domingo, 11 de julho de 2010

Francis Scott Fitzgerald, esse romântico... E "Tales of The Jazz Age"...




Hoje lembro o grande novelista americano, Francis Scott Fitzgerald, o romântico incorrigível, o “perdedor” de tudo o que teve na vida?

Por onde começar a contar?

Breve biografia:

Nasce em 24 de Setembro de 1896, em St. Paul, no Minnesota. Morre em 21 de Dezembro de 1940, com 44 anos.

Estuda na Universidade de Princeton mas não acaba os estudos. Em 1917 deixa Princeton para ingressar no Exército.

Começa a escrever nos tempos livros.

Publica o seu primeiro romance, “This Side of Paradise” (1920), que o torna instantaneamente famoso.

Nesse mesmo ano, casa com Zelda Sayre, uma jovem "beleza" sulista, nascida em Monterrey, no Alabama (nasce em 24 de Julho de 1900 e morre em 10 de Março de 1948).

Começa uma vida de luxo, de despesas, de festas infindáveis, de bebidas.

Em 1922, publica "The Beautiful and Damned” e, em 1925, "The Great Gatsby” que fala da romântica e destrutiva paixão do herói por Daisy Buchanan.

Fácil de associar a história à relação tumultuosa com Zelda.

Seguem-se dois volumes de novelas curtas, publicadas em revistas então na moda (mais tarde reunidas com o título “Flappers and Philosophers” (1920) e “Tales of The Jazz Age” (1922) que incluem o estranho, fantasioso e fantástico conto -com algo da atmosfera de “Paradise Lost” de Milton?- que se chama “The Diamond as Big as the Ritz”.

E, também, entre outros, o conto intitulado "O Estranho Caso de Benjamin Button" -de que recentemente (1) foi tirado um filme-, ou "May Day", ou "The Bowl", etc.

Para mim, são todos extraordinários!

"Babylon Revisited", "The Lost Decade", inesquecíveis...

Em 1926, sai outro livro de contos, “All The Sad Young Men”.

O que fez Fitzgerald do sucesso?

Boa pergunta...

A vida gasta-se e ele dispersa-a na fúria de viver, desenfreadamente?

Fúria de viver e riqueza, aparências, o luxo que deslumbram Zelda...

Hollywood e a ostentação, a aparente “facilidade” da vida, as muitas solicitações, compras, de “party” para "party" até ao amanhecer, champagne, viagens, Paris, o mundo...

A inconsciência total dos dois.

O dinheiro que ganhara, depressa se escoa entre as mãos, como pó de diamante...

Hollywood, a fama precoce, o deslumbramento com essa nova vida que descobre, a embriaguez do sucesso tem algo de destrutivo nas suas vidas.

Tudo ajuda na sua queda.

Mas, sobretudo, Zelda.

Scott Fitzgerald, no final dos Contos do Jazz Age, confessa: “ Por vezes não sei se eu e Zelda somos reais ou se não seremos afinal personagens de uma novela minha...”

Os amigos que aparecem e desaparecem conforme o dinheiro entra ou sai.

Tudo se passa nos anos 20, na loucura desses "Anos do Jazz”...

Por volta de 1935, Zelda sofre de crises nervosas violentas, a vida dos dois torna-se num inferno do qual Scott sofre os efeitos.

Internada num hospital psiquiátrico, Zelda escreve um romance.

capa do livro de Zelda, “Save me the Waltz” (1932)

Dois anos mais tarde, em 1934, Scott escreverá “Tender is the Night” (que conta a história de um psiquiatra e da sua mulher esquizofrénica) que é, no fundo, o espelho do desastre da vida deles, tal como "The Waltz" (vistos, claro, de ângulos diversos)...

O mal de viver?

Com certeza.

À riqueza e sucesso, sucede o reverso da medalha, a vida pende para o outro lado da balança, de repente: a falta de dinheiro, a infelicidade, o desequilíbrio afectivo...

Bebe. Para continuar a sentir a euforia, e ter a mesma intensidade de antes?

Ou o mal necessário para continuar a viver, a escrever a todo o custo, mesmo perdendo a vida?

O narcótico para continuar a suportar a vida com Zelda?

Zelda e a sua loucura? Os manicómios e as curas que não levam a nada?

A queda continua.

Holywood e os “scripts” esgotam-no...

Tem medo.

Bebe cada vez mais. Deixa de escrever.

O conto “A década perdida” deveria chamar-se antes “A vida perdida”?

Não consegue recompor-se. Bebe para escrever, para esquecer que não consegue escrever? Para reencontrar o equilíbrio que perdera ao alcoolizar-se.

Círculo vicioso e infernal.

Vive com a angústia, sem a certeza de “conseguir tudo outra vez”? De ser capaz, ainda?

Cai cada vez mais fundo.O vazio instala-se à sua volta, trazendo o desespero.

O abandono dos outros, trouxera a solidão -que a pobreza tantas vezes arrasta consigo.

Sim. Há a tendência a "largar o barco quando ele se afunda..."

Ou quando o dinheiro acaba... Não é assim que fazem os ratos?

Ampara-o a secretária e única amiga, que o tenta proteger e o acompanha até ao fim da vida.

Zelda acaba num hospício onde morre, queimada, num fogo, com 48 anos.

Scott Fitzgerald morre alcoolizado aos 40 e poucos anos.

Morre pelo "mal de viver" de que fala Barbara?

Oh! Sim. É bem possível... A dificuldade de viver pode matar...

« Le mal de vivre/qu’il faut bien vivre?

Il faut le mettre en bandoulière/

ou comme une fleur à la main…"

Francis Scott Fitzgerald morre com um ataque de coração: completamente destruído pelo álcool, pelas emoções, com pouco mais de 40 anos. Deixa um último romance inacabado, "The Last Tycoon" (1941) e alguns ensaios autobiográficos: “The Crack-Up”.

Alguns títulos:

Os romances

Terna é a Noite”

"Belos e Malditos"

"O Grande Gatsby

“Deste lado do Paraíso

Os contos

Capa da edição brasileira dos "Contos"

"Contos do Jazz Age"

etc, etc, etc.


A cantora francesa, Barbara, cantou, divinamente,“Le mal de Vivre”, anos mais tarde.

A seguir, vou procurar essa canção e deixá-la para a ouvirem...


sábado, 10 de julho de 2010

O pianista de Jazz, Lennie Tristano






Lennie Tristano nasce em 19/03/ 1919, em Chicago, e morre em 18/11/ 1978 em New York.

Toda a história do Jazz é, no fim de contas, um contar e recontar das histórias da vida dos seus maiores artistas...
Os que deixaram uma marca...

Mas enquanto uns são bem conhecidos -como Charlie Parker (the bird) ou Coltrane, ou Lester Young, ou Louis Amstrong, ou Chet Baker, Miles Davis, Coleman Hawkins ( a lista não acabava tão depressa...!)- há outros músicos igualmente inovadores como os que refiro atrás que, por motivos às vezes desconhecidos, não conseguem romper a barreira de silêncio. E permancem pouco conhecidos...

Por mim o digo, que, convencida de que percebo alguma coisa de Jazz, não tinha ouvido falar de Lennie Tristano -até ir hoje espreitar o blog JAZZ/BOSSAS/ que muito aprecio...

Tristano não teve de facto a "sorte" dos outros, na medida em que a crítica pouco lhe ligou.

Mas ainda vamos a tempo de reconhecer essa falha...
Adorei ouvi-lo, o seu modo de tocar piano é maravilhoso!
Quem era?
Em meados dos anos 40, este pianista entra em cena com um conceito que "alarga" a estética "bop" .

Tristano traz à música de Charlie Parker e Bud Powell uma linguagem harmónica que adapta certas práticas da música clássica contemporânea.

Usa efeitos "politonais" em certas canções como por exemplo: "Out on a Limb" que lembra, dizem os entendidos, certo Stravinsky.

Tristano foi o primeiro a realizar e gravar um tipo de música chamado "free jazz".

Em 1949, o grupo de Lennie Tristano que inclui Lee Konitz, Warne Marsh, e Billy Bauer gravam um exemplo de uma música livremente improvisada que é o primeiro na história do Jazz: por exemplo, "Intuition" e "Digression "foram criados espontaneamente sem qualquer ideia preconcebida sobre o que iam fazer: tempo, tonalidade ou melodia..."





O grupo: Lee Konitz, Warne Marsh e Billy Bauer e o "free jazz"


Tristano sofria de cegueira desde a infância.

Primeiro, estudou música com a mãe, pianista e cantora de ópera. Depois frequenta uma escola para cegos onde aprende teoria da música e desenvolve a sua capacidade de executante em diversos tipos de instrumentos.

Mais tarde, vai para o "American Conservatory of Music", de Chicago, onde recebe o grau de bacharel, em 1943.


Durante anos ensina música.

Em 1946, muda-se para New York, onde vai tocar com muitos dos mais famosos músicos de jazz do tempo: Dizzy Gillespie, Charlie Parker e Tantos outros.

Em 1951, Lennie Tristano funda uma escola de jazz, a primeira do seu tipo.

Grava dois álbuns nos anos 50.

A seguir, em 1956, faz uma tournée pela Europa.

O último concerto público nos Estados Unidos realiza-se em 1968.

Até à sua morte, em 1978, Lennie Tristano continuou a ensinar....

Ouvir Lennie Tristano ao piano... "Tangerine"


quinta-feira, 8 de julho de 2010

Outro livro, outro autor: o escritor lituano Icchokas Meras e o seu livro” Impasse


o escritor Icchokas Meras

Talvez muitos não conheçam Icchokas Meras. Eu própria não sabia quel ele era, até há pouco ...

Só o li há pouco tempo –apesar de ser, há longos, anos um best-seller o livro de que vou falar.
Chama-se “Impasse”.
Li-o por acaso, devo dizer. A Bárbara que é filha da minha grande amiga Lívia é que teve essa ideia.
Mandou-mo pela mãe: “Leve-o porque a Maria João há-de gostar...”
Não vejo a Bárbara há anos. Lembro-a como uma garota, ainda a crescer, curiosa da vida, que sorria muito, tinha uns dentes engraçados e uns olhos a brilhar .
Acertou. Gostei do livro, li-o em dois dias sem parar.
Fui ver quem era o autor. Espantei-me de não o ter conhecido.

A Stalemate Lasts But a Moment, edição americana

retrato de Icchokas Meras, na Lituânia

Breve biografia:

Icchokas Meras nasceu em Outubro de 1934, em Kelmé, pequena cidade no noroeste da Lituânia, onde residia a comunidade judaica mais antiga do país.

A família morreu durante o trágico mês de Julho de 1941, durante a deportação. Icchokas, com sete anos, é poupado com um grupo de crianças da sua idade (1).


É recolhido- e escondido- por uma família de camponeses lituanos. Nos anos difíceis do pós-guerra faz a escola secundária, revelando muito cedo a inclinação para escrever.


Começa a publicar no jornal local.


Em 1958, forma-se no Kaunas Polytechnic Institute com uma licenciatura em “engenharia radio-electrónica”. Começa a dedicar a maior parte do seu tempo livre à literatura.

Capa da edição francesa de "Stalemate", nas edições Stock

Em 1960 publica o primeiro livro de contos, "The Yellow Patch", baseado em cenas da sua própria infância, no gueto.


Os seus romances, short stories, ensaios ou peças de teatro foram vastamente publicados e traduzidos em várias línguas.

Meras recebeu muitos Prémios literários, incluindo o “International Rememberance Award for Excellence and Distinction in the Literature of the Holocaust”, pelo livro a que me refiro, A Stalemate Lasts But a Moment, publicado em Portugal com o nome “Impasse” (Quetzal Editores, 2006).

Literatura do Holocausto... O que é? Fácil: é a que fala desse horror que foi a deportação e morte de milhões de seres humanos -só porque eram judeus.

Como Elie Wiesel, Aaron Appelfeld e outros, Icchokas Meras escreve sobre uma experiência vivida: os guetos, as perseguições, a deportação, a fuga...

O livro de Aaron Appelfeld, "Badenheim 1939", é uma "anunciação" das deportações

Sobreviveram os três, mas deixaram para trás, mortas, as suas famílias, as ilusões, e vieram carregados de sofrimento e até de remorsos por terem sobrevivido. Appelfeld, garoto de nove anos, foi deportado com o pai e outros habitantes da aldeia, foge a dada altura, esconde-se e vive na floresta (disso fala em Tzili e Uma vida) alimentando-se e sobrevivendo à maneira dos lobinhos.
Depois vai errando pelos campos, de quinta em quinta, pedindo comida, fazendo uns trabalhos, passando despercebido porque o seu cabelo muito loiro o fazia passar por ucraniano. Acabou por ser recolhido pelo Exército Vermelho.
O terceiro escritor de que vos falo hoje, Elie Wiesel, foi deportado com o pai para o Campo de extermínio de Büchenwald e depois Auschwitz. Assiste à morte do pai e salva-se in extremis pela chegada do Exército Vermelho, que libertam o campo.
O Impasse:
O romance de Meras passa-se no gueto da cidade de Vilnius, num espaço e tempo curtos. Um dia enquanto decorre uma partida de xadrez invulgar, cuja finalidade é “salvar ou não salvar” o grupo de crianças que vai ser mandado para os campos.
Abraham Lipman, um dos mais velhos do gueto, intercede junto do Comandante nazi. As condições que o Comandante impõe são a realização de uma partida de xadrez entre ele e Isaac, filho mais novo de Lipam: se o adolescente prodígio conseguir vencer, as crianças serão poupadas, mas se o contrário acontecer...

Esse dia é importante para várias pessoas do gueto, de modos diferente: Isaac Lipman ( e os outros filhos de Abraham Lipman) : e Buzia, Janek, Ina, etc.
O jogo de xadrez vai ser decisivo para a sorte das crianças do gueto: aí se instala a responsabilidade do jovem jogador.

Se ele perder, elas vão ser levadas; se ele ganhar, elas salvam-se mas ele será morto. Só o empate os poderia salvar todos. Schoger sabe que o empate é praticamente impossível.

Um Impasse.

A partida joga-se, pois, à noite, entre o Comandante alemão Schoger, e o jovem judeu Isaac (Isia), grande jogador de xadrez.

E cruzam-se os destinos, conhecemos a vida e os amores, as dificuldades e os anseios das pessoas fechadas no gueto.

O fim é previsível? Não sei. Talvez não seja...

Vale a pena ler...

Porque é um belo livro, claro. E porque é importante não esquecer...

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Dados biográficos de Meras:

Em 1963, Meras publica dois livros, The Earth is Always Alive e o mundialmente conhecido “A Stalemate Lasts But a Moment” (Impasse).

Em 1965, publica outro romance: “What the World Rests On”.

Em 1971, seguem-se “The Week of the Moon” e “The Old Fountain”.

Desde 1972, Icchokas Meras vive em Holon, em Israel.

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(1) Conta o autor: "no dia 28 de Julho de 1941, fui levado para um fosso para ser fuzilado (...). Por sorte, decidiram não matar todas crianças. Por mais sorte, ainda, encontrei gente que dava valor à vida duma criança de sete anos..."

(2) Elie Wiesel, Prémio Nobel da Paz, nasce em 1928. É um escritor americano (naturalizado em 1963)es

Aos 16 anos é internado nos campos de concentração de Buchenwald e Auschvitz onde assiste à morte do pai. E onde toda a sua família morre.

Vai viver para França depois da Guerra, estuda na Sorbonne.

Em 1950 era correspondente de jornais americanos, israelitas e franceses. Parte para os Estados Unidos em 1956.

Night (1958) conta os horrores que presenciou como deportado nos campos de morte. Escreve mais duas novelas: "Dawn" (Amanhecer) (1960) e "The accident" (1961), sobre o mesmo assunto.


Capa de "Night" (A Noite), de Elie Wiesel

(3) Aaron Appelfel nasceu em 16 de Fevereiro de 1932 na aldeia de Zhadova perto de Czernowitz, na Roménia, (hoje Ucrânia). No ano de 1940, tinha Appelfeld oito anos de idade, os Nazis invadem a aldeia e matam a mãe a tiro. Appelfeld é deportado com o pai para um campo de concentração na Ucrânia.

Depois da Guerra passa alguns meses em "campos para sobreviventes perdidos", em Itália."A Idade dos Sonhos" e "Badenheim 1939"

Aaron Appelfeld emigra para 1946. Vive em israel desde essa dEmigra em 1946. Vive em Israel desde essa data.

Alguns destes livros de Appelfeld são para mim inesquecíveis!:

Italiccapa da edição inglesa de "O Immortal Bartfuss", de Appelfeld

Outros:

"The Retreat""Badenheim 1939" (nas termas de Badenheim, os veraneantes (judeus) apercebem-se de algumas estranhas mudanças, mas nunca sonham com o que lhes vai acontecer...)

"The Immortal Barthfuss" (Barthfuss é uma personagem que não tem igual e o livro tem uma grande humanidade...)

"Fragmentos de uma vida" (publicado pela Civilização Editora)

"O quarto de Mariana" (o último romance que publicou)

NOTA! Depois da "visualização" do post, vi que ficou completamente descontrolado! Mas não há nada a fazer: quando as máquinas entram nisto, fico sem alternativa, porque não percebo nada desta parte...paciência!.
Desculpem...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Era bom voltar a casa naquele tempo...


O meu pai, a minha mãe, a minha irmã mais velha e eu, em Sesimbra


Era bom voltar a casa, naquele tempo...

Durante anos, longe, senti a falta deles.
É duro viver sempre longe das pessoas que estiveram de um modo qualquer ligadas à nossa vida, ou à nossa infância, ou só às recordações.
Vivia noutros espaços, evoluía noutros mundos e o tempo, inexorável, passava por cima de nós.

Dizia-me uma amiga, em Israel: “não é o tempo que passa, ele permanece, nós é que passamos...”
O que é bem verdade.

Mas nós pensamos que o tempo é que passa, que as coisas mudam e se vão deteriorando na nossa ausência. Sentimos a angústia de não poder parar esse movimento que nos envelhece, a nós e aos outros que ficaram para trás.
Ao voltarmos, toma-nos o medo: seremos ainda os mesmos? A nossa aparência é igual? E eles?

Nenhum de nós é já o mesmo. Por vários motivos, claro.
Nós, porque crescemos, vivemos fora, vimos e vivemos outras experiências. Eles, diferentes também, parados alguns nas suas certezas, na convicção de que nós é que estávamos errados.

- Partir para quê?, perguntavam-me às vezes. Não se está bem na nossa terra?
Outros, que amávamos, tinham envelhecido, atingira-os a doença, estavam fragilizados, por vezes havia um certo susto neles.

Era bom voltar a vê-los.

Sim, era bom voltar a casa dos meus pais nesses tempos...

O meu pai esperava-nos a pé firme, à porta da casa da Serra. Devia ouvir o ruído do carro a descer a azinhaga, apitando para lhe dar o sinal.
Avançava um pouco, hesitante, nas lajes da calçada, aproximando-se de nós.

Via-o logo, assim que o carro dava a curva. Sentia o coração bater mais forte, os olhos molhados. Tinham passado anos...



Retrato do meu pai, na casa da Serra


O olhar vivo, as sobrancelhas grossas franzidas num ar de curiosidade, ou espanto. Os olhos brilhavam e tinha um meio sorriso: tínhamos chegado, a viagem correra bem.
O cigarro, cheio de cinza na ponta, suspenso no ar. Cuspinhava um pouco os bocadinhos de tabaco que se lhe pegavam aos lábios. Recusava-se a fumar cigarros com filtro e o seu tabaco preferido era o mais forte.

Tinha já nessa altura um enfisema, sabia que lhe podia causar a morte, mas quando lhe falavam nisso encolhia os ombros com um ar quase indiferente, ou resignado. A morte viria, de qualquer modo: e ele queria era ser eterno!

- Então?, era sempre a sua primeira palavra.
Outras viriam depois do abraço que eu lhe dava, escondendo, eu e ele, a emoção. Sempre reservados os dois, na nossa timidez, tínhamos acabado por nos entender com poucas palavras.
O nosso entendimento era feito de muitos silêncios e de compreensão.

Às vezes, sentados cá fora, na quinta, ficávamos calados, a ver a paisagem que se espraiava pela serra abaixo, passava por cima da cidade e ia continuar para além, mais para além.
Continuava nas searas sem fim e nas colinas suaves...
Era como se um halo se pousasse ao lado das nossas cabeças e, ao olhar, como em uníssono, “contemplávamos” a beleza do momento, sem uma palavra.

Era o Alentejo que amávamos.



O sol começara a descer no horizonte e ia desaparecer numa bola de fogo ardente no céu vermelho.


Eu dizia:
- Pôr do sol vermelho é sinal de calor ou vento...
E ele respondia logo:
- Calor, vais ver... Sempre calor!

Suportava mal o calor, sofria, transpirava, ficava com a respiração mais ofegante.

Mas, no momento da chegada, a primeira pergunta era:

- E a viagem correu bem?...
Tinha muito medo das estradas no Verão.
- Há novidades?

Recebia, feliz como uma criança, os jornais e revistas estrangeiras que lhe trazíamos sempre.

Ao serão conversávamos, às vezes até tarde. Nós vínhamos de Roma que ele adorava. Queria saber tudo o que tínhamos visto, se voltáramos a ver Florença, a cidade das flores que o deslumbrara um dia.


Florença, pôr do sol sobre o "Ponte Vecchio"


Perguntava-me, sempre:

- Tu não escreves? Tens tanta coisa bonita para falar. Por que não contas o que vês?

Eu sorria. A verdade é que não escrevia, reservando apenas na memória o que via. Talvez um dia...

- Contar as tuas impressões. Tomar apontamentos... Falar do que observas, enfim, um testemunho.

Para ele era importante. Eu sacudia a cabeça dizendo que não.

Leitor infatigável -dos clássicos Gregos a Musil, dos russos, desde Tchekhov e Gogol e Bunine ao seu “Deus”, Tostoi, a Thomas Mann, Canetti e Svevo-, o meu pai tudo lia, com uma sede de saber que não se esgotou nunca até ao fim.


Não se cansava de ver pintura. Viajava e em Roma, Londres, Paris eram os museus que visitava primeiro.
óleo de Paul Cézanne, um dos seus pintores preferidos, intitulado O homem do Cachimbo



Andrea del Verrocchio, "Tobias e o Anjo"

Na sua Florença amada, a primeira saída era para ir aos Uffizzi ver Verrochio, Botticelli, Leonardo.
Em Roma, o Caravaggio, Rafael. E, na Capela Sistina, procurava a Sibila Delphica, de Michelangelo, para ele a figura mais bela.
Por causa dele, eu parava sempre horas, de cabeça no ar, a olhar a figura doce, pura e majestosa de Daphne, a Sibila.


A Sibila Delphica, de Michelangelo, pintada no tecto da Capela Sistina

E por aí fora...

Andrea Mantegna, "O Cristo Morto", um dos quadros que amava


Ouço ainda a sua voz, insistindo:

- Ver a beleza! Saber! Estudar! Sair da mediocridade... Deixar a amiba que existe em nós...
Botticelli, pormenor d' O nascimento de Vénus


A obsessão dele fora escrever. Sempre que lhe passava um escritor por perto, vinha, numa quase ânsia, e humildade ao mesmo tempo, perguntar:
- Como se faz para escrever um livro?
E continuava, explicando melhor:
- Quero dizer, por onde se começa?

E agitava-se na cadeira como era seu hábito, arrastando inconscientemente, o sapato no chão.
- Não tem medo?

E transpirava, tímido, quase envergonhado. Os olhos castanho claros fixavam-nos por detrás das lentes de míope. Mexia a mão, com o cigarro, entornava a cinza fora do cinzeiro, enquanto com a outra mão mexia no livro que tinha sempre ao lado.
- Eu não sei por onde começar... Ajude-me.

Um dia começou a escrever. Imagino como sofria, porque a sua exigência era grande, e a preocupação de clareza também.
Num caderno escolar, com a sua bic preta, ia enchendo folhas. Tirava dos bolsos pedacinhos de papel dobrados, onde escrevera ideias, rabiscara frases ou guardara uma palavra que o encantara.

E as suas “Evocações das Raízes”, a sua luta, os seus anseios, como num parto difícil, foram aparecendo todas as semanas n’ “A Rabeca”, o jornal semanário mais importante da cidade.

Até que um dia os camaradas o censuraram:
- Coisas intimistas? Ó Dr. Falcão, isso é literatura de burgueses...

O meu pai aceitou a censura, calou-se, não escreveu mais nada.
Alguns anos mais tarde, os amigos lembraram-se de uma homenagem e publicaram, com o apoio da Câmara de Portalegre, os seus escritos num livro ("Feliciano Falcão Memória Viva", edições Colibri, 2003).


Oh! Sim, era bom voltar nesse tempo!

Depois da morte do meu pai, nunca mais a casa e a quinta foram a mesma coisa.

Como se ele tivesse levado atrás o encanto daquele lugar.
Dizem que quando um justo se ausenta da cidade, deixa a cidade às escuras...

A casa ficara sem luz, perdera a vida que tinha. Parecia-me vazia e estranha.
Lá fora, as árvores altas que a minha mãe mandara plantar, quando se tinham mudado da cidade, continuavam a agitar as folhas ao sopro do vento, mas era um som triste agora, e não o tilintar alegre que dantes ouvia nos ramos dos salgueiros!

Eram lindas essas árvores! No largo, havia choupos, magnólias, um cipreste. Noutros canteiros, aos lados dos muros, eram os medronheiros, a trepadeira de glicínias, arbustos de rosas de toucar, os sabugueiros e os pinheiros mansos que enchiam o chão de pinhões...

No varandim, que dava sobre o pinhal, continuavam arrumados os vasos caiados de branco, cheios de sardinheiras ou malvas, de bagas vermelhas do azevinho, de cravos. Perto da porta da sala que dava para o jardim, o alecrim e os perfumados tufos de alfazema, com que eu costumava encher almofadinhas para guardar nos armários da roupa.

As árvores agitam os ramos tristes, melancólicas, como se o Outono se tivesse instalado, de repente, para ficar.


A vela que dera luz e calor, apagara-se, pensava eu.

A minha mãe, silenciosa, vagueava de sala em sala, talvez também ela à procura desse sopro, desse calor, dessa vida, e murmurando sozinha.

Quando voltava à minha terra, depois de ele morrer, começava a ver ao longe o recorte da Serra de São Mamede, depois as duas torres da Sé. Sabia que lá no alto estava a casa.


Mas não sentia alegria, como dantes.
Era o aperto no peito e as lágrimas que teimavam em vir aos olhos. Numa espécie de bruma, via as cegonhas empoleiradas nos seus ninhos perto da estação.


Passávamos no Cemitério que fica a caminho da Serra, eu murmurava sempre, para mim, umas palavras que lhe eram dirigidas. Sentia uma calma depois, como se tivéssemos falado os dois...

Por que foste embora?


Uma vez encontrei um pássaro morto no escritório do meu pai.
Nunca ali estava muito tempo, é verdade, pois preferia estar sentado à mesa da sala de jantar, no meio do ir e vir das pessoas.

O passarinho entrara por um vidro partido e não conseguira sair. Jazia ali, caído, com o bico de lado e os olhos fechados.
Pelo vidro quebrado, entrava o vento frio gélido do Inverno.

Lá fora, a noite estava escura e a cidade não se via.

domingo, 4 de julho de 2010

"Por favor, não matem a cotovia!", da escritora Harper Lee...



Tradução: Fernando Ferreira-Alves
Editora Difel
Colecção: Literatura Estrangeira
Ano de Edição: 2004
Ano da reedição: 2010
(2010, no ano da comemoração do 50º aniversário da 1ª edição do livro)

Uma boa notícia para os que amam a leitura e os bons livros: foi reeditado pela Difel o livro de Harper Lee, "Por favor, não matem a cotovia!"

É um dos livros mais belos que se escreveram sobre a adolescência. Aproximo-o sempre da "Harpa de Ervas", de Truman Capote (que também está esgotado há muito e seria outra boa ideia, para a Difel, ou outra editora que aceite o desafio!).

Por favor, não matem a cotovia é uma obra inesquecível, pela beleza dos sentimentos, pelas evocações fortes das figuras, pelas descrições vivas. As personagens são maravilhosas, para o bem e também para o mal...

Este livro (To Kill a Mockingbird) sai em 1960. Ganhou o Prémio Pulitzer de ficção, em 1961, e foi votado, em 1999, como o "Melhor Romance do Século", pelo Library Journal. Reedição da obra, 50 anos depois da publicação de "To Kill a Mockingbird"

Sobre ela direi poucas coisas, prefiro que a procurem e a leiam já!
Mas aqui vai esse pouco...

(Baseio-me no que, em 10 de Maio de 2009, eu própria escrevi neste blog)

A escritora Nelle Harper Lee nasceu em Monroeville, cidade do Alabama, em 28 de Abril de 1926.
Em criança foi uma "maria-rapaz", uma rebelde e uma precoce leitora.

A figura da personagem Jean Louise, heroína do livro (chamada "Scout" em casa), é autobiográfica.
Aparece também o escritor Truman Capote, seu grande amigo de infância e condiscípulo, na figura do jovem Dill.

A escritora Harper Lee, em 1962, com o realizador Alan J. Pakula


Truman Capote e Harper Lee, dois escritores que foram amigos, e que escreveram dois livros inesquecíveis sobre a passagem da infância para a adolescência.

Os mais belos livros de Capote são, sem dúvida, o primeiro, Other Voices, Other Rooms, (1948) -Outras Terras, Outras Gentes na edição, linda, hoje esgotada, da Colecção Miniatura- e o poético romance, The Grass Harp (1951), A Harpa de Ervas.

Muito ligados, sempre, ao longo da vida por essa amizade, Harper Lee vai ser, aliás, uma das personagens principais dos filmes "Capote" e "Infame", saídos recentemente, sobre a vida de Truman Capote.

No livro, a figura do pai de Scout, Atticus Finch, é inesquecível, pela coragem, honestidade, bondade, sentido da justiça, ao aceitar, como advogado, a defesa de uma causa que ele sabe antecipadamente perdida: um negro que é acusado de violar uma branca.
Porque a história desenrola-se no mundo sulista da América, nos anos tremendos da depressão. Pobreza, ignorância, preconceitos raciais...(*)
Esses acontecimentos dramáticos são vistos pelos olhos da pequena Scout e do irmão mais velho, Jem.

Capa do DVD, do filme do mesmo nome, realizado por Robert Mulligan, em 1962


Racismo, claro, diferenças sociais, e a grande pobreza de muitas famílias rurais nos anos da "depressão" leva à existência de conflitos irresolúveis. Toda esta realidade aparece bem retratada.
Atinge-nos, choca-nos, pela força da escritora que, ao mesmo tempo, vê tudo com um certo humor e muita ternura..

Conclusão: têm de ler a história de "Por favor, não matem a cotovia" ( To Kill a Mockingbird : podem clickar aqui para saber mais)!

Começado no Verão de 1959 e publicado em 1960, o livro torna-se, desde o primeiro momento, um best-seller.
Em 1962, sai o filme de Robert Mulligan, com Gregory Peck no principal papel: o de Atticus Finch.
O filme ganhará um Oscar nesse ano.


Resta-me dizer: Comprem já o livro e levem-no para férias, ou leiam-no na praia aos domingos, ou em casa, onde quiserem...
Mas leiam! Por favor...

Vale realmente a pena porque saímos desta leitura mais "ricos", mais "humanos" e nós e os nossos semelhantes precisamos disso...

NOTA: A obra que a Difel acaba de reeditar "Por favor, não matem a cotovia", de Harper Lee, foi considerada pelos principais livreiros norte-americanos como O Melhor Romance do Século XX.

A reedição deste romance surge no âmbito das comemorações do 50.º aniversário da primeira edição, em 1960.

Parabéns, pois, à Difel!

Sugerindo agora a reedição da "Harpa de Ervas"!...

(*) Dizem os críticos: "In the twentieth century, To Kill a Mockingbird is probably the most widely read book dealing with race in America, and its protagonist, Atticus Finch, the most enduring fictional image of racial heroism."

E agora, last but not least, quero saudar alguns blogs que me "alertaram" para esta reedição, por exemplo o blog "viajar pela leitura" que dá sempre a indicação dos novos livros que vão saindo...

sábado, 3 de julho de 2010

A Arte? Sim. E, ainda, o poder da palavra, da música, da pintura e o efeito borboleta...




Sim. Tudo em bloco e misturado.
Há razões para isso...

Lembro-me que gostava de começar as minhas aulas de português, todos os anos, com uma poesia de Eugénio de Andrade: As palavras...



São como cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.


Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:

barcos ou beijos,
as águas estremecem.


Desamparadas, inocentes,
leves.

Tecidas são de luz
e são a noite.

E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.



Quem as escuta? Quem

as recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


in Coração do Dia (1958)


As palavras? Para que servem as palavras? O poder das palavras?

E vinha o resto: a comunicação, os outros, o bem e o mal que a palavra pode fazer. Punhal/incêndio/cristal/límpidas/inocentes/tecidas de luz...

Nunca mais se acabava.

A expressão artística, a sensibilidade, a criação. A Beleza e a Arte.

Por que razão o quadro que olhamos nos causa uma emoção? Tudo o que o pintor pinta, os sons e as formas, a música, a poesia é apreendido por nós, e passa pelo “filtro” da sensibilidade de cada um.

Divago? Talvez...


Mas tudo isto vem a propósito da Arte. E do Concerto de que aqui vos falei, um Concerto ao Ar Livre, e gratuito, na quinta da "Fundação Trepadeira Azul" (com o apoio logístico do Teatro Municipal da Guarda.)

Tocava o Grupo Musical "Capela de Música Egitanea", dirigido pelo professor Domenico Rissi (pianista, compositor e maestro) e o guitarrista Hugo Simões, entre outros, músicas de autores clássicos, do século XVII ao século XX.

“É justo ou democrático tentar boicotar um concerto de música erudita?”, pergunta o autor do blog Trepadeira.

Diria, antes: qualquer concerto, pura e simplesmente... Uma intervenção, um discurso, uma exposição de quadros...

imagem do Concerto da Capela Musical Egitanea


Imagino as notas a subirem na noite escura e estrelada (é a minha imaginação livre...), os primeiros acordes de piano.

A emoção que nos prende, aquela pedrinha que parece atravessar-se-nos na garganta e nos deixa sem respirar...


O suspense. A ânsia. A expectativa.

E, de repente, a sensação de bem-estar que se segue a essa primeira emoção. Suspiramos de prazer. A música envolve-nos...

Pois é, divago.
Nem todos sentem o mesmo... Há quem seja insensível à arte.


Parece que, a dada altura, a meio da noite e da música, se ouviu um coro de “vuvuzelas” : o horror da palavra só é igualável ao ruído estridente e estúpido que faz.
O som da vuvuzela mata-me!

E penso no jovem Caulfield, de Salinger, que dizia - quando qualquer coisa o enervava: “That killed me!”

A mim, as vuvuzelas matam-me!

Além das tais vuvuzelas, ouvem-se apupos, insultos, etc, perante o olhar espantado dos espectadores e dos músicos...
E o espectáculo continua...


O que significa esta atitude, esta interrupção?

Pois é, tenho que concluir que significam várias coisas: embotamento dos sentidos, ignorância e pateguice, prepotência, abuso e malevolência.

Para finalizar: são um exemplo de falta de sentido democrático e de respeito pelos outros.

Fiquei chocada com o que se conta no blog do meu amigo Trepadeira e no respeitável blog "Café Mondego”!

Protesto indignada (e aqui lembro-me do fantástico e sensível -até às lágrimas-, Gustave Flaubert, e das suas queixas à grande amiga George Sand, quando assinava a carta em que se queixara: “votre troubadour, Hindigné [sic], toujours très Hindigné comme Saint Policarpe...”), protesto, pois, “Hindignada”, contra esta forma de agressão à Cultura e à Liberdade!

Resta-me dizer aos organizadores do espectáculo, aos músicos e espectadores –aos apreciadores e amadores de toda a Arte:

Os cães ladram mas a caravana passa...”

O gesto de cultura, o momento de beleza que criaram não foi vão, nem gratuito: tal como o "efeito borboleta"...


Vai-se alargar, expandir, criar novos defensores e amantes da Arte e da Liberdade.
Vai provocar reacções...

Esse “bater de asa de uma borboleta" (azul, com certeza...), deste Concerto, pode provocar um furacão no fim do mundo...

Aguardemos os resultados do “efeito borboleta”!


Convido os meus leitores e amigos a pensarem nisto e ... a manifestarem-se!

Deixo-vos todo o espaço do meu blog para dizerem o que quiserem...
Esperemos o tal "efeito borboleta"...

Nota: as fotografias das borboletas são verdadeiras: da autoria do amigo do blog "Trepadeira". Vão ver. Tem coisas lindas!