segunda-feira, 14 de junho de 2010

Recordação do Caffè San Marco em Trieste, ponto de encontro da Cultura...

O "CAFFÈ SAN MARCO" EM TRIESTE NA PIAZZA DELL' UNITÀ E OUTROS CAFÉS DE CULTURA...

O Caffè Tommaseo, em Trieste, outro café histórico
Hoje venho falar-lhes de uma cidade um pouco fora deste mundo: Trieste.
Cidade encruzilhada de culturas, ligada à cultura mitteleuropeia e ao antigo Império Austro-Húngaro, de que fez parte.


Por ela passaram –e nela viveram- grandes nomes da literatura e da cultura italiana: Italo Svevo ( pseudónimo de Ettore Schmitz - Trieste, 19 Dezembro de 1861 – Motta di Livenza, 13 de Setembro de 1928), grande escritor e dramaturgo austríaco (porque nessa altura a cidade de Trieste pertencia à Áustria), naturalizado italiano. Autor da "Coscienza di Zeno", "Senilità", "Una Vita".
E os escritores Scipio Slataper e Gianni Stuparich (que morrem jovens), o grupo “da Psicanálise” de Edoardo Weiss (Trieste, 1889 – Chicago, 1948) , Giorgio Voghera (*), o crítico Roberto Bazlen que fez conhecer, em Itália, Freud, Kafka e Musïl...
Fotografias de Giorgio Voghera (à esquerda, em cima) e Edoardo Weiss (à direita em cima), Roberto Bazlen em baixo, à esquerda)

Weiss, conhecido psiquiatra e psicoanalista, trabalha primeiro em Trieste e depois em Roma, e teve um papel pioneiro na difusão desta especialização. Em 1932 fundou a Società Psicoanalitica Italiana. Em 1939 exila-se nos Estados Unidos (**).

Capa dos livros mais famosos de Slataper, "Il mio Carso", e de Stuparich, "La guerra del '15".
Também Umberto Saba, o poeta, sai da sua Livraria e vem discutir com os amigos no café... O Caffè San Marco, criado em 1914, e. logo desde o início, foi o ponto de encontro favorito para os triestinos, para os estrangeiros, intelectuais, leitores de jornais e jovens irredentistas, que pretendiam que a Itália voltasse a pertencer à Itália e por isso lutam os jovens Slataper, Stuparich....

James Joyce é um dos estrangeiros que passa por Trieste. Onde conhece Svevo (é seu professor de inglês...) e é Svevo que "descobre" e revela as qualidades dos livros de Joyce, o mal-amado, exilado da sua Irlanda natal -que lhe queimara os livros, Dubliners, por exemplo...

O Caffè albergou, nesses anos de luta pela independência, uma organização de passaportes falsos, necessários aos patriotas anti-austríacos, os tais irredentistas, para fugirem para Itália.

Por essa razão, em 1915, uma esquadrilha austríaca destruíu o café.
O café foi restaurado várias vezes mas mantém o seu aspecto original: fascinante.
Entre os visitantes famosos encontram-se escritores como Claudio Magris, autor do livro "Danúbio" (do qual existe uma tradução na Dom Quixote) -que fala dessa cultura mitteleuropeia, que se desenvolve e corre ao longo do rio Danúbio.

Magris dedicou o primeiro capítulo do seu Microcosms ao seu café favorito, o Caffè San Marco.

Nesse capítulo recorda nomes de muitos intelectuais que frequentaram o Caffè San Marco, ali discutiram, escreveram, viveram durante uma hora ou muitas mais, alguns mesmo o dia inteiro...

Outro livro -fundamental- de Magris intitula-se "Trieste: Un'identità di frontiera" (***) e fala desse mundo onde confluiram várias "fronteiras" que enriqueceram a cidade, tornando-a única de facto. Trieste e a Piazza dell’ Unità, desenhada –dizem- sobre o modelo da nossa Praça do Comércio: do mesmo modo aberta ao mar em frente, no caso de Trieste “il Mare Adriatico”.
A Trieste do velho Caffè degli Specchi, na Piazza dell' Unità, e da harmoniosa antiga pastelaria, La Bomboniera.


E de tantos outros cafés de classe, "pontos de encontro" de jovens, intelectuais, gente comum, lugares de troca de ideias e de mundividências... Onde ainda hoje se realizam "festivais"-concursos internacionais- de Poesia.

O Caffè San Francisco, no porto de Trieste

Lembro Giorgio Voghera que conheciemos em Trieste, nos anos 80. Uma pessoa maravilhosa, doce, cheia de paciência, com uma juventude interior que nunca perdeu.
Foi uma personalidade ligada aos seus estudos sobre o Judaísmo e a Psicanálise.
Nasce em Trieste em 1908 e morre em Trieste em 1999. Escritor, conhecido como romancista e ensaísta.
Era filho do autor do romance “Il Segreto”, conhecido por Anónimo Triestino, Guido Voghera.
Vive toda a vida em Trieste excepto o período das perseguições raciais em Itália nos anos da Guerra, anos que passou num Kibbutz em Israel e sobre cuja experiência escreve no seu livro "Carcere a Giaffa".

Escreve entre outras coisas: “Gli Anni della Psicanalisi” (1ª ed. 1968) Studio Tesi, 1980; "Nostra Signora Morte" (1983), onde fala da vida e da morte...("La vita à una splendida tragedia/e la morte il suo perfetto epilogo"; ou: "Il segreto della vita è/dimenticarsi della morte./ Il segreto della morte è/accompagnarla come un'ombra")- e mais tarde "Carcere a Giaffa" (1985).


Diz Voghera no início de "Gli Anni della Psicanalisi":

“Trieste foi a encruzilhada de muitas culturas, a porta através da qual muitas correntes de pensamento europeu –ou, antes, mitteleuropeu- entraram em Itália. Ouvia-mo-lo dizer tantas vezes que não acreditávamos que seja verdade. Mas aquela corrente que nos primeiros anos do pós-guerra desceu de Viena para conquistar a Itália – a psicanálise, quero eu dizer- mais do que uma corrente foi um ciclone. Ainda jovem, vivi no olho desse ciclone numa relativa calma pessoal; mas todos os adultos que me rodeavam, pais, parentes, amigos, conhecidos foram literalmente arrastados por esse terramoto”.

Poderia falar de outros nomes... Quarantotto Gambini, etc...

Lembro que, recentemente, apareceu a escritora Susanna Tamaro -que nasce em Trieste a 12 Dezembro de 1957- da qual não falo porque não li. Ainda...

(*) Voghera vive toda a sua vida em Trieste excepto o período das perseguições raciais em Itália nos anos da Guerra, anos que passou num Kibbutz em Israel.
(**) Edoardo Weiss: As leis raciais de 1939, obrigaram-no a procurar refúgio nos Estados Unidos, primeiro em Topeka e depois (1940) em Chicago. Ali em 1942 torna-se Professor do Chicago Institute of Psychoanalysis

NOTA: ver os vídeos sobre o Caffè San Marco em Trieste:

1 - http://www.youtube.com/watch?v=vqWPgsqbkcE

(as cenas são do filme de Mauro Bolognini "Senilità" -tirado do romance homónimo de Italo Svevo, 1962.
Foi apresentado no Festival de San Sebastian, em 1962, e ganhou o prémio da melhor realização.)

2. http://www.youtube.com/watch?v=AK_d8QIAV3s

sábado, 12 de junho de 2010

O Café Gli Amici, em Lisboa...Ou a cultura dos cafés...



O CAFÉ “GLI AMICI”


Conheço o dono do café "Gli Amici" desde pequeno. Tão bem como conheço os meus próprios filhos... Bem, exagerando um pouco...

Não, não é italiano, é português, mas foi uma vez a Itália e veio de lá apaixonado por Roma.

Matemático, curioso de tudo desde jovem, culto, foi leitor insaciável –também de livros policiais.

Ainda me lembro do tempo em que me emprestou os livros de Patricia Highsmith que li em português. Recordo bem, por exemplo, a capa de “Azul Cobalto”!

Arriscou-se a abrir "Gli Amici".

Apreciadora de bom café e de Cafés, cafés “com ambiente”, teria de me interessar por este...

E tantos conheci que me deixaram recordações inesquecíveis!

Um café, claro, em Roma no "Caffè Tre Scalini", para começar. Na Piazza Navona.

Ou um capuccino no "Caffè Sant'Eustacchio".
Ir ao Tazza d’Oro, ao pé do Pantheon, cheio do perfume dos sacos de café e de grãos de café vindos de todo o mundo...
Tazza d'oro, la regina dei caffè...

Ou no Caffé della Pace, na Piazza della Pace.


Ou ainda na “Dolce cassia”, ao pé de casa, na Via Cassia, pastelaria cheia de bolos bons...


E tantos outros pequenos cafés por aqui e por ali aparecem sempre, onde se bebia um café escaldante e se comia um croissant e se conversava, con gli amici...


Em Paris, em toda a parte, um café (roube a foto da capa de um CD do Brassens...)

Ou o "Caffé Manya" em Moscovo, e os "Coffee Beans" e "Cioccolada" que ali havia por todo o lado, com o seu ambiente jovem, cheio de quadros, e sempre uma tarte de maçã com natas ácidas.
Ou Londres e os “Caffé Nero”, os “Paul”, os “pubs”. E o ambiente vivo, os quadros, a lareira acesa, os jornais à disposição, os livros por vezes...
Em Cambridge, ou em Windsor...

Ou em Telavive, na Ben Yehuda ou na Dizengoff Street. Dizengoff, a rua mais famosa de Telavive...Nome famoso em todo o mundo: aqui no Sul de Londres...


Andando -quer para Norte quer para Sul- pode dizer-se que na Dizengoff, há café sim, café sim, café sim. O "Café Michal", na Sederot Ben Gurion, onde passava todos os dias com o meu cão Zac, de regresso a casa, na Lassalle...

Ainda me lembro do velho Café Kassit café que conheci bem...


A cultura dos cafés...

Existe mesmo hoje, em hebraico, na gíria telaviviana, a palavra “to dizengoff" –"dizengoffar", é isso: ir beber um café e estar com os amigos. um café de Telavive

Pois, como dizia, “amadora da cultura dos cafés” como sou... venho desejar boa sorte ao Café Gli Amici!


Boa sorte aos amigos e ao Z.M. É preciso coragem... e tiveste-a!

Tanti Auguri!, como diriam os nossos amigos italianos...

Portanto, amigos que me lêem: convido-os. E se fôssemos “dizengoffar” um pouco no "Gli Amici"?

O Café Gli Amici fica na Praça de Telheiras 15D, à saída da estação do Metro. / Aberto todos os dias das 9 às 21h [e tal]. Muitas vezes muito “e tal”!

Um café onde pode ouvir boa música ( a fotografia no alto mostra o momento de um concertosao vivo), tem exposições de fotografias. Pode-se estar "em companhia", num bom ambiente.

E também poderá ver o Mundial na África do Sul!


sexta-feira, 11 de junho de 2010

O filme "Tsotsi", do realizador sul-africano Gavin Hood...



Ontem a televisão franco-alemã "Arte" passou um filme que não tinha visto. E que me impressionou: "Tsotsi", do realizador sul-africano Gavin Hood, uma co-produção com a BBC.



O filme é baseado no romance homónimo do escritor sul africano, Athol Fugard.
Athol Fugard nasceu em 11 de Junho de 1932 em Middelburg, África do Sul. Escritor, dramaturgo, novelista, actor e realizador, que escreve em inglês, é muito conhecido pelas suas peças políticas de oposição ao regime do apartheid. É hoje professor no Department of Theatre and Dance na University of California, San Diego.
O herói, Tsotsi, é um jovem que sobrevive sozinho desde a infância, quando foge de casa com medo do pai, bêbado e violento, que acabara de matar, ao pontapé, o cão rafeirinho que o defendia sempre.

A mãe fica para trás, doente de sida. A mãe que o quer ter ao pé, que lhe pede a mão, e o pai que lho impede.

Tsotsi corre, assustado, corre na noite e vai ter a um ghetto de Joanesburgo. Ali cresce, com outros meninos da rua, primeiro "protegidos" do frio e dos calores, em tubos gigantescos de betão, roubando por aqui e por ali, ganhando assim o pão do dia a dia.
Passando, cedo, aos assaltos à mão armada.

Quando o filme começa, Tsotsi é já o chefe de um gang: ele e três amigos.
Um jovem duro e violento, menino da rua, delinquente ("tsotsi" em Zulu significa "black hooligan", "delinquente negro") que assalta, rouba e, quando necessário, mata -desde a juventude- para sobreviver.


A figura de Tsotsi é interpretada por Presley Chweneyagae -que nunca fora actor na vida... - e que faz maravilhosamente o papel desse rapaz solitário, perturbado, que vive no fio da navalha, porque nada tem a perder.

Sem laços afectivos -para além dos companheiros de gang- é um ser à deriva, sem referências, sem esperanças.

Alguns encontros, nesses poucos dias que passam, vão marcá-lo. Porque o levam a relembrar (em rápidos e secos flash-backs bem conseguidos) a sua infância desgraçada, a falta de afecto, e “abrir” o coração endurecido.
Depois de um assalto, os quatro amigos vão beber, zangam-se, sem motivo especial, talvez porque tinham morto um homem.

Tsotsi esmurra um deles -que o censura e lhe fala de "decência"-, e deixa-os.

Deambula pelas ruas desertas, vai por debaixo das pontes onde a miséria se esconde e os pobres reúnem.

Vai até à "cidade de vidro", rouba um carro, disparando sobre a mulher que o tenta impedir.
Do outro lado do bidonville...

Sim. Porque do outro lado do bidonville existe a cidade dos arranha-céus de vidro, brilhando ao longe como estrelas.

Um terreno abandonado pedregoso, selvático, de muros caídos, ruínas e tubos de cimento das canalizações abandonados, separa as duas realidades.

Tsotsi atravessa essa “terra de ninguém” (ou das pobres crianças abandonadas que, como ele, pequenino, ali vivem nos buracos dos canos.

Mais adiante há os lugares debaixo das pontes, ou nos parkings abandonados onde dorme o resto da miséria.

Um dos encontros é com um velho pedinte meio cego e hemiplégico que ele persegue, talvez com o intuito de o roubar, talvez não...

É tremenda esta cena -de uma violência enorme.

Tsotsi interpela-o, com desprezo. O velho tenta fugir aterrorizado, em frente da arma, arrastando-se no carrinho de rodas, abraçado à latinha das moedas que ganhara, o sustento do dia...

"Se te rebaixas, se te arrastas como um cão ao morrer, para que queres viver?!” , pergunta-lhe, revoltado.

São as imagens do seu cão, de espinha quebrada, a arrastar-se, que ele recorda.

Censura-o por aceitar viver sem dignidade nem respeito por si (mas como poderia?...), sem revolta; achando mais “digna” a sua vida: assaltar correndo um risco –matar ou morrer?-, apostando a vida em cada acto, arrancando à vida em cada instante o que ela lhe negara...
O velho responde, apenas:
“As minhas mãos ainda gostam de tocar nas coisas... Gosto de sentir o sol na cara...”

Tsotsi fica espantado com a resposta e deixa-o, a meio do lixo. Foge.

Corre em direcção à cidade das luzes. É nessa noite que assalta a mulher para lhe roubar o carro “topo de gama”.

Guia, pelas estradas desertas, sem saber guiar, até estoirar o carro, perto duma entrada do ghetto.

Tira tudo o que está lá dentro, mas ouve um bébé chorar no assento de trás. Hesita, não sabe o que fazer, quer fugir mas volta para trás e leva o bébé consigo.

O bébé que, num impulso incontrolável, decide “proteger” e amar como nunca amara nem se sentira amado há tantos anos...

Há tanto tempo... A mãe quisera tê-lo ao pé, puxava-lhe pela mão. E o cão que ele adorava, a morte do cão...

Tudo vem à memória do jovem Tsotsi quando leva o bébé com ele, num saco das compras.

Aquele encontro - e, mais tarde, o encontro com Miriam uma jovem mãe que perdera o marido e vive perto da barraca dele, com um filhinho- vai modificar a sua vida.

A ternura, aquele sentimento novo, surpreende-o. A generosidade -que nunca encontrara em ninguém- fragilizam-no...

Tsotsi consegue convencer Miriam (a doce Terry Pheto) a amamentar o bébé roubado, juntamente com o seu...

E... Não vou contar mais. Procurem ver o filme se puderem!

retrato do realizador sul-africano, Gavin Hood

Tsotsi ("Infância Roubada", no Brasil, "Tsotsi" em Portugal) foi o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2006.

Gavin Hood é o realizador do filme. Nasceu em Joanesburgo, África do Sul, em 12 de Maio de 1963, e é cineasta, produtor e actor.

Para saber mais, clicar em:


Mark Kilian e Paul Hepker escreveram a música da banda sonora do filme. Música Kwaito -criada em Joanesburg, nos anos 90, tipo house music combinada com música africana local (segundo o DJ Diplo, Kwaito é um tipo de “slowed-down garage music” ).

http://www.youtube.com/watch?v=uV3nFwUlkYM

ouvir a canção "Mdlwembe", cantada por
Zola (em zulu), que entra também no filme.

O filme é falado em língua Zulu, (isiZulu), uma das 11 línguas oficiais da África do Sul (na província de KwaZulu-Natal), em Xhosa (ou IsiXhosa) outra das 11 línguas da África do Sul, em Afrikaner e em Inglês...

E ainda podem ver o "trailer" do filme, na Globo:

http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM682695-7822-ASSISTA+AO+TRAILER+DO+FILME+INFANCIA+ROUBADA+TSOTSI,00.html

terça-feira, 8 de junho de 2010

Antero de Quental, o Sonho: três sonetos do grande Poeta

Antero de Quental, quadro de Columbano




O Palácio da Ventura



Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!


Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!


Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!



Abrem-se as portas d'ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!


(talvez uma das únicas poesias que "decorei" , além de sonetos Camões... E ainda hoje a sei de cor...)


Nirvana


Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;


Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;


Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;


Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro - é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!


Na mão de Deus


Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.


Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.


Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,


Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!


Antero de Quental, in Sonetos

 Antero de Quental, escritor e poeta, nasce em Ponta Delgada em 18 de Abril de 1842 morre também em Ponta Delgada em 11 de Setembro de 1891. Teve um papel muito importante no movimento da Geração de 70.
A Geração de 70, ou Geração de Coimbra, foi um movimento académico de Coimbra que veio revolucionar várias dimensões da cultura portuguesa, da política à literatura, onde a renovação se manifestou com a introdução do realismo.
“Num ambiente boémio, na cidade universitária de Coimbra, Antero de Quental, Eça de Queiroz e Oliveira Martins, entre outros jovens intelectuais, reuniam-se para trocar ideias, livros e formas para a renovação da vida política e cultural portuguesa, que estava a viver uma autêntica revolução com os novos meios de transportes ferroviários, que traziam todos os dias novidades do centro da Europa, influenciando esta geração para as novas ideologias. Foi o início da Geração de 70.”
(in Wikipedia)

A ilustração no topo da página (Antero de Quental) é um óleo sobre tela - retrato da autoria do pintor português Columbano Bordalo Pinheiro. 



Pintado em 1889, mede 73 cm de altura e 53 cm de largura. A pintura pertence ao Museu do Chiado de Lisboa.

O Museu do Chiado fica situado no centro histórico de Lisboa, o Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea, fundado em 1911como Museu Nacional de Arte Contemporânea, foi inteiramente reconstruído em 1994, sob projecto do arquitecto francês Jean-Michel Willmotte.




À esquerda, Museu do Chiado, Lisboa; à direita, museu de Amesterdão, ambos obra de Jean-Michel Wilmotte


A seguir ao incêndio da Baixa de Lisboa que destruíu grande parte do bairro do Chiado, o arquitecto francês Jean-Michel Wilmotte foi encarregado da reconstrução e da restauração du Museu do Chiado e do seu arranjo interior, num velho edifício do século XVIII, na Rua Serpa Pinto.

domingo, 6 de junho de 2010

Pausa, para reflectir neste domingo...

Touradas: qual o sentido?

Tourada "clássica"...




Não há palavras, ficam as imagens...


No comment...
Este mundo é feito de mudança, já dizia Camões...


No comment... What for?, como dizem os ingleses...

Como diria o Astérix: "estes romanos [touros] estão loucos..."


Conclusão:
Que tristeza estas imagens que parecem arrancadas a um trágico "circo dos horrores"...


Como disse, antes: exige uma pausa, para reflectir, neste domingo...


E o Fernando Tordo canta para nós, no Festival da Eurovisão, em 1973, a "Tourada", em "metáfora", de protesto...
Vale a pena ouvir! Faltava pouco para o 25 de Abril...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Julien Gracq: o último dos clássicos...


No dia 27 de Julho passam cem anos sobre o nascimento do escritor francês Julien Gracq.
Quem se lembra de Julien Gracq?
Talvez alguns recordem o famoso livrinho, espécie de panfleto iconoclasta, saído em 1950, “La Littérature à l’estomac” (*), contra os perigos que ameaçam a Literatura, obra essa que levantou logo muitas polémicas.
Durante toda a sua vida, Julien Gracq nunca deixou de ser polémico...


capa da 1ª edição, na editora José Corti



(Na edição de 1999, aparece como apresentação do livro o seguinte texto: "Texte célèbre datant de 1949, publié d’abord dans la revue Empédocle, "La littérature à l’estomac" demeure plus que jamais, cinquante ans après sa sortie, d’actualité.

Ce qui énervait Julien Gracq dans le milieu littéraire, tant celui des critiques que de certains écrivains, n’a fait que prendre, depuis, une plus grande ampleur car ce qui fait aujourd’hui d’abord un livre, c’est le bruit : pas celui d’une rumeur essentielle qui sourdrait de l’œuvre elle-même mais celui des messages accompagnant sa sortie.)
Nasce em 27 de Julho de 1910, em Saint-Florent-le-Vieil, em Anjou e o seu verdadeiro nome era Louis Poirier.
Saint-Florent-le-Vieil, terra natal do autor


Professor de Liceu, escritor, ensaísta, sai subitamente do anonimato quando lhe é atribuído, em 1951, o Prémio Goncourt pelo seu livro “Le Rivage des Syrtes” (um dos poucos livros de Gracq publicados em português, A Costa das Sirtes -traduzido com certeza muito bem pelo poeta Pedro Tamen).

Prémio esse que recusa.

Volta a desaparecer nas brumas da província. Viaja no seu carrinho utilitário pela província francesa, incógnito, escolhendo os caminhos interiores e as estradas secundárias pois, para ele, as auto-estradas destruíam a verdadeira paisagem, descaracterizando os sítios.

Evita Paris e os meios literários.

Que perigos ameaçavam a Literatura, nessa altura?

Os mesmos que a ameaçam hoje: o nivelamento por baixo, a “servidão” progressiva dos espíritos, a aparição de um público desorientado que não lê, e para quem o nome dos autores não tem mais valor do que qualquer marca comercial...

O “Magazine Littéraire”, nº 465, de Julho de 2007, dedicou um dossier a Julien Gracq intitulado: “Julien Gracq le dernier des classiques”, com vários artigos e uma entrevista –a última- com o escritor, então com 96 anos, lúcido e atento, que vai morrer em Dezembro desse mesmo ano.

Como diz muito bem Jean-Louis Hue, num dos artigos:

“Antecipando-se à "peoplização", Gracq profetiza a chegada do autor-vedeta, reduzido a ser apenas uma figura da actualidade, levado por um ruído de fundo mediático que amolece o pensamento amplificando a imagem.”
Gracq denuncia os compromissos comerciais do mundo literário dessa época, espécie de Bolsa de valores...

A Literatura no estômago (Assírio & Alvim) é aquela que é feita à pressão, que se serve a torna a servir como prato comestível até ao enjoo.
Que "está na moda", que "se vende", que uns copiam dos outros, aquela que os editores editam...
Como hoje.

A esta literatura, que condena profundamente, o autor prefere o jejum e a ascese...

O que fizera antes?
Em 1937 (com 27 anos), escrevera, em poucos meses, o romance “Au Château d’Argol” (primeiro foi recusado pela NRF e só foi publicado pela editora José Corti em 1938 - que vai ser a sua editora, a partir daí).
É uma história que se aproxima do surrealismo de Breton e do romantismo alemão com a mesma temática, espécie de demanda do Graal, mais os cavaleiros sem mácula seguindo o modelo de Parsifal (Sir Percival, como preferirem).

Segue-se, passados 7 anos, um outro romance, Le beau ténébreux , dentro do mesmo género fantástico.
Depois de “ Le Rivage des Syrtes” (1951) abandona o romance (o próximo vai sair sete anos depois, e será “Un balcon en fôret”), e dedica-se a escrever, de forma fragmentária, pequenos ensaios, apontamentos (“Lettrines”, “Lettrines 2”, Les Eaux Etroites), pensamentos que vai compondo ao longo de passeios, leituras, meditações.
A sua recusa da publicidade -e das grandes feiras literárias- atrai muitos jovens escritores, que exigem um pouco mais do que essa tal literatura "a peso", ao serviço da tal Bolsa de valores.
Gracq foi para eles um “marco” -como dizia José Régio na sua “Carta a um juvenil individualista”: aquela pessoa que serve de modelo de vida, que é uma referência e nos leva a escolher isto e não aquilo, a olhar para certas coisas “essenciais”, a largar outras, meros enfeites, e a ter certas atitudes e não outras...

O exemplo de pessoa a seguir, o homem de que falava Séneca, quando escreve:
“Devemos escolher na vida um homem de bem, e tê-lo sempre frente aos olhos, como exemplo para vivermos. E conduzirmo-nos como se nos observasse, agindo como se nos visse...”

De facto, é, para os seus seguidores, o “exemplo”: os discípulos, os ex-alunos que o vinham visitar -e conversar com ele dias inteiros- na sua casa de Saint-Florent, até ao fim.

Segui um pouco a sua obra. Li há pouco tempo “Le balcon en Fôret” (1958) e “Le Rivage des Syrtes”( 1950).
A leitura do primeiro apaixonou-me de tal modo que o "devorei" em poucos dias.
Pela novidade, intensidade de uma história em que quase nada há: num fortim, perto da fronteira com a Bélgica, o protagonista, jovem oficial francês, e três dos seus homens, que esperam a chegada dos alemães.


Poucos meses: apenas o período de tempo que medeia entre a Declaração de Guerra pelos alemães e a ofensiva das Ardenas (1940). E o seu destino.
Sabem que não se podem defender de modo nenhum. E aguardam, falando, passeando pelas serras cheias de neve, cortando lenha, descendo ao povoado, travando conhecimento com dois ou três camponeses que sobem até lá acima.
Conhece uma jovem,de que pouco sabe, que vive, misteriosa e isolada, numa casa de campo com uma criada, e vai procurá-la de vez em quando.
E é só isto...
Uma enorme simplicidade.
No entanto, é inesquecível a atmosfera que se cria, o que vai pelo pensamento das personagens, o que observam das frestas da “casa-mata”, o que nem têm a coragem de dizer uns aos outros. A expectativa...
Uma espécie de “deserto dos tártaros”, onde se espera sem se saber "quando" vai acontecer ou "se" acontece...
Até que um dia chegam as tropas alemãs...
De tal modo me prendeu essa leitura, que imediatamente peguei no outro livro: "Le Rivage", A Costa das Sirtes.


Muito diferente, mais complexo até no estilo, tornou-se-me mais difícil. O ritmo parecia-me lento. Parei. Voltei logo porque me chamava: era estranho e atraente! E, de repente, "agarrou-me" com força, assim que retomei a leitura: era empolgante mesmo!
A sensação de que “há alguma coisa detrás” que se tem de descobrir, que existe algo “para lá de”, uma fronteira, um perigo que “desejamos” que exista, com o qual nos queremos confrontar –tal como o herói.

O desconhecido, o inesperado -que pode revelar-se dum momento para o outro e pelo qual “se anseia” - e “se ansiou” desde sempre...
E o vazio à volta, o silêncio, a expectativa.
E a provocação necessária para que “qualquer coisa” aconteça, que quebre a expectativa insuportável e que volta a fazer pensar n' O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati (3) .
E, atrás, lá longe, a Senhoria de Orsenna, principado num país não identificado, em tempos recentes, a misteriosa Senhoria, cheia de segredos e de personagens dúbias, duplas, falsas - cujo ambiente lembra o ambiente da Sereníssima República de Veneza, com os mesmos complots, venenos, traições latentes- entra-nos na pele. Sentimo-nos "participar" da intriga, duvidamos, queremos saber mais.
O protagonista, de que sabemos apenas o primeiro nome, Aldo, filho de um dos poderosos da Senhoria, farto da inacção, da indecisão e do segredo, abandona a “antiga e nobre” Senhoria, e “escolhe” enfrentar directamente o perigo.
Parte, com grandes poderes, encarregado pelo pai de uma missão secreta, para o sul. Perto dos confins, existe uma província, o bárbaro Farghestan, na margem das Sirtes, cuja zona de fronteira tem de ser fielmente respeitada, para evitar uma guerra.
O herói instala-se, pois, na Fortaleza, isolada diante de um mar quase sempre parado, onde nada acontece desce há séculos e onde tudo se espera porque o inimigo continua lá e espera também...
Encontra o capitão Marino, Fabrizio, Roberto, os outros da flotilha das Sirtes, no Almirantado da -sempre referida- base das Sirtes.
Passeia no navio de vigilância “Redoutable” que não deve ultrapassar certos limites. Perscruta o horizonte, estuda os mapas com a linha pontilhada do limite da zona de patrulhas que o fascinam.
O desconhecido, o perigo, o inimigo aguardam a provocação necessária para que “qualquer coisa” aconteça.
E o herói cria essa “provocação”, empurrado pela estranha jovem Vanessa, filha de um importante membro da Senhoria, caído em desgraça e exilado, a bela e misteriosa Vanessa que vive na cidade perto, a palúdica Maremma, rodeada de pântanos e de ventos insalubres...
Tudo acontece sob o “olhar” frio, inatingível e inquietante, lá do alto do seu cone de neve, do vulcão Tängri.

No interessante artigo do "Magazine Littéraire", intitulado La froide lumière des Syrtes, Enrique Vila-Matas fala de “um livro que podemos provavelmente começar a ler hoje porque nos fala, através do seu nobre e lento discurso intertextual, da nossa lenta decadência veneziana de hoje”.

Diz ele:
Somos confrontados com um romance da inactividade, do devaneio solitário e de uma contaminação nebulosa entre trama e estilo. A trama arrasta-se atrás de um estilo rápido. Trata-se no fundo de uma cabala de luz fria e terrivelmente moderna sem importar saber se é ficção ou realidade, verdade ou mentira.”
Romance da espera (como lhe chamou o próprio autor), da expectativa?
Termino com esta frase de Breton - de quem Gracq foi grande amigo- que bem poderia adaptar-se quer ao "Balcon en Fôret" quer a "Le Rivage des Syrtes":
« Au-delà de ce qui arrive ou n'arrive pas, l'attente est magnifique. »
André Breton (1896-1966)



(1) As Syrtas: na realidade, Syrta é uma cidade da Líbia. Na geografia antiga este termo de origem grega designava dois golfos formados pelo Mediterrâneo na costa de África entre Cyrène e Cartago


(2) Orsenna : a cidade-Estado a que pertence Aldo, chama-se Orsenna, e fica em frente do Farghestan: os nomes evocando a Itália, a Ásia central ou outras regiões, a referência a aspectos militares (misturando as épocas) situam a história num espaço imaginário.

(3) Il Deserto dei Tartari, do escritor italiano Dino Buzzati, foi escrito em 1938 e publicado em Itália em 1940. Em França, o romance sai só em 1949, enquanto que Gracq escreveu a sua obra em 1948 (publicada em 1951).

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Para os leitores, que possam estar interessados, indico alguns títulos de obras de Julien Gracq traduzidas em português:

A Costa das Sirtes
(tradução de Pedro Tamen)
Edição/reimpressão: 1988
Editor: Vega

A Literatura no Estômago

(tradução de Ernesto Sampaio)
Colecção: Alfinete
Assírio & Alvim - 1987

As Águas Estreitas

(tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)
Colecção: Alfinete
Assírio & Alvim - 2006


(*) Diz Juliem Gracq, a propósito de "la Littérature à l'estomac":

«Ainsi se trouve-t-il que la littérature en France s’écrit et se critique sur un fond sonore qui n’est qu’à elle, et qui n’en est sans doute pas entièrement séparable : une rumeur de foule survoltée et instable, et quelque chose comme le murmure enfiévré d’une perpétuelle Bourse aux valeurs (...) en rumeurs de coulisses[…].»
(in La littérature à l’estomac)

(**) Surrealismo: "o surrealismo acentua o papel do inconsciente na actividade criativa. Um dos seus objectivos foi produzir uma arte que, segundo o movimento, estava a ser destruída pelo racionalismo.
O poeta e crítico André Breton (1896-1966) é o principal líder e mentor deste movimento.
A palavra surrealismo supõe-se ter sido criada em 1917 pelo poeta Guillaume Apollinaire.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Ainda a fome... "A pobreza em África, continente abandonado: "Ah! Sim, a África..."

"13 milhões de refeições estragaram-se, porque a FEMA não tinha onde as armazenar..."
(FEMA: Federal Emergency Management Agency)



"Ah! Sim, a África... A fome...É verdade..."
Sim, e esquecem logo a pobreza, a doença, as crianças abandonadas -sem remédios, em palhotas ou em tendas improvisadas, com panos rasgados, ao sol escaldante, cheias de moscas a zumbir à sua roda, seres fantasmas, impotentes perante as chuvadas ou e as enchentes.
As imagens de crianças desnutridas, sem leite, sem comida, pequenos esqueletos que se arrastam desaparecem dos écrans rapidamente...
Há outras imagens já a seguir nas TVs!

As mães com o peito magro que as não pode alimentar há muito, olhos no vazio, sem esperança, choram.
Ninguém fala delas já. Outras mães aparecem nas TVs.

Fora, os campos desérticos, a seca, a fome...

Mas... quem se lembra de África esquecida?
Alguns dados, para recordar:

" O continente africano parece estar mergulhado no abismo -devido às prolongadas secas e cheias, mas também por guerras civis (entre 30 e 40 no final do século XX), Terminados os conflitos o terror não termina nas zonas rurais, onde a presença de minas e de munições que não explodiram constituem uma ameaça permanente à reconstrução das comunidades rurais.
Assim, na Etiópia, Eritreia, Somália, Sudão, Quénia, Uganda e outros países, a fome mata nestes países milhões de africanos, e já deixou de ser notícia na imprensa internacional.

Entre as principais causas desta mortalidade está a seca, as guerras e a permanente instabilidade política e religiosa na região.
Na Zâmbia, cerca de quatro milhões de pessoas (numa população de dez milhões) foi afectada pela seca que destruiu, este ano, parte das suas colheitas. A situação está a tornar-se rapidamente catastrófica.
Na África austral, existem presentemente 10 milhões de mulheres, homens e crianças a conhecer formas extremas do flagelo da fome.
O Malawi, o Zimbabué, o Lesoto e a Suazilândia são alguns dos países mais afectados. O Malawi enfrenta a seca -e a pior fome- dos últimos 50 anos. Segundo o governo, 70 por cento da população de 11 milhões passa fome.

Em termos gerais, as perspectivas de desenvolvimento para este continente são pouco animadoras. Na África sub-Sahariana, o número de pobres pode aumentar de 315 milhões em 1999 para 404 milhões em 2015, afectando perto de metade da população da região. "
Pouco animador, não é verdade? No entanto, quem se lembra ainda? Quem fala nisso?
Fala-se muito nos últimos dias do "bloqueio" a Gaza. Mas não me parece ver nas reportagens imagens de crianças desnutridas, ou sub-nutridas, ou a morrer de fome. Os mercados aparecem cheios de coisas, vindas não se sabe como, pelos túneis subterrâneos que ligam Gaza ao Egipto. E pela passagem de Rafa.
E África? Por que não se fala de África?
Haverá, por acaso, já aí algum barco pronto a partir -carregado de bens de primeira necessidade- para os que morrem de fome todos os dias no Malawi? Que se dirijam já amanhã para o Sudão, ou para a Swazilândia?
Ou há dois pesos e duas medidas nas "solidariedades" e nos "activismos" tão cheios de boas intenções?
Não esqueçamos África. Não nos deixemos manipular pelas grandes forças mediáticas. Pelos grandes interesses.
A África sofre os restos das colonizações de séculos, a África tem fome! A África somos nós todos!

(o video contém imagens chocantes)