segunda-feira, 4 de março de 2013

ORQUÍDEAS, O RATINHO E O OURICINHO...



Ofereceram-me uma orquídea deliciosa, mimosa e linda. Veio do Alentejo de uma cidade que esteve rodeada de neve, há dias. A minha cidade, Portalegre.

Pu-la na minha janela, a olhar lá para fora.
O Ratinho e o Ouricinho estavam pasmados com ela.

- Que flor tão linda!, exclamou o Poeta. Como se chama?

- Orquídea...
O Ratinho continuou, sonhador:

- Queres dizer orquídeas! São três! E tão pequeninas.
Olhava-as, com um sorriso.

- Devem ser tão suaves as suas pétalas.
- Lindas!, disse o Ouricinho que girava à volta, a espreitar o jarro de vidro, como se quisesse entrar lá para dentro.




- Vê lá se cais daí..., avisei.
Era inútil. Ele subia, descia, agarrava-se ao vidro, cheirava.

- Gostava mesmo de lhes tocar! Posso?
- As flores delicadas não gostam que se lhes toque muito. São como as pessoas...

O Ratinho já tinha percebido tudo.
- Flores delicadas...

A verdade é que iam  vê-las ao quarto, todos os dias, e gostavam de as ver. Mas eu distraí-me, não reguei a planta como devia e ela, delicada, ressentiu-se e, de repente, duas das florinhas secaram. 

Quando me preocupei, só já lá estava uma. Tirei o vasinho do bocal, reguei-o, mas as outras jaziam mortas.

Eles repararam logo. Percebi uma leve censura na voz do Ratinho:
- Só cá ficou uma... Deixaste-as secar...
- Coitadinhas! Tão feias que estão agora...

O Ouricinho olhava para o bocal de vidro vazio, com tristeza.
- Ó Ratinho, eu vou tratar bem desta que sobrou!, disse eu.

- Dizes tu, mas depois esqueces-te e lá vai esta ao ar...
- Não confias em mim?
- Sim...

Hesitou, e olhou-me muito sério:

- Tu tens bons sentimentos, eu sei, mas pões-te a fazer tantas coisas ao mesmo tempo! E não chegas para tudo...
- Eu acho que posso chegar, Ratinho.

Acenou com a cabeça, para a flor. Eu só via a cauda dele muito esticada e cor de rosa.


- Lembras-te do Petit Prince? Quando tu "cativas" alguém e queres ser seu amigo, crias laços com ele... 

- O que é domesticar?, interessou-se o ouricinho, sempre curioso.

O Ratinho explicou:
- É quando precisas de alguém. Quando decides ser amigo de verdade. Como são as crianças...

Voltou-se para mim, sério:

- As orquídeas precisavam de ti, tu tinhas tomado conta delas. Eras responsável...



Encolheu os ombros, tristemente:

- Mas tu não precisavas delas, tens sempre tantas flores ali na varanda... 





Olhava-me, desconfiado:

- Se calhar também não precisas de nós.
- Ó Ratinho, até fico ofendida...


O Ouricinho, que saltitava por ali, apoiou-me.

- Não te esqueças que ela esteve doente!Tu gostas de nós, não gostas?

O Ouricinho é uma alma simples e boa e acredita nos outros. Tem muitos amigos cá por casa.

Já se tinha apaixonado outra vez e não largava o vaso pequenino onde a florinha mostrava as pétalas de uma cor branca e transparente como a flor  do nardo.


- Esta é mesmo linda!

Eu não dizia nada. Sentia-me culpada. Perante os meus amigos e perante a amiga que ma oferecera e que era uma artista. Bem me tinha dito, ao telefone:
flor esculpida num nabo, pela Mané

Elas são frágeis. Não lhes ponhas muita água...”

O Ratinho viu-me triste e bateu-me com a patinha no braço:



- Eu gosto de ti, não estejas triste! Preciso de ti e tu precisas de mim, eu sei! Esta flor era a única que tinha vontade de viver! E teve força. É assim na vida...

- Ó Ratinho...

Não consegui dizer mais nada.O meu amigo Poeta sabe tudo!




Nota: Afinal decidi substituir a palavra "domesticar" por "cativar", seguindo os conselhos da minha ex-colega, Amélia Mota...

Um prémio que agradeço...

Os blogues têm coisas boas!

Há pessoas que nos vêm visitar e dizer que sim, ou que não, ou que mais valia de outro modo. É sempre uma questão de sensibilidade e de coração...


Isto é muito positivo porque nos abre os olhos e nos conduz a uma certa auto-crítica bem necessária para não sermos apenas os narcisistas que se vêm mostrar (uns) aos outros.

Julgando-se incomparáveis e sabedores e esperando elogios.

o Narciso, de Caravaggio

Mas... há momentos especiais (aqui faço um parêntesis: é sempre maravilhoso receber um prémio!)...

Este prémio foi-me "dado" pelo blog In (Cultura) e pelo Memórias e Imagens.

Resta-me agradecer e re-oferecer a outros cinco blogues o troféu... Claro que não é simples. Vou tentar não me repetir (mas a verdade é que há sempre uns de que gostamos mais, por isto ou por aquilo.


Os dois primeiros são para "Bairro dos Livros" e "Livraria Lumière", pela sua utilidade sempre, falando de livros e de Cultura!... Escolhendo não só com a cabeça, mas com o coração












Aqui fica a minha escolha restante (penso que não me ficaria bem deontologicamente "devolver" a quem mo deu):




(um blog que fala das coisas que nos magoam...)



(a frescura do azul e da beleza)  


(a simplicidade e a vontade de aprender)



Obrigada a todos os corações, solitários caçadores! 



domingo, 3 de março de 2013

A nossa dignidade! "Livre"... canta Manuel Freire





LIVRE
"Não há machado que corte
A raiz ao pensamento
Não há morte para o vento
Não há morte

Se ao morrer o coração
Morresse a luz que lhe é querida
Sem razão seria a vida
Sem razão

Nada apaga a luz que vive
No amor num pensamento
Porque é livre como o vento
Porque é livre..."
Poema de Carlos de Oliveira, música de Manuel Freire

sábado, 2 de março de 2013

Recordando os pãezinhos da Dona Severiana, em São Tomé...


Os pãezinhos da Dona Severiana
rosa de porcelana


São Tomé na Gravana (foto da internet, de JPG)

Quando cheguei a São Tomé, ficámos num dos apartamentos do Bairro dos Cooperantes e íamos comer à pensão da Dona Severiana, que ficava ali ao pé, na subida da Chácara, não muito longe do centro e do Água Grande, o rio que corria em São Tomé.
a zona do centro da cidade, ao pé do rio "Água Grande"

Era a novidade de tudo que me encantava. Ver uma mesa comprida onde, como em todas as pensões do mundo os comensais se sentavam e conversavam, distraía-me. A comida diferente, e, no fundo, sempre igual: peixe grelhado com gindungo verde e cebola, sopa de matabala ou canja e frango assado ou de churrasco.

No segundo dia, a dona Severiana passou a pôr-nos uma mesinha, separada, para estarmos mais à vontade.
O tempo correu, e aos dias de Gravana sucedeu-se a estação das chuvas. Foi por essa altura que mudámos para a vivenda bonita que durante esse tempo fora restaurada. 

eu, no jardim, mais o Zac


Nessa casa, vivi os cinco  anos de São Tomé. Uma casa branca, bem desenhada, com janelas encantadoras  e com uma risca azul que me lembrava a das casas alentejanas e que nunca se vira ali.  
a entrada da casa que eu amei!

Toda ela rodeada por um jardim enorme que, pouco a pouco, com a ajuda do jardineiro da embaixada, o “nosso” Senhor Semedo foi enchendo de lindos arbustos, de flores que eu nunca imaginara haver.

ramo de flores são tomenses

os bicos de papagaio

As chuvas torrenciais duravam oito meses e lavavam as pedras e davam brilho a todas as plantas que eu não conhecia e eram lindas e coloridas com as cores mais vivas: rosas de porcelana, "bicos de papagaio" de um vermelho vivíssimo, ou os rosados bordões de São José  ou as estrelícias azuladas...



A ave do paraíso, ou estrelícia

o meu jardim, na estação das chuvas


a perfumada flor do cafèzeiro, que havia no meu jardim

Se hoje posso recordar com grande saudade esses tempos, confesso que na altura sofri, estranhei o clima demasiado quente e com uma percentagem de humidade da ordem dos 90 graus frequentemente, e tive muitas saudades da minha terra...
interior da minha casa, em São Tomé


Sofri a falta da electricidade, senti o impossível refúgio ao calor, durante horas e horas, de dia e de noite.

E os mosquitos que me atacavam por mais sprays ou aparelhoseléctricos, de pastilhas para queimar, que pusesse à minha volta! Não havia electricidade, como poderiam funcionar?
O ar condicionado não trabalhava, pelo mesmo motivo na maioria dos dias e "eles" escondiam-se nos  cantos dos cortinados e, à noite, vinham picar-me.

O Zac à porta...

Por teimosia – ou inconsciência-  não usámos o que sei que hoje é considerada a melhor protecção: o véu mosquiteiro que cai do tecto e nos “embrulha” protegendo-nos dos anofeles.

O meu cão Zac sentia-se dono do jardim e vinha cá fora espreitar, desconfiado, sempre que o Senhor Semedo se distraía e deixava a cancela aberta.

Mas tudo isto vem a propósito dos pãezinhos da Dona Severiana!
Um dia, já na casa nova,  soubemos que a pensão tinha fechado e que a senhora viera  viver perto da nossa rua.

O aprovisionamento de pão, arroz, batatas ou leite não era como nos tempos de hoje : não havia farinha, ou mesmo açúcar e a ajuda vinha-nos de Lisboa,semanalmente, num caixote de mercearias.


eu e o meu cão Zac, em São Tomé


Custava-me muito quando o pão acabava na pequena padaria, um pão com muita mistura que nunca soube qual era. Um belo dia, porém, a Dona Severiana mandou um recado ao nosso jardim, dizendo que estava a fabricar pão e bolinhos para os amigos...


O sofrimento acabou, porque todos os dias a senhora cozia o seu pão, espécie de papo-seco pequenino, saboroso e branquinho.

duas fotografias do Miki, a brincar

Lembro-me sempre desses pãezinhos e vem-me a imagem do Miki, o filhito mais novo da Milly, na porta da cozinha, a choramingar: “ó mãe, quero pão”!

E a Milly, rabugenta  logo de manhã, respondia, áspera:
- Ai, tem fomi? Você não comeu lá em sua casa?!

uma encruzilhada, algures em São Tomé

O Miki encostava-se, ao lado da rede-mosquiteiro da porta, a olhar, com os olhos muito abertos, cheios de lágrimas. 
Eu sabia que ele vinha sempre comer, de manhãzinha, a nossa casa, porque a Milly tinha três filhos, vivia na Chácara que era um bairro pobre, e a vida custava.

Eu insistia:
- Milly, dá-lhe de comer! É uma criança... Dá-lhe lá um pãozinho com manteiga!
A Milly, na Chácara

o mercadinho "mundo já viu", no Pantufo


as traseiras da casa de São Tomé, e o meu jeep um UMM

a janela do estúdio

a janela do estúdio,na parte da frente

A Milly agitava o corpo, limpava as mãos no grande avental, e, fingindo-se contrariada, mas contente por eu insistir, ia até ao quintal, com a faca da manteiga a barrar o pão.
- Miki! Tomi lá  pão, tu minino furado!
um dos coqueiros do meu jardim

A paz do jardim envolvia-me. A minha casa de São Tomé nessas manhãs era acolhedora. Sentia-me bem.

E havia os pãezinhos da Dona Severiana!