sábado, 24 de julho de 2010

Charlie Parker and Coleman Hawkins, Lester Young, et al 1950) - 1 of 2

Bom Fim de Semana com três grandes da MÚSICA...
Nem todos partem para férias, como disse a minha amiga Maria, nem todos gostam de livros policiais, eu sei, mas aposto que todos vão gostar de Charlie Parker (the Bird), Lester Young (the Pres) e Coleman Hawkins!

nnn

Eric Clapton - Ain't Nobody's Business

Um pouco de música para os que ficam em casa... Como os compreendo!


sexta-feira, 23 de julho de 2010

Livros (policiais) para férias...

Agatha Christie numa nova colecção: Colecção da Literatura de Viagens, da Editora Tinta da China...

Aproximam-se as férias... Há já deslocações, filas de carros pelas estradas, e auto-estradas...

Uns até já estão a ver o mar, outros o pôr do sol na montanha...
Outros ficaram em casa. A melhor escolha, com este calor... mas nem todos os gostos são iguais...

O que ler?, perguntam os que já partiram. O que ler?, perguntam os que alguns, que vão partir... O que levar para ler em férias?

Aqui está a minha escolha, a sugestão: Levar uns bons cinco policiais!!!
Dou alguns conselhos para quem estiver interessado nesta literatura...


Para esses outros, talvez ainda a preparar as bagagens, aqui vão os "meus livros"...

Os livros estão “sempre no meu pensamento”, como os rebanhos de Alberto Caeiro...

Como vêem.

Normalmente vou para fora com um bom número de livros policiais (confesso que sou uma viciada em policiais...), e um ou dois livros “sérios”.

Para estar sempre fornecida, passo na Livraria Galileo, em Cascais, de tempos a tempos, para me “re-abastecer”, porque têm uma óptima bancada de livros em segunda mão (em todas as línguas) e na parte da “Vampiro” há sempre qualquer livro para ler –ou para reler...

O que vos posso aconselhar?

"Título qualquer serve", como dizia Irene Lisboa...

Vamos, pois, aos autores:

Anthony Berkeley, o inglês dos enigmas absurdos; Dorothy Sayers e o seu “convencido” Lord Peter Wimsey– todos os livros dela são bons; Rex Stout e o seu Nero Woolf, gordo inesquecível, mais a estufa de orquídeas e os “petiscos” sofisticados; Mignon Eberhardt e os mistérios nos transatlânticos, no mar alto;

S. S. Van Dine e os Crimes do Bispo, ou o Crime no Inverno, ou tantos outros “bons” crimes;

Peter Cheney e a sua violência contida;

Hartley Howard e o “heterónimo” Harry Carmichael, conto-os entre os meus preferidos, com tantas boas histórias!

Raymond Chandler! Dashiell Hammett, como esquecê-los? São imprescindíveis, para umas boas férias!

E James hardley Chase? Tremendo.

Depois, temos aquelas mulheres terríveis! As duas Patricias: a Patricia Highsmith ou a Patricia Cornwell e tanta maldade!

As inglesas Mary Higgins Clark e P.D. James;

Ruth Rendell e o seu culto e simpático Inspector Wexford (são os meus preferidos, os livros em que entra o Inspector!) e o seu “desdobramento" (dela, Ruth Rendell), a escritora Barbara Vine;

e o da americana Joyce Carol Oates, Rosamund Smith...

E... last but not least:

Agatha Christie, claro, os velhos clássicos que iniciaram a colecção Vampiro.

Mas hoje há tantas reedições da autora que é mais fácil procurá-la nas Colecções das suas “Obras Completas”...

Uma notícia engraçada: saiu na Colecção de Viagens da Editora Tinta da China um livro da Lady do Crime: “Na Síria”.

Não podemos esquecer que Agatha era uma viajante incansável, acompanhando e auxiliando, nas suas investigações (de outro tipo), o segundo marido, conhecido arqueólogo inglês.

Assim, viajou pelo Egipto, Síria, Turquia, etc e tudo observou para nós...

Estava a reler o que escrevi, vi a predominância anglo-saxónica: um facto inegável...mas injusto!

Então pensei na tremenda injustiça de não falar no belga Georges Simenon e no maravilhoso Comissário Maigret, humaníssima personagem.

E vêm-me, obrigatoriamente, à memória outros nomes: os Rififis (que deram fimes magníficos!) e que sabe sempre bem ler: os de Albert Simonin;

Maurice Leblanc e o herói-gentleman, Arsène Lupin;

Ou Gaston Leroux mais o jovem jornalista e seu detective, Rouletabille. Não esquecer que “O Mistério do Quarto Amarelo” é uma das histórias de suspense e o enigma mais “irresolúvel” que desafiou as mentes de todos os tempos!

Segue-se o outro romance, “O Perfume da Mulher de Negro”, igualmente enigmático...

E outro francês (de origem italiana e espanhola) Jean-Claude Izzo, o marselhês, de que falei há pouco neste blog...

E mais um livro! "A Pedra da Lua", de Wilkie Collins! Para não falar já da (tão falada) "A Mulher de Branco", preciosidades dos "começos" da literatura detectivesca...

Enfim, nunca mais tinha fim a lista... Escolham algum. E boas férias!

............................

Nota: Há imensas traduções dos livros de R.R. nas mais diversas editoras: da Caminho policial, até à Biblioteca Círculo dos Leitores, à Colecção Lipton -da Biblioteca Visão-(ou vice-versa?), etc!

Também Chandler aparece na Biblioteca Visão ( a tal Colecção Lipton), "A Mulher no Lago"); alguns títulos de Dashiell Hammett estão já no Quinto Selo, muitos na Europa-América e quase todos... na Vampiro!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

José Rodrigues Miguéis e Uma Aventura Inquietante...


Lembrando alguns escritores policiais portugueses, veio-me de repente a imagem de um título: “Uma aventura inquietante”.

O autor do romance é José Rodrigues Miguéis. Miguéis não é um escritor de livros policiais mas escreveu esta obra, de mistério e suspense.

Fui buscar o livro á estante, e reli-o, devo dizer, com imenso prazer.

J.R. Miguéis é um grande escritor da literatura portuguesa. Bastará recordar obras como "Léah", "Páscoa Feliz", "Gente de terceira classe" -entre tantas outras...

Encontrei também o livro que Mário Neves escreveu sobre ele, obra muito interessante: “José Rodrigues Miguéis Vida e Obra” (Ed. Caminho, 1990).

Para saber um pouco mais da vida de Miguéis –contada por um amigo, como Mário neves foi.

Nasce em Alfama, na Rua da Saudade, nº 13, em 9 de Dezembro de 1901 e morre em Nova Iorque em 28 de Outubro de 1980...

Seguindo Mário Neves, "vi" a sua passagem de dois anos por Bruxelas.

Depois, a sua aventura americana de quase toda a vida.

Entusiasmei-me, imaginando-o a deambular por N.Y., a tentar perceber aquele mundo e novo, enquanto esperava que a mulher saísse do trabalho, no centro de Manhatan.

A conquista da cidade pouco a pouco, os novos amigos, os espaços enormes e tão diversos; com as saudades de Lisboa, dos velhos amigos, dos cafés e das conversas, pelas ruelas do Bairro Alto, até altas horas da noite...

Viria a formar-se nesta cidade em Direito, em 1924. Todavia, nunca exerceria de forma sistemática profissão nesta área, tendo consagrado a sua vida à Literatura e à Pedagogia.

Nascido em Vai obter uma licenciatura na Universidade de Bruxelas, em 1933, em Ciências Pedagógicas, sonho da sua vida a Pedagogia e as Ciências da Educação....

Dirige, posteriormente, com Raul Brandão, um conjunto inacabado de Leituras Primárias, obra que nunca viria a ser aprovada pelo governo.

Mais tarde, dirigiu, com Raul Brandão, seu amigo, um conjunto inacabado de Leituras Primárias, obra que nunca viria a ser aprovada pelo governo.

Pertenceu ao chamado grupo da Seara Nova, ao lado de grandes autores como António Sérgio, José Gomes Ferreira, Irene Lisboa ou Raul Proença.

Miguéis num quiosque de New Yoork

Deixa Lisboa em 1935 a caminho dos Estados Unidos, onde vai viver muitos anos.

Adapta-se à vida trepidante da cidade, depois da pacatez provinciana de Lisboa? Nem sempre com facilidade. De início faltam-lhe os tais cafés lisboetas, a “cavaqueira” com os amigos, as discussões intermináveis.

Cria o seu modo de viver novo: organiza um regime metódico de vida e de trabalho, rigorosamente programado.

Levantava-se cedo e trabalhava, em casa, na sua máquina de escrever antiquada (colaborava nessa altura nas Selecções do Reader’s Digest), e, só ao fim da tarde, se permitia um longo passeio.

Ia esperar Camila, a segunda mulher, e juntos andavam pelas ruas.

Aos que lhe diziam que fazia mal não “apanhar sol”, respondia com a frase do seu amigo Raul Brandão: “o sol está dentro de nós...”

Grande leitor, admirava Stendhal, Proust, Malraux, não esquecendo os portugueses Eça de Queirós e Raul brandão. E os russos que considerava mestres, como também os novos mestres americanos de que reconhece a influència.

Ouvia Bach, Vivaldi... O que me interessa assinalar, porque o herói da tal aventura inquietante – Zacarias de Almeida- tem os mesmos gostos musicais e de leituras

Observador atento, realista na descrição, a sua ironia recorda a de Eça, aliada porém a uma certa amargura e melancolia, quase pessimismo (de Brandão) e a uma preocupação de “análise” das situações e das psiques humanas, dentro do que foi outra sua influência: os escritores “presencistas” (Régio, Branquinho da Fonseca, Gaspar Simões, por exemplo).

De que fala "Uma Aventura Inquietante"?

Resumindo brevemente a intriga:

Uma mulher de origem russa, Mme Pierkowka, é encontrada morta, de madrugada, no lago gelado do Parque de Woluveel, no centro de Bruxelas.

O comissário Petitjean e o seu ajudante Rigoux vão encarregar-se do inquérito.

Aí é que entra na aventura Zacarias, emigrante portuguès, que vai encontrar a carteira vazia da morta, longe do local do crieme... Só a entrega no comissariado dois ou três dias depoi, por distracção, mas, a partir daí, o suspeito número um é ele...

Porque ele -português, estrangeiro, emigrante- é o suspeito ideal!

A opinião pública protestava e... “mais vale um suspeito na mão”, pensa a polícia, do que nada!

Miguéis conhece a Bélgica, viveu lá. Do seu livro, “solta-se” uma crítica da cidade burguesa e indiferente, e de certa forma de racismo “latente”, mas acentuada.

Perante o crime crapuloso, a voz comum acusa, protesta:


Bruxelas está infectada!(...) Já não se pode viver tranquilo (pg.23)”.

Culpa da Guerra que acabara há pouco?

“Culpa dos estrangeiros...”

Uns dizem, à esquina:

Esta terra, antigamente, era um paraíso!. Nem de crimes se falava. Isso sim! E vejam lá se chovia desta maneira: a artilharia desarranjou tudo também lá por cima...”

E as velhas comadres (os gansos, como lhes chama o autor) continuam:

E o cinema? Tem feito muito mal à mocidade. Deviam acabar com essa peste!”

E, à porta do talho, esganiçam-se as velhas:

O país está infestado de estrangeiros. Têm sido a nossa desgraça. Só cá vêm para nos fazer a vida cara!”

Grasna, respondendo, outro “ganso”:

A quem a senhora o diz! É uma corja de polacos, judeus, italianos russos. Um inferno! Ah! Esta terra era uma bênção. Agora é deles. Era acabar-lhes com a raça! Rua! Vão roubar prà sua terra.”

Como é antiga esta voz e como perdura!...

O estrangeiro! O pária! O cigano! OO judeu! O maltês...

O que vem de fora... O forasteiro...

Foram sempre os culpados em todas as épocas.

Diz o autor, na sua ironia:

A população inquieta-se e com razão. Há tanto chômeur, tanto estrangeiro. Oh, estes estrangeiros!

Não nos espanta pois, se no meio disto, o suspeito é um português...

Fora, a multidão grita: “Assassino! Estrangeiro! Métèque! À forca! Abaixo os estrangeiros!”

Pobre português emigrante...

Um português tranquilo, metódico, solitário que gosta de ouvir Schuman, Bach, Vivaldi e Debussy...

Que lê Stendhal e que quer é que não o incomodem!

Que se considera a si próprio um “anarquista transcendente” (ou, não seria melhor, simplesmente, “um egoísta”?, interroga-se).

A gostosa monotonia de sempre: o escritório, um café, as revistas e os livros, uma conversa anónima, uma volta pelos bulevares atormentados e, sobretudo, os serões pacatos de solteirão em pantufas, diante da mica doirada do fogão –ah, na verdade, em pouco consiste a felicidade de um homem de escassas ambições e pouco mais dinheiro!”

E lembro as idas de Zacarias ao restaurante russo em Bruxelas, o Restaurant Slave, ouvir a “orquestra de balalaicas exiladas, porque, segundo explica ao comissário que o interroga sobre esses hábitos estranhos: nós, portugueses, temos imenso que ver com os russos, a confusão mental, por exemplo, embora, hélas, sem Dostoievski”...

Zacarias que decide "defender-se" a si próprio e que vai analisar todas as provas do "inquérito" e interpretá-las a seu modo. partindo do pressuposto: "se não fui eu o assassino, alguém foi.... vamos então ver quem foi!"

E nós partimos atrás deste detective improvisado...

Diz Mário Neves: o maior prazer da sua vida era escrever – “a actividade em que procurava associar as ideias com múltiplas recordações”. Era a sua obsessão. Dizia: “Um dia que não puder escrever vai ser o diabo!”

E escreve muito bem...

Dá muito bem as personagens. O retrato psicológico de Zacarias, -envolvido em ternura, simpatia e auto-ironia, é fantástico-, os ambientes, a Bruxelas enevoada dos dias de Inverno, o céu cinzento e baixo e a indiferença, recordando o que dizia Jacques Brel...

("Ces Gens-là", Jacques Brel)

http://www.youtube.com/watch?v=NfwW76JzVQI

São três e 45 da manhã. Um ventinho agudo desliza lá em cima, no asfalto deserto e polido da Avenida de Tervueren. Está como é uso dizer-se “um tempo de cão”. Ninguém pelas ruas. Fiel aos seus hábitos, a cidade faz ó-ó no quente. Fachadas herméticas, impenetráveis. Só as vidraças limpinhas reluzem como olhos atentos. O frio corta. Os lampiões de gás tiritam, soluçam no vento.”

A cidade desumanizada dorme, na indiferença do que se passa cá fora.

Sim, ao quentinho, a cidade dorme tranquila.

E a atmosfera de humidade, de frio, de desconforto cá fora, de frio, perseguem-nos ao longo das páginas, entranhando-se-nos no corpo...

São claras, nesta obra, as influências de autores como Dostoievski ou Raul Brandão.

Em "Páscoa Feliz" e "Uma Aventura inquietante" mostra sinais do "psicologismo" que também interessa os seus contemporâneos "presencistas".


Nota:


O romance "Uma aventura inquietante" foi publicado no semanário “O diabo” entre 16 de Setembro de 1934 e 12 de Julho de 1936.

Desde que se iniciou o folhetim até 23 de Junho de 1935 a publicação foi regular. Nessa data, devido à partida do escritor para a América, o romance ficou inacabado (...)


Só nessa altura se sabe quem era o autor do romance.

Porque José Rodrigues Miguéis iniciara a publicação da obra sob o pseudónimo de Ch. Vander Bosch, autor belga, aparecendo o seu nome apenas como "tradutor" da obra.

Em 1958 o romance vai surgir em livro, publicado pelas "Iniciativas Editoriais", com um "prefácio" e um "posfácio" muito interessante do autor...

http://www.youtube.com/watch?v=NfwW76JzVQI

sábado, 17 de julho de 2010

Billie Holiday morreu há 50 anos...

http://www.youtube.com/watch?v=bWtUzdI5hlE




Li no blog "Borboletas de Jade" que há 50 anos (dia 17 de Julho de 1959) foi a enterrar a magnífica "voz": Billie Holiday. Tinha 44 anos de idade. Estava destruída fisica e moralmente...

Repousa no cemitério de Saint Raymond, no Bronx, em New York ao lado da mãe, Sadie.


Deixo duas fotografias muito expressivas que encontrei ali, no "Borboletas de Jade", onde podem encontrar muito sobre a vida dessa cantora .

http://www.youtube.com/watch?v=bWtUzdI5hlE


sexta-feira, 16 de julho de 2010

Lembram-se da série "Os Persuasores"?

E o tempo passa inexoravelmente sobre tudo...


O relógio mais belo e mais "inexorável" (tem um bicho que come o tempo!!) vi-o em Cambridge...

Oh! Sim. The Persuaders! , dizemos...



Lembram-se?

Foi uma série televisiva americanam, de acção e aventuras, que começa a ser transmitida em 1971 e acaba em 1972...


Os actores principais eram Tony Curtis que representava a personagem de Danny Wilde, uma americano mais ou menos tranquilo, e Roger Moore, o distinto Lord Brett Sinclair...

E os carros deles?...

Sim, o Ferrari Dino, vermelho, de Tony Curtis (mais as suas infalíveis luvas de pele negras), e o Aston Martin Bahama, amarelo torrado, de Roger Moore...


O Ferrari Dino 246 GT (saído em 1969)



O Aston Martin DBS V8 (de 1967)

Eram dois aventureiros, "embarcados" nas aventuras mais complexas e nas mais perigosas missões impossíveis!


Eram, no fundo, dois playboys internationais, conquistadores, um tipicamente americano, e o outro um verdadeiro (?) "lord" inglês…



A série não passa do primeiro ano, devido ao pouco impacto que teve nos USA. Tive pena...

Por ser demasiado “british”: Quem sabe? O humor "british" não é para todos os gostos...

Seja como for, foram inesquecíveis estas aventuras dos "detectives-playboys", enquanto duraram.

Pelo menos para mim...
E para os meus filhos.

E para alguém mais? Digam...
O encanto da série vinha também do humor baseado nas "observações" atentas às rivalidades/ diferenças de estilo, de hábitos, de educação, maneira de falar -entre o sofisticado e “british”, Roger Moore, e o americano rico mas simples, Tony Curtis...

Qualquer deles, encantador no seu papel...

Inesquecíveis..

Podem dar uma olhadela, para recordar...


http://www.youtube.com/watch?v=t6nzQu4ysb8

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Lembranças de São Tomé: O Senhor Semedo e a lua...



A minha casa de São Tomé, na rua de Goa

A noite caía. O senhor Semedo, encostado ao ancinho, falava. Apontou a lua que começava a despontar.

- A Dôtôra viu a lua?
Olhou para mim, talvez com medo que eu o interrompesse, e continuou, logo:

- Vê a lua de hoje? Pois bem, quando ela tem este bico a apontar para a terra, quer dizer que vem tempo bom para semear...

E esticava bem o dedo, para mostrar melhor.
- Não sabia, senhor Semedo...
De facto nunca pensara nisso. A lua para mim era a beleza do luar, era o mistério das sombras, as noites mais claras, a contemplação do céu. Até o "Cruzeiro do Sul" que descobrira nos céus do equador...
- É como eu disse... É assim. E quando o bico está para o lado do mar, é porque há peixe...

Olhava-o, incerta da sua ciência, ignorante eu do que um pescador podia saber do mar e da lua. Nunca pensara nisso. Não o queria contradizer, apesar da dúvida.

Depois punha-me a pensar:
“E por que razão não há-de o senhor Semedo ter razão? O que sei eu?...”

Naquele dia sentia-me inclinada a acreditar no saber do senhor Semedo, na sua intuição, na crença. Como noutros tempos acreditara no empirismo da gente do campo, o tal saber de experiência feito de que fala o poeta.

O senhor Semedo vivera muitas vidas até chegar a São Tomé. Vidas que me fora contando aos bocadinhos.

Nascido na cidade da Praia, em Cabo Verde, viera com a mãe, ainda criança, acompanhando-a, para trabalhar numa roça do Príncipe.

Mais tarde, rapazinho, chegara à “cidade capital”, como em São Tomé gostavam de chamar a cidade.
Conhecia o trabalho do campo nas roças, entre o café, a cana do açúcar, o cacau e a banana.
Tudo aprendera, trabalhando duramente.
O rio Água Grande, no meio da cidade de São Tomé

Depois, fizera-se pescador, casara, tivera filhos, outras mulheres. Cada vez se afastava para mais longe nas pescarias, em barcos grandes, até que um dia naufragara ao largo do Gabão, em Punta Negra.
Dessa vez, a morte rondara à volta dele, arrepiara-se-lhe a pele de medo, encolhera-se no fundo do barco à espera, com os outros.
Primeiro, esperançosos todos, depois desesperando, dividindo os restos de bolachas uns com os outros, fumando um cigarrinho entre todos, passando-o para uma fumada só, “para durarem mais tempo”, como ele me contava.
Barcos na praia de Santana

Vira amigos desistir de lutar, e desaparecerem nas vagas que se alteavam, ali e noutros lugares, homens como sombras que passam.

Um filho suicidara-se engolindo vidros pisados, veio um dia contar-me, de olhos molhados.
- Foi-se embora! Deixar-me assim, o sacana!
Foi este o seu desabafo.

Muito aprendera. Muito vivera. Sabia do efémero que têm os momentos felizes.
E tudo guardara no olhar, sério e pensativo, com o qual contemplava as coisas e as pessoas, absorto nos pensamentos íntimos, observando apenas, e sem falar.
Aquele olhar com que olhava para lá do jardim, para além de mim, como se “visse” qualquer coisa ao longe, enquanto falava.
Calava-se de repente, nesses momentos.

Como agora, a olhar para a lua. Depois continuou, no seu ar bom e tranquilo, num sorriso aberto:
- É assim, Dôtôra...
E havia um tom fatalista na sua voz.
- É assim...

O senhor Semedo, arranjado para sair, num domingo, fotografado no jardim...

O que pensara naqueles breves segundos em que se ausentara? Nunca o saberei.
Poderia ter-me ensinado tantas coisas mais!

Durante os anos em que vivi em São Tomé foi o nosso guarda e jardineiro: o meu companheiro fiel, o meu mestre das coisas da ilha, e a sua conversa fazia-me bem.


Era o meu contraponto, o meu apoio, o meu conselheiro com o “pessoal” do quintal: a Milly, a Nina, a Tina. E com a miudagem traquina...
Sempre presente, sempre disponível.


O meu cão Zac na varanda da casa de São Tomé, ao pé dos degraus onde, de noite, se sentavam os dois...
Ele e o meu cão Zac, foram inseparáveis desde o primeiro momento, sempre de acordo aqueles dois...

- Não é cão, Dôtôra! É pessoa. Percebe tudo... Quer falar comigo.

E acrescentava, com pena:
- Só que não pode...

Sentava-se nos degraus da porta de casa, em frente do caminho que levava ao portão, com o Zac ao lado, e ficavam de guarda, quando nós saíamos à noite.
Ao voltar, ele dizia:
- Estivemos na conversa, eu a ler, e o patrão Zac a ouvir...

Quando partimos de São Tomé, a despedida foi dolorosa.
Lembro-me de o ver, no aeroporto, sem se querer aproximar, mas a olhar para nós, vestido com o fato branco que lhe oferecera.
Com os olhos marejados, vi-o ao longe, agitei os braços a chamá-lo, mas ele continuou ali como uma estátua do desespero, imóvel.

Sabíamos os dois que era para sempre a despedida, que não nos voltaríamos a ver.

E que não veria mais o “patrão Zac”...
E assim foi.
Hoje o senhor Semedo já não existe. O meu cão Zac morreu em Israel e ficou a dormir o sono eterno, perto de Telavive, no moshav dos meus amigos Rina e Eli, mortos também...

Com dor enorme os recordo todos.
E recordo São Tomé.

O senhor Semedo e o meu cão foram dos maiores amigos que tive, os meus companheiros na Ilha, cujo olhar preocupado e doce me animava nos momentos difíceis.

Os das saudades dos filhos, e da terra; da impaciência nos dias de Dezembro, em plena estação das chuvas, com a terra a empapar-se debaixo dos pés; do calor que se pegava ao corpo; dos mosquitos que infestavam o jardim, assim que o crepúsculo descia -escondendo-se nas folhas das bananeiras junto do tronco, ou nos recantos frescos do quarto-, picando-me quando adormecida; das crises de paludismo que me causava o plasmodium falciparum, parasitas dos glóbulos vermelhos que me fragilizavam; dos tratamentos fortes de "halfan" e de quinino, que me enfraqueciam.

De tudo isso os dois foram testemunhas e era no olhar deles que me aconchegava.
E assim foi... O tempo correu, inexorável.

O senhor Semedo morreu em Fevereiro de 2006...
Até ao fim, soube sempre notícias dele, nunca deixei de lhe escrever, de o ajudar como podia.
Guardo as cartas com sua a letra, perfeita, e a assinatura desenhada “Zurigo Semedo”.

Encontraram-no morto numa barraca, perto do Mercado do Ponto, onde tantas vezes fui.
Nunca se soube como morreu.
“Andava doente, estava velho, tinha voltado a beber muito, parecia triste...”, mandaram-me dizer.

O seu amigo, o “patrão Zac”, morrera em Telavive, uns anos antes e ele nunca o soubera. Mandava sempre cumprimentos para o Zac nessas cartas...

E hoje lembro-os associados na memória ... e na ternura.
- A Dôtôra é como mãe para mim, dizia-me.
E ele era um pai, o pai que eu já não tinha.
- Sim, Senhor Semedo, eu também sou sua filha...

Penso que o Zac ouvia... E é assim que os recordo...

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Parabéns aos amigos de São Tomé e Príncipe, no 35º Aniversário da Independência

À memória da minha amiga Alda do Espírito Santo, que me ensinou a amar a Ilha de São Tomé
À memória de Zurigo Semedo, que me ensinou a "viver" na Ilha

CHUVA

óleo da autoria do pintor Nèzó, São Tomé


Chove na Rua Morta, ao lado da minha casa. Vejo passar em frente da janela, indiferentes, cobertos com sombrinhas sem varetas, tapando-se com sacos de plástico, uma simples folha de bananeira na cabeça, as pessoas da minha rua.

É a estação das chuvas.

Com ela vem o fascínio das histórias lidas na adolescência, a sugestão de aventura e de perigo.

Chove sempre. A chuva fina cai, sem parar, a humidade entranha-se no corpo, nos cabelos, forma pequenas gotas que pingam devagar ou se prendem, como diamantes minúsculos, nas teias de aranha dos ramos das árvores.

Pela rua abaixo, erguem-se caroceiros de troncos rugosos e folhas acetinadas, verdes e tenras, que as cabrinhas selvagens tentam roer junto às raízes salientes. Têm frutos como amêndoas grandes que os miúdos cobiçam e vão buscar, trepando pela árvore até ao alto, equilibrando-se em malabarismos assustadores, ou fazem cair dos ramos lançando-lhes pedras. Pedras que, tantas vezes, ferem outro miúdo parado à espera.

É a estação das chuvas.

A chuva cai forte, bate nas caixas dos ares condicionados, com um ruído que lembra tambores de guerra. Torrentes de água suja descem pela rua inclinada.

Longe, detrás de tudo, mas sempre presente, a floresta impenetrável, com a sua névoa eterna envolvendo a copa das árvores e, mais longe ainda, os picos das montanhas das quais nunca se vê o contorno definido. Em cima, o céu cinzento, a alternar com azul, nos dias sufocantes, quando a chuva cai e é sorvida pela terra barrenta, gretada e seca. A floresta parece então afastar-se de nós e, no limiar do horizonte, o ôbô brilha em todos os tons de verde.

Em São Tomé, minha terra de passagem, que não aceitei ao chegar. Que me fascinou, mais tarde, no mistério da vegetação, na doçura dos coqueiros inclinados sobre a areia branca das praias. Na água azul, verde, ou cor de leite da baía Ana de Chaves, rubra ao poente.

Quantas vezes a renegarei? Quantas vezes me deixarei fascinar?

É a estação das chuvas.

Parece-me ouvir o mar, embravecido, lá longe, onde o céu escurece. Os barcos baloiçam doidos no branco intenso da espuma.

Da janela vejo passar as gentes da minha rua.

Continua a chover na Rua Morta.

domingo, 11 de julho de 2010

Le mal de vivre '1965

Francis Scott Fitzgerald, esse romântico... E "Tales of The Jazz Age"...




Hoje lembro o grande novelista americano, Francis Scott Fitzgerald, o romântico incorrigível, o “perdedor” de tudo o que teve na vida?

Por onde começar a contar?

Breve biografia:

Nasce em 24 de Setembro de 1896, em St. Paul, no Minnesota. Morre em 21 de Dezembro de 1940, com 44 anos.

Estuda na Universidade de Princeton mas não acaba os estudos. Em 1917 deixa Princeton para ingressar no Exército.

Começa a escrever nos tempos livros.

Publica o seu primeiro romance, “This Side of Paradise” (1920), que o torna instantaneamente famoso.

Nesse mesmo ano, casa com Zelda Sayre, uma jovem "beleza" sulista, nascida em Monterrey, no Alabama (nasce em 24 de Julho de 1900 e morre em 10 de Março de 1948).

Começa uma vida de luxo, de despesas, de festas infindáveis, de bebidas.

Em 1922, publica "The Beautiful and Damned” e, em 1925, "The Great Gatsby” que fala da romântica e destrutiva paixão do herói por Daisy Buchanan.

Fácil de associar a história à relação tumultuosa com Zelda.

Seguem-se dois volumes de novelas curtas, publicadas em revistas então na moda (mais tarde reunidas com o título “Flappers and Philosophers” (1920) e “Tales of The Jazz Age” (1922) que incluem o estranho, fantasioso e fantástico conto -com algo da atmosfera de “Paradise Lost” de Milton?- que se chama “The Diamond as Big as the Ritz”.

E, também, entre outros, o conto intitulado "O Estranho Caso de Benjamin Button" -de que recentemente (1) foi tirado um filme-, ou "May Day", ou "The Bowl", etc.

Para mim, são todos extraordinários!

"Babylon Revisited", "The Lost Decade", inesquecíveis...

Em 1926, sai outro livro de contos, “All The Sad Young Men”.

O que fez Fitzgerald do sucesso?

Boa pergunta...

A vida gasta-se e ele dispersa-a na fúria de viver, desenfreadamente?

Fúria de viver e riqueza, aparências, o luxo que deslumbram Zelda...

Hollywood e a ostentação, a aparente “facilidade” da vida, as muitas solicitações, compras, de “party” para "party" até ao amanhecer, champagne, viagens, Paris, o mundo...

A inconsciência total dos dois.

O dinheiro que ganhara, depressa se escoa entre as mãos, como pó de diamante...

Hollywood, a fama precoce, o deslumbramento com essa nova vida que descobre, a embriaguez do sucesso tem algo de destrutivo nas suas vidas.

Tudo ajuda na sua queda.

Mas, sobretudo, Zelda.

Scott Fitzgerald, no final dos Contos do Jazz Age, confessa: “ Por vezes não sei se eu e Zelda somos reais ou se não seremos afinal personagens de uma novela minha...”

Os amigos que aparecem e desaparecem conforme o dinheiro entra ou sai.

Tudo se passa nos anos 20, na loucura desses "Anos do Jazz”...

Por volta de 1935, Zelda sofre de crises nervosas violentas, a vida dos dois torna-se num inferno do qual Scott sofre os efeitos.

Internada num hospital psiquiátrico, Zelda escreve um romance.

capa do livro de Zelda, “Save me the Waltz” (1932)

Dois anos mais tarde, em 1934, Scott escreverá “Tender is the Night” (que conta a história de um psiquiatra e da sua mulher esquizofrénica) que é, no fundo, o espelho do desastre da vida deles, tal como "The Waltz" (vistos, claro, de ângulos diversos)...

O mal de viver?

Com certeza.

À riqueza e sucesso, sucede o reverso da medalha, a vida pende para o outro lado da balança, de repente: a falta de dinheiro, a infelicidade, o desequilíbrio afectivo...

Bebe. Para continuar a sentir a euforia, e ter a mesma intensidade de antes?

Ou o mal necessário para continuar a viver, a escrever a todo o custo, mesmo perdendo a vida?

O narcótico para continuar a suportar a vida com Zelda?

Zelda e a sua loucura? Os manicómios e as curas que não levam a nada?

A queda continua.

Holywood e os “scripts” esgotam-no...

Tem medo.

Bebe cada vez mais. Deixa de escrever.

O conto “A década perdida” deveria chamar-se antes “A vida perdida”?

Não consegue recompor-se. Bebe para escrever, para esquecer que não consegue escrever? Para reencontrar o equilíbrio que perdera ao alcoolizar-se.

Círculo vicioso e infernal.

Vive com a angústia, sem a certeza de “conseguir tudo outra vez”? De ser capaz, ainda?

Cai cada vez mais fundo.O vazio instala-se à sua volta, trazendo o desespero.

O abandono dos outros, trouxera a solidão -que a pobreza tantas vezes arrasta consigo.

Sim. Há a tendência a "largar o barco quando ele se afunda..."

Ou quando o dinheiro acaba... Não é assim que fazem os ratos?

Ampara-o a secretária e única amiga, que o tenta proteger e o acompanha até ao fim da vida.

Zelda acaba num hospício onde morre, queimada, num fogo, com 48 anos.

Scott Fitzgerald morre alcoolizado aos 40 e poucos anos.

Morre pelo "mal de viver" de que fala Barbara?

Oh! Sim. É bem possível... A dificuldade de viver pode matar...

« Le mal de vivre/qu’il faut bien vivre?

Il faut le mettre en bandoulière/

ou comme une fleur à la main…"

Francis Scott Fitzgerald morre com um ataque de coração: completamente destruído pelo álcool, pelas emoções, com pouco mais de 40 anos. Deixa um último romance inacabado, "The Last Tycoon" (1941) e alguns ensaios autobiográficos: “The Crack-Up”.

Alguns títulos:

Os romances

Terna é a Noite”

"Belos e Malditos"

"O Grande Gatsby

“Deste lado do Paraíso

Os contos

Capa da edição brasileira dos "Contos"

"Contos do Jazz Age"

etc, etc, etc.


A cantora francesa, Barbara, cantou, divinamente,“Le mal de Vivre”, anos mais tarde.

A seguir, vou procurar essa canção e deixá-la para a ouvirem...