A minha avó tinha muitas formas de superstição.
Receava acima de tudo o "mau-olhado" e uma das coisas que nos oferecia, logo ao nascer, era uma pequenina figa de ouro, ou de coral, para pendurarmos numa pulseirinha e assim afastar o mal. 
Amanhã é Domingo de Páscoa e lembrei-me das idas -com ela- visitar o Senhor dos Passos, ou "Senhor do Calvário", como ela dizia.
Já vai longe o tempo dos "folares", que a Florinda fazia...
Sei que nos entretínhamos a pintar os ovos cozidos (havia uns pós que dentro da água a ferver os coloriam) e eu pintava sempre rostos de chineses, nos ovos cozidos em água de açafrão.
Folares, com três ovos para o meu pai, um ovo para nós as duas mais velhas, e, para a mais pequenina, a Florinda fazia com a massa uns "lagartos" e punha-lhes uma amêndoa na boca...
As amêndoas de chocolate e açúcar, ou só de açúcar, de Portalegre eram famosas. Adorava comê-las. Pareciam ovinhos de pomba, perfeitinhos.
No domingo de Páscoa íamos, então, com a avó, de certeza a pessoa mais “religiosa” da família, visitar "o Senhor dos Passos", à Igreja do Calvário.

A sua devoção pelo Cristo da Paixão parecia-me às vezes uma forma de religião, mais pagã do que católica.
Também foi com ela que visitámos a linda Igreja do Bonfim... 
Levava-nos todos os anos ao Calvário, ver o Cristo...
Antes, passara Ele em procissão, descalço, curvo debaixo da cruz de lenho, pensativo.
O meu pai, que era ateu, respeitava as crenças dos outros.
Por essa época, as janelas e varandas da nossa rua ficavam cheias de colchas que iam do cor de rosa mais berrante ao vermelho cardeal mais vivo, do amarelo-dourado, ao azul turquesa, colchas de seda simples, de algodão ou de damasco pesado. Mas o meu pai –que não deixava pôr colchas porque não era religioso-, também nos não deixava ficar a “olhar” como observadoras das nossas janelas.
Assim, íamos ver a procissão em casa da tia Leopoldina, das sacadas enfeitadas de colchas de sedas antigas. Ela morava na rua da Carreira (hoje rua 19 de Junho), logo à saída do Largo da Sé, de onde saía o cortejo.
Lembro a música solene, fúnebre, tocada pela banda, vejo algumas figuras descalças, com túnicas escuras e cabeças baixas, o andor do Cristo passava lentamente e, atrás, seguia-o uma chorosa Virgem, de azul. E muitas velas e os anjinhos brancos, com as asas enormes a abanar.
Havia refrescos na sala de jantar, bolinhos, pão com doce. De cima da janela deitávamos pétalas perfumadas, de rosa, de cravos sobre as pessoas que passavam.
O meu pai nunca se opôs a essa nossa peregrinação com a avó.
Chegávamos à Igreja do Calvário, silenciosas, e ficávamos a olhar o Cristo da Paixão, vestido de roxo sob a cruz de lenho escuro. Lembro a sua testa sangrando, cravada de espinhos, em bagas de rubi, e os olhos pensativos e tristes que tinha. A avó sentava-se um pouco, com o seu véu branco na cabeça inclinada para um lado, e as pontas do véu caídas sobre os ombros. De olhos fixos, cheios de brilho, devia pedir ao seu Cristo muitas coisas.
Depositávamos um beijo no pé direito, e rezávamos uma oração pequenina que esqueci.
Ainda soube muitas orações que a avó nos ensinava.
Lembro hoje com saudade as nossas "visitas" ao Cristo da Paixão...
Junto um poema do grande poeta José Régio. Quero associá-lo nesta recordação, ele que tão bem sabe falar do Cristo da Paixão.
CRISTO

Quando eu nasci, Senhor, já tu lá estavas,
Crucificado, lívido, esquecido.
Não respondeste, pois, ao meu gemido,
Que há muito tempo já que não falavas...
Redemoinhavam, longe, as turbas bravas,Alevantando ao ar fumo e alarido.E a tua benta Cruz de Deus vencido,Quis eu erguê-la em minhas mãos escravas!A turba veio então, seguiu-me os rastros;E riu-se, e eu nem sequer fui açoitado,E dos braços da Cruz fizeram mastros... Senhor! eis-me vencido e tolerado:Resta-me abrir os braços a teu lado,E apodrecer contigo à luz dos astros!José Régio
Ilustrações:1.Vista de Portalegre com a Sé
2. Andrea Mantegna, Cristo Morto
3. Igreja do Calvário, Portalegre
3. Igreja do Bonfim, Portalegre
4. Carlo Crivelli, Cristo na Cruz, com dois anjos
5. Giovanni Belllini, Cristo na Cruz, com anjos