O nevoeiro começara a subir pela a serra de Marvão, para lá dos telhados vermelhos das casinhas brancas, e o vento cortante parecia entrar nos ossos.
A pequena vila parecia adormecida no fim da tarde de Inverno. Passaram duas mulheres, iam falando do frio e, de repente, uma apontou para o céu: - Já chegaram, viste?
Olhei também. Eram as andorinhas que voavam num pequeno bando de quatro ou cinco. Vira-as nessa amanhã, ao acordar. A outra respondeu, olhando para cima: - Já vi. Enganaram-se, coitadas...Parecia que vinha aí o calor. -Julgaram que tinha chegado a Primavera, coitadas. Não vão durar, comentou a primeira.
E continuou:
- Começaram a fazer o ninho ontem no beiral da minha casa, mas não agarrou, caiu, e hoje estavam lá de roda outra vez... - Pois é..., E abanou a cabeça, erguendo-a, a indicar o céu escuro. De facto, enquanto o nevoeiro subia lá de baixo, o céu de um azul esbranquiçado ainda há pouco escurecia a olhos vistos. A noite caía. As andorinhas apressavam os voos. Se calhar pensavam o mesmo que nós e, assustadas, agitavam-se como voando às cegas.
A primeira mulher disse, com tristeza: -Pois é, andam a acabar os ninhos. Mas não vão durar..., repetiu.
A manhã seguinte veio cinzenta de chumbo e o nevoeiro estendia-se já pela vila toda, de uma ponta à outra. Emergiam as ameias do castelo, as guaritas, a torre maior e o velho castanheiro secular.
Nas ruas andávamos como que envolvidos num novelo de lã branca, dava vontade de estender as mãos para afastar os fios.
À noite, os lampiões alumiavam fracamente numa luz amarela leitosa. O nevoeiro em rolos cada vez maiores deslocava-se de lado a lado, deixando por breves momentos luzir uma estrelinha lá no alto, que logo era engolida pela névoa. O que ia ser das andorinhas e dos ninhos? Na manhã seguinte, o mau tempo continuou. Olhei os céus à procura delas e não as vi em lado nenhum. Tinham desaparecido...
Hoje, longe da Serra de Marvão, perto do mar, a Primavera chegou.
Mas aqui olho para os céus e não vejo as andorinhas...
Andava com saudades de voltar aos “meus” posts policiais e ontem o pedido de uma amiga-leitora empurrou-me:
“(...) por favor, volte aos nossos policiais! Maria J., continue com os policiais, please. E música… como aquela. ('Summertime') Always! "
Senti-me aliviada. Estava num “bivio” palavra italiana que acho muito forte e cheia de sentidos (fortemente polissémica, diriam os sábios): é dilema, é cruzamento, encruzilhadas, é muita coisa, enfim. Pois, ao fim e ao cabo, decidi e aqui venho falar de um dos grandes escritores policiais, de que muito falei, agora pouco falo mas que nunca esqueço!
No próximo "post" irei falar de Dashiell Hammett.
Antes, queria fazer um pequeno aparte sobre o que li entretanto: Acabei de ler um livro da Mary Higgins Clark, "The Craddle will Fall", escritora policial americana (1). É considerada a Rainha do Suspense da América e por vezes escreve também, em duo, com a filha Carol, como por exemplo o livro intitulado: "Dashing through the snow".
Bem escrito, bem estruturado, prende o leitor -muito “suspense”. Li-o em poucas semanas porque leio sempre vários livros dos mais diversos género, contemporaneamente. O que querem? Ler é o meu vício!
De facto, neste romance (The craddle will fall), apesar de, quase desde o princípio, saber quem é o assasssino da história o interesse mantém-se até ao fim.
Nos últimos anos comecei a ler outro tipo de leituras policiais. Outro tipo diferente dos chamados "clássicos" policiais (o que é clássico?), com o seu crime, a investigação minuciosa (tipo Sherlock Holmes e o método de observação) por parte de um detective. Ou à maneira do comissário (Maigret e a "aproximação pela compreensão" dos motivos do assassino, Miss Marple, Poirot - e as suas "célulazinhas cinzentas" infalíveis, ou mesmo o Wexford, o Chief-Inspector de Ruth Rendell) e a resolução de um mistério que parece insolúvel.
Ou, então, a análise do crime e do criminoso, a nível "físico-psicológico" da doença do espírito e do corpo, ou psicanalítico, ou "científico", como hoje se usa: os psicopatas aparecem, os assassinos em série, etc. e todo o aparato da Medicina Legal, autópsias, identificações minuciosas de tecidos, analisados, escalpelizados, numa especialização só possível nestes finais do século XX e princípios de XXI.
Já falei da Ruth Rendell e da israelita Batya Gur, que alia a história detectivesca a uma análise psicológica.
Também li muito ( e gosto) Patricia Cornwell -ela própria especialista de análise em computadores trabalhando num Gabinete de Medical Examination, da Virginia, durante 6 anos e a sua heroína fantástica Dr. Kay Scarpetta, no seu cientifismo policial (1): análises de tecidos, DNA, genes, tudo é dissecado (aliás a dissecação é pormenorizada nos seus livros e o médico legista fundamental).
Rosamond Smith (3), pseudónimo, aliás, da escritora americana bem conhecida, Joyce Carol Oates) é a autora de romances de perseguições horrendas por parte de assssinos psicopatas ("Soul/Mate", terrível exemplo de uma mente doente à procura da sua "mente/metade");
Ou Barbara Vine (4), aliás, Ruth Rendell, ou a inglesa Martina Cole ("Por Perto", editora Civilização).
O romance policial torna-se um thriller em que o assassinop é um psicopata, serial killer, psicótico, que persegue cruelmente as vítimas.
Frequentemente surge a evocação dos corpos torturados, martirizados, mãos decepadas, rostos desfigurados num manancial de sangue e sadismo.
Procura sádica essa leitura, por vezes masoquista, numa certa forma, diria, de "auto-vampirização" das massas que vão atrás dessas imagens brutais quase insensivelmente, procurando "auto-lesionar-se", magoar-se? Confesso que também eu fico presa do suspense, da perseguição infernal, maléfica daquele psicopata, aparentemente normal, daquela vítima inocente que o provoca sem saber.
Curiosidade mórbida de uma certa forma de "desconhecido" que gostaríamos de desvendar.?
A querer saber como é , afinal?
Quem é o assassino? Por que o fez? Como o fez?
E o detective/comissário/promotor de justiça/psiquiatra -poderá descobrir as razões?
E evitar que volte a acontecer?
Como se pode "explicar" este ou aquele comportamento?
Seremos todos vítimas de um modo ou de outro?
Todos estes romances não teriam sido possíveis antes -ou apenas como ficção cinetífica, de tal modo moderna e ultra-sofisticada é a "aparelhagem" policial e científica em laboratórios que está por detrás do investigador. Também li P.D. James ("A Certain Justice", p.ex.) –inglesa que escreve há muitos anos bons livros policiais, numa mistura de "clássico" e "moderno", chamemos-lhe assim.
Mas confesso que sinto às vezes a falta de uma certa preocupação ética: sim, ética! Quando leio Raymond Chandler, Dashiell Hammett, Hartley Howard etc, sinto (não falo já dos outros clássicos: Simenon, Dorothy Sayers, Rex Stout, Agatha Christie) -é mesmo um sentir cá de dentro- que, para lá de todas as cenas de violência, sentimentos brutais, paranóias, corrupções, há uma preocupação moral.
Moral no sentido de distinguir o bem do mal, moral no sentido de se ser exigente no que se escolhe: isto não se faz porque sim, isto justifica-se mesmo que aparentemente errado a certos olhares porque sim...
Sam Spade, Marlowe são capazes de violências enormes, de baterem, de matarem, mas só se for necessário: para se defender, defender alguém.
Matar tem então um sentido –uma justificação? Bowman, herói de Howard também se preocupa com “essas coisas”: o dinheiro sim, os dólares antecipados para cumprir uma missão, sim, MAS não qualquer tipo de “missão”.
Ao ler estas histórias sangrentas, doentias, cheias de sangue e de horror penso como eram ingénuos estes duros de Chandler e de Hammett! Que boa era a "ingenuidade" deles!
Há uma exigência moral. E põem logo os pontos nos “iis”.
Nestes outros romances mais recentes -os tais científicos- há sem dúvida o bem e o mal bem distintos (a Dra. Kay Scarpetta, de Patricia Cornwell, ou a Promotora Katie DiMaio, de Mary Higgins Clarck) estão do lado da justiça.
Ao ler estas histórias de crimes sangrentos, doentias, que nos deixam cheios de susto e de "medos" penso como eram ingénuos os duros de Chandler e de Hammett!
Que boa era a ingenuidade deles.
Como o era Maigret, com todas as suas branduras ou formas de ternura quando deixa “escapar” certos culpados (que foram “empurrados” para um crime que a sua natureza logo condenou)...
Mas a apresentação de um mal "quase inelutável", dos assassinos "psicopatas" incontroláveis, apesar da atracção, deixam-nos uma forma de susto, de inquietação: será bom falar tanto deste "evil" -mal, seres diabólicos- que nos rodeia? Não será "banalizá-lo"? Trazê-lo só à superfície -sem qualquer preocupação de o explicar/reprimir/ ajudar?
Pergunto eu...
E penso: como eram reconfortantes os "duros" à Humphrey Bogart, ou falsos-duros, de Chandler e de Hammett!
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(1) outros livros de MHC: "I'll be seeing You"; "All Around the Town"
(2) outros livros de Patricia C: o seu primeiro romance, (recebido com grande sucesso) é "Post Mortem", depois vem "The Body Farm", "The Body of Evidence"
O maravilhoso Snoopy costumava dizer: "hão-de vir melhores dias...!" E acrescentava, filosoficamente: "Sábados e domingos..." Eu acho que os melhores dias são estes -em todas as estações- ouvindo coisas que nos fazem bem!
O cantor Jean Ferrat, considerado o último dos grandes nomes da canção francesa, ao lado de Jacques Brel, Leo Ferré e Georges Brassens, morreu no sábado passado, em Ardèche, no sul da França, onde vivia. Jean Ferrat tinha 79 anos, compôs e interpretou cerca de 200 canções.
Nasce em 26 de Dezembro de 1930, em Vaucresson (Paris), e é registado com o nome de Jean Tenenbaum.
Com 11 anos, perdeu o pai, imigrante russo, que foi deportado para Auschwitz, onde morre.
Ferrat salvou-se graças a militantes comunistas, algo que nunca esqueceu.
Deixou de estudar depois da Guerra e trabalhou como assistente num laboratório de química.
Em 1954 começou a cantar em cabarés parisienses. Rapidamente, Jean Ferrat decidiu interpretar "letras" ou poemas "engagés" como "Nuit et Brouillard" (Noite e neblina, 1963), que fala dos horrores da deportação durante a guerra - e canção proibibida nessa altura na "radio" -, e mais tarde "Potemkin" (1965), homenagem aos marinheiros do couraçado do Mar Negro, cujo motim foi o prelúdio da Revolução Russa de 1905, (canção também proibida). Simpatizante do Partido Comunista, sem nunca ter sido membro, Ferrat tomou, no entanto, sempre certa distância do regime soviético. Assim, na canção "Camarade", denunciou a invasão russa de Praga, em 1968.
A tarde estava fresca, era a estação da Gravana e o jardim mostrava os verdes e as cores vivas das flores tropicais: rosas de porcelana, bicos de papagaio, bordões de S. José... Não me cansava de as olhar. A Dáy subia e descia da goiabeira, fazia corridas com o Zac, o meu raposinho cor der mel.
Perguntei ao sr. Semedo: - Onde é que há cobra preta, Sr. Semedo? Há cá na ilha mesmo, ou é invenção?
Queria saber bem o que eram as histórias da cobra preta, a “cobra-minuto”, que de vez em quando me vinham contar, mostrando uma pele de cobra seca, enrolada e de cor amarela, que vinha –contavam- duma roça do interior.
O Sr. Semedo sabia tudo e o que ele mais gostava era de estar ali, no jardim, parado a olhar em volta as plantas que ajudara a crescer, a ver as flores, a fruta-pão no alto da fruteira, as mangueiras, os coqueiros que plantámos com ele. E a contar-me coisas. Olhou-me, com um ar circunspecto, tossiu uma tossezinha seca e, encostando-se ao pau da vassoura, começou: - Não é invenção, não, Doutora. Há mesmo cobra preta cá na ilha! - Mas perto da cidade não, pois não?
- Bem, na cidade capital não. Se a doutora for para o Sul nos seus passeios até pode encontrar...
Hesitou e disse: - Ou para o Norte, claro, para a Trindade, para o Monte Café e mais para cima ainda. No ôbó. Eu até já disse à dôtôra que nunca deve parar nos sítios onde haja vegetação cerrada, o matagal. Elas gostam disso... Toda a mata! Onde há cacaueiro, árvore de sombrear, tudo! Roça do Monte Café
- Elas gostam de quê, Sr. Semedo?, continuei.
Gostava de o ouvir falar.
Encolheu os ombros magros e acrescentou, quase sorrindo. - Da secura, gostam de estar cobertas de folhas, gostam de se arrastar pelo chão, lá por baixo, na erva... Pensou um pouco e continuou: - Na Gravana. Agora... Com as chuvas, elas escondem-se. Devem ter buracos ou isso... - Pois, é verdade, dizem que é na secura da Gravana... - Quando a dôtôra for de passeio no jeep nunca saia fora da estrada! Se ouvir um barulho de rastejar, assim “schschsch” nunca se aproxime! Pensou, olhou para os meus pés descalços apoiados na relva, e disse: - Sobretudo sem botas! A doutora não tem botas...
E era verdade, não tinha. “Naquele clima sobretudo quente e húmido, quem se lembrava em andar com botas?”, pensei. O Sr. Semedo sabia bem que eu usava sandálias, ou sapatilhas de pano. Pareceu preocupado logo. Levava muito a peito a minha segurança.
A Daý, que se aproximara a ouvir, deu uma gargalhada:
- Dôtôrra não precisa de botas! Não há cobra preta aqui! O Sr. Semedo olhou para ela, irritado, suspirou e não me pareceu muito tranquilo. - Pois é, mas eu é que sei o que é perigoso... - Não vou para esses sítios, esteja descansado..., disse para o acalmar. - Sim, sim. A doutora diz que não, mas vai lá para aquele Miradouro... Começou a passar o cigarro de uma orelha para a outra, como era seu costume. Estava nervoso, não tinha coragem de o fumar na minha frente. - Pode fumar o cigarrinho, Sr. Semedo, não faz mal... Aliviado, tirou-o da orelha, riscou um fósforo no tronco da buganvília e agradeceu. - Obrigada, doutora. É o cigarrinho da manhã, só o vou fumar agora... E ria-se. Olhou em volta o seu jardim.
Depois insistiu, desconfiado: - Mas a doutora vai para o Miradouro, eu sei, e, nesta altura, é perigoso. - Dôtôrra sabe tudo, dizia a Day. Não precisa ensinar ela... - Criança fala muito e não sabe nada!, resmungou. Ignorei o que a Dáy dissera. Ela estava sempre a contrariar toda a gente e só me tinha respeito a mim.
Virei-me para o Sr. Semedo e disse-lhe: - Tem toda a razão, Sr. Semedo, eu não devia ir para aqueles lados. E imaginava barulhos lá longe, no miradouro, no matagal que descia por ali abaixo quase até ao mar. - Está tudo feito num matagal...
Olhei para ele:
-Pode ser perigoso. Não é verdade? - Pode ser perigoso, sim, doutora, pode mesmo... Eu até vou contar à doutora uma história verdadeira... Vai meter medo... Sorriu, quase contente com a ideia de me meter medo. Talvez pensasse que podia assim evitar que me fosse meter numa situação dessas. - Assim doutora já não vai para lá!, disse com os olhos brilhantes. E começou a história que não esqueci: - Bem, aqui há uns tempos... Pensou, e disse: - Foi na última estação da Gravana, pois foi, um casal de turistas resolveu dar um passeio e ir comer para o campo.... Olhou para mim, levantou um dos ombros, e explicou melhor: -Piquiniqui, ou essas coisas, a doutora sabe o que é. Levam “sandis”, latinhas de cerveja dentro duma caixa com gelo, e frutas... - Sim, Sr. Semedo, sei... -Pois então, eles foram num jeep, por acaso alugado ao Sr. Rodrigues, foi ele que me contou e entraram por um desvio, na picada de mato seco, pararam e puseram-se a comer sentados nuns banquinhos...
fruto do cacaueiro, maduro
- Ah! E o que aconteceu?, perguntou a Dáy, de repente interessada.
- Bem, ao princípio, não houve nada. De repente, é que ouviram um barulho e viraram-se para trás a olhar! Sabe o que era, Doutora? -Cobra preta? - Sim. Uma família de cobra preta, com filhos e tudo! Saíram do mato, a rastejar de cabeça levantada. Para picar, claro... - E elas não tinham medo?... - Quando têm fome, as cobras não têm medo da gente. Cheiraram a comida... - E depois?, perguntei, incomodada com a imagem da cobra e das cobras pequeninas, como enguia, a rastejar correndo em direcção dos desgraçados. - Ficou com medo, não doutora? Ainda bem! É mesmo assim. Cobra preta faz muito mal e a picada dela não tem cura. É “cobra-minuto” como lhe chamam, a doutora já ouviu chamar assim? - Sim, já ouvi... Se não se dá um antídoto, a pessoa morre. Não é num minuto, é claro... - Pouco mais, doutora! Se não houver a injecção, não há salvação... E dizem que tem de vir esse remédio de Paris... Ou do Gabão. - Sim, disseram-me isso. - Qual injecção?, perguntou a Dáy. Estava impressionada também. Parecia ter perdido as cores do rosto, e o sorriso irónico desaparecera. -A injecção é o antídoto, o contra-ataque para anular o veneno... - E se não houver, dôtôrra? A gente morre?, perguntou a Dáy. O senhor Semedo disse, com um ar grave: -Quando esse remédio, que diz doutora, não chega, morre-se...
- E então, o que faz a gente?, continuou ela. -Então, a gente tem que morder na ferida, chupar o sangue e cuspir logo, chupar e cuspir. Fazer isto muitas vezes, com cuidado... Se tiver ferida na boca...morre também! Lembrava-me de ouvir falar dum garrote que se devia pôr, acima da mordidela da cobra, para o sangue não ser infectado, e, de facto, tinha de se aspirar o veneno, e cuspir.
Para distrair a Dáy, perguntei:
-E depois, como acabou? -Bem, eles fugiram a sete pés! -E os bancos? E a comida?, continuou a Dáy, prática. -Largaram comida e tudo no chão! Até os banquinhos... -Os banquinhos também? A Dáy sorria, outra vez divertida, a imaginar a corrida, os bancos abandonados no chão, a comida a ser devorada pelas cobras esfomeadas. -Parece que os turistas entraram pelas traseiras do jeep, um a puxar pelo outro, treparam de gatas e saltaram por cima dos assentos da frente, até se agarrarem ao volante! -Ah! Meu Deus! Ha!ha!ha! De gatas... E a Dáy agora quase chorava de tanto rir...
- De gatas!
Sentada no chão, batia com as mãos nos joelhos. O Sr. Semedo olhava-a com ar de censura. -Que história!, disse eu. -Pois foi, doutora. Acho que quando arrancaram com o jeep só pararam na cidade, no mecênico, e puseram-se a espreitar debaixo do jeep... - Por quê a espreitar?, interrompeu a Dáy. - Tinham medo que alguma das cobras viesse pendurada. Ou que estivesse escondida na caixa das mudanças... Agora o Sr. Semedo também sorria. -Contou o Sr. Rodrigues que estavam verdes de medo! A Dáy deixara de rir. Chegou-se para o pé de mim. -A dôtôrra já não vai mais àquele miradouro, pois não? Sorri e abanei a cabeça. -Não, não vou... -Pois é. Eu já avisei doutora...Doutora não queria ouvir... -Ouvi, ouvi. Agora ouvi, Sr. Semedo.
-Bem. Vou então acabar de varrer o jardim. Na Gravana, a doutora sabe, cai muita folha...
O Sr. Semedo apagou o cigarro, pegou na vassoura e foi para o lado da cozinha onde a Milly conversava alto com a Nina. Eu e a Dáy, pensativas, ficámos a ver descer a noite no quintal.
Resposta a pedido de socorro, enviado por admiradores de Corto Maltese:
Recebi um SOS de "Anónimo" que dizia :
"Gostava que pusessem informação sobre as personagens principais do corto maltese.É mesmo muito URGENTE. Agradecia a vossa colaboração, obrigada com muitos cumprimentos dum grupode á.p. que está aflitissimo". 12 de Março de 2010 01:36
e, mais tarde, repetia o pedido:
"É para AMANHA, PORFAVOR, POR VOLTA Do meio-dia :) muito obrigada se conseguirem cumprir o PRAZO:S, GRUPO De a.p. desesperados"
Aqui vai uma ajuda, numa pesquisa feita a correr. Vi que viram o meu "post" sobre o Corto Maltese. Acrescento um pouco... Estou fora de casa onde tenho o meu "material", mas encontrei isto na internet...
Espero ajudar os "desesperados" que, sei lá porquê, imagino "alunos desesperados"....
Algumas personagens da Banda Desenhada “Corto Maltese”, do veneziano Hugo Pratt :
O Capitão "Rasputin", o russo, (que ora é amigo, ora inimigo feroz), o "Monge" que vive na Ilha de Escondida onde tem todos os poderes, e outros que aparecem e desaparecem, como o "piccolo piede d'argento" (o "pé de prata"), de Una Favola di Venezia, figurinha inesquecível.
E as fascinantes figuras femininas:
A loira e sofisticada "Pandora", a "Bocca Dorata"- a mágica esotérica brasileira, mais a sua jovem discípula "Morgana", ou a perversa "Veneciana" e, ainda, a aristocrática russa "Marina Seminova" que atravessa as estepes siberianas num comboio blindado, durante a Revolução Russa.
No livro “As mulheres de Corto Maltese”, de Michel Pierre, vêm indicadas outras personagens femininas: Cito: "O álbum está recheado de cartas onde as mulheres falam de Corto directamente, ou, tratando de outros temas, relatam os seus encontros com o misterioso marinheiro, que em todas deixou uma marca indelével."
O blog "portalivros"continua:
“As Mulheres de Corto Maltese” é, simultaneamente, uma espécie de viagem à História do início do século XX (é sempre feito um enquadramento da época) e um livro de viagens, tal a diversidade de paragens por onde Corto Maltese viajou e por onde Corto espalhou o seu charme e o seu mistério.
De Veneza à Irlanda, da China ao Saara, passando por Hollywood, Petrogrado, Etiópia.
Como frisou Michel Pierre, “Corto Maltese é sem dúvida um dos heróis mais sedutores da banda desenhada. E sem mulheres faltar-lhe-ia realmente uma razão de existir”. Aqui vai o nome de mais algumas : Pandora, Soledad, Banshee, Morgana, Madame Java, Boca Dourada, Xangai-Li.
Finalmente tenho nas mãos a Biografia de que aqui falei há pouco tempo: "Chopin, Príncipe dos Românticos", escrita por Adam Zamoyski.Comprei-a na "Daunt Books", da Fulham Road -livraria impressionante pelas dimensões, pela quantidade e variedade de livros, pela arrumação, pelo conforto, pela rapidez com que chega o livro encomendado que, por acaso, não tenham e que vão encontrar seja onde for, se necessário até usado.
Volto a falar de Chopin, o "doce Chopin", parafraseando Eça a falar do "doce Rabi", Jesus...
O livro -que no fundo é a reformulação de uma anterior biografia publicada pelo autor- aparece agora aumentado e modificado pelos novos conhecimentos que se têm hoje sobre a vida de Chopin, sobre a sua doença, etc.
Adam Zamoyski explica no "Prefácio" que, estando o livro esgotado há muito, achou útil acrescentar tudo o que foi estudando e aprendendo nestes anos, e que, de tal modo o alterou e acrescentou, que achou por bem mudar-lhe também o nome...
Adam Zamoyski nasceu numa família da aristocracia polaca, em New York, mas viveu desde muito novo em Inglaterra. Estudou em Downside e no "Queen's College", de Oxford. É o reitor da Princes Cartoryski Foundation.
Historiador freelance, com um extraordinário conhecimento de várias línguas tem uma já vasta obra de história. É também escritor e biógrafo.
Em Junho 2001 casou com a pintora inglesa Emma Sergeant, retratista de talento, vencedora do Prémio da National Portrait Gallery, com 21 anos.
1.Chopin, 1840, Ary Scheffer
2.Chopin, desenho de Franz Xaver, 1847
3. o compositor Inaz Moscheles
4. Pauline Garcia-Viardot, conhecida mezzo-soprano, auto-retrato
5. August Franchomme
1.Maria Wodzinska, auto-retrato
2.Chopin, pintado por Maria Wodinzka, 1836
3. George Sand, pintada por Luigi Calamatta
4. Marie d'Anguoul, por H. Lehaman
1.Marcelina Czartoryska, protectora do pianista
2. Maria Kalergis
3. retrato de Chopin, tirado um mês antes de morrer
4. Jane Stirling
A biografia foi enriquecida, também, por belas fotografias das pessoas que ao longo da sua curta vida protegeram Chopin, das mulheres que o amaram ou ajudaram, dos amigos, da família, das casas onde viveu.
* * *
Começa com a descrição impressionante do enterro do compositor, que morreu jovem e famoso.
"É o dia 30 de Outubro de 1849 e uma multidão enche já a nave de La Madeleine, em Paris. Fora, centenas de carruagens aguardam nas ruas e avenidas circundantes, causando distúrbios no trânsito da cidade até à Place de la Concorde."
Assim começa o primeiro capítulo da biografia.
O corpo de Chopin repousa na Igreja, adornada com os enfeites mais ricos, painéis de veludo negro com as letras "F. e C". bordadas a prateado, pendurados cá fora da Igreja, cheia a transbordar de gente que pagou para assistir ao enterro.
* * *
Théophile Gautier, citado pelo biógrafo, recorda, com emoção:
"Ao meio-dia vêem-se chegar homens de negro com o esquife aos ombros e ouvem-se as notas de uma Marcha Fúnebre bem conhecida dos admiradores de Chopin. Um arrepio de morte percorre a congregação. Eu próprio tenho a sensação de ver o sol empalidecer detrás das cúpulas de um tom esverdeado, maléfico. Ouve-se o Requiem de Mozart cantado pela famosa mezzosoprano Pauline Garcia-Viardot e pelo baixo Luigi Lablache, acompanhados pelo coro do Conservatório de Paris, o mais fino da Europa."
Durante o ofício ouvira-se o organista de La Madeleine tocar dois "Préludes" de Chopin.
Centenas de acompanhantes, dentro e fora da Madeleine, esperam enquanto toca a Marcha Fúnebre.
Comovidos, amigos, senhoras de todas as idades, admiradores vão seguir a pé o cortejo fúnebre até ao cemitério do Père Lachaise. O ofício fúnebre e recitado por Adam Czartorisk, considerado por muitos como o Rei sem coroa da Polónia.
* * *
Vou passando as páginas, atraída pela maneira fluente de contar.
Depois, é o mergulho na vida de Chopin, na sua infância, na adolescência.
Apesar de poder ter sido um "menino prodígio", felizmente (sobretudo para ele) o pai prefere que ele faça a vida normal de todas as crianças: que brinque, vá para a escola, para o Liceu, estude o que os outros estudam.
E no momento da escolha crucial: Universidade ou Conservatório? Deixa-o seguir o Conservatório, mas com a obrigação de estudar na Universidade algumas matérias importantes, línguas, história etc.
Chopin aprende a tocar com três anos, sem quase nessitar de olhar para o teclado, para grande espanto do seu velho professor que, depressa compreende que não tem muito a ensinar-lhe. Compõe pequenas composições aos 8 anos, participa em concertos adolescente, mas cresce como uma criança normal.
Apesar de frágil de saúde, e de facilmente apanhar todas as doenças da infância, faz férias com os amigos no campo, assiste às festas -quase pagãs- do fim das "searas" no Verão, muito famosas na Polónia, cantacom as jovens ceifeiras que vêm cantar frente às casas da quinta do seus amigos, dança a mazurka até de madrugada, toca piano em concertos de beneficência, sem nunca tentar ganhar proveito material.
* * *
Seria difícil contar tudo, até porque ainda não li o livro, mas prometo vir de vez em quando contar alguma coisa!
É uma vida tão apaixonante, falando de alguém com uma vocação tão séria, que fez um trabalho tão honesto!
Gostaria de vos dar do que vou aprendendo um pouco mais...
A política e poeta Alda Espírito Santo, que lutou pela independência de São Tomé e Príncipe, morreu hoje numa clínica de Luanda.
"Alda Espírito Santo era presidente da União Nacional dos Escritores e Artistas São-Tomenses e já fora presidente da Assembleia Nacional, bem como ministra da Educação, da Cultura e da Informação.
Dado o agravamento do seu estado de saúde, fora há dias transferida para Angola, onde lhe amputaram uma perna para conter a gangrena provocada por má circulação sanguínea; mas entretanto entrara em coma.
Nascida em 1926, frequentou a Universidade de Lisboa e na Casa dos Estudantes do Império, foco do nacionalismo das antigas colónias africanas, conviveu com Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade e Marcelino dos Santos.
Deixou os livros de poemas “O Jogral das Ilhas”, de 1976, e “É nosso o solo sagrado da terra”, de 1978."
E outros livros igualmente interessantes...
O que há a dizer, quando um amigo morre?
Que ficamos um pouco mais sozinhos...
Que a terra fica mais tristesem eles...
Mas, Amiga, sei que o céu de S. Tomé, os pássaros de cores e nomes sem fim: os truqui-sum-deçu, os ossobós, as garças que se passeiam perto do Ilhéu das Cabras estão à tua espera e far-te-ão companhia quando voltares à tua Ilha.
Título do Corriere della Sera, página da Cultura de hoje, 8 de Março era: “La vita è bella a 70 anni!”
Trata-se da “resposta-protesto” do escritor italiano Rafaello La Capria, de 88 anos –escritor, ensaísta, autor de uma Autobiografia intitulada “Cinquant’anni di false partenze”, vencedor do Prémio Strega (*) com o livro “Ferito a Morte” e que, em 2001, recebe o Premio Campiello (*) "pela carreira".
Resposta a uma entrevista recente de Martin Amis ao Sunday TimesMagazine, em 24 de Janeiro de 2010 (reproduzida no Corriere de 25 de Janeiro de 2010).
Martin Amis “propusera”, de facto, que os adultos com mais de 70 anos deveriam fazer a sua própria eutanásia: “um bom martini com estriquinina e tudo se resolvia”...
Haveria para esse efeito cabines em cada esquina onde, com o cocktail, se recebia uma medalha (de bom comportamento, com certeza...)
E tudo se resolveria: o problema do envelhecimento (deles, maiores de 70, e da população em geral), do sofrimento à espera de morrer, da doença, das formas de vida vegetativa, da angústia... Um alívio. Também, claro, do excesso de “velhos” na reforma, a sobrecarregarem os “jovens” a trabalhar. Assim, a chamada “terceira idade” apagava-se para dar lugar aos outros que já aí estão à espera do lugar...
Não li a entrevista toda, não sei em que termos e em que contexto a frase aparece, mas a ideia é esta: O envelhecimento de grande parte da população vai ser nos anos 2020 "um autêntico tsunami de prata"...
Hoje, Raffaelle La capria, nos seus 88 anos cheios de vida, responde:
“O cocktail, meu caro Amis, bebe-o tu -se te apetecer! Eu, nestes 18 anos que passaram, não “vegetei”: li muita coisa que ainda não tinha lido, escrevi quatro livros que me deram grande prazer a escrever, viajei, conheci gente nova, nadei nas águas quentes tropicais. Aprendi muitas coisas. E tu?”
E continua:
“Parece-me ver nesta afirmação -mais do que um exibicionismo auto-promocional do jovem Amis- o pragmático, e “very english”, sentido comum, prático, levado às suas últimas consequências...”
Pragmatismo que o escritor italiano considera ligado a um certo típico humor negro.
Gostei da resposta.
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Excertos da entrevista, para quem estiver interessado:
Martin Amis: fears 'silver tsunami' The novelist Martin Amis has called for euthanasia booths on street corners, where elderly people can end their lives with “a martini and a medal”. The author of Time’s Arrow and London Fields even predicts a Britain torn by internal strife in the 2020s if the demographic timebomb of the ageing population is not tackled head-on. “How is society going to support this silver tsunami?” he asks in an interview in The Sunday Times Magazine today. “There’ll be a population of demented very old people, like an invasion of terrible immigrants, stinking out the restaurants and cafes and shops. I can imagine a sort of civil war between the old and the young in 10 or 15 years’ time.”
(*) O Prémio Strega é um dos mais prestigiosos prémios literários italianos. Strega não é só sinónimo de produtos de qualidade, mas também, desde 1947, o nome do mais importante prémio literário italiano.. Giorgione 1477-1511, in galleria Palatina, Firenze
“Temos de nos preocupar com o que aconteceu ao Leandro Filipe, um menino de 12 anos, de Mirandela, que morreu por se ter atirado ao rio para que nunca mais lhe tornassem a bater. Temos de fazer alguma coisa para que nunca mais nenhuma criança sinta vontade de fazer o mesmo. Querem uma causa nacional urgente, aqui têm uma. Deixem-se dessas "merdas" com o Crespo ou a Moura Guedes e pensem nas crianças que têm medo de ir à escola.” (Publicado por Eduardo Jorge Madureira)
Haverá em todos nós um “dark side”, uma face escura, como na lua?
Poderá existir inato, logo desde a infância? Fala-se sempre da crueldade das crianças... Será natural? Será a "luta" pela vida? Por crescer numa selva desconhecida? A necessidade de nos defendermos? O medo? Serão mais tarde as condições de vida?
De quem é a culpa?
Será a educação? Será culpa dos pais? (Penso que ninguém terá a coragem de dizer que é "culpa dos professores"!)
Nunca mais parava de me interrogar.
Porque, perante o caso do suicídio de uma criança, devemos sobretudo interrogar-nos.
Não sei por que acontece a violência de uns contra outros –os mais fortes contra os física e psicologicamente mais frágeis claro- nas escolas, entre miúdos...
Nestes últimos dias tem-se falado muito em Inglaterra de um caso sucedido aqui em 1993: dois rapazinhos de 10 anos arrastam pelas ruas de Liverpool uma criança de 2 anos que vão enchendo de murros e de pancada, até o deixarem morto num canto. Em Liverpool, cidade socialmente degradada com muita pobreza e vidas difíceis, é certo.
Crianças sem rumo abandonam a escola, vagueiam sem rumo e encontram bárbaras maneiras de se divertir –ou de se vingar?-, torturando uma criança indefesa. Os adultos que os viram passar, por que não intervieram?
Justificam-se dizendo que os dois rapazes afirmavam que o miúdo era irmão deles. Desde quando é normal irmãos mais velhos darem murros a um irmão ainda criança? Indiferença, desinteresse, penso. Indesculpável.
Foram condenados os 10 anos e estiveram internados num estabelecimento correccional. O Juiz que transformou a sentença de prisão perpétua numa pena mais leve justificou-se: “são crianças muito pequenas, que, provavelmente se tivesses tido mais três ou quatro anos não teriam tomado esta atitude. Demos-lhe esta oportunidade” .
Saíram em 2001, com nova identidade, e desaparecem na bruma. Com o 12º feito e “a capacidade de se exprimirem em bom inglês sobre o que lhes aconteceu e sobre os remorsos que sentiram”, diz o articulista do Guardian .
Voltou a falar-se outra vez deles, há dias, porque, enquanto um deles seguiu um caminho normal, sem percalços, o outro voltou a ser preso, e está na cadeia agora algures no País de Gales.
O que concluir? Cada um concluirá o que entender.
Por mim penso que a crueldade, a "potencialidade" do mal existe e que cada um de nós, aprende, desde criança, a controlar, canalizar, sublimar essa potencialidade pela vontade própria, pela educação, pelo amor. Quem não leu a horrível história do esquecido e grande William Golding, “The Lord of flies” (O Deus das Moscas), leitura obrigatória o curriculum das escola inglesa?
"The story that never grows old... Lord of the Flies remains as provocative today as when it was first published in 1954, igniting passionate debate with its startling, brutal portrait of human nature."
Uma história (1954) que nunca envelhece e permanece como uma provocação ateando debates apaixonados pelo brutal retrato da natureza humana que pinta.
Um grupo de adolescentes, náufragos numa ilha “regridem”, voltam aos estádio selvagem (?), quase mágico, esquecem todas as regras aprendidas comportam-se como se fossem seres primários deixando vir à superfície –incontroláveis- os instintos, a vontade de exercer poder, do mais forte –ou mais inteligente? Ou mais manipulador?- sobre o mais fraco.
Alegoria da humanidade? O retrato da natureza humana é em Golding assustador.
E, num aparte, interrogo-me: De facto, como se explicam, no nosso século XXI, as atitudes “primárias”, sádicas e atrasadas, que levam estudantes universitários portugueses a exercer a retrógrada praxe sobre outros estudantes -novatos, “caloiros”?
A humilhação, a tortura, a pseudo-escravização e domínio (efémero) do outro... Como explicá-lo?
Mas voltemos ao assunto que interessa:
Por que será que os círculos fechados propiciam este tipo de situações? Lembro o famoso livro de Agatha Christie, “Dez negrinhos”, em que o mesmo círculo de violência e morte se fecha sobre um grupo de pessoas, numa ilha cortada do mundo. Ou o paquete de luxo, parado mo meio do oceano, numa história de Mary Reinhardt? Vão-se matando uns aos outros.
Ou um outro livro, de Anthony Berkeley (outro bom escritor policial inglês), em que sucede o mesmo: alguém, numa ilha, começa uma série de assassínios em cadeia.
Qual o fio que liga tudo isto? Nem todos os perdidos nas ilhas, ou náufragos se comportam deste modo...
Claro que não.
Mas os círculos fechados podem “provocar” reacções destas.
E o que tem isto a ver com as escolas? Com o modo de relacionamento agressivo/defensivo entre os jovens alunos? Ou com o bullying que alastra pelos centros educativos de toda a Europa?
De quem é a culpa? Como remediar estas situações? Não acho que seja apenas falta de policiamento nas escolas. "Policiar" nunca foi solução para nada: educar, ensinar, sim.
Acredito na “prevenção” das situações de risco sejam elas o que forem.
E como fazer a prevenção nestes casos? Não me cabe a mim explicá-lo... Não sei.
Para isso é que todos deveríamos estar já a “contribuir”: pensando a sério -sem pretendermos ser “cérebros” a tentar descobrir soluções infalíveis –que as não há. Talvez organizando "encontros" nas escolas, grupos de trabalho com os professores/alunos/pais/psicólogos.
Fazer "reflectir".
A sério. Não com a intenção de “cumprir mais um programa”. Com a missão de “estudar”, perceber, ensinar a “conviver”, a respeitar, como existe já em certas escolas em França ou Inglaterrra.
Mas só nas escolas? Claro que não! Noutras formas formas associativas, ligadas ao desporto, à cultura: pequenos grupos que possam funcionar nas escolas e intervir como uma especial forma de ensino, de educação... Porque a educação ajuda a prevenir tudo, todos os males? Talvez não, mas ajuda a resolver muitos!
Em França, nos tempos do Governo socialista de Jospin, havia nas escolas um "serviço" de ex-estudantes na escola que vinham sob forma de voluntariado –mediante um pagamento e em part-time- ajudar nos tempos livres.
A falar, a ajudar a "despoletar" conflitos nos intervalos com os alunos mais turbulentos, mais agressivos, e menos adaptados.
Até que ponto isto é “realizável”, perguntamos todos. Tudo se pode fazer. Basta haver "a vontade de"! Quando uma criança chora e não quer ir à escola, nem sempre é porque não lhe apetece e prefere ficar em casa a brincar...
Pode ser grave: medo! E ter medo é a sensação mais horrível que existe!
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O tema deThe Dark Side of the Moon inclui o conflito, ganância, a passagem do tempo e os estados de doeça mental (em parte inspirada pela degradação da saúde mental de Barrett). Se aceitarmos como facto as palavras do grupo de "rock progressivo", Pink Floyd, não existe um lado escuro da Lua - ela é inteiramente escura.
De certa maneira, está cientificamente correcto, porque a Lua não produz luz própria, limita-se a reflectir a luz do Sol.
Mas, embora a superfície lunar não reflicta muita luz, ela própria é tão grande que mesmo assim parece brilhante quando afinal está cheia de uma noite escura...