Hoje venho falar de outro problema e não é de cá, apenas: o bullying (1) - (assédio, humilhação pública, tareias, etc) de estudantes
mais prepotentes sobre os mais frágeis, ou desprotegidos: os gordos, os ruivos,
os que falam de outro modo, vítimas da risota...
Coisa que sempre se viu por cá mas que tende a aumentar, com consequências por vezes graves. Há dias, morreu um auxiliar que, ao querer reconciliar dois estudantes desavindos, sucumbe com um ataque de coração.
Coisa que sempre se viu por cá mas que tende a aumentar, com consequências por vezes graves. Há dias, morreu um auxiliar que, ao querer reconciliar dois estudantes desavindos, sucumbe com um ataque de coração.
Em França, porém, a agressividade sente-se de outro modo. Mais premente? Não sei, mas mais regular, mais frequente, de certeza.
Ou o mesmo? É difícil ser professor - tal como aqui: alunos mal-educados, pais e familiares agressivos que batem nos professores e os insultam...
Quem não recorda o filme que mais falou dessa violência estudantil, em tempos em que nós nem sonhávamos que se amplificasse tanto. Falo de Blackboard Jungle (Sementes de Violência, em Portugal), de Richard Brooks (1955), com grandes actores, entre eles Glenn Ford, o professor, neste caso.
Onde pela primeira vez se ouviu o "rock" de Bill Haley and His Comets e a canção "Rock Around the Clock", hoje que vem por aí uma saraivada de estrelas enviadas pelo "Comet Haley"!!
Violência porque os valores laicos - ou religiosos- de que há tempos falei aqui deixaram de existir?
Não é verdade, existem, mas vivemos numa sociedade de violência, de concorrência, de liberalismo desenfreado em que o valor da solidariedade, o desejo sincero de paz, o respeito do outro e das suas ideias, se diluiu em tonalidades tão brandas - no meio do horror das imagens - que assustam.
Ou o mesmo? É difícil ser professor - tal como aqui: alunos mal-educados, pais e familiares agressivos que batem nos professores e os insultam...
Quem não recorda o filme que mais falou dessa violência estudantil, em tempos em que nós nem sonhávamos que se amplificasse tanto. Falo de Blackboard Jungle (Sementes de Violência, em Portugal), de Richard Brooks (1955), com grandes actores, entre eles Glenn Ford, o professor, neste caso.
Onde pela primeira vez se ouviu o "rock" de Bill Haley and His Comets e a canção "Rock Around the Clock", hoje que vem por aí uma saraivada de estrelas enviadas pelo "Comet Haley"!!
Violência porque os valores laicos - ou religiosos- de que há tempos falei aqui deixaram de existir?
Não é verdade, existem, mas vivemos numa sociedade de violência, de concorrência, de liberalismo desenfreado em que o valor da solidariedade, o desejo sincero de paz, o respeito do outro e das suas ideias, se diluiu em tonalidades tão brandas - no meio do horror das imagens - que assustam.
Romain Rolland e Gandhi, dois senhores, duas inteligências, que pensaram nos valores...
violência (e medo), capa do Nouvel Observateur
Por quê agredir o outro?
A que se deve essa violência entre colegas, adolescentes aparentemente normais, que de repente explodem e são capazes de matar? Ou matarem-se...
A que se deve o desejo de perseguir o outro, o diferente, o mais fraco?
É sempre bom compreender, para agir melhor.
A que se deve essa violência entre colegas, adolescentes aparentemente normais, que de repente explodem e são capazes de matar? Ou matarem-se...
A que se deve o desejo de perseguir o outro, o diferente, o mais fraco?
É sempre bom compreender, para agir melhor.
flores para um adolescente morto
Li uma entrevista muito interessante (in Nouvel Observateur, 25 Abril-1 de Maio) feita a um Professor Emérito de
Psiquiatria Infantil, Philippe Jeammet, que tenta uma explicação.
A violência é uma fatalidade?
Deixo algumas das perguntas e das (suas) respostas:
- Subida da violência nas escolas?
“É preciso sermos prudentes. Não acredito que houvesse essas
mudanças de comportamento tão em profundidade. Só que a educação mais liberal,
sendo mais livre, leva a que a preocupação com os outros, a delicadeza ou os
limites impostos sejam menos marcados do que antes.
(...) Encorajar a criança a exprimir-se e a intervir, evitando a
repreensão, tudo isso põe um pouco em questão a autoridade do adulto."
- Esse liberalismo da educação pode levar à violência?
“A violência é normalmente uma resposta a uma ferida
narcisista, ao sentimento de não nos darem valor”.
(E penso: quantas vezes o narcisismo pode ferir os outros, ignorando-os, servindo-se deles, ou, perversamente, possuindo-os, oprimindo-os para sua glória apenas...)
(E penso: quantas vezes o narcisismo pode ferir os outros, ignorando-os, servindo-se deles, ou, perversamente, possuindo-os, oprimindo-os para sua glória apenas...)
Caravaggio e "Narciso"
(...)
“Uma certa forma de maldade, que sempre existiu, pode espalhar-se
por toda a parte, não apenas na escola. Troçar do outro tornou-se normal. É
preciso atacar. Embaraçar as pessoas. Não importa hoje a troca positiva em que nos
nutrimos do outro, mas sim o pô-lo em cheque, desconfiando dele. Não numa
atitude de dádiva, compreensão, mas sim numa relação de poder. De facto, antecipamos a
possibilidade de ser objecto de derisão apontando outro como sofre-misérias.”
“Sim... Suicídio em que a ideia não é morrer mas sim partir, agir,
escapar.”
(...)
“O problema, para estes jovens, é a conjugação do medo e da
solidão. Esta criança poderia queixar-se e não o fez.”
Referia-se ao caso específico de dois adolescentes, um rapaz e uma menina que preferiram a morte!
Ele, porque tinha o cabelo ruivo e os colegas lhe tornavam a vida impossível com brincadeiras, humilhações, como matilha chefiada por cão raivoso; ela, porque na internet "correram" imagens que, ingenuamente, pusera no FB de alguém que considerava amigo - que não suportou ver, ridicularizada por todos, ofendida pelos comentários.
Ele, porque tinha o cabelo ruivo e os colegas lhe tornavam a vida impossível com brincadeiras, humilhações, como matilha chefiada por cão raivoso; ela, porque na internet "correram" imagens que, ingenuamente, pusera no FB de alguém que considerava amigo - que não suportou ver, ridicularizada por todos, ofendida pelos comentários.
imagem de Nouvel Observateur
Estes adolescentes preferiram a fuga, o aniquilamento do problema o qual não tinham coragem nem vontade de afrontar no aniquilamento de si próprios.
A morte por não suportar viver o quotidiano de ataque, de humilhação, de perseguição e de terror. Ou o desgosto de si próprio, frente às palavras que ferem, aos gestos que magoam psíquica e fisicamente. Uma tortura, afinal - à qual preferem a morte!
A morte por não suportar viver o quotidiano de ataque, de humilhação, de perseguição e de terror. Ou o desgosto de si próprio, frente às palavras que ferem, aos gestos que magoam psíquica e fisicamente. Uma tortura, afinal - à qual preferem a morte!
Faz parte do mesmo movimento destructivo do assédio, é o
mesmo protesto :“isto não me interessa". Neste caso, é o trabalho que é rejeitado. Opõem-se para existirem. O falhanço escolar é
uma maneira de triunfar da incerteza, de encontrar uma certa forma de poder,
esta droga humana por excelência. Prefere ser actor do próprio falhanço do que
sofrê-lo.”
- Soluções?
“Em vez de repetir: é assim, e não se discute”, melhor seria
tentar dar aos alunos o gosto de ir à escola, explicando o porquê dessaa
escola: “Tens um potencial afectivo e cognitivo que é a tua riqueza e que deves
realçar e que vai durar toda a vida. Aproveita-o. "
Robert Doisneau e "interrogação", 1956
Fala também da importância do olhar que se "tem" sobre os alunos, a mesma importância desse olhar para qualquer ser humano: o olhar de quem quer acreditar. Ou que acredita.
Que os pode ajudar a enfrentar o peso, evitando inclusivamente que um aluno-vítima se torne num perseguidor... Ou num assassino!
Que os pode ajudar a enfrentar o peso, evitando inclusivamente que um aluno-vítima se torne num perseguidor... Ou num assassino!
“Quem quer saber de mim,
dôtôrra?!”, perguntava ela. "Para que é que eu tenho de ser boa?”
E eu só lhe podia responder:
“Para mim. Eu gosto de ti Daý, eu quero que tu sejas boa...”
Concluindo: A violência não é uma fatalidade. Pode canalizar-se, controlar-se. Há iniciativas a nível local, nas escolas, ou a nível nacional, em certos países, que permitem obter resultados satisfatórios.
Entre outras:
- a mediação entre alunos em litígio- feita por outros alunos que fizeram uma aprendizagem, preparando-se para isso, numa sala própria: a sala de mediação (França);
- a ajuda personalizada dos alunos em dificuldades;
- a criação de cursos desportivos, ou musicais, com espectáculos e participação na sociedade da terra onde se situa a escola, tendo apenas como condição frequentarem os cursos depois dos tempos lectivos e inscreverem-se uma hora, na noite, para fazer os deveres (Canadá).
- a vigilância constante dos professores e educadores e auxiliares e pequenos cursos dados nas aulas prevendo essa violência, anulando-a antes de começar (Alemanha).
Para tudo isto são precisos efectivos nas escolas: gente que, em número razoável, possa entregar-se a essas tarefas. Em França, para a Educação vão abrir-se 60.000 lugares em 5 anos.
Concordemos, ou não, a verdade é que Jeammet faz uma abordagem séria ao problema.
Quantos adolescentes sofrem por essa insegurança inicial, essa dor de serem rejeitados: que os leva a ser vítimas. Ou carrascos.
P.S.1
Acabo de ler uma notícia no Facebook (no Conservatório de Lisboa)que refere um director de escola nos USA que, em 2010, trocou os seguranças por professores de arte! Era um aescola no Massachussets, classificada como uma das mais desordeiras e violentas. Hoje, o balanço é positivo, o nível de violência baixou consideravelmente e a escola é considerada com "bom nível de aproveitamento!"
Por isso, pensemos positivo e recorramos à Cultura, às Artes sempre que possível! Se, entretanto, não nos cortarem também a cabeça!
Concluindo: A violência não é uma fatalidade. Pode canalizar-se, controlar-se. Há iniciativas a nível local, nas escolas, ou a nível nacional, em certos países, que permitem obter resultados satisfatórios.
Entre outras:
- a mediação entre alunos em litígio- feita por outros alunos que fizeram uma aprendizagem, preparando-se para isso, numa sala própria: a sala de mediação (França);
- a ajuda personalizada dos alunos em dificuldades;
- a criação de cursos desportivos, ou musicais, com espectáculos e participação na sociedade da terra onde se situa a escola, tendo apenas como condição frequentarem os cursos depois dos tempos lectivos e inscreverem-se uma hora, na noite, para fazer os deveres (Canadá).
- a vigilância constante dos professores e educadores e auxiliares e pequenos cursos dados nas aulas prevendo essa violência, anulando-a antes de começar (Alemanha).
Para tudo isto são precisos efectivos nas escolas: gente que, em número razoável, possa entregar-se a essas tarefas. Em França, para a Educação vão abrir-se 60.000 lugares em 5 anos.
Concordemos, ou não, a verdade é que Jeammet faz uma abordagem séria ao problema.
Quantos adolescentes sofrem por essa insegurança inicial, essa dor de serem rejeitados: que os leva a ser vítimas. Ou carrascos.
P.S.1
Acabo de ler uma notícia no Facebook (no Conservatório de Lisboa)que refere um director de escola nos USA que, em 2010, trocou os seguranças por professores de arte! Era um aescola no Massachussets, classificada como uma das mais desordeiras e violentas. Hoje, o balanço é positivo, o nível de violência baixou consideravelmente e a escola é considerada com "bom nível de aproveitamento!"
Por isso, pensemos positivo e recorramos à Cultura, às Artes sempre que possível! Se, entretanto, não nos cortarem também a cabeça!
congresso sobre violência:
notícia no Público:
sobre o filme:
recordar a música...
P.S. 2
(1) Bullying é o termo inglês que se escolheu para designar esta violência, de "bully": “tiranete”. Tradução mais certa talvez "assédio" que hoje parece servir para tudo... Inclui sempre o uso da força física ou abuso da autoridade para pereseguir, vitimizar ou intimidar os outros, mais fracos.
(1) Bullying é o termo inglês que se escolheu para designar esta violência, de "bully": “tiranete”. Tradução mais certa talvez "assédio" que hoje parece servir para tudo... Inclui sempre o uso da força física ou abuso da autoridade para pereseguir, vitimizar ou intimidar os outros, mais fracos.
Pode querer também dizer: infligir
castigos ilícitos, psíquicos ou físicos.










































