quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Os Açores e a beleza do Paraíso Perdido...





Como falar da beleza dos Açores?

Com espanto, primeiro, e, depois, maravilhamento. E respeito por quem mantem as ilhas dos Açores tão bonitas!

As ilhas encantadas de que tão bem fala Raul Brandão no seu livro As Ilhas Desconhecidas (1926) surpreendem-nos!


Vim com os olhos cheios de cor, de azul, azul, azul. Diz uma publicidade que acho magnífica: “há o azul e, depois, há o azul dos Açores...”


E há o verde do mar e o suave azul-lilás, o azul-vivo, azul de chumbo dos céus ...
Há o azul do Porto Velho de Angra, o azul e o verde das lagoas das Sete Cidades, em São Miguel. 


Ou o amarelo-esverdeado das "lagunas-pauis", no Largo da Graciosa, enfeitadas com a sua barra cor de cereja, ao redor. 
as lagunas ou pauis


E as árvores! 

Aprendi nomes, de que só ouvira falar, ou nem isso: as araucárias, os metrosídeos, as criptoméreas, as dragoeiras  da Graciosa.

Muito ficou por ver, mas agradeço aos amigos que tanto nos fizeram ver em tão pouco tempo: o Paulo Monjardino, a Drª Lurdes Cunha, o Pedro Pascoal e o Nuno Costa Santos .

Conheci três ilhas: Terceira, Graciosa e São Miguel. E três cidades: Angra do Heroísmo, Santa Cruz e Ponta Delgada.

 Angra do Heroísmo


Praça Velha



Cinco horas de passeio contínuo em Angra, a começar pela Praça Velha, pela Rua Direita (ou Rua de Lisboa?) com as casas senhoriais coloridas, e lindas janelas.







Fomos descendo até ao porto, que fica perto da Igreja do Santo Espírito.


Depois subimos a Rua do Santo Espírito - que era a rua onde a minha filha viveu dois anos e onde toda a família a foi visitar menos eu, porque estava em aulas... Vida de professor nunca foi fácil, ao contrário do que se julga!

o porto de Angra

O deslumbramento esteve presente o tempo todo. A luz, a cor, as linhas, a calçada açoreana...


fachada lateral da Igreja



Depois foi a Graciosa, a Graciosa Ilha - e que bem que lhe fica o nome! É pequenina (a segunda mais pequena do arquipélago), perfeita e ... graciosa.


A delicadeza enorme, a beleza natural, o espírito de paz (lembrava-me muitas vezes da frase que alguém dizia: “Está-se na Paz do Senhor.” Ali era bem verdade! Parecia o Paraíso Perdido, o Shangri-La que todos ambicionamos encontrar...





As colinas vulcânicas, os cones, as furnas, as termas de água ferrosa do Carapacho, com o Ilhéu Gaivota e o Ilhéu da Baleia mesmo em frente.


A pedra vulcânica de tantas cores: a escória vermelha, a rocha negra, o basalto negro e o traquito esbranquiçado  que pode ter dado o nome  de Ilha Branca à Graciosa, nome que, aliás, Raul Brandão ajuda a espalhar. De facto há muita terminologia referindo a toponímia:  Serra Branca, Pedras Brancas. Além das casinhas e muros pintados de branco.


A diversidade geo-morfológica, as cores e peso e a densidade da pedra dependem do momento da erupção, da forma de solidificação da lava, da existência, ou não, de explosão e gases. Rochas vulcânicas, extrusivas, como me explicaram.
Confesso que não sei se percebi bem tudo!


Que importa saber a razão? A mistura é tão bela! E os verdes, as estevas, os musgos...


A paisagem diversa, menos verde do que a  das outras ilhas porque a Graciosa é mais seca, as plantações de milho, os currais da vinha, os “cercados”, os moinhos de vento, as pedras, as noras puxadas pelas vacas, tudo o que percebi melhor, ao visitar o Museu Etnográfico da ilha.

Uma amiga incansável, a Drª Lurdes, levou-nos ilha fora, a ver tudo: perspectivas, ângulos, explicando a cada momento a razão disto ou daquilo, porque, por sorte nossa, ela era uma entendida professora do assunto. 





(E as vacas que pastam, olhando-nos com olhos ternos??? Em São Miguel, uma parou mesmo á frente do carro, plácida e serena nem se desviou - desviou-se o carro...)


uma vaca filósofa, em São Miguel

termas do Carapacho

escória vermelha e areia ferrosa



o típico moinho da Graciosa,na praça dos táxis


vista das termas sobre os ilhéus


Dias depois, voámos para a ilha São Miguel, num pequeno bimotor, deixando a Graciosa para trás, mas com saudades. 

o bimotor da Sata e o trem-de-aterragem


E lá estamos nós, na cidade à noite... Ao pé das Portas do Mar, iluminadas a azul!


A Igreja Matriz


uma carroça "turbo": puxada por 4 cavalos!



E lá estamos nós, na cidade à noite, a ver o movimento na Marginal, as luzes, as gentes, o carrocel.

Tudo bem diferente da pequena Graciosa... Aqui, cidade mais cosmopolita. Encantadora. Cheia de magia!




luzes no porto...


Logo na manhã seguinte, a ver do alto a Lagoa de Fogo, lugar inesquecível, onde o Nuno nos levou, mais a Caldeira Velha - de águas quentes e ferrosas. Onde pensei que deveria ter ficado de molho umas horas...mas não pus lá nem o pé!

A Lagoa de Fogo



Lagoa de Fogo

Caldeira Velha


Ou a Ferraria e as Fajãs que parecem mãos pequeninas, no meio do mar, e que resultaram de uma erupção mais recente (quinhentos mil anos?).
As Fajãs

Ou, ainda, a Lagoa das Sete Cidades na cratera do vulcão. Duas lagoas, na verdade: a lagoa verde e a lagoa azul.

E as flores? As hortênsias azuis, rosa, lilás ou avermelhadas. O segredo das cores depende do que se puser na terra: um pouco de cal e ficam bem azuis, uns pregos para enferrujar e vem a hortência cor rosa (segredos das senhoras da ilha).
.



Ao lado, o Parque Natural com velhas árvores e outras pequeninas acabadas de plantar, a relva onde se fazem pique-niques. E as montanhas em redor e o céu todo à volta!

Depois, a  subida em espiral (?), girando pela estrada bem tratada, até ver os dois lagos, que, vistos de cima, impressionam mais: um verde, o outro azul. E ouvir as lendas que se contam...





Que maravilha a Lagoa das Sete Cidades! Por que se chamou assim? Porque se pensou que eram vestígios das sete cidades perdidas da Atlântida engolida pelas águas? 






Ou por causa das sete filhas do bispo que ali se refugiou e que, com  artes de magia, conseguia afastar os barcos, mergulhando a ilha em névoas profundas?







Conta-se que os portugueses conseguiram entrar e aportar ali, porque traziam nas velas a cruz de Cristo. Mentira? Verdade? Quem o sabe?

E a Vista do Rei onde se chega por um carreiro de terra batida que ora sobe, ora desce, rodeados de plantas maravilhosas, de trilhos espalhados pela montanha encantada!

A Vista Do Rei...

E de onde se avista o mundo da ilha e o mar em torno! Foi o rei D. Carlos quem terá dito, ao ver-se desdobrar aquele panorama: “Vista digna de um Rei”...




E sobre as cores dos lagos também há lendas... A da Princesa de olhos azuis que se apaixonou pelo pastor de olhos verdes e que, como em todas as histórias deste género, foram separados, porque o Rei não permitiu a união.

A Lagoa das Sete Cidades


De tanto chorarem, as lágrimas dos dois amantes transformaram-se em dois lagos. Um é mais pequeno, o outro é maior. A explicação é simples e irónica: “Bem, as mulheres choram mais...”

Fico por aqui, hoje. Há tanta coisa para vos contar! Volto em breve!




terça-feira, 6 de agosto de 2013

FÉRIAS, MAS COM LIVROS!!!


Pronta para partir (todos prontos!), deixo a minha lista de livros para férias.
Uns para distrair, outros para continuar a pensar...
Andei pela estante a escolhê-los. Felizmente, desta vez tive ajuda!




Lá vão na mala os policiais. Desta vez levo apenas três: um romance da velha Vampiro, maneirinho e que vai mesmo na malinha de mão para ler durante a viagem... 

Os outros são da Tana French (já recebi em oferta mais dois!).




Depois levo  mais uns livros “sérios”, alguns já começados:

O Diário da Rússia, livro encantador de John Steinbeck, um livro bom sobre um povo bom;


Levo o livro de Robert Antelme (resistente francês e anti-fascista esteve em Dachau e Buchenwald; foi marido de Marguerite Duras)“A espécie humana” – livro terrível que nos fala na dificuldade de continuar a pertencer à espécie humana num campo de concentração. 




Sim, porque tudo se vai perdendo e é esse agarrar do “ser”, da essência de cada um, no que é ainda “humano” que (alguns) prisioneiros dos campos tentam manter. Contra tudo, contra todos, contra si próprios tantas vezes.



Bem, pensando bem, não o levo para férias, deixo-o para o Outono... 
Foi um conselho do Ratinho que me disse que eram férias, mais valia ler com outro espírito. O Ouricinho esse achou que o Outono era um bom momento. Fiz-lhes confiança!

Então, decidi que levo “Ema” da Jane Austen! Que bom ter um livro dela para ler!

Então, adeus! Como diria Manuel Bandeira:

Vou-me embora para Pasárgada/ lá sou amigo do Rei”

Não, vou só aos Açores, e não sou amiga do Rei que não existe nenhum, mas tenho por lá bons amigos!...


Açores, Ilha Graciosa

Até à volta, amigos!

PARTO, MAS VOLTO!


Pois é, parto mas volto depressa. O destino são as Ilhas dos Açores – duas ou três, só. Mas chega porque dizem que são lindas: Terceira (de passagem, para espreitar a Rua do Espírito Santo onde a minha filha viveu dois anos!);Graciosa e São Miguel!!


Imagem de Angra do Heroísmo
Depois, vou à Graciosa;


Carapacho
Vacas da Graciosa! Que estão, atentas,  pelos Açores todos!


E, depois ainda, São Miguel!! A bela Ilha de São Miguel!


Caldeiras, Lagoas gémeas


As Ilhas Encantadas de Raul Brandão que tem páginas extraordinárias, quadros de palavras sobre São Miguel.


 A terra de Antero de Quental, o maravilhoso e terno e desesperado Antero! 


As terras por onde andou Garrett (que em criança viveu lá  7 anos e depois voltou...) com o exército revolucionário de D. Pedro, de onde saíu em 1832. Por onde passou Alexandre Herculano e Castilho. 

E Vitorino Nemésio que foi meu professor na Universidade.

E Armando Cortes-Rodrigues, o Violante de Cisneiros, seu criptónomo, com o qual escreve no Orpheu.


Do qual deixo este poema que achei lindo...

A voz do Silêncio

Silenciosa,
A noite calma,
Ó quantas coisas
me diz a alma!

Cessai, ó fontes
A ladainha;
Deixai a noite
Falar sozinha.

Quanto mistério,
Quanto segredo,
No ar perpassa

Como que a medo.

* * *

Depois conto tudo o que vi, está prometido!

domingo, 4 de agosto de 2013

Falando do Alentejo, pelos versos de um poeta...


Manuel Ribeiro de Pavia, Alentejanos (1946)

Van Gogh e as searas


Searas de trigo louro
Que o sol fecunda e aquece.
Cada aldeia é um tesouro,
Quem as viu, nunca se esquece.

 (poeta Manuel Parente Trindade)



Sim, é um leitmotiv meu, uma mania,  falar do Alentejo. Os anos que lá vivi marcaram a criança e adolescente que fui. Viajei por lá, nessa altura? Muito pouco, pois o meu pai não tinha carro.

Porém, vi muito na minha cidade e habitei em montinhos, andando pelos campos, com os meus tios. E com eles conheci outro Alentejo bem mais a Sul de Portalegre. Conheci montes e vales, vi terrinhas brancas de risca azul. Vi os alentejanos sentados no Largo.
Café Marquês, Porto Covo (MJF)

Venho falar de um poeta do Alentejo. Um amigo, que conhece bem o Alentejo, emprestou-me o seu livro. Não sei de onde vem, nem onde viveu mas “canta” o Alentejo.

Chama-se Manuel Parente Trindade e chamou “Alentejíadas” aos seus versos. São “Cânticos ao Alentejo”. 

Manuel Trindade (foto do Facebook)

Van Gogh e um campo de papoilas

Cantar em verso o Alentejo, à maneira do grande Camões, e por que não?

"Camões poeta genial
Amaste as musas do Tejo.
Tu cantaste Portugal,
Eu vou cantar Alentejo.”

E assim começa o seu canto:

Alentejo imensidão,
Chão bendito, espaço santo,
Minha Pátria, meu torrão,
Escuta os versos que te canto.

E tudo vem, atrás, desde a proposta para um passeio:

Vem comigo passear
Por esse Alentejo fora,
Há serra, planície e mar,
Sente-se o sol a queimar,
Vamos ver romper a aurora.”

Manuel Trindade escreveu os seus poemas e publicou-os (Oficinas Sograsul). No final, com certa ironia, muito alentejana, termina:


Até si, caro leitor,
Levei a minha ilusão,
Fui poeta e editor;
Diga: se gostou ou não?!...”

Não resisto a copiar um pouco da sua Introdução:


Neste Portugal, situado onde o mar acaba e a Europa começa, há uma enorme planície que ocupa, aproximadamente, um terço do seu território, a que chamam Alentejo. Ali, as coisas são diferentes.
A abóbada celeste junta-se à terra, numa linha horizontal, e o observador que se situe em qualquer ponto da referida planície é como se fosse o eixo de uma enorme cataplana, vendo até perder de vista de todos os lados. (...) 
Portugal é todo ele um país de contrastes e lindo de mais (...) porém não me levem a mal por eu, como bom alentejano que sou, achar que no Alentejo as cidades, as vilas, as aldeias, os montes e os campos têm um encanto especial e são diferentes do resto do país.”

Penso que  os meus leitores me perdoarão o desabafo de “boa alentejana”:

Sim. Ali, as coisas são diferentes...E parece-me sentir o vento soão trazer-me coisas que não esquecerei nunca. Ora ouçam...

Portalegre, "Rua Direita", de Faty Bernardo

Pôr do sol em Portalegre, de José Fernando

Portalegre e a Corredoura (MJF)

"Diz-me lá, ó Portalegre:
Por que corres encosta acima?
Feliz, vaidosa e alegre,
Diz-me lá, ó Portalegre:
Qual a força  que te anima?

Por que te vestes de chita?
Nas Festas dos Aventais
Se tu já és tão bonita,
Por que te vestes de chita
Queres ser ainda mais?”

Ou a voz dos "malteses", de quem tantas histórias ouvi contar.

"Sou um Maltês dos antigos
Durmo debaixo das pontes,
Os lobos são meus amigos,
Repartem comigo aos montes."

Aguarela de Carlos Madeira "Trecho alentejano"

Ou as "cantigas que o povo canta" e os lugares que conheci...

"Portalegre, terra alegre,
Dá de comer a quem passa,
Mas se não levares dinheiro,
Nem água te dão de graça.

Alegrete, ramalhete,
já meu peito foi teu vaso,
Tens agora outros amores
Já de mim não fazes caso.

Alentejo não tem sombra,
Se não a que vem do céu
Abriga-te aqui amor
À sombra do meu chapéu."

Ou uma voz antiga evocar a campina alentejana...



"No Alentejo a campina
Tem algo de diferente,
Cheira a feno e a resina
O sol é muito mais quente.

Tem o caminhos do sul
Por entre terras lavradas
Sob um extenso céu azul,
Soam cantigas passadas."


paisagem alentejana (MJF)

E tantos outros poemas que falam de Manuel da Fonseca, como Carta a Manuel da Fonseca, poema dedicado ao romancista de "Cerromaior" (a capa do livro é do pintor Ribeiro de Pavia), Manuel da Fonseca que tão bem falou da dura realidade alentejana, dos ganhões, dos malteses, dos latifundiários, dos trabalhadores e da terra que não lhes pertencia...

Fala de Florbela, de Vila Viçosa e de Elvas, de Estremoz ou da Ouguela, das mulheres alentejanas, das ceifeiras e  das papoulas mais  as abelhas e do ciclo do trigo. Tudo isso é o Alentejo!
Manuel Ribeiro de Pavia, Ceifeira



Manuel Ribeiro de Pavia, figura feminina

Sem esquecer as anedotas alentejanas - das quais ri, bem humorado, como bom alentejano.

paisagem alentejana (MJF)

Poemas que estão cheios da terra alentejana. 

À pergunta que o poeta põe “Diga: se gostou ou não?”, respondo que gostei e que valeu a pena publicar o livro! 

Levou-me ao meu Alentejo, fez-me sorrir, enternecer. Obrigada, poeta do meu Alentejo!