terça-feira, 15 de setembro de 2009

Agatha Christie: 15 de Setembro: é hoje o dia do seu aniversário!





































Agatha Christie e Poirot estão de parabéns...
Agatha Mary Clarissa Mallowan nasce em Torquay, a 15 de Setembro de 1890 e morre em Wallingford, a 12 de Janeiro de 1976. É mundialmente conhecida como Agatha Christie, e -como todos sabem- foi uma romancista policial inglesa autora de mais de oitenta livros.
Os seus livros são os mais traduzidos de todo o mundo, superados apenas pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare.
É conhecida como Dama do Crime, Duquesa da Morte, Rainha do Crime, eu chamo-lhe Lady do Crime (em homenagem a outra Lady: Billie Holiday, Lady Day para os amigos).
Hoje, pois, é o dia do aniversário da Lady do Crime.
O primeiro detective que Agatha Christie criou é de nacionalidade belga, chama-se Poirot e surge no livro The Mysterous Affair at Styles.






Incluindo Poirot, os seus personagens mais famosos são:

Hercule Poirot é um grande detective criado pela autora em 1920, e conhecido pelo poder das suas "celulazinhas cinzentas" que o fazem resolver os casos todos e protagonista da maioria dos seus livros. Grande número das obras onde Poirot deram origem a filmes, séries de televisão, rádio e teatro, etc.;




Miss Marple é uma personagem de ficção presente em doze obras de Agatha Christie. É uma velha solteirona que desvenda os mais intrincados mistérios baseando-se apenas no profundo conhecimento que tem da natureza humana. Vive numa aldeia, St. Mary Mead, e conhece toda a gente. Aparece pela primeira vez, em 1930, no romance The Murder at the Vicarage (Crime no Vicariato, em Portugal e Assasinato na Casa do Pastor no Brasil);







Tommy e Tuppence Beresford aparecem pela prmeira vez em The Secret Adversary (O Inimigo Secreto, Brasil ou o O Adversário Secreto, Portugal) é um romance de espionagem, publicado em 1922. Este é o primeiro livro de Agatha em que entram o casal de detectives amadores Tommy (Thomas Beresford) e Tuppence (Prudence Cowley).



















Em Inglaterra esta semana ( a de 13 a 20) é uma Semana especial dedicada a Agatha Christie, escritora amada pelos seus compatriotas como talvez nenhum outro...
Diz a notícia no suplemento literário, Guardian-Books, de ontem, 14 de Setembro:
“A semana de 13 a 20 de Setembro foi oficialmente designada por “semana de Agatha Christie” em honra do aniversário da Rainha do Crime. Vamos celebrar com "blogs", “podcasts” e “top 10s”, durante toda a semana; antes do mais: torne-se detective e investigue o seu conhecimento sobre o trabalho e a obra dela..
E segue-se um Questionário de 11 perguntas (difíceis!) que vou pôr a seguir noutro "post"...



















Outra notícia importante, também no Guardian: vão ser publicadas este mês (já terão sido?) duas histórias –inéditas- com o famoso Poirot!
O artigo de Maev Kennedy e Katie Allen, (do passado dia 5 de Junho) começa assim:
"There were more "little grey cells" than anyone dreamed of: two previously unpublished Hercule Poirot stories have emerged from a mass of family papers."

Pois é, afinal havia mais “little grey cells”, as famosas “células cinzentas” do que se julgava...

Soube-o, por acaso, porque uma jovem amiga, professora de Literatura Policial (sim, isso mesmo, Literatura Policial é uma cadeira, aliás, um curso, na Faculdade de Letras e com bastantes alunos!), na Universidade do Porto, me avisou, se não nunca me lembraria...
Mandou-me um site da BBC e do Guardian com imensas informações, entre as quais um "QUIZ" sobre a vida e a obra de Agatha Christie e a notícia – que deixei escapar em Junho, no Guardian, dessa descoberta fantástica (só os leitores dela é que compreendem...) de duas novas histórias, surgidas do nada: quer dizer, das malas de papéis deixados pela escritorae guardadas até há pouco na casa de férias.

Sim, é verdade: apareceram mais histórias de Agatha Christie: novas histórias com o “nosso” vaidoso, convencido, às vezes insuportável (mas sempre perdoado...), o maravilhoso Poirot!

O Poirot tão celebrado, interpretado, “re-incarnado” por tantas vozes e imagens, em folhetins da radio, em filmes e na TV –BBC Granada -incarnado pelo actor David Suchet que “agarra” de tal modo a personagem que hoje se me torna impossível pensar em Poirot sem “ver” David Suchet...

O detective belga "renasce"... das montanhas de cartas, rascunhos e notas guardadas por Christie em Greenway.
Greenway -a casa que comprou, em 1938, e onde viveu com o segundo marido, o arqueólogo Max Mallowan- era uma casa branca, rodeada de roseiras que desciam até ao mar e que aparece, sob diversos aspectos, retratada nos livros dela.
Dizia Agatha que “era o sítio mais lindo do mundo”
Deixou a casa à filha, Rosalind, que ali viveu com o marido, Antony Hick.


Em 2000, os Hick doam-na ao National Trust mas continuaram a viver ali. A casa era deles mas o jardim foi aberto ao público e podia ser visitado. Com a morte recente de ambos, a casa abriu neste Verão pela primeira vez.

Há pouco tempo, uma amiga, fan da Agatha -a Ana Luísa-, disse-me:

Já viu? Não posso ler mais nada da Agatha Christie! Ando deseperada à procura... Li tudo! Onde vou encontrar outra como ela?”, perguntava-me.

Dei-lhe outros nomes de grandes escritores de romances policiais, mas a verdade é que ela tinha razão: como Agatha Christie não há. Nem é melhor, nem é pior: é diferente, é única...
Neste momento já lhe posso dizer: “Ana Luísa! Ainda há mais duas histórias!"

É uma alegria saber que podemos ler mais histórias dela!

Saem na Harper Collins (que a publica desde O assassínio de Roger Ackroyd), incluídas no livro “Agatha Christie's Secret Notebooks: Fifty Years of Mysteries in the Making”.
São pequenos contos (short stories), como às vezes ela costumava fazer, desenvolvendo-as, ou não, um dia.
A primeira, “The Mistery of the dog’s ball” possivelmente transformou-a Agatha, mais tarde, na novela: “Dumb Witness” (1937). A segunda chama-se “The capture of Cerberus” (que faria parte dos “trabalhos de Hércules”, os últimos 12 casos de Poirot, dos quais teria escrito 11, publicados no Strand Magazine entre 1939-40, tendo o último aparecido em 1947). É uma história completamente “nova", da qual guarda apenas o título.

Boas notícias, portanto...

Outra boa notícia no mesmo jornal: Julia McKenzie, a nova Miss Marple da série televisiva tirada das histórias de Agatha Christie, atraiu 5 milhões de espectadores no canal inglês ITV1 tendo altos níveis de audiências
.
A Pocket Full of Rye
é a primeira de quatro novas histórias.

Quer dizer que a Miss Marple volta também.

Uma nova cara...







Outras "caras" de Miss Marple, nossas conhecidas:





segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Ver Virginia Woolf e "Rumo ao Farol"









































Por erro meu, o primeiro "post" em que falo de Virginia Woolf (alguns dados bio-bibliográficos) saíu no dia 9, sendo publicado antes do "post" Virginia Woolf e o Grupo de Bloomsbury...
Acrescento algumas imagens novas...

sábado, 12 de setembro de 2009

Ainda Virginia Woolf e o Grupo de Bloomsbury




Virginia Woolf é uma personalidade literária cuja vida foi marcada emocionalmente por várias mortes e perdas.

A morte da mãe muito cedo, em 1895, com treze anos de idade, a morte da meia-irmã em 1897, a morte do pai em 1904 e do irmão em 1906 são traumatismos que a sua sensibilidade não aguentou.

Sofre de problemas de origem nervosa, que se sucedem a partir da morte da mãe, ataques de depressão, anorexia. Passa longas temporadas em clínicas.









A sua vida afectiva é complexa, o que não espanta numa geração que se revolta contra a sociedade victoriana do tempo. Marcadamente anti-victoriana, a geração a que pertence Virginia caracteriza-se por atitudes provocatórias, aceitas como forma de anti-conservadorismo, indefinição amorosa, aceitação da efemeridade das relações.

Gostaria de falar hoje do Grupo de Bloomsbury de que fizeram parte escritores e artistas plásticos, ou filósofos, economistas -hoje todos famosos.























Depois de mais uma crise nervosa, por volta de 1904, Virginia muda-se com os dois irmãos e a irmã, Vanessa, a quem estará sempre ligada, para uma casa em Gordon Square, em Bloomsbury, e aí se formará o Grupo que mais tarde se chamará Grupo de Bloomsbury, porque muitos dos seus membros viveram períodos de tempo razoáveis no distrito do West Central de Londres, conhecido por as Bloomsbury.

Tudo o que se sabe deste grupo é pouco e controverso, mas é certo que o grupo inicial foi constituído pelos novelistas e ensaístas Virginia Woolf, E. M. Forster, e Mary (Molly) MacCarthy, o biógrafo e ensaísta Lytton Strachey, o famoso economista John Maynard Keynes, os pintores Duncan Grant, Vanessa Bell e Roger Fry, e os críticos de literatura, arte, e política, Desmond MacCarthy, Clive Bell (mais tarde, marido de Vanessa), e Leonard Woolf (com quem Virginia casará em 1912). Lytton Strachey -que pedira em casamento Virginia alguns anos antes- é agora o companheiro da pintora Dora Carrington.
Os irmãos de Virginia, o mais velho Thoby e o mais novo, Adrian, também fizeram parte do grupo desde o início.
Quase todos os membros masculinos do grupo vinham de Cambridge, do King’s College ou do Trinity onde os irmãos de Virginia estudaram e, mais tarde em Londres, apresentam-nos às irmãs.
Os que estudaram em Cambridge excepto Clive Bell e os irmãos Stephen eram também membros de uma sociedade secreta conhecida por Apostles; aí encontraram outros componentes mais velhos tais como: Desmond MacCarthy and Roger Fry e também E. M. Forster e J. M. Keynes, que tinham vindo do King’s College. Através dos Apostles, Bloomsbury relaciona-se com os filósofos analíticos G. E. Moore and Bertrand Russell que revolucioinara a filosofia britânica.

De notar que todos eles –ou os com eles relacionados mais intimamente- foram famosos como escritores, artistas ou pensadores.










Desde muito cedo que Virginia Woolf se considera escritora e em 1905 começa a escrever para o Times Literary Supplement.
Interessa-se pelos problemas do seu tempo e pela situação das mulheres, critica a sociedade vitoriana.
Ensinou numa escola de adultos, trabalhou a favor do sufrágio feminino, partilhou vivamente o entusiasmo de Roger Fry na sua Exposição Post-Impressionist, em 1910.
Todos os outros membros do grupo seguem caminhos culturais nas mais diversas acepções, cruzam-se afectivamente, discutem, conversam.


Por curiosidade queria deixar-vos algumas obras dos pintores do grupo, alguns deles pintando-se a si próprios ou pintando outros membros do grupo.. pessoas que, de um modo ou de outro, estiveram próximos de Virginia Woolf.







































































Formado, como vimos acima, por escritores, pintores, críticos de arte, economistas e filósofos, o grupo de Bloomsbury é dos mais representativos e activos do Modernismo inglês. Foi responsável pela organização da Primeira e da Segunda Exposição Pós-Impressionista em Londres. É, então, por meio dos colegas pintores que Virginia Woolf travará contacto com os movimentos impressionistas e pós-impressionistas.
.......
Ilustrações:
1. Virginia Woolf, selo comemorativo da National Portrait Gallery
2. retrato de Virginia e Leonard Woolf
3. o grupo de Bloomsbury
4. Bloomsbury, casa da Gordon Square
5. Roger Fry, autoretrato
6. Roger Fry, retrato de Edith Sitwell
7. Dora Carrington, retrato de Lytton Stacey
8. Duncan Grant, retrato de Vanessa Bell
9. Vanessa Bell, interior com figura da filha da artista
10. Duncan Grant, autoretrato
11. Duncan Grant, "log-box"

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Lembrar Billie Holiday...



Como nunca me canso de a ouvir, deixo-vos esta ´canção de Billie Holiday que morreu há 50 anos...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Algumas notas sobre Virginia Woolf e o seu livro "To the Lighthouse" ("Rumo ao Farol", publicado pela Relógio de Água)









Virginia Woolf nasce em 1882 e morre, suicida, em 1941.
Filha do filósofo Leslie Stephen, viúvo, e de Julia Jackson, viúva também, ambos ligados por razões diversas à literatura e a pessoas de cultura.
Por curiosidade: Stephen fora casado pela 1ª vez com uma filha do escritor Tackeray e, por sua vez, Julia, a mãe de Virginia, estivera muito ligada ao movimento cultural Pré-Rafaelita.
Virginia Woolf, desde miúda, teve acesso à biblioteca do Pai que lhe serviu de substituto à passagem pela universidade então negada às mulheres.

A mãe morre em 1895, quando tem 13 anos, e data desse ano o seu primeiro esgotamento nervoso.
A relação com o pai não é fácil: a surdez dele, a inclinação para a melancolia, os muitos desgostoe e lutos tornaram-no numa pessoa difícil, sujeita a excessos nervosos. 
Adoece em 1902 e morre em 1904.
Após a sua morte, Virginia tem outra problema de nervos, durante o qual “ouve” os pássaros cantar em grego –língua que conhece bastante bem, estudara-a no King's College de Londres e, mais tarde, com uma explicadora.
Quando cura essa depressão, muda-se com os irmãos e a irmã, Vanessa, para uma casa em Gordon Square, em Bloomsbury e aí se formará, mais tarde, o Grupo de Bloomsbury, como vai ser conhecido.
Falarei do grupo de outra vez.
Hoje gostaria de lembrar um pouco da vida e da obra de Virginia Woolf.


Desde muito cedo, considera-se escritora, e, em 1905, começa a escrever para o Times Literary Supplement.
No seu círculo de amigos giram nomes importantes de intelectuais como E.M. Forster, J.M.Keynes, Leonard Woolf, Roger Fry, Duncan Grant e muitos outros -com quem estabelece ligações de amizade. Em 1912, casa com Leonard Woolf.
Tinha nessa altura 30 anos e não publicara ainda nenhuma obra.


Sofre frequentemente de depressões, de anorexia, e, em 1913, depois de uma violenta crise, tenta suicidar-se. A saúde parece no entanto estabilizar-se em 1917.
Nessa altura, ela e o marido, instalam uma pequena impressora em Hogarth House, onde vivem, em Richmond.

Inicialmente, essa ideia fizera parte da "terapia" de Virginia, mas em breve se sente motivada para escrever. Na sua casa impressora, vai imprimir e a publicar os primeiros livros.
Começa a escrever Night and Day que acabará em 1918.

Em 1920 inicia Jacob’s Room e, quando terminado, publica-o na "Hoggarth House".

No ano seguinte escreve Mrs. Dalloway, (acabado em 1924) quando está já a trabalhar no livro To the Lighthouse, escrito entre momentos intermitentes da doença (publicado em 1927), e Orlando (história fantástica, "biografia" de um homem-mulher): Orlando, jovem inglês que nasce na Inglaterra da Idade Moderna, durante uma estadia na Turquia, simplesmente acorda mulher.
Livro cheio de imaginação e de humor, um dos grandes exemplares do modernismo inglês é, no fundo, uma homenagem à amizade amorosa que a liga, nos anos 20, a Vita Sackville-West, figura ambígua sexualmente. Escrito entre 1927-28, é publicado em Outubro de 28 e revela-se desde logo um sucesso.
The Waves foi escrito e reescrito entre 1930 e 31, publicado depois em Outubro desse ano.
Em 1932 sai Flush, a biography (história verdadeira do cãozinho da poetisa victoriana, Elizabeth Barrett Browning) e é um grande sucesso.

Segue-se a escrita do livro a que irá chamar The Years, no fundo uma breve história dos seus primeiros anos de casada.

Escreve também outros contos (The Common Reader e A Room of One’s Own) que são testemunhos bastante violentos, até hostis, contra o marido, Leonard Woolf.
No entanto há uma coisa de que ele não pode ser acusado: de intervir contra –ou prejudicar- a sua obra ou sua carreira literária.

O romance The Years revela-se difícil de acabar: foi escrito (re-escrito) pelo menos duas vezes. Só será publicado em 1937.
Entretanto, em 1934, morrera-lhe um dos grandes amigos, o pintor, Roger Fry.
Virginia decide escrever a biografia dele, mas a doença impede-a e tem de adiar esse projecto. Escreve Between the Acts.
O livro Roger Fry, a biography sai no terrível Verão de 1940.

Nesse Outono, muitas casas são bombardeadas no seu amado bairro de Bloomsbury, e a casa em que vivera é destruída, o que a atinge profundamente.
As condições mentais de Woolf deterioram-se e, em 28 de Março de 1941, incapaz de enfrentar nova crise, suicida-se, afogando-se no River Ouse.


O romance “Rumo ao Farol”

Dizia Virginia Woolf, no Diário, em 27/06/95:
“Estou a preparar To the Lighthouse, o mar deve ouvir-se sempre, ao longo do romance.”
O barulho do mar a que se refere era o das ondas do Atlântico, a quebrarem-se contra os rochedos da Cornualha -que Virginia Woolf recordava ao escrever a novela e que ressoariam em cada página.
De facto, todos os verões, de 1882 a 1894, os pais levavam os 4 filhos (dos anteriores casamentos), mais os 4 deles próprios, para Talland House.
Passavam todos as férias na pequena aldeia de pescadores de St Ives, na Cornualha. Essas estadias terminam abruptamente com a morte da mãe, em 1895, perda que vai ser um traumatismo emocional para Virginia. A primeira crise de nervos data, de facto, desse ano, pouco depois da morte de Julia.
Em 1904 morre Stella, a meia-irmã que ela adorava. Em 1904 é o pai que morre, seguido em 1906 pelo irmão mais velho Thoby.
Aos 24 anos Virginia talvez tivesse ainda muito que aprender sobre a arte de escrever, mas nada ignorava sobre o sofrimento humano.
"My lighthouse", o meu farol, como lhe chamava Virginia Woolf, brilhava todas as noites através das janelas de Talland House, mesmo em frente, do outro lado da Baía de St Ives ( no romance, a Ilha Skye) é a recordação da pena, da dor e da fixação aos pais mortos- criada nesses treze verões da sua vida que considera "o melhor começo de vida possível"...
No livro, “Moments of being” (Momentos de ser), confessa:
Com a morte da mãe a alegre e despreocupada vida de família que ela tinha criado, fecha-se para sempre. Em todos os lugares poisa sobre nós uma nuvem negra, estamos sentados tristes, solenes, irreais, debaixo da névoa de uma pesada emoção.” (citado por David Bradshaw, na Introdução da edição inglesa, da Oxford University Press, de “To the Lighthouse").
Anos mais tarde, em 1905, ela e os irmãos voltam a St Ives, à casa de Talland House.
Passam perto da casa, as janelas estão iluminadas, há gente lá dentro. Fogem com medo de quebrar o encanto daquela memória feliz.
Diz Virgínia Woolf: “as luzes não eram as nossas luzes e as vozes eram de estranhos” (citada por David Bradshaw, ibidem).
A figura dos pais, mortos, é uma obsessão de que procura libertar-se, conseguindo-o só quando acaba de escrever Rumo ao farol, como ela própria confessa no Diário, em 28 de Março de 1928, dia em que o pai -se fosse vivo- faria 96 anos:
"A vida dele teria dado cabo da minha. O que teria acontecido? Nem um livro, nem uma linha escrita, nenhum livro; -inconcebível. Pensava nele & na mãe todos os dias; mas escrever The Lighthouse, arrumou-os no meu espírito. Às vezes ele volta, mas de modo diferente. (Acredito nisto porque é verdade -eu estava obcecada pelos dois, de modo pouco saudável; & escrever sobre eles foi um acto necessário)."

A imagem da mãe persegue-a. É a beleza e a delicadeza que admirava nela, mas também a consciência dos seus limites e defeitos: espírito convencional, anti-feminista, o seu dúbio conceito da caridade chocavam-na. Havia, ainda, a possessividade dessa mãe omnipresente, a enorme vontade de dominar os outros.

Em "Moments of being", publicado depois da sua morte, diz:

"É perfeitamente verdade que ela [a mãe] me obssessionou até aos quarenta e quatro anos, apesar de ter morrido quando tinha só treze. (...) Suponho que o que fiz por mim própria foi o que os psicoanalistas fazem com os seus pacientes".

A escrita de Rumo ao farol liberta-a, pois, como tantas vezes acontece, da recordação obsessessiva dos pais (representados nas personagens do romance, Mrs. e Mr. Ramsay), é uma espécie de catarsis -que a alivia.
Rumo ao farol é um livro da passagem do tempo, da impossibildade do regresso atrás, e, ao mesmo tempo, da expectativa -simbolizada pela "ida ao farol".

Todas as tensões que a novela explora entre o real e o fantomático ( a palavra "ghosts" encontra-se repetida, ao longo do livro, inúmeras vezes), mulher e marido, separação e conexão, estão representados na própria imagem do farol (apenas "um farol austero e distante", como o vê Mrs. Ramsay no início do livro, ou como o vê James -o filho, em criança- que o recorda.
"(...) uma torre prateada, envolta no nevoeiro com um olho amarelo que se abre de repente, suavemente, na noite" que, como refere D. Bradshaw, pode ser interpretado, "metaforicamente, como uma estrutura profundamente romantizada e ilusória apoiando a crítica de Virginia Woolf à era do pré-Guerra em geral".
No entanto, anos mais tarde, James vê nele, apenas, "uma torre estreita e alta às riscas brancas e pretas".
Virginia Woolf considera que as escritoras que a precederam, não podendo ir muito longe na sua procura -pelo condicionalismo do tempo em que viveram-, lhe abriram, no entanto, caminhos:
"(...) Jane Austen, George Elliot, nomes ilustres, e outars, mais numerosas mas menos célebres, ou esquecidas, nivelaram o caminho e regularam o meu passo."



Para terminar, quero lembrar que todas estas suas reflexões sobre a "arte literária", tema de grandes discussões do Grupo de Bloomsbury, que se reunia na casa dela e dos irmãos (que iam da liberdade de criação ao prazer da leitura, baseando-se em obras-primas de Conrad, Defoe, Dostoievski, Jane Austen, Joyce, Montaigne, Tolstoi, Tchekhov, Sterne, entre outros clássicos), foram reunidos em dois volumes publicados pela Hogarth Press em 1925 e 1932 sob o título de The Common Reader: o leitor comum.
"O Leitor Comum" é, pois, uma homenagem explícita da autora àquele que, livre de qualquer tipo de obrigação, lê para seu próprio prazer pessoal...

Ilustrações:1. retrato de Virginia Woolf, jovem
2. capa da tradução portuguesa de "To the lighthouse", (Rumo ao farol), ed. Relógio d'Água (tradução de Mário Cláudio)
3. Virginia Stephen (lado direito) e a mãe (lado esquerdo)
4. Virginia e o pai
5. capas de "Mrs. Dalloway" e "Orlando" das edições Miniatura (obras que foram, hoje reeditadas pela Relógio d'Água)
6. capa da edição inglesa da Oxford University Press (a edição a que me refiro é a de 2008): pormenor de uma pintura de Dame Laura Knight (On the edge of the Cliff)
7. A aldeia de St Ives, nos dias de hoje
8. figuras do grupo de Bloomsbury

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A casa amarela: o meu avô






O meu avô aparecia, à noite, com um cão branco e preto. Vinha deixar a avó em nossa casa, para passar o serão. Muitas vezes, juntavam-se-lhes as outras irmãs da minha avó, a tia Zèzinha, a tia Leopoldina e a tia Mariquinhas.
Sempre bem vestido, cheirava bem. Seguia para o cinema e levava o cão, o Tommy, que o esperava fora.
O meu avô era uma pessoa doce, um homem bonito, sempre bem arranjado, agradável que não criava problemas a ninguém, pelo contrário, gostava de ajudar toda a gente. Eu nunca lhe vi nenhum defeito.
Recordo uma fotografia com ele, os dois a descer as escadas da Igreja de S. Cristóvão. Ele com o
chapéu cinzento, o fato de colete, cigarro na mão,
um bigode farto, sorriso terno, atento a que eu não tropeçasse. Eu a segurar a saia pregada, casaquinho de lã e um chapéu de feltro redondo, que detestava mas a minha mãe me punha sempre, a pontinha da língua saída para um lado, concentrada na descida.
A avó achava que ele tinha um defeito: ser demasiado brando, não se impor.
- Fazem de ti o que querem, João. Calculo o que vai lá pela tipografia! Abusam...
Ninguém abusava do meu avô. Na tipografia, era respeitado, pela sua justiça, compreensão e suavidade. Claro que muitas vezes deixava os empregados chegar mais tarde, ou partir mais cedo...
-“ A minha filha teve dor de ouvidos toda a noite, não dormi nada... de manhã deixei-me dormir...”
Ou outro:
-“Tenho que levar a minha mãe ao hospital... Posso sair meia hora mais cedo?...”
- "Está bem, vai lá..."
O meu avô dizia sempre que sim. O meu avô acreditava nas pessoas mesmo sabendo que são fracas e que, por vezes, podem precisar de ir tratar de uma coisa mas acham melhor dizer que vão fazer outra. O meu avô não sabia se eles iam levar a mãe, ou se a filha tivera ou não tivera dores. Mas, se fosse verdade? O meu avô preferia pensar que era verdade... Era um contrato entre ele e as pessoas. Cada um era responsável pelas próprias palavras e pelas acções, pelo respeito por si próprio.
O meu avô era um justo e amava a sua tranquilidade. E muitas vezes ao longo da vida pensei nele: o que diria ele, como agiria o meu avô? E ajudou-me a decidir.
Os problemas para a minha avó não acabavam ali:
- Ninguém te paga, João. As assinaturas dos jornais?... A publicidade? Quem é que já pagou este mês? Arranja um garoto para ir receber as contas...
- Deixa lá, não te preocupes, mulher, eu trato disso...
Às vezes o meu avô tratava disso. Encarregava o garoto que lhe vendia os jornais de ir receber as contas, dava-lhe as direcções numa folhinha com a sua letra perfeita. Só que as desculpas eram muitas e o miúdo raras vezes regressava com dinheiro.
O seu maior prazer era estar na tipografia, sentado à secretária pequenina virada para a parede, onde pendurara uma gravura humorística. À luz do candeeiro, a secretária cheia de papéis, deixava-se ficar até tarde. O candeeiro tinha um abat-jour verde e representava um ardina a rir, com os jornais debaixo do braço. Hoje guardo-o em minha casa, e lembra-me esses dias que passaram tão depressa...
O meu avô corrigia as provas do jornal, revia, emendava, fazia ao lado uns sinais que para mim eram incompreensíveis, uns rabiscos que ficava a observar quando lá passávamos de corrida, eu e a minha irmã, a buscar o “Mundo de Aventuras” ou o “Cavaleiro Andante”, revistas que ofereciam ao jornal "A Rabeca", de que ele era o Director, e que separara, antes, com cuidado para nós.
- Estão ali..., apontava, contente.
Eu ficava com os olhos presos àquelas tiras de papel compridas, que me disseram serem as "provas" do jornal, ia ver os chumbos já feitos, em grandes tabuleiros de madeira que, por vezes, ainda eram emendados depois das correcções do meu avô.
Anos depois, na quinta da Serra onde passávamos as férias, eu e o Manuel ajudámo-lo a corrigir as provas, quando ele, já cansado, sentia certa dificuldade em fazê-lo na tipografia e trazia "serão", como ele dizia, "o trabalho para acabar em casa".
O meu avô continuava a ser respeitado: o autocarro onde ia para a Serra almoçar, dava a volta lá acima no Salão Frio e esperava por ele na curva da estrada, encostado ao portão da quinta.
- Não tenha pressa, Sr. Casaca, coma sossegado!, gritava de lá o condutor.
E muitas vezes, nas ruas da cidade, bastava-lhe fazer um sinal: os autocarros paravam e ele entrava.
Agora, com saudade, lembro a tipografia, o cheiro dos tabuleiros e dos chumbos e das tintas, um cheiro forte, e vejo o meu avô, de óculos em cima do nariz, a escrever ou a falar com os empregados, no seu modo brando.
A tipografia era o seu reino, o seu condado, estava sozinho, longe da personalidade forte da minha avó. Ali mandava ele, a avó não podia ter opiniões e só se podia lamentar:
- Ai, João, João!..
....................................
na fotografia :
eu e o meu avô, a descer as escadas de São Cristóvão