sábado, 21 de agosto de 2010

De onde vêm? quem são? para onde vão? Os Ciganos...


De onde vêm os ciganos? Quem são? Para onde vão?

Latcho drom mur pral


“Boa viagem, meu irmão!” , desejam-se à passagem...

Sim, afinal de onde vêm, a que país pertencem?

Desde sempre me habituei a vê-los, no meu Alentejo, a ouvir falar deles e a sentir a atracção desse mundo livre, fantástico, de nómadas, e cavalos, que eu associava aos beduínos e ao deserto, aos espaços abertos pelo mundo fora.


Imaginava-os a viverem no meio da poeira que as carroças levantavam, rangendo as rodas, quando a feira acabava e levantavam os acampamentos, ali vizinhos do terreiro da feira.
As caravanas de carroças, com rodas desconjuntadas, como as dos pioneiros do oeste selvagem...
De onde vêm os ciganos? Quem são? Para onde vão?
Com panos coloridos a tapar as traseiras das carroças, de onde espreitavam meninas de olhos fundos e negros, com tranças ou atados atrás, com os brincos a luzir pendurados, os burros trotando ao lado, com as mantas de riscas...
Lá iam os ciganos.

De onde vinham? Para onde iam?
Iam...
Viajavam. Andavam de terra em terra, talvez de feira em feira, mercandejando, trocando, vendendo e comprando.

Em França chamam-lhes “les gens du voyage” (as gentes da viagem, ou, melhor “os viajantes”...), distinguindo os que nasceram em França dos que vieram da Europa central, de Leste.
Ouvi numa entrevista -no canal franco/alemão “Arte”- uma entrevista em que um deles contava que tinham chegado a França em 1420, estando ali, pois, há quase 600 anos, distinguindo-se, pois, dos outros que vieram – e vêm- da Europa de Leste.
"Les gens du voyage" integraram-se, mas continuam a vida nómada, agora em "caravanas" modernas, reunindo-se em acampamentos, estabelecidos em campos que lhes são concedidos pelos governos, ou pelas Câmaras.
Os "Roms, ou "Roma", como lhes chamam, tiveram outro destino. Chegaram muito mais recentemente da Europa Central (de leste) e têm dificuldades de adaptação, de trabalho, de alojamento.
Vivem em tendas, acampados em terrenos insalubres -"ilegalmente"-, suportados com dificuldade.
Hoje em dia, há poucas semanas, o Governo Francês tomou medidas muito duras para "controlar" a imigração e uma delas foi decidir (arbitrariamente) a "expulsão" desses imigrantes que os incomodam.
No entanto, são cidadãos europeus: da Europa. Da Europa Central que significa Hungria, Roménia, Bulgária e talvez mais outras terras do antigo Império austro-húngaro.

Em França há, também, os
tziganes, os manouches, os yéniches...

Em Espanha, os “gitanos” (vindos da Andaluzia –ou da Catalunha?), ligados à cultura do Sul e à criação do "Flamenco" ou vindos da Europa Central.
Como esquecer a "influência" do gitano na obra de Garcia Lorca?

Mas sejam do Norte ou do Sul, todos eles tiveram a mesma origem. Saíram há muitos séculos da Índia do Norte, do vale do Ganges. Entre os séculos IX e X.
Seguiram para a Pérsia, continuaram pela Grécia e terão chegado à Europa através do Império Bizantino (está confirmada a presença dos “tsiganes” no ano de 1150, em Constantinopla.

Parece confirmado que a sua língua está próxima do sânscrito e que se foi enriquecendo, no decorrer das viagens, com palavras e o vocabulário próprio dos países que atravessaram.
Foi importante para a evoulução da língua o contacto com a Grécia, onde se demoraram.

Sabe-se que em 1419 se encontram já em França (Châtillon-sur-Charalonne).
Por sua vez, os "Roms" chegam à Europa Central, noutra vaga, por volta do século XIV: para muitos estudiosos do fenómeno "cigano", este século é considerado o “século de ouro” dos Roms, na Europa.
Eram recebidos pelos aristocratas e tiham salvo-condutos de protecção, e diversos privilégios.
(Pensando na "recepção" que têm hoje, em muitos países europeus, dá certa tristeza ver a mudança de estatuto...)
Em território checo, o Imperador Romano, Sigismundo, concede-lhes em 1423 um salvo-conduto especial...

Que levaram com eles pela Europa.

Em França, chamaram-lhes “boémiens” porque o documento foi assinado na Boémia.

Vi um filme –lindo, de uma beleza e humanidade enormes, realizado por Tony Gatlif, que falava desses povos nómadas que vieram, pouco a pouco, aproximando-se da Europa.


Diria, dançando e cantando.

Com a sua cultura, o seu gosto pela música, pelos instrumentos musicais, pelo canto, vão de lugar em lugar, acampando debaixo de grandes árvores centenárias, perto de terrenos onde corriam ribeiras, reunindo-se em sessões, ajuntamentos inesperados, em que todos chegam de toda a parte e ali perduram uns dias, algumas noites, cantando ao desafio, e grupos, cada um simbolizando a sua “diferente” cultura frente aos demais.

Uma arte própria.

Em vários campos...
De facto, distinguiram-se na música, Django Reinhardt (1910-1953) foi um guitarrista de jazz e um dos pioneiros do jazz, na Europa. Compôs a canção "les yeux noirs" ; Torino Zigler distingue-se na pintura, a família Bouglione e os Zavata, no circo...

Há uma festa no Sul da França, em Aigues Mortes (e Saintes Maries de la Mer), na Camarga, a Festa do Mar, onde um grupo de ciganos, carregando aos ombros, a imagem de uma virgem negra, entra pelo mar adentro...

Poesia, música, aventura, cavalos, poeira, horizontes infindáveis, espaços...

Para mim era este o mundo dos ciganos.

“De onde vinham? Como chegavam à cidade? Onde ficavam? Nunca o soube, era miúda e nunca me interroguei sobre isso.

Quem eram?
De que parte do mundo viria aquele grupo que surgia do nada, numa tarde quente, atravessando as estradas poeirentas do Alentejo, e vinha dar o seu humilde espectáculo de sonho, para desaparecer outra vez?

Uma família de nómadas, parando aqui e ali, acampando na sua carripana puxada por uma mula, coberta com um toldo de lona, e cheia de tachos, carvão e fogareiros, banhando-se nos rios ou nas charcas, instalava-se.
Deixando sinais nas vedações ou nas árvores para os outros que viriam depois deles?

Desenrolavam um tapete colorido nas pedras da rua e ouvia-se o rufar do tambor que um garoto despenteado trazia a tiracolo. Rapidamente, começavam as cambalhotas no chão da pequena contorcionista, de costelas visíveis debaixo do maillot sujo. Enfeitada de colares e de pulseiras nos pulsos finos, agitava os dedos num jeito de bailarina oriental.
Descalça, fazia tinir as pulseiras dos pulsos e dos tornozelos e parecia-me ouvir tilintar os sequins dourados que pendiam de uma fita de seda que lhe rodeava a cabeça.
Recordo a pele crestada pelo sol e uns olhos verdes lindos que luziam enquanto a cabeleira revolta, de cor avermelhada, que lhe emoldurava o rosto fino de lábios pintados, se agitava ao vento.
Quando partiam, restava-me o sonho, a poeira de estrelas que ficava em frente dos nossos olhos, quando partiam.
Sim, era o sonho e a magia das coisas extraordinárias que agitavam a terra, que continuavam infindáveis, e nos faziam viver...”


(in "Histórias da casa amarela", M.J. Falcão, "os saltimbancos")

Quem eram estes ciganos?, continuava a perguntar a mim mesma...De onde apareciam?

Que recordação deixaram na literatura, por exemplo?

A literatura está cheia dessas personagens que chegam, envoltas em mistério, num fim de tarde e partem, silenciosos, ao nascer da manhã...

Lembro livros ou "passagens", tudo "recordações" tingidas de nostalgia ...

O grupo errante, homens, mulheres e crianças, levantou arraiais e atravessou a vau a ribeira para o outro lado. Tornou a acampar debaixo dos primeiros arcos, na margem fronteira.
Os burros retouçavam nos mouchões, espojavam no areal a sornice de uma tarde quente.
O cigano velho (...) quedou num monólogo onde pairava a perseguição que os acompanhava na vida, acampando ao deus dará das feiras, dos povoados e dos montes.
Era sina de cigano... Vaguear sem rumo e sem destino. Largueza lhe chamavam, era alcunha que o mundo lhe deixara. Contudo nada havia mais largo que o mundo, o mundo era dele, tinha as estradas desimpedidas.
(...)
Ao outro dia partiram.
Desciam a planície, encaminhavam passos vagarosos de encruzilhada em encruzilhada, de ribeira em ribeira, a caminho da feira de Évora. Tinham as estradas desimpedidas e, o verão pela frente.
Outras feiras os chamavam. Ao sol de maio, estrada fora, a caravana sumiu-se no pó da estrada barrenta...”

in "Terra Campa", de Noel Teles, p.102


E encontrararia decerto mais textos e livros que falam dos ciganos e da sua magia, da liberdade errante, pelos caminhos e pela “largueza” do mundo.


E da atracção que exerce sobre nós, seres sedentarizados, essa errância...

Por exemplo, a “selvagem” heroína de “O Moinho à Beira do Rio”, de George Eliot, quando foge, criança, para o acampamento dos ciganos e trava conhecimento com as mulheres, o velho chefe, atraída pela vida livre dos rebeldes viajantes, de que tanto ouvira falar.
Os velhos observam-na e as ciganas jovens conversam com ela, e espantam-se com os seus cabelos negros, da cor dos delas, mas revoltos e emaranhados à volta da cabeça –que admiram e tocam, rindo-se, porque, na sua pele morena e nos cabelos, a pequena heroína se lhes assemelha. E dão-lhe comida.


Ou “Le Grand Meaulnes”, de Alain-Fournier (3 de Outubro, 1886-22 de Setembro, 1914, desaparece durante a Guerra) , com certeza um dos livros mais belos sobre a adolescência, juventude, amor, amizade e tudo! Inesquecível, como os grandes livros são.


Lido e relido já lá vão tantos anos! Com a mesma emoção. Que vos aconselho, queridos leitores... O romance "O Grande Meaules" foi publicado na Relógio d'Água, em 2009.
Quando o jovem Meaulnes foge e vai ter ao acampamento cigano, à “fête foraine”, onde se perde –ou se encontra?- até chegar ao domaine mágico, lugar misterioso, e à festa ou baile dos jovens mascarados, e encontrar –e perder- Yvonne de Galais , que vai ser o amor da sua vida.
Volta maravilhado, absorto, enfeitiçado...
E nós vamos, ansiosos, atrás dele, a procura da nossa infância, desse bem perdido...

E porque não este poema? que a minha amiga L.S. me enviou, dizendo:
"Que seria da minha infância sem os ciganos?!..."

Os ciganos

Dizem que vêm da Europa Central.
Eu vejo-os vir dos lados de Grijó em lassa caravana.
Debaixo da carroça trota a coelheira,
aproveitando a sombra débil e ambulante.
Sentado na boleia, as rédeas na mão morena
descuidadas, um homem cisma,
confia do caminho ao macho lento a decisão.
Outros homens a pé e mulheres novas
entretêm de riso a caminhada espessa.
Logo após, sobre os burros, os pertences.
Alguns velhos também, já cansados de tudo,
tiram partido do precário trote. As crianças
de peito sugam em sonolenta teima
as elásticas tetas sacudidas, mas alvas e redondas.
Os mais velhitos caminham repartidos
em pequenas e lúdicas manadas, dando
às hortas laterais breves saltos furtivos.

Toda esta gente é morena e tem fala cantada,
levanta para mim doces olhos castanhos.
Dizem que vêm
da Europa Central, de uma raça sem chão,
e aqui procura, de insultos rodeada,
cumprir a sua luta, seu degredo
e sua primitiva vocação.
Dizem que os ciganos desenterram animais defuntos
de alguma enfermidade menos limpa
e neles cravam dentes de fome milenária.
Dizem que as mulheres estão
na intimidade das estrelas e a troco de uns mil-réis
lêem nas mãos destinos coloridos.
Dizem que roubam quintais e assaltam capoeiras,
e os aldeões, em pânico secreto,
os expulsam com voz impiedosa e decidida mão
das cercanias do seu chão governado.
Dizem que enganam os incautos campónios
em negócios sempre escuros de animais,
em que fazem passar por uma estampa
o mais escalavrado e cego dos cavalos.
(...)
Dizem tudo isso dos ciganos. Eu não sei.
Vejo-os vir dos lados de Grijó
e estão todos de frente para mim
e parecem-me gente – nada mais..."

(de A.M. Pires Cabral, in Algures a Nordeste, 1974.



A canção de Mouloudji: "Mon pot' le gitan" ("O meu amigo cigano"...)


Ainda outro texto:

(Boa viagem, meu irmão! )

"Ta roulotte tirée par deux chevaux trapus semble glisser doucement vers un horizon bordé de haies. Des violons, des guitares, des sifflements d'oiseaux, des murmures d'eau pure dans un halo d'espoir, accompagnent ton rêve. Tu conduis ta vie de nomade poète sur une route que tu n'as jamais voulu quitter, que tu n'aurais jamais du quitter. Seuls les princes et les tsiganes se moquent du regard des autres. Fière d'être Manouche, fière d'être un homme, sans un regard pour ceux qui n'ont pas su voir en toi un homme de liberté, tu me tends la main. Tu peux compter sur moi."

Yvon Massardier

Tradução:
"A tua roulotte puxada por dois cavalos possantes parece deslizar docemente em direcção a um horizonte ladeado por sebes. Violinos, guitarras, assobios de pássaros, murmúrios de água pura, num halo de esperança, acompanham o teu sonho. Conduzes a tua vida de nómada poeta por uma estrada que não quiseste abandonar nunca, que nunca deverias deixar. Só os príncipes e os ciganos riem do olhar dos outros. Orgulhoso de seres manouche, orgulhoso por seres um homem, sem um olhar sequer para os que não souberam ver em ti um homem de liberdade, estendes-me a mão. Podes contar comigo.”
Muitas outras coisas poderíamos lembrar...

Se quiserem saber um pouco mais destas "gentes da viagem", vão ver o site:


Podem ver também imagens do filme "Latcho Drom", de Tony Gatlif (1994), e ouvir as maravilhosas canções "gitanas" e outras...

os manouches:
da Hungria:

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Bobby Hebb - Sunny

Bobby Hebb, para não esquecer o criador da canção "Sunny" e o seu optimismo!


Recordando Bobby Hebb e a canção “Sunny”

Bobby Hebb foi o criador do êxito da "pop music", do ano 66, a clássica canção "Sunny", que fala do sorriso sincero de uma mulher que vai suavizar a sua dor...

No passado dia 3 de Agosto, o cantor afro-americano morreu com um cancro do pulmão.

Deixa um clássico, eternizado na voz de muitos cantores.

Eternizado na nossa memória também...


Este mês de Agosto tem sido um Agosto Negro! Entre mortos "de valor", mortos normais, mortos de hoje, mortos do passado, cataclismos e mais mortos, é com certeza um mês de um ano para esquecer...

Mas eles, os desaparecidos, não serão esquecidos...

Recordo hoje, com algum atraso, a canção imortal, deste músico criador de obras imortais...

Penso sinceramente que as pessoas só não morrem, se nós as lembrarmos!

Breve biografia do criador da lendária "Sunny"...

Hebb nasceu a 26 de Julho de 1938 na cidade onde viria a morrer, Nashville. Era filho de músicos cegos e o seu irmão, seis anos mais velho, foi morto no dia seguinte ao assassinato de John F. Kennedy, em novembro de 1963.

Foi aí, na busca de refúgio para a sua dor que Hebb compôs "Sunny", uma versão optimista da vida, na sequência das duas tragédias que o marcaram fortemente.

”Talvez a minha intenção fosse apenas pensar em tempos melhores, mais felizes, olhar em frente para dias mais luminosos... Só depois de ter escrito “Sunny”, é que pensei que podia ser outra tentativa de fazer o que fez Johnny Bragg, com “Just Walkin’ in the Rain”...

Será interessante saber por que se refere a Johnny Bragg... Pois aqui vai a história:

"Just walkin' in the rain" é uma canção popular, escrita, em 1952, por Johnny Bragg e Robert Riley -dois prisioneiros da Tennesse State Prison em Nashville- depois de um deles, Bragg, comentar enquanto passeiam na hora de "apanhar ar"... pelo pátio da prisão, num dia de chuva.

Bragg diz para Riley: "Aqui estamos nós a passear à chuva e a pensar no que estarão a fazer, lá fora, as garotas que conhecemos."

E decidem escrever a canção. Que foi um êxito!

A versão mais famosa de "Just Walkin' in the Rain" é a de Johnnie Ray, que vos deixo...

Sunny foi cantada por grandes nomes da canção: Marvin Gaye, Stevie Wonder, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Duke Ellington, Cher, etc etc etc...

Sunny

Sunny, yesterday my life was filled with rain.
Sunny, you smiled at me and really eased the pain.

The dark days are gone, and the bright days are here,

My Sunny one shines so sincere.

Sunny one so true, I love you.


Sunny, thank you for the sunshine bouquet.

Sunny, thank you for the love you brought my way.

You gave to me your all and all.

Now I feel ten feet tall.

Sunny one so true, I love you.


Sunny, thank you for the truth you let me see.

Sunny, thank you for the facts from A to C.

My life was torn like a wind-blown sand,

And the rock was formed when you held my hand.

Sunny one so true, I love you.


Sunny, thank you for the smile upon your face.

Sunny, thank you for the gleam that shows its grace.

You're my spark of nature's fire,

You're my sweet complete desire.

Sunny one so true, I love you.


Sunny, yesterday my life was filled with rain...


"Sunny", por Bobby Hebb:

http://www.youtube.com/watch?v=ubvYQxTXO3U

Just Walkin' in the Rain", por Johnny Ray:

http://www.youtube.com/watch?v=XvB3KbERNP4

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O Haiti: Vidas são vidas ou: lá longe, há outras vidas...

Porto Príncipe (Port au Prince), o Palácio Real, antes do terremoto
Passaram já sete meses desde que aconteceu o terrível tremor de terra no Haiti.


Porto Príncipe, cidade capital

Foram grandes os títulos nos jornais, as intervenções na televisão, grandes promessas, grandes esperanças...
Passaram sete meses desde o terremoto do Haiti...
Mas o Haiti está lá tão longe!

Sete longos meses para quem lá ficou e teve a sorte (?) de sobreviver.
Sim, sobreviver, porque de vida não se trata com certeza.
E nós? Nós esquecemos... As ajudas por onde andam?


E nós?
Continuámos a ler as grandes parangonas dos jornais, que já estavam a falar de outras coisas, entre corrupções várias, petróleos derramados, florestas queimadas, lixo a céu aberto, ilhas de lixo, lixo nuclear, problemas com o ambiente, etc...

Já não sei (não importa para o caso), quem dizia há dias:
“Sim, a defesa do ambiente... Claro! É importante pensar no ambiente...
Mas a verdade é que, em certos sítios da terra, ninguém vai ficar vivo para ver o que acontece ao ambiente: já foram enterrados pelos cataclismos, ou estão à espera de morrer de fome e tanto lhes faz que o ambiente esteja como está...”

Dou-lhe razão...

Primeiro que tudo, deveria pensar-se nas pessoas: o Homem vem antes do ambiente, por absurdo que isto possa parecer já que o homem destrói o próprio habitat do homem... O tal ambiente! No qual o homem vai viver e morrer por causa de o destruir, ou deixar destruir.
Enquanto não houver cultura e educação suficientes, nada vai mudar...
E consciência política "séria"!
E...ideologia "a sério"!

"É tudo muito complicado", dirão...
"Sim, paradoxal mesmo!", acrescentarão alguns.
Será? Mas vale a pena continuar a pensar nisto tudo, e não esquecer, não deixar ficar para trás...

O terremoto do Haiti aconteceu em Janeiro deste ano. Claro, era inevitável.

Mas o que não “era inevitável” era que o resto do mundo –e até dentro do próprio Haiti- todos se estivessem nas tintas para as gentes do Haiti!
Não era inevitável que ninguém se preocupasse “a sério” com a ajuda real para o Haiti!
Ajuda vigiada, se necessário! Policiada! Com armas! Há para aí tantas...!
Sem deixar "guardar" nada nos bolsos...
Porque não chegar a ajuda onde deve chegar, depois deste tempo todo, bem: Isto é que é mesmo paradoxal!
Limito-me a citar algumas passagens de "notícias" :

Notícia do jornal espanhol, El País, no suplemento de domingo, 15 de Agosto (tradução livre minha):

"Sete meses depois do terrível terremoto, o Haiti continua de rastos. Não só os edifícios e as estradas, como as próprias pessoas continuam de rastos.
No meio dos escombros, que ninguém ainda limpou, 1.300.000 haitianos vivem debaixo de plásticos".

Então, grande parte dessa gente sem esperança recorre ao Vudu (Vudú, Voudu, Voodu)!

Tanto faz, não têm nada a perder!

Já não esperam nada: por que não hão-de tentar a magia negra??? Tentar "acreditar"?

Bandeira de Vudu

Mais adiante:

"Longe de tudo e de todos, milhares de haitianos celebram em Saut D’Eau, a uns 60 kilómetros a norte de Porto Príncipe, "o compromisso". Um ritual meio católico, meio vudu que os faz entrar em transe e esquecer a miséria por uns dias.
(...) Um grupo de mulheres vestidas com roupas azul-claro e brancas avançam, cantando em crioulo. Todas usam a mesma espécie de escapulário da Virgem dos Milagres.
Uma delas explica que vieram do norte da ilha para rezar.
Reconhece-se católica, mas não vê nada de mal no vudu. "As duas coisas são parecidas", diz ela, enquanto avança até um grande largo onde se juntou enorme multidão.

Ali, no meio, Pier Janis, vestida de amarelo, baila ao ritmo africano dos "bongos" e das "maracas".
Em redor, homens mulheres, jovens e velhos, movem-se ao mesmo ritmo.
É o momento do sacrifício. Vários homens trazem duas vacas duas cabras para que la santeira escolha o animal que deve ser sacrificado ao deus Erzuli. A cadência vai-se acelerando e Pier Janis dá voltas cada vez mais rápidas, com os olhos cerrados.
Está como que em transe quando se aproxima dos quatro animais; toca-lhes, anda á volta deles até que, finalmente, se apoia, meio desmaiada, sobre a cabeça e o pescoço de uma das vacas. É a eleita..."
"Que estranho! Vudu?!", dirão...
E que outras respostas concretas há?
Ajuda internacional ...ou Vudu?

Notícia, há dias, no "Público":

"Sessenta toneladas de ajuda humanitária partem hoje de Lisboa a bordo de um navio com destino ao Haiti, onde em Janeiro um sismo devastou o país, provocando a morte a 200 mil pessoas e desalojando milhares de outras. O donativo anónimo foi recolhido pela Associação Forever Kids."

Na "epa" (European Press Agency, on line): 17/08/10

Porto Príncipe, 17 de Agosto (EFE):
"A Comissão Interina pela Reconstrução do Haiti (CIRH) aprovou nesta terça-feira em Porto Príncipe a realização, durante os próximos três meses, de 29 projetos com um investimento de US$ 1,6 bilhões e com a perspectiva da criação de dezenas de milhares de empregos."

AFP: 18/08/10
"O Banco Mundial anunciou ajuda de US$ 55 milhões para o Haiti, depois do terremoto de 12 de janeiro que matou 230 mil pessoas e destruiu boa parte da capital Porto Príncipe. O dinheiro será destinado às necessidades mais urgentes para que se possa reconstruir o país."

Bem. Vamos acreditar que vai ser desta...

É "desejo que aconteça", apenas? O tal wishful thinking dos ingleses?

Acreditamos mesmo... ou , se não for verdade, recorremos ao Vudu, também? É uma solução.


Recolhi algumas informações, caso alguém esteja interessado...

Informações para assistência humanitária:

- Não recolha água, alimentos nem roupas para o Haiti porque o país não dispõe das infra-estruturas necessárias para os distribuir;
- Opte por doar dinheiro a organizações de ajuda humanitária reconhecidas, permitindo aos profissionais obterem exactamente aquilo que é preciso sem sobrecarregar os recursos já escassos para os transportes e armazenamento;

- Quem quiser voluntariar-se para ajudar no terreno tem que ter experiência anterior em cenários de calamidade ou em países estrangeiros, ou possuir capacidades técnicas em carência no momento, e deve fazê-lo através de uma organização reconhecida de assistência humanitária.

Mais informação disponível no Centro de Informações sobre Desastres Internacionais, agência ligada ao gabinete de Assistência em Calamidades das Nações Unidas, em www.cidi.org.

(*) Mitos e Falsas concepções da "religião" vudu, que 5% da população do Haiti ainda pratica hoje:

"O Vodu veio ser associado na mente popular com os fenómenos como "zombies" e "bonecas do vodu".

Enquanto há uma evidência etnobotânica que se relaciona à criação do "zombi", é um fenómeno menor dentro da cultura rural do Haiti e não uma parte da religião de Vodu em si.
Tais coisas caem sob os auspícios do "bokor" ou do feiticeiro mais do que do sacerdote do Lwa Gine.
A prática de furar com agulhas "em bonecas vodu" foi usada como um método de amaldiçoar um indivíduo por alguns seguidores do que veio a ser chamado "Voodoo de Nova Orleans", que é um variante local do voodoo.

As bonecas de "vodu" não são uma característica da religião haitiana, embora as bonecas feitas para turistas possam ser encontradas no Iron Market em Port-au-Prince, capital do Haiti.

A prática tornou-se associada ao Vodu na mente popular através dos filmes de horror." (wikipedia)

(**) Sobre o Haiti:

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Recordando a cantora Abbey Lincoln: a última Lady do Jazz americano...


http://www.youtube.com/watch?v=Un9EOjbUWVA

Morreu Abbey Lincoln, com 80 anos.

Cantora de espirituais e de Jazz, distinguiu-se também, nos anos 60, pela sua luta pelos direitos das minorias negras, sendo uma ctivista política sempre presente na defesa dos “direitos humanos e raciais”, nos USA.
Participa, também, nessa altura, em alguns filmes.

Segundo o jornal "New York Times", a última grande Dama do Jazz americano morreu em Manhattan, no passado dia 14.

Sofria do coração desde 2007.

Em 1964, entra no filme de Michael Roemer "Nothing But a man", que se debruça sobre os problemas raciais, nos estados do Sul, da América.


Também chamado “Alabama Song”, fala da história de um homem (o papel é desempenhado pelo actor Ivan Dixon) que queria ser apenas “um homem”, mas a cor da sua pele não lho permite...

O filme foi reeditado em 2004, em DVD, numa edição especial, comemorando os 40 anos do que é hoje considerado um clássico do género.

Em 1968, entra no filme de Daniel Mann, “For love of Ivy”, contracenando aqui com o actor Sidney Poitier.

Muito influenciada pela grande Billie Holiday, cedo se dedica à música, e pela vida fora vai continuar essa paixão, compondo e cantando canções de Jazz, entre outros géneros.

Nos anos 90, surge como cantora e compositora de “espirituais”.

Canta com vários grupos e acompanhantes, Max Roach (Freedom Now Suite) e Coleman Hawkins são alguns desses nomes famosos.


Breve biografia:

Abbey Lincoln era o nome artístico de Anna Marie Wooldridge que nasce na região do Michigan, em Agosto de 1930.

Anos mais tarde, com dezanove anos, muda-se para Los Angeles, onde inicia a sua carreira, que foi longa.

Abbey grava discos -e actua- até 2007. Nesse ano adoece gravemente do coração, tendo sido operada.

Entre as canções e interpretações mais recentes (e mais conhecidas) temos: “The World is Falling Down” (1990), “A Turtle’s Dream” (1995) e “Who Used to Dance” (1996).

Morreu no dia 14 de Agosto, na semana passada.
Até sempre.

Para que não seja esquecida, deixo-vos algumas músicas, para ouvirem (para a conhecerem')... ou para recordarem a sua voz.