quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

"Lindbergh" - canta Ivano Fossati



Uma canção cheia  de poesia, com uma introdução musical muito suave e sugestiva para a melodia e para o poema de Fossati...

Van Gogh e as estrelas sobre o rio

"Non sono che il contabile dell’ombra di me stesso

se mi vedetti qui a volare
è che so staccarmi da terra
 ed alzarmi in volo
come voialtri stare su un piede solo...



Difficile non è partire contro il vento
Ma caso mais senza un saluto...

Non sono che l’anima di un pesce
 con le ali
Volato via dal mare
 per annusare le stelle...
Spirit of Saint Louis


Difficile non è nuotare contro la corrente
Ma salire nel cielo
E non trovarci niente.

Dal mio piccolo aereo di stelle
io ne vedo
seguo  il loro segnale e mostro le mie insegne...

E la voglio fare tutta questa strada fino al punto
Esatto in cui si spegne..."


("Sou apenas o contabilista
das sombras de mim mesmo
Se me vedes voar aqui
é porque sei libertar-me da terra
como vocês segurarem-se num pé só.

Difícil não é partir contra o vento
mas, sim, sem um adeus.

Sou apenas a alma de um peixe com asas
que voou do mar para cheirar as estrelas.

Difícil não é o nadar contra a corrente
mas subir ao céu
e não encontrar lá nada.

Do meu aviãozinho vejo estrelas
sigo o seu sinal e mostro as minhas insígnias.

E quero fazer toda a estrada até ao
ponto exacto em que se apaga...")

(É a tradução possível, mas nunca igual, do poema de Fossati, porque Ivano Fossati, "cantautore" italiano - que a minha amiga Anna Marra me  deu a conhecer, em Roma, há poucos meses- é um poeta!)




Charles Lindbergh nasceu em 1902, foi  "correio aéreo" durante anos. Um dia, com 25 anos (1927), no seu voo solitário, sobrevoou o Atlântico, no pequeno avião, o Spirit of Saint Louis, proeza nunca tentada até então: 33 horas e 31 minutos de voo...


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Intermezzo policial: "Morte de um desconhecido", capítulo 2



Liliana tentara brincar com Roberta mas não se sentia à vontade. Ela falava de coisas demasiado sérias. 

Pensou que era a luz forte que a incomodava e semicerrou os olhos. A fonte salpicava tudo à volta. Alguns turistas estavam sentados nos degraus, virados para o Pantheon. 

Cheios de sono, cheios de frio, cansados.

De repente, protestou:
-Acho que já não era capaz de viajar assim...
E apontava para os turistas.
Os outros estavam abstraídos, possivelmente a pensar no que ela dissera.

-Já leste sobre a morte da condessa?

Era Michael que mudava a conversa, de propósito. Era muito complicado o problema de Roberta...

-Estás a falar comigo?, perguntou Roberta.

Parecia  distraída.

-Contigo, claro. A Liliana sei eu que leu. Estamos sempre à procura destas notícias. Adoramos mistérios.


-Ele, não sabes? É um detective! disse Liliana, que esticava os braços, espreguiçando os braços nus.

-Veste o casaco! És parva em estares assim, de repente arrefece!

-Estás a sonhar! Sou uma mulher solar...
Ilka Ghedo, Mulher

-Ó detective, então o que pensas desta história misteriosa?, perguntou Roberta, a querer interessar-se.

Pusera-se a rir outra vez. A Roberta de sempre, cheia de vontade de viver.

Não o imaginava como detective, parecia-lhe antes um grande sonhador.
-Já tinhas lido?
-Claro que li! Como toda a gente. Quem é que resiste à atracção do mistério...

Voltou-se para Michael.

- O que pensas tu, ó sonhador?

- Não tenho as ideias muito claras...
- Tu, não tens ideias?, interrompeu-o Liliana. Não falas se não nisso!

E voltou a encostar-se, de olhos semicerrados.

Observava-os. Percebia que gostavam de trocar impressões e que Roberta se sentia bem com Michael. Assim, retirava-se da cena e deixava-lhes o grande plano.

“É isso o amor, pensava. Deixar que o objecto do nosso amor se expanda, brilhe... Será?

No fundo, não tinha a certeza, mas, desde que tinha conhecido Michael, começara a apagar-se diante dele.

Será que me acomodei e deixei de desafiar a vida como antes? A anti-conformista, a rebelde, a teimosa, a exigente conformou-se?

Enrolou os cabelos por detrás da orelha direita. Ergueu as sobrancelhas.

Foi o que ele amou em mim, a minha rebeldia, a minha diferença, até uma certa extravagância...”

Deixara de os ouvir. Ia pensando que ele se preocupava com tudo, tomava conta dela e a verdade é que se encostara e repousava nele. Lembrava o primeiro encontro no Mahjong, um pequeno restaurante chinês numa rua do Bairro Alto, em Lisboa. 

A simpatia mútua que se criara logo.

Recordava-o a voltar de Inglaterra, e a ir procurá-la. Vivera uma experiência dolorosa, indescritível, que envolvera o assassínio da mãe e de pessoas próximas. E a resolução do crime, por ele, sozinho.

Um grande detective de facto...” Sorriu.

Voltou a olhá-los, e sentiu uma ponta de ciúme. Roberta era uma pessoa bela, viva, cheia de "charme".

Disparate! Ele gosta de mim!”, esforçou-se por pensar.

Voltou a fechar os olhos.

Durante a conversa, Michael olhara várias vezes para Liliana, mas encontrava a barreira das pálpebras fechadas, as pestanas negras como um pequeno écran que a protegiam. 
Queria chamá-la, mas não tinha coragem, julgava que dormia. Ela guardara o mesmo ar fresco e franco que o encantara. Olhou com ternura os cabelos negros e lisos puxados para o lado. Como quando a conhecera em Lisboa.


Anjo musicante, de Melozzo da Forlì

Ó meu anjo, por que não abres os olhos?! Deixas-me tão sozinho...”

Ela sentia o olhar dele e não olhava. Mais valia deixá-los falar.  

Lembrava-se de uma amiga que lhe dissera um dia:

Há pessoas que só olham quando sabem que os outros não estão a olhar para elas, e então espreitam-nos, furtivamente, a  medo... Têm medo dos outros? Tu não, tu não tens medo dos outros. É como se nada te pudesse ferir.”

Seria verdade que não tinha medo de ser magoada? Seria apenas indiferença? 

Simberg, O Anjo ferido

De facto, tanto medo tinham as pessoas umas das outras. Não, ela não tinha medo!

Pensou que queria estar um momento sozinha consigo. 

E deixava Roberta falar. 
Dante Rossetti, a pintora Elizabeth Siddal

 ...

Aretha Franklin - "Bridge Over Troubled Water"


Imagem muito bela da escultora Camille Claudel, "La vague", a onda enorme que é a vida... 
E a ponte sobre as águas turvas, perigosas que atravessamos, pobres de nós, ouvindo Aretha Franklin, torna-se mais fácil de atravessar . 
O Rabbi Nahman de Bretslav, cujo livro de ensinamentos -  ou"conselhos"?-  (La Chaise Vide)-   tenho e de que gosto muito, dizia:  "ao atravessar a ponte, o principal é não ter medo!
Vamos a isso???




É verdade que um bom café e um chocolate em mousse de la maison (?) também ajudam...


Olá, amigos! aqui fica Ella Fitzgerald & Lou & Levy trio e a canção "Angel Eyes"!


Nunca é tarde para desejar que o Ano novo seja bom... e a disposição óptima! 

Fatoumata Diawara - Nayan live at Jazz Cafe

domingo, 27 de janeiro de 2013

Dia do Holocausto e da Memória dos povos...

A árvore da vida, de Yaïr Emanuel



O campo de Belzec é libertado  no Verão de 1944,  pelo Exército Vermelho, que, meses mais tarde, em 27 de Janeiro de 1945, entra em Auschwitz e ocupa o campo, libertando os prisioneiros. 

Céu negro, no blog Serafim

Ali estiveram judeus e ali foram chacinados. Mas também ciganos, homossexuais e comunistas. 

Ao Holocausto os ciganos dão o nome de Porajmos...

Ali foram gazeados e queimados,  homens mulheres e crianças.

O último campo de concentração a ser libertado foi o de  Buchenwald. 


De facto, em 11 de Abril de 1945, as tropas do 3º Exército dos Estados Unidos da América entraram em Buchenwald, onde a resistência dos alemães foi mínima. E, assim, se pôs fim ao genocídio nazi.

Lembrar para que nunca mais aconteça!
 um pouco de céu de Monet (pormenor de "O campo de papoilas")

sábado, 26 de janeiro de 2013

Mais de Ella... "Learnin' the Blues" : Ella & Louis...


Continuando...Ella and Louis - "Moonlight In Vermont"


Archip Kuindzi, "Luar no Dnieper..."

Michael Franks - I'd Rather Be Happy Than Right

Primavera, Lita Falcão


O filme de Nicholas Ray, "Johnny Guitar" (1954) Play It again Johnny





O filme "Johnny Guitar" foi realizado por Nicholas Ray, em 1954. Um western dramático, como tantos outros...

Distinguiu-se logo pela figura da grande actriz, Joan Crawford, num papel pouco feminino, a pistoleira Vienna, dona do saloon da terra. 

O saloon ficava situado num cruzamento de vias e ferrovias, de lutas entre bandoleiros e rancheiros,  ataques à diligência por bandos armados contra rancheiros etc. e era constantemente o centro de ajustes de contas.

Vienna chama em seu auxílio o pistoleiro Johnny Guitar, que fora seu amante. 
Sterling Hayden é Johnny Guitar - uma figura um pouco "estática" e silenciosa do famoso herói.

Tem ainda outros bons actores como Ernest Borgnine e o, ainda, jovem Dennis Hopper.

Filme de pouco sucesso nos USA, no momento, mas considerado filme “cult” na Europa. François Truffaut foi um dos seus maiores admiradores.

É célebre a canção Johnny Guitar, cantada por Peggy Lee...



Hoje, sábado ... Ella! Canta "Basin Street Blues", bem Ella e "Satchmo" "- 1949


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Um galo dentro da cidade...




Passo naquela rua muitas vezes, de carro, quando vou para a piscina. Vejo o bocadinho de campo e as árvores, entre as quais umas oliveiras sem azeitonas há muito tempo. 

O verde brilha em vários tons, agora molhados, e  a cor da terra é avermelhada. E a pequena horta no meio do espaço urbano: Couves altas como árvores, um limoeiro pequenino, cenouras...

Como um “Havre” campestre. Rodeado de arame, é certo...

Ontem, para meu espanto, do lado de lá da vedação que protege as plantas, mais o espanta-pardais espantado, vi um galo! A dois passos da porta da piscina!


“Impossível...”, pensei. "Um galo, aqui, quase na rua?"

Mas era mesmo um galo...

E cantou!

Pensei na capacidade de invenção do homem, nos tempos duros que vão correndo e na sua capacidade de, pela imaginação criativa, dar asas a um galo em plena cidade!

Até lembrei com saudade os meu tomateiros de verão na varanda e a oliveirinha que este ano não deu nem uma azeitona também...



E comovi-me a pensar no  homem comum que, em qualquer poiso, pode inventar, qual Candide,  o seu jardim...


Ou a sua horta, com um galo! Dentro da cidade... Afinal, o sonho sempre existe!