quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A vida nem sempre é maravilhosa e a natureza muitas vezes é madrasta. A tragédia do Haiti.

imagem da cidade de Port-au-Prince: fotografia e imagem via satélite
O Haiti é um país das Caraíbas que ocupa o terço ocidental da ilha Hispaniola, possuindo uma das duas fronteiras terrestres das Caraíbas, a fronteira que faz com a República Dominicana, a leste. Além desta fronteira, os territórios mais próximos são as Bahamas e Cuba a noroeste. A capital é Porto Príncipe (em francês Port-au-Prince, em crioulo haitiano Pòroprens)

Alguns dados sobre a história política recente do Haiti (informação da Wikipedia):

"O período mais sombrio na história do Haiti iniciou-se em 1957 com a ditadura de François Duvalier. Médico sanitarista com certo prestígio mundial, devido a suas ligações com o movimento negro, realizara excelente trabalho junto às populações rurais no combate à malária, sendo apelidado de Papa Doc (papá médico).

O regime montou um aparato de repressão militar que perseguiu os opositores, torturando-os e assassinando muitos deles. A repressão era encabeçada pela milícia secreta dos tontons macoutes, cuja tradução é "bichos papões".

Papa Doc morreu em 1971, após ter promulgado uma constituição em 1964 que lhe dera um mandato vitalício e ter conseguido que o seu filho mais novo fosse declarado seu sucessor.
O filho Jean Claude Duvalier, o Baby Doc, que assumiu o poder aos 19 anos, deu continuidade ao regime de terror imposto pelo pai.

Governou até 1986, quando foi deposto por um golpe militar. Os militares que assumiram o poder sucederam-se no governo por vários anos. A esperança de redemocratização surgiu em 1990, quando ocorreram eleições livres e a população elegeu o padre Jean Bertrand Aristide para presidente.
O Haiti -de 1986 a 1990- foi governado por uma série de governos provisórios.

Em 1987, uma nova constituição foi feita.

Em Dezembro de 1990, Jean-Bertrand Aristide foi eleito com 67% dos votos. Porém poucos meses depois, Aristide foi deposto por um novo golpe militar e a ditadura foi restaurada no Haiti.
Em 1994, Aristide retornou ao poder, com o auxílio do Estados Unidos. Mesmo assim, o ciclo de violência, corrupção e miséria não foi rompido.

Em Dezembro de 2003, sob pressão crescente da ala rebelde, Aristide prometeu eleições novas dentro de seis meses.

Os protestos contra Aristide, em janeiro de 2004, fizeram várias mortes na capital do Haiti, Porto Príncipe.

Em Fevereiro, com o avanço dos rebeldes, o ex-presidente foge para a África e o Haiti sofre intervenção das Nações Unidas".

A economia de Porto Príncipe:

Actualmente a cidade de Port-au-Prince exporta café e açúcar, e no passado exportou outras diversas mercadorias, como sapatos e artigos como bolas de basebol.

Porto Príncipe possui fábricas de processamento de plantas comestíveis, sabão, têxteis e cimento. A cidade também depende das indústrias do turismo e as companhias de construção para mover sua economia.

Dado que em Porto Príncipe a taxa de desemprego é altíssima, seria mais exacto dizer que a população está desempregada. Uma pessoa que caminhe pelas ruas de Porto Príncipe poderá notar a grande actividade de ambulantes e serviços não registrados.

País pobre, abandonado, explorado, sem esperança. Assolado por tufões, furacões, cheias, mortes e todo o cortejo que vem atrás, de fome e desepero. Ontem, um tremor de terra deita abaixo o país.

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in Público, edição online de hoje:

"A Assistência Médica Internacional (AMI) envia amanhã de manhã uma equipa exploratória para o Haiti, disse ao PÚBLICO o presidente da organização, Fernando Nobre.

A equipa é composta por Tânia Barbosa, directora do departamento internacional, e Marta Andrade, coordenadora de projectos, que viajarão via Madrid e Miami, e deverão chegar à capital, Port au Prince, pela hora de almoço de sexta-feira".
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in Le Monde, edição online de hoje:
"Le séisme qui a frappé Haïti, mardi 12 janvier, touche l'un des pays les plus pauvres du monde, déjà mis à l'épreuve en 2008 par une série de cyclones. Plusieurs centaines de personnes avaient péri. La destruction des routes, des maisons et des infrastructures économiques avaient alors été chiffrée à près de 15% de la richesse nationale".
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in El Pays, edição online de hoje:

"Haití, un país paupérrimo y azotado por la violencia, se ha hundido en el caos tras el terremoto que ha tirado edificios, con especial crudeza en la capital, y ha enterrado bajo las ruinas a miles de personas. Éstas son las voces del drama haitiano.


Las calles de Puerto Príncipe, la capital de Haití, se han convertido en una trampa, con buena parte de los edificios a ras de suelo y bajo los mismos un número indeterminado de personas. Esas calles trampa son ahora el lugar más seguro para los que temen nuevas réplicas del terremoto que asoló ayer el país, y el único techo para muchos de los que se han quedado sin casa".
Afinal, a vida nem sempre é maravilhosa...
Para alguns, não é? Infelizmente, quase sempre os mesmos?

A vida é uma coisa maravilhosa! Os "Skorpions": "Still Loving You"



Tenho uma coisa bela para vos contar: ontem tive uma surpresa muito boa. Falei aqui em tempos (neste Verão, talvez) de um livro que me apaixonara na juventude e que, por razões várias, perdera de vista e tentara substituir encontrando então uma edição francesa.
Trata-se da Trilogia de Sigrid Undset, a saga de "Cristina Lavransdatter" (A Coroa, A Mulher, A Cruz) .
Li-a na "Colecção Os Romances Universais", da velha Potugália
Manifestara o desgosto dessa perda aqui no blog...
Dizia eu ( 28/07/09):

"Recordei hoje os livros da Sigrid Undset que, na minha juventude, adorei. Inesquecível a saga de “Cristina Lavransdatter”! Tinha os três volumes, enormes, (A Coroa, A Mulher e A Cruz), com capas lindas, publicado na colecção “Os Romances Universais”, da Portugália, - traduzido por Maria Franco, e prefaciado na 2ª edição, a que eu li, de 1958, por João Gaspar Simões. Ao longo da vida e das muitas viagens, foram-se perdendo.
Houve outro livro, que li dela há muitos anos, “Vigdis, a Indomável”, título em português, (A Filha de Gunnar), publicado pelas "Edições Cor", em 1957, que me impressionou, pela força e violência e grande crueldade."


e em 03/08/09:

"Esta trilogia de Sigrid Undset retrata a vida de uma mulher, desde que nasce, até à morte, na Escandinávia medieval (século XIV), onde os invasores Vikings tinham chegado desde o século VIII, Cristina Lavransdatter".

Pois qual não é a minha surpresa quando o correio ontem bate à porta para entregar uma encomenda volumosa!
Era, como já adivinharam se calhar, a tal obra amada da Sigrid Undset.
Surpresa de duas amigas maravilhosas, as irmãs Ribeiro, jovens livreiras no Porto ("Livraria Lumière", Travessa da Cedofeita).
Ainda por cima, oferecida! Fiquei emocionada, confesso.
De facto, a vida é uma coisa maravilhosa, não é?
O amor, a amizade são coisas boas, possíveis!
Obrigada do coração, Cláudia e Alexandra!


Para não voltar a pôr o Louis Amstrong, mais o seu "It's a wonderful world" (que vinha a propósito), fui escolher um grupo de que gosto há muitos anos : desta vez aconselhada pelo meu filho, que, numa viagem a Portalegre, me ofereceu um CD deles.
Os "Skorpions" e a canção "Still Loving You"...
E, já agora, lá em cima, deixo uma pintura: um quadro lindo de Fujishira Kenji.



terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Música: um comentário ao "blog" que me animou...

Uma leitora, que se chama Rita, deixou uma mensagem (ver abaixo) no meu blog.
Fiquei muito contente, porque adoro que deixem comentários... A dizer bem, a dizer mal, a "dizer"...
Para comunicar e ouvir conselhos e saber o que devo, ou não, fazer.
Desta vez ouço uma voz jovem, cheia de vontade de aprender, que me fala de música, que aprende, e do que é " ser professor".
Deixou-me o site de uma escola musical onde se inscreveu, para quem estiver interessado.
Aqui fica o aviso, com um pouco de mar (foto do blog Valandgui).
Agradeço que tenha vindo falar-me, Rita.
Entusiasmei-me e aqui vai mais um pouco de música...
Para a Rita, deixo o fora de série "Manitas de Plata", um virtuoso da guitarra, de todos os tempos.
E, claro, Diane Krall que é sempre um prazer ouvir.
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Comentário de Rita Santos:
"Pelo menos é uma excelente apreciadora de música e deve ser uma excelente pessoa pois ser-se professora e passar-se a vida a ensinar algo a alguém é de louvar; a minha mãe também é e acredito que é uma pessoa melhor pela profissão que tem. eu tb sou grande adepta de música e por isso me inscrevi numa escola para aprender a tocar guitarra. Deixo o site da escola para o caso de alguém querer visitar, www.emma-actividades-musicais.pt "
12 de Janeiro de 2010 08:43







Gostaram? Respondam, please...

John Wayne, um Herói dos nossos Sonhos


JOHN WAYNE, O HERÓI DO OESTE E DOS NOSSOS SONHOS DA JUVENTUDE Foi sem dúvida a figura mais importante de uma das formas da arte cinematográfica americana mais originais: o "western".
Começou, a convite do grande actor de westerns, Tom Mix (lembram-se, ainda?!), a vender bilhetes, mas depois fez pequenas entradas em filmes.
Foi o realizador John Ford que o soube "aproveitar" em 1928 e, a partir daí, entrou em vários dos seus filmes, westerns hoje clássicos do Cinema, filmes inesquecíveis de humanidade e violência, de doçura também.


Manteve com o realizador John Ford uma longa amizade. Essa amizade com Ford leva-os a trabalhar juntos, anos e anos, primeiro em pequenos papéis, em 1928, depois um papel mais importante em 1939, no filme "Stagecoach" (No tempo das diligências) e, depois ainda, mais outros 20 filmes nos quais Wayne se torna na figura especial dos filmes de cowboys, figura que vai criando forma e asas...
O primeiro papel como actor principal foi no filme de Raoul Walsh, "The Big Trail" (A Grande Jornada), em 1930; foi este realizador que lhe deu, no set, o nome de "John Wayne", inspirado na figura do general da Revolutionary War: "Mad Anthony Wayne
. Mais tarde, com Ford, vieram os famosos "Fort Apache" e "Red River," em 1948, e "Three Godfathers" (O céu mandou alguém/Os Três Padrinhos, uma história quase de Natal...) e "She Wore a Yellow Ribbon," (A Cavalaria), ambos de 1949.

Em 1952, John Wayne teve sucesso na figura do jovem Americano de origem irlandesa, que regressa à Irlanda, no filme de Ford, "The Quiet Man", filme de grande sucesso, que ainda hoje aparece frequentemente na televisão.
Ainda com Ford: "The Searchers" (A Desaparecida, 1956), "The Wings of Eagles" (1957) e "The Man Who Shot Liberty Valance" (O Homem que matou Liberty Valance/O facínora), com outros dois grandes actores, James Stewart e Lee Marvin.
E tantos outros filmes maravilhosos que sabe bem recordar:
"Angel and the bad man" (1947), de James Edward Grant
"Rio Grande", 1950, de John Ford

"The Searchers" (A Desaparecida), 1956, John Ford

"Hondo", de James Edward Grant, 1953

"The Alamo", 1960, dirigido por ele próprio

"El Dorado", 1960, de Howard Hawk



"The man who killed Liberty Valance", 1962, John Ford

"The sons of Katie Elder" (Os Filhos de Katie Elder), 1965, de Henry Hathaway

"True Grit", 1969, de Henry Hathaway


"Rio Lobo", 1970, de Howard Hawks
"The Shootist", 1976, realizado por Don Siegel
**THE TRUE GRIT**
Em 1969, Wayne, já universalmente considerado, entra no filme "True Grit" (Bravura Indómita) dirigido por Henry Hathaway, que me levou a escrever hoje este "post", pois revi ontem o filme!

Baseado no romance de Charles Portis, apresenta-nos John Wayne na figura de um pistoleiro, zarolho e bêbado, gordo e velho, mas com muita garra sempre, e o carisma do costume, que fora em tempos "Federal Marshal".
O seu nome é Rooster Cogburn e tem como família um velho chinês que cozinha para ele - e que lhe ganha sempre no jogo das carttas -e com quem discute, regularmente, protestando: "como se pode ganhar ao jogo a um chinês se não se pode ver nos olhos o que ele está a pensar!?"- e um gato, o preguiçoso "General Rice".

Lembro com ternura a figurinha de Mattie Ross, a miúda rebelde e corajosa que quer apanhar o assassino do pai, personagem bem conseguida, muito espontânea, que a actriz Kim Darby dá com grande força e ingenuidade.
Em 1970, a "Academy of Motion Picture Arts and Sciences" concede-lhe um "Best Actor Oscar", por este papel.
(Confesso que fiquei contente quando vi isto hoje na minha busca pela internet... Já não me lembrava desse Oscar!)
O profissionalismo do grande realizador, que era Hathaway, o óptimo elenco, a música de Elmer Bernstein, as paisagens fantásticas e a boa fotografia de Lucien Ballard valorizam ainda mais o espectáculo.
O sucesso de "True Grit" conduz à continuação do filme, agora chamado "Rooster Cogburn," (Justiceiro implacável), em 1975, no qual contracena com a grande Katharine Hepburn -no seu primeiro western.

Quem era Jonh Wayne?
Mario Michel Morrison nasceu em Winterset (Iowa) em 25 de Maio de 1907. Desde pequeno trabalhava com o pai, adorava o cinema e na Universidade foi um grande desportista até partir uma anca. Decide tentar o cinema.
Começou por pequenos papéis em filmes.
Demorou nove anos -e cerca de cinquenta filmes de classe B- antes que John Ford o pusesse no elenco do filme "No tempo das diligências".

John Wayne foi o favorito dos realizadores John Ford e Howard Hawks e Henry Hathaway, que dele arrancaram papéis e personagens inesquecíveis.

Como actor era um homem de acção, mas emotivo, lacónico mas expressivo. Tranquilo, atento mas reagindo com rapidez, subitamente agressivo.

Não o herói que procura sarilhos, mas aquele que "não os evita". Esperando sempre a provocação do outro, não agredindo em primeiro lugar se não por defesa própria ou de alguém mais fraco...podendo, então, atingir grande violência.

Era o que bastava para que sua figura corpulenta e seu olhar ambíguo, ora doce e ingénuo, ora irascível, criasse a mitologia do duro que muitas vezes fazia justiça com as próprias mãos.

É com certeza com Ford e Hathaway, dois bons realizadores que o compreendiam bem e o sabiam dirigir, que a sua presença se manifesta ainda mais forte e os seus talentos de actor são realçados.

Na vida real espelhava-se a figura dos filmes -ou vice versa?
Acreditava que as coisas eram certas ou erradas, sem meias-tintas, capaz no entanto de reconhecer os erros e “mudar de campo”.
Partidário dos Republicanos, não hesita em votar em Carter e aceitar as suas propostas aquando dos tratados do Canal de Panamá, o que a direita lhe não perdoa, considerando-o traidor.

Não se preocupa muito com essas críticas e segue o seu caminho...
Elogia e saúda Jane Fonda, mostrando-se publicamente (ela era para a esquerda o que ele era para a direita) quando ela vence um prémio de Cinema, ou se torna necessário defendê-la.
Não recuava nas situações difíceis. De facto, em 1964, é-lhe diagnosticado um tumor maligno num pulmão, é operado e, poucos meses depois, está de novo no set, a filmar um novo filme…

Ao longo da vida, adquiriu o nickname de Duke. Contava que o nome lhe vinha do cão, um terrier Airdale, que tivera e amara.

Morre em de Novembro de 1979.

De si próprio, dizia com simplicidade:

"When I started, I knew I was no actor and I went to work on this Wayne thing. It was as deliberate a projection as you'll ever see. I figured I needed a gimmick, so I dreamed up the drawl, the squint and a way of moving meant to suggest that I wasn't looking for trouble but would just as soon throw a bottle at your head as not. I practiced in front of a mirror."(*)

(*) Nota: tradução
Quando comecei, sabia que não era um actor e então comecei a trabalhar naquela "coisa Wayne". Deliberadamente, criando uma projecção como se a estivesse a ver. Pensei que precisava de um truque qualquer... então inventei a voz arrastada, um certo olhar vesgo, e um modo de me mover que sugeria que não andava à procura de sarilhos, mas que partiria uma garrafa na cabeça do primeiro, como se andasse. Pratiquei isto tudo ao espelho.”

Deixo-vos os links de alguns filmes:

1930 – The big trail ( A grande jornada )
1939 – Stagecoach ( No tempo das diligências )
1939 - Allegheny Uprising ( O primeiro rebelde )
1944 - The Fighting Seabees ( Romance dos Sete Mares )
1948 – Fort Apache ( Sangue de herói )
1948 – Red river ( Rio Vermelho )
1948 – 3 godfathers ( O céu mandou alguém )
1948 - Wake of the Red Witch (No rastro da Bruxa Vermelha)
1949 – She Wore a Yellow Ribbon ( Legião invencível )
1949 - Sands of Iwo Jima (Iwo Jima - O portal da glória)
1950 – Rio Grande
1952 – The quiet man ( Depois do vendaval )
1953 – Hondo ( Caminhos ásperos )
1956 – The Searchers ( Rastros de ódio )
1957 - The Wings of Eagles (Asas de Águia)
1959 – Rio Bravo ( Onde começa o Inferno )
1960 – The Alamo ( O Álamo )
1961 – The Comancheros ( Os comancheiros )
1962 – The man who shot Liberty Valance ( O homem que matou o facínora )
1962 – Hatari!
1962 – The longest day ( O dia mais longo)
1962 – How the West Was Won ( A conquista do Oeste )
1963 – Donovan’s Reef ( O aventureiro do Pacífico )
1963 – McLintock! ( Quando um homem é homem )
1965 – The Sons of Katie Elder ( Os filhos de Katie Elder )
1967 – El Dorado
1968 – The green berets ( Os boinas verdes )
1969 – True grit ( Bravura indómita )
1969 – The Undefeated ( Jamais foram vencidos )
1970 – Rio Lobo
1971 – Big Jake
1972 – The cowboys
1973 - The Train Robbers (Os chacais do Oeste)
1975 – Rooster Cogburn ( Justiceiro implacável )
1976 – The shootist ( O último pistoleiro )
****************
Ficha biográfica:
Real Name: Marion Michael Morrison
Birthday: 05/26/1907
Birthplace: Winterset, Iowa, USA
Occupation: Actor
Sign: Gemini
Death date: 06/11/1979
Death reason: lung & stomach cancer.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Música, para não deixar entrar a "vidinha"...Sting & Eric Clapton e outros!




Hoje dia 11 de Janeiro, é um belo dia de sol!
Gosto deste dia...
Desafio-vos a continuar o ano com vontade de coisas boas!

De imagens de beleza (bem dizia o Keats -que nunca esqueço- mas que às vezes julgo que é do Shelley): " a thing of beauty is a joy forever...", olhos bem abertos para a vida!, de leituras e releituras, de novidades, de coisas velhas de que gostámos, sem medo do novo nem do velho: nós somos nós, só nós, e é na confiança em nós que se admite o novo e o velho !
Basta que seja aquilo que nós achamos bom...
deixo o início do poema de Keats:
"A thing of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases; it will never
Pass into nothingness; but still will keep
A bower quiet for us, and a sleep
Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing".
Músicas? sim, velhos discos, novos discos, tudo...
Pintura? Sim, o que gostarmos: eu escolhi hoje Chagall e o seu mundo de sonho, de poesia, de realidade poética, de beleza...) e Magritte e a sua pomba com flores.
Um pássaro? por que não? Uma andorinha!
Afastar do peito o diabo do pessimismo, da negação, do voltar ao passado e ficar por lá perdido, morrendo de saudades e esquecer que o presente está aqui, mesmo ao lado. Sentimo-lo a bater ao compasso do tempo e do coração, tum, tum, tum...
Não esquecer que o futuro está mesmo aí a chegar, amanhã, depois de amanhã...
E que -sobretudo- pensar que esse futuro é, em grande parte, o que nós fizermos dos nossos dias.
Os de hoje!

Como dizia no seu blog uma amiga do coração: « Começar um novo ano com desejos de sonhos, desafios, sentires (ah! os sentires, Luísa querida, sempre os sentimentos!!) e não deixar a "vidinha" diária entrar...»

Vamos resistir: a "vidinha" pequenina, medíocre e arranjadinha fica lá fora! Não vai entrar!!!
Música!
Sting & Eric Clapton, por que não?
E outros...











domingo, 10 de janeiro de 2010

Mais policiais "Os Olhos de Jade", Capítulo 11, de M.J. Falcão, a própria...


CAPÍTULO 11


Depois de ter deixado Zurigo, Joan caminhava, pensativa, apertando a gola do blusão de encontro ao pescoço esguio.
Demorou-se pelo jardim, olhando com amor as árvores, tocando os arbustos de bagas vermelhas, parando a ver os canteiros de flores, e o tronco retorcido e sem folhas da trepadeira de glicínias.

Estava uma manhã de sol fria e as árvores lavadas pela chuva tinham os ramos brilhantes.
Preocupava-a o barulho que ouvira há pouco na azinhaga e relacionara-o com a sombra que lhe parecera ver quando as amigas da mãe tinham estado ali, na tarde anterior, a fazer-lhe companhia.

Pensava que, se alguém tinha espreitado pela janela, deveria haver sinais de pegadas debaixo da janela.
Dirigiu-se para a fachada leste da casa, curvou-se, apoiada nos joelhos, e afastou as ervas rasteiras, procurando uma marca qualquer, mas o exame cuidadoso nada adiantou. A terra estava empapada pelas chuvas da noite passada e as ervas, sujas e salpicadas por toda essa terra molhada.
-“Será possível que a minha imaginação me engane duas vezes? Estou a ficar doida? Costumo ser tão lógica..."

Ergueu-se e sacudiu a saia. Continuava a pensar:
-"Sim, não me deixo impressionar facilmente... E, de repente, pareço sofrer de “alucinações”, tenho pressentimentos. Terei medo! Eu?!”

Dirigiu-se para casa e entrou pela porta da cozinha que deixara aberta.
Mary ainda não tinha chegado. Era sábado, costumava vir sempre mais tarde por causa das compras para o fim de semana.
Sentiu a falta dela.

-“Preciso de falar com alguém!, pensou. O Gabriel...”
Resolveu preparar o pequeno almoço para os dois, mas, quando foi espreitar ao escritório para lhe perguntar o que queria, ele já lá não estava. Tinha a luz fechada, a secretária fora limpa, só o computador continuava ligado.
Reparou num envelope comprido, ao lado do candeeiro, que tinha escrito por fora “não abrir”. Tocou-lhe, e a curiosidade fê-la girar o envelope tentando perceber o que estava dentro.

-“Podem ser os papéis da mãe...”
Pela espessura e formato viu que se tratava de uma diskete.
-“Coitado, foi-se deitar, finalmente... Fez bem. Não eve ter dormido nada estas noites...
Lembrou-se dos papéis que lhe vira nas mãos.
- "Que papéis seriam?! Terá encontrado alguma coisa? E a diskete para que será?"
Não havia ninguém para lhe dar as respostas e foi para a cozinha. Pegou no tabuleiro e começou a preparar o pequeno almoço.
A manhã passara e ainda não tinha comido. Tinha fome, pensou.
Encheu uma grande taça com leite e corn flakes, fez um café bem forte e foi sentar-se no sofá da sala com o tabuleiro ao colo.
Recostou-se, pôs-se confortável com os pés em cima do banquinho de couro, e suspirou.
Sentia-se deprimida e ficou encostada no sofá a imaginar coisas.
De repente, perdera o apetite. Limitou-se a tomar o café que, entretanto, arrefecera e fumou o primeiro cigarro do dia.

Suspirou e disse em voz alta:
- Se ao menos o Michael chegasse depressa! Não consigo fazer nada...

Ouviu o ruído de um motor, pousou o cigarro e foi a correr.
Era Helen.

-Helen! Meu Deus, que bom! Parece que adivinhaste como precisava de ti! Estava para aqui sozinha como um cão, a pensar na vida e a sentir-me a última desgraçada do mundo! O Gabriel está a dormir...
-Eu adivinho sempre tudo, querida, já sabes, a tal telepatia... Ao pequeno almoço estava a falar com a Emily sobre a nossa conversa de ontem e apeteceu-me vir dar uma olhadela, ver-te, falar com a Mary, com o vosso jardineiro. Enfim, começar uma investigação!
-Sim! Preciso de raciocinar em voz alta com alguém que me perceba, que me ajude. Estava a pensar no Michael e apareceste-me tu!
Olhou para os sacos que Helen trazia na mão e sorriu.
- Oh! Helen! Não era preciso trazeres comida, a Mary foi às compras, deve vir carregada também...
-Nunca é demais e não te esqueças que vem aí o teu irmão. Vem neste fim de semana, não foi o que disseste? Ajuda-me a pôr os sacos na cozinha...
-Está bem, mas antes de começarmos a investigar, como tu dizes, vamos primeiro tomar um café a sério! Já tomei um, mas não me soube bem, deixei-o arrefecer.
Abraçou-se a ela, como uma criança.
- Podemos tomá-lo na cozinha? Não te importas? Contigo não faço cerimónia e sinto-me bem aqui, mais quentinha. Quando era pequena adorava estar na cozinha...
Quando Mary chegou, já tinham tomado o café e Helen ajudou-a a arrumar as verduras no frigorífico enquanto lhe ia fazendo perguntas.

-Mary, ouça lá, lembra-se se houve qualquer coisa fora do comum, naqueles dias?

Mary olhava-as com um ar surpreendido.
- Bem, antes da morte da senhora, percebe? Por exemplo, um telefonema? Ou uma carta?
-Não, que me lembre assim, não. Cartas não chegaram.
Fungou e limpou o nariz discretamente com um lencinho de papel.
- Só houve os chocolates e as flores...
Joan olhou para ela, com tristeza. Mary continuou:
- A senhora, coitadinha, adorava chocolates...
Ergueu os ombros, com um ar sério.
- Bem. A senhora pergunta se houve elefonemas? Claro que houve, mas...
Helen que estivera a pensar, interrompeu-a:
-Disse chocolates? Mas quem é que lhe mandou os chocolates?
-Julguei que tinha sido a senhora, Mrs. Croft. Ou então a Miss Emily...
-Por amor de Deus, Mary, não me chame Mrs. Croft! Sou Collins, só Collins, Mary! Helen Collins…
-É verdade, esqueço-me sempre que o Mr. Croft...
-Passou à história, é isso! E em que dia é que foi?
-Sei muito bem, pois foi no dia a seguir ao jantar cá em casa. Quase toda a gente telefonou a agradecer, mandaram flores à senhora e essa caixinha de chocolates, pequenina.
Helen sentou-se ao pé da mesa, tirou a boquilha da mala preta e acendeu um cigarro. Aspirou com força o fumo.
- Mas quem é que os trouxe? Viste isto, Joan? Chocolates!

Joan virou-se para a empregada e perguntou:
- Como é que vieram, Mary? Pelo correio?
-Ninguém, quer dizer, vieram normalmente. Foi o carteiro que os trouxe! Era um embrulho pequeno, normal...
E Mary mostrava com as mãos o tamanho do embrulho.
-Normal?...
Helen insistiu:
- De onde é que vinha? Reparou na direcção?
-Vi só o carimbo, era de Brighton. Por isso é que julguei que era das senhoras... Acho que foi o que Mrs. Green também pensou o mesmo porque me disse:
“Sabe sempre do que eu gosto...” Ou coisa parecida. E lembro-me que se riu enquanto abria a encomenda. Vi que era uma caixa pequenina. Daquelas com cinco chocolates...
-Que disparate! Eu não mandei nenhuns chocolates, nem eu nem a Emily! Telefonámos-lhe, claro, e mandei-lhe sete rosas vermelhas...Era um hábito nosso...
Virou-se para Joan:
-Quase um código: “Red roses for a blue lady...” A velha canção dos nossos tempos...
-Mas porquê só cinco chocolates? Ninguém oferece uma caixa tão insignificante...
Joan ficara a pensar naquilo. Helen interrompeu-lhe o pensamento:
-Sabes por quê? Porque cinco chocolates comem-se num instante e o efeito do veneno é concentrado nesse curto espaço de tempo!

- Então achas que tenho razão...?

- Talvez, minha querida. Toda a gente sabia que a Abigail não resistia aos chocolates!
-Sim, e o Gabriel era alérgico, ainda ontem falámos nisso. E todos sabiam disso também... Oh! Helen, que horror!

- Pensando bem, tem algum sentido, disse Helen. E é horrível!

sábado, 9 de janeiro de 2010

A observação e o método, ou: a boa companhia dos velhos amigos Sherlock Holmes e Dr. John Watson...


Hoje vou contar uma história dos dois detectives -que a minha amiga L.S. me enviou...
Eles já têm sido tão maltratados com a brincadeira que foi o novo filme, mais as "suspeitas" que resolveram lançar os espíritos curiosos de tudo o que pode ser "escândalo", chamar atenção, do "people" e etc...


Então é uma anedota?, perguntarão.
Claro que é uma anedota, mas neste princípio de ano que se anuncia "tão sério", tão grave, tão assustador (para alguns) o melhor é começar 2010 a rir!
O título da história pode ser:
"A vida é simples, nós é que temos a mania de a complicar..."
Ou:
"Para quê ser mais papista do que o papa?..."


Ora, então, aqui vai.
Um belo dia Sherlock Holmes e o Dr. Watson vão acampar na montanha...
Montam a tenda e, depois de uma boa refeição e uma garrafa de vinho, deitam-se para dormir.
Algumas horas depois, Holmes acorda o seu fiel amigo:

- Meu caro Watson, olhe para cima e diga-me o que vê.
Watson responde, tentando seguir a lição do Mestre:
- Vejo milhares e milhares de estrelas.

Holmes então pergunta:
- E o que é que isso significa?

Watson pondera durante um minuto, depois enumera:
-1) Astronomicamente, significa que há milhares e milhares de galáxias e, potencialmente, bilhões de planetas;
-2) Astrologicamente, observo que Saturno está em Leão e teremos um dia de sorte;
-3) Temporalmente, deduzo que são aproximadamente 3h e 15m pela altura em que se encontra a Estrela Polar;
-4) Teologicamente, posso ver que Deus é todo-poderoso e somos pequenos e insignificantes;
-5) Meteorologicamente, suspeito que teremos um lindo dia amanhã. Correcto?

Holmes fica um minuto em silêncio, então responde:

- Watson, que palerma! Significa apenas que alguém nos roubou a tenda!!! "
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Podem ficar a meditar... Faz bem.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Louis Amstrong: "It's a wonderful World!" & "In the sunny side of the street"


Por que não há-de o mundo ser maravilhoso como na canção?
Nunca mais acabávamos de encontrar razões, não é? Vamos esquecer tudo isso um pouco e ouvir a voz maravilhosa (essa, sim, maravilhosa, sempre!) de Louis Amstrong, ver o seu sorriso bom, tentando esqucer que a vida nem sempre lhe sorriu, o lugar ao sol foi difícil de chegar... -para ele, o sunny side of the street chegou tarde- e que conheceu melhor o dark side...

A segunda fotografia mostra-o talvez perplexo, talvez triste, é uma fotografia humaníssima.
Louis era um homem bom que nunca soube tomar conta de si próprio nem do dinheiro que ganhava, porque o gastava logo: dava-o aos que via ao seu lado mais necessitados.
Numa tournée pela Europa, em 1933, ficou sem nada do que ganhou, deixou-se roubar por um gangster de meia tigela que o deixou em Londres sem dinheiro nem poassaporte, e teve que arranjar um "manager" (quando voltou aos Estados Unidos), Joe Glaser, para "o" organizar...

E explicou-lhe: "Eu só quero algum dinheiro por semana, o resto és tu que tratas e guardas o resto que sobrar."
E sobrava muito. E Louis continuou a dar dinhiro a quem precisava, Amstrong nunca se preocupou em saber o que ganhava, mas também nunca mais ficou sem dinheiro.

Contam que "dava envelopes cheios de dinheiro a toda a gente que lhe contasse uma história triste... Até oferecia as trompetes às vezes. Foi Glaser que acabou com isso tudo..."
Outros tempos? Viviam-se tempos duros, todos os músicos de jazz dessa época tiveram vidas difíceis, histórias de infâncias abandonadas ao deus dará.
Mas, a generosidade, e a solidariedade existiam, diremos nós...

A solidariedade é sempre possível e depende só de nós que a incluamos no nosso dia a dia ou não...

E que a ensinemos a quem a desconhece, num mundo que escolhe a concorrência desenfreada, o pontapé nos sentimentos nossos e dos outros.

Estas histórias vêm todas contadas num livro que não me canso de indicar: "Wishing on the Moon" (2002), que, na 1ª edição se chamou "Wishing on the Moon: A Vida e o Tempo de Billie Holiday", Da Capo Press Edition, 1994.
Uma boa biografia de Billie Holiday, escrita por Donald Clarke.

E lembro-me dela porque Louis Amstrong foi um dos ídolos da grande Billie Holiday.

Contava ela numa entrevista, em 1956:

"Penso que copiei o meu estilo de Louis Amstrong. Gostava da voz forte de Bessie Smith, mas eu não tinha uma voz assim. Mas quando era ainda muito nova ouvi uma gravação de Louis que se chamava West End Blues. Não dizia nenhuma palavra e eu pensei "mas isto é maravilhoso!, e gostei do feeling que ele tinha e eu sentia ao ouvi-lo."

Diz Clarke: "De facto foi em Amstrong que ela encontrou a verdadeira inspiração".

Eu adoro Louis Amstrong! Hoje vamos ouvi-lo!
















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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A "Autobiografia" de Agatha Christie e o seu último livro "Postern of Fate"




Agatha Christie e Postern of Fate, o último livro

O romance Postern of Fate (intitulado, em Portugal, Morte pela porta das traseiras, e Portal do destino, no Brasil), 1973, foi o último livro da autora em que entram Tommy e Tuppence Beresford, e também o último escrito por ela, três anos antes de morrer.
Hoje decidi falar deste último livro de Agatha, mas não me vou debruçar nos pormenores ou falhas (*) deste última obra. Reli-o e senti algumas dessas falhas, confusões, mas interessa-me tirar dele o melhor.
Estou a ler a sua “Autobiografia” o que torna a comparação mais interessante: ver, por exemplo, o paralelo entre as duas mulheres, a identificação entre Tuppence, já "crescida", com Agatha, a escrever o último livro.

Na Autobiografia há passagens interessantíssimas que nos abrem uma janela para a criança que foi.
A imaginação criativa constante nas brincadeiras.
"O meu arco foi para mim, alternadamente, um cavalo, um monstro marinho, um comboio. Batia no arco enquanto corria pelas áleas do jardim e era um cavaleiro em busca de aventuras, revestido de armadura, uma lady da corte trieinando o seu corcel branco, era Clover (um dos gatinhos), ou, menos romanticamente, o condutor do comboio.."
A invenção de personagens que a “acompanham” - como a família dos gatinhos.
Como ela própria conta:

"Todas as minhas brincadeiras eram de faz de conta. Tive vários companheiros que eu propria inventava. Os primeiros eram “os gatinhos”. Já não sei como eram, nem se eu pópria era uma gatinha mas recordo os nomes: Clover, Blackie e a mãe deles que era a Sra Benson”.
Ou a atracção pelas coisas que causavam horror, a "atracção-repulsa" por certas brincadeiras.
Lembro a brincadeira da irmã que se “desdobrava” noutra irmã que vinha aterrorizá-la e ela nunca sabia quando era Madge, a irmã, ou a sósia dela, que tinha uma voz melíflua, andava de outra maneira e lhe metia medo...
"A minha irmã - conta Agatha- fazia comigo uma brincadeira que me fascinava e ao mesmo tempo aterrava. Consistia na ideia de que na nossa família havia uma irmã mais velha do que Madge. Era louca e vivia numa gruta em Corbin’ Head e às vezes vinha até nossa casa. Na aparência era impossível distingui-las excepto pela voz, completamente diferente. A dela era uma voz suave e untuosa e assustadora!”
E perguntava, tentando compreender :

"Por que gostava tanto da sensação de medo? Qual será a necessidade instintiva que se satisfaz pelo terror? Por que motivo, na verdade, as crianças gostam das histórias de ursos, lobos e bruxas? Haverá algo em nós que se rebela contra o excesso de segurança? Será necessária à vida humana a sensação de perigo?"

E, depois, há ainda os brinquedos, a casa de bonecas, o cavalinho de pau, que balançava e a que chamou Mathilde ou a carrocinha de madeira que ia empurrar da encosta, entrando nela em movimento e que se chamava Truelove. Na vida real da sua infância e na ficção, no romance.
De facto, Agatha vai, na sua saudade, “buscar” os brinquedos da infância e Tuppence vai recuperá-los....

"Nos dias de chuva eu contava com Mathilde. Era um grande cavalo de balanço, oferecido ao meu irmão e à minha irmã na América. Trazido para Inglaterra, não passava agora de um vestígio amachucado do que fora primitivamente, desprovido já da crina, sem pintura, sem cauda, metido numa pequena estufa, já sem plantas que se chamava K.K. (ou talvez Kai-Kai?). Mathilde em acção era explêndiada –muito melhor do que qualquer cavalo de balanço inglês. Pulava para a frente e para trás, para cima e para baixo, cavalgava a toda a brida, até podia atirar um cavaleiro ao chão”.
Mais adiante:

"O companheiro de Mathilde no K.K. era Truelove, um cavalinho malhado, pequeno que puxava uma carroça com pedais. (...) O meu método consistia em puxar Truelove para o topo da encosta relvada, instalar-me cuidadosamente, soltar uma exclamação encorajadora, e aí íamos nós!”
E a meio da acção do livro aparecem os dois brinquedos!
E é engraçado é ver como Tuppence repete os gestos de Agatha.
Lá vêm Matilde e Truelove e é numa dessas descidas, "desde cima da encosta relvada", que Tuppence, como numa aventura infantil, descobre um dos “fios” perdidos que leva à solução do caso.
O enredo do romance:

Tuppence e Tommy, reformados, mudam-se para uma casa antiga, The Laurels, numa pequena cidade do litoral.
Nessa casa há um sótão com caixotes de velhos livros que Tuppence decide trazer para a sala de estar.
Começa a arrumá-los. Mas, enquanto os tira para pôr na estante, vai dando uma olhadela: encontra alguns dos livros que amara na infância: Alice no país das maravilhas, O prisioneiro de Zenda, e muitos de Stevenson: Catriona, Kidnapped, e o seu preferido, The Black Arrow.
Fazem-na recordar o passado e, não resistindo, lê passagens. De repente, chegada à página 65, como depois contará a Tommy, e “sente” qualquer coisa estranha. Teve de repente a sensação de que algo estava errado.

Transcrevo essa passagem:

“Algumas frases estavam sublinhadas. Mas não eram frases seguidas, não, portanto não eram citações a recordar. Pareciam palavras isoladas e postas em relevo, sublinhando-as a tinta encarnada. Leu, retendo a respiração: «Matcham não pôde evitar um grito. Dick surpreendido deixou cair o Windac da mão. Estavam descalços e metem o sabre e a adaga nas bainhas. Ellis ergueu a mão. O branco dos seus olhos brilhou.»
Tuppence abanou a cabeça. Não fazia sentido. Nada daquilo fazia sentido. Copiou as linhas para uma folha e de repente deu-se conta de haver qualquer coisa em que não reparara.
Isto é que faz a diferença”, disse Tuppence. E escreveu algumas dessas letras no papel.
Tommy entra :
Ah! Estás aqui, parece que o jantar está praticamente pronto. Como vão os livros?”
“Tudo tremendamente confuso
, disse Tuppence. Assustadoramente confuso”
“Qual é o problema?”
Bem, The Black Arrow era o livro de Stevenson que nunca me cansava de ler e reler. Estava tudo a correr bem e, de repente, reparo numa coisa estranha: algumas páginas têm palavras sublinhadas a encarnado.”
E, pouco a pouco, como Tuppence vai explicando a Tommy, vê que as letras sublinhadas a encarnado formavam uma frase.
Primeiro surge um nome “M-A-R-Y”, mais adiante “J-O-R-D-A-N” até descobrir uma frase feita com essas letras: Marie Jordan não morreu de morte natural. Foi um de nós. Acho que sei quem foi.
O livro pertencera a Alexandre Parkinson e aí começa uma história nova, e, logo, um novo enigma a desenredar:
Quem era esta Mary Jordan?
Por que motivo Alex deixa esta mensagem?
Por que motivo Alex morre ainda miúdo?
Tudo se passara entre 1915 e 1916, durante a 1ª Guerra.

Tuppence inicia a investigação, andando de casa em casa, passando pelo asilo dos velhinhos, indagando, recorrendo à memória das velhas senhoras da terra.
À partida, trata-se de um problema de memória, ou de re-memorar o passado. O resto vem por si...

Sempre interessante a semelhança das “recordações” de Tuppence e Agatha, entre a infância de ambas, os brinquedos de Agatha de que falei acima, que aparecem neste romance com os mesmos nomes, como vimos: Mathilde, o cavalo-de-pau, Truelove, a puxar a carrocinha em que Tuppence se deita pela encosta abaixo, do mesmo modo que Agatha o fazia em pequenina...
Leiam. Com todas as críticas que se lhe possam fazer (e fizeram*) é um belo livro! Como não podia deixar de ser...

Nota:
*) Uma das críticas que fazem ao livro, encontrei-a na Wikipedia:

I was expecting to like this novel. First, Tommy and Tuppence have always been my favorites of Christie's detectives. Tommy is slow and sure, Tuppence is quick-thinking and impetuous. They're madly in love with each other and quite devoted. In this book, though, Christie can't seem to remember whether she is writing about the young couple, the middle-aged one, or the senior ones. They never behave consistently and people react to them as if they are wildly different people. Everyone worries about Tuppence, but she never does anything in the book that would give them cause to”.

***
Informações:
A última reedição deste livro, na editora "Livros do Brasil", foi em 2002, colecção Vampiro Gigante.
Entretanto -e para quem não saiba-, a Relógio de Água está a editar a "Obra Completa de Agatha Christie"

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Mais Música: os"Cocteau Twins" e Elizabeth Fraser

A voz magnífica de Elizabeth Fraser. Desta vez foi o meu filho que me falou -há muito já- desta cantora e do seu modo especial de cantar, da escolha das palavras com musicalidade, às vezes sem qualquer sentido, apenas uma sonoridade, som puro...


Música para o Ano 2010: os "Massive Attack"



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Bom Ano com Boa Música!

"Massive Attack" e a voz inconfundível (lembram-se da vocalista dos "Everything but the Girl"?) de Tracey Thorn em"Protection"!

E Elizabeth Fraser ( dos Cocteau Twins) e a canção "Teardrop"! Outra voz fora do comum...

Enjoy!

Chico Buarque e a solidão... E se amanhã fosse mesmo "outro dia", como na canção?



Sim, por que não há-de amanhecer um dia melhor, mais livres, mais próximos, mais vivos?
Ouçam a canção de Chico Buarque "Apesar de você..."
Talvez ajude um pouco a não nos perdermos de nós mesmos, a não perdermos a nossa alma, como diz ele acima.
Além disso, penso que é sempre um prazer escutar a sua voz e ouvir o que ele diz...



sábado, 2 de janeiro de 2010

Retomando a leitura de Batya Gur...


























Tive uma notícia triste no final do ano...
Dando uma volta pela internet, descobri, num artigo de Merav Yudelevitich (no New York Time de 20/05/05), que Batya Gur, uma das minhas escritoras preferidas de romances policiais, morreu em 2005!
Fiquei chocada: como é possível?

Fazia tenção de continuar a ler os livros dela...

Quem era Batya Gur?, hão-de perguntar.


Aqui vai o que sei:
Quando cheguei a Telavive, soube da existência desta escritora de policiais. Escrevera já uma série de livros.
O primeiro que li chamava-se The Saturday Morning Murder: a Psychoanalytic Case e saíra em 1988 (o título da tradução portuguesa é: Assassínio do sábado de manhã, publicado pela Relógio d’Água, em 2002).

Fora publicado já–como os outros que se seguiram- pela prestigiosa casa editora americana HarperCollins Publishers, de New York, em 1992.


Li-o em 1998. Como tantas outras coisas, foi a minha filha que mo “trouxe”: tinha uma “paixão” pelo detective, Michael Oyahon, o jovem Inspector-Chefe da Polícia Criminal, figura simpática e culta, aventureiro, divorciado, com um filho adolescente, cujos problemas não esquecemos, e várias apaixonadas, que vão mudando de livro para livro.

Fui buscar os exemplares que tenho na minha estante sempre à mão, e, com tristeza e muita nostalgia, abri o romance Assassínio do Sábado de Manhã.


Começa assim:
“Levaria anos, e Shlomo Gold sabia-o, antes que pudesse voltar a arrumar o carro em frente do Instituto, na Disraeli Street, sem sentir uma mão gelada apertar-lhe o coração. (...) Ainda ouvia as palavras do velho Hildesheimer vibrarem-lhe na cabeça. O problema não era o edifício em si, dizia ele: não era o edifício que causava aquela ansiedade; mas sim os seus próprios sentimentos em relação ao acontecimento.”

Começo a lembrar a história, a intriga aparentemente impossível de resolver, as pistas falsas, a mente subtil por detrás -o assassínio quase perfeito!-, a análise psicológica contínua que a autora desenvolve em cada personagem. O leitor corre de página para página numa ansiedade crescente porque quer ver o mistério resolvido!
Os críticos costumavam dizer que o amor e a atracção pela escritora, e pelos romances dela, ia aumentando de livro para livro.

Muitas vezes, pensei:
O próximo já não vai ser tão bom, não pode aguentar esta intensidade sempre...e manter o ritmo alucinante...”
Mas o próximo romance vinha, e -pegando num assunto completamente diferente- a acção centrada agora numa outra realidade (como por exemplo, Murder on a Kibbutz, que nos vai “ensinar”, paralelamente, o que era, no seu início, um kibbutz, como mudou, o que é agora...), misturando o suspense, a intensidade, a angústia de “perceber” o porquê ? do assassínio, o como?
Seguem-se outros livros:
Literary Murder: a Critical Case (1991), passado numa no Departamento de Literatura, da Universidade de Jerusalém, em que o ambiente é fielmente dado, e as personagens -dos catedráticos aos alunos- se movem, habilmente conduzidos pela autora, numa teia de ódio, lutas subterrâneas, estratagemas ignóbeis para dar cabo da carreira do colega, etc, etc, (sempre actual, infelizmente). As histórias de Batya Gur, best sellers em Israel, foram traduzidas em várias línguas e tiveram uma boa crítica a nível mundial (em Espanha, por exemplo estão traduzidos pelo menos uns cinco tíetulos: procurem na internet, "Casa del libro", esta capa é de Asesinato in directo, mas há muitos mais publicados!).



Um crítico confessava: “Quando vejo a polícia às volta, sem saber quem foi o assassino (whodunnit?), pergunto aempre a mim próprio: “O que faria Michael Ohayon?!”

Isto diz tudo: o personagem de romance tornou-se num homem, um ser humano como os que conhecemos.

Batya Gur dizia do herói: “Fala por mim... o que não posso dizer, diz ele: ele é um homem, eu sou uma mulher...”
O detective que criou para resolver os casos difíceis (relacionados com comunidades diversas, dentro do próprio país) é um outsider em Israel, um sefarad, nascido em Marrocos, que vai procurar mergulhar nestes mundos tightknit (como traduzir? "tricotados"?), e compreendê-los, com a dedicação paciente e a humildade de um aprendiz.
O jovem Comissário não é apenas um herói simpático, com boa apresentação, generoso. É igualmente uma pessoa culta, um cerebral, um introspectivo e um melancólico apaixonado. Formado em História, por Cambridge, é autor de uma dissertação de Doutoramento (inacabada) sobre as corporações na Idade Média...

As soluções que encontra saem, no fundo, da compreensão gradual desses mundos fechados e dos problemas filosóficos profundos que existem no coração de cada uma dessas comunidades.
É em 1988 que Batya Gur começa a escrever as séries policiais com o detective Michael Ohayon que vai imediatamente prender os leitores israelitas.

Batya Gur aparece a falar dessas sociedades –ou classes- fechadas como, por exemplo, um Instituto de Psicanálise (Saturday Morning Murder), o Departamento de Literatura, (Literary Murder: a critical case, 1991), um kibbutz (Murder on the kibbutz, 1994), o mundo dos músicos da música clássica (Duet Murder: a musical case, 1999) – cujas tensões, facciosismo e preconceitos são os que se observam no país, em movimento contínuo, interrogações, em convulsões, profundas e criativas...

E Ohayon vai procurar, na compreensão e no conhecimento da natureza humana, a solução dos casos. Consegue “quebrar” as regras de silêncio e entrar nessas sociedades fechadas sobre si mesmas.
Depois dos livros que referi, escreveu ainda The Bethlehem Road Murder(2004), Murder in Jerusalem (publicado póstumo, em 2007) e outros...


Abro agora Murder Duet (que, felizmente, ainda não li: sim, tenho um livro dela para ler!) que começa assim:
Quando pôs o CD no aparelho e ia carregar no botão play, Michael Ohayon teve a impressão de ter ouvido um grito fino. Passou no ar, e desapareceu”.


A música era a 1ª Sinfonia de Brahams que adorava, e o grito era real, era o de uma bébé que gritava, abandonada ali na rua e que Michael, quando a vê pensa adoptar, se ninguém aparecer a reclamá-la...
Dizem, na notícia, que “foi vitimada por doença grave contra a qual lutou com esforço, trabalhando todos os dias quase até ao dia em que morreu, publicando todo o material que tinha e achava importante fosse publicado”.


Nota biográfica


Batya Gur (20 de Janeiro de 1947-19 de Maio de 2005), filha de sobreviventes do Holocausto, era uma crítica literária conhecida. Com um Doutoramento na Universidade de Jerusalém, ensinava Literatura e era Leitora na Open University. Ensinou muitos anos nos Estados Unidos. Era, também, uma activista social e uma figura política.

Durante muitos anos ensinou na Universidade de Ofakim, no sul de Israel. Foi nessa altura que, aos 39 anos, decidiu começar a escrever.
Passou os últimos anos da sua vida no bairro Germany Colony em Jerusalém. Era também uma activista social e uma figura ligada à política (Next to the Hunger Road, 1991), foi crítica literária e ensaísta no jornal "Haaretz".

Títulos em português:

Assassínio do Sábado de Manhã, de Batya Gur, editora "Relógio de Água", 2002

Colecção: Crime Imperfeito
Preço 14.00 €

Pergunta: Por que não publica a "Relógio de Água" os outros romances de Batya Gur? Devia publicar...

Conselho (aos leitores interessados): Procurem já o Assassínio do Sábado de Manhã, da escritora Batya Gur! Vale a pena!

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Bom Ano Novo: Madrugada de Ano Novo do poeta Lu Yu, Tao Kian e a minha amiga Lívia, filósofa das coisas da vida e da Arte...


ALGUMAS SUGESTÕES PARA UM ANO DIFERENTE...

1ª sugestão :
Serenidade, Tranquilidade, Paz interior verdadeira!
Leiam este poema, pode ajudar...
Madrugada de Novo Ano

"Mal consegue, surpreendida, aguentar o frio esta coberta nova.
Levanto-me, a ver, rápida neve transformar em estrelinhas o branco de jade.

Pronto é Madrugada. Para te inclinares diante do deus do palácio do Vazio
Este, com o qual, coberto, suporta o cavalo no estábulo os fins da noite."

LU YU (1125-1210)


2ª sugestão:
um pensamento sábio para o Ano Novo: procurar a Arte e a Beleza sempre...


"A medida da Arte é a arte sem medida. Por isso o arista não é especialista em coisa nenhuma. Por issso o artista sabe tudo. A arte não é a ciência exacta, a arte tem vida."

Sun Chia Chin

(citado no blog "Imagem, Irealidade Real. Atemporal. Alinear" - de que aproveitei também as belas imagens, pinturas desse mesmo Professor Sun Chia Chin)

3ª sugestão:

Ter simplicidade ao aceitar a vida, o que por aí vem, de olhos bem abertos...

Deixo este poema de Tao Kian -poeta chinês do século IV d.C.- que me enviou a minha maior amiga, Lívia, filósofa, sábia, mulher sensível...

Meditemos, gente!

Esta frase é uma homenagem a Renzo Arbore, grande apresentador e actor italiano que, no seu programa "Quelli della notte", aconselhava sempre : "Meditate, gente, meditate!...


A BIOGRAFIA DO SENHOR WU LIU
(de Tao Kian)

Calmo, sossegado, pouco fala,
não sonha glórias nem ganhos.
Gosta de estudar,
não procura ter conhecimentos profundos.
Quando compreende,
fica tão contente, até se esquece de comer.
Por temperamento, aprecia vinho. É pobre.
Nem sempre o pode obter.
Os amigos sabem disso,
e, por vezes, convidam-no para beber.
Fazem-no beber tudo,
até terem a certeza que está embriagado.
Quando fica embriagado, retira-se,
nunca mostra sentimentos de discórdia se parte ou se fica.
Quatro pobres muros são a sua casa,
e não o abrigam dos rigores do sol e do vento.
Veste-se com roupa curta, grosseira, remendada,
tem os cestos de vitualhas quase sempre vazios,
e é como se fosse um festim!
Por vezes escreve para se divertir,
e, nesses escritos, exprime bastante bem aquilo que é o seu desejo.
Esquece no seu coração o ganhar e o perder,
e assim vai ele até findar.
TAO QIAN ( 365-427 )
***

Claro que não é fácil ter toda esta filosofia assim de repente, logo no primeiro dia do ANO!
Não, isto é para ir meditando devagar...
Mas, COM CORAGEM!, tentando sempre mudar um pouco: a fúria que nos enche às vezes o peito, a raiva de não ser tudo como se quer, logo, a vontade de pegar no ódio que está mesmo ali à mão e dá menos trabalho do que querer compreender isto e aquilo, os outros.
Aproveitar cada dia, cada momento... Não custa tentar...
RECORDAR O PROFESSOR KEATING DO "CLUBE DOS POETAS MORTOS", QUANDO ACONSELHA OS SEUS ALUNOS: "CARPE DIEM"!
E sorrir...
Vá lá, tentemos!
E... aqui está o doce e maravilhoso Charlot para nos ajudar neste começo do Ano 2010 que nos assusta um pouco!
UM BOM ANO NOVO ... E ALEGRE!

A estátua do Charlot está na Leicester Square e, por alturas do Natal, a Praça estava em festa e consegui tirar esta fotografia...