domingo, 12 de setembro de 2010

A canadiana Diana Krall - "Fly me to the moon"- e outros canadianos...


Nanaimo, British Columbia


Diana Krall nasce em 16 de Novembro de 1964, em Nanaimo, no Canada.

Depois de falar de Alice Munro, lembrei outros artistas e escritores canadianos famosos: a escritora Margaret Atwood (The blind assassin, 2000, Prémio Pulitzer)


ou a escritora Diana Athill (na foto abaixo), cujo último livro saiu há pouco ...

Ou, ainda, o inesquecível Leonard Cohen!


http://www.youtube.com/watch?v=tKjSr1zOTq0
...


Por hoje, fica a voz maravilhosa de Diana Krall e um pouco da sua vida...

Krall começou a estudar piano aos 4 anos de idade. Pertencia a uma família de músicos.

Ainda no colégio começou a tocar num pequeno grupo de jazz.

Aos 15 anos, começou a tocar regularmente em vários restaurantes da sua cidade natal.

O seu estilo chamou a atenção do baixista Ray Brown, que a pôs em contato com influentes professores e produtores de música.


Vancouver

Aos 17 anos, ganhou uma bolsa de estudos no Vancouver Jazz Festival, para estudar no conceituado Berklee College of Music, em Boston.

Ouçam-na...

Fly me to the moon




sábado, 11 de setembro de 2010

Falar hoje de Salvador Allende...

Um amigo lembrou hoje Salvador Allende no seu blog, e disse:

"Amigo, lembra hoje Salvador Allende, mesmo que só dentro de ti digas o nome dele..."

Aqui estou, amigo Salvador Allende, a lembrar o teu
nome, a tua dignidade na vida, a tua luta, o teu sacrifício!

"Que viva Chile!", dizias. E tudo parecia possível: "el pueblo unido", os cantos de Violeta Parra ou Vitor Jara...
As lutas tinham sentido, acreditávamos que as coisas podiam mudar...
Depois, veio o 11 de Setembro de 73 e tudo passou a ser mais difícil.
Mas o exemplo ficou, a mensagem foi ouvida.
Não a vamos esquecer agora.
Não me quero "render" (ele também não se rendeu, preferiu morrer): as palavras têm sempre sentido!

É sempre útil a palavra!
Dizer não às vezes tem sentido... E dizer sim, também!
Sim, tudo é ainda possível!
Sim. E que viva sempre na memória dos justos o nome de Allende!
E que não se esqueçam as suas últimas palavras:

"Se abrirán las grandes alamedas!"

Sim, que viva Allende, hoje e sempre!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A Poesia contra a barbárie contemporânea...

A actriz, Yun Jun-Lee , em duas imagens do filme "Poesia", 2010

POESIA E SENSIBILIDADE...

Impressionou-me a história do filme que não vi e espero ainda ver: “Poesia”, do realizador sul-coreano Lee Chang-dong.

Ganhou no último Festival de Cannes o Prémio do “Melhor Cenário”.

A actriz Yun Jung-Lee, em Cannes

Uma velha senhora (a ctriz Yun Jung-Lee) vive com um neto adolescente que a mãe abandonou.
Isolados os dois.
Ele fechado no seu mutismo, ela alheando-se cada dia um pouco mais, numa forma de senilidade precoce.

Não falam quase nunca.
E a vida vai passando, simples, numa melancólica apatia, cheia dessas complicações banais que as relações difíceis entre as pessoas trazem.

Um dia apercebe-se de que as palavras não lhe chegam da mesma maneira, quando necessita delas.

Fogem-lhe, procura-as na cabeça e não as encontra. Preocupa-se.

Mas isto sabe-se só depois.

As primeiras cenas do filme mostram o cadáver de uma miúda flutuando nas águas de uma ribeira. É o corpo de uma adolescente que se suicidara, depois de vítima de um estupro colectivo, pelos colegas, grupo do qual fazia parte o neto da protagonista.

Aparentemente, a personagem escolhida pelo realizador como figura central do filme nada tem que ver com esta cena.
No entanto, no decorrer da acção do filme, vai ter.

A perda da memória, lenta e gradual, leva a velha senhora a inscrever-se num clube de poesia: talvez o único modo de dar algum sentido à vida, talvez o modo de reencontrar as palavras, criando...
Pergunta constantemente nas aulas, aos colegas e professores:

- “Como se faz uma poesia? Como se tem a inspiração?”

Não há respostas: é dentro de si que a tem de encontrar...

O autor do artigo que leio (“Le Monde", 25 de Agosto de 2010) é Jean-François Roger e o artigo intitula-se “A dignidade da velha senhora contra todos”.

Nele, afirma o articulista:

“Os filmes de Chang-dong são muitas vezes histórias cruéis que tratam de forma insidiosa a barbárie contemporânea e banal. Uma doce implacabilidade.”


Imagem de Secret Sunshine, 2007

Já no filme anterior, “Secret Sunshine” (2007) –nota o articulista- escolhera um tema doloroso e a mesma tentativa de “compreender” o inexplicável, porque demasiado cruel.

"Secret Sunshine"

Pergunta:

“Por que não exorcizar o mal que a atingiu, tentando substituir a realidade cuja enunciação lhe escapa pela expressão poética, simbólica, cheia de imagens?”

E a história vai-se desenrolando.

Na pequena aldeia, as famílias dos acusados e a imprensa preferem abafar o caso, que traria vergonha para a comunidade, e convencem a velha senhora a servir de intermediária, indo propôr uma soma “reparatória” à mãe da miúda que se suicidara, para ela “esquecer”...

Há um encontro entre as duas, no meio do campo, num pomar.
A mãe da afogada era uma camponesa modesta e jovem, uma pessoa ingénua e simples.

E esse encontro é um momento intenso, porque entre as duas surge de repente uma empatia, uma compreensão total.
Sozinhas as duas e rodeadas da natureza, bela e indiferente, conversam.

Imagino eu.

Esquecendo a sua cínica missão, Miia – avelha senhora- vai falar-lhe apenas das coisas da vida, das macieiras que floriram, da futura maturação das maçãs...


Como se a amnésia “aparente” tivesse aqui uma “função moral”.

A personagem parece-me ser no fundo a incarnação de uma exigência moral que hoje é difícil encontrar.

Quase no final, lembra que essa "moral" elevada "está próxima da moral dos oprimidos a que George Orwell chama "common decency" e que hoje nos parece inútil face à indiferença e à insensibilidade da época actual."

A mim recorda-me a frase de Tchékhov, outro irredutível da moral, da ética e da justiça:

"Soyez décents!"

Quer ele dizer, acho eu:

"Tenham vergonha, sejam decentes! Assumam o que está errado nesta sociedade, não permitam que a indiferença e a insensibilidade vençam!"

Faço minhas as suas palavras!

Lee Cheng-dong é entrevistado , no mesmo jornal.

Conta Cheng-dong que o assunto do filme lhe surgira anos antes, numa terra do interior, enquanto filmava o filme anterior: um acontecimento idêntico.
Algo que o chocara profundamente foi perceber como a comunidade estava toda de acordo para abafar um caso idêntico: polícia, imprensa, famílias...

-“Trata-se pois de um filme com um fim moral”?, pergunta o entrevistador.

-“ A minha ideia é mostrar como o sofrimento dos outros pode de repente “atingir” as nossas existências banais. Na televisão, os dramas do quotidiano e da actualidade são olhados por todos como coisas banais, normais.”

E concluímos: até que um dia um acontecimento “presenciado” acorda as nossas consciências.

Durante o filme inteiro, continua Cheng-dong, a velha senhora não consegue escrever o poema, não encontra as palavras. Sente-se bloqueada. E um dia, durante aquele encontr,o ela assume de repente o sofrimento da outra. É como se na capacidade de sofrer o sofrimento daquela mãe ela reencontrasse as palavras justas, ou antes, o gesto certo.”

Um acto de criação, finalmente a poesia...

http://www.youtube.com/watch?v=3adZ4JX_5nE


Sobre o realizador Lee Cheng-dong:

Lee Cheng-dong foi Ministro da Cultura na Coreia do Sul, de 2003 a 2004.

Diz, ainda, nessa entrevista acima citada:

" A situação do cinema inquieta-me. Não só na Coreia do Sul como à escala mundial. Exigem-se filmes que se "vendam", que sejam comerciais e rendam, em detrimento da criação verdadeira."

E confessa que uma das razões por que se demitiu foi verificar que lhe era impossível "criar um ambiente propício à criação" e que as quotas do cinema coreano seriam infinitamente baixas frente às do cinema americano...


Sobre os seus filmes:

"There’s no question that ‘Green Fish’ and ‘Peppermint Candy’ draw on the political and economic problems of Korea. But they weren’t my main focus. My main interest has always been human beings. I believe film is the best medium to show something about human beings.”

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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Viagens: Essaouira, as gaivotas e os observadores de horizonte...




Descendo a costa, recortada e cheia de precipícios, seguindo de El-Jadida para Safi encontra-se lá bem em baixo, Essaouira, ou Mogadoro, ou a terra que é o “lugar de todos os ventos”, aparentemente o sentido que a palavra tem em árabe.

Há quem refira também o significado: "a bem defendida" (amogdul), que viria do berbere.

Qualquer das hipóteses tem razão de ser... Basta lá ir e observar.

De facto os ventos giram num corropio de ruído nos ouvidos, de areias levantadas, cabelos a voar...

E a cidade fica rodeada de muralhas...


Do outro lado, está o porto e a bela Porta da Marina.


Uma cidade de mar, branca e linda, recortada num céu azul, é a recordação que tenho. Onde ia sempre com enorme prazer.

O torreão, as ruínas da antiga fortaleza portuguesa -e os escolhos logo ali- estão perto de um passeio que um parapeito alto acompanha.

Ali, passam nos céus as gaivotas e baixam em voos picados, circulares, em busca do peixe. E as pessoas devagar passam ao lado do mar e do velho torreão abandonado.
Terra de mar, de pescadores, de barcos, de porto, de azul, de peixe e de gaivotas. Gaivotas enormes que parecem sair de uma estampa.Pairam nos ares e descem pousando as patinhas no parapeito, olhando-nos de igual para igual, sem medo, quase com prepotência, como se fossem donas do lugar.

E ficam, no lusco-fusco, a olhar longamente para o mar.
Como aqueles que vinham ao entardecer e se encostavam ao muro, apoiados no parapeito. Todos os fins de tarde, os “observadores de horizonte”, como gostava de lhes chamar, paravam a olhar para longe.

Ficavam a ver cair a noite, de olhos fixos no mar ao longe e nos céus de fogo onde o sol se punha.

Os marroquinos são contemplativos. Vi a mesma ânsia de olhar para os longes para lá do Mar Mediterrâneo, em Tânger. Ou, igualmente, em Rabat, frente aos jardins que abrem as suas portas sobre as ruínas romanas, onde passam as cegonhas devagar.

Terra de pescadores, que vêm de longe, nos barcos, aproam no porto, e descarregam caixotes e caixotes de peixe. A lota é ali mesmo. No porto há os estaleiros onde barcos grandes formigam de gente à roda, de cães, de cordames, cheiro a tintas e a pez.
E a maresia.

Entre os barcos a calafetar, e os barquinhos azuis e brancos, de linhas elegantes, com barras vermelhas ou laranja atravessadas no casco, que chegaram do mar, há pouco espaço.

A agitação do porto comunica-se-nos, os olhos ficam presos nas cores, na madeira brilhante, no peixe seco ou frito que ali é vendido sobre bocadinhos de pão.

Pouco depois, já encontramos o peixe nas bancadas no tal passeio junto ao mar e, ao almoço, abrem tendas que logo apresentam espetadas de peixes variados grelhados.

Essaouira é também aquela ponta da cidade que se recorta sobre as águas, empoleirada nos rochedos, com vistas impossíveis de encontrar noutros lugares.

Ou a cidade dentro de portas, e cercada de muralhas brancas.

A entrada pelas “três portas” era extraordinária. Ali perto, na rua Lattarine, 34, havia um restaurante-pizzeria, a "Pizzeria Les Trois Portes", que tinha a particularidade de ser gerido por três jovens mulheres: Mouna, Amal e Assia, todas primas.

Espaço pequeno mas confortável e um atendimento igual. As três mulheres eram muito simpáticas, conversadoras, risonhas.

Como tantas jovens marroquinas que conheci, queriam partir, sonhavam com a Europa. Tinham estudado, não encontravam saída para as vidas.

Dizia Aïssa, a mais velha: "Eu vou para Londres, tenho lá um namorado. Caso com ele e pronto!"

Tempos depois quando voltámos, a Aïssa já não vivia ali. Casara com o tal namorado e estava em Londres. A Mouna entretinha-se a jogar às cartas dentro da gaveta do armário onde guardavam os talheres. A Amal sorria.

Dentro da cidade, havia a kasbah, as lojas de madeiras maravilhosamente trabalhadas, como a madeira de tuya e a raiz de tuya, mais fina e preciosa. As caixas de segredo, com várias portas, cofres para guardar as jóias, com uma fechadura minúscula e a sua chave trabalhada.

Em redor de Essaouira, plantações de tuya coloram de verde escuro os campos.

O comércio é muito variado, a comida é boa e os sorrisos vêm facilmente aos lábios.

Havia uma Galeria de Arte, a Galerie Marea Arte, numa rua grande, a Youssef El Fassi, onde dois amigos italianos recebiam os visitantes com uma conversa interessante e alguns aperitivos.Na praça ao lado, ficava o Ryad Desdémone, construção mista, entre o colonial francês e o estilo árabe.

Em baixo, era um clássico café-restaurant francês. Os quartos pertenciam, no entanto, já ao mundo das mil-e-uma-noites, com aspectos de esconderijo que me lembravam os subterrâneos do Ali Babá...

Uma espécie de caverna de luxo, caiada de um branco impecável, mas fechada, claustrofóbica, com a cama enorme no fundo, dossel de véus que tudo cerravam, e a humidade que se entranhava nos ossos.

Na manhã seguinte saímos à procura de um hotel normal porque eu me sentia morrer de claustrofobia...Escolhemos um hotel na entrada da cidade, perto do mar.

Nas noites quentes de Verão cheias de scirocco e de areia por toda a parte, havia em Essaouira os Festivais de Música.


Nuns meses, o Festival de Música Gnawa (geralmente em Junho), noutros, talvez em Agosto, o Festival de Música Andaluza.

Vinha gente de todo o Marrocos e de fora... A cidade agitava-se, os hotéis e Ryads não tinham lugar.

Era um acontecimento para a cidade do sul!

Mas a Essaouira azul, sem ninguém -só os da terra-, poucas pessoas, com os barcos e o cheiro a mar, as praças batidas pelo vento, era outra coisa...

Era o repouso, a calma, a contemplação dos horizontes...O vento girava, girava no seu corropio, como pequenos ciclones com cheiro a mar.

Podem ouvir um pouco de música Gnawa e dar uma olhadela ao festival...

http://www.festival-gnaoua.net/festival_essaouira/pages/index.php


Frankie Laine "Moonlight Gambler"

Lembram-se desta música? Para mim, na adolescência, os filmes de cowboys eram o máximo que havia no mundo.

Este disco foi um dos primeiros que comprei e ouvia-o numa espécie de gira-discos como este...

Logo a seguir ao Circo... Esse amor, então, vem desde o berço.

Quase...

Esta música foi uma de que gostei imenso

Serge Reggiani - Le déserteur (Boris Vian)











Patricia Mota deixou-me um comentário "lembrando" outro poema, maravilhosamente dito por Reggiani.

Obrigada, Patrícia!


Aqui fica, pois, "Le Déserteur", versos do poeta e escritor (fantástico escritor!) Boris Vian.


Música para começar o Outono! Como um fogo de artifício: Serge Reggiani - le pont Mirabeau

Guillaume Apollinaire, Sous le pont Mirabeau, cantado por Serge Reggiani

Sim, penso que Setembro merece bem uns poemas por Reggiani...

Faço uma pausa e ouço só música...

Acompanham-me?

domingo, 5 de setembro de 2010

Outras canções inesquecíveis...Jacques Brel - Ne Me Quitte Pas

Mais uma canção francesa..." VIENS MA BRUNE ..." - SALVATORE ADAMO.

Help - The Beatles!








OS BEATLES!!!!




Os Beatles nasceram há 50 anos em Liverpool! parece que foi ontem, não é?




Como esquecê-los? A poesia, o divertimento, a imaginação...


Andam connosco há tanto tempo, encheram várias gerações, várias juventudes!

E lembro-me do meu filho -que ainda nem sabia andar- e se deitava ao lado do gira-discos a ouvi-los. Foi a sua primeira paixão musical...

"Este grupo de rock britânico, formado em Liverpool em 1960, é um dos actos mais comercialmente bem-sucedidos e aclamados da história da música popular", dizem os manuais (o que quer dizer hoje em dia a wikipedia...).
Mas foi com certeza também um dos actos culturais mais importantes...


A partir de 1962, o grupo era formado por John Lennon (guitarra rítmica e vocal), Paul McCartney (baixo e vocal), George Harrison (guitarra solo e vocal) e Ringo Starr (bateria e vocal).


Aqui fica "HELP"! Inesquecível!

Serge Reggiani canta um poema de Jacques Prévert

Hoje tive saudades de ouvir Serge Reggiani, um pouco de poesia, uma voz única, uma pessoa inteligente. Cantando, ou apenas dizendo versos, é um grande intérprete!

Ouçam...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Alice Munro: histórias da banalidade dos dias...



Histórias que falam das coisas simples e da banalidade de certas vidas...



E da solidão...





Vida: Alice Ann Munro nasce em 10 de Julho de 1931, em Wingham, Ontário, e é uma contista Canadiana.

Ao longo da sua carreira literária ganhou vários prémios:

Venceu três vezes o Prémio “Canada's Governor General” de ficção inglesa (o último em 1986, pelo livro de Contos “The Progress of love”). Recebeu o National Book Critics Circle Award (Prémio Nacional do Círculo de Críticos) pela sua última colectânea de histórias “The Love of a Good Woman”.










A cidade de Clinton, no Ontário, onde hoje vive Alice Munro

É considerada hoje como um Mestre moderno de “Short stories”.


As suas histórias falam sobretudo da condição humana e das relações entre pessoas vistas pela lente da vida quotidiana.
Cynthia Ozick, escritora americana nascida em 17 de Abril de 1928, crítica e ensaísta, considera-a o “nosso Tchekhov”…
Em 2009, é a vencedora do prémio internacional “Man Booker International Prize” -pela totalidade da obra escrita (versão britânica do Man Booker Prize).

É uma eterna “disputadora” do Prémio Nobel.

Toronto, ao cair da noite

As suas histórias falam sobretudo da condição humana e das relações afectivas entre as pessoas, vistas pela lente da sua vida quotidiana.

Estreou-se em 1968 com o livro "Dance of the Happy Shades".

A cidade de Vancouver, onde viveu uns anos

Penso que Alice Munro tem uma capacidade invulgar esboçar caracteres e falar das coisas simples e banais, mas dramáticas, da vida.

Como Tchekhov, o grande mestre das histórias banais que transtornam as existências ... E os leitores.

Relendo os contos de Tchekhov, volta sempre a sensação de atmosferas fechadas, de dores caladas que me apertam o coração.


Reli a história do cocheiro, que, durante o dia inteiro, procura alguém com quem desabafar o seu desgosto enorme. Neva, o tempo está gelado. Transporta gentes diversas, jovens, velhos e apaixonados, sem nunca conseguir falar dessa dor.


Ninguém o ouve.


A dor de cada um não interessa ao outro que lhe passa ao lado...


E o cocheiro, de olhos lacrimosos, chega à noite e acaba por contar ao cavalo o seu desgosto... O único ser que o escuta e o olha, parece-lhe, compreendendo...


Passando para os Contos de Alice Munro, não têm essa força única de Tchekhov, no entanto, Fugas traz-nos a sensação de impotência, de solidão, de incomunicabilidade dos contos de Tchekhov.


Com uma prosa enxuta, traços rápidos, consegue que as personagens, com vidas anódinas, cheguem até nós carregados da sua angústia, sonhos irrealizados, incapacidade de viver, ou de de exigir mais da vida, contentando-se com o pouco que o dia traz e “sonhando” com a fuga, a libertação desse destino vulgar.


Penso na figura de Carla, do conto “Fugida”.


Insatisfeita – talvez “empurrada” por Sylvia, uma escritora de certa idade, que a vê desesperada-, decide fugir de casa, e deixar um marido boçal e uma vida de pobreza e abandono, e ir para a capital.


Toronto, de noite


Tempos antes, da quinta onde ela e Clarck criavam cavalos e viviam das lições de equitação, desaparecera a cabrinha, Flora, a sua companhia, e a compensação do vazio que sentia. Sofrera muito com essa perda.

Incapaz de estar sozinha, fuga de Carla dura poucas horas. Antes de a camioneta chegar ao destino, Toronto, desce na primeira paragem e pede a Clarck que a venha buscar.


Mas não é fácil o regresso.


Dessa fuga restam dúvidas. O que aconteceu a Flora, a cabrinha? Desconfia que ela voltou durante o seu dia de “fuga”... O que lhe fizera Clarck, para se vingar dela? Não sabe.


“Era como se tivesse uma agulha assasssina num sítio dos pulmões e se respirasse com cuidado podia evitar senti-la. Mas de vez em quando tinha que inspirar fundo, e ainda lá estava.”


"O que há de fascinante nas histórias de Munro é que me encontro eu própria dentro delas. É uma das facetas do seu talento que é importante assinalar..." -diz dela a escritora americana, Cynthia Ozick (*).



E acrescenta:


"O seu desafio é captar as personalidades mais vulgares, dando-lhes ao mesmo tempo uma verosimilhança e uma profundidade interior enormes, ligando-os às emoções que sentem. Como o consegue? A sua solução magistral é "pedir emprestada" essa personalidade (...) porque esses atributos não lhes pertencem realmente, fazendo-os pessoas especiais. É como se, durante as circunstâncias dessa história eles mergulhassem numa piscina de águas muito mais profundas".


Alice Munro, vive hoje em Clinton, cidade da província canadiana do Ontário, onde nasceu, em 1931 - perto do Lago Huron, e já publicou até ao momento onze colecções de contos e um "romance", "Lives of Girls and Women", que é considerada antes uma série de pequenos contos co-relacionados.


A sua mais recente colectânea de contos, saída em 2009, "Too Much Happiness", será publicada em Outubro.

Deixo-vos esta "proposta" de leitura... Vão procurar...


Obras traduzidas em português:


O Amor de Uma Boa Mulher, Relógio d' Água (The Love of a good Woman, 1988)


Fugas, Relógio D' Água (Runaway, 2004)


(*) Cynthia Ozick (nasce em 17 de Abril de 1928) é uma escritora e ensaísta judia Americana, e considera-a o “nosso Tchekhov”…