sexta-feira, 26 de abril de 2013

Um poeta, um poema: "Sonhar", de Helena Kolody, uma poetisa do Brasil


A poesia: Petrarca por simone Martini




SONHAR, de Helena Kolody

uma paisagem de sonho, no Brasil, Nova Friburgo


Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos (1) azuis da luz e da harmonia;
E ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num voo poderoso e audaz da fantasia.

Fugir ao mundo vil, tão vil que , sem cansaço,
Engana, menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom de paz e alegria.

É ver num lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz do pirilampo um sol pequeno e belo;
É  alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.

Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas (2) deste mundo.

(1) páramos: firmamento, céu
(2) plaga: terreno, região 

paisagem:Teresopolis, lago

Teresopolis, vista da Pedra de Sal

Saber mais sobre Helena Kolody:

Nasceu em 1912 em Cruz machado, no estado do Paraná do Brasil.
 Filha de Miguel Kolody , imigrante que viera da Galicia, hoje Ucrânia, como tantos ucranianos e polacos que por volta dos anos 1870 ou mais tarde, vieram instalar-se definitivamente no Brasil.

Morreu em 2004, em Curitiba oara onde viera viver desde 1928, com os pais.





quinta-feira, 25 de abril de 2013

Ella Fitzgerald nasceu num 25 de Abril de há uns anos... Parabéns e flores para uma Senhora!



a jovem Ella, em 1940 (foto de Van Vechten)

Ella (jane ) Fitzgerald nasceu em Newport News  num dia 25 de Abril de há muitos anos, e morreu 79 anos depois ( 15 de Junho de 1996) ... 

Selo simbólico da Virginia

A sua luz não se apagou, porém. Brilha a sua estrela, o seu riso, a sua alegria, as suas gargalhadas e a força com que lutou contra a doença até ao fim da vida!

Muitos a consideram a First lady of Song ou  lhe chamam Lady Ella...

Uniu-a a Louis Amstrong uma relação de amor e de trabalho em conjunto durante muitos anos...



Com Billie Holiday (Lady Day...) é uma das "ladies" da música de sempre, do jazz em particular.


É sem dúvida das minhas cantoras de jazz preferidas. 

Foi ma mulher doce, corajosa : fantástica! Gostaria de lhe dar hoje um beijo de parabéns!

flores para Ella, da festa de outros anos


Nota da wikipedia: 

“A sua voz tinha uma amplitude que abrangia três oitavas, era notória, era conhecida a pureza da sua tonalidade e da sua dicção,  a sua  entoação :impecáveis. Com uma habilidade de improvisação semelhante a um instrumento de sopro...” 



INSISTO : VIVA O 25 DE ABRIL!


O 25 de Abril foi uma utopia? 

“Grândola vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
dentro de ti, ó cidade...”

Foi uma utopia? Não. Foi uma necessidade. Uma urgência. Uma revolução? Eu diria que foi "evolução"!



Hoje, quase 40 anos depois, quem “sabe” realmente o que esse dia de libertação significou neste país parado entre a enorme Espanha  infindável e o mar ?

“À sombra d’uma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade...”

Portugal era um país parado. Era um país onde o analfabetismo conhecia níveis assustadores; um país em que só alguns estudavam e uma minoria de jovens conseguia licenciar-se. Os que tinham a sorte de pertencer à classe média -ou superior...
A maioria acabaria o 5º ano e tantos outros teriam apenas a 4ª classe, ou nada.
Abril trouxe a evolução...
Com cravos, sem balas, com generosidade, com humanismo!

Vivia-se num marasmo, onde a única situação possível era a “situação” do Dr. Salazar. Revoltar-se, discordar, não aceitar era perigoso. 
Um país suave, suave e de brandos costumes -como se costuma dizer- a verdade é que esse regime era uma ditadura! Onde se podia viver medianamente bem, (ou até muito bem), com a cabeça enterrada na areia.  
Muitos foram parar com os ossos na cadeia, Ser torturado. Morrer.


A canção “Grândola” foi um mito bom. A voz de Zeca Afonso, a esperança dos versos, os passos que se ouvem,arrastados, dos cantadores do "cante" alentejano. Canção que, antes, não se podia ouvir...

Lembro-me de um Abril, o de 2006, em que vi com os meus alunos o filme de Maria de Medeiros sobre o 25 de Abril, "Capitães de Abril".
Emil Nolde, Campo  de papoilas e nuvem vermelha

Expliquei o que muitos dos meus alunos desse ano não sabiam. Sabia a Marty, sabia a Mónica, mas a maioria desconhecia aquela história, nunca a tinham contado.E gostaram de saber. Vi a curiosidade, o entusiasmo daquela juventude. 

Vi espanto, orgulho e até respeito. Comovi-me, comoveram-se. 


Comovi-me, sim, como todas as vezes em que recordo esse dia vivido com medo e com esperança.
Por isso, por tudo o que nos deu esse dia, grito ainda hoje: viva o 25 de Abril. Sempre!

terça-feira, 23 de abril de 2013

Um cientista e humanista, François Jacob, morreu há dois dias...



François Jacob, em 1997

Morreu há dois dias (em 21 de Abril) François Jacob, Prémio Nobel da Medicina/Fisiologia em 1965, Prémio esse que partilhou com outros dois cientistas de igual valor: Jacques Monod - autor do livro "Le hasard et la nécessité" (1970)-  e André Lwoff. 

 Jacques Monod (1910-1976)



"Premiados pelas descobertas relacionadas com o controle genético da enzima do vírus de síntese."


Nascido em 1920, grande apaixonado pelas letras e pelas palavras, estuda medicina. Mas a guerra estala e os horizontes mudam.

Anti-fascista e judeu, quando os alemães entram em França, em 1940, vai ter a Londres com o Exército de Libertação do General de Gaulle. 

Jovem estudante médico, combateu no norte de África e  participou no desembarque na Normandia onde foi gravemente ferido, o que lhe vai impedir vir a ser cirurgião, como tencionava. 

Vira-se, então,  para outros campos da ciência.
Doutora-se em Medicina em 1947. Interessa-se pela biologia e pela genética, estuda a hereditariedade.

Investigador no campo da genética e da biologia molecular, entrou muito novo para o famoso Instituto Pasteur, de Paris, onde, em 1960, dirigirá Serviço de Génétique Microbienne.


Trabalha sob a “protecção” de André Lwoff, com outro cientista, Jacques Monod - mais velho do que ele dez anos. 
André Lwoff (1902-1994)



Instituto Pasteur, Paris

Liga-os a partir daí uma grande amizade que durará toda a vida. No trabalho, nunca a menor inveja ou ciúmes do sucesso de um ou de outro os afastou em nada.

Seguem os dois a “aventura da revolução molecular” que iria transformar completamente a maneira de se considerar de se estudarem  os seres vivos, o seu funcionamento e a sua evolução.


Guardou sempre dessa sua entrada uma recordação inolvidável, como costumava contar.

“Esta biologia", explicará anos mais tarde, "nasceu de decisões individuais de um pequeno número de cientistas, entre finais de 1930 e princípios de 1950.  

Ninguém os empurrou nessa direcção, nem os obrigou a nada. Pelo contrário, foi a curiosidade de cada um e uma maneira nova de considerar os velhos problemas que conduziram esses homens e mulheres a resolver o problema da hereditariedade.”

No seu discurso de entrada para a Academia Francesa em 1997 diz: 

“Somos feitos de uma estranha mistura de ácidos nucleicos e de recordações, de sonhos e de proteínas, de células e de palavras.”

Porque era um homem culto e um humanista...

O maravilhamento com tudo o que descobria, na cadeia evolutiva, dos"genes do desenvolvimento”, refere Catherine Vincent - que assina o artigo de Le Monde onde me baseei.

E o seu livro de 1997, "La souris, la mouche et l'homme", onde está patente também a inquietação pelas derivas éticas que possam advir de certas manipulações.


Coisas que ele receia não por parte de cientistas pois, segundo, ele os massacres da história devem-se mais a religiosos ou homens políticos do que a cientistas-loucos como os "Fankensteins" ou "Strangeloves"...Gene Wilder e Frankenstein Jr. de Mel Brooks
um extraordinário Gene Wilder em "Frankenstein Jr.",  de Mel Brooks


um maravilhoso Peter Sellers, no "Dr. Strangelove" de Stanley Kubrick


Deixo mais uma passagem do discurso que atrás referi (14 de Novembro de 1997, discurso de recepção na Academia das Ciências.):

"Todos os seres que vivem nesta terra, seja qual for o seu meio, o seu tamanho, o seu modo de vida, trate-se de um molusco, uma lagosta, uma mosca uma girafa ou um ser humano, todos eles são compostos de moléculas mais ou menos idênticas. (...) 

Todos os seres vivos aparecem pois constituídos pelos mesmos módulos que foram distribuídos de maneiras diferentes. O mundo vivo é feito de combinações de elementos em números finitos e assemelham-se aos que são produzidos num gigantesco  jogo de “meccano”, resultante de um incessante trabalho de evolução.” 

um jogo de “meccano” de 1954


“Não gosto da separação entre das culturas, a cultura literária e a científica, por isso escrevi este meu livro”. Referia-se ao livro  “A estátua interior”, livro que é a sua autobiografia, onde se misturam a infância, a família, as emoções, a guerra, a paixão pela ciência, as polémicas e os momentos de solidão. 
Ou o medo da velhice - de tudo ali fala.

http://eueoslivros.blogspot.pt/2012/03/estatua-interior.html

http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/1965/


Obras:

“La logique du vivant” (1970)
Lejeu des possibles (1981)
“La Statue Intérieure” (1987)
"La souris, la mouche et l'homme" (1997)

domingo, 21 de abril de 2013

O Ratinho Poeta e a Colombina...



- Por que chora o Pierrot?, perguntou o Ratinho há dias.

Fitava um Pierrot de um velho teatro de marionettes,  no meio da desarrumação da minha mesa, que estava encostado a uma bailarina de vestido cor de rosa.

 Lá fora, a lua de Abril, num céu azul da Prússia, prendia-me a atenção, na varannda. Virei-me para a sala, mas, antes de poder falar, ouvi uma vozinha, ao meu lado:



- Qual Pierrot?!

Era o Ouricinho, que andava sempre por perto.

- Não chora, Ouricinho! disse eu. Está sempre triste o Pierrot...

- Chora, chora... Olha, tem uma lágrima a cair.

O Ouricinho debruçava-se sobre a figura do Pierrot e quase se abraçava a ela, sentava-se-lhe ao colo, queria dar-lhe mimo. 

O Ratinho afastara-se um pouco e calara-se.




- Chora porque a Colombina morreu...
O Ouricinho virou-se logo para mim:

- Quem era a Colombina?
- Era a amada do Pierrot... E contei-lhe um bocadinho da história.



Espantado o Ouricinho olhou em volta.

- Ah! Esta aqui? A do vestido cor de rosa?


E continuou, agora mais curioso, ao ver que o Ratinho se afastara  para outro sítio e contemplava qualquer coisa:

- Ó Ratinho, onde encontraste essa menina? Ó Pierrot, vem ver!


De facto, o  Ratinho fixava, com atenção, uma boneca antiga de porcelana de que só restavam a cabeça, um braço e o tronco nu.

- Está morta?, perguntou o Ouricinho. 




Parecia desolado. Despida, a boneca perdera os seus encantos. Só a grande delicadeza do rosto e a elegância do braço nos faziam imaginar como fora bela.

- Morta? As bonecas não morrem nunca..., disse eu.

Afligia-me vê-lo tão preocupado e triste.

- Quem era?, perguntou ainda, virado para o Pierrot que parecia atento às palavras do Ouricinho.

O Ratinho Poeta continuava silencioso. Fitou-nos, pensativo, e disse:

 - Quem sabe? Talvez fosse a Colombina...

Eu não disse nada. Eles já estavam a consolar o Pierrot...