sexta-feira, 21 de junho de 2013
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Acontece todos os dias, aqui ao lado...
Ou...o horror dos dias de hoje! Diabólicos!
Circo de Pequim: o Diabo!
Dei por mim irritada, na viagem.
Ia tranquila, até Coimbra, mas abri o jornal e descobri uma vez mais como o mundo é cruel, ingrato, perverso.
Ia tranquila, até Coimbra, mas abri o jornal e descobri uma vez mais como o mundo é cruel, ingrato, perverso.
Lembrei-me de um filme belga, filme "culte", que fui ver com a minha filha e nunca esqueci:
Chamava-se "C’est arrive près de chez vous” e era terrível. Foi realizado, em 1992, por de André Bronzel, Rémy Belvaux e Benoit Poelvoorde.
Documentário a preto e branco que é uma sátira negra sobre a realidade da indiferença: um ladrãozeco assassino, sem piedade, assalta velhinhas e pessoas fragilizadas, e ninguém á volta se apercebe disso, porque nem querem olhar...
Benoit Poelvoorde, em 2004, presidiu o Festival de Cannes
Em português o título é “Manual de instruções para crimes banais.” E, em inglês, ainda pior: “Man bites dog” ("O homem morde o cão”).
Às vezes confesso que me esqueço que é assim, cheia do meu optimismo, “à
maneira” do Candide, do Voltaire, e das minhas ideias de utopias para todas as
ocasiões...
Nisso tudo, acredito! Mas será mesmo assim?
Ou resta-nos, apenas, ficar de lado a ver, observar, a fixar no papel ou na
película o momento, a luz, o instante que já passou, sem agir?
Adiar, apenas, o tempo de morrer?
Apenas, ir comprar um novo livro?
Apenas, ler um poema?
E ouço Verlaine dizer-me ao ouvido...
“Le ciel est pardessus le toit
Si bleu, si calme,
Un arbre pardessus le toit
Berce sa palme...”
Continuo a desfiar os pensamento, enquanto o comboio segue viagem e, lá fora, a paisagem corre, desfilam os campos e os choupais e os canaviais, à beira do rio Mondego.
Sucedem-se as manchas escuras das árvores, enormes, e, paradas, as estações abandonadas onde o comboio não para,
e onde a erva cresce, e seca.
Tudo parece em paz, simples como no poema de Verlaine...
Mas a vida bate à porta, a desinquietar-nos, a todo o momento!
Notícias e mais notícias! Violências, aluviões, rios que galgam as cidades que
se descobrem indefesas, guerras fratricidas, guerras “normais”, espiões, um
nunca acabar de desgraças e calamidades, naturais umas, desnaturadas as outras.
Que me importa que a CIA espie o mundo? Não se espiaram todos os países uma
vida inteira?
Ou "O Terceiro Homem" de Graham Greene e tantos dos seus livros...
Nem o
James Bond ou o Gabriel Allon, e Smiley mais a sua gente: heróis inesquecíveis...
Não fomos sempre espiados por alguém? Não fomos, e somos, sempre, os polícias de
alguém?
Quero lá saber que eles se espiem e nos espiem! São tudo hipocrisias,
porque quem se insurge, protesta, dizendo defender a “liberdade” e a democracia... sabe-se lá se não
estarão também já a espiar...ou a preparar-se para isso?
A desculpa da luta anti-terrorista levou a muita coisa horrível, no campo
da perda das liberdades adquiridas com tanta luta...
Mas o terrorismo levou ainda a coisas muito piores, entre elas essa mesma “desculpa”
a que os governos tiveram direito : a existência e o perigo real do terrorismo.
Porque esse perigo é real! E há muito tempo! E recordo a "matança de Munique", durante os Jogos Olímpicos de 1972.
Munique (1972), um atleta israelita que vai ser assassinado...
Noruega, 2011
E o resto?
Interessa-me o que se passa à minha porta, na minha terra, no meu
mundo. Egoísmo? Inconsciência total? Não, porque sei que o nosso pequeno cosmos
é parte do cosmos total e todos os problemas estão ligados entre si.
Mas que me importa ler nos jornais que se matam egípcios, na Praça Tarikh, ou que
morrem turcos na Praça Taksim?
Que se matam entre irmãos...
Alguém se importa verdadeiramente? Alguém faz um gesto - hoje- que não seja a
pensar no próprio interesse?
Se o petróleo que por lá existe vale o “empreendimento” de alguns estados, ou a frase derrotista: “quero lá saber dos turcos, é um problema deles,
que se arranjem...”
Tristes tempos em que "o outro" não conta nada...
E eu também não quero saber?!
Quem quer ajudar quem?, quem quer ser ajudado?, e para quê?
No Iraque o que passou, passou; como, na Líbia, o que passou, passou e
foi esquecido. Como o que está a acontecer na Síria, vai passar.
A que preço? Com que
riscos?
E, na Turquia, a Praça Taksim vai ter os seus mortos e, depois, daqui a uns
meses, quem os lembra?
E quem os lembrar, o que faz?
"C'est arrivé près de chez vous!", diz o filme. Aconteceu aqui ao lado!
Passa-se na porta ao lado, e eu quero interessar-me em saber que
pessoas iguais a mim, algumas conheço e outras não, estão sem trabalho, estão
sem dinheiro, foram corridos das casas porque não pagavam a renda, ou o empréstimo
contraído noutros tempos melhores.
Queixamo-nos das greves, mas há professores que não têm trabalho, há
professores que mudam de poiso todos os anos quando arranjam trabalho, há
professores que ficam a 100 kms de distância das famílias.
Há professores que,
se forem trabalhar as tais 40 horas semanais, na escola, que o governo lhes quer agora "impingir", não terão
tempo para viver.
As greves fazem-se sempre com consciência - quem as faz, ou quem as não faz : ambos no seu direito! Porque não é uma brincadeira, nem é ir passear até ao Rossio!
Resta-lhes vender a mobília ao desbarato? E quem os compra? Sim, quem os quer, se
não forem uma pechincha?
Ou mandá-los para casa dos pais, à espera de melhores dias? Bem, eles próprios
já estão em casa dos pais, outra vez, ou dos irmãos, agora com a mulher e os filhos, à espera
dos tais melhores dias.
Ali, pelo menos, têm um tecto e comida... Os que têm família.
Isto é vida??
"C'est arrivé près de chez vous"...
segunda-feira, 17 de junho de 2013
“ENCONTROS E DESENCONTROS”, DIZ O RATINHO POETA...
Não
é fácil a relação humana... O afecto tem muito que se lhe diga e, muitas vezes,
é o ciúme, a sensação de sermos
abandonados, que cria a maior parte dos problemas.
Bem dizia a Raposinha ao Principezinho: "Quando arranjas um amigo, tens de te preocupar com ele..."
É como uma flor que tem que ser regada com amor, com paciência, com compreensão, se não ela murcha e morre.
E
os desencontros sucedem-se, com reencontros, ou não. Todos sentimos mais ou menos o mesmo nas nossas vidas, no dia a dia, em múltiplas situações.
Às vezes, tão Inesperadamente!
Desta vez foi o Ratinho a trazer o
problema para a mesa! Quase
nem me falou quando chegámos de Coimbra.
-
Por onde andaste? Deixaste-nos aqui e foste passear...
Estavam
deitados na caminha e tapados com um lençolinho que eu fiz de uma almofada
que a minha mãe bordou para a Gui, com o nome dela e umas rosinhas, quando nasceu.
Dormiam? Abriram logo os olhos!
O Ratinho ralhava mas o Ouricinho calava-se, e olhava-me, com um ar sofredor.
-
Ó Ratinho Poeta, desculpei-me, foram poucos dias só!
-
Que importa? É o abandono que nos magoa. Andamos sempre atrás de ti, sofremos
contigo, rimos contigo e, de repente, desapareces! Não dizes nada!
O
Ouricinho abanava a cabeça, dizendo que sim, que ele tinha razão.
Fiquei
triste por eles. Claro que eu fora de passeio e não os levara. Desta vez, nem
tinha pensado nisso, confesso. Tanta foi a confusão à partida, que -tendo sido
planeada- até parecia ter sido improvisada à pressa: o Diogo tinha andado por cá...
-
Sim. E não venhas com as desculpas do costume: estava cá o Diogo,
preocupavas-te com ele, etc. Ele não teve culpa. Tu esqueceste-te de nos levar!
Agora,
o Ouricinho avançou, olhou-me com os seus olhos doces, e disse:
-Sim, foi tão bom termo-nos encontrado. E agora, assim...abandonados!
Só
me faltava que se pusessem a chorar. Mas o Ratinho é muito orgulhoso, nunca
cairia numa dessas.
-
Pois é, encontros... E desencontros!, murmurou, filosófico.
-
Nunca me esqueço de vocês, mesmo bordado de (seria
verdade?)E, quando vejo coisas bonitas, penso nos meus amigos (agora era
verdade!)...E havia coisas tão lindas em Coimbra!
- Havia o quê, de tão especial?, perguntou o Ouricinho, zangado.
- Oh! Havia as ruas, havia o pôr do sol, pontes. E havia os estudantes, a preparar a serenata. Era Santo António...
Nada parecia impressioná-los.
- Só isso? Ruas, casas? Estudantes? Aqui também há!
O Ouricinho parecia desiludido.
- É muito!, disse eu. O cair da noite, as luzes, o "fado" de Coimbra, as guitarras, a música e as vozes no Café Santa Cruz...
E continuei:
- E um lindo parque que se chamava "Quinta das Lágrimas" onde havia muito verde, muita água... Até vi madressilvas no bosque!
Como explicar melhor? A história do Príncipe e da Princesa ficava para lhes contar mais tarde...
-
Sim, pode ter sido bonito, interrompeu-me o Ratinho. Mas tu dizes que sim, que te lembras... E nós, aqui em casa, sem ver ninguém, estávamos preocupados. Vai tanta confusão pelo
mundo...
Eu pensava na calma da Quinta das lágrimas.
E o Ouricinho continuou o protesto do Poeta, agora mais suave:
-
Pois é... Acidentes, inundações, guerras, rebeliões! Já viste o que por aí anda?
Como é que nós não havíamos de estar preocupados!?
-
Ó Ouricinho, fui só ali até Coimbra e voltei...
-
Sim! E o comboio não podia descarrilar? Nunca se sabe... Não pensaste nisso?
- Era um comboio pacato... Fui a ler...
Edward Hopper, "A leitora no comboio"
O
Ratinho sorria, ao ver como o Ouricinho se queixava, meigo, apelando para a
minha ternura.
O Ratinho achava que o seu amigo Dani era um bocadinho ingénuo,
muito mais novo do que ele como era, inexperiente. Sentia uma forma de
protecção por ele. Como se fosse uma criança e ele um jovenzinho que sabia
tudo.
Ri, e peguei nos dois e abracei-os.
-
Meus queridos! Estão sempre no meu coração...
O
Ratinho aproveitou logo a deixa:
-
Então, leva-nos já ali à varanda! Vimos passar as andorinhas, na janela do quarto, e elas disseram-nos
que a Primavera chegou!
-
Chegou, disse eu. Mas vem fria, muito fria. E o Inverno quase estragou as
nossas plantas!
Agarrei-os
com força e fomos ver as flores, o mar, as árvores que podemos espreitar da
nossa varanda.
Corria
um ventinho fresco, as buganvílias tinham florido, as malvas lilás, que trouxe
da Praia do Magoito, espreitavam, sempre espertas.
O aloendro bordado de Castelo Branco "Colcha de noivos" (*)tinha umas flores brancas desmaiadas e frágeis e os troncos não tinham força para os segurar.
"Lá tenho de as atar com um cordel"..., pensei.
O Inverno fora agreste e as flores tinham sofrido muito. Pareciam encolhidas com frio...
Só brilhavam, coloridas, as malvas vermelhas. E as cor de rosa vivo que eram tão bonitas, ao pé da flor do alho!
Sim, porque eu tenho alhos plantados na minha varanda... (Sim, até por causa dos vampiros que por aí andam!)
"As flores simples são as mais resistentes..."
E as rosinhas de toucar, corajosas, tentavam endireitar-se e trepar pela parede.
-
Tão bonitas, exclamou o Ratinho! Olha, uma flor nova!!!
- São gladíolos, expliquei.
- Nunca tinha visto!, entusiasmou-se o Poeta. Tão delicados!
-
Voltaram a viver com o sol!, disse o Ouricinho, melancólico. É assim a beleza da Primavera...
E treparam os dois pelas folhas rijas ...
- Não caiam!
"Voltaram a viver com o sol! É assim a beleza da Primavera..." Mais um poeta cá em casa, pensei.
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