domingo, 15 de agosto de 2010

Diálogo no comboio da tarde...ou o Inferno de Dante...



primeira imagem, Dante a ler o seu poema, fresco de Michelino

mais abaixo, Dante Alighieri e o "Inferno" interpretados pelo pintor renascentista, Sandro Boticelli


Vinha de Cascais,no comboio da tarde.

Atrás de mim, sentaram-se duas senhoras e começaram imediatamente a falar.

- Tens visto o Luís?

- Não sabes que teve um AVC?!

- O coiso? O Luís Nunes! Não acredito! E ficou bem?

- Não. Ficou péssimo... Tem um braço preso, coitado. E não fala.

- Que horror! E o que anda a fazer?

- Vai à fisioterapia todos os dias.

- E quem é que o leva? Tinha-se divorciado...

- Leva-o a filha, ou o filho, não sei...

- E a Mariana? Somos todos do mesmo tempo. Não a vejo há anos...

- Oh!, essa... Caiu dum escadote, lá em casa, partiu-se toda.

- Como é que se partiu toda!?

- Toda, não, mas partiu um braço, o pulso, sei lá. Está de baixa.

- Mas ela ainda trabalhava?

- Claro. É nova..

- Nova? Com a idade dela? Hum...

- É da nossa idade. E trabalhava ainda. Pouco... Não era do tipo que se esforçasse muito.

- Mas ao menos ficou bem? Enfim, pouco atingida..

- Qual bem? Nestas coisas nunca se fica bem...

- É triste. E o irmão dela?

- O Vítor? Esse está bem.

Riu, divertida, e continuou:

- Arranjou uma brasileira que tem uma filha...

- E mãe, não tem mãe? Essas costumam trazer sempre atrás as mães...

- Isso não sei. Sei é que ele queria ir daqui para fora, até pensou no Brasil...

- E então?

- Agora a brasileira não quer ir...

- Essa é boa! Não quer?! Mas se é ele quem paga...

- Sei lá. Arranjou um trabalho qualquer.

- Ela?

- Pudera! Vive cá muito melhor...

- Tanta desgraça! Meu Deus! O que para aí vai!

E também se riu. Perguntou, a seguir:

- E o teu trabalho? Ao menos contigo corre tudo bem?

Quase pensei que estaria à espera que o trabalho da outra corresse mal...

- Vai indo.

- Ah...

A outra continuou:

- Hoje saí mais cedo... A minha “chefa” foi à médica e não estive para esperar pelas 7 horas para sair. Ficou lá a outra empregada, uma brasileira.

- As lojas estão cheias de brasileiras! E de pretas!

- É verdade, até nas lojas finas de Lisboa.

- O que queres? As de cá não gostam dos ordenados que lhes pagam...

- E têm razão! Olha eu cá, se aquela não me pagasse bem, punha-me a andar! Ainda tenho que aturar a brasileira que não faz nenhum...

- É como todas...

- Sempre de nariz no ar a ver o que se passa lá fora...


Felizmente, nem sei como, tinha chegado ao meu destino. Tinha a sensação que devem ter certos pugilistas ao serem agredidos e levados às cordas: estava baralhada da cabeça, destruída!

Pensei: “como é possível em tão pouco tempo (seis ou sete minutos) dizer tanto mal de tudo e de todos, mostrar tanta insensibilidade, revelar tanta frustração? Como devem viver mal estas duas mulheres!...”

Levantei-me, aliviada, e saí sem olhar para trás...Nem queria ver a cara delas!

Elas eram o Inferno! O de Dante, claro! O pior!

Ilustrações:

1. um fresco de Michelino (existente em Florença) representando Dante a ler o seu poema

2 e 3. ilustrações de Sandro Boticelli, século XV, para "O Inferno de Dante"

(Dante Alighieri na "Divina Comédia" dedica um capítulo ao "inferno" -que ficou famoso- sem dúvida, a parte mais famosa da sua "Divina Comédia...")

2. O "inferno de Dante", DVD "Discovery"

Para os interessados em Dante e no Inferno: mais informação sobre a Divina Comédia...

"A Divina Comédia é hoje a fonte original mais acessível para a cosmovisão medieval, que dividia o Universo em círculos concêntricos.

O poema chama-se "Comédia" não por ser engraçado mas porque termina bem (no Paraíso). Era esse o sentido original da palavra Comédia, em contraste com a Tragédia, que terminava, em princípio, mal para os personagens. Não há registro da data exata em que foi escrita, mas as opiniões mais reconhecidas asseguram que o Inferno pode ter sido composto entre 1304 e 1307-1308 e o Purgatório de 1307-1308 a 1313-1314 e finalmente, o Paraíso de1313 - 1314, data da morte de Dante." (wikipedia)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Viagem a Marrocos: Os burrinhos de Fez


Fez é uma cidade linda e estranha, cheia de contrastes.


Da riqueza dos velhos palácios medievais e das mesquitas, com enfeites em materiais preciosos, chega-se à pobreza, ao abandono de certas vielas da cidade velha, até à "mellah", , o antigo bairro judeu ou à zona dos curtidores de peles, as "Tanneries" (curtumes), onde o couro é preparado, com tanino.

Esta é o bairro de Bab el-Ftouh, e é característico aqui o cheiro (pestilento) das tintas, dos ingredientes usados na própria "curtição".



Mas depressa se segue para o Bairro Andaluz, com a sua mesquita andaluza cheia de belos azulejos.

A chegada a Fez, vindos de Rabat, faz-se por uma auto-estrada das mais belas que conheço, pelo enquadramento.
As paisagens que atravessa são de grande variedade e beleza. Suaves colinas verdes, de contornos arredondados e doces, campos e campos a perder de vista, cobertos de malmequeres grandes, cor de laranja, coisa que não me lembro de ver em nenhum outro lugar.

A luz forte e crua do sol bem no alto faz brilhar tudo aqui em baixo. As pedras das montanhas surgem, de repente, como cristais, na sua brancura e chocam, ferem o olhar desprevenido. Mais adiante, do nada, aparecem florestas de árvores escuras, com as copas cerradas e troncos bem alinhados.

E a auto-estrada segue, serpenteando, descendo até Fez...

Fez, ainda hoje uma terra perdida no tempo entre a idade medieval e a idade moderna, foi a mais antiga cidade imperial (com Meknes) de Marrocos, foi a capital até 1912, data em que a França –que colonizou Marrocos- a mudou para Rabat.
É o centro religioso e espiritual mais importante do país, e nela está situada a universidade mais antiga do mundo, a Universidade Al-Qarawiyyn (ou El-Karaouine).
Perto dela, fica a Mesquita do mesmo nome.


A cidade velha, Fez El-Bali, a medieval, a das mais de 100 mesquitas cujos muezzin, ao cair da tarde, entoam no alto dos minaretes, como que ao desafio, a oração do fim do dia.
Quadro do pintor Jea-Léon Gérôme, "o muzzin"

Uma melopeia monótona e impressionante, sons que sobem e descem, vozes que se vão perdendo no ar, se cruzam como ecos, se respondem, e, de súbito, desaparecem.

Atrás, ficam os ruídos da Medina e das gentes que se apressam para o jantar.

A medina de Fez foi sempre um lugar claustrofóbico, para mim...



Quando entrava por uma das portas da Medina, normalmente era a Bab Bou Jeloud, nunca sabia quando ia poder sair!
Sabia, sim, que tinha de percorrer, lá dentro, um labirinto de ruas desconhecidas, ruelas indecifráveis nos mapas que levava, e que só sairia no momento em que o guia nos indicasse a saída...


Porque toda a medina é constiuída por essas ruelas a subir e a descer, tão inclinadas e estreitas que o único transporte possível para tudo o que exista, cargas e descargas, doentes, mudanças, abastecimento... é o indispensável -e amoroso- burro!
Muitas vezes pensei, nos momentos de cansaço, quando nunca mais via o fim do caminho, pois é verdade, muitas vezes pensei que quem me ia salvar, seria um burrinho daqueles!


Lá iam eles levar para dentro da Medina tudo o que faz falta, desde bilhas de gás, caixotes de madeira, sacas de carvão, detergentes, roupas. E até gente...


Às vezes vem a mula, senhoril e enfeitada, mais respeitada pelo dono...
Mas o mais frequente é verem-se os burrinhos, concentrados nos seus afazeres, com a doçura e a paciência de sempre, obrigados a acelerar o trote pelos donos, à força de pau.
Homens que não se coíbem de bater no lombo dos animais, nas pernas magras, ou, na melhor das hipóteses, na carga que levam...

Vão gritando: "burro! burro!", para afastar os passantes que se vêem obrigados a quase trepar para cima dos providenciais degraus das casas, ou encostarem-se nos portais, para os deixar passar.

Havia burros de
todos os feitios e tamanhos, jovens burros de olhos grandes e pestanudos, burros velhos de pelo cinzento e velho, de flor na orelha, com as pernas feridas, alguns a comer farripas de palha, numa paragem inesperada e benfazeja...



Enquanto vivi em Marrocos, pensava fazer um livro de fotografias só com os burros! Tenho pena de ter desistido da ideia, mas ainda guardo algumas, que aqui vos deixo, como lembrança.

Mas Fez é também a cidade dos principescos palácios : o maravilhoso Palácio Dar el- Makhzen, saído dos tempos d' As Mil e Uma Noites, hoje muitos deles adaptados a restaurantes de luxo.
Das mesquitas em número infindável e das madrasas (medrassa, ou medersa, era a escola onde se estudava o Corão), umas e outras igualmente ricas e belas: uma é a Madrasa El- Attarine, do século XIV, com o seu interior rico em mosaicos e azulejos, formando arabescos ou desenhando traços caligráficos (a religião islâmica proíbe qualquer representação humana, ou mesmo figuração animal), em cores de suaves matizes.
Recordo a Mesquita el-Karaouine, e também a Madrasa Cherratin, construída pelo Moulay-ar-Rachid, em 1670.

No interior da medina, aguarda-nos, porém, a surpresa de espaços abertos, amplas praças sombreadas de árvores frondosas, onde se bebe o refrescante chá verde com um grande molho de hortelã, e se comem bolinhos de amêndoa, passinhas de uva e tâmaras.

Fez é uma cidade inesquecível...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Histórias de Mulheres: hoje, as mulheres afegãs


Ontem vi uma notícia terrível na Arte, sobre uma jovem afegã a quem o marido, como represália por ter fugido de casa, lhe cortou o nariz e as orelhas...

Acordou gelada, cheia de sangue, sem pereceber por que lhe entrava o ar frio, tão frio, por dentro da cara...

Li a entrevista, que vem no "El País" de hoje, sobre o assunto (transcrita no blog "sobreorisco").

Confesso que não tive coragem de "copiar" a cara da jovem, que "fazia" a capa do Times desta semana.

Humilhante! Chocante! Assustador!

Procurando num site ali referido, encontrei mais "notícias" sobre assuntos semelhantes, à escolha, tantos são...


Todos referiam os abusos sobre as mulheres afgãs; falavam do receio que elas têm de que, com a partida dos americanos, "tudo volte para trás".
Isto é: que os talibans voltem para impor de novo a "sua lei", e a mulher se veja "fechada" na burka, reclusa em vida, reduzida a ser apenas uma coisa que "procria", educa os filhos (e as filhas?), viver o quotidiano vulgar, sem nunca chegar a ser um ser humano completo.

Escolhi Sakina, para falar...


Foi vendida aos 14 anos em casamento a um homem de 45, mercador de tapetes, que tinha uma loja e um tear.

"Não sabia nada sobre casamento, diz ela. Nada sobre a relação entre homens e mulheres"...
Ele usou-a como como criada (não-paga, o que é "normal" em muitos sítios do mundo ainda hoje...), e, batia-lhe com as tábuas do tear, quando ela não trabalhava tão depressa como ele queria.

Um dia, Sakina, assustada, entornou as taças de chá, e a família dele cortou-lhe o cabelo rente.

Fugiu de casa. Escondeu-se.

Hoje, com o auxílio de conhecidos, tenta que ele lhe conceda o divórcio. O marido nega, terminantemente, dizendo que pagou bom dinheiro para a comprar...

Comparada com a outra história, até damos um suspiro de alívio, não é?
Não impede que seja, do mesmo modo, uma mulher considerada uma "coisa".
Comprável, usada, vendível...

domingo, 8 de agosto de 2010

Viagem de Moscovo a São Petersburgo...




à esquerda, vista de Moscovo, com a minha amiga Masha e a filha, Sonia...
A ponte Anishkov sobre o rio Fontanka, e, ao fundo, a Igreja do Sangue Derramado.

De Moscovo a São Petersburgo, através das florestas, da "taïga", das paisagens inesquecíveis das florestas de coníferas na neve, do verde e do céu sem fim...

Viajámos de Moscovo a São Petersburgo no wagon-lit de um comboio rápido.

Não era o “Expresso do Oriente”, não, esse não foi possível. Fica para imaginar através dos filmes da Agatha Christie...

A viagem dura toda a noite na inesquecível Rússia dos romances. O pequeno compartimento decorado num modo kitsch: desde os sofás forrados com veludo grosso de cores garridas, até aos mínimos enfeites. As cortinas de renda, feita à mão, a tapar os vidros das janelas, que eu afastava para ver as estações mal iluminadas na noite, a lanterna que o guarda agitava...

Vem-me à memória Miguel Strogoff, o Correio do Czar, a cavalgada para Irkutsk pelas estepes desérticas, a prisão, a tragédia, na imaginação de Jules Verne que tanto ajudou a enriquecer a minha...

O comboio corre na noite, apita longe, não dá tempo para eu ver nada. A escuridão é completa durante quilómetros e quilómetros, atravessando florestas atrás de florestas! Bosques cerrados, árvores de todos os tipos, parques, por vezes uma datcha com uma luzinha fraca...

Pensar que hoje grande parte dessas florestas estão a arder, pela Rússia fora, que o fogo está quase ás portas de Moscovo faz-me mal à alma!

As paragens duram pouco tempo, ouvem-se na noite vozes numa língua estranha e doce.

E, logo, o apito a indicar que se parte outra vez.

E, de repente, estamos na estação: eis São Petersburgo à minha espera!

De repente entrei numa atmosfera de fantástico: era o sonho a ser vivido!

Como era possível estar ali a andar pelas ruas onde Dostoievski viveu, a passear ao pé do rio Fontanka, onde se debruçara o herói das Noites Brancas.

O Museu Hermitage, os Parques, a Praça do Palácio... Como vira nos livros, nos postais...

Sim, a cidade de Púshkin, Dostoievski, Anna Achmatova, Chagall, Rachmaninof, Esenine...


Sim, a Petrograd, saída dos pântanos pela vontade do Czar Pedro O Grande, a cidade das Noites Brancas e dos Humilhados e Ofendidos, de Dostoievski, dos poemas de Púshkin, o poeta mais amado pelos russos, de Gogol e dos contos O Nariz e Avenida Newski.

A “Nevski Prospect”, de que tanto me falara o meu pai que uma vez fora até à Rússia, num Congresso de Medicina, no tempo em que ainda se chamava Leningrad.

A maravilhosa criação de Pedro o Grande, o Czar mais culto da Rússia (deixemos a Catarina a Grande, que, por acaso, até era alemã...).


Pedro o Grande, Piotr Alexyevitch Romanov, nasce em 1672, em Moscovo.

Figura muito interessante, pela abertura da mente, pelo espírito de viajante, pela sede de saber.

Estudioso que quis conhecer o mundo e deu a volta à Europa, viu os estaleiros dos países nórdicos e de Amesterdão -que muito amou- esteve meses nos estaleiros de Deptford a aprender tudo sobre os alicerces e construção naval. Que tem a ousadia de construir uma cidade sobre canais e pântanos pútridos.

Mais tarde, tendo ocupado a Suécia, mais de 40.000 prisioneiros de guerra vieram trabalhar na construção da cidade lagunar.

Em 1703, Pedro funda a nova capital do Império, Petrograd. É o primeiro Imperador da Rússia.

Cidade deslumbrante, criada sobre as águas, é uma das Venezas do Norte...

E, de repente, eu estava ali em São Petersburgo!

Era fantástico andar a passear pelas pontes sobre o rio Fontanka, onde se debruçara o herói das Noites Brancas, noites seguidas; andar um pouco mais, e ver o rio Neva; ir até às Ilhas ver a Fortaleza de Pedro e Paulo, entrar em igrejas de sonho, passear nos Parques infindáveis, que costeiam o Neva, junto do Hermitage.

Ir espreitar o Teatro Marinski onde foram criados os célebres "Ballets Russes" e onde dançaram os bailarinos imortais: Nijinski, Gallina Ulanova etc.

Ver a Nevsky Prospect: que é a avenida mais comprida da Rússia (perto de quatro quilómetros e meio) e tão bela quanto se possa imaginar. Com os seus prédios que vão do barroco ao neo-clássico, atravessando canais e o rio Fontanka, é uma recta que parece não ter fim..

Começa na ponte Dvortsory, que ficava perto do nosso hotel, o simpático Hotel d’Angleterre, no Largo da Catedral de Santo Isaac.

Ali por perto está o monumento O Homem de Bronze –em honra de Pedro o Grande. Estátua equestre de grande elegância (em 1782, pelo escultor Falconet, um francês que trabalha na corte de Catarina a Grande) representa o czar num cavalo que se equilibra nas patas traseiras, enquanto as dianteiras, no ar, tentam pisar a serpente da traição.

Tem a seguinte inscrição: ”Para Pedro, o primeiro, de Catarina, a segunda”

A “Perspectiva” parte, pois, da margem do rio Neva, no Almirantado, paralela durante um tempo à Bolshaïa Morskaya, rua cheia de encanto, segue em frente, sempre a direito, e vai até ao fundo terminando no Mosteiro Alexandre Nevski -que lhe deu o nome!

Apanhar o vaporetto no embarcadouro perto da Catedral de Kazan, com o seu colunato arqueado que quer imitar S. Pietro em Roma, e viajar por uma série de canais até ao Moïka é um bem de Deus...

Dar a volta à cidade pelos rios e canais, passar debaixo das pontes históricas, ver aparecer de repente a Igreja do Sangue Derramado (o sangue do Czar Alexandre II, assassinado em 1881, sobre o qual o filho, Alexandre III, mandou construir a Igreja), com as suas cúpulas coloridas que me lembram as da Basílica da Praça Vermelha.

Ser obrigada a inclinar de repente -porque a água dos canais subiu de tal modo que, debaixo do arco de certas pontes, não se pode quase passar...

Um nunca acabar de emoções.

Viver na mesma cidade onde viveu Dostoievski, Gogol, Biély, Pushkin, Achmatova impressiona... Esenine suicidou-se aqui...

Depois, vêm os museus, os pintores russos já vistos em Moscovo, Repin, Vrubel, e outros: Chagall, Matisse, hoje redescobertos. Ou músicos como Anton Rubinstein, Shostakovitch, Rachmaninov, Stravinski que aqui nasceram ou apenas viveram.

Nunca acabaria de ver e de falar de São Petersburgo...

Dias depois, o regresso a Moscovo, agora no comboio de dia, e lá voltam as florestas de abetos, pinheiros, olmos, um desfilar de campos e de verde sem fim, que na viagem de noite dificilmente víramos...

À chegada à estação de Moscovo somos recebidos ao som da canção “Moskva”, escrito para comemorar os 60 anos fim da guerra, e cantada por um dos cantores em voga.

Não resisti e comprei o CD!

É este hino que é tocado a cada entrada ou saída dos expressos que partem ou chegam a Moscovo. Pelo inesperado, dá-nos vontade de rir!

A Rússia Imperial, sempre...

Passe o tempo que passar, a Rússia não se liberta dos seus Czares...

Gostei que me acompanhassem na viagem...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A Festa Grande, Aïd El-Kebir, em casa do Mustafá...


A Festa do Sacrifício, em casa do Mustafá

Um dia, o Mustafá, o nosso jardineiro, convidou-nos para passar uma festa com a família. Era o Aïd El-Kebir, a festa do Sacrifício (que seria o de Isaac por Abraão), a Grande Festa, como lhe chamam para a distinguir do final do jejum do Ramadão, o Aïd Es-seguir, a Festa Pequena.

Vivíamos em Marrocos há cerca de dois anos e habituara-me à hospitalidade dos marroquinos, à delicadeza com que recebiam, ao respeito pelos estrangeiros ou pelos mais velhos.

O que não implicava, de modo nenhum, uma forma de aceitação do outro.

Continuava a sentir, passado esse tempo, uma barreira quando tentava aproximar-me dos hábitos, sentimentos mais profundos, ou religião.

Havia como que uma zona de sombra, uma distância, um ligeiro afastamento, quase físico, uma imperceptível inclinação para trás, do busto, os olhos que se semicerravam ou se fixavam, ausentes, na distância, e deixavam de nos olhar.

Aceitámos o convite. Ele viera na bicicleta de manhã, para nos acompanhar.

Mustafá era casado com a Naïma, uma das mulheres mais belas que vi em Marrocos. De olhos escuros, sombreados pelo pó negro do khol, feições delicadas, sorriso aberto, a pele cor de âmbar, cabelos lisos castanhos, era de facto um rosto e uma figura de mulher muito agradável.

A casa ficava pouco afastada de Rabat, numa das estradas que iam para Salé.

Lembro os caminhos empoeirados, na manhã quente, de não sei que mês, até porque as festas islâmicas são móveis, devido ao calendário lunar, e as datas nunca calham nos mesmos dias no nosso calendário solar e, com o andar do tempo, mudam até os meses. No entanto, é sempre o mesmo dia pelo calendário lunar (1)...

À saída da cidade -e nos arredores- sentia-se o cheiro a pêlo chamuscado dos carneiros. Viam-se as cabeças negras dos animais, assadas nas brasas e bem tostadas, que se vendiam por todos os cantos, em pequenas vendas improvisadas. Ao lado, azeitonas de todas as cores, tâmaras, frutos secos.

Era esta a comida própria da festividade, o dia do sacrifício. O borrego era o animal sacrificado.

Passámos primeiro em casa dos irmãos de Mustafá, que viviam numas casas ao pé da estrada, com jardins que recordo cheios de flores, cobertos com trepadeiras, que davam uma bela sombra. A cunhada era uma mulher forte e simpática com grande juventude nos olhos escuros.

Fomos recebidos com doces de amêndoa, chamados "cornos de gazela" -que muitas vezes íamos comer, em Rabat, no "Café Maure", perto da Porta dos Oudaïas-, acompanhados com o perfumado chá de hortelã. Parámos um pouco, numa curta visita, e seguimos para casa do Mustafá, pouco distante.

Atrás do carro, iam agora os sobrinhos todos, em grande gritaria. Éramos os estrangeiros, ali, vestidos de modo diverso, com cabelos diferentes, uma diversão para eles que viviam no campo.

A casa ficava à beira do caminho e Naïma recebeu-nos, sorridente, como era seu costume. Vestia uma djelaba nova, de tecido acetinado cor de oiro, e um avental branco bordado com flores, por cima, os cabelos apanhados com uns ganchos.

Ia por vezes a minha casa ensinar a minha empregada Hannan a cozinhar. A Hannan só sabia cozer pão, óptimos pãezinhos redondos e espalmados com as mãos, que eu adorava comer com manteiga, logo de manhã.

A história da Hannan hei-de contá-la de outra vez.

Naïma levou-nos para a sala, onde um enorme tabuleiro sobre a mesa baixa, estava cheio de bolos, tâmaras e copos de vidro de várias cores brilhantes, onde ela veio depois deitar o chá de hortelã a ferver.

Chá verde com muita hortelã é a bebida mais refrescante que se possa imaginar!

Mas a festa trazia necessariamente o sacrifício do carneiro...

Pouco depois, fomos conduzidos ao pátio interior que todas as casas marroquinas habitualmente têm. E lá trazem o animal que berra e berra.

Quando o Mustafá segura a faca comprida e fina, recuo, não consigo olhar. Sei que lhe vai cortar a carótida e o vai sangrar. Vejo na minha frente o olhar de Naïma, o rosto ligeiramente virado de lado, talvez para não ver, mas para ela esta cena é um hábito de muitos anos, para mim é uma novidade chocante.

Ouço o sangue esguichar, vejo o sangue correr no chão caiado de branco e as manchas serem logo lavadas com o tubo da mangueira e dirigidas para uns orifícios, num dos cantos do pátio.

O Mustafá e os sobrinhos fazem uns furos na pele do borrego, junto das patas, e começam a soprar. A pele encaracolada do borrego começa a soltar-se e o corpo morto transforma-se num grande balão inchado.

Fui-me sentar na sala, enjoada.

A estranheza do espectáculo, que não estava habituada a ver, ou não queria ver, incomodou-me. Voltavam-me à memória as vezes em que, criança, fugia da cozinha, para não ver a Florinda matar as galinhas! O cacarejar delas era sempre o mesmo choque, sentia o coração bater, parecia rebentar, e ia esconder-me, no quarto.

Aqui, tinha que ouvir, mas afastei-me o mais que pude, sem ofender os anfitriões.

Bebia o chá em goles grandes e respirava fundo. Abstraí-me a ver as almofadas bordadas dos sofás baixos, os banquinhos onde quase ficávamos ajoelhados, as paredes enfeitadas com quadros bordados também.

Ao pé de mim , de olhar curioso, veio sentar-se a filha pequenina, de cabelos encaracolados e olhos de azeitona, no seu vestidinho cor de rosa, a carinha besuntada do açúcar dos bolos. Sorri-lhe, deu-me a mão, e ficámos à espera que os outros viessem.

A festa continuou, nós éramos convidados especiais, tínhamos que provar tudo, comer um pouco de tudo...

Sabia que se começava pela cabeça -a cabeça é a parte mais importante, e o que está dentro da cabeça constitui um “petisco”.

Lembro-me de estar noutra festa em Rabat, muitos anos antes, e de me terem ensinado a comer, com as pontas dos dedos, bocadinhos de miolos, o que, aliás, era óptimo.

Em casa do Mustafá comi outra vez esses petiscos e gostei. Só depois de nós comermos, eles comiam. Íamos falando, bebendo chá e comendo bolos, enquanto a Naïma continuava a cozinhar no fogãozinho ao lado.

Durou horas e horas e confesso que já não podia aguentar o cheiro das especiarias e da comida.

Mas faltava ainda a tajine de borrego com amêndoas e ameixas secas! Deliciosa, mas num momento em que eu já não conseguia engolir nada...

Penso que o que me ajudou a sobreviver ...foi o chá!

Quando voltei para casa, fui directamente para a cama.

Hoje recordo com saudades essa festa.

A Naïma voltou a nossa casa. A última vez que me lembro de a ver, estava ela sentada na minha cozinha, a chorar.

Tinham já dois filhos e percebera que estava grávida outra vez. Viera desabafar. Não queria esse filho, dizia, não podia tê-lo, não tinham dinheiro. Sabe-se lá a dificuldade que já tinham para criar aqueles dois!

Chorava, desesperava-se, a limpar as lágrimas ao avental.

Dizia-me:

- Mas porquê eu, madame? Por que me acontece isto a mim?

Ela não compreendia e só me perguntava:

- E agora, madame? O que é que eu vou fazer?...

Eu não podia fazer nada.

Depois dessa tarde, o Mustafá pareceu-me descontente. Nunca mais deixou a Naïma voltar a nossa casa. Desculpava-se que tinha os filhos, que tinha muito trabalho em casa, que não podia vir. Pensava que de um modo ou outro eu me intrometera na sua vida.

E nunca mais a vi...

A bela Naïma, o seu sorriso doce, o vestido de cetim dourado, ficou na bruma, sei que nunca mais a vou ver.

(1) O calendário islâmico é um calendário lunar, composto por 12 meses de 29 ou 30 dias, num total de 354 dias. A contagem do tempo começa com a Hégira, quer dizer, a fuga de Maomé de Meca para Medina, em 16 de Julho de 622. O mês começa quando o crescente lunar surge pela primeira vez após o pôr do sol. Tem cerca de 11 dias de diferença (a menos) em relação ao calendário solar.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

I'll Be Seeing You - Johnny Mathis

Para descansar do "In cold blood" de que falei aqui... escolho esta belíssima canção que Billie Holiday também cantou. Agora na voz única de Johnny Mathis.
Era esta a canção que o "desesperado" Perry Smith de "A Sangue Frio" cantava, acompanhado pela sua guitarra Gibson. Esta balada "I'll be seeing you": a música era a mesma mas a letra era a que inventara:

"Numa manhã de Abril, bandos de papagaios
Voam alto vermelhos e verdes
Verdes e cor de tangerina
Vejo-os a voar alto e ouço-os cantar..."

Dick Hickcock interrompia-o e dizia:

"És mesmo parvo! Os papagaios não cantam! Falam, mas cantar não cantam..."

Pouco importa agora o que eles diziam, a canção vale a pena ser ouvida!!!