quinta-feira, 20 de maio de 2010

Viagens e olhares sobre as coisas... Salamanca


Andei por fora, há uns tempos, e passei por Salamanca. Há muito que lá não ia, tinha esquecido talvez a beleza, o equilíbrio, o peso da Universidade, da Cultura, da História?
Impressionou-me do mesmo modo. Bela e severa Salamanca, cor de areia e de pó. Feita de pedra dourada. De ruas estreitas e de praças abertas.
Escultura representando os arquitectos da Plaza Mayor, os irmãos Churriguera. Apanhados de costas...

Revi a Plaza Mayor. Imponente e harmoniosa. Na manhã de sol de um dia frio.

Salamanca com a sua Catedral Vieja, românica, com os seus góticos espalhados pela cidade, os barrocos, pesados e leves, ou as filigranas da fachada da Universidade...

O dia a dia de uma cidade do interior, isolada, fechada na sua grandeza. Religiosa e culta.
Salamanca. Passagem sempre inesquecível...
O dia a dia, o sagrado e o profano...

Deslumbrante ir ver a Catedral Vieja e as Capelas de Talavera, de Anaya, de Santa Catalina. O fantástico Museu da Catedral.
fresco representando Santa Catarina
A Catedral Nueva...O Patio de las Escuelas, naquela pequenina Praça, ao fundo da Calle de los Libreros. As Escuelas Menores, o Claustro, o colunato.
A Universidade. A mítica Biblioteca, fechada hoje, com o "céu de Salamanca" e os seus signos do Zodíaco que não verei portanto.
interior da Biblioteca da Universidade
Universidade, sala de aula Miguel de Unamuno
Salamanca.
Dentro, fora... Com chuva e com sol.
De noite e de dia.
Imagens que ficam nos olhos, momentos que fazem bem à alma sempre à procura, na insatisfação, na necessidade de absoluto que em todos há.
Um olhar que é só nosso, pensamos, aquele instante -aquela luz- que mais ninguém viu. Queremos "apanhá-lo" no seu momento efémero, inegualável, queremos "prendê-lo" de qualquer modo e lá vem a ilusão fotográfica, a máquina, o olho que nos segue e que perseguimos.


Realizava-se em Salamanca a 30ª Feira Municipal do Livro, este ano dedicada ao escritor Torrente Ballester (*), no ano do centenário do seu nascimento.


Ballester que nos olha, detrás dos óculos de lentes grosssas, céptico e sério, de bengala na mão, sentado no Café Novelty, debaixo das arcadas acolhedoras, em plena Plaza Mayor.
interior do Café Novelty, uma noite
Maravilhoso café dos anos vinte, trinta, ainda hoje cheio de cultura, de tempo, de lindos candeeiros arte nova, de quadros e de gente! Onde se diz que Ballester -e quantos mais?- vinha escrever e tomar café, claro...

E na "Feira do Livro", livros, livros, muitos livros!
Vi lindos livros para crianças, livros-objecto que se "tocam", que se têm ao colo como bonecos. Vi uma menina literalmente agarrada a um livro, a mexer nos bonecos com as mãozinhas, a ver o que era aquilo, a passar as páginas, a abrir as portinhas, espreitar para dentro, curiosa, com ar de querer mesmo ver, tocar, saber o que estava lá dentro... Modo inteligente de estabelecer a relação quase física, afectiva, que com um livro se deve criar.

Por isso, a internet nunca poderá substituir os livros, não poderá nunca dar aos leitores essa sensação de "presença", o prazer que se tem de virar as páginas, separar as folhas que se pegam, passar com a mão nas capa, marcar o sítio onde se vai a ler, com um lindo marcador (ofereciam alguns lindos), parar com os dedos espalmados sobre uma determinada página, a pensar, a suspirar enquanto se passa à seguinte...

Esse é o prazer físico de ler... Insubstituível.

Havia livros miniaturas, com todos os autores clássicos do mundo, a Bíblia, o Corão, as Mil e uma Noites, Dante e a Divina Comédia, poesias, romances, tragédias.

Confesso que quase comprei o "Dom Quixote" em dois volumes mínimos que cabiam os dois na minha mão fechada...

Depois pensei que ninguém -muito menos eu própria...- conseguiria ler as letras mais do que microscópicas, e desisti...

Estar ao pé de livros, vermo-nos rodeados de "tiendas" com livros é uma sensação benéfica. Respira-se outro ar.
Os monumentos, a arte que nos rodeia é outro sopro.
No domingo, dia do encerrar da Feira, houve à tarde um espectáculo cómico, de mimos galegos com um boneco espécie de "monstro bom de Lockness", em cetim verde.

E a noite desceu, as ruelas à roda da Plaza Mayor encheram-se de pessoas, a beber una copa, e a comer um bocadillo, e, sobretudo, falar, falar alto, rir...

Nessa noite houve um concerto no meio da Praça a das barracas dos livros. Num palco, de costas para o lindo edifício da Municipalidade, apresentou-se um grupo de música Kletzmer, os Klezmática.
Três jovens cheios de entusiasmo que conseguiram arrancar da timidez (e de uma certa apatia que nos é comum, a nós das terras do interior) a pequena plateia.

http://www.youtube.com/watch?v=TzgVMVFVFUo&feature=related
(Podem ver os "Klezmática", em espectáculo, no video acima)
No final, todos batíamos palmas, ao ritmo que nos "ensinara", com o seu ar calmo e divertido, Quike Navarro, o violinista, tentando acompanhar a melodia do som do acordeão, na melancólica canção "Yiddishe Momme".
Deixo-vos um pouco dessa Salamanca que eu vi. Muito poucas fotos desta vez, para não vos cansar...
*******************
(*) O escritor Gonzalo Torrente Ballester nasceu na aldeia de Serantes, Ferrol (Corunha, Espanha) em 13 de Junho de 1910. Fez os estudos primários no Colégio de Nuestra Señora de la Merced, no Ferrol, e os secundários na Corunha, como aluno voluntário. Em 1921, apercebe-se de que a sua miopia o impedirá de seguir a carreira da Marinha de Guerra. Em 1926 matricula-se como aluno voluntário na Universidade de Santiago de Compostela.
Estátua de Torrente Ballester, no Café Novelty.
Morre em Salamanca, 27 de Janeiro de 1999. Foi professor, romancista, crítico literário e teatral, dramaturgo e jornalista espanhol, enquadrado na Geraçao de 36.

*******
(*) Música Kletzmer
(Podem ouvir a canção "Yiddishe Momme" clicando na linha em baixo. A cantora tem uma voz linda e as imagens são tocantes - "tocam-nos" o coração, afligem-nos)
A princípio, a palavra "klezmer" (plural "klezmorim") designava apenas os instrumentos musicais, sendo posteriormente estendida aos próprios músicos - estes pouco considerados pois não conseguiam "ler" a música, tocando de ouvido. Foi só na segunda metade do século XX que "klezmer" passou a identificar um género, antes referido simplesmente como música yiddish (dos judeus da Europa Central).

O Grupo "Klezmática" -grupo pioneiro deste tipo de música, em Espanha- formado por: Quike Navarro (violino) Raúl Álvarez (acordeão) e Mirek Kasperek (violoncelo). O trabalho deles incide, principalmente, na interpretação de composições baseadas nas melodias tradicionais dos judeus Ashkenazi da Europa Central e de Leste e também na música balcânica. O repertório inspira-se na música popular dos ghettos judeus.

Histórias da Casa Amarela: os bichos da seda da Rua dos Sapateiros (3)


tinha chegado a Primavera! (pintor japonês, Kojima, floresta
Portalegre, vista da Serra

O Outono passara, o Inverno fora com certeza longo e frio, a chuva caíra, o nevoeiro subia e descia pela encosta da Serra.
Aconchegava-me no meu cantinho da carteira, de queixo apoiado na mão, a olhar para fora.
E um dia, sem já o esperar, aparecia o céu brilhante da Primavera!
Um “azul cerúleo” como a minha mãe gostava de lhe chamar.
As andorinhas cortavam os ares, as asas negras riscavam o azul de um lado para o outro, ouvíamos o chilrear, assim que algum professor abria as janelas.

Eu não conseguia estar quieta na carteira. O tempo custava a passar, sentia-me impaciente. Queria era voltar para casa, ir pôr-me à janela a ver se as andorinhas voltavam a fazer o ninho por cima da janela do nosso quarto.
Foi nessa Primavera, nesse primeiro ano de liceu, que começou a mania dos bichos da seda.

Talvez alguma menina tenha aparecido com uma caixinha e mostrasse os bichos minúsculos a escorregar pelas folhas verdes de amoreira.

Não sei como arranjámos o dinheiro, eu e a minha irmã, mas de certeza que custavam poucos tostões que nos era fácil conseguir, pois tínhamos sempre os nossos mealheiros.
Lá fomos, à saída do Liceu, como nos indicaram, à Rua dos Sapateiros, que era uma rua de casas pequenas e baixas, muito brancas, com portas de postigo –hoje na sua maioria metalizadas-, às vezes com um degrau, outras, com uma janela em baixo e duas no primeiro andar.
Viemos para casa com uma caixa cheia de bichinhos que pareciam formigas compridas a retorcer-se, e um montinho de folhas de amoreira que o sapateiro nos ofereceu.
Tinham uma cabecinha com pintinhas pretas, parecia-me, e o corpo ondulava deslocando-se no aveludado da folha.

Logo à chegada, apressadas, falando as duas ao mesmo tempo tal era a excitação, fomos arrumá-los numa caixa de camisas do meu pai e eles começaram a passear-se, a fazer buraquinhos nas folhas, comendo tudo, até deixarem apenas as nervuras. Ficávamos a olhar esta novidade, esquecendo tudo o resto.

A Florinda tinha agora que trazer do mercado um molho de folhas de amoreira.

O tempo passava a correr na Primavera, os bichos da seda cresciam depressa, até que um dia dei com eles a enrolarem-se em fios brilhantes que não percebia de onde vinham.

Assustámo-nos, parecia que iam perdendo a vida aos poucos, moles, sem energia.
Foi com certeza o meu pai que nos explicou que os fios eram a saliva do bicho da seda, que já era seda mesmo; que iam preparar os casulos onde ficariam fechados, formando uma crisálida, até nascer a borboleta.

Dentro em pouco, todos os nossos bichos estavam nuns rolos amarelos de seda brilhante e de toque muito suave. Arrumámos as caixas no alto de um armário e esquecemos os bichos da seda...


Um dia vimos voar, junto ao tecto, umas borboletas de asas pesadas, amarelinhas claras, sem graça, quase da cor dos casulos. As asas pareceram-me pesadas, asas que nada tinham a ver com a leveza quase transparente das borboletas que, lá por fora, nos campos, voavam de flor em flor, salpicando tudo de poeira dourada.

Quando tirámos as caixas para baixo, havia umas pintas brancas do tamanho de cabeças de alfinetes, por toda a parte.
Ou seriam pretas? Hoje já nem me lembro bem...
O meu pai voltou a explicar: eram os ovos de onde iriam nascer no ano seguinte outros bichinhos.
Confesso que o entusiasmo pelos bichos da seda se perdera. Arrumámos as caixas no tal armário e nunca mais pensámos nisso.
Nesse ano, claro.
Tínhamos a Primavera, depois viria o Verão e a nossa cidade esperava-nos...
Portalegre, Rua Direita, talvez nos tempos do meu avô

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A Casa Amarela: os bichos da seda da Rua dos Sapateiros (2)

A Rua dos Sapateiros ficava no caminho para o Liceu.
Paul Cézanne, casa com árvores
Bastava fazermos um pequeno desvio, subir um pouco da rua que vai para o Largo dos Aviadores, virar à direita e lá estávamos. Depois, logo ao fim da ruazinha, deparávamos com o belo edifício do Liceu, lá em baixo das escadinhas, no antigo Largo do Corro.
A chegada ao meu Liceu foi também a descoberta de outras amigas, meninas da minha idade vindas de mundos que não conhecia, que vinham ter comigo, que me perguntavam: "Ouve, vamos brincar... Queres falar comigo? Queres ser minha amiga?"


Renoir, a leitura

Estava habituada apenas às minhas irmãs e a duas amigas mais íntimas.
Uma era a Letícia –do nome da heroína, a princesa, do Príncipe com Orelhas de Burro, de José Régio, que era seu padrinho.
Uma moreninha sempre a rir, com duas covinhas na face, com quem eu brincava tardes inteiras, inventando histórias com bonecos de papel, no vão das escadas que iam para o sótão e para a varanda. Mais tarde, juntava-se às nossas brincadeiras a pequenita, quando cresceu.
Outras vezes levava a minha boneca e ia brincar para o quintal delas que tinha muitas árvores de frutos, e muros de pedra cheios de musgo verde. Morávamos todas na Rua dos Canastreiros e a casa delas era um pouco acima -e do outro lado- da minha casa amarela.Paul Cézanne, menina com boneca
E a Gioconda, a irmã mais velha, loira e de cara redonda, que era mais amiga da minha irmã.
A mãe delas era a melhor amiga da minha mãe e conheciam-se há muitos anos. Tinham estudado piano juntas, e ainda me lembro de a ver na Serra, poucos anos da minha mãe morrer. Emagrecida, mas com os mesmos olhos verdes que tudo desafiavam.
Até a morte, tenho a certeza.

Era uma mulher alta, elegante, sensual que eu achava bonita, de pele mate e olhos esverdeados de cigana, que me lembravam os dos gatos, e uma boca vermelha pintada.

Vinha muitas vezes tomar chá com a minha mãe e conversavam toda a tarde. Por vezes zangavam-se, penso, e durante meses não voltavam a falar-se.
Uma vez, no Carnaval, zangaram-se quando foi a história -que já aqui contei- dos ratinhos dentro das violetas...
Sempre empertigada, autoritária, tinha, ao sorrir, as mesmas covinhas na face da filha.
E, depois, havia as amigas de passagem que vinham passar as férias do Verão: a Liginha, mais velha do que nós, que chegava de Lisboa, bronzeada, com ideias e toilettes estranhas, muitos sorrisinhos, luvas de renda branca, fitas largas nos cabelos -que espantavam a cidade toda, pensávamos nós...

Vrubel, amigas ao fim da tarde

Recordo ainda hoje o seu modo afectado de falar, e o riso com os dentes à mostra, que pretendia ser simpático mas que queria sobretudo deslumbrar-nos.
E a Rosarinho, que estudava no Ramalhão, que nos parecia uma coisa tão longínqua, nem sabíamos bem onde ficava esse Colégio. Um pouco desse mistério vinha com ela. Lembro-me de de a ver chegar, com uns sapatos de salto alto, uma saia branca cheia de pregas, plissada, dizia-se então, e um cinto verde de seda.

Íamos ao Café Central beber limonadas e groselha e passeávamos à noite no Rossio. Elas, à vontade, frescas nos seus vestidos novos, eu, miúda arrapazada nesses tempos, tímida, ficava um pouco impressionada, e invejava-as às vezes.

o largo da esplanada do Café Central, na antiga Praça dos Correios

As meninas do meu Liceu não eram assim.

Vinham dos arredores da cidade, muitas da Serra de S. Mamede e das aldeias à volta, ou dos Fortios, de Alpalhão, de Gáfete.
Eram meninas do campo, com as carinhas vermelhas do sol e do frio e as mãos com cieiro e, tantas vezes, frieiras.
As roupinhas delas cheiravam bem, a lavado, tinham o perfume da roupa corada ao sol.
Elas próprias me pareciam meninas coradas ao sol.
Tive algumas boas amigas que recordo com saudade.
Sabe-se lá o que a vida fez delas? Onde andam? O que fizeram? Foram felizes?
Como sabê-lo?

A Helena foi a minha primeira colega de carteira, nesse 1º ano.
Vejo ainda a simplicidade dela, o seu olhar de cão bom, porque era o que me fazia lembrar: os cães doces de certas histórias de Walter Disney...

Lembro-me de a ver vestida de preto, o pai morrera há pouco tempo.
Tinha os cabelos castanhos muito lisos, uma pele clarinha mas baça e uns olhos tristes que se animavam quando me contava histórias...
Eram histórias de fantasmas e de mortos, que eu ouvia com um ar incrédulo, mas encantada, como, noutros tempos, com as histórias de lobisomens que a Hermínia nos contava à braseira.
E abria muitos os olhos, como a Hermínia fazia. Para me assustar...

Chamava-se Maria Helena. Maria Helena de Deus Almeida! Nunca me esqueci do nome dela...
Ensinava-me a esfregar os dedos nas costas da mão com força, e depois dizia-me:
-“Cheira!”
Eu cheirava, curiosa, e era um cheiro desconhecido.
-“É o cheiro dos mortos”, dizia, com ar soturno.

Isso assustava-me. Seria verdade que os mortos cheiravam assim? Nunca tinha visto um morto.
-"É como a carne morta...", explicava ela, "cheira assim"...
Hoje, ao lembrar-me dessa história, tentei repetir esses gestos, reencontrar o cheiro, enquanto pensava nela.
Esfreguei os dedos nas costas da mão, cheirei. Não me cheirou ao cheiro dos mortos desses tempos, nem a nada de estranho.
Cheirou-me a creme, coisa que dantes não usávamos...
vista de Portalegre com malmequeres
Onde vai tudo isso? Os meus primeiros tempos do Liceu? A minha cidade hoje tão mudada?
As minhas amigas?
Zinaida Serebryakova, menina a ler

Histórias da Casa Amarela: Os bichos da seda da Rua dos Sapateiros (1)

auto-retrato da autora
Passei há pouco tempo na rua onde, em pequena, ia comprar bichos da seda. Era a Rua dos Sapateiros, perto da Praça da República, em Portalegre.
Porta do Castelo, em Portalegre

Penso que era sapateiro o senhor que nos vendia esses bichinhos estranhos. Sentado à soleira da porta, imagino-o com uma bota apoiada no joelho, e a sovela na mão direita, olhando-nos com ironia.

Eu tinha entrado para o Liceu nesse ano.
Acabada a 4ª classe (dispensara do exame de admissão), com os meus 9, 10 anos, deparou-se-me um espaço enorme, o belo Liceu, antigo Palácio dos Acciaioli, que no meu tempo se chamava Liceu Nacional de Portalegre.

As recordações que tenho do início de uma nova vida são boas. Esquecida a pequena sala de estar da minha professora, a D. Maria da Alegria, onde fizera, em lições particulares, os estudos, via-me em salas enormes, carteiras de madeira envernizada, com o tampo de abrir e fechar e a prateleira por baixo para guardar a pasta.
Ao fundo, a secretária dos professores sobre um estrado de madeira branca e o grande quadro preto.

As amplas janelas dessa primeira sala de aula davam para um pátio que dava acesso, lá em baixo, a outras salas, e que, por grandes escadarias, levava também a um parque, cheio de árvores, e um terreno de jogos que era o recreio dos rapazes - nesses tempos separado do das meninas, esse muito mais pequeno, fechado por muros, sem verde, nem árvores.

Outras salas do liceu davam para o Corro, onde se fazia o mercado e onde, durante as festas dos Santos Populares, o meu pai nos levava a ver a banda e os altares.

Da janela da minha sala de aula, via o céu aberto, sem fim, cheio de azul ou de nuvens acasteladas empurradas devagar quando soprava o vento.

Que lindas eram as nuvens!



Surgiam as primeiras névoas do Outono, imaginava a cidade toda no nevoeiro cerrado.
o Coreto do Rossio, num dia de nevoeiro


Adivinhava, no tal pátio do Liceu, as árvores e os troncos que se abriam em ramos de folhas castanhas e douradas!

Chegavam os frios, a ventania, e os relâmpagos das trovoadas do Outono, a chuva que fustigava as vidraças e corria em riachos pelos vidros, escondendo tudo aos meus olhos curiosos.
Chovia.


E, quando parava de chover de repente, por instantes talvez, um raio de sol vinha bater na janela. O sol abria forte e os vidros ficavam cheios de cristais, colados, como pequenos diamantes.
Encolhia-me na carteira, nos meus casacos de lã, encostava a cabeça na mão, ficava a olhar.
Tentava dar atenção ao que se passava dentro da aula. Às vezes gostava de ouvir o que os professores diziam, outras vezes perdia-me seguindo outra vez os tais fiozinhos de água da chuva que iam pegar noutros fios, como ribeirinhos tontos a correr para o rio.

Magritte, nuvens
Eu gostava de estudar, de aprender coisas novas, gostava de fixar, de relacionar, de pensar.

Até de ver os frasquinhos das "experiências", na sala de Ciências Naturais, onde o Dr. Matos nos dava aulas.

Berthe Morisot, menina na varanda
Lembravam-me os tubos de ensaio do laboratório do meu pai, onde sempre tentava mexer quando ia visitá-lo no velho edifício do hospital, com a sua janela de grades, tão bonita...
E essa atenção, que dava nalgumas aulas, era o que me valia para ter notas boas, porque em casa não estudava muito.
No calor da sala de estar, debaixo do candeeiro com pendentes de vidrinhos verdes transparentes, como estalactites, eu gostava era de ler.
Lia com prazer os livros de História, de Geografia que eram “leituras” que me interessavam, que me falavam de coisas desconhecidas, e havia neles mapas, desenhos, fotografias como não havia nos outros livros da escola.

A meio da noite, porém, havia também os “deveres”, como eu achava que eram os problemas de Matemática, de álgebra, ou de geometria, que me interessavam menos.
A concentrar-me neles, demorava-me, enrolava os cabelos num lápis, ficava a pensar, enquanto ia deitando uma olhadela para as imagens de um livro qualquer que deixara aberto ...

As aulas do Liceu eram também a descoberta de outras amigas, meninas da minha idade que não conhecia, que vinham ter comigo, que me perguntavam: queres ser minha amiga?

sábado, 15 de maio de 2010

A Lady do Crime, outra vez. “Os Cadernos Secretos” e duas novelas inéditas de Agatha Christie

capa da edição espanhola de "Los Cuadernos Secretos", editora Suma de Letras, de Barcelona.

capa da edição inglesa, de Harper Collins Publishers, 2009

Agatha Christie é conhecida como Dama do Crime, Duquesa da Morte, Rainha do Crime, mas eu prefiro chamar-lhe a "Lady do Crime" -em homenagem a uma outra Lady que eu adoro: Billie Holiday, a doce Lady Day.

Vem este post a propósito de um livro que comprei em Salamanca...

"Los Cuadernos Secretos y dos novelas inéditas de Poirot". Falei há tempos na saída destes “Cadernos Secretos” e entusiasmei-me com a saída (próxima) provável de duas novelas inéditas.
Isto foi por altura do aniversário de Agatha Christie, houve muitos eventos em Londres, festejos na internet, jogos, etc.

Nessa altura, num site da BBC e no do Guardian vi a notícia dessa descoberta fantástica (só os leitores dela é que compreendem...) de duas novas histórias dela, surgidas do "nada": quero dizer, das malas de papéis deixados pela escritora e guardadas até há pouco naantiga casa de férias.

Essas duas novelas inéditas estavam para sair na Harper Collins Publishers (a editora que publicou a escritora desde o primeiro livro, O assassínio de Roger Ackroyd), incluídas num livro que reunia tudo o que se copnseguira "encontrar" nessas malas preciosas. Iria chamar-se: “Agatha Christie's Secret Notebooks: Fifty Years of Mysteries in the Making”.
Referiam que se tratava de dois pequenos contos (short stories), como às vezes ela costumava fazer, pensando depois desenvolvê-los mais tarde.
A primeira chamava-se “The Mistery of the dog’s ball” (trama que Agatha vai desenvolver -e modificar- em "Dumb Witness"), e a segunda "The Capture of Cerbero" - que já estava incluída nos últimos 12 casos de Poirot. Mas -segundo revelavam- era uma história completamente “nova", da qual guardava apenas o antigo título.
E falou-se muito da inesquecível Lady do Crime.
Até eu falei... (O meu post de 15 de Setembro chamava-se "Agatha Christie: 15 de Setembro, dia do seu aniversário")...

Depois, não encontrei mais nada por aqui pela internet, nem nas livrarias em Portugal, e esqueci-me.

Passando por uma livraria em Salamanca, a "Cervantes", perto da bela Plaza Mayor, vi na montra, em grande plano, o tal livro.

Não resisti: entrei e comprei logo.

Não sabia se os hermanos de cá também o tinham publicado já (procurei e acho que ainda não...), ou se irão (e quando?) publicá-lo.

Pelo sim, pelo não, comprei em espanhol: "Agatha Christie, Los Cuadernos Secretos y dos novelas inéditas de Poirot", autor John Curran, publicado pela Casa editora Suma de Letras, Barcelona, em Março 2010.
A capa é uma adaptada da edição inglesa Harper Collins.
O que vos posso dizer? retrato do autor do livro, o escritor irlandês, John Curran
Que se trata de um livro preparado com cuidado, amorosamente, diria, por John Curran, escritor irlandês, grande apaixonado de Agatha Christie, que vive em Dublin onde está a preparar uma tese de doutoramento sobre a Lady do Crime.
Não deve ter sido nada fácil descriptar (descodificar) a letra miúda (quase gatafunhos) de Agatha, nem os rabiscos, ou arabescos, nem as rasuras que faz, nem as reticências que deixa...
Muitos pontos de suspensão... Suspensa, ela própria? à espera de uma intuição...?
O trabalho de Curran traz à superfície deste lago misterioso que é a criação de uma obra literária (ainda por cima de mistério!) uma série de pormenores bem interessantes, que nos permitem conhecer por dentro o trabalho preparatório de uma escritora tão interessante, tão rica psicologicamente, com uma vida tão intensamente vivida - como Agatha Christie.
Ao longo da leitura, vamos “descobrindo” coisas...
Por exemplo, no caso dos "10 negrinhos" (mais politicamente correcto, hoje chamam-lhe "E não restou nenhum..."), segundo as anotações de Christie, qualquer das personagens podia vir a ser o assassino.
Noutras histórias como “Os Cinco Porquinhos", ela soube desde o início quem seriam os participantes, mas não sabia quem seria a vítima... Ou o assassino!
E houve sempre alternativas aos assassinos, aos fins escolhidos para as histórias, ou aos móbeis dos crimes.
Nas notas sobre "Morte no Nilo" há uma interrogação logo na primeira linha dos apontamentos: Miss Marple?
O que significa que hesitou se o "herói" seria Miss Marple ou Hercule Poirot...
Segundo Curran, a autora deve ter achado que a extraordinária e pacata Miss Marple estaria pouco à vontade numa viagem desse tipo (ela só viaja para o estrangeiro uma vez: quando o sobrinho Raymond lhe oferece uma viagem às Caraíbas -"Crime nas Caraíbas", lembram-se?).
E decide-se pelo cosmopolita, grande viajante, aventureiro do mundo, Hercule Poirot!
Diz o autor do livro, no Prefácio:
"Organizei as notas originais de Agatha Christie, alterando o mínimo possível. Cada uma das páginas está salpicada de notas, parêntesis, pontos de interrogação; uma frase completa é mais a excepção do que a regra... Nalguns casos fiz emendas; num parágrafo as palavras estavam separadas por colchetes e pareciam formar frases distintas.
Todos os pontos de interrogação conservavam-se assim, tal como os sublinhados, os riscos, os borrões, os pontos de exclamação -até erros gramaticais deixei, tal qual estavam nos cadernos. Algumas peculiaridades ortográficas mantive-as, mas assinalei-as com [sic]."

capa de um dos últimos livros de Agatha Christie, publicado pela ASA, "Crime no Hotel Bertram", com Miss Marple
A simplicidade (tão complexa, às vezes) dos romances de Agatha Christie surge aos olhos dos leitores nas dezenas de caderninhos da escola (os “exercise books”) que ela encheu com as suas observações, dúvidas, lembranças, coisas para verificar mais tarde...

A dada altura, diz-nos John Curran:
"A maioria dos leitores pensa que ela começava a escrever os livros do princípio até ao fim, sem parar, e que num mês já tinha um romance pronto. Mas no meu livro mostro a quantidade de trabalho –de oficina- que há por detrás dessas histórias".

E continua:
"Christie tinha ideias, mudava de opinião, voltava do final já escrito ao início, escolhia uma personagem como assassino e depois afinal decidia que era outro. E às vezes parava tudo e começava de novo com uma ideia anterior, levando em conta todas as possibilidades da trama".

Mais adiante revela:
"Muitos de seus livros foram construídos sobre premissas muito singelas. Alguém é assassinado, a razão é simples: caso das vítimas em ordem alfabética, alguém isola um grupo de pessoas numa ilha deserta e vai-os matando um por um".
Diz também que, apesar de parecer tudo tão simples para o leitor, “há muito trabalho na sua criação".

“É a arte de uma escritora” acrescenta Curran, "que é a melhor escritora de livros de detectives", um género que se caracteriza por criar um tipo de história na qual o leitor tem acesso às chaves para resolver o mistério.
"Ninguém nunca fez isso tão bem como Agatha Christie. Não considero que seja uma grande romancista de crimes, mas foi a melhor escritora de romances de detectives, da história".

Não vou revelar nada sobre os dois novos contos...

Só digo: é sempre ela, a Lady do Crime!