sábado, 26 de dezembro de 2009

A Poesia e o Sonho: Coleridge e o poema "Kubla Khan: or a vision in a dream"



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Coleridge e o poema “Kubla Khan”

Gravura :"Visita de Marco Polo ao Imperador Kublai Khan"


The shadow of the dome of pleasure
Floated midway on the waves;
Where was heard the mingled measure
From the fountain and the caves.
It was a miracle of rare device,
A sunny pleasure-dome and caves of ice!”
****
Sim, são versos do fantástico, onírico e misterioso poema “Kubla Khan: or a vision in a dream. A fragment” (1797), do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), um magnífico, ainda que fragmentário devaneio lírico, que, segundo o poeta contou, lhe teria aparecido em sonhos, como uma oferta...

Aconteceu assim:
Em 1797 quando vivia em Somerset, em Exmoor, em casa do seu amigo Wordsworth e mulher, numa tarde de verão fumou ópio e adormeceu a ler uma passagem do Purcha’s Pilgrimage, que relata a construção do célebre palácio do Imperador chinês Kubla Khan (1215-1294), -o grande Imperador Mongol que conquistou a China e que
Marco Polo visitou-, em Shang-tu (Xanadu).
"A leste de Shang-tu, Kubla Khan erigiu um palácio, segundo um plano que havia visto em um sonho e que guardava na memória".

Quem escreveu isto foi o vizir de Gashan Mahmud, que descendia de Kubla.
Um imperador mongol, no século XIII, sonha um palácio e o edifica conforme a visão; no século XVIII, um poeta inglês que não podia saber que esta construção se originou de um sonho, sonha um poema sobre o palácio...”(in blog abaixo citado).

Ao acordar desse sono profundo, contou ao amigo que compusera em sonho umas 200 ou 300 linhas sobre esse tema. Sentou-se à mesa e começou a escrever os versos que formam o “fragmento”.
Tendo sido interrompido durante a escrita por alguém –“ a person from Porlock”-, ao retomar o trabalho, descobre que o resto do poema se lhe apagara na mente, desaparecera da memória...
Visões, uma cornucópia de imagens iridescentes, sugerindo outros mundos, o rio sagrado caindo com fragor numa fonte, o palácio do Khan, as cavernas, o “sunless sea”, o interior dos jardins paradisíacos onde surge a luz do sol, a cor.
E uma donzela...

Disso tudo, restam oito ou dez linhas dispersas, o resto dissipara-se “tal como as imagens na superfície de um rio para dentro do qual se atirou uma pedra...”, diz o poeta.


Curiosa, fui ler no “actual” manual de Literatura Inglesa (Oxford Concise Companion to English Literature) que actualmente me tem acompanhado, e que recomendo, consultei a net e encontrei alguns “blogs” interessantes.
No blog Afonso Henriques Rodrigues, li um “post” muito bem feito, de 26 de Novembro de 2008, intitulado “O sonho de Coleridge”:

"A leste de Shang-tu, Kubla Khan erigiu um palácio, segundo um plano que havia visto em um sonho e que guardava na memória".
Quem escreveu isto foi o vizir de Gashan Mahmud, que descendia de Kubla.Um imperador mongol, no século XIII, sonha um palácio e o edifica conforme a visão; no século XVIII, um poeta inglês que não podia saber que esta construção se originou de um sonho, sonha um poema sobre o palácio."

Lembro-me de ter lido o poema de Coleridge numa “Selecta Inglesa”, em Roma. A minha filha preparava nessa altura o "A level" de Inglês, no St. George’s School of Rome, e deu-mo a ler.
Estava entusiasmada e insistiu para eu o ler...

Hoje, quero trazer-vos um pouco do sonho de Kubla Khan –e de Samuel Taylor Coleridge, é evidente- , a pensar já no ano de 2010 e nos sonhos que gostaria que o Novo Ano vos (nos...) trouxesse...
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NOTAS:

(*) in blog citado acima:
"O poeta sonhou em 1797 (outros acham que foi em 1798) e publicou o seu relato do sonho em 1806, a maneira de glosa ou justificativa do poema inconcluso. Vinte anos depois apareceu em Paris, fragmentariamente, a primeira versão ocidental de uma destas histórias universais em que a literatura persa é tão rica, o Compêndio de histórias de Rashid ed-Din, que data do século XIV. Em uma página se lê: "A leste de Shang-tu, Kubla Khan erigiu um palácio, segundo um plano que havia visto em um sonho e que guardava na memória". Quem escreveu isto foi o vizir de Gashan Mahmud, que descendia de Kubla. Um imperador mongol, no século XIII, sonha um palácio e o edifica conforme a visão; no século XVIII, um poeta inglês que não podia saber que esta construção se originou de um sonho, sonha um poema sobre o palácio. Confrontadas com essa simetria, que trabalha com almas de homens e abarca continentes, parecem-me significar nada ou muito para as levitações, as ressurreições e o aparecimento dos livros religiosos. Que explicação preferimos? Aqueles que de antemão rechaçam o sobrenatural (eu trato sempre de pertencer a esse grupo) julgarão que a história dos dois sonhos é uma coincidência, um desenho traçado pelo acaso, como as formas de leões e de cavalos que as vezes configuram as nuvens. Outros argüirão que o poeta soube de algum modo que o imperador havia sonhado o palácio e disse ter sonhado o poema para criar uma esplêndida ficção que em si aplacasse ou justificasse o truncado e o rapsódico dos versos...


(**) A propósito de Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), e do poema"Kubla Khan, uma visão":
Em abril de 1796 Coleridge publica sua primeira colectânea, "Poemas sobre vários assuntos".
E, no final desse mesmo ano, escreve e publica "Ode ao ano que se vai".
Em 1797 começa a escrever "O velho marinheiro" e "Kubla Khan, uma visão".
(***)
Deixo-vos em companhia dos "Kublai Khan" (banda "thrash metal", formada no Minnesota em 1985):


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Conto de Natal, dedicado a todos os meninos como os "Musas" deste conto...


Deixo-vos hoje este conto de Natal que o meu pai escreveu, há tanto tempo...

Achei que era o momento de o pôr no meu "blog" e, assim, recordá-lo com mais intensidade, o seu sentido de justiça, a sua humanidade... Com ele, quero lembrar os amigos que desapareceram para sempre e que não estarão presentes neste momento de festa.

Mas o espírito deles há-de andar por perto: a nossa saudade irá buscá-los, um por um, onde quer que estejam, trazendo, também, o meu querido cão Zac entre eles...
E ficarão contentes por nos ver felizes...
O quadro maravilhoso de Leonardo da Vinci -que o meu pai venerava- vai fazer-lhes a eles -e a nós também- boa companhia.

Bom Natal, amigos desaparecidos!

Bom Natal, "Musas" de todo o mundo!

Bom Natal, meus amigos de hoje!



UM NATAL DISTANTE...
Feliciano Falcão


"Conheci-os na minha infância longínqua como companheiros de brincadeira. E, ora que ora, a sua lembrança com insistência me volta, numa presença violenta de emoções encadeadas.

E uma noite de Natal me acode nítida, passada com eles nesse tempo tão remoto. Tenho nos olhos tudo, como se fora hoje.

A noite, bela e ríspida, com estrelas e luar, - um luar de brancura líquida a envolver a atmosfera. Na minha rua, na periferia da cidade (chamo-lhe minha, tantas recordações duras e doces que ainda guardo e por elas modelei esta personalidade simples), era um silêncio rústico quase total.
Todos recolhidos, uns, poucos, na unção da grande Noite, outros, a maioria, exaustos e mergulhados num sono fundo, sedante para as frustrações do dia adia... Na minha casa – lar modesto de camponeses transplantados para a cidade- onde os dias eram uns iguais aos outros, numa suave monotonia, gozava-se um interregno de Felicidade.


Meu pai, de olhos azuis e a bondade estampada no rosto, sentava-se, absorto, num banco a um dos cantos da lareira, olhando os grossos tições vermelhos. Minha mãe ocupava o outro canto numa cadeira de bunho, tirando da caçarola com o azeite fumegante as filhós encarquilhadas. Nós, eu e os meus irmãos- ficávamos entre ambos, exultantes e suspensos, num banco rústico, baixo e comprido.
Pela chaminé caíam flocos de fuligem sobre o lajedo da lareira. E sentia-se lá fora um vento fino que mais avolumava o senso de conforto da nossa casa pobre.
Nem o meu pai leria naquela noite o folhetim ingénuo do Notícias que o comovia até às lágrimas. Nem a minha mãe levaria o serão ponteando meias como era seu hábito.

Em roda tudo era mágico e prenhe de pulcritude, grato à imaginação infantil. Ali vivíamos esses momentos da Noite com uma simplicidade como a dos tempos bíblicos.

Mas esse contentamento puro de uma família simples (só as almas simples e as crenças podem ter contentamentos puros, integrais) em breve foi perturbado por plangência arrastada, cada vez mais próxima, vindo das costas da rua, para as bandas do jardim.
Um soluço de tonalidade infantil com intermitências agudas que punham frémitos nas nossas mentes incipientes. Vidas em botão, sós no mundo, ao deus-dará, sem um amparo, por flébil que fora, os “Musas” faziam o triste deambular costumado, a pôr uma obnumbração na Noite festiva e bela.
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Da mãe só tinham uma memória esfumada. O pai, sob o jugo de uma vida sem grandeza, conformado, umas vezes aqui, outras ali, pária em instabilidade pecuniária crónica, continuava nos filhos quase na origem o seu fado sombrio.

(Há certas vidas cínzeas dos homens de pura irracionalidade e adensada torturação. Se tudo lhes é negado e nem o vegetativo satisfazem. Ai, esta ladeira de ascensão para o justo e para o perfeito onde os seres e as coisas se nos espraiam até o âmago, dá-nos outro alento e um vigor novo!)
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E assim os “Musas” encetavam no mundo logo à nascença um drama dos mais tristes. Sujos, cheios de parasitas, descalços e rotos, metidos em calças compridas safadas, cobertos de sacos velhos, os vimos nestes dias invernosos, sempre juntos, semelhando dois irmãos siameses.
Um, o mais velho, seria da minha idade (João, onde estás?), de um castanho acobreado, de olhos grandes, era o professor do irmão, ele tão necessitado de protecção também. O outro, fino, linfático, de cabelos louros, parece-me agora de longe um bambino de Fra Angelico...

(O frágil bambino de Fra Angelico, na "Adoração")

Quantas vezes, quantas, corri com eles a avenida florida, primaveril, num viver despreocupado de almas pequeninas! E quantas, pela madrugadea, eu os sentia já vagueantes, acordados ao toque da alvorada do Quartel e à hora do almoço, dia após dia, de volta da Escola os encontrava à porta da parada metidos na bicha intérmina (uma fila heterogénea de corpos lassos, homens, mulheres, crianças) cada um com a sua lata ou panela a mendigar as sobras do rancho!
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E foi assim que a noite cheia de luar me tirou o terror todos e o primeiro anseio de solidariedade nasceu em mim naquele transe. Procurei na arca uma bolsa de chita onde meti uns nacos de pão e um bocado de toucinho também. E juntei, ainda quentes, filhós e azevias.
Fugi a porta fora com o asssentimento comovido de meu pai, de minha mãe, e o pasmo de meus irmãos, e, banhado de luar, sem medo (que o tocar lúgubre da corneta do sereno nem nessa noite se ouviria) tomei, rua abaixo, o rumo do recanto onde pernoitavam os “Musas”.

Lembro-me ainda das janelas iluminadas da casa do vizinho em frente, onde viviam duas donzelas bonitas (Oh! As coisas impuras que desencantam!: Mais tarde vim a saber como a corrupção minava a face folgazã daquele homem abominável), e de um romântico enamorado, de fato negro, encostado à parede, cor de cera, héctico, morrendo aos poucos com pulmões lacerados, a olhar a namorada também héctica, lá, muito alta, inacessível.

Na cidade, muitas luzinhas em emulação pálida com as estrelas e, ao cimo, a ermida de S. Cristóvão e o pinheiro esguio furando para o céu, persistente, como uma prece estéril.

Ao dobrar da esquina havia um recôncavo na parede da igreja e ali estavam os meus amigos abraçados uma ao outro, gelados, num choro monocórdico, cobertos com sacos esfarrapados por onde espreitavam as estrelas.
E eu sentei-me no chão frio, comendo com eles o que levava na minha bolsa.
Ainda sinto, a tantos anos de distância, o sabor daquele pão comido com os “Musas” sob o Céu mágico dessa noite de Natal.
Por isso, este, porque outros “Musas” sempre vivem, deu-me desde esses tempos distantes uma atitude de recolhimento e de amargo inconformismo."

(in semanário “A Rabeca", nº 1413-1414, de 25 de Dezembro de 1946, pp. 3 e 8)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Boas Festas, Bom Natal! Lembrando José Régio...

(foto do blog Valandgui)
It's Christmas time...
Um poema de Natal de José Régio

NATAL

Mais uma vez, cá vimos
Festejar o teu novo nascimento,
Nós, que, parece, nos desiludimos
Do teu advento!
Cada vez o teu Reino é menos deste mundo!
Mas vimos, com as mãos cheias dos nossos pomos,
Festejar-te, ─ do fundo
Da miséria que somos.
Os que à chegada
Te vimos esperar com palmas, frutos, hinos,
Somos ─ não uma vez, mas cada ─
Teus assassinos.
À tua mesa nos sentamos:
Teu sangue e corpo é que nos mata a sede e a fome;
Mas por trinta moedas te entregamos;
E por temor, negamos o teu nome.
Sob escárnios e ultrajes,
Ao vulgo te exibimos, que te aclame;
Te rojamos nas lajes;
Te cravejamos numa cruz infame.
Depois, a mesma cruz, a erguemos,
Como um farol de salvação,
Sobre as cidades em que ferve extremos
A nossa corrupção.
Os que em leilão a arrematamos
Como sagrada peça única,
Somos os que jogamos,
Para comércio, a tua túnica.
Tais somos, os que, por costume,
Vimos, mais uma vez,
Aquecer-nos ao lume
Que do teu frio e solidão nos dês.
Como é que ainda tens a infinita paciência
De voltar, ─ e te esqueces
De que a nossa indigência
Recusa Tudo que lhe ofereces?
Mas, se um ano tu deixas de nascer,
Se de vez se nos cala a tua voz,
Se enfim por nós desistes de morrer,
Jesus recém-nascido!, o que será de nós?!

( in Diário de Notícias, edição nº 33 345, 25 de Dezembro de 1958)

Faz amanhã, dia 22 de Dezembro, 40 anos que José Régio morreu . Quis recordá-lo com um poema de Natal seu...

Música de Natal: Bing Crosby e "White Christmas": imagens e canção inesquecíveis


O Natal vem-me sempre à ideia com imagens de neve, pinheiros do Norte, a árvore de Natal com balões vermelhos, bocadinhos de algodão ou os sofisticados "cabelos de anjos" no meu tempo, hoje luzes coloridas ligadas à electricidade, no meu tempo velas verdadeiras -e era preciso estarmos atentos para não queimarem os bonecos ou o pinheirinho.
Recordo um Natal (foram vários, aliás...), passado em clima tropical, no meio do calor.
A temperatura era superior a 38 graus e a percentagem de humidade enorme, talvez 90%!
Em S. Tomé, quase na linha do Equador...
Fiz a minha árvore de Natal, como sempre e, da primeira vez, confesso que fiquei surpreendida ao abrir a porta da rua e sentir o bafo de calor húmido e os cheiros de África que vinham lá de fora, em vez do fresco dos natais anteriores: era a estação das chuvas, a mais quente do ano, e que dura cerca de oito meses.
Apenas as chuvadas súbitas refrescam um pouco os corpos. Quase nos apetece andar à chuva...
Vêm, às vezes, acompanhadas de trovoada, ao longe o ribombar dos trovões, mas, tal como chegavam, desapareciam num instante e voltava o sol escaldante.
Ainda hoje vejo o espanto dos filhos da Milly, e dela própria, do Sr. Semedo, da Nina e da Tina, a alegria nos olhos iluminados pelas luzinhas acesas, o contentamento com as prendas...
A Dáy, o Nini, o Maiquel de olhos bem abertos, a ver os balões, estendo os dedos para tocar nos fios prateados, espantados e a rirem-se.
E lá vinham as canções de Natal e o Bing Crosby, ou o Dean Martin, o Frank Sinatra, e as "eternas" músicas: "White Christmas", ou "Silente Night"...
Se tenho saudades?
Oh!, sim, muitas saudades...
Bom Natal!



sábado, 19 de dezembro de 2009

Sunderland, a Universidade, o porto, a indústria do vidro e a neve hoje...

Falo-lhes hoje de uma cidade no norte de Inglaterra que tem a particularidade de ser uma das maiores Universidades para estrangeiros no país...

Está situada na costa nordeste da Inglaterra tendo fácil acesso a toda a beleza dos campos da Inglaterra, e ao mar. Tem o rio, um farol, e o mar e os rochedos logo ao pé. Tem campos e campos verdes, relvados por toda a parte. A Universidade está situada perto do mar.


O nome de Sunderland deriva, provavelmente, de Sunder, o rio, e de "land" ( terra dividida pelo rio), terra que foi concedida ao Bispo Benedict, em 686 AC.

O porto de Sunderland tem mais de 800 anos de existência atrás de si, com uma “carta” que lhe permitiu o comércio marítimo desde 1154. A indústria continuou a crescer ao longo do rio, com docas que existem desde 1382.



A indústria do vidro estabeleceu-se cedo, trazida pelos Flamengos -chamados pela Igreja para virem embelezar o mosteiro, começando então essa indústria pela qual Sunderland ainda hoje é famosa.
Nevou ontem em Sunderland, como em muitos sítios com certeza, mas vi estas imagens de neve e aqui vos deixo um pouco dessa neve, do pôr do sol, do rio, da igreja.
Imagens que encontrei no blog arquivo-fotográfico. Espero que gostem...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

George Eliot e "O Moinho à beira do Rio"




Hoje, quando li a última página d’ O Moinho à beira do rio” e fechei o livro, estava comovida e as lágrimas vieram-me aos olhos.

Como, com certeza, terei chorado quando o li, adolescente.

Depois fiquei contente por essa emoção, contente ao ver que podia ainda comover-me com a sorte ingrata de seres –tão vivos como os vivos- criados pela pluma de uma grande escritora.
Seres tão verdadeiros que, com a vida deles, e por eles, ao longo das quase 500 páginas, me senti acompanhada.

Tom e Maggie, a infância feliz e despreocupada, os amuos, as zangas dele, irmão mais velho, a susceptibilidade dela.
Os “avisos do destino” –como diria Régio (é o título do III volume de A Velha Casa)- que se sucedem, a desgraça que vem, regularmente, bater à porta da família Tulliver.

Lá está o moinho, na confluência dos rios Ripple e Floss, rodeado de árvores, a pequena ponte, os botes ancorados ao lado, o bosque de Red Deeps, onde Maggie vai falar com o seu amigo Philip Wakem; e o rio Floss, de águas calmas, transparentes, ou encrespadas, ameaçando a cheia que todos receiam.
George Eliot descreve tudo tão bem, fixa os lugares, as pessoas, a passagem do tempo.
Faz-nos entrar logo no mundo desta gente: Maggie e os seus entusiasmos, a visita ao acampamento dos ciganos, as suas paixões.
Imaginamos facilmente a figura morena e atraente, tão fora da loira família Dodson, com os cabelos negros e revoltos, que a mãe desesperava de pentear...
Tom e a sua força de carácter, a teimosia - que raia a estupidez- que o não deixa compreender o feitio rebelde da irmã, as hesitações, as mudanças.

E os outros... O pai, a mãe, as aprumadas tias Gleggs, Deanes e Pullets (em solteiras, Dodson, irmãs da mãe) e os seus maridos.
Depois, a descrição e caracterização das figuras secundárias, da "sociedade" de St. Ogg -uma cidade de província, igual a todas no mundo, a observação, a cuscovilhice, as críticas impiedosas, a falta de generosidade no julgamento.

E, em contrapartida, a afeição do bom Bob Jakin, o amigo de infância, pobre e inteligente, que “segue” –e protege- os dois irmãos, fielmente, de longe, atento a tudo o que possa fazer-lhes mal.
Bob e a sua mulher pequenina e doce, a casinha junto ao rio, o cão Mumps que é bom, "melhor do que muitos cristãos", como ele diz a Maggie:
“Uma bela companhia, se é! Entende tudo e não incomoda ninguém. Meu Deus é bem bom ter um bicho caladinho que gosta da gente; ele há-de defendê-la...” E deixa-o ao pé dela, para a ajudar.

Tanto sentimento, tanta compreensão, tanta certeza na análise psicológica.
Um belo livro, sem dúvida, em que, desde o início, sentimos a tragédia que paira sobre a cabeça dos dois irmãos e ansiamos por que não chegue: aproxima-os, afasta-os até ao reencontro no fim...
Não, não vou contar a história! Procurem lê-la depressa!

Música: a voz maravilhosa de Dinah Washington, uma das Ladies do Jazz...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O policial "Olhos de Jade" e o seu herói - que não é o Corto Maltese de Hugo Pratt...


"Os Olhos de Jade", de M. J. Falcão



CAPÍTULO 9


No ferry que se aproxima de Newhaven, a sul da costa inglesa, um homem novo está encostado à amurada. Fuma nervosamente, enquanto olha o horizonte aproximar-se.
Alto, tem os cabelos ruivos, os olhos castanhos, e as olheiras fundas de quem não dorme há muito tempo.
-Que pesadelo!..., diz em voz baixa.
E continua, a pensar:
-“Como é possível voltar a casa e saber que está morta? Que não a posso ver... As ilhas dão-me azar. Da última vez, na minha ilha de África, perdi o meu pai, a minha infância...tudo desapareceu num momento... Agora, aproximo-me da minha terra, outra ilha, e vou encontrar a morte da minha mãe...”

Revia os espaços de África, o verde infindável da floresta na bruma, o mar dum azul sempre vivo, a chuva a bater no telhado da casa, as torrentes de lama vermelha descendo a rua na estação das chuvas. O jardim tropical e os frutos que lhe pareciam de todas as cores do mundo...
E a imagem da mãe, no seu vestido branco com papoilas, a segurar o chapéu de palha com uma das mãos, e as fitas vermelhas caídas atrás sobre os cabelos ruivos, os olhos azuis a brilhar, divertidos, parecia flutuar na frente dele, sobre as águas.
-Meu Deus! Como foi possível!? Ela não devia morrer!

Falava alto, sem dar por isso. Sacudia a cabeça mas as imagens não o largavam. Via os pais e a irmã no jeep atolado. Eles, miúdos, com o o Zurigo e o pai, a tentarem tirá-lo da lama, pondo enormes folhas de palmeira secas e duras, que lhes picavam as mãos, debaixo das rodas.
A mãe, agarrada ao volante, a rir-se. Depois, o fim desse mundo maravilhoso de espaços abertos, o corte tremendo e doloroso, a chegada à cinzenta Inglaterra onde nunca mais se sentira em casa. O fim da infância. Sem o pai...

-“O que é que eu vou fazer? Morreste, mãe, e a vida parou... Estamos separados para sempre? Calo-me. Como posso calar-me?! Aceitei já a tua morte?”

Sentia uma angústia enorme. Tinham-lhe vindo à memória uns versos de Hanoch Levin, que a mãe gostava de declamar:

Aceitar a morte?
sem gritos, sem protestos”?...

-“Sem me revoltar? Em silêncio, mãe?"
Sentia-se melhor, a protestar, a falar com ela...
- "Tinhas razão quando dizias que um dia iria aceitar a tua morte em silêncio...
-“Inelutável...”, lembrava-se de a ouvir dizer há tanto tempo.
- "E nunca mais nos vemos?", perguntava ele, ainda miúdo, revoltado, assustado.
- ...“Fica só o pensamento, a lembrança, mais nada...”

Ia recordando os versos:

Silent…meaning you did not rise,
did not rebel...
meaning you go this way,
I go that...”

-“Como posso deixar-te ir embora, sem protestar? Cada um para seu lado, como na poesia?. Separados para sempre... E recomeçar tudo do princípio... mas sem ti. Mais sozinho, o vazio à volta..."
Com uma das mãos tentava arrumar os cabelos despenteados pelo vento e pela maresia, segurando o cigarro apagado na outra.
Gritou, sem se dar conta:
-Não quero!
Encolheu-se dentro do duffle-coat, arrepiado, na solidão da manhã.

-“Parece mais frio que em Amesterdão! Ou será ideia minha? Será do cinzento do céu? Ou porque estou gelado dentro?...”

A costa aproximava-se, o movimento dos viajantes começara, ouviam-se vozes, os motores a aquecer. Dirigiu-se para o carro, sentou-se e ficou a olhar para o mar, à espera. Lembrava a irmã.
- “Pobre Joan, imagino o estado em que está...”

Recordava tudo. Soubera da morte da mãe pelo telefone. Joan chamara-o de Abidjan.
-“Michael querido, vou dar-te um desgosto enorme. Desculpa, tenho de ser eu a dizer-te, só eu é que posso... Uma coisa horrível...”
A voz dela suspendeu-se, por um instante, depois ouvira-a respirar fundo e dizer num arranque:
-“A mãe morreu...”
-“A mãe? Estás doida?!”
-“Morreu...”
-“Não é possível a mãe morrer”, pensara...
-“Foi há três dias. Só soube agora, telefonou-me o Gabriel. Já marquei o voo, parto amanhã à noite.”

Ele calara-se. Como se o coração lhe tivesse parado. Não conseguia perceber o que ela dissera.
-“Imaginação?! Pesadelo?”
Era um sonho aquela conversa. Um pesadelo do qual iria acordar...
"Não era possível!"
-“Michael, ouves-me?... “
-“Sim, ouço...”
Esforçava-se por articular os sons.
-“E não dizes nada?! Protesta, meu Deus!”
-“Não quero acreditar, não posso...
- "Michael!
-"Estou aqui, querida Joan! Ouço-te! Custa-me a acreditar... Dizes que a mãe morreu... Como?
A voz soava metálica, como se não fosse ele a falar. De repente percebeu que ela começara a soluçar, primeiro devagarinho, depois convulsivamente, sem conseguir parar.

-“Joan, Joan, por favor, não chores...”
-“Michael, não sei o que hei-de fazer. Tu vais ter comigo?”
-“Vou o mais depressa que puder. O Peter vai contigo?”
-“Não, tem estado a trabalhar fora de Abidjan.
Hesitou e disse:
- "Sabes, acho que certas situações temos que as viver sozinhos...
Engolia os soluços, queria mostrar-se forte, como sempre procurara ser.
-“És uma tipa dura”, gostava de dizer a mãe, a brincar.
Mas agora era tão difícil ser forte...

-“Como foi?! Como é possível que a mãe esteja morta? Não estava doente, não tinha nada!”
-“Não sei os pormenores. Sei que foi de repente, disse-me o Gabriel, e confesso que nem quis ouvir mais... Telefono-te de Brighton, sim? Vou precisar da tua força, Michael. Ajuda-me, por favor!”
-“Eu vou depressa ter contigo, Joan!”

Mais tarde, de Brighton, voltara a telefonar-lhe.
-“Ouve, Michael, tudo isto é muito esquisito. Dizem que foi paludismo, mas eu não acredito, não pode ter sido. Há coisas que me parecem estranhas... Sabes o que eu penso?
- Não...
- Que foi envenenada! Não sei porquê, nem sei quem foi...
-“Mas isso é um absurdo! Porquê a mãe?”
-“Não sei. Tenho as minhas razões... A mãe tinha-me escrito, estava assustada. Havia alguém que a quis matar, e conseguiu!”
- “Escreveu-te a dizer o quê?!”
- “Deixa, depois falamos. Tens que dizer que acreditas no que te estou a dizer!
- "Sim, acredito...
- "Oh! Michael, vem depressa!”
- “Vou, sim, Joan, tem calma... Espero estar aí o mais tardar no fim da semana.”

O barco abria-se como o ventre de um animal gigantesco. O mar cinzento agitava-se, violento, as ondas batiam com força no casco.
-“O Jonas devia sentir-se assim a sair de dentro da baleia...”

Tentava ironizar, mas sentia o rosto esticado no esforço de conter as lágrimas que com a água salgada lhe ardiam nos olhos e na pele.

E ali estava, quase a chegar a casa. De Newhaven seguira a estrada junto ao mar.
Em menos de meia hora estaria em Brighton e dali a Arundel era pouco. A casa ficava antes de Arundel.

Olhava a paisagem, via de um lado o mar, do outro as doces colinas dos Downs e lembrava os tempos em que fora feliz ali.
O que o aguardava? Qual o mistério que envolvera a morte da mãe? Ignorava. Sabia que Joan estava sozinha e precisava dele.

sábado, 12 de dezembro de 2009

A banda dos Digby Fairweather com Paul Jones em 2008












Aqui vai -com uns minutos de atraso- a Meia Dúzia dos Jazz Band "Digby Fairweather" e o cantor Paul Jones (em concerto de 2008...) que ontem tive o prazer de ouvir no Ronni Scott's Club Jazz, Londres, em boa companhia...


Para quem estiver interessado em conhecer melhor o que é o "Ronnie Scott's" aqui vai a explicação que encontrei, dada pelos próprios.



We are one of the oldest jazz clubs in the world. We opened in 1959 and since that time have featured most of the legendary and popular names in modern jazz and jazz fusion. The club officially reopened on Monday 26th June 2006, after 3 months of refurbishment. We look forward to welcoming you to the new Ronnie Scott's!

Ronnie Scott's Club Jazz, em Londres: Paul Jones (ex-Manfred Mann) e a banda de Jazz Digby Fairweather









Paul Jones (the Manfreds, The Blues Band, and RADIO 2) em concerto com os half dozen (Meia- Dúzia) dos Digby Fairweather no velho Ronnie Scott's o histórico Club de Jazz de Londres (fez este ano 50 anos...) num novo show ’ROCKIN’ IN RHYTHM.’



O novo album do grupo vai ser lançado ainda este ano...

Paul Jones tem ainda uma voz maravilhosa e a jazz band dos Digby é inesquecível, pela qualidade, empenho, fantasia!

Deixo-vos o pouco que encontrei e recordem Paul Jones nos Manfred Mann...

Enjoy!!!!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Sherlock Holmes, o amigo da porta ao lado...



















Sherlock Holmes o amigo da porta ao lado

Saíu em Londres este ano a edição das obras completas de Sir Arthur Conan Doyle com o título “Sherlock Holmes”. A editora é a famosa Penguin Books, a colecção The Penguin Complete, e o Prefácio/apresentação é de Ruth Rendell, escritora de romances policiais inglesa de quem falarei em breve.

Curiosa, fui ver o que ela dizia.

Começa assim:


A fama definitiva de um autor e da sua criação é atingida quando a figura representada na ficção é vista pelos leitores como uma pessoa real.
Mais do que isso: quando a sua aceitação for feita sem pensar nem reflectir, mas aceita, simplesmente. Essa criação é tão convincente, a sua personagem tão cuidadosa e profundamente desenhada, as suas maneiras e hábitos, as propensões e virtudes tão bem definidas, a sua aparência tão fielmente descrita que o leitor tem poucas dúvidas de que se trata realmente de um ser humano vivo.”
E acrescenta Ruth Rendell:

O Pickwick de Dickens foi isso mesmo e penso que Shakespeare e o Falstaff de Verdi o são também. Mas poucos chegaram tão perto de merecer a absoluta confiança na sua existência como Sherlock Holmes.”

Sherlock Holmes bem vivo, o nosso conhecido, o amigo da janela ao lado...




No momento em que vai sair em Londres (e nas outras capitais europeias) o novo filme sobre esta figura inesquecível, penso que os leitores das maravilhosas histórias de Sherlock Holmes vão ter muito com que se entreter neste Natal...




Intitula-se "Sherlock Holmes" e é a nova adaptação, para o grande écran, da famosa personagem de Sir Conan Doyle do mesmo nome e do seu inseparável amigo, Dr. Watson.





O realizador é o inglês Guy Ritchie. Anthony Peckham e Simon Kinberg assinam o guião, baseando-se numa história cómica de Lionel Wigram e nas próprias personagens de Conan Doyle, apresentando um retrato completamente novo do famoso detective.
Os papéis principais pertencem aos actores Robert Downey Jr. (Sherlock Holmes) e Jude Law que será o John Watson. Terá ainda a actriz Rachel Mc Adams no papel de Irene Adler, o único amor de Holmes.

O filme vai ser apresentado, nas salas, em Londres, em 25 de Dezembro de 2009.

A publicidade é imensa, chegando ao ponto de haver na estação de Metropolitano de Baker Street –saída para a famosa rua onde morou Sherlock... - uma figura de cera em tamanho naturl, representando o detective sob os traços do seu novo intérprete.



Pessoalmente, penso que não terá nada a ver com a figura única de Jeremy Brett representando Holmes: dificilmente se recuperará a identificação, compreensão e inteligência da actuação deste grande actor, numa simbiose total...

Vejamos este Sherlock cómico, com ares de cowboy...
Não conheço nenhum livro de Lionel Wigram, não vi o filme por isso nada posso acrescentar, a não ser que só sei que é L.W. é americano e escreve livros cómicos...

Será Sherlock Holmes e o Far West?....
Let it be!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Histórias da Casa Amarela: o valete de paus e outras figuras da minha rua...








Vivia também, mesmo ao lado da nossa casa, um velho senhor, o lavrador da Mesquita, a quem chamavam “o valete de paus”, que me metia medo.
Era um homem magro, muito moreno, empertigado, com um pescoço esquelético a sair da gola da camisa branca, que parecia faiscar a meio do colete preto com alamares brilhantes e das calças negras de onde saíam umas pernas fininhas entaladas nas botas.
Usava um chapéu também negro, cortado a direito, como vira em certos cavaleiros nas touradas. Tinha uns bigodes brancos e esticados na cara severa, e uma varinha na mão.
Chegava a cavalo, ou guiando um carro. Quando estavam as janelas abertas, ouvia o barulho dos cascos e das rodas desde o fundo da rua, mas muitas vezes só dava por ele quando já estava abrir o portão verde-garrafa que dava para um quintal enorme com laranjeiras e limoeiros, que ficava mesmo detrás da minha casa.
Via-o da janela do quarto dos meus pais, no primeiro andar, e da janela da cozinha, lá em cima. A casa, ao fundo, parecia-me sempre vazia, com as portadas de madeira fechadas e não me lembro de lá ver ninguém. Só o cavaleiro vestido de negro...
Às vezes, ouvia na cozinha conversas sobre ele, diziam que tinha “amigas” na cidade e que a mulher era infeliz e preferia estar na herdade. Eu não conseguia perceber por que razão a mulher não gostava das amigas dele.
"É tão bom ter amigas"..., pensava. Mas havia qualquer coisa de misterioso e sombrio naquela personagem e nas suas aparições, e sei que não gostava dele.

Quando começavam os dias de Inverno, passava à porta o homem do picão com uns sacos enfarruscados, no dorso de um burro cinzento de olhos doces. Atrás, vinha a mulher com um molho de carqueja às costas sobre uma serapilheira, apoiando-se num pau que lhe servia de bengala.
Eram muito velhos e muito pobres. Custava-lhes a subir a rua inclinada. Ele ia repetindo um grito, de tempos a tempos, um pregão monótono e fraco, enquanto passavam:
- “Quem merc’ o picão?!”
Descia cá abaixo com a Florinda a comprar o picão para acender a braseira, e uns raminhos de carqueja que cheiravam às giestas e urzes da serra. Sei que se usavam par pôr no coelho manso, para lhe dar um gosto bravio...
Ficava a espreitar, a vê-los, cheia de pena e escondida atrás da Florinda, sentindo-me protegida de tudo ao lado dela.
Lembro-me da cara enrugada que ele tinha, suja do carvão, e dos olhos vermelhos a lacrimejar, do sorriso sem dentes.

Vinha a nossa casa, por essa altura, a senhora Leonilde que trazia as perdizes ao meu pai, na época do defeso.
O meu pai comia quase sempre sem apetite, mas gostava muito de ovos de todas as maneiras, e de perdizes...
O marido dela era caçador furtivo, para mim uma personagem estranha que imaginava, no meio do nevoeiro, com a espingarda ao ombro, ou apontada a uma lebre e fazendo quebrar de repente o voo rápido das perdizes.
Ouvia o bater de asas flébil, a queda, que me comoviam sem ver.
Não o conheci, nem nunca o vi com ela.
Ela chegava embrulhada num xale preto que cheirava a chuva, a fumo de lareira e a campo e que lhe cobria a cabeça e o corpo.
Tinha um riso desagradável, rouco, que me parecia falso e não gostava de a encontrar quando subia as escadas.
Pensava sempre que, debaixo do xale, escondia as perdizes mortas, que, depois de ela se ir embora, via em cima da mesa da cozinha, com as patinhas vermelhas pousadas em cruz, ou algum coelho pequeno com as orelhas caídas e o pêlo suave que tinha vontade de acariciar e não era capaz.
Fugia à frente dela, sem a querer ouvir, quando me falava.
Também ela me assustava.
Lembrava-me do voo das perdizes, ali, agora, de olhos fechados, que ela trazia mortas.

Música: the good old times? Ou hoje ainda? Sim: Cat Stevens e "Wild World" são sempre um prazer ouvir...






segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Histórias de 4 Mulheres: A História de Susie H., a quarta mulher...















Susie, Gelsomino e Pizzy, à esquerda; eu e o meu cão Zac, à direita, no Jardim Ben Gourion.

A história de Susie H.

Há sítios que não se esquecem, pela força que têm, pelas marcas que deixam, pelas situações que neles se vivem, ou, ainda mais importante, pelas pessoas que se encontraram.
Por isso, Telavive, onde vivi cinco anos, me vem sempre à memória.
A vida em Telavive era vivida de modo intenso, como se houvesse a consciência de que cada minuto era precioso, cada dia único, porque, ali, se sentia mais do que noutros lugares, que a vida não dura sempre, ao contrário dos famosos diamantes do 007; é um momento efémero, um sopro, uma passagem, como diz o Salmo 39, e nem sempre e fácil encontrar um sentido para essa fragilidade e precariedade da vida humana


Em Telavive, ao viver-se o momento que já passou, espera-se que outro venha, igualmente intenso porque igualmente precário...



Ali conheci pessoas, vi algumas vidas dilaceradas, senti dúvidas, surpresas, esperanças.
Vou contar a história de uma pessoa que conheci bem, Susie , cuja vida sai fora de tudo o que se possa imaginar.




Costumava ir de manhã com o meu cão, ao jardim da Sederot Ben Gourion. A essa hora limpavam o jardim com longas vassouras metálicas, e ouvia-se o arrastar das folhas, sobre a areia.

Virávamos às vezes para o lado da Rehov Hayarkon e atravessávamos o pequeno viaduto que conduzia à Kikar Atarik, a praça, para ver do alto das escadarias o mar espreguiçando-se ao longo da Promenade. Depois voltávamos para trás até à esquina da Ben Yehuda.
Havia sempre pessoas a passear os cães, muita gente nova, conversávamos, e o meu cão adorava aquele passeio porque também ele se divertia.

Numa dessas manhãs, vi chegar uma senhora, de alguma idade, figura pequenina, frágil, com um olhar vivo, que andava virando a cabeça para todos os lados, curiosa, enquanto ralhava com os dois cães que levava pela trela.

- Gelsomino, non fare questo! Lascia la Pizzy! Vieni qua...

Gelsomino quer dizer “jasmim” em italiano, ora eu tinha vivido muitos anos em Itália e essa melodia da voz dela fez-me bem. Além disso, chamar jasmim a um cão achei que era uma ideia poética e muito especial...

Estava em Telavive há uns meses, não sabia ainda hebraico, recorria ao inglês e ao francês para comunicar e ouvindo aquela língua tão minha conhecida parecia-me quase impossível depois de tanto tempo.
Decidi ir ter com ela...
Era de facto uma pessoa especial! Conversámos uma, duas vezes, encontrámo-nos frequentemente no passeio dos cães, fui a casa dela passar o serão, e ficámos amigas. Amizade que se foi aprofundando, crescendo. Ainda hoje nos escrevemos, ela em Paris há uns anos, eu onde quer que esteja...

Era uma mulher culta que, pela agitação da vida que fora a sua, falava oito línguas! E tudo a interessava, tudo queria estudar, tudo criticava nem sempre com a devida justiça.
A nossa amizade foi-se cimentando, como disse.

Eu contava-lhe coisas da minha vida em África, ela falava-me dela, dos filhos. Um vivia na América, casara, tinha uma filhita, a outra vivia no Japão porque se apaixonara pelo professor de japonês na Universidade, pela cultura japonesa, e fora para lá viver.
Tinha uma relação muito complicada com essa filha, Leah, que adorava. Relação de ódio/amor, prepotência e ressentimento, por parte da filha, e sentimento de culpa de ambas.
Comecei a conhecê-la melhor, o seu feitio difícil, contestador, duro. A aceitar as suas mudanças de humor, a generosidade e, logo, a vontade de agredir, a impaciência, como se alguma coisa a espicaçasse dentro. Eu sou uma pessoa calma, ouço, e comigo ela entregava-se um pouco, confiada.

Ouvi-a.
Ouvi-lhe as queixas da sua Leah, o sofrimento da incompreensão mútua, e dava-lhe um pouco de mimo.
Era uma mulher torturada, marcada.


Um dia abriu-se mais e, levantando a manga da blusa (só depois reparei que usava mangas compridas até aos pulsos, mesmo de Verão), mostrou-me o braço.

Na parte de dentro, na pele muito branca, tinha um número tatuado, em caracteres pequenos mas que se viam bem.
Ergui as sobrancelhas, numa pergunta muda.

Respondeu simplesmente, numa voz neutra, controlada:
- Estive em Auschwitz... Dos doze aos catorze, quinze anos, estive em campos de concentração.
Arregalei os olhos, sustive um pouco a respiração, mas não consegui dizer nada em resposta.

O que poderia dizer? Que palavras existem para querer interrogar, saber mais? Com que direito?
Deixei que ela falasse, e ela continuou com o mesmo tom impessoal com que começara a conversa:
- Eu, os meus pais e a minha irmã mais velha.

- Como foi possível, Susie?, gaguejei.
- Vivíamos na Polónia, numa pequena cidade onde o meu pai era médico. A minha mãe ajudava-o no consultório. Nos as duas estávamos a estudar no liceu quando a Guerra começou. Depois, os alemães chegaram...

Sem querer, eu ia imaginando a cena, como nos filmes: a chegada das tropas alemãs, as brutalidades, as coronhas das espingardas, o espanto e o medo nos olhos, os comboios onde os judeus eram metidos como gado. Sim, já tinha visto isso tudo!
Mas ela? A Susie que eu conhecia? A minha amiga? Como podia ser?

“Esta” figura era de carne e osso, estava ali ao meu lado, era como nós, eu, a minha família... Uma como eu, como as pessoas que eu conhecia e de quem era amiga...
Olhava para ela, via os seus cabelos branco muito curtos, aos caracóis, que lhe davam uma aparente doçura, os óculos redondos de aros finos.

Com um olhar provocador e um sorriso forçado, ela continuou:
-Tinha doze anos e a minha irmã dezassete. Ficámos dois anos nos campos de extermínio. Primeiro, estivemos num campo de trabalho, numa fábrica de armas. A ironia da sorte, viste? Estávamos a fazer armas para eles nos virem bombardear, e matar a todos!
Sim, como tudo era absurdo!, pensei.
Mas, e ela?
- E tu, depois? Os teus pais? A tua irmã?

Sabia, como todos sabemos, a separação impiedosa das famílias, lá me vinham as imagens de tantos filmes, as barracas, o frio, a neve, a dor...
- Conseguimos ficar todos juntos, quase um milagre... O meu pai servia-lhes, era médico, podia ser útil, como os químicos ou engenheiros e outros que tivessem “utilidade” prática. A minha mãe fingiu que era enfermeira... Enfim. Isso ajudou-nos...

O principal era deixá-la falar, pensei.

- Tu não podes imaginar, Maria, dizia-me, como se adivinhasse as imagens que eu ia vendo passar na minha cabeça... Ninguém pode calcular! Fico toda arrepiada só de olhar para o braço...
Depois, olhava-me com o ar irónico de sempre, abanando a cabeça, desta vez triste.

- Ninguém...
Do primeiro campo seguiram para outro, a situação nos campos era cada vez mais dura, inumana. Até que acabaram em Auschwitz.
Lembrava a chegada, o choque, as mulheres nuas à sua roda, com a cabeça rapada, os duches...
- A fragilidade das mulheres... Nuas, sem defesa... Não consigo esquecer o sangue que corria pelas pernas de algumas delas, como fios finíssimos, na pele muito branca... Esta imagem persegue-me! Os braços tatuados eram uma parte só...

Repetia, agitando o corpo todo num arrepio:

- Ninguém pode saber. Tão desprotegidas!

Ela era minúscula com os seus doze anos, magríssima, contava, e a mãe ia conseguindo escondê-la nos sítios mais improváveis, abandonando-a como morta durante as deslocações, à beira da estrada, e conseguindo carregá-la às costas, escondida numa trouxa de roupa, em aventuras cujas peripécias parecem irreais.

Dizia-me sempre, enquanto ia relatando aquele horror:
- Quem me salvou foi a força da minha mãe... Deu-me a vida duas vezes!

No final, foram levados para a Suécia, o governo sueco recebeu na altura muitos desses sobreviventes. Estudou lá, casou com um judeu egípcio, seu colega, e foram viver para Milão. Era feliz. A vida parecia voltar a ter sentido.
Nasceram os filhos, Leah a mais velha e John.

Mas um dia, o marido, ao levantar-se da cama, teve um aneurisma cerebral e morreu...

Para Susie o pesadelo recomeça: mergulha numa depressão profunda, ignora os filhos, abstrai-se de tudo, tenta suicidar-se várias vezes.
- Louca..., dizia
Entra e sai em várias casas de saúde e não melhora. Falava-me do "litium" que passara a tomar, sem nunca parar.

- A minha droga para esquecer... Tudo voltava na minha cabeça vazia, tudo se misturava outra vez...

A irmã levou-a para Telavive onde passara a viver, pensando que naquele país novo, ainda a crescer, pudesse encontrar alivio entre outros que como ela tinham sofrido.

Mas não foi isso que aconteceu. Ou, pelo menos, não logo...

Deborah, nessa altura com doze anos passou a ser a sua enfermeira.

- Querida filha! Vivia como uma mulher crescida e "io ero la sua bambina..." Não esquecia as pílulas que eram a toda a hora... Vinha da escola, acordava-me, fazia-me engolir o remédio, dava-me leite, tomava conta do irmão, ia às compras, e eu dormia, dormia...

Punha um ar humilde, atitude estranha nela:
- Não me perdoo, percebes, Maria? Estraguei a adolescência dela... A minha filha nunca foi uma criança!

Pouco a pouco foi reagindo, contava, o tratamento deu algum efeito.

- Melhorei... E quando acordei, quis outra vez esquecer! Queria só viver a vida, de qualquer maneira, apaixonar-me, ir para a praia, brincar.

Riu um sorriso culpado:

- Voltei a casar... Como uma inconsciente...

Murmurava, baixinho:
- Povera figlia... Dei cabo dela...

- E o teu filho, Susie?
- O meu filho fugiu para a América, assim que fez 18 anos... Dizia que eu era sua sombra negra...

A esta conversa seguiram-se muitas outras, durante a minha estadia em Israel.

Havia, nessa altura, um movimento muito forte no país para se redescobrir esse passado, que fora escondido, como que “engolido” muitas vezes pelos próprios sobreviventes dos campos, na vontade de esquecer, de recomeçar tudo de novo, deixar para trás esquecidos, os fantasmas do tremendo vivido, do inominável.

Calaram dentro, fecharam-se no profundo silêncio das próprias almas, não contando nem aos filhos ou aos netos o que “lhes” acontecera a eles.

Escreveram-se livros, contaram-se histórias. Fizeram-se filmes. Mas o silêncio continuou dentro de muitos dos sobreviventes do holocausto. Incapazes de “pôr em palavras” os sentimentos, numa espécie de incredulidade incompreensível do que tinham vivido...

Agora, tentava-se fazer que essas bocas falassem finalmente, dissessem, ensinassem...
Susie foi convidada, muitas vezes, para ir contar o que me contou a mim, nas escolas, nas Universidades, e até junto dos jovens – e das jovens- soldados, nas casernas.
A sua história foi gravada como outras e juntou-se à recolha de testemunhos que Steven Spielberg filmou e gravou para serem guardados, enterrados algures, para sempre.
Para não se esquecer...
Recordo o olhar de Susie, vejo-a abanando a cabeça.
- Ninguém pode imaginar...

___________________________-
Nota:
1. Encontrei a fotografia de Susie,comigo... e os nossos cães, Zac, Pizzi e Gelso, em Telavive!

1. Auschwitz-Birkenau foi o maior dos campos de concentração da Alemanha Nazi que existiram durante a II Guerra Mundial e “esteve em funções” de 1941 a 1945.
O campo chama-se segundo o nome alemão da cidade de Oświęcim, onde foi construído.
A seguir à invasão da Polónia em Setembro de 1939, esta cidade foi anexada pela Alemanha Nazi e ficou com o nome alemão Auschwitz, nome alemão da terra. Birkenau, tradução alemã de Brzezinka, refere-se a uma pequena aldeia a cerca de 3 kms de Auschwitz que, mais tarde foi destruída pelos alemães.
O comandante do campo, Rudolf Höss (não confundir com Hess), testemunhou no Julgamento de Nuremberga (cidade da Alemanha onde es realizou o julgamento entre 1945-46) que mais de 3 milhões de pessoas morreram em Auschwitz.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Dickens, as Brontë, Austen, Makepeace Tackeray, George Eliot e os outros...










O céu plúmbeo de Londres, as casas escuras, ou cor de tijolo listradas, bem desenhadas por lápis de artistas, os muros com musgo cercando os jardins verdes, os arbustos carregados de bagas vermelhas quando o Natal se aproxima, as pontes, os parques...







Tudo me fez voltar à memória os meus velhos escritores ingleses! Com tanta saudade...
O Dickens, com certeza o primeiro que li e adorei: "Contos de Natal", "David Copperfield", “As aventuras extraordinárias do Sr. Pickwick” que me faziam rir tanto e me deram a ideia completa do que era um verdadeiro “club” inglês, e o que era afinal o humor inglês...
Depois, creio que a seguir veio Jane Austen, lida e relida durante os anos da minha adolescência. Estava lá tudo, penso hoje.
Imaginava os interiores, os campos, as relações humanas, as diferenças sociais, a generosidade e a sensibilidade, os sofrimentos amorosos, os ódios, as ofensas, o orgulho, sim, tanto orgulho. Confesso que fui sempre orgulhosa e encontrava em muitas personagens uma pessoa como eu, sentia-me acompanhada.
Charlotte Brontë e a sua maravilhosa “Abadia de Northanger”, “Villette”, para não repetir o lugar comum que “Jane Eyre” é um romance único! É...E a irmã dela,a grande Emily e o seu tortuoso “Monte dos Vendavais”, que me chegou a meter medo, antes de começr a sofrer depois por causa do sofrimento das personagens...
George Eliot e “O Moinho à beira do Rio”, que hoje releio: as desventuras da pequena Maggie e da família Tullinger. Eliot uma mulher fantástica, culta, conhecedora profunda das ciências e da Matemática, que escolheu um nome de homem para assinar os seus romances porque sabia que à mulher não era ainda possível (permitido?) ser considerada um escritor...
Lembro de facto a surpresa do editor de Charlotte Brontë quando, depois de ter considerado o seu “Jane Eyre” como digno de publicação (ela assina com um nome de género ambíguo -que podia ser o de um homem...), vê entrar no escritório, e chegar-se à frente da secretária dele, aquela mulher pequena e frágil, que diz ser a autora do livro!
Tackeray (William Makepeace) e “Feira das Vaidades” que “descobri” tardiamente, por nunca ter encontrado nesses anos anteriores uma tradução e não estava tão à vontade no inglês como hoje...
Aconteceu que, há poucos anos, me ofereceram uma edição linda, encadernada em couro azul escuro, com letras douradas e lá dentro os desenhos do próprio autor. Lá estava a Beckie, a Amélie... Como ele as "via".
Li-o devagar, como uma relíquia, poupando as páginas para o fazer “render” mais tempo, tão grande era o prazer que me dava...
Lia, só de manhã, ainda deitada (nessa altura dava aulas à noite...), uns capítulos e guardava a continuação para o dia seguinte, numa forma de suspense renovada, que, aliás, o autor procura suscitar ao leitor, no final de cada um...
O que iria fazer Beckie, a interesseira, a egoísta? Beckie, órfã de mãe, educada (? seria educação?) por um pai pintor falhado, inconsciente e bêbado que a leva para a taberna com os amigos.
Beckie que -como ela dizia- “não tivera uma a mãe para tratar de a casar bem”, ou casar “tout court” e que teve de tratar disso sozinha, e lutar pela própria sobrevivência, todos os dias...
Passando por cima de tudo e de todos...
Beckie que não é a heroína, porque o autor diz logo no começo que aquele é um romance “sem herói”... Mas que é, sem dúvida alguma, o “pivot” da história toda...