sexta-feira, 18 de junho de 2010

CONCERTO AO AR LIVRE

A pedido do meu colega bloguista "Trepadeira", aqui vos deixo um convite!


CONCERTO AO AR LIVRE



ESTÃO TODOS CONVIDADOS.

CONCERTO AO AR LIVRE.

GRATUITO.

O concerto tem, entre outros claro, o objectivo de alertar para a preservação do Vale do Mondego em especial do Parque Natural da Serra da Estrela, da Rede Natura 2000 em geral -e da NATUREZA como necessidade imperiosa e urgente.

SEM ESTARDALHAÇOS.

PEÇO AOS MEUS QUERIDOS AMIGOS DOS BLOGUES, ALÉM DA PRESENÇA NO CONCERTO, A DIVULGAÇÃO.

A TODOS AGRADEÇO.

mário

Post scriptum:

QUEREMOS AGRADECER, PUBLICAMENTE, AO GABINETE DA SENHORA MINISTRA DA CULTURA DRª. GABRIELA CANAVILHAS,A SUBIDA FINEZA DE TER MANDADO DIVULGAR O CONCERTONATURALISMOS.

É com muito gosto que venho "divulgar" este convite feito pelo meu amigo do blog "Trepadeira" -blog que me habituei a vir ver -regularmente- pela beleza das imagens da natureza, os pássaros de mil cores e feitios, das flores de tons suaves, ou vivíssimas, que eu ignorava existissem.

Venham, pois, os que puderem, ao Vale do Mondego, à Quinta da Fundação Trepadeira Azul, ouvir a guitarra de Hugo Simões: este concerto em plena natureza!


Boa sorte!

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Para Moscovo!


PARA MOSCOVO!

FESTA ITALIANA: MOSCOW art: Luca Valerio D'Amico


Lembram-se da frase da peça de Tchekhov, “As Três Irmãs”, uma das peças mais tristes e mais desiludidas deste autor?


Acaba exactamente com esta frase, este desabafo das irmãs, o desejo de partir, sair daquela cidade de província, ir embora para Moscovo!

”Para Moscovo!”

Mas desta vez não se trata de Tchekhov, nem de uma história triste; muito pelo contrário: o meu amigo Luca Valerio vai participar numa exposição em Moscovo, num dos sítios “in” desta cidade louca de luxo e de pobreza, de doçura e de violência, de dureza...

O meu amigo Luca é um amigo do Facebook, mas é ainda "mais amigo" por uma razão bem importante!

É filho da Minha amiga Enrica, a italiana com os olhos do azul mais bonito que conheço!

Tem origens brasileiras, em Teresópolis, diz, e fala o italiano mais cantado e mais doce que já ouvi na vida...

A Enrica é minha amiga há muitos anos e, juntas, ainda hoje nos rimos de muitas coisas, quando volto a Roma. O seu riso é comunicativo, nunca conseguimos deixar de rir, mesmo quando falamos de problemas.

Longe, pelos emails continuamos a conversa em “do sostenuto” (?), a escrever sobre as coisas da vida e a continuar a rir do que acontece, a tentar “ver positivo”, como ela insiste sempre!

Contra os pessimismos, o masoquismo dos outros, é este o nosso lema:

“Se pudermos estar bem, para que havemos de estar mal?!”

É uma filosofia como outra qualquer para contrabalançar as agruras do momento que passa, do trabalho, das preocupações que vão ou vêm, as duas cúmplices, ela com a sua ironia suave, o seu sentido do humor um pouco negro mas divertido, às vezes cáustico, mas nunca com maldade...

E eu a segui-la, divertida...

E lá vêm as histórias do cão Elliot (que imagino sempre como um louco “fox terrier” vestido de Inverno com a sua capinha escocesa). E da Pìcchia, a gata siamesa, que dorme na cama deles, em cima dos pés do marido, um santo homem...

Acabamos sempre a dizer: “Ma che te lo dico à fà?!” O que (mal traduzido) será um pouco: “Mas para que te estou a dizer isto?...”, subentendendo que “a outra já sabe”...

Bem , mas eu queria era falar do Luca! Dos quadros do Luca.

O Luca é um artista, pintor e gráfico. Viveu na Suécia, lutou corajosamente, contra o frio, a neve, a distância dos suecos, e veio cheio de ideias, que pôs em prática, em Roma.



O Luca é um artista, pintor, gráfico. Viveu na Suécia, lutou corajosamente, lutando contra o frio, a neve, a distância dos suecos, e veio cheio de ideias, que pôs em prática.

Hoje o caminho é “para Moscovo”!

A Enrica escreveu-me há dias um email em que me contava tudo:

“Il 22 giugno Luca parte per Mosca (rimane una settimana) dove il 24 ha una expo. "Festa italiana" è il titolo della serata in un locale molto esclusivo e lui è il protagonista, con i suoi quadri, naturalmente. Della serie "Incredibile ma vero".

E comentava, filosoficamente:

"Come dicevano i latini: "Nemo profeta in patria"...

Sim, “ninguém é profeta na sua terra”...

“A Mosca!”, como exclamavam as três irmãs... Para Moscovo!

Boa sorte...

A Mosca, e Buona fortuna, Luca!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Recordação do Caffè San Marco em Trieste, ponto de encontro da Cultura...

O "CAFFÈ SAN MARCO" EM TRIESTE NA PIAZZA DELL' UNITÀ E OUTROS CAFÉS DE CULTURA...

O Caffè Tommaseo, em Trieste, outro café histórico
Hoje venho falar-lhes de uma cidade um pouco fora deste mundo: Trieste.
Cidade encruzilhada de culturas, ligada à cultura mitteleuropeia e ao antigo Império Austro-Húngaro, de que fez parte.


Por ela passaram –e nela viveram- grandes nomes da literatura e da cultura italiana: Italo Svevo ( pseudónimo de Ettore Schmitz - Trieste, 19 Dezembro de 1861 – Motta di Livenza, 13 de Setembro de 1928), grande escritor e dramaturgo austríaco (porque nessa altura a cidade de Trieste pertencia à Áustria), naturalizado italiano. Autor da "Coscienza di Zeno", "Senilità", "Una Vita".
E os escritores Scipio Slataper e Gianni Stuparich (que morrem jovens), o grupo “da Psicanálise” de Edoardo Weiss (Trieste, 1889 – Chicago, 1948) , Giorgio Voghera (*), o crítico Roberto Bazlen que fez conhecer, em Itália, Freud, Kafka e Musïl...
Fotografias de Giorgio Voghera (à esquerda, em cima) e Edoardo Weiss (à direita em cima), Roberto Bazlen em baixo, à esquerda)

Weiss, conhecido psiquiatra e psicoanalista, trabalha primeiro em Trieste e depois em Roma, e teve um papel pioneiro na difusão desta especialização. Em 1932 fundou a Società Psicoanalitica Italiana. Em 1939 exila-se nos Estados Unidos (**).

Capa dos livros mais famosos de Slataper, "Il mio Carso", e de Stuparich, "La guerra del '15".
Também Umberto Saba, o poeta, sai da sua Livraria e vem discutir com os amigos no café... O Caffè San Marco, criado em 1914, e. logo desde o início, foi o ponto de encontro favorito para os triestinos, para os estrangeiros, intelectuais, leitores de jornais e jovens irredentistas, que pretendiam que a Itália voltasse a pertencer à Itália e por isso lutam os jovens Slataper, Stuparich....

James Joyce é um dos estrangeiros que passa por Trieste. Onde conhece Svevo (é seu professor de inglês...) e é Svevo que "descobre" e revela as qualidades dos livros de Joyce, o mal-amado, exilado da sua Irlanda natal -que lhe queimara os livros, Dubliners, por exemplo...

O Caffè albergou, nesses anos de luta pela independência, uma organização de passaportes falsos, necessários aos patriotas anti-austríacos, os tais irredentistas, para fugirem para Itália.

Por essa razão, em 1915, uma esquadrilha austríaca destruíu o café.
O café foi restaurado várias vezes mas mantém o seu aspecto original: fascinante.
Entre os visitantes famosos encontram-se escritores como Claudio Magris, autor do livro "Danúbio" (do qual existe uma tradução na Dom Quixote) -que fala dessa cultura mitteleuropeia, que se desenvolve e corre ao longo do rio Danúbio.

Magris dedicou o primeiro capítulo do seu Microcosms ao seu café favorito, o Caffè San Marco.

Nesse capítulo recorda nomes de muitos intelectuais que frequentaram o Caffè San Marco, ali discutiram, escreveram, viveram durante uma hora ou muitas mais, alguns mesmo o dia inteiro...

Outro livro -fundamental- de Magris intitula-se "Trieste: Un'identità di frontiera" (***) e fala desse mundo onde confluiram várias "fronteiras" que enriqueceram a cidade, tornando-a única de facto. Trieste e a Piazza dell’ Unità, desenhada –dizem- sobre o modelo da nossa Praça do Comércio: do mesmo modo aberta ao mar em frente, no caso de Trieste “il Mare Adriatico”.
A Trieste do velho Caffè degli Specchi, na Piazza dell' Unità, e da harmoniosa antiga pastelaria, La Bomboniera.


E de tantos outros cafés de classe, "pontos de encontro" de jovens, intelectuais, gente comum, lugares de troca de ideias e de mundividências... Onde ainda hoje se realizam "festivais"-concursos internacionais- de Poesia.

O Caffè San Francisco, no porto de Trieste

Lembro Giorgio Voghera que conheciemos em Trieste, nos anos 80. Uma pessoa maravilhosa, doce, cheia de paciência, com uma juventude interior que nunca perdeu.
Foi uma personalidade ligada aos seus estudos sobre o Judaísmo e a Psicanálise.
Nasce em Trieste em 1908 e morre em Trieste em 1999. Escritor, conhecido como romancista e ensaísta.
Era filho do autor do romance “Il Segreto”, conhecido por Anónimo Triestino, Guido Voghera.
Vive toda a vida em Trieste excepto o período das perseguições raciais em Itália nos anos da Guerra, anos que passou num Kibbutz em Israel e sobre cuja experiência escreve no seu livro "Carcere a Giaffa".

Escreve entre outras coisas: “Gli Anni della Psicanalisi” (1ª ed. 1968) Studio Tesi, 1980; "Nostra Signora Morte" (1983), onde fala da vida e da morte...("La vita à una splendida tragedia/e la morte il suo perfetto epilogo"; ou: "Il segreto della vita è/dimenticarsi della morte./ Il segreto della morte è/accompagnarla come un'ombra")- e mais tarde "Carcere a Giaffa" (1985).


Diz Voghera no início de "Gli Anni della Psicanalisi":

“Trieste foi a encruzilhada de muitas culturas, a porta através da qual muitas correntes de pensamento europeu –ou, antes, mitteleuropeu- entraram em Itália. Ouvia-mo-lo dizer tantas vezes que não acreditávamos que seja verdade. Mas aquela corrente que nos primeiros anos do pós-guerra desceu de Viena para conquistar a Itália – a psicanálise, quero eu dizer- mais do que uma corrente foi um ciclone. Ainda jovem, vivi no olho desse ciclone numa relativa calma pessoal; mas todos os adultos que me rodeavam, pais, parentes, amigos, conhecidos foram literalmente arrastados por esse terramoto”.

Poderia falar de outros nomes... Quarantotto Gambini, etc...

Lembro que, recentemente, apareceu a escritora Susanna Tamaro -que nasce em Trieste a 12 Dezembro de 1957- da qual não falo porque não li. Ainda...

(*) Voghera vive toda a sua vida em Trieste excepto o período das perseguições raciais em Itália nos anos da Guerra, anos que passou num Kibbutz em Israel.
(**) Edoardo Weiss: As leis raciais de 1939, obrigaram-no a procurar refúgio nos Estados Unidos, primeiro em Topeka e depois (1940) em Chicago. Ali em 1942 torna-se Professor do Chicago Institute of Psychoanalysis

NOTA: ver os vídeos sobre o Caffè San Marco em Trieste:

1 - http://www.youtube.com/watch?v=vqWPgsqbkcE

(as cenas são do filme de Mauro Bolognini "Senilità" -tirado do romance homónimo de Italo Svevo, 1962.
Foi apresentado no Festival de San Sebastian, em 1962, e ganhou o prémio da melhor realização.)

2. http://www.youtube.com/watch?v=AK_d8QIAV3s

sábado, 12 de junho de 2010

O Café Gli Amici, em Lisboa...Ou a cultura dos cafés...



O CAFÉ “GLI AMICI”


Conheço o dono do café "Gli Amici" desde pequeno. Tão bem como conheço os meus próprios filhos... Bem, exagerando um pouco...

Não, não é italiano, é português, mas foi uma vez a Itália e veio de lá apaixonado por Roma.

Matemático, curioso de tudo desde jovem, culto, foi leitor insaciável –também de livros policiais.

Ainda me lembro do tempo em que me emprestou os livros de Patricia Highsmith que li em português. Recordo bem, por exemplo, a capa de “Azul Cobalto”!

Arriscou-se a abrir "Gli Amici".

Apreciadora de bom café e de Cafés, cafés “com ambiente”, teria de me interessar por este...

E tantos conheci que me deixaram recordações inesquecíveis!

Um café, claro, em Roma no "Caffè Tre Scalini", para começar. Na Piazza Navona.

Ou um capuccino no "Caffè Sant'Eustacchio".
Ir ao Tazza d’Oro, ao pé do Pantheon, cheio do perfume dos sacos de café e de grãos de café vindos de todo o mundo...
Tazza d'oro, la regina dei caffè...

Ou no Caffé della Pace, na Piazza della Pace.


Ou ainda na “Dolce cassia”, ao pé de casa, na Via Cassia, pastelaria cheia de bolos bons...


E tantos outros pequenos cafés por aqui e por ali aparecem sempre, onde se bebia um café escaldante e se comia um croissant e se conversava, con gli amici...


Em Paris, em toda a parte, um café (roube a foto da capa de um CD do Brassens...)

Ou o "Caffé Manya" em Moscovo, e os "Coffee Beans" e "Cioccolada" que ali havia por todo o lado, com o seu ambiente jovem, cheio de quadros, e sempre uma tarte de maçã com natas ácidas.
Ou Londres e os “Caffé Nero”, os “Paul”, os “pubs”. E o ambiente vivo, os quadros, a lareira acesa, os jornais à disposição, os livros por vezes...
Em Cambridge, ou em Windsor...

Ou em Telavive, na Ben Yehuda ou na Dizengoff Street. Dizengoff, a rua mais famosa de Telavive...Nome famoso em todo o mundo: aqui no Sul de Londres...


Andando -quer para Norte quer para Sul- pode dizer-se que na Dizengoff, há café sim, café sim, café sim. O "Café Michal", na Sederot Ben Gurion, onde passava todos os dias com o meu cão Zac, de regresso a casa, na Lassalle...

Ainda me lembro do velho Café Kassit café que conheci bem...


A cultura dos cafés...

Existe mesmo hoje, em hebraico, na gíria telaviviana, a palavra “to dizengoff" –"dizengoffar", é isso: ir beber um café e estar com os amigos. um café de Telavive

Pois, como dizia, “amadora da cultura dos cafés” como sou... venho desejar boa sorte ao Café Gli Amici!


Boa sorte aos amigos e ao Z.M. É preciso coragem... e tiveste-a!

Tanti Auguri!, como diriam os nossos amigos italianos...

Portanto, amigos que me lêem: convido-os. E se fôssemos “dizengoffar” um pouco no "Gli Amici"?

O Café Gli Amici fica na Praça de Telheiras 15D, à saída da estação do Metro. / Aberto todos os dias das 9 às 21h [e tal]. Muitas vezes muito “e tal”!

Um café onde pode ouvir boa música ( a fotografia no alto mostra o momento de um concertosao vivo), tem exposições de fotografias. Pode-se estar "em companhia", num bom ambiente.

E também poderá ver o Mundial na África do Sul!


sexta-feira, 11 de junho de 2010

O filme "Tsotsi", do realizador sul-africano Gavin Hood...



Ontem a televisão franco-alemã "Arte" passou um filme que não tinha visto. E que me impressionou: "Tsotsi", do realizador sul-africano Gavin Hood, uma co-produção com a BBC.



O filme é baseado no romance homónimo do escritor sul africano, Athol Fugard.
Athol Fugard nasceu em 11 de Junho de 1932 em Middelburg, África do Sul. Escritor, dramaturgo, novelista, actor e realizador, que escreve em inglês, é muito conhecido pelas suas peças políticas de oposição ao regime do apartheid. É hoje professor no Department of Theatre and Dance na University of California, San Diego.
O herói, Tsotsi, é um jovem que sobrevive sozinho desde a infância, quando foge de casa com medo do pai, bêbado e violento, que acabara de matar, ao pontapé, o cão rafeirinho que o defendia sempre.

A mãe fica para trás, doente de sida. A mãe que o quer ter ao pé, que lhe pede a mão, e o pai que lho impede.

Tsotsi corre, assustado, corre na noite e vai ter a um ghetto de Joanesburgo. Ali cresce, com outros meninos da rua, primeiro "protegidos" do frio e dos calores, em tubos gigantescos de betão, roubando por aqui e por ali, ganhando assim o pão do dia a dia.
Passando, cedo, aos assaltos à mão armada.

Quando o filme começa, Tsotsi é já o chefe de um gang: ele e três amigos.
Um jovem duro e violento, menino da rua, delinquente ("tsotsi" em Zulu significa "black hooligan", "delinquente negro") que assalta, rouba e, quando necessário, mata -desde a juventude- para sobreviver.


A figura de Tsotsi é interpretada por Presley Chweneyagae -que nunca fora actor na vida... - e que faz maravilhosamente o papel desse rapaz solitário, perturbado, que vive no fio da navalha, porque nada tem a perder.

Sem laços afectivos -para além dos companheiros de gang- é um ser à deriva, sem referências, sem esperanças.

Alguns encontros, nesses poucos dias que passam, vão marcá-lo. Porque o levam a relembrar (em rápidos e secos flash-backs bem conseguidos) a sua infância desgraçada, a falta de afecto, e “abrir” o coração endurecido.
Depois de um assalto, os quatro amigos vão beber, zangam-se, sem motivo especial, talvez porque tinham morto um homem.

Tsotsi esmurra um deles -que o censura e lhe fala de "decência"-, e deixa-os.

Deambula pelas ruas desertas, vai por debaixo das pontes onde a miséria se esconde e os pobres reúnem.

Vai até à "cidade de vidro", rouba um carro, disparando sobre a mulher que o tenta impedir.
Do outro lado do bidonville...

Sim. Porque do outro lado do bidonville existe a cidade dos arranha-céus de vidro, brilhando ao longe como estrelas.

Um terreno abandonado pedregoso, selvático, de muros caídos, ruínas e tubos de cimento das canalizações abandonados, separa as duas realidades.

Tsotsi atravessa essa “terra de ninguém” (ou das pobres crianças abandonadas que, como ele, pequenino, ali vivem nos buracos dos canos.

Mais adiante há os lugares debaixo das pontes, ou nos parkings abandonados onde dorme o resto da miséria.

Um dos encontros é com um velho pedinte meio cego e hemiplégico que ele persegue, talvez com o intuito de o roubar, talvez não...

É tremenda esta cena -de uma violência enorme.

Tsotsi interpela-o, com desprezo. O velho tenta fugir aterrorizado, em frente da arma, arrastando-se no carrinho de rodas, abraçado à latinha das moedas que ganhara, o sustento do dia...

"Se te rebaixas, se te arrastas como um cão ao morrer, para que queres viver?!” , pergunta-lhe, revoltado.

São as imagens do seu cão, de espinha quebrada, a arrastar-se, que ele recorda.

Censura-o por aceitar viver sem dignidade nem respeito por si (mas como poderia?...), sem revolta; achando mais “digna” a sua vida: assaltar correndo um risco –matar ou morrer?-, apostando a vida em cada acto, arrancando à vida em cada instante o que ela lhe negara...
O velho responde, apenas:
“As minhas mãos ainda gostam de tocar nas coisas... Gosto de sentir o sol na cara...”

Tsotsi fica espantado com a resposta e deixa-o, a meio do lixo. Foge.

Corre em direcção à cidade das luzes. É nessa noite que assalta a mulher para lhe roubar o carro “topo de gama”.

Guia, pelas estradas desertas, sem saber guiar, até estoirar o carro, perto duma entrada do ghetto.

Tira tudo o que está lá dentro, mas ouve um bébé chorar no assento de trás. Hesita, não sabe o que fazer, quer fugir mas volta para trás e leva o bébé consigo.

O bébé que, num impulso incontrolável, decide “proteger” e amar como nunca amara nem se sentira amado há tantos anos...

Há tanto tempo... A mãe quisera tê-lo ao pé, puxava-lhe pela mão. E o cão que ele adorava, a morte do cão...

Tudo vem à memória do jovem Tsotsi quando leva o bébé com ele, num saco das compras.

Aquele encontro - e, mais tarde, o encontro com Miriam uma jovem mãe que perdera o marido e vive perto da barraca dele, com um filhinho- vai modificar a sua vida.

A ternura, aquele sentimento novo, surpreende-o. A generosidade -que nunca encontrara em ninguém- fragilizam-no...

Tsotsi consegue convencer Miriam (a doce Terry Pheto) a amamentar o bébé roubado, juntamente com o seu...

E... Não vou contar mais. Procurem ver o filme se puderem!

retrato do realizador sul-africano, Gavin Hood

Tsotsi ("Infância Roubada", no Brasil, "Tsotsi" em Portugal) foi o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2006.

Gavin Hood é o realizador do filme. Nasceu em Joanesburgo, África do Sul, em 12 de Maio de 1963, e é cineasta, produtor e actor.

Para saber mais, clicar em:


Mark Kilian e Paul Hepker escreveram a música da banda sonora do filme. Música Kwaito -criada em Joanesburg, nos anos 90, tipo house music combinada com música africana local (segundo o DJ Diplo, Kwaito é um tipo de “slowed-down garage music” ).

http://www.youtube.com/watch?v=uV3nFwUlkYM

ouvir a canção "Mdlwembe", cantada por
Zola (em zulu), que entra também no filme.

O filme é falado em língua Zulu, (isiZulu), uma das 11 línguas oficiais da África do Sul (na província de KwaZulu-Natal), em Xhosa (ou IsiXhosa) outra das 11 línguas da África do Sul, em Afrikaner e em Inglês...

E ainda podem ver o "trailer" do filme, na Globo:

http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM682695-7822-ASSISTA+AO+TRAILER+DO+FILME+INFANCIA+ROUBADA+TSOTSI,00.html

terça-feira, 8 de junho de 2010

Antero de Quental, o Sonho: três sonetos do grande Poeta

Antero de Quental, quadro de Columbano




O Palácio da Ventura



Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!


Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!


Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!



Abrem-se as portas d'ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!


(talvez uma das únicas poesias que "decorei" , além de sonetos Camões... E ainda hoje a sei de cor...)


Nirvana


Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;


Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;


Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;


Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro - é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!


Na mão de Deus


Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.


Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.


Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,


Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!


Antero de Quental, in Sonetos

 Antero de Quental, escritor e poeta, nasce em Ponta Delgada em 18 de Abril de 1842 morre também em Ponta Delgada em 11 de Setembro de 1891. Teve um papel muito importante no movimento da Geração de 70.
A Geração de 70, ou Geração de Coimbra, foi um movimento académico de Coimbra que veio revolucionar várias dimensões da cultura portuguesa, da política à literatura, onde a renovação se manifestou com a introdução do realismo.
“Num ambiente boémio, na cidade universitária de Coimbra, Antero de Quental, Eça de Queiroz e Oliveira Martins, entre outros jovens intelectuais, reuniam-se para trocar ideias, livros e formas para a renovação da vida política e cultural portuguesa, que estava a viver uma autêntica revolução com os novos meios de transportes ferroviários, que traziam todos os dias novidades do centro da Europa, influenciando esta geração para as novas ideologias. Foi o início da Geração de 70.”
(in Wikipedia)

A ilustração no topo da página (Antero de Quental) é um óleo sobre tela - retrato da autoria do pintor português Columbano Bordalo Pinheiro. 



Pintado em 1889, mede 73 cm de altura e 53 cm de largura. A pintura pertence ao Museu do Chiado de Lisboa.

O Museu do Chiado fica situado no centro histórico de Lisboa, o Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea, fundado em 1911como Museu Nacional de Arte Contemporânea, foi inteiramente reconstruído em 1994, sob projecto do arquitecto francês Jean-Michel Willmotte.




À esquerda, Museu do Chiado, Lisboa; à direita, museu de Amesterdão, ambos obra de Jean-Michel Wilmotte


A seguir ao incêndio da Baixa de Lisboa que destruíu grande parte do bairro do Chiado, o arquitecto francês Jean-Michel Wilmotte foi encarregado da reconstrução e da restauração du Museu do Chiado e do seu arranjo interior, num velho edifício do século XVIII, na Rua Serpa Pinto.

domingo, 6 de junho de 2010

Pausa, para reflectir neste domingo...

Touradas: qual o sentido?

Tourada "clássica"...




Não há palavras, ficam as imagens...


No comment...
Este mundo é feito de mudança, já dizia Camões...


No comment... What for?, como dizem os ingleses...

Como diria o Astérix: "estes romanos [touros] estão loucos..."


Conclusão:
Que tristeza estas imagens que parecem arrancadas a um trágico "circo dos horrores"...


Como disse, antes: exige uma pausa, para reflectir, neste domingo...


E o Fernando Tordo canta para nós, no Festival da Eurovisão, em 1973, a "Tourada", em "metáfora", de protesto...
Vale a pena ouvir! Faltava pouco para o 25 de Abril...