidi ir ter com ela...
Era de facto uma pessoa especial! Conversámos uma, duas vezes, encontrámo-nos frequentemente no passeio dos cães, fui a casa dela passar o serão, e ficámos amigas. Amizade que se foi aprofundando, crescendo. Ainda hoje nos escrevemos, ela em Paris há uns anos, eu onde quer que esteja...

Era uma mulher culta que, pela agitação da vida que fora a sua, falava oito línguas! E tudo a interessava, tudo queria estudar, tudo criticava nem sempre com a devida justiça.
A nossa amizade foi-se cimentando, como disse.

Eu contava-lhe coisas da minha vida em África, ela falava-me dela, dos filhos. Um vivia na América, casara, tinha uma filhita, a outra vivia no Japão porque se apaixonara pelo professor de japonês na Universidade, pela cultura japonesa, e fora para lá viver.
Tinha uma relação muito complicada com essa filha, Leah, que adorava. Relação de ódio/amor, prepotência e ressentimento, por parte da filha, e sentimento de culpa de ambas.
Comecei a conhecê-la melhor, o seu feitio difícil, contestador, duro. A aceitar as suas mudanças de humor, a generosidade e, logo, a vontade de agredir, a impaciência, como se alguma coisa a espicaçasse dentro. Eu sou uma pessoa calma, ouço, e comigo ela entregava-se um pouco, confiada.

Ouvi-a.
Ouvi-lhe as queixas da sua Leah, o sofrimento da incompreensão mútua, e dava-lhe um pouco de mimo.
Era uma mulher torturada, marcada.


Um dia abriu-se mais e, levantando a manga da blusa (só depois reparei que usava mangas compridas até aos pulsos, mesmo de Verão), mostrou-me o braço.

Na parte de dentro, na pele muito branca, tinha um número tatuado, em caracteres pequenos mas que se viam bem.
Ergui as sobrancelhas, numa pergunta muda.

Respondeu simplesmente, numa voz neutra, controlada:
- Estive em Auschwitz... Dos doze aos catorze, quinze anos, estive em campos de concentração.
Arregalei os olhos, sustive um pouco a respiração, mas não consegui dizer nada em resposta.

O que poderia dizer? Que palavras existem para querer interrogar, saber mais? Com que direito?
Deixei que ela falasse, e ela continuou com o mesmo tom impessoal com que começara a conversa:
- Eu, os meus pais e a minha irmã mais velha.

- Como foi possível, Susie?, gaguejei.
- Vivíamos na Polónia, numa pequena cidade onde o meu pai era médico. A minha mãe ajudava-o no consultório. Nos as duas estávamos a estudar no liceu quando a Guerra começou. Depois, os alemães chegaram...

Sem querer, eu ia imaginando a cena, como nos filmes: a chegada das tropas alemãs, as brutalidades, as coronhas das espingardas, o espanto e o medo nos olhos, os comboios onde os judeus eram metidos como gado. Sim, já tinha visto isso tudo!
Mas ela? A Susie que eu conhecia? A minha amiga? Como podia ser?

“Esta” figura era de carne e osso, estava ali ao meu lado, era como nós, eu, a minha família... Uma como eu, como as pessoas que eu conhecia e de quem era amiga...
Olhava para ela, via os seus cabelos branco muito curtos, aos caracóis, que lhe davam uma aparente doçura, os óculos redondos de aros finos.

Com um olhar provocador e um sorriso forçado, ela continuou:
-Tinha doze anos e a minha irmã dezassete. Ficámos dois anos nos campos de extermínio. Primeiro, estivemos num campo de trabalho, numa fábrica de armas. A ironia da sorte, viste? Estávamos a fazer armas para eles nos virem bombardear, e matar a todos!
Sim, como tudo era absurdo!, pensei.
Mas, e ela?
- E tu, depois? Os teus pais? A tua irmã?

Sabia, como todos sabemos, a separação impiedosa das famílias, lá me vinham as imagens de tantos filmes, as barracas, o frio, a neve, a dor...
- Conseguimos ficar todos juntos, quase um milagre... O meu pai servia-lhes, era médico, podia ser útil, como os químicos ou engenheiros e outros que tivessem “utilidade” prática. A minha mãe fingiu que era enfermeira... Enfim. Isso ajudou-nos...

O principal era deixá-la falar, pensei.

- Tu não podes imaginar, Maria, dizia-me, como se adivinhasse as imagens que eu ia vendo passar na minha cabeça... Ninguém pode calcular! Fico toda arrepiada só de olhar para o braço...
Depois, olhava-me com o ar irónico de sempre, abanando a cabeça, desta vez triste.

- Ninguém...
Do primeiro campo seguiram para outro, a situação nos campos era cada vez mais dura, inumana. Até que acabaram em Auschwitz.
Lembrava a chegada, o choque, as mulheres nuas à sua roda, com a cabeça rapada, os duches...
- A fragilidade das mulheres... Nuas, sem defesa... Não consigo esquecer o sangue que corria pelas pernas de algumas delas, como fios finíssimos, na pele muito branca... Esta imagem persegue-me! Os braços tatuados eram uma parte só...

Repetia, agitando o corpo todo num arrepio:

- Ninguém pode saber. Tão desprotegidas!

Ela era minúscula com os seus doze anos, magríssima, contava, e a mãe ia conseguindo escondê-la nos sítios mais improváveis, abandonando-a como morta durante as deslocações, à beira da estrada, e conseguindo carregá-la às costas, escondida numa trouxa de roupa, em aventuras cujas peripécias parecem irreais.

Dizia-me sempre, enquanto ia relatando aquele horror:
- Quem me salvou foi a força da minha mãe... Deu-me a vida duas vezes!

No final, foram levados para a Suécia, o governo sueco recebeu na altura muitos desses sobreviventes. Estudou lá, casou com um judeu egípcio, seu colega, e foram viver para Milão. Era feliz. A vida parecia voltar a ter sentido.
Nasceram os filhos, Leah a mais velha e John.

Mas um dia, o marido, ao levantar-se da cama, teve um aneurisma cerebral e morreu...

Para Susie o pesadelo recomeça: mergulha numa depressão profunda, ignora os filhos, abstrai-se de tudo, tenta suicidar-se várias vezes.
- Louca..., dizia
Entra e sai em várias casas de saúde e não melhora. Falava-me do "litium" que passara a tomar, sem nunca parar.

- A minha droga para esquecer... Tudo voltava na minha cabeça vazia, tudo se misturava outra vez...

A irmã levou-a para Telavive onde passara a viver, pensando que naquele país novo, ainda a crescer, pudesse encontrar alivio entre outros que como ela tinham sofrido.

Mas não foi isso que aconteceu. Ou, pelo menos, não logo...

Deborah, nessa altura com doze anos passou a ser a sua enfermeira.

- Querida filha! Vivia como uma mulher crescida e "io ero la sua bambina..." Não esquecia as pílulas que eram a toda a hora... Vinha da escola, acordava-me, fazia-me engolir o remédio, dava-me leite, tomava conta do irmão, ia às compras, e eu dormia, dormia...

Punha um ar humilde, atitude estranha nela:
- Não me perdoo, percebes, Maria? Estraguei a adolescência dela... A minha filha nunca foi uma criança!

Pouco a pouco foi reagindo, contava, o tratamento deu algum efeito.

- Melhorei... E quando acordei, quis outra vez esquecer! Queria só viver a vida, de qualquer maneira, apaixonar-me, ir para a praia, brincar.

Riu um sorriso culpado:

- Voltei a casar... Como uma inconsciente...

Murmurava, baixinho:
- Povera figlia... Dei cabo dela...

- E o teu filho, Susie?
- O meu filho fugiu para a América, assim que fez 18 anos... Dizia que eu era sua sombra negra...

A esta conversa seguiram-se muitas outras, durante a minha estadia em Israel.

Havia, nessa altura, um movimento muito forte no país para se redescobrir esse passado, que fora escondido, como que “engolido” muitas vezes pelos próprios sobreviventes dos campos, na vontade de esquecer, de recomeçar tudo de novo, deixar para trás esquecidos, os fantasmas do tremendo vivido, do inominável.

Calaram dentro, fecharam-se no profundo silêncio das próprias almas, não contando nem aos filhos ou aos netos o que “lhes” acontecera a eles.

Escreveram-se livros, contaram-se histórias. Fizeram-se filmes. Mas o silêncio continuou dentro de muitos dos sobreviventes do holocausto. Incapazes de “pôr em palavras” os sentimentos, numa espécie de incredulidade incompreensível do que tinham vivido...

Agora, tentava-se fazer que essas bocas falassem finalmente, dissessem, ensinassem...
Susie foi convidada, muitas vezes, para ir contar o que me contou a mim, nas escolas, nas Universidades, e até junto dos jovens – e das jovens- soldados, nas casernas.
A sua história foi gravada como outras e juntou-se à recolha de testemunhos que Steven Spielberg filmou e gravou para serem guardados, enterrados algures, para sempre.
Para não se esquecer...
Recordo o olhar de Susie, vejo-a abanando a cabeça.
- Ninguém pode imaginar...

___________________________-
Nota:
1. Encontrei a fotografia de Susie,comigo... e os nossos cães, Zac, Pizzi e Gelso, em Telavive!

1. Auschwitz-Birkenau foi o maior dos campos de concentração da Alemanha Nazi que existiram durante a II Guerra Mundial e “esteve em funções” de 1941 a 1945.
O campo chama-se segundo o nome alemão da cidade de Oświęcim, onde foi construído.
A seguir à invasão da Polónia em Setembro de 1939, esta cidade foi anexada pela Alemanha Nazi e ficou com o nome alemão Auschwitz, nome alemão da terra. Birkenau, tradução alemã de Brzezinka, refere-se a uma pequena aldeia a cerca de 3 kms de Auschwitz que, mais tarde foi destruída pelos alemães.
O comandante do campo, Rudolf Höss (não confundir com Hess), testemunhou no Julgamento de Nuremberga (cidade da Alemanha onde es realizou o julgamento entre 1945-46) que mais de 3 milhões de pessoas morreram em Auschwitz.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Dickens, as Brontë, Austen, Makepeace Tackeray, George Eliot e os outros...










O céu plúmbeo de Londres, as casas escuras, ou cor de tijolo listradas, bem desenhadas por lápis de artistas, os muros com musgo cercando os jardins verdes, os arbustos carregados de bagas vermelhas quando o Natal se aproxima, as pontes, os parques...







Tudo me fez voltar à memória os meus velhos escritores ingleses! Com tanta saudade...
O Dickens, com certeza o primeiro que li e adorei: "Contos de Natal", "David Copperfield", “As aventuras extraordinárias do Sr. Pickwick” que me faziam rir tanto e me deram a ideia completa do que era um verdadeiro “club” inglês, e o que era afinal o humor inglês...
Depois, creio que a seguir veio Jane Austen, lida e relida durante os anos da minha adolescência. Estava lá tudo, penso hoje.
Imaginava os interiores, os campos, as relações humanas, as diferenças sociais, a generosidade e a sensibilidade, os sofrimentos amorosos, os ódios, as ofensas, o orgulho, sim, tanto orgulho. Confesso que fui sempre orgulhosa e encontrava em muitas personagens uma pessoa como eu, sentia-me acompanhada.
Charlotte Brontë e a sua maravilhosa “Abadia de Northanger”, “Villette”, para não repetir o lugar comum que “Jane Eyre” é um romance único! É...E a irmã dela,a grande Emily e o seu tortuoso “Monte dos Vendavais”, que me chegou a meter medo, antes de começr a sofrer depois por causa do sofrimento das personagens...
George Eliot e “O Moinho à beira do Rio”, que hoje releio: as desventuras da pequena Maggie e da família Tullinger. Eliot uma mulher fantástica, culta, conhecedora profunda das ciências e da Matemática, que escolheu um nome de homem para assinar os seus romances porque sabia que à mulher não era ainda possível (permitido?) ser considerada um escritor...
Lembro de facto a surpresa do editor de Charlotte Brontë quando, depois de ter considerado o seu “Jane Eyre” como digno de publicação (ela assina com um nome de género ambíguo -que podia ser o de um homem...), vê entrar no escritório, e chegar-se à frente da secretária dele, aquela mulher pequena e frágil, que diz ser a autora do livro!
Tackeray (William Makepeace) e “Feira das Vaidades” que “descobri” tardiamente, por nunca ter encontrado nesses anos anteriores uma tradução e não estava tão à vontade no inglês como hoje...
Aconteceu que, há poucos anos, me ofereceram uma edição linda, encadernada em couro azul escuro, com letras douradas e lá dentro os desenhos do próprio autor. Lá estava a Beckie, a Amélie... Como ele as "via".
Li-o devagar, como uma relíquia, poupando as páginas para o fazer “render” mais tempo, tão grande era o prazer que me dava...
Lia, só de manhã, ainda deitada (nessa altura dava aulas à noite...), uns capítulos e guardava a continuação para o dia seguinte, numa forma de suspense renovada, que, aliás, o autor procura suscitar ao leitor, no final de cada um...
O que iria fazer Beckie, a interesseira, a egoísta? Beckie, órfã de mãe, educada (? seria educação?) por um pai pintor falhado, inconsciente e bêbado que a leva para a taberna com os amigos.
Beckie que -como ela dizia- “não tivera uma a mãe para tratar de a casar bem”, ou casar “tout court” e que teve de tratar disso sozinha, e lutar pela própria sobrevivência, todos os dias...
Passando por cima de tudo e de todos...
Beckie que não é a heroína, porque o autor diz logo no começo que aquele é um romance “sem herói”... Mas que é, sem dúvida alguma, o “pivot” da história toda...

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Agatha Christie, Tommy e Tuppence, "O Adversário Secreto" e outras histórias





The Secret Adversary ("O Adversário Secreto", título em Portugal e "O Inimigo Secreto", no Brasil) é o primeiro romance de espionagem de Agatha Christie, publicado em 1922, tendo como heróis um casal de jovens detectives que, a dada altura, Agatha inventa.

Já existia Poirot, o primeiro a surgir, em 1920, no livro The Mysterious Affair at Styles e, em 1930, iria aparecer a tremenda e simpática Miss Marple. Mais tarde ainda, criará os detectives, menos conhecidos, Mr. Quinn e Parker Pyne.

De repente, em 1922, “aparecem-lhe”, de modo natural, duas figuras novas: Tuppence (Prudence Cowley) e o seu amigo de infância, Tommy (Thomas Beresford).
A jovem Tuppence tem muito da própria Agatha: é como ela independente, sôfrega de aventuras, apaixonada...


O livro O Adversário Secreto vai ser o "campo" em que se movem, e vão lutar, pela primeira vez, estes heróis.
Ao longo da vida - e da obra- Agatha Christie irá buscá-los, juntá-los de novo: apaixonam-se, casam, entram no Serviço Secreto Inglês, investigam juntos, correm os mesmos perigos...

Em 1929, sai o segundo livro com Tommy e Tuppence, Partners in Crime (O Homem que era nº 16, na edição portuguesa e Sócios no Crime, no Brasil). Passa-se seis anos depois, quando os dois decidem trabalhar numa agência de detectives.

É curioso ver que são o único casal que a escritora usa em mais de um livro. E, enquanto Poirot ou Miss Marple se envolvem em aventuras sem nunca se dar pela passagem do tempo, como se não tivessem idade, estes dois vão sendo diferentes entre uma história e outra. Evoluem e o tempo passa por eles, fá-los mudar, crescer, ter filhos e envelhecer...
No primeiro livro citado, entram, ainda solteiros, quase por brincadeira num perigoso jogo de espionagem, para o qual não estavam preparados mas que resolvem com perícia, coragem e inteligência.
Na segunda história, os dois estão apaixonados um pelo outro e... pela intriga.

Entretanto, tinham comprado, e passam a gerir, a falida Agência Internacional de Detectives Blunt.

Desempregados e sedentos de viver grandes aventuras, envolvem-se na procura de uma miúda Jane Finn, que desaparecera após o naufrágio de um navio de passageiros, durante a I Guerra.
Jane tem na sua posse um documento secreto que pode comprometer a Inglaterra e os países aliados. O Governo procura-os. Outros grupos, porém, estão interessados também nessas informações com o fim de desestabilizar o país...

Seguem-se perseguições, raptos, assassínios, traições, uma série de peripécias que põem em acção Tommy e Tupence. Mas eles divertem-se enquanto resolvem o enigma.
Em 1941, no terceiro, "N or M?" (Tempo de Espionagem, em Portugal e "M ou N?", no Brasil) passaram já mais ou menos vinte anos.

Enquanto o filho deles, Derek, combate, na II Guerra Mundial, Tommy e Tuppence vão viver para uma pequena cidade, aparentemente tranquila, mas que esconde um perigoso elemento da chamada “quinta-coluna”, um espião alemão.
Um agente inglês (cuja missão era descobrir os nazis infiltrados no comando inglês), é morto, e as suas últimas palavras foram: "M ou N. Song Susie".
Nesse momento, Tommy e Tuppence vão colaborar com os Serviços Secretos Ingleses na investigação.

Para isso, hospedam-se em uma pensão repleta de velhinhas simpáticas e de homens de negócios, acabando por se envolverem com espiões e numa série de crimes.

No quarto livro, 1968,
By the Pricking of My Thumbs (chamado "Caminho Para a Morte", em Portugal, e "Um Pressentimento Funesto", no Brasil), Tuppence vai visitar a velha Tia Ada, que vive num lar.
Encontra lá uma velha senhora, que dizem louca, a Sra. Lancaster, que se põe a falar com ela de coisas que não fazem sentido, ligadas ao filho e a qualquer coisa que estaria atrás da lareira.

A conversa é estranha, Tuppence, curiosa porque acha que a senhora está no seu juízo perfeito, resolve investigar. O casal acaba por se envolver numa trama complexa, como sempre.
Em 1973, sai novo livro com os dois, o quinto e último, Postern of Fate ("Morte pela Porta das Traseiras", em Portugal, e "Portal do Destino", no Brasil).

Estão aposentados e decidem mudar de terra, para um local sossegado, no litoral (no fundo, a casa que Agatha comprara, à beira-mar, e que tanto amava...).
Mas o novo destino abriga mais um crime que os dois vão tentar resolver.
A casa antiga onde se instalaram tem um sótão cheio de livros velhos. Quando os começa a arrumar, Tuppence vai folheando e lendo passagens de livros que lera noutros tempos. Num deles descobre um bilhetinho misterioso, uma mensagem que alguém escrevera cinquenta anos antes
Recorrendo à memória de pessoas de idade, e de alguns velhos do asilo, consegue dar um sentido à mensagem e descobrir um crime adormecido...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Concerto de Marcus Miller no Barbican Hall em Londres "revisita" o album de Miles Davis "Tutu"





































MARCUS MILLER: TUTU REVISITED

Pois é, vi um concerto fabuloso!
No Barbican Hall (no East Side de Londres), decorreu de sexta-feira 13 de Novembro a domingo, 22 de Novembro o “London Jazz Festival” sendo o fecho do festival o Concerto de Marcus Miller a que assisti...
Não o conhecia, confesso, mas conhecia Miles Davis, claro, e este concerto “Tutu revisited” referia-se, sem dúvida, ao álbum “Tutu” –o álbum que o legendário trompetista, nos anos 86, gravou em New York e no qual Marcus Miller com pouco mais de vinte anos (guitarrista, compositor e produtor) participou.
Miller escreve a maior parte das músicas para o álbum e toca vários instrumentos (incluindo guitarra baixa, saxofone, clarinete e contrabaixo), mas o seu golpe de mestre foi o uso dos sons electrónicos dos sintetizadores, e das baterias, e com esses sofisticados “funk grooves” (batidas funky, em português) enquadrando a “execução” de Miles, ajudaram-no a redescobrir a sua “voz”, já perto do fim da carreira.
Marcus Miller foi pois o último grande colaborador de Miles Davis, "The Dark Magus".

Agora, vinte anos mais tarde, Miller trouxe de volta Tutu, um pouco de jazz fusion, prestando assim uma homenagem ao famoso álbum do grande Davis.

Traz consigo uma nova “band”: Christian Scott (clarinete), Alex Han (saxofone), Federico Gonzales (placa de som) e o fantástico Ronald Bruner (bateria).

O espectáculo pretendia também ser a “apresentação” do jovem clarinetista (26 anos), Christian Scott.
Mas foi muito mais do que isso tudo:
foi uma exibição fantástica de profissionalismo, empenho, entusiasmo, imaginação que, pouco a pouco, foi contagiando a assistência (de todas as idades!) –sentada e silenciosa com um copo de cerveja na mão e, logo, entusiasta assim que a música terminava.

No palco, lá em baixo, movia-se a figura esguia de Marcus Miller, como um duende vestido de castanho, o chapéu pequeno enfiado na cabeça, passeando devagar de um lado para o outro com os passos leves da pantera cor de rosa abraçado à guitarra eléctrica.

Ora se chega ao clarinete e a Christian Scott e é como um diálogo ou “desgarrada” entre os dois instrumentos, ora se aproxima do saxofonista e começa outro desafio –competição-conversa animada e amigável.
O baterista Ronald Bruner é um verdadeiro génio, Gonzales com a placa de som (será?), os sintetizadores, toda a parte electrónica pareceu-me um mágico...


Notas:

O jazz é uma manifestação artístico-musical originária dos Estados Unidos. Tal manifestação teria surgido por volta do início do século XX na região de Nova Orleans e nas suas proximidades, tendo na cultura popular e na criatividade das comunidades negras que ali viviam um de seus espaços de desenvolvimento mais importantes.

O Jazz desenvolveu-se com a mistura de várias tradições musicais, em particular a afro-americana. Esta nova forma de se fazer música incorporava blue notes, chamada e resposta, forma sincopada, polirritmia, improvisação e notas com swing do ragtime.


Jazz Fusion (às vezes simplesmente citado como fusion) é um género musical que consiste na mistura do jazz com outros estilos, particularmente rock 'n roll, funk, rhythm and blues, música eletrónica e world music.

O estilo começou com músicos de jazz que misturam as formas e técnicas de jazz aos instrumentos elétricos do rock aliados à estrutura rítmica da música popular afro-americana, tais como o soul music e o rhythm and blues.
Os anos
70 foram o período mais produtivo para o estilo, embora o fusion tenha prosseguido com uma produção expressiva, sobretudo no final do século XX e início do século XXI
, com reedições de álbuns clássicos de fusion e a gravação do estilo por artistas do jazz tradicional.

Ilustrações:

1. homenagem à trompete do Dark Magus....

2. foto de Miles Davis com a sua trompete

3. capa do álbum "Tutu", de Miles Davis

4. capa de outro álbum

5. foto de Marcus Miller

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Mais aventuras do meu cão em São Tomé, na Cascata de São Nicolau...











Um dia resolvemos ir ver as cascatas de São Nicolau, muito famosas na Ilha, pela beleza da estrada e paisagem que leva até lá, através da floresta virgem, o ôbó.
E pela frescura das águas que caem do alto da montanha, límpidas.


Saímos cedo de casa, levámos um pequeno farnel, e seguimos pela picada de terra lamacenta, que contornava, em curvas e contracurvas, a montanha até ao pico da serra, envolto na névoa.
O caminho era estreito e, em muitas das passagens apertadas -que coincidiam muitas vezes com curvas-, não caberiam dois jeeps...

A paisagem era única, a vegetação inigualável na sua riqueza e variedade: árvores seculares, de um lado e do outro da estrada, ramos pendentes, lianas entrelaçadas com folhas ou fetos, trepadeiras enroscadas nos troncos. Tudo de cores variadíssimas, em que predominavam os tons do verde, de uma paleta completa de verdes.
Por vezes apareciam as flores, os frutos e lá vinha o amarelo, o laranja e o roxo e o encarnado.
Havia também o castanho dos troncos das árvores, das jaqueiras e das amoreiras, das acácias; o vermelho de outros; o cinzento amarelado do amplo tronco do ocá, madeira que serve para fazer as canoas de pesca, limitando-se muitas vezes os pescadores a escavá-las no próprio tronco inteiro...

O cheiro da terra húmida, coberta de musgo brilhante e de líquenes, nos sítios onde o sol não penetra, ou o perfume entontecedor das flores, no alto das ramadas, ou, ali mesmo, ao nosso lado, dos ibiscos, das begónias coloridas, os frutos maduros, já apodrecidos, com um cheiro adoçicado, intenso, quase insuportável de tão enjoativo.

À roda, o chilreio dos pássaros pequeninos -azuis, verdes, negros- envolviam-nos, quase murmúrios; o grasnar das garças cujo adejar branco adivinhávamos; o canto do bico-de-lacre, ou de algum piriquito; os guinchos de animais que não identificávamos, talvez os pequenos saguins que apareciam e logo fugiam, chegando até aos arredores da cidade.

Imaginava o ossôbó, o rouxinol da ilha, e o seu canto mavioso. O passarinho solitário que anda por montes e vales anunciando a chuva.
Nunca o vi mas ouvi falar muito dele em São Tomé: ele que enche os versos dos poetas da ilha. Descrevem-no como um poeta, também ele, na beleza dos sons, na música que canta o seu canto solitário, sentido ou feliz.

Sentíamos a lama vermelha pegajosa que se agarrava aos pneus, sujava os pára-lamas e os sapatos, se calhava descermos do carro, para ver alguma paisagem mais de perto, ou descansar as costas. Era como cimento acabado de fazer, grude, formando uma película imediatamente seca pelo calor.
O corpo começava a estar molhado, com um fiozinho de suor correndo nas omoplatas, brilhando gotinhas na testa.
O Zac ficava logo com as patitas cor de barro e, assim que voltava para o jeep, começava, conscienciosamente, a limpá-las, a puxar aqueles picos de pelos secos, lavando-se sem cessar.

Eu levava os olhos fixos na estrada, sempre um pouco inclinada para a frente tentando adivinhar se vinha alguém em sentido contrário; se o espaço daria para passarmos; se teria de fazer uma manobra. Manobra perigosa e que eu receava pois, para nos afastarmos do outro carro, seria necessário chegarmo-nos à beira do precipício que, do lado de fora da estrada, descia para o fundo, invisível e sem fim, do mesmo ôbó... O mar via-se por espaços e desaparecia logo no verde da floresta.

Foi grande o deslumbramento quando se nos deparou a clareira junto da cascata!
Ver o laguinho que se formara, a vegetação baixa de folhas redondas e brilhantes, os troncos altíssimos de alguma árvores que pareciam trepar por ali acima, paralelos às quedas de água que descem da montanha.
Os cipós pendurados, cruzando-se com os ramos, enrolando-se quais serpentes douradas; o barulho suave das águas a cair como se fossem ribeirinhos verticais: era tudo um sonho!

O Zac, cão de caça, rafeirinho, vai e vem, a cheirar tudo em sua volta, com certeza encantado com os odores desconhecidos, os insectos, as lagartixas...
De repente, sentimos um restolhar ali por perto e o Zac desaparece da nossa vista.

Ao fundo da ribanceira, um curso de água, forte. Ouvia-se o cascalhar sobre os seixos, mas não se conseguia ver nada tão cerrada a folhagem naquela zona.
Viam-se uns caminhitos por entre ao vegetação rasteira e adivinhavam-se os pedregulhos negros junto da ribeira que ali corre. Pedras escuras que, ao longo do caminho, víramos surgir do musgo ou do capim.
O sol abrira, o calor húmido abafava, o coração batia forte, sentia-me mal.
O Zac desaparecera!
Não se ouvia nada lá em baixo, só o marulhar da água. Descendo, descendo essa ribeira ia parar ao mar, lá longe em baixo...
Afogara-se? Quem sabe como seria a ribeira que ouvíamos correr? Caíra em cima de alguma rocha? Batera com a cabeça?
A angústia apertou-me a garganta. A expectativa de poucos minutos era insuportável: queria falar, gritar e não podia.

Por fim, ouvimos um barulhito e comecei a chamá-lo baixinho, quase sem respiração. Sentiu-se um movimento e ouviram-se as patas do Zac, a raspar na terra, ou na areia.
Ouvira-nos, e fazia-nos sinais. Animara-se porque sabia que não estava abandonado, ou perdido!
O tempo passou e não dávamos por ele, mas pareceu-me uma longa espera...
Pareceram-me séculos!
Mais barulho, um restolhar mais forte e lá vemos espreitar, mesmo ao fundo, a cabeça e o pelo fulvo do meu cão...

Vai subindo, fincando as patas no terreno amolecido, avança e cai outra vez para o fundo.
Eu, entretanto, comecei a descer, sentada na terra ia escorregando e fincando bem os calcanhares nas saliências que apareciam.
O Manuel atara-me o cinto dele ao pulso, e ficou a segurar. Tudo absurdo: se eu caísse, ele viria atrás de mim pela ribanceira abaixo...
Continuámos, eu e o Zac, cada um de seu lado, um a subir o outro a descer... Mas a um ritmo tão lento que o suor me pingava da testa e encharcava a blusa.
Ele subia, eu escorregava um pouco mais, e cada vez estávamos mais próximos.
Falava-lhe sempre: “Já aqui vou, Zac! Anda, meu lindo, sobe...”

Ele não ladrava, mas continuava a vir, a resvalar e a subir, cada vez mais alto, cada vez mais perto, pelos tais caminhos.
Até que, milagre!, consegui agarrar a trela de couro que se lhe cruzava nas costas e era um apoio seguro.
Salvo?!
Puxei com força e agarrei-o ao peito. O principal estava feito, agora era voltar para a estrada, com ele bem agarrado arrastando as costas pela ladeira, em sentido inverso... Segura –e insegura- pelo cinto de couro que o Manuel agarrava, agora com as duas mãos ao mesmo tempo!
Parecia impossível!
Era como se o Zac ressuscitasse. Abraçámo-nos os três. Acho que ríamos e chorávamos. Os três, claro!
Nunca mais voltámos à Cascata de S. Nicolau!

Mas deixo-vos algumas imagens: da cascata, do Zac e do ôbó, e dois poemas do poeta são-tomense, Marcelo da Veiga, que é um grande poeta!

Ossôbó

Ossôbó é só
É só o ossôbó
Só!
Rente às nuvens, rente,
Não vê mais em volta
Que a nuvem que passa,
Corre...
Vive assim mesmo
Uma vida a esmo
Ossôbó!
Se algum senhor traça
Na voz que mal solta
No ar se perde, fica,
No ar morre!
É só o ossôbó,
Só!...

(Òmònó, 1928)

Quando a tarde desce,
Na alma a ilusão adormece.
Vale mas deixá-la assim...
Porque, se acorda, é em ais;
Vem como dum sonho ruim:
Não tem viço mais...

(Príncipe, 1944)

(Nota: O livro de Marcelo da Veiga, de onde retirei os versos, chama-se “O Canto do Ossôbó”, e foi publicado em 1989, em Lisboa, pelo editor ALAC, na colecção “Para a História das Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa”, com o patrocínio da Câmara Municipal da Amadora)




Música para o fim de semana: Johnnie Hartman e John Coltrane










Aqui têm um pouco de companhia para o fim de semana...
Não se esqueçam que amanhã já é sexta-feira!
E, como dizia o filósofo Snoopy, que o meu cão Zac admirava, "hão-de vir melhores dias: sábados...domingos!"
Bom fim de semana a ouvir oas grandes Johnnie e John...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Aventuras do meu cão Zac, em São Tomé...












Era um aventureiro, um destemido o meu cão Zac. E um companheiro como nunca houve outro.
Já contei a história dele e da matilha selvagem e hoje estava a pensar (penso nele muitas vezes...) e lembrei-me da história da porca selvagem que amamentava as crias...


Nessa amanhã, tínhamos ido cedo –antes que o calor tornasse impossível o passeio- seguimos pela estrada que sobe pela Chácara, vai em direcção à Trindade, passa por Monte Café e continua por ali acima até à velha Pousada.

Não sei exactamente por onde andámos mas lembro-me que, a dada altura, encontrámos a D. Fausta, uma senhora mulata que tomava conta de umas hortas ali perto, e ficámos a falar com ela.
Havia um desnível ao lado, uma espécie de tanque gigantesco, lembrando um terreiro de forma rectangular, com bordos altos.
O Zac saltou logo para lá e começou as suas investigações, e, curioso como sempre foi, pôs-se a cheirar tudo e a dar ao rabo, sinal de que estava entusiasmado com qualquer coisa.
Andou, andou e afastou-se para o fundo do tanque, enquanto estávamos distraídos na conversa.
De repente, ouve-se um grunhido furioso que não percebi de onde vinha nem o que era! Um ruído assustador, porque não o esperava, virei-me e vi o Zac a fugir, ligeiro, perseguido por uma porca muito grande, correndo desalmada, a resfolegar, atrás dele.
Acho que o espanto do meu cão era tão grande que, de início, se assustou e foi perdendo terreno. Nem conseguia ladrar de medo, e eu só lhe via as orelhas atiradas para trás e o olhar ansioso, com a cabeça meio de lado, virada para o sítio onde eu estava.
Chamei-o para mostrar que estava perto, e atenta, para lhe dar alento.

De facto, deu-me a sensação que acelerou na corrida à volta do tanque, fazendo de repente uma finta inesperada, voltando logo para trás, sem parar de correr.
A porca que não esperava tal reacção, travou, e foi derrapando antes de poder mudar de direcção.

Entretanto, o Zac já se tinha aproximado de nós e parara a olhar para cima.
Puxei-o para o colo. Aliviado, ladrou, ladrou até perder o fôlego de vez.
Lambia-me a cara num agradecimento sentido, suspirando...

1. a minha casa em S. Tomé

2. estrada para o Cão Grande
3. o meu cão Zac, na varanda da casa

terça-feira, 17 de novembro de 2009

S. Tomé e o Tchiloli, um pouco de história e cultura























>





Hoje gostava que vissem este video sobre um dos mais interessantes espectáculos culturais de São Tomé: o "Tchiloli".




Esta "tragédia" foi levada da Ilha da Madeira (onde chegara com os marinheiros das naus portuguesas) para São Tomé e pertence ao ciclo carolíngio e intitulada "Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magno".

Fui encontrar estas indicações num livro precioso de Fernando Reis, "Povo Flogá "( o povo brinca, edição da Câmara Municipal de São Tomér, 1969). Fala dos múltiplos contributos da ilha d S. Tomé para a cultura, dos seus divertimentos de ontem que ainda existem hoje.

Vivi em São Tomé cinco anos que não esquecerei.




Assisti, em várias noites (geralmente de lua) nesses anos à representação do "Tchiloli", pelo grupo do Riboque do inesquecível Professor João que ensaiava os seus alunos (novos e antigos).




Quando havia espectáculo, o professor João mandava um aviso, por um dos mais jovens, a dizer-nos se queríamos assistir.
Íamos sempre.

Era diferente o espectáculo, os risos não batiam nos mesmos pontos. O público reunia-se em pequena assembleia num das clareiras ou pequeno largo entre as casas. Casas de tábuas de madeira construídas em palafitas para as torrentes das cheias da estação das chuvas não alagarem as casas.


O público variava, nunca era o mesmo, e as reacções variavam e conforme as reacções, os actores respondiam ou actuavam conforme.




Lembro-me de esperar que caísse o sol ( o crepúsculo desce de repente em São Tomé e ao dia sucede-se a noite em breves minutos) para nos prepararmos para a festa. De chegarmos em noite alumiados por pequenas velas em cima de bancos de madeira, na rua pobre que subia para o Riboque. Uma lâmpada no alto, ao canto no telhado de uma casa mais alta dava a luz necessária, porque a lua ajudava.

Mas aqui ali havia uma luzinha de petróleo, ou de vela, pois a maoria das casas ali naquele bairro pobre não tinham electricidade!
Vejo as folhas enormes das bananeiras, os coqueiros esguios de um lado, as acácias que davam flores cor de laranja, as mangueiras e a árvore da papaia, como décor.

Uma ou outra mulher espreitava por detrás de um pano branco nas janelas, meio escondidas. A assistência sentava-se no chão ou ficava em pé e as pessoas mais velhas tinham direito a uma cadeira.
A humidade caía, o calor era desagradável naquele sítio fechado, sem a brisa que às vezes corre na Gravana, e eu tentava embrulhar-me num lenço de seda para me proteger dos mosquitos que desciam em voo picado e nos vinham atacar. O paludismo não perdoava, mas valia a pena o risco...

O "Povo Flogá" faz referência à actuação do grupo (que foi famoso) da "Formiguinha da Boa Morte" (um bairro da cidade capital, como os meus amigos sãotomenses se referiam sempre a São Tomé). Que veio a Lisboa há muitos anos e teve grande sucesso sempre.

Porque o espectáculo da tragédia depende sempre da actuação do público e do grupo que a representa.

Diz Fernando Reis:
"O "Auto da Floripes" (ou "São Lourenço"), do Príncipe, e o "Tchiloli", de São Tomé (...) ambas do ciclo das histórias de Carlos Magno, foram levadas pelos portugueses nas suas naus até à Madeira, aos Açores, a S. Tomé e ao Brasil.




Num folheto da chamada "literatura de cordel" [porque as folhinhas vinham atadas por um coredel, nota minha...], esgotado há muito e cuja edição pertence à Livraria Lello & Irmãos do Porto, lemos este auto "A Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magno" e também o nome de Baltasar Dias, o escritor cego madeirense contemporâneo de Gil Vicente.

Este opúsculo, amarelecido e a desfazer-se pelos anos, foi-nos oferecido por um ilustre filho de São Tomé, o senhor Aureliano Aragão, descendente de uma das mais antigas famílias da ilha.
Lemos também este auto no "Romanceiro" de Garrett [III volume de uma edição revista e publicada a 1963]. Nessa edição, Garrett não cita Baltasar Dias ou porque o auto foi recolhido da tradição oral, ignorando pois Garrett essa autoria, ou porque duvidou dessa autoria. Refere Garrett: "sua nobre origem bem sabida e manifesta: francesa ou provençal. Se foi língua d' "oc" ou d' "oil" a primeira que falou não sei mas quando atravessou os Pirinéus veio para nós."

Continua Fernando Reis: "O Tchiloli representado em pequenas clareiras do mato, nos quintés (quintais) sempre na estação seca, "gravana", que corresponde ao "cacimbo" em Angola. Ali se ergue o palácio do Imperador Carlos Magno com farda flamannte, uma coroa de latão e tem o risoto escondido detras de uma máscara de rede pintada de branco com duas rosetas vermelhas, um bigode e barba de algodão colados.(...)

Do outro lado, modestamente, está a família do Marquês de Mântua, o ofendido. O respeitável Marquês usa cartola, fraque e gravata preta. (...)"

E segue-se a descrição dos outros personagens: A viúva e as filhas de Valdevinos (assassinado pelo filho de Carlos Magno, D. Carloto), vestidas de luto, que vêm pedir justiça; o heróico Reinaldos de Montalvão, as princesas; D. Roldão, a Imperatriz (um homem pois todos os personagens femininos são representados por homens).

E no meio deles um pequeno caixão onde repousaria a vítima de D. Carloto. E as peripécias, discursos, imprecações seguem-se pela noite fora...
Espero que gostem! Voltarei com mais coisas de São Tomé: porque há ainda a "Ússua" (que vi dançar na inauguração do Mercado do Ponto), o "Danço Congo" (dos guerreiros do Congo), a música, e tantas outras manifestações da riqueza cultural destas gentes de São Tomé.
(para consultarem, aqui fica o site do Património de São Tomé)