sábado, 14 de novembro de 2009

"Os Olhos de Jade": capítulo 10





No ferry que se aproxima de Newhaven, a sul da costa inglesa, um homem novo está encostado à amurada. Fuma nervosamente. Tem os cabelos ruivos, os olhos castanhos, e as olheiras fundas de quem não dorme há muitas horas.
-Que pesadelo!..., diz em voz baixa.
E continua a pensar:
“Como é possível voltar a casa e saber que está morta...!? Saber que não a volto a ver...”
Olha fixamente a costa cada vez mais perto, respira fundo.
“Pouca sorte com as ilhas. Nesta, onde nasci, vou encontrar a minha mãe, morta. Quando deixei a outra ilha, perdi a minha infância, o meu pai...”
Revia os espaços de África, o verde infindável da floresta na bruma, o mar dum azul sempre vivo, a chuva a bater no telhado da casa, as torrentes de lama vermelha descendo a rua na estação das chuvas. O jardim tropical e os frutos que lhe pareciam de todas as cores do mundo...


E a imagem da mãe vinha, no seu vestido branco com papoilas, a segurar o chapéu de palha com uma das mãos, as fitas vermelhas caídas atrás, sobre os cabelos ruivos, e os olhos azuis a brilhar, divertidos.
-Meu Deus! Como foi possível!? Ela não podia morrer! Não podia...
Voltara a falar alto, gritava sem dar por isso.
Sacode a cabeça mas as imagens não o largam. Via os pais e a irmã no jeep atolado, num caminho deserto. Eles, miúdos, com o pai e o Zurigo a tentarem tirá-lo da lama, pondo enormes folhas de palmeira debaixo das rodas...
A mãe, agarrada ao volante, a rir-se.
“Desapareceu tudo num instante...”
Esse mundo maravilhoso de espaços abertos desaparecera e, de repente, o sentimento de perda, tremendo e doloroso, quando chegara à cinzenta Inglaterra.
“O que é que eu vou fazer? Morreste... A vida parou... Separados para sempre, mãe... E calo-me? Aceitei já a tua morte?”
Uma angústia enorme invadira-o. Vinham-lhe à memória uns versos de que a mãe gostava de Hanoch Levin:
Silent…meaning you did not rise, did not rebel…”
Aceitar a morte dela?
Meaning you go this way, I go that...”
Aceitar, sem gritos, nem protestos?
“Sem me revoltar? Em silêncio, mãe?! Não é possível!” No entanto, ali estava ele, aceitando, sem se rebelar, sem gritar...
Tinhas razão quando dizias que aceitaria a tua morte em silêncio...
“Inelutável”, repetias, “todos aceitamos... Vais ver... "
Parecia-lhe ouvir a voz doce e com um pouco de tristeza: “Fica só o pensamento, a lembrança, mais nada...”
Recordava bem a sua voz, declamando, devagar:
"... you burst out crying and then were silent,
meaning you did not rise, did not rebel,
meaning you were reconciled, meaning
I go this way, you go that."

"Sim, eu por este caminho, tu por aquele..." Mais sozinho e mais vazio.
"Recomeçar tudo do princípio, sem ti? Sem o teu olhar, o teu cuidado? Habituar-me a nunca mais te ver! Ó mãe, como é possível?”
Com uma das mãos tentou pôr ordem nos cabelos, despenteados pelo vento e pela maresia. Impaciente, segurava o cigarro aceso na outra.
-Não quero! Não posso aceitar!, gritou.
Encolheu-se dentro do duffle-coat, arrepiado e sozinho.
“Mais frio que em Amesterdão! Será sugestão, pelo cinzento do céu? Acho que sou eu estou gelado por dentro...”
A costa parecia aproximar-se rapidamente, o movimento das pessoas começara. Ouviam-se os motores a aquecer.
Entrou no carro, sentou-se e ficou a olhar para o mar, à espera.
Sem ele querer, o pensamento voltava atrás. Soubera da morte da mãe pelo telefone. Joan falara-lhe de Abidjan.
-“Michael querido, vou dar-te um desgosto enorme. Desculpa, tenho de ser eu a dizer-te, só eu é que posso... Uma coisa horrível...”
A voz suspendeu-se por um instante, depois ouvira-a respirar fundo e dizer num arranque:
-“A mãe morreu...”
-“A mãe? Estás maluca?!”
-“Morreu...”
“Não é possível a mãe morrer”, pensara ele...
-“Há três dias. Só soube agora, telefonou-me o Gabriel. Já marquei o voo, parto amanhã à noite.”
Ele calara-se. Como se o coração lhe tivesse parado. Não conseguia entender.
-“Pesadelo?”
Era um sonho aquela conversa. Um pesadelo do qual iria acordar. Não era possível...
-“Michael, ouviste?...”
-“Sim, ouvi, Joan...”
-“E não dizes nada?! Protesta, meu Deus!”
-“Não quero acreditar! Não posso...”
A voz soava metálica, como se não fosse ele a falar.
- “Morreu como?” , perguntara em voz arrastada, impessoal.
Depois percebeu que ela começara a soluçar, primeiro devagarinho, a seguir convulsivamente, sem parar.
-“Oh! Joan, Joan, não chores...”
-“Michael, não sei o que hei-de fazer. Tu vais lá ter comigo?”
-“Vou. Com certeza que vou... O mais depressa que puder.
Parou e perguntou:
-“O Peter vai?”
-“Não, tem estado fora de Abidjan. E, sabes, acho que certas situações temos que as viver sozinhos...”
Engolia os soluços, queria mostrar-se forte, como sempre procurara ser.
“És uma tipa dura”, costumava dizer a mãe, a brincar.
Mas era tão difícil ser forte...
Michael continuou, no mesmo tom:
-“Como foi?! Não estava doente, não tinha nada!”
-“Não sei os pormenores. Foi de repente, disse-me o Gabriel, e confesso que nem quis ouvir mais... "
Não conseguia dizer mais nada.
-“Vou precisar da tua força, Michael. Ajuda-me, por favor! Eu telefono-te quando chegar...”
-“Eu vou depressa, querida irmã!”, tentou animá-la.
De Brighton, ela voltara a telefonar-lhe.
-“Ouve, Michael, tudo isto é esquisito. Não acredito que tenha sido morte natural. Paludismo, dizem. Não acredito.
Hesitou. E disse de repente:
-“Penso que foi envenenada! Não posso dizer porquê, nem por quem, porque não sei.”
-“Mas isso é absurdo! Porquê a mãe?”
-“Não faço ideia, mas tenho as minhas razões. Ela tinha-me escrito uma carta... Alguém a quis matar. E conseguiu!
-“Não é possível!”
-“Ouve-me, Michael: tens de acreditar em mim. Depois falamos. Quando chegas?”
-“ Espero estar aí o mais tardar no fim da semana.”

O barco abrira-se como o ventre de um animal gigantesco. O mar cinzento agitava-se, violento, as ondas batiam com força no casco.
“O Jonas devia sentir-se assim a sair de dentro da baleia...”
Tentava ironizar, mas sentia o rosto esticado no esforço de conter as lágrimas que com a água salgada lhe ardiam nos olhos e na pele.

E ali estava agora, a chegar a casa. De Newhaven seguira a estrada junto ao mar. Em menos de meia hora estaria em Brighton e dali a Arundel era perto. A casa ficava um pouco antes da pequena aldeia.
Ia olhando a paisagem: dum lado o mar, do outro, as doces colinas dos Downs. E lembrava os tempos em que ali vivera.

Não sabia o que o aguardava, qual o mistério que envolvera a morte da mãe.
Sabia só que Joan estava sozinha e precisava dele.
________
(foto do blog "arquivo fotográfico", de DLC)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Agatha Christie, Lady do Crime, e o culpado: Poirot










capa da 1ª edição inglesa de The man in the brown suit, 1924 (The Brodley Head ed.)



Para os amadores de Agatha aqui vem mais uma "achega".
Vem do blog -que vos aconselho vivamente!- bicho-carpinteiro...




Afinal o culpado de tudo é Poirot, que, com o seu ar ingénuo, tudo consegue: até a atracção completa... total!

Prender desta maneira um leitor, um muito jovem leitor...



Assim confessa o "bicho carpinteiro:

"De Agatha Christie li tudo e Poirot é o culpado. The man in the brown suit será, quase de certeza, "O" livro policial . Li-o de uma assentada, nos tempos de estudante-adolescente-inconsciente, em que fazia directas de leitura pela noite fora sem ficar intratável no dia seguinte."

De acordo, Poirot é inesquecível e esse livro também... Podem lê-lo e perceber porquê...
P.S. 1.Saíu uma edição em 2003 de "O Homem do Fato Castanho", na Editorial ASA
2. Por curiosidade, para os amigos brasileiros, o título do livro no Brasil é: O Homem do Terno Marrom.
Ilustrações:
1. capa da edição de 2003, da ASA
2. capa das Obras de Agatha Christie, colecçºao Livros do Brasil
3. capa da 1ª edição inglesa: Brodley Head editors

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Um Nobel que vale a pena ler: Le Clézio, Prémio Nobel em 2008


















Foi, sem dúvida, um Nobel inesperado o de 2008. Mas um Prémio Nobel que vale a pena ler!

Le Clézio vivia afastado das "feiras literárias" e, desde o Prémio Renaudot que recebera em 1967, com 23 anos, escrevia sem preocupações de vir a ser isto ou aquilo.
Escrevia simplesmente. Contava histórias.

Correu o mundo, viveu em sítios muito diversos e observava o que via.
A Academia Sueca sublinha, pela voz do seu secretário permanente, as razões da atribuiçao do prémio:

"As suas obras têm um carácter cosmopolita. Francês, sim, porém mais do que isso, um viajante, um cidadão do mundo, um nómada".









Cidadão do mundo, que ama esse mundo e o procura entender. Nómada que nasce em Nice em 13 de Abril de 1940, parte aos 8 anos com a família para a Nigéria, vive em Inglaterra onde estuda inglês numa universidade britânica, vai ensinar para Bangkok, depois Cidade do México, Boston, Austin e Albuquerque, por exemplo .




Le Clézio passou longos períodos no México e na América Central, e, em 1975, casou-se com uma marroquina.

Normalmente, nesse percurso de "nómada", debruçava-se sobre os problemas ligados ao homem, ao seu mal de viver. Falava dos que viviam mal, sozinhos, abandonados pela sorte, ofendidos, insultados...

Vou dizer-vos algumas coisas que sei dele.
Recorro, para a biografia, ao catálogo da "1ª Exposição dedicada em França à obra de Le Clézio, em Câteaulin, Finisterra, Bretanha" (e a outros livros, claro).
Jean-Marie Gustave Le Clézio, Prémio Nobel de Literatura em 2008, nasceu em Nice, mas as suas origens levam-no às Ilhas Maurício, onde nasceram os pais.

Formou-se em Letras e, em 1963, com 23 anos de idade, ganhou o prémio literário Renaudot –prémio de literatura francês de grande importância- atribuído ao livro Le Procès-verbal (O Interrogatório).

Escreveu contos, novelas, romances, ensaios.
Vive hoje em Albuquerque, a maior cidade do Estado Americano do Novo México, e continua a viajar frequentemente até às Ilhas Maurício e a Nice.
A família de J.M.G Le Clézio é de origem bretã, como no fundo as consonâncias do seu nome fazem adivinhar (o nome Le Clézio indicaria a “passagem vedada” do território pertencente a uma família, clã, fechada com pedras, depois com ramos e depois com uma vala: em bretão “kleuz”, em galês “Clawd” e em céltico “Klado”).
A origem da família situa-se muito provavelmente no departamento de Morbihan, perto de Neuillac e de Noyal-Pontivy onde existe um lugarejo que tem aliás o nome de Le Clézio.

Os seus antepassados atravessaram essa vedação, emigrando na sua maioria antes da Revolução Francesa.
Um deles, François Alexis, não querendo submeter-se a um decreto da Convenção que decretava que se deviam usar os cabelos curtos, exilou-se em 1798. De viagem para as Índias pára na Ilha Maurício, então chamada Ilha de França. Onde se torna comerciante-armador de barcos.
Mais tarde, um dos seus descendentes –um dos bisavós de J.G, juiz, vai à procura do ouro, em Rodrigues.
Como não sentir predisposição para escrever e contar e sonhar histórias com um passado tão aventuroso e fantástico??
Viveu fora, errou de país em país, vagueou, percorreu mundos, "viveu" várias vidas.
Contou histórias que se passavam nos bairros pobres, nas "cités" desamparadas, falou de vidas difíceis, histórias umas atrás das outras, falando da dor de viver, de estar só, de ninguém pensar em nós...

É disso tudo que fala em "La Ronde et Autres Faits Divers".
Os fait divers as rubricas que enchem as páginas dos jornais: morreu, fugiu, foi violada, roubou, deu à luz num canto duma escada ou num vagão de mercadorias, etc etc...
São estes faits divers em quem já ninguém repara -e que, apenas, se lêem distraidamente, passando a outra notícia, esperando o jornal do dia seguinte com mais desses "faits divers" -que ele desenvolve e lança à cara do leitor. Agride-nos. Para acordarmos? E vermos?
É, muitas vezes doloroso lê-lo.
Por que sofrem estas personagens?
Porque se sentem sós. Mesmo nas cidades as pessoas estão sozinhas, rodeadas de betão, de casas aparentemente vazias, com janelas cerradas, "cegas" ao que se passa lá fora, ao que acontece aos outros.
Vejam:
"À beira do rio seco, há a cité de H.L.M. (*). É uma verdadeira cité em si mesma, com dezenas de edifícios, grandes falésias de betão cinzento empoleiradas sobre espalnadas de alcatrão, no meio da paisagem de colinas de pedras, estradas, pontes com o leito do rio de seixos empoeirados, ao lado da fábrica de cremação que deixa flutuar a sua nuvem acre e pesada por cima do vale. Aqui está-se longe do mar., longe da cidade, longe da liberdade, longe mesmo dos homens pois mais parece uma cidade deserta. Talvez não haja mesmo ninguém na verdade, ninguém nos prédios cinzentos com milhares de janelas rectangulares, ninguém nas escadas, nos ascensores e ninguém ainda nos parkings onde estão arrumados os carros? "
Porque a ofensa que é feita a Catherine (no conto Ariane) não é presenciada por ninguém...
(*) H.L.M. -iniciais de "habitation à loyer moyen", isto é: casas de rendas baixas.
(**) "cité" -é o nome dado aos "bairros" que ficam nos arredores das grandes cidades, muitas vezes degradados, cheios de problemas sociais...
As suas personagens sofrem...
Por ofensas variadas, faits divers para os outros...
Alguém foi violado ou magoado, insultado...
Duas jovens fogem de casa para conhecer o mundo não sabem o que fazer da liberdade...
Uma jovem mulher dá à luz, sozinha, com um cão na moquette do seu carro-caravana...
Uma miúda de moto, tenta roubar uma mala de mão e...

Esta última história, que se intitula exactamente La Ronde é uma história de abandono, de indiferença, de jovens saídas da adolescência sem horizontes, sem marcos na vida, sem ninguém que se lembre que elas existem. Vidas banais, cinzentas, de jovens correndo à procura duma aventura qualquer com que encher as vidas vazias, correndo atrás de uma diversão cada dia diferente, sem sentido, como a vida que vivem.
Desta vez, Martine tem que vencer o que ela considera um exame, uma prova. Como se o mundo esperasse um gesto dela! Tem que acontecer qualquer coisa!, pensa, antes de se decidir. Medo?
Mas, a rua da Liberdade está tão calma...
Sim, "la rue de la Liberté est calme"...

Um dia de sol. As casas, de paredes brancas reflectem a dureza desse sol escaldante, têm as persianas fechadas, como olhos que espreitam indiferentes, hora em que a cidade está deserta e mete medo, é fria apesar do calor do sol que bate como uma pedra na calçada, nas paredes, cortante.
Os outros não vêem nada, fecham-se nas suas casas de persianas fechadas, e esperam...
Dentro dos carros fechados, outros espreitam...

São "os outros" que empurram Martine e Titi para a frente. No vazio que de repente lhes parece ameaçador: primeiro "intenso", depois "angustiante", finalmente "estridente" dentro dela.

São eles que as empurram, que as "obrigam" a enfrentar a fatalidade...

A Martine nada lhe interessa. Chegar atrasada ao curso? Que importa? E se ela e Titi forem expulsas da escola?, pensa. O coração bate-lhe no peito. Pânico. Mas, no fundo, o que importa?No fim e ao cabo, é tudo a mesma coisa... Aborrece-se. É-lhe indiferente...
Decidem ir fazer a "ronda": acelerar na motoreta, pela avenida deserta, ir até ao fundo, girar em volta da praça e voltar para trás a toda a velocidade, num velocípede gasto e sem força, velho, emprestado pelo namorado duma delas.

Tudo é preparado para o desfecho. Na cidade vazia e escaldante, ouve-se ao longe o ruído do autocarro que se aproxima. Uma velha vestida de azul e de malinha na mão hesita se há-de parar para apanhar o autocarro. Da garagem ao fundo no cruzamento um camião de mudanças avança ronceiro na subida.
Os dados estão lançados, resta-nos seguir e ficar a observar...
As outras histórias deste livro de histórias são também acontecimentos banais, tão banais que ninguém dá por eles: Moloch, L'échappé, Ariane, Villa Aurore, Le jeu d'Anne, La grande vie, Le passeur, O voleur, voleur, quelle vie est la tienne?(***), Orlamonde e David.

(***) entrevista feita pelo autor a um pescador português, nascido na Ericeira... Que, à procura de vida melhor, errou pelo mundo: Bélgica, Austrália, Canadá, Paris... E acabou ladrão...
No final, o herói lembra uma canção que o pai lhe cantava quando ele era miúdo, na Ericeira:
Ó ladrão, ladrão
que vida é a tua?
comer e beber,
ó trilintim,
passear na rua...

O voleur, voleur, quelle vie est la tienne?
Era meia-noite
quando o ladrão veio
Beateu três pancadas
à porta do meio.
(...)
E assim acaba o conto...

Le Clézio, J. M. G., La Ronde Et Autres Faits Divers, Gallimard colecção Le Chemin, Paris, 1982
********************
Outras obras:

"Le procès-verbal" ("O Interrogatório"), de 1963,
La fièvre" (1965),
"Terra Amata" (1967),
"La Guerre" (1970),
"Désert" (1980),
"Le Chercheur d'or" (1985),
"Onitsha" (1991),
"Etoile Errante" (1992),
"Le Poisson d'or" (1996),
"Voyage à Rodrigues" (1986),
"Diego et Frida" (1985),
"Révolutions" (2003),
"Ritournelle de la faim" (2008).

The Beatles: começar o dia bem com "Yesterday"




Paul MacCartney "Yesterday" & The Beatles: sempre!
Hoje, ontem e amanhã!
Divirtam-se, recordem, sorriam...
Éramos mais novos, talvez um pouco mais ingénuos, mais inconscientes... E os Beatles seguiram-nos, acompanharam-nos vida fora...
Pelo menos aqui em casa já vamos em duas gerações que amam os Beatles!
São sempre um tónico, uma água fresca que faz bem à alma...
Enjoy yourself!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Poesia: Régio e Sebastião da Gama "Quando eu nasci..."




O dia em que os poetas nasceram...























José Régio...




Quando eu nasci, Senhor! já tu lá estavas,
Crucificado, lívido, esquecido.
Não respondeste, pois, ao meu gemido,
Que há muito tempo já que não falavas.





Redemoinhavam, longe, as turbas bravas,
Alevantando ao ar fumo e alarido,

E a tua benta Cruz de Deus vencido
Quis eu erguê-la em minhas mãos, escravas!





A turba veio então, seguiu-me os rastros;
E riu-se, e eu nem sequer fui açoitado,
E dos braços da Cruz fizeram mastros...







Senhor! eis-me vencido e tolerado;
Resta-me abrir os braços a teu lado,

E apodrecer contigo à luz dos astros!











E Sebastião da Gama...






Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura
que olhava nos olhos de minha Mãe.






... Ora aqui há uns tempos, em Agosto creio, ao falar do "nascimento" de José Régio, acabei por copiar o soneto "Quando eu nasci..." de Régio ... do poema de Sebastião da Gama que começa também por "Quando eu nasci..."
Internet. Problemas de "copy" e "paste"... Culpa do computador, claro... Da máquina! Da precipitação e da rapidez também com que nos movemos... Mas indesculpável!
Peço desculpa aos leitores que induzi, involuntariamente, em erro e agradeço a Leonilda que, apreciadora e conhecedora dos dois, disso me avisou...

Aqui ficam agora atribuidos correctamente: Sim, Leonilda, tem razão: "o seu a seu dono!"

Grandes poetas que eles são os dois, não precisam de ser confundidos...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O etnógrafo Victor Segalen, a língua perdida dos Maoris, Gauguin e a "arte de tudo ousar"




VICTOR SEGALEN, foi um etnógrafo, arqueólogo, escritor, poeta, explorador, teórico de arte, linguista e crítico literário francês. Tudo isto no curto espaço de vida de 41 anos...

Nasceu em Brest em 14 de Janeiro de 1878. Estudou medicina naval em Bordeaux. Viajou, e viveu na Polinésia(1903-1905) e na China (de 1909-1914 e em 1917).
Morreu, acidentalmente, em circunstâncias misteriosas e de causas desconhecidas, em 21 de Maio de 1919.

Foi, de facto, encontrado morto, dois dias depois do seu desaparecimento durante o que deveria ter sido um passeio normal, na floresta de Huelgoat, França.
Apresentava apenas uma ferida no calcanhar.
Dizem que, aberto em cima do peito, tinha um exemplar do “Hamlet” de Shakespeare .
Depois da morte, deram o seu nome à “Universidade Victor Segalen II, de Literatura e Ciências Sociais”, de Bordeaux.


















À procura de Gauguin e da “arte de ousar”

Quem terá falado a Segalen de Paul Gauguin, o exilado dos mares do Sul?
Em 1903, Victor Segalen parte para o Tahiti, numa missão médica. Tem 25 anos, e a cabeça cheia de literatura, mas nunca tinha visto uma pintura ou uma cerâmica do grande Gauguin.


Jovem médico, saído de fresco da Escola de saúde naval de Bordeaux, vai encontrar involuntariamente um "mestre de arte -e também “um mestre de pensar”- nesse revoltado que foi Gauguin.

É encarregado de verificar o legado de Gauguin, após a sua morte, e nada sabia dele...

Parti para o Tahiti mal conhecendo o seu nome...”, confessará mais tarde.

E o que lhe disseram, quando chegou, desembarcado do navio La Touraine, desta personagem “odiada pela colónia” francesa, deve-lhe ter esfriado o entusiasmo:


Gauguin? Um doido que pinta cavalos cor de rosa!”, disseram-lhe.
Gauguin pertence, com Manet e outros, à família dos pintores malditos”, diz lacònicamente André Breton no seu Journal des Iles, em 1903.

Quando Segalen desembarca em Papeete, Gauguin morrera três meses antes, em Hiva-Oa, depois de ter estado na prisão três meses por causa duma discussão com um gendarme francês. Morre com uma overdose de morfina, num estado de grande debilidade, com sífilis.
Participa no leilão das obras do pintor -onde todos os haveres daquele "louco que pintava os cavalos de cor de rosa" são vendidos a preços irrisórios- e compra alguns quadros (entre eles, "Paisagem de neve em Pont-Aven " (1883), algumas tábuas pintadas que faziam parte da "casa" de Gauguin, e a paleta do pintor ainda suja de tinta, que guardará como um talismã precioso.
Segalen recolhe em Nuku-Iva a pasta dos papéis de Gauguin e, deslumbrado com o que vê e lê, parte em peregrinação à procura dessa personagem.
Aproxima-se da figura do grande pintor depois de ver o “legado” estético por ele deixado e ficar seduzido com a grandeza do pintor e da sua alma completamente livre.

Aí, nessa obra, compreende o génio selvagem do revoltado, “verdadeiramente artista, exilado e solitário...”

No relatório que envia para França, arrisca-se a tomar posição quando evoca "os tristes restos de um povo com uma vida híbrida de selvagens em vias de perversão civilizada"...
É com Gauguin que aprendera já “o direito de tudo ousar”?
Gauguin fora um "monstro", reconhece Victor Segalen, sem outras palavras para o definir, porque ele não “entrava em nenhuma das categorias conhecidas que bastam para definir a maior parte dos indivíduos".
O artista colossal e frágil, solar e cheio de desespero, o artista diverso, e em tudo excessivo. É esse excesso que dará força à sua obra altiva, dolorosa.

Gauguin, ex-marinheiro, ex-agente de câmbios, ex-marido, ex-chefe de família, Gauguin que deixou tudo para trás e tudo queimou na sua vida. Mas se tudo queimava era porque ele também era fogo e ardia.
E é desse Gauguin "ardente" que Segalen vai à procura, ou parte à conquista, numa espécie de peregrinação às raízes, aprendendo com ele o significado de "tudo ousar", quer dizer tudo ter a coragem de dizer, pintar, interpretar, simbolizar, imaginar...


Escrevia Segalen ao pintor e amigo Georges Daniel de Monfreid: " Posso dizer que nada tinha percebido do país e dos seus Maoris, antes de ter visto e quase vivido os desenhos e croquis de Gauguin..."

É em Hiva-Oa que encontra o fiel amigo de Gauguin, que o acompanhara até à morte, o velho maori Tioka, e dele recebe as últimas recordações do pintor. Fala com Sara, uma das mulheres que vivera com ele e guarda as cartas que ele lhe escrevera.
Diz-se no Prefácio (de Marie Dollé e Christian Doumet) a Les Immémoriaux (Classiques de Poche):

"O que Segalen deve acima de tudo a Gauguin é "um certo olhar" sobre o universo polinésio. Tal como ele, o pintor era um estranho na Oceania; mas, sem renegar essa diferença essencial, nunca deixou de marcar a sua distância em relação aos outros Brancos vindos incarnar e assegurar, entre os autóctones, a soberania europeia!"
Como súmula dessa aprendizagem, desse conhecimento, dessa semelhança de "olhares" é a homenagem da qual vos aconselho a leitura (“Homenagem a Gauguin, o insurrecto das ilhas"). Assim como também a leitura dos outros livros dele que citei...

Deixo-vos alguns "links" úteis -que me ajudaram a saber um pouco mais sobre esta personagem invulgar...

René Leys (1922)
Polynesia (1903-1905)
China (1909-1914 and 1917).
Huelgoat, France - a floresta onde morre em circumstâncias misteriosas talvez com um exemplar do Hamlet ao lado...
Victor Segalen Bordeaux 2 University, de literatura e ciências sociais, em Bordeaux.


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Outra Música: Clara Wyeck e Robert Schumann









Robert Schumann nasce em 8 de Junho de 1810, em Zwickau, na Saxónia. O pai era um livreiro, a sua família era culta e tudo o empurrava para o estudo.



Como o seu pai era bibliotecário, Schumann, pôde ler e entusiasmar-se com a obra de Shakespeare, verdadeiro emblema para os jovens que se rebelavam contra a ortodoxia do Classicismo, ou, outros escritores mais próximos, Lord Byron e autores como Walter Scott.
Depois da formatura em Direito, Robert Schumann decide estudar música, uma das suas grandes paixões, juntamente com a literatura.
Nessa altura, vai para Leipzig e procura o professor de música mais famoso da Alemanha, o Professor Frederich Wieck, pai da pianista, Clara Wieck.

Schumann foi um dos "pais" do Romantismo Alemão, amigo Franz Lizt, Fredéric Chopin, e do escritor Heines.

Mas na altura em que vai para Leipzig Schumann era desconhecido, um estudante mais, dos muitos que procuravam o Professor Wyeck para ter lições de piano.

Quando conheceu a filha do professor, Clara, ela ainda era muito nova. Interessa-se muito por ela, conversam muito, Schumann conta-lhe as histórias folclóricas, fantásticas, com personagens invulgares tão caras aos "românticos"- algumas inventadas possivelmente - e prende a atenção da jovem.
Tornam-se bons amigos.
Schuman é uma pessoa complicada. Muitas dessas histórias falam não só de seres sobrenaturais como de seres "duplos", sósias, duplas personalidades (como não pensar em Dostoievski e o seu "Duplo"?)
Ele próprio é contraditório: parece ter duas naturezas em conflito constante: uma arrebatada e arrebatadora e enérgica, a outra calma e meditativa, com tendência para a melancolia, o mal do século...

Apaixonam-se, mas quando o pai sabe, tem uma fúria, esse amor é contrariado. O pai receia a personalidade complexa e contraditória de Schumann.
E, sobretudo, queria que Clara fosse a pianista que ele tinha sonhado e o casamento poderia opor-se a isso.

Ela seria uma grande pianista (ainda hoje famosa), fora criada para ser concertista de piano. Este era o destino que o Porfessor Wyeck queria para ela.
A tudo isto renunciou para ser mulher de Schumann.
Quando Clara completa 21 anos conseguem casar.

sábado, 7 de novembro de 2009

"Os Olhos de Jade": Capítulo 9







CAPÍTULO 9


No dia seguinte, Joan levantou-se cedo. Desceu as escadas a correr, deixando a mão escorregar pelo corrimão de madeira como fazia quando era pequenina. A luz estava acesa no escritório de Gabriel, que ficava no rés-do-chão, ao fundo do corredor. A porta entreaberta deixava filtrar uma claridade suave.
-“Já se terá levantado? Ou não se foi deitar?”
Sem ruído, Joan espreitou e viu Gabriel, adormecido, com a cabeça apoiada nos braços. Um monte de folhas amarrotadas estavam espalhadas pela secretária. Pareciam cartas velhas. Uns cadernos de capa preta estavam arrumados ao lado. O écran do computador brilhava numa miríade de estrelas. Apagou a luz e deixou-o dormir.
-“Coitado, pensou, devem ter sido dias tremendos! Esqueci-me que teve um desgosto tão grande como o nosso. Ontem fui bruta... Ainda bem que acabámos por falar...”
Foi buscar a chave à terrina, onde Mary a deixava de costume, e saíu de casa pela porta da cozinha.


Dirigiu-se para o jardim. Ao fundo, na descida para a estrada de Arundel, estendiam-se os campos a perder de vista.
Perto do muro que costeava o jardim e dava para uma azinhaga, havia uma pequena casa de tijolos, com um telhado de duas águas, de um vermelho igual ao da vivenda grande, uma janela e uma porta pintada de verde escuro. Era a casa do jardineiro, onde Zurigo vivia e guardava os poucos bens numa mala de couro velha.
Joan caminhava depressa.
“O que teria querido dizer Gabriel sobre a última noite? Que conversa teria tido Zurigo com a mãe, na noite em que morreu?”- pensava.
De repente, por detrás do muro, pareceu-lhe ouvir os passos de alguém que tropeçara nas pedras soltas da azinhaga. Parou e pôs-se a ouvir, atenta. O som afastara-se.
“Como da outra vez?”
Lembrou-se do rosto que vira à janela.
"Será sugestão?"
Podia, claro, mas também podia não ser. Pensou que se alguém matara a mãe, podia muito bem voltar, para matar outra vez... "
Não teve coragem de ir ver por cima do muro, nem de se aproximar da pequena porta de ferro fechada a cadeado.

"E se o assassino estava aqui ao meu lado?!"
Fosse quem fosse, a correr pela vereda inclinada, devia já ter chegado à estrada principal. Pareceu-lhe ouvir um motor arrancar.
“Tal como pensei! Alguém estava aqui e fugiu!”

Estremeceu. Pôs-se a pensar a toda a velocidade, para se acalmar.
Teria sido tudo impressão? Só nervos? Estava a ficar medrosa? Onde estava o seu sangue frio, a sua coragem?
Ontem parecera-lhe ver um rosto que espreitava, agora ouvia passos, ruídos de motores...Estaria tudo apenas na sua cabeça? Os pensamentos sucediam-se uns atrás dos outros. Teve medo e correu para a porta verde, viu que estava apenas encostada e entrou sem bater.
-Zurigo! Não ouviste um barulho? Passos na azinhaga? Ah! Estás a dormir...
Ao lado da mala de couro, roupas espalhadas, um par de sapatos cardados, uns botins de borracha, camisolas de lã, os utensílios do jardim. Zurigo estava deitado em cima da cama, virado para a parede. Deu um salto e virou-se.
-Oh! Menina! Eu cá não ouvi nada! Não estava a dormir. Eu nunca durmo! Só fecho os olhos...

- Então o que estavas a fazer?...
- Estava a pensar... Ontem à noite pensei, pensei até me doer a cabeça. Deixei-me dormir de manhãzinha. Mas estou acordado!
Levantou-se e a camisola de lã grossa descaíu-lhe sobre um dos ombros do corpo magro. Trazia um par de velhos jeans desbotados e uns botins de borracha cheios de lama.
-Deixa estar, Zurigo, não ouviste, não faz mal... Se calhar foi impressão minha...
Olhou-o com um ar sério.
- Ouve, preciso de falar contigo! Tens que me dizer tudo o que sabes.
- O que é que eu sei? Sou um pobre desgraçado...
- Como é que a minha mãe morreu? Sabes quem a matou?
- Matou? Ó mãezinha pequenina... Eu?! Saber quem a matou? Eu não sei nada! Eu não vi nada! Estava aqui deitado!
Começou a chorar.
-A minha senhora morreu e eu só espero a minha hora, que há-de vir depressa! Sei que está marcada!
Abanou os ombros, limpou as lágrimas.
- Não sirvo para nada...
-Zurigo, não chores, não serve para nada... Tens muito para fazer! O meu irmão vem aí. Tu vais ter que nos ajudar!
-Não sirvo para nada é que é...
- Cala-te, não digas isso! Lembras-te de me dizeres que ela tinha medo?
- Eu não sei...
- Medo de quem, diz lá?
-Eu não sei nada... não me lembro!, teimava Zurigo.
-Tu falaste com a mãe nessa noite! Sei que lhe prometeste uma coisa... O Mr. Green ouviu-te prometer!
- Eu não sei, menina...
- Claro que sabes, não me queres é dizer... De que é que estavam a falar?
-Eu não me lembro! Estava aqui, a dormir...
Recomeçou a chorar.
- Ela morreu e eu aqui, um inútil... Eu, que sou o guarda! Deixei-a morrer! Sou estúpido, eu não sabia...
-Sabias, sim!... Sabes muita coisa! O que é que a mãe contou nessa noite, Zurigo? Fala!
Os olhos dele enevoaram-se, parecia que as pupilas fugiam pelas paredes do quarto, escondiam-se nos cantos. Cambaleou e foi sentar-se na cadeira de braços, de madeira, com a cabeça apertada nas mãos.
-Eu não sei! Eu não vi!
O cigarro que tinha na orelha, entalado na carapinha branca, caíu para o chão. Encostadas à parede em frente estavam as suas ferramentas de jardineiro e de guarda, um pau com uma ponta de lança, a tesoura da poda, a vassoura metálica, os ancinhos.
Pendurado por cima da porta de entrada, um machim de ferro, bem afiado. Todas as noites rondava a casa, batia ritmadamente com a lança no chão, tossindo, para mostrar que estava acordado, que vigiava e que os protegia no sono. Nunca perdera essa mania dos velhos tempos de África.
Só se ia deitar com a primeira claridade da manhã, e adormecia então com a sensação do dever cumprido, de os ter defendido. Era a sua maneira de mostrar como os amava.
Joan teve pena dele e não insistiu.
-Está bem, Zurigo, depois falamos quando estiveres mais tranquilo...
Saíu, encolhendo os ombros, desanimada. Sabia que ele lhe escondia qualquer coisa e que tinha medo.
"Não vale a pena insistir..."
Pelo menos para já. Ia esperar que Michael chegasse.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Morreu Claude Lévi-Strauss: como não falar dele?...













Como não saudar este homem especial, no momento em que desaparece? Num momento em que se agudizam os racismos étnicos e de todos os tipos, em tempo de intolerância contra o outro, o diferente, o que não é igual a nós, como não lembrar uma pessoa como ele e o que ele escreveu?





A propósito do seu desaparecimento, disse o etnólogo japonês, Junzo Kawada, tradutor de muitas das seus obras como por exemplo "Tristes Tropiques"(1955):
"Quando desaparece uma grande personalidade, nós dizemos que uma estrela gigante caíu do céu. Claude Lévi-Strauss foi sem dúvida uma dessas estrelas. Voou para o infinito e é com esse sentimento que esta noite olho para o céu cintilante de estrelas..."
Kawada, seu amigo e discípulo, acentua deste modo o lugar enorme que o antropólogo desaparecido tem no pensamento contemporâneo japonês: diríamos, no pensamento contemporâneo universal.

"O Brasil foi a experiência mais importante da minha vida", disse Lévi-Strauss que ali viveu de 1933 a 1939, depois de ter sido nomeado Professor de Sociologia, na Universidade de S. Paulo.
É no Brasil que realiza os seus primeiros trabalhos, vivendo junto dos índios Bororo, no estado do Mato Grosso.

O Brasil que hoje o recorda com respeito, pela voz do Professor José Ribamar Freire (citado pelo jornal Le Monde de hoje):
"O respeito por Claude Lévi-Strauss é incrível, aqui. Lembro-me de estar a estudar em Paris, seguindo o curso do Professor Maurice Godelier. Já nessa altura, quando Lévi-Strauss fazia uma conferência, esse professor famoso deixava o seu curso para ir assistir à conferência. E nós seguíamo-lo ..."

Numa entrevista ao jornal "Le Monde", em 14 de Julho de 1962, afirmava Lévi-Strauss:

"Longe de ver no pensamento selvagem ("La pensée sauvage" (1962) é o título de uma das suas obras mais importantes) um parente pobre do pensamento domesticado ("pensée domestiqué"), considero-o antes como um ser natural. A natureza engendra o pensamento como outras formas de vida: animal, vegetal e mineral. E mais. Este pensamento selvagem é racional. Codifica, quer dizer, classifica, rigorosamente, apoiando-se em oposiçãoes e contrastes, o universo físico, a natureza viva e o próprio homem, tal qual se exprime nas crenças e nas suas instituições. O pensamento selvagem tem o seu princípio numa ciência do concreto, uma lógica das qualidades sensíveis tal como a encontramos em certas actividades".





Quando o entrevistador lhe pergunta se não será exagero falar de "ciência" responde: "O pensamento selvagem não é filho do acaso. Os motivos que o inspiram são verdadeiramente científicos, se é verdade que a ciência implica um desejo de conhecimento só pelo prazer de conhecer, uma vontade vocacionada para a observação e que dirige todos os seus esforços para a classificação.
O conhecimento zoológico e botânico de certas populações ditas primitivas cobre centenas se não milhares de espécies, distingue variedades e sub-variedades..."
Aluna de Letras, fiz Etnologia Geral e Antropologia, apesar de estar no curso de Filologia Românica: escolhi-as como cadeiras de opção. E lembro bem a capa do livro "La pensée sauvage": uns amores-perfeitos. Associo-a ao meu pai porque foi ele que mo deu. Nessa altura "descobri" que era também esse (la pensée) o nome do amor-perfeito.
E penso agora nos amores-perfeitos selvagens, do campo, les pensées sauvages, que o meu pai tanto gostava de colher: iguais aos outros dos jardins, mas pequeninos, e, se possível, ainda mais delicados apesar de "selvagens"...

Hoje Le Monde dedicou cinco páginas a esta figura notável de historiador, Mestre de antropologia, etnólogo, homem de cultura, criador...
Cito uma passagem da bela "editorial" de Eric Fottorino, director do jornal:
"Adepto do "olhar distante" ("Le regard éloigné" é o título de um livro publicado em 1992) para melhor abranger a espessura do real, Lévi-Strauss disse, muitas vezes sozinho, verdades duras. Em especial que o outro, porque é diferente, não é inferior. Que a diversidade não pode justificar a desigualdade. Que "le barbare, c'est d'abord l'homme qui croit à la barbarie". Que o olhar etnocentrado, ou tecnocentrado, confundindo progresso material e civilização superior, é uma falta (falha) do espírito, um excesso de si-próprio. A sua obra oferece um antídoto ao racismo et aux preconceitos. Lévi-Strauss terá conseguido este equilíbrio tão precioso quanto precário, que vê o próprio do homem no que ele tem de comum com todos os homens para viver juntos, corrigido pela diversidade das culturas, sem a qual desapareceria a riqueza das minorias, sal da terra humana".
Haveria tanto a dizer... Limito-me a saudar a estrela gigante que, em 30 de Outubro, caíu ... mas que ontem, hoje, e sempre, vagueia e vagueará pelo céu estrelado, alumiando esta terra que amou na diversidade das suas culturas...
***********************
Algumas datas da sua vida:
1908: nasce em 28 de Novembro, em Bruxelas
1931: Curso de Filosofia
1935: partida para o Brasil e primeira investigação sobre os Bororo e os Caduveo
1939: a Guerra, é mobilizado, reintegrado no ensino e depois afastado, pelas leis anti-judaicas
1941: partida para os Estados Unidos
1942: curso de Etnologia na Escola Livre dos Altos Estudos de N.Y.
1948: regresso a Paris e defesa de uma tese, na Sorbonne: "Les Structures élémentaires de la parenté", publicada em 1949
1959-82: professor no Collège de France
1973: eleito para a Académie Française
1995: eleito Presidente de Honra da comissão instalada para elaborar o projecto de um Museu das artes primitivas
2006: assiste à inauguração do Musée du Quai Branly
2009: 30 de Outubro: morre em Paris
Títulos de algumas obras:

1952: Race et Histoire
1955: Tristes Tropiques
1958: Anthropologie structurale
1962: Le Totémisme aujourd'hui e La pensée sauvage
1971: L'homme nu
1973: Anthropologie structurale II
1983: Le regard éloigné
1985: La potière jalouse
1991: L'histoire du lynx
1993: Regarder, écouter, lire
1994: Saudades do Brasil
********************+
Legendas das imagens:
1. Quadro de Júlio Pomar
2. fotogafia de indios ameríndios
3. Lévi-Strauss, no seu escritório
4. capa de "Tristes Tropiques"
5. Lévi-Strauss, no Brasil (entre 1933-39)
6. capa de "La pensée sauvage"

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Ainda a tese sobre Raymond Chandler: pedido de correcção






Referi há dias um trabalho que se está a fazer na Faculdade de Letras da Universidade do Porto: um curso (mestrado) em Literatura Policial.
Ora, eu falei da tese de Mestrado da aluna Magda Barbeitos, mas tratava-se apenas ainda (o resto há-de vir...) de um trabalho de Seminário (O Policial na Literatura e no Cinema) da mesma aluna.
Não é importante: é um começo... no bom sentido, pois faz falta também quem saiba apreciar e falar, com preparação e sentimento, dessa literatura policial...

Recebi da professora que rege a cadeira, a Doutora Lurdes Sampaio, um pedido: aqui vai...
"Peço-lhe uma correcção: trata-se de um trabalho final de seminário e ainda não da tese de Mestrado. A Magda vai fazer a tese comigo (já sou a orientadora oficial), mas ainda não se decidiu pelo tema em concreto (ou autores). O prazo começa a contar agora e tem um ano para a escrever – ou mais, se decidir pedir prorrogação."

domingo, 1 de novembro de 2009

Sakamoto em Londres: a curiosidade, o aborrecimento e a paixão pelo piano...





"Sakamoto? Mas quem é Sakamoto?", perguntarão alguns...

Pois, Sakamoto é Ryuichi Sakamoto, o compositor de músicas inesquecíveis, o grande intérprete de piano. E um actor, como veremos...

Em Londres, agora, deu uma longa intervista.

Fala do piano e do seu album "Playing the piano" e da sua curiosidade por tudo que logo leva ao cansaço por tudo...

Em "Playing the Piano", Sakamoto volta atrás, recorda e parte: para o reviver de certas emoções, velhas músicas suas, coisas íntimas.

Assim, Sakamoto reinterpreta, ao piano, algumas peças conhecidas do seu repertório, muitas delas famosas músicas da banda sonora de fimes como:
"Merry Christmas, Mr. Lawrence", "The Last Emperor", ou a velha canção, o solo "Thousand Knives Of".

O músico explica a razão pela qual decidiu fazer este disco: no fundo um "remake" de velhos êxitos.
"Por quê?", perguntam-lhe:
"Não... Não é uma ideia nova, coisa que me tenha aparecido assim de repente... Para mim é a maneira de tocar as minhas canções em directo. Além disso, posso dizer que a maior parte destas músicas foram ioriginalmente escritas para piano. Desde miúdo (aprendeu a tocar piano aos três anos) que é o meu instrumento. O piano é uma parte da minha vida... parte de mim próprio.
Adoro-o!"

Mais adiante:

"Aborreço-me com facilidade, por isso é que, ao longo da vida, experimentei todos os géneros de música."

Tudo o interessa, de Beethoven aos Beatles... Continua:

"Quando alguma coisa me interessa, corro velozmente...mas com a mesma rapidez me canso. Refiro-me ao que é novo para mim, não para os outros... "
Actualmente, anda entusiasmado com a música barroca, escuta Bach, incansável:

"Pareço um miúdo..."

Diz que não há nada no mundo que, potencialmente, lhe não interesse.
Menos as canções. Curiosa "aversão" para um músico, nascido no século XX.

"O que quero dizer é que, para mim, a música e a letra são dois elementos totalmente diferentes. Pienso que a música está primeiro que tudo desenhada por sons... Na Yellow Magic Orchestra (grupo em que participou) quasi não púnhamos significado, sentido, nas letras. Eram prácticamente um sinal".

Com a Yellow Magic Orchestra, Sakamoto foi um dos precursores do uso de sintetizadores das técnicas de gravação digitais. Pegavam em elementos da tradición era como um desafio: justapondo temas sobre videojogos ou fogos de artifício.


No Japão eram tão famosos como foram os Beatles. No resto do mundo revelaram-se aos olhos dos que viam a música japonesa como um jardim oriental, coisa exótica.




Breve biografia essencial:
Nascido a 17 de Janeiro1952, em Tokyo, Sakamoto aprende piano desde os três anos e, enquanto estuda, no Liceu, toca em bandas de jazz.

Os seus gostos musicais têm grande amplitude e, rapidamente, o "empurram" para tudo: qualquer tipo de música desde os Beatles a Beethoven ou a John Cage.

Foi também fortemente influenciado pela "avant-garde" cinematográfica arte que, muito cedo, o interessou. Estudou música electrónica na Universidade de Arte de Tóquio e, dois anos depois de acabar o curso, volta e cria o trio “techno-pop” o Yellow Magic Orchestra. (ver)

Os YMO tornam-se um grupo popular (de massa) e eles tornam-se stars conhecidas no seu Japão natal.

Enquanto participante do grupo dos YMO, Sakamoto grava o seu primeiro solo (1978) Thousand Knives Of.

Em 1980, o single intitulado "Computer Game" atinge os “Top 20” em Inglaterra.
Dois anos mais tarde grava com os B-2 Unit, e as enormes diferenças entre esses dois discos dá indicação nítida do eclecticismo que vai definir o seu trabalho futuro.
Depois do corte com os YMO, em 1983, Sakamoto prossegue sozinho a sua carreira, com sucessos artísticos e comerciais.

No mesmo ano sai o filme “Merry Christmas Mr. Lawrence” (Furyo, de 1983, realizado pelo japonês Nagisa Oshima, com o actor David Bowie e o próprio Sakamoto).

Seguem-se várias colaborações entre Sakamoto e David Sylvian, ou Iggy Pop, Tony Williams -no album de 1988, Neo Geo (fusão de música da Ásia e música clássica ocidental-, ou com David Byrne, com quem dividiu o prémio (Academy Award-winning de 1987), atribuído ao filme: The Last Emperor.

Outros trabalhos importantes nessa altura: a música do filme de Almodóvar “Tacones Altos”.
Aparece também o album de 1990 “Beauty” um sucesso que assinala o começo da "ligação" de Sakamoto com a língua inglesa – as vozes de
Brian Wilson (cantor dos Beach Boys) ou de Robbie Robertson - lembrar o disco "Gueffen": nascido em 1943, de mãe mohawok e pai judeu, R.R. esteve ligado a Bob Dylan, aos U2, e a Peter Gabriel. Sakamoto associa-se, pois com estes famosos cantores.



















Em 1993, regressa ao grupo da Yellow Magic Orchestra.

Reencontra os velhos amigos: o batedor

Yukihiro Takahashi e o terceiro membro, o “bassista” Haruomi Hosono.