terça-feira, 11 de maio de 2010

Efeito Borboleta: Experiências de vida...

Martin Johnson Heade, Blue Morpho Butterfly
Uma amiga - a Helena A.- falou-me há tempos de um blog especial:

-Tens que ir ver! Não te lembras dela? Foi também professora no nosso Liceu...
Por isto e por aquilo fui adiando procurar. Hoje decidi-me e fiquei mais rica.
A experiência, dizem, não é o que se vive mas o "que se faz" com o que se viveu...
O que quer dizer, como todos percebemos, que várias pessoas podem viver as mesmas experiências, estar nos mesmos sítios, conhecer ou não conhecer mundos...Ver o que é, ou não é, exótico, diferente, chocante ou atraente... de modo muito diverso.
Nem todos olham da mesma maneira, nem todos se deixam "impressionar" -película que todos somos "impressionável!- de modo idêntico.
Todos olhamos... Mas deve-se "olhar" de olhos abertos.
Olhar, ou não olhar, para o alto de uma montanha, da montanha para o rio lá em baixo, para uma pessoa que nos olha curiosa, para um pássaro, uma borboleta, um bicho da terra qualquer...
Olhar, abrir-se, entender.

Há quem saiba apenas "visitar" sítios. Juntar apenas nomes de terras, de metrópoles, e mostrar fotos no regresso a casa, ou um video onde está tudo o que se deveria viver mas apenas se olhou...

Sem deixar nada de nós, sem pôr um pouco das nossas raízes e do nosso coração, da alma -seja lá isso o que for, como diz a minha a amiga Luísa.



A simplicidade de uma planta, um pôr do sol, um gesto, um sorriso.

Importa é o que "disso" soubermos tirar... Não é?

Representação da "Tragédia Floripes", em S. Tomé.

Fui ver o blog... Gostei logo do nome: "Efeito Borboleta"

E, à medida que lia, ia pensando que cada um de nós pode provocar um "efeito borboleta" à sua volta, maior ou menor.
Não somos perfeitos, não somos deuses, nem mulheres (ou homens) biónicos como a Wonderwoman dos anos 80... Mas todos podemos tentar fazer qualquer coisa e talvez as nossos pequenos bater de asas agitem um pouco o mundo...


Tentare non nuoce, dizem os italianos sabiamente. Não faz mal tentar...

Mas o que é afinal o "efeito borboleta"?

Diz a wikipédia:
"Efeito borboleta é um termo que se refere às condições iniciais dentro da teoria do caos.
"Fractais"- Teoria do Caos, Mandelbrot 1-lambda
Este efeito foi analisado pela primeira vez em 1963 por Edward Lorenz. Segundo a cultura popular, a teoria apresentada, o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez provocar um tufão do outro lado do mundo.
Porém, isso mostra-se apenas como uma interpretação alegórica do facto. O que acontece é que, quando movimentos caóticos são analisados através de gráficos, a sua representação passa de aleatória para padronizada -depois de uma série de marcações onde o gráfico -depois de analisado- passa a ter o formato de borboleta."

Trajectória do sistema de Lorenz (aparentando as asas de uma borboleta)


Cito ao acaso algumas passagens do blog "Efeito Borboleta":

"Peguei nas minhas peças soltas, aquelas que fazem parte da imaginação e que nos habitam sem explicação e tornei-as físicas.
Peça um: vou como voluntária para Moçambique em Janeiro. Três meses.
Depois de uma "Volta ao Mundo" sinto que só assim conseguirei tornar-me maior. Junto a segunda: um simples acto pode influenciar de forma positiva uma vida. Peça três: escrever. E outra: histórias de vida.
A última: Quero agir e sei que consigo. Junto-as com descuido, dedicação e com uma dose de impulso parto para a acção.
Neste espaço vou escrever histórias de vida que passarão pela minha enquanto estiver em Moçambique. ""A diferença é que quem as ler poderá agir. Cada vez mais sinto que as pessoas querem fazer algo para mudar o mundo mas que se sentem “perdidas” por não saberem como ajudar. Facultarei os dados necessários para que tenham influência nessa vida (suponhamos que é um professor e do que precisa são canetas e lápis ou livros. Proporcionarei a hipótese de quem lê lhes possa fazer chegar esse material). Um acto individual pode fazer a diferença! Pode ser uma ajuda material ou uma simples troca de correspondência. No final poderão ver os resultados da ajuda que foi dada. Publicarei textos ou fotografias que o mostrem.

Gauguin

1 de Abril de 2010

"Não me agrada… fico, até, à beira da irritação, um pequeno desequilíbrio e já está: não há palavras, nem texto, nem uma letra sequer, nada. Mostro umas fotos e pronto. A sensação é conhecida. Quando vivi na praia do Baleal, quando andei pelos Açores, quando passei pela Polinésia. Tão bonito, tão cheio, tão transcendente que temia mergulhar na escrita demasiado colorida, no piroso… Agora. Aqui. Nas vidas da Reencontro. Escrevo a tristeza. E temo a lamechice desenquadrada, o cair na pena fácil, na lágrima que se esquece. Não é justo, nem digno."

Capa de Beleza e Tristeza do japonês Kawabata

A certo ponto leio :

"Talvez tenha descoberto uma forma. Para variar preciso da vossa ajuda. Neste caso é na postura que assumem ao ler. Dispam os casacos de sentir pena e da palavra “coitadinhos" entranhem aquela força de querer, a de luta pela mudança. Posso confiar? Então…
Sentei-me com a Rute no alpendre cá de casa. Duas cadeiras no chão vazio. Sei que sou pessoa mas depois do que vi nalgumas casas, naquelas famílias, diminui-me o género humano. Transformo-me quase em coisa. Estamos sentadas mas não consigo falar. Só tenho que lhe dizer que conseguimos dinheiro para comprar duas máquinas, os rolos de tecido, tesouras, linhas, agulhas, o transporte de Maputo. Mas. Não consigo falar. Lembro-me dos três irmãos que vivem sozinhos numa palhota aqui tão perto. Não vão à Escola, não vão ao hospital buscar os medicamentos (são seropositivos), mal comem, mal se lavam, mal se mexem. Porque ninguém os orienta. E porque têm dois, quatro e sete anos.
- Rute. Conseguimos.
Recebo um abraço só de silêncio.
- Conseguimos.
A Reencontro tenta apoiar 608 crianças órfãs, como sabem. E as histórias são todas deste tamanho. Não consigo não estar envolvida de corpo e alma neste projecto. Toca-me e desarma-me. Tira-me o que sou e obriga-me a ser mais. Sei que estas histórias não têm geografias, que existem ao nosso lado ou no fim do mundo, nada as torna especiais por serem longe. O que as torna especiais é existirem. Quando nunca deviam sequer ser um sopro. Não tenho pretensões ou ilusões de que com este acto mudámos o mundo. Mas tenho a certeza que ajudámos a dar um passo para que estas pessoas possam trabalhar e lutar para mudar algumas vidas. Vão conseguir."

16 de Abril 2010

"Tropeço nos meus pensamentos. Nunca fui arrumada. Aquela cobra que surgiu debaixo do portão que em pânico escolheu o lado errado e chocou com uma parede enquanto eu voava para a caixa aberta de um carro está bem junto ao meu estômago. Nesse carro vai também um caixão, dezenas de pessoas a cantarem África e eu entre curvas de areia a conduzir sem saber como. Nem travões, nem destino. Só. E sem dúvidas. Acho que se alojou entre as minhas costelas porque o sinto quando respiro. Os “Bons Dias” do caminho andam pela minha garganta ainda com vida própria. Continuo a dizê-los por instinto. As minhas crianças do Centro estão-me debaixo da pele, no mesmo lugar onde o silêncio já me habita antes de cada refeição. Os Efeitos Borboleta encontram-se no meu pulsar, pressinto a sua continuação entre cada batimento. As pessoas que conheci transformam-se em cor de terra e entranham-se de forma clara, uma a uma, em cada vermelho de sangue. Já totalmente me são. E posso trocar de anatomia. No lugar do estômago posso passar a ter fígado ou apenas um breve som. São histórias que me preenchem. Pedaços vivos de gente e vísceras.Não fazia qualquer sentido não me partilhar. Agora… agora vou viajar. Viver a deslocação. Um lugar que sinto tão meu."

a trajectória tridimensional do atractor de Lorenz...

O tal "bater de asas"...
Deixo-vos a "pista". Vão dar uma olhadela ao blog, ler destas histórias que "não têm geografia", existem em toda a parte; da força de vontade dos que preferem um "toque de asa de borboleta" à comodidade de não fazerem nada, porque:

"Enfim, é a vida, sempre houve pobres..."

Ou: "Coitados, são uns primitivos, não aprendem a ler, não sabem nada..."

Ou ainda: "Todos sabemos que "eles" não gostam de trabalhar!"

Nunca ouviram estas frases?

Vamos todos "despir os casacos de sentir pena", e de "coitadinhos", como diz a Clara...

E se fizéssemos alguma coisa? Não é preciso ir tão longe, ir até África... Há muito a fazer aqui ao lado.

NOTA: as ilustrações são minhas. No blog têm fotografias "autênticas" de tudo o que esta jovem mulher "viu", fotografou, viveu e nos quis mostrar. Vejam. Vale a pena. Saímos mais responsabilizados e mais ricos...

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Curiosidades sobre "o efeito borboleta":

*Edward Norton Lorenz (West Haven, 23 de Maio de 1917 — Cambridge, 16 de Abril

*"Teoria do caos", para a física e a matemática, é a teoria que explica o funcionamento de sistemas complexos e dinâmicos.


*Os Fractais (ver imagens acima): o termo foi criado em 1975 por Benoît Mandelbrot, matemático francês nascido na Polónia, que descobriu a geometria fractal na década de 1970 do século XX, a partir do adjetivo latino fractus, do verbo frangere, que significa "quebrar".

*"Efeito Borboleta" é também um filme:
The Butterfly Effect (Efeito Borboleta) é um filme norte-americano, lançado em 2004 de ficção científica/drama, com os actores Ashton Kutcher, Melora Walters, Amy Smart, Eric Stoltz e outros atores da New Line Cinema. O filme foi dirigido e escrito por Eric Bress e J. Mackye Gruber.
Este filme teve como inspiração a teoria do caos, onde está presente a teoria do "efeito borboleta".

"Almas e Terras por onde eu passei..." e a escritora Luísa Grande, nascida na minha cidade



Hoje lembro, de passagem, uma escritora grande de Portalegre, a minha terra: Luísa Maria Grande, que escreveu com o pseudónimo de "Luzia".
Recordo o livro que era da minha mãe: "Almas e terras por onde eu passei" que, ao longo da minha vida itinerante pelo mundo fora tantas vezes me lembrava desse nome...

Terras, almas...
Uma vez uma aluna, pouco depois do primeiro regresso -da que foi a minha primeira partida-, disse-me, meio a sério, meio a brincar:

"Mas isso de andar sempre a chegar e a partir, ora diz hello e ora diz goodbye não deve ser assim tão fácil, ó stora!"
E não era...
Chegar, partir...

Como a poetisa da minha terra, pensei muitas vezes:

Eu já mal sei donde sou. Como certas plantas em todos os terrenos deito raízes. Onde chego, julgo sempre que vou ficar.” (in "Cartas")
E "deitava raízes" e adaptava-me...
Mas outras vezes:
«Partir! Mudar! Ver sempre novos horizontes novas terras! Ah! Como tu és feliz! Como nós te invejamos! – exclamam, em coro, as minhas amigas.«E eu não ouso confessar-lhes quanto lhes invejo a doçura de ficar...»

Luísa Susana Grande de Freitas Lomelino nasceu na cidade de Portalegre, em 1875, e faleceu a 10 de Dezembro de 1945 na sua casa de residência no Funchal.

Poucos dados tenho sobre a escritora e recorro ao blog de Rui Nepumoceno que dela fala, demoradamente, sobretudo da sua vida na Madeira.

"Além duma educação esmerada e de ter visitado várias cidades europeias, Luísa Grande foi uma das mais brilhantes e cultas escritoras portuguesas dos fins do século XIX e das primeiras décadas do XX; tendo sido considerada, «O Eça de Queirós de Saias», numa época em que as mulheres tinham extrema dificuldade em se afirmar, publicamente, como autoras literárias.Utilizando nos seus trabalhos o pseudónimo de «Luzia»; Luísa Grande Lomelino, só bastante tarde começou a escrever e a publicar, incentivada pela sua talentosa amiga, também escritora e investigadora, Dª Maria Amélia Vaz de Carvalho. (...) depois de ter publicado o seu primeiro livro, Luzia jamais deixou de escrever, mesmo após ter adoecido e ficado cega. "

No site da Biblioteca Municipal do Funchal encontrei outras informações:

"Casou com Francisco João de Vasconcelos a 3 de Abril de 1896 de quem se divorciou aos 36 anos. O divórcio só foi tornado possível depois da proclamação da República através da lei de 3 de Novembro de 1910. Não voltou a casar, embora não lhe faltassem pretendentes.
Passou o resto dos seus dias a viajar entre Paris, Lisboa e Funchal."
Ainda recorro a outro blog -"Verportalegre"-, 15/02/2009, onde descobri fotografias da casa da família Grande e esta referência à sua localização:
"No Monte Paleiros, freguesia de Ribeira de Nisa, existe uma notável moradia. Trata-se de uma propriedade que já pertenceu à família Grande e destacamos nomes como Dr. José Maria Grande (botânico, nascido em 1848) e Luísa Grande (Poetisa Luzia)."

Agradeço ao bloguista, meu conterrâneo, as fotografias que "retirei" e aqui pus da casa de Luzia, em Monte Paleiros, onde tantas vezes passo a caminho de Marvão ou Castelo de Vide, quando estou em Portalegre...
Alguns títulos de obras da autora:
Rindo e Chorando (Portugália, 1922);
Lições da Vida: impressões e comentários (Portugália, s/d);
Cartas do Campo e da Cidade (1923);
Os Que se Divertem – A Comédia da Vida; (1931);
Sobre a Vida e sobre a Morte: máximas e reflexões ( Lisboa, 1931)
Almas e Terras Onde eu Passei (Edições Europa, Lisboa, 1936);
Cartas de uma vagabunda (não encontrei outras referências)
Uma Rosa de Verão : cartas de mulheres (1940)

Bibliografia sobre Luísa Maria Grande:
CLODE, Luís Peter – Registo bio-bibliográfico de madeirenses: sécs. XIX e XX. Funchal: Caixa Geral de Depósitos, [1983]. P.251.

CONDE, José Martins dos Santos – Luzia: o Eça de Queiroz de saias. Portalegre: Edição do autor, 1990.

Mas o que mais me entusiasmou foi o que li e que vos vou aqui deixar. A delicadeza da prosa, quase poética, o colorido, a ternura, a sensibilidade. Sem querer, pensei em Florbela Espanca, em Irene Lisboa...
Talvez menos dolorida do que as outras, verdadeira sempre, como elas...

Das Cartas:
«Entretanto, entramos no Outono, o formosíssimo Outono do Monte. Começam a abotoar as beladonas. Ao jardim azul vai suceder o jardim cor-de-rosa. Depois, em Dezembro, o jardim branco, sob a neve perfumada das azáleas… Mas, já o meu humor vagabundo me leva para longe outra vez. Onde estarei quando abrirem as beladonas? Donde evocará a minha saudade o brando aroma das azáleas?
«Partir! Mudar! Ver sempre novos horizontes novas terras! Ah! Como tu és feliz! Como nós te invejamos! – exclamam em coro, as minhas amigas.
«E eu não ouso confessar-lhes quanto lhes invejo a doçura de
ficar.»
Sobre a sua amada Madeira -e seus benefícios...

«E, se tão amáveis milagres não conseguirem seduzir-te, outro maior, melhor, te prometo ainda. Queres ficar inteiramente nova, inteiramente menina? Vem à Madeira.
«Tens pouco mais de vinte anos, bem sei. Mas, em cada dia que passa, na breve existência, cai uma folha, fana-se uma flor… É curta a Primavera. E todos os caminhos, alegres ou tristes, escuros ou luminosos, levam-nos para a velhice.
Só na Madeira – terra mil vezes abençoada! – a gente pode ter dobrado o cabo perigoso dos trinta e mesmo o cabo tormentoso – tormentosíssimo! - dos quarenta, e creio que aquele em que se deixou toda a esperança, como na porta do Inferno de Dante, o dos cinquenta.
«Desde a criada que nos serve, o carreiro que conduz o nosso confortável carrinho, a mulher da Camacha que nos vende flores e o caixeiro que nos vende bordados, todos nos chamam:
- Menina!
«Assim é perfeitamente em vão que, cada manhã, o meu espelho anuncia mais uma ruga, mais um cabelo branco. Entra a criadinha, tão fresca no vestido engomado, diz-me na sua estranha entoada madeirense:
«- Bons dias, menina (menaina). E eu logo me convenço: Foi o espelho que mentiu… É um espelho maldoso, caluniador. Sou nova outra vez… Sou menaina»!
Ou esta passagem sobre o soldadinho que regressa da Guerra:
«E enquanto se desenrolam tão inesperados acontecimentos, tão rápidas, quase inverosímeis mudanças de cenário, o soldadinho do campo, o soldadinho improvisado, que nunca entendeu porque lhe puseram ao ombro o peso da espingarda, porque lhe entalaram os pés na tortura das botas, ri, com um largo riso, que todo o seu rosto ilumina…

«Não sabe, nem procura saber, de que lado estava a razão. Aos que lhe perguntam com ironia:
- Quem ganhou? – responde simplesmente; - Ganhou quem tinha mais força…
E - lição para tantos! Acrescenta – Dizem que poucos morreram … Pena foi que morresse alguém!
«Acabou o pesadelo. Vai voltar à sua aldeia, onde tudo o chama e acolhe, desde a bênção da mãe, aos olhos da namorada. Tão leve como o corpo sente o coração. Não causou perca nem dano, não quis mal a ninguém.

Ah! Rica, bela coisa, livrar-se da caserna, dizer adeus à cidade! Para outras bulhas não o chamem… Quem as arme que as desarme. "
Site do Município de Portalegre:
"Nas letras distinguiram-se: Cristovão Falcão, José Duro e Luísa Grande (Luzia), nascidos nesta cidade, Frei Amador Arrais e José Régio, poeta que aqui viveu deixando uma obra vasta e cujo museu com o seu nome merece ser visitado."

terça-feira, 4 de maio de 2010

Lembrar... Poesias de Irene Lisboa/João Falco











com o pseudónimo João Falco

do livro "Outono havias de vir"




Ir, vir

Ir, vir...
Ir. Manhã, ar fresco, paisagem nova.
Vir. Tarde. Hora dos poetas, dos que não cantam
e passam pelas coisas apenas gozando, surpreendidos e ternos.
Se em cada lugar da terra eu perdesse a minha
humana essência, aquilo que me iguala ao que é
e ao que foi!
Nesta hora divina, nesta formosa tarde como ser?
Que me tentava?
Não sei.
Terra, luz, ar, amenidade indizível!


Noite

Tenho sono...
Como dizem as crianças.

Dava-me vontade às vezes a esta hora...
Entram sons pela janelas.
Dava-me vontade de flutuar...

Alegre noite!
E sem saber porquê.
É do levíssimo vento que entra subtil, que refresca
Subtil.
E dos sons que parece que sobrenadam confusos
E soltos.

Sono, cansaço?
Sono ou cansaço...

Noite fresca. E calma, romântica, bemfazeja,
Quasi estival.

Nova, nova, nova, nova!

Não era a minha alma que eu queria ter.
Esta alma já feita, com seu toque de sofrimento
E de resignação, sem pureza nem afoiteza.

Queria ter uma alma nova.
Decidida, capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, torturada, de trazer por casa.
A alma que eu queria ter e devia ter...
Era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova, nova, nova!


Escrever
Se eu pudesse havia de transformar as palavras em clava.
Havia de escrever rijamente.
Cada palavra sêca, irressoante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintática e métrica?
Gostava de atirar palavras.
Rápicas, sêcas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Ou amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E como isto continuando.
(...)

(in "Outono havias de vir latente triste", com o pseudónimo de João Falco,1937, Seara Nova, Lisboa)

É urgente lembrar Irene Lisboa, tão esquecida!
A injustiça de se não falar nela, não recordar a mulher fantástica que foi, a educadora, a pedadoga, a mulher independente e culta que estudou em França, na Suíça, na Bélgica, em Institutos Superiores de Educação (no Instituto Jean-Jacques Rousseau, por exemplo. Este Instituto é uma escola de ciências da educação fundada em Genebra no ano de 1912 por Édouard Claparède).
Conheceu figuras como Jean Piaget, Claparède com quem estudou.

Nasceu na Arruda dos Vinhos em 25 de Dezembro de 1892 e morreu a 25 de Novembro de 1958, a um mês de cumprir 66 anos de idade.

Alguns dados biográficos (wikipedia):

"Formou-se pela Escola Normal Primária de Lisboa, depois continuou os estudos na Suíça, França e Bélgica onde se especializou em Ciências de Educação, o que a habilitou a escrever várias obras sobre assuntos pedagógicos. Durante a estadia em Genebra, mercê de uma bolsa do Instituto de Alta Cultura)."










Mas para além da sua obra de educadora notável, há a obra de escritora, poeta, ensaísta (porque nos seus Apontamentos há pequenas notas, rápidas e subtis, quase profundos "ensaios", apreciações literárias...)


Apreciada por muitas personagens da nossa literatura (e Lembro José Régio, Gaspar Simões, José Gomes Ferreira e tantos outros), teve nos últimos anos a "defesa" corajosa de Paula Morão que se dedicou a "reeditar" as suas obras e a escrever sobre ela.

Pouco conhecida do grande público, no entanto qunado a sua novela "Voltar Atrás para Quê?" foi publicada nos anos 70 por uma edição de bolso (Unibolso) a edição de 15.000 exemplares praticamente esgotou-se!
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Bibliografia breve (Irene Lisboa/JoãoFalco)
Alguns títulos, ao correr da pena:

Irene Lisboa:
"13 Contarelos que Irene escreveu e Ilda (Moreira) ilustrou", s/d (1926)

João Falco:
"Um dia e outro dia..."(Diário de uma mulher, 1936)
"Outono havias de vir" (1937)

-2ªed.Poesia I, com "Introdução" por José Gomes Ferreira (1978) e "Prefácio" de Paula Morão, Lisboa, Editorial Presença -Obras de Irene Lisboa, vol.I, 1991

João Falco:
"Solidão - Notas do punho de uma mulher", 1939;
-4ªed. com "Prefácio" de Paula Morão, Lisboa, Editorial Presença - Obras de Irene Lisboa, vol.II, 1992.

João Falco:
"Começa uma vida - Novela", 1940
- 2ªed. com "Prefácio" de Paula Morão, Lisboa, Editorial Presença - Obras e Irene Lisboa, vol.III, 1993.

Irene Lisboa (João Falco).
"Esta cidade!", 1942
- 2ª ed. com "Prefácio" de Paula Morão, Lisboa, Editorial Presença - Obras de Irene Lisboa, vol. V, 1995.

Irene Lisboa:
"Apontamentos", 1943;
-2ªed. com "Prefácio" de Paula Morão, Lisboa, Editorial Presença - Obras de Irene Lisboa, vol.VIII, 1997.
"Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma" 1955;
(reed. com nota introdutória de Paula Morão e prefácio de Violante Florêncio, ilustrações de Pitum Keil do Amaral, Editorial Presença - Colecção À Descoberta, 1993.
"O pouco e o muito - Crónica urbana", s/d (1956)
- 2ªed. com "Prefácio" de Paula Morão, Lisboa, Editorial Presença -Obras de Irene Lisboa, vol.VII, 1996
"Voltar atrás para quê?", s/d(1956)
- 2ªed. com "Prefácio" de Paula Morão, Lisboa, Editorial Presença - Obras de Irene Lisboa, vol.IV, 1994
"Título qualquer serve", 1958
- 2ªed. com "Prefácio" de Paula Morão, Lisboa, Editorial Presença - Obras de Irene Lisboa, vol.IX, 1998
"Queres ouvir? Eu conto - Histórias para maiores e mais pequenos se entreterem", 1958
- 2ªed. com nota introdutória de Paula Morão e prefácio de Violante Florêncio, ilustrações de Manuela Bacelar, Lisboa, Editorial Presença - Col. À Descoberta, 1993.
"Crónicas da Serra", s/d (1958)
- Reed. com "Prefácio" de Paula Morão, Lisboa, Editorial Presença - Obras de Irene Lisboa, vol.VI, 1997).
"A vidinha da Lita", contada por Irene Lisboa, desenhos de Ilda Moreira, 1971.
"Solidão - II", 1974
- 2ª ed. com "Prefácio" de Paula Morão, Lisboa, Editorial Presença - Obras de Irene Lisboa, vol.X, 1999
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Já agora queria "homenagear" o blog que indico abaixo.
Ocupa-se só de Irene Lisboa!
http://irene-lisboa.blogspot.com/
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E ainda...

O Museu Irene Lisboa, na Arruda dos Vinhos:





Site:





http://www.cm-arruda.pt/custompages/showpage.aspx?pageid=ab5bd00d-4930-4c29-b2e3-f61f2328604f&m=b101

"A constituição do Museu Irene Lisboa teve o seu início em 1999 com a candidatura da Junta de Freguesia de Arranhó à LeaderOeste para a construção do edifício, mas só em 2003, com a aprovação definitiva da LeaderOeste, é que o Museu dedicado a Irene Lisboa começou a ser uma realidade".

O Museu foi naugurado em 24 de Junho de 2007 e baptizado com o nome de Irene Lisboa (1892-1958), e pretende homenagear a escritora e pedagoga nascida em Arruda dos Vinhos. Tem como objectivos também desenvolver várias actividades culturais e pedagógicas.
Neste espaço, é possível ver a exposição de longa duração intitulada "Irene Lisboa - O Pouco e o Muito", que se debruça sobre a sua vida e obra (literária e pedagógica) da grande escritora.

domingo, 2 de maio de 2010

Alguns pintores russos (Vasnetsov, Repin, Vrubel, Borisov-Musatov e Vrubel) e os Pré-Rafaelitas ingleses...


Viktor Vasnetsov, A Donzela na Neve

John William Waterhouse, Ofélia

Vasnetsov, a jovem Alyonuschka

Na imaginação, lembrei-me de fazer uma aproximação entre estes pintores. Quis mostrar-vos, também, um pouco mais da pintura russa que, acho, está "ligada" (pelos temas populares, lendas, histórias medievais), está próxima da pintura dos Pré-Rafaelitas ingleses, quase seus contemporâneos.

Penso que, não só os temas mas, igualmente, as cores, o desenho, a interioridade das figuras, uma forma de beleza dos traços, o cuidado na transparência da luz, o interesse pelo elemento aquático penso que os podem ligar...
(em cima, o quadro de Ilya Repin, Sadko e o Reino Submarino, lenda em que se baseia também uma composição de Rimsky-Korsakov http://www.youtube.com/watch?v=K31p3imqq1w)
Um amigo russo da minha filha (que estudou pintura) e que viveu em Londres, defende a mesma ideia: Vasnetsov e Millais, Waterhouse e Vasnetsov, têm muito em comum...
Não sou especialista nem de pintura (nem de nada) mas gosto muito de pintura... e a minha aproximação do assunto vem só do olhar, da sensibilidade, de uma "sensação" e da observação atenta que fiz de alguns desses quadros.
John William Waterhouse, a Sereia

Vasnetsov, o Pássaro Mágico

(Vou tentar apenas identificar os quadros. Espero que as legendas vão parar ao sítio certo...)
Alguns dados úteis:
OS PRÉ-RAFAELITAS INGLESES
Dante Gabriel Rossetti (1828-1888)
John Everett Millais (1829-1896)
William Morris (1834-1896)
John William Waterhouse (1849-1917)
(Waterhouse é o mais novo, nasce em Roma, e só em 1883 se aproxima do Pré-rafaelismo). A maior parte destes quadros encontram-se em Londres na Tate Gallery (Tate Britain). Outros pertencem a colecções particulares.
Dante Gabriele Rossetti nasceu em Londres, 12 de Maio de 1828, e morreu em no Kent, em 9 de Abril de 1882.
Foi o fundador deste grupo que foi uma espécie de "irmandade".

Tendo como pano de fundo os grandes movimentos revolucionários de 1848, Rossetti criou em Inglaterra a Irmandade dos Pré-Rafaelitas, formada por sete membros todos eles antigos estudantes da Royal Academy. O objectivo de Rossetti era vasto: a poesia e o idealismo social, para além da pintura, que via como devendo romantizar o passado medieval.
J.W.Waterhouse, a Tempestade
Pretendiam realizar uma reforma na arte britânica mediante a recuperação do modelo dos pintores florentinos do Quattrocento.

Do grupo fizeram parte, além dele, pintores como William Morris, John William Waterhouse, John Everett Millais, Burnes etc .
Pensei que seria interessante ir apresentando os pintores, alternando a nacionalidade, e insistindo na semelhança.























Viktor Vasnetsov, A Czarina que não ri


William Morris, Lady of Shalott

J.W.Waterhouse, O Círculo Mágico
Mikhaïl Vrubel, a Princesa Volkhova

Ilya Repin, o Regresso

John Everett Millais, a Passagem do Noroeste
Kramskoï, Desgosto inconsolável


Outros dados úteis, sobre os pintores russos:
VASNETSOV E OS OUTROS

Kromskoï (1837-1887)
Ilya Repin (1844-1930)
Viktor Vasnetsov (1848-1926)
Mikhail Vrubel (1856-1910)
Borisov-Musatov (1870-1905)
A maioria dos quadros destes pintores estão na Tetryakova Gallery e alguns no Imperial Museum de St. Petersburgo.
O compositor Rimsky-Korsakov inspira-se nos contos e lendas do seu país -como no conto épico "Sadko" (mais tarde, ópera com o mesmo nome), ou na lenda da "Donzela na Neve" e nos contos orientais das "Mil e uma Noites", para a obra "Sherazade".
Mai tarde, Diaghilev, dos Ballets Russos, estreia em Paris, em 1910, o Ballet Scheherezade.
Vejam o ballet pela Companhia de Ballet, do Teatro Marinsky de St. Petersburgo:

Ouçam "Scheherazade":
http://www.youtube.com/watch?v=fdjhNN0R-XU&feature=related
Inspirou-se, provavelmente, também, nos quadros de Repin, Vasnetsov...
Viktor Vasnetsov é um pintor que se "especializou"em temas mitológicos e históricos.



Composta em 1888, por Nikolaï Rimski-Korsakov, “Sherazade” é originalmente uma "suite sinfónica" inspirada nas “Mil e uma noites”.













http://www.youtube.com/watch?v=fdjhNN0R-XU&feature=relatedJ.W.Waterhouse, o Filtro Mágico
Mikhaïl Vrubel, Fausto (Tríptico)

J.W. Waterhouse, Ninfas olhando a cabeça de Orfeu nas águas

Vasnetsov, Acrobatas em Paris
Mikhail Vrubel, Serafim/Arsa, a Deusa da Morte
Dante Gabriele Rossetti, A Noiva



















Kramskoï, Retrato de Senhora


Vrubel, A Princesa Cisne


Waterhouse, Lady of Shalott

Viktor Vasnetsov, A Princesa-Rã


John Everett Millais, Ofélia e, outra vez, a Alyonushka de Vasnetsov.

Borisov-Musatov, Encontro ao pôr-do-sol
Borisvov-Musatov, duas mulheres
























William Morris, A Rainha Ginevere














Viktor Vasnetsov, As três Rainhas do Reino Subterrâneo
Espero que tenham gostado...
Pelo menos, das pinturas! E da música, que é linda.