
“Boa viagem, meu irmão!” , desejam-se à passagem...

As caravanas de carroças, com rodas desconjuntadas, como as dos pioneiros do oeste selvagem...
Lá iam os ciganos.
De onde vinham? Para onde iam?
Em França chamam-lhes “les gens du voyage” (as gentes da viagem, ou, melhor “os viajantes”...), distinguindo os que nasceram em França dos que vieram da Europa central, de Leste.
Em França há, também, os tziganes, os manouches, os yéniches...
Em Espanha, os “gitanos” (vindos da Andaluzia –ou da Catalunha?), ligados à cultura do Sul e à criação do "Flamenco" ou vindos da Europa Central.

Parece confirmado que a sua língua está próxima do sânscrito e que se foi enriquecendo, no decorrer das viagens, com palavras e o vocabulário próprio dos países que atravessaram.
Que levaram com eles pela Europa.
Vi um filme –lindo, de uma beleza e humanidade enormes, realizado por Tony Gatlif, que falava desses povos nómadas que vieram, pouco a pouco, aproximando-se da Europa.

Com a sua cultura, o seu gosto pela música, pelos instrumentos musicais, pelo canto, vão de lugar em lugar, acampando debaixo de grandes árvores centenárias, perto de terrenos onde corriam ribeiras, reunindo-se em sessões, ajuntamentos inesperados, em que todos chegam de toda a parte e ali perduram uns dias, algumas noites, cantando ao desafio, e grupos, cada um simbolizando a sua “diferente” cultura frente aos demais.
Em vários campos...
Para mim era este o mundo dos ciganos.
“De onde vinham? Como chegavam à cidade? Onde ficavam? Nunca o soube, era miúda e nunca me interroguei sobre isso.
Quem eram?
De que parte do mundo viria aquele grupo que surgia do nada, numa tarde quente, atravessando as estradas poeirentas do Alentejo, e vinha dar o seu humilde espectáculo de sonho, para desaparecer outra vez?
Uma família de nómadas, parando aqui e ali, acampando na sua carripana puxada por uma mula, coberta com um toldo de lona, e cheia de tachos, carvão e fogareiros, banhando-se nos rios ou nas charcas, instalava-se.
Desenrolavam um tapete colorido nas pedras da rua e ouvia-se o rufar do tambor que um garoto despenteado trazia a tiracolo. Rapidamente, começavam as cambalhotas no chão da pequena contorcionista, de costelas visíveis debaixo do maillot sujo. Enfeitada de colares e de pulseiras nos pulsos finos, agitava os dedos num jeito de bailarina oriental.
Sim, era o sonho e a magia das coisas extraordinárias que agitavam a terra, que continuavam infindáveis, e nos faziam viver...”
A literatura está cheia dessas personagens que chegam, envoltas em mistério, num fim de tarde e partem, silenciosos, ao nascer da manhã...
“O grupo errante, homens, mulheres e crianças, levantou arraiais e atravessou a vau a ribeira para o outro lado. Tornou a acampar debaixo dos primeiros arcos, na margem fronteira.
Os burros retouçavam nos mouchões, espojavam no areal a sornice de uma tarde quente.
O cigano velho (...) quedou num monólogo onde pairava a perseguição que os acompanhava na vida, acampando ao deus dará das feiras, dos povoados e dos montes.
Era sina de cigano... Vaguear sem rumo e sem destino. Largueza lhe chamavam, era alcunha que o mundo lhe deixara. Contudo nada havia mais largo que o mundo, o mundo era dele, tinha as estradas desimpedidas.
(...)
Ao outro dia partiram.
Desciam a planície, encaminhavam passos vagarosos de encruzilhada em encruzilhada, de ribeira em ribeira, a caminho da feira de Évora. Tinham as estradas desimpedidas e, o verão pela frente.
Outras feiras os chamavam. Ao sol de maio, estrada fora, a caravana sumiu-se no pó da estrada barrenta...”
E encontrararia decerto mais textos e livros que falam dos ciganos e da sua magia, da liberdade errante, pelos caminhos e pela “largueza” do mundo.
Por exemplo, a “selvagem” heroína de “O Moinho à Beira do Rio”, de George Eliot, quando foge, criança, para o acampamento dos ciganos e trava conhecimento com as mulheres, o velho chefe, atraída pela vida livre dos rebeldes viajantes, de que tanto ouvira falar.














