domingo, 26 de janeiro de 2014

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A Barreira Invisível ou para Além da Linha Vermelha? Filme de Terrence Malick a ver...ou rever!






Quem é Terrence (Frederick) Malick?  É um realizador americano,  guionista e produtor. Nasceu em Ottawa, no Illinois, em 30 de Novembro de 1943. Trabalhou com Arthur Penn.

Estudou em Austin, na Episcopal Escola de St Stephen. Mais tarde, estudou filosofia na Universidade de Harvard, onde foi aluno do filósofo Stanley Louis Cavell, Mestre e Professor Emérito de "Filosofia e Estética" e "Teoria Geral dos Valores", desde 1963. Malick licenciou-se, “summa cum laude” e Phi Beta Kappa, em 1965. 

Vai para Oxford fazer o Doutoramento, no Magdalen College - que não termina por desentendimento com o orientador, o Professor Gilbert Ryle, sobre certos conceitos do mundo em Kierkgaard e Heidegger. Deixou a Inglaterra e voltou para os USA onde ensinou No Instituto Técnico do Massachussetts e publicou artigos no Newsweek e no New Yorker.

Interessa-se pelo cinema e é protegido do grande Arthur Penn.

Arthur Penn

O primeiro filme de terrence Malick é Badlands, de 1973, e o segundo de 1978, intitulado Days of Heaven.

O terceirosai passados mais de 20 anos é The Thin Red Line "Barreira Invisível", de 1998. Em 2011, saiu o último filme A Árvore da Vida.




O filme de que vou falar porque o vi há dias- é The Thin Red Line - Barreira Invisível, em português, e Além da Linha Vermelha,  no Brasil. Baseia-se na história do livro homónimo, de James Jones, que também escreveu “Até à Eternidade”, outro livro levado ao cinema.




Fala de um episódio da Guerra do Pacífico, passado no arquipélago das Ilhas Solomon, em Guadalcanal, e da carnificina entre japoneses e americanos perto do rio que atravessa a ilha. Apresenta uma visão crítica dessa realidade. 

É uma interrogação sobre o sentido de morrer e de matar. Penso que para o realizador importou mais revelar o estado de espírito dos que participaram (e participam) na guerra. Com imagens fortes, com imagens belas, mas a falar do impensável! Do crime: matar, morrer...

É um filme do espanto e da destruição interior onde cada um está isolado na sua angústia e no seu terror. 


O espanto dos jovens soldados, quando matam o primeiro inimigo, é terrível.
"Matei um homem!", dizem sem ter a noção do que fizeram mas chocados já por o terem feito.

Guadalcanal, 1942

Honiara, capital de Guadalcanal, hoje

Dois soldados desertores refugiam-se numa das ilhas da Melanésia. Um deles é soldado Train, o outro o soldado Witt. 



As imagens de esplendor,  das cores límpidas, na suavidade das águas do rio, do mar, nos pássaros curiosos, nos pequenos animais da floresta que parecem olhar o homem sem o compreender são vividas por Witt.



É o retorno ao paraíso perdido? A transparência das águas onde mergulha com as crianças da ilha, a sensação de tudo ser possível ainda. O soldado ouve, vê, nada, brinca com as crianças nativas. Observa os seus hábitos simples da gente que vive na aldeola, sorri.



Não dura muito: é “recuperado” pelo sargento Welsh que o leva “de regresso” à guerra que ele não queria fazer e ao futuro desgraçado que os espera a todos...


A guerra onde vão mergulhar: que traz o horror,  a morte, a incompreensão da dor, do matar e morrer, sem sentido. Das mentiras, dos ambiciosos que querem uma promoção, dos que sonham com a carreira. E o sangue, a morte, os gritos, as chamas rodeiam-nos. A angústia e a incompreensão ligam-se. Interrogam-se, alguns ainda quase crianças.


Por que morrem? Quem sabe por que estão ali? Por que estão juntos?

A voz do soldado Train, em off: “Quem é este que vive comigo? Irmão, amigo. Escuridão e luz. Luta e amor. Traços de um mesmo rosto? Oh, minh’alma. Deixa-me estar contigo. Olha por dentro dos meus olhos. Olha as coisas que fizeste. As coisas a brilharem...”

James Caviezel, o soldado Witt

O espanto do soldado Witt, que tinha encontrado um paraíso e o perdera, é enorme. 


“O mal. De onde veio? Como se instalou no mundo? De que semente, de que raiz  nasceu? Quem é que faz isto? Quem nos mata? Roubam-nos a vida e a luz.” (...) Será que a nossa desgraça beneficia a terra Ajuda a erva a crescer, o sol a brilhar? E esta escuridão dentro, sente-la tu também? Passaste por isto?”

Cada um lembra o que mais amou: a mãe a mulher que ficou para trás, a infância longe daquele inferno. Haverá um retorno? Voltarão a ver-se?

o inferno de Guadalcanal

O oficial japonês também pergunta qual o sentido da vida, enquanto o humilham.

Batalha de Guadalcanal, soldados japoneses mortos

Tens razão tu? És um justo? És bom? És amado por todos? Eu também era. Imaginas que o teu sofrimento seria menor só porque amaste a bondade e a verdade?”
um rosto enterrado, que importa quem foi? 

Jack Bell, o aterrorizado soldado Bell, pensa: “Sim, o amor. De onde vem? Quem acende esta chama cá dentro? Nenhuma guerra o pode tirar, ou conquistar. Eu estava preso, o amor libertou-me.”


Adrien Brody, o soldado Bell

Por vezes o sargento Welsh e o soldado Witt conseguem falar. O diálogo é sempre muito rico, cheio de sensibilidade e verdade. Falam da guerra, da solidão, da desilusão e da esperança.


Umberto Boccioni, "La Guerra"

desembarque dos fuzileiros

Encontrei parte desses diálogos (*) na internet, e são importantes para a compreensão do filme. Malick não estudou filosofia por acaso: tudo o que pertence ao Homem, à sua natureza, ao amor de saber os porquês de tudo é inesgotável e quer saber, quer entender mesmo o inominável.




Sargento Welsh (o actor Sean Penn):  Um homem sozinho não é nada neste mundo. E não há outro. Ninguém se salva sozinho.

Soldado Witt:  Alguma vez se sentiu só? Todos procuramos a salvação sozinhos.

Welsh: Não há outro mundo onde tudo se arranje, depois. Só temos este, esta rocha.

Witt: Eu vi outro mundo (na ilha). Às vezes penso que só o imaginei.



Encontram-se? Desencontram-se? O diálogo continua, entrecortado, enquanto a guerra e o horror passam por eles.

Witt: Talvez os homens façam parte de uma só alma, todas as faces pertençam a uma só.
Sean Penn, o sargento Edwurd Welsh

Welsh: Que diferença pensas que isso faz? Um homem nesta loucura toda?

Witt: Como é que perdemos todo o bem que nos foi dado? Deixamo-lo ir embora devagarinho. Dispersar-se livremente.

Witt vai continuando, sempre de olhos abertos, a querer perceber o porquê. A segurar a mão do soldado que morre ao seu lado, a ajudar os outros a morrer, de olhos fixos nos dos outros. Para não estarem sozinhos? Uma forma de companhia - ou de compaixão - o sentido da palavra em latim cum+patire: sofrer com alguém...


Quando poucas esperanças restam, e a morte ronda, o sargento Welsh perguntará: 

"Onde está o brilho que vias em mim? Por que arranjas sempre tantos sarilhos, soldado Witt?"

Witt limita-se a fixá-lo, com o seu olhar límpido:

" Preocupa-se comigo sargento? Sempre pensei que sim. Uma casa vazia. Alguma vez se sentiu sozinho?"

Welsh responde: "Só quando estou acompanhado." 

E Witt repete: "Só acompanhado..."

Welsh fala-lhe do que sempre estranhara ouvir dizer-lhe: ver "nele" um brilho, uma luz, uma espécie de aura. 

"Ainda acreditas na tal luz? Como podes acreditar? És um ser mágico para mim..."

Witt diz simplesmente: 

"Sim, ainda vejo um brilho em si, sargento..."

Quase no final do filme, no barco dos que sobreviveram, o Sargento Welsh medita no sentido daquilo que viveu. Sente a mentira em que foram envolvidos, os interesses de todos que não são os deles.

 “É tudo uma mentira. Tudo o que ouves, tudo o que vês. (...) Vão chegando uns  atrás dos outros. Estás fechado numa caixa. Uma caixa que se move. Querem que morras. 
Nick Nolte, o capitão, e John Travolta, o coronel Tall

Ou que entres na mentira deles. Um homem só pode fazer isto: encontrar uma coisa que seja nossa e transformá-la numa ilha.  Se nunca te encontrar nesta vida, deixa-me sentir a falta; um olhar  teu, e a minha vida pertence-te.”


Não estamos sós? Basta acreditar?, ter um olhar que nos espera no momento decisivo? 

A última imagem do filme, um coqueiro a nascer dentro do rio, é uma imagem de esperança...

Filme muito bem feito, que nos interroga. Com James Caviezel, Sean Penn, Ben Chaplin, Nick Nolte, Elias Koteas, John C. Reiley. Grandes actores!

Encontrei dois artigos bons sobre o filme:






quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O Suave Rabi Hillel... (in "Pirqe Abót")



Chagall, "O Rabi pensativo, com a Torah"

Em poucos livros religiosos como no "Pirqe Abot (A Ética dos Pais)" encontro a paz e o entendimento de mim e daquilo em que acredito. 
Páginas maravilhosas sobre a nossa responsabilidade na nossa vida, para com os outros, de observação de nós próprios para não sermos nós os que trazem a dor, para sermos nós a saber perdoar, para sermos nós a valorizar e não a destruir.

O que não impede que me encantem certas passagens dos Evangelhos, sobretudo o de São João, ou dos Salmos, outra das minhas leituras de cabeceira.


Tenho na minha gavetinha, ao lado da cabeça, um volumezinho dos Salmos, que me foi oferecido em Israel pelo Manuel, quase uma miniatura, onde vou procurar, abrindo ao acaso, o salmo do meu dia.

No entanto, sou ateia, ou julgo sê-lo: a não ser que a religião seja a da justiça, do bem comum, da compreensão, do amar e do não-julgar os outros, enquanto não nos virmos na situação deles. 

Marc Chagall, "Rabi no Sukhot"

Aquela religião em que se procura que a vida e a morte sejam ambas parte da dignidade a que o homem tem direito. 

Leio no Pirqe Abot, hoje, e procuro nas imagens que Chagall nos deixou de vários "rabinos", a inspiração.

Rabinos como o Rabi (ou Rabino) Hillel - que diz: 

Ama os outros, não te afastes da comunidade, não respondas por ti antes do dia da tua morte. Não julgues o teu próximo até te encontrares na sua situação” (Cap. II, 5)

o "suave rabi" de Pietro Lorenzetti, "Deposição da Cruz"

 Sim, o doce Hillel que eu admiro  disse-o: Hillel que que me lembra o “suave Jesus” que sabe perdoar e ajudar de que falou Eça nos seus Contos


Leonardo da Vinci, "Última Ceia", antes do restauro (pormenor)


Hillel, que defendeu a paz e a justiça, dizia:

Procurai ser discípulos de Aarão, amai a paz, procurai a paz, amai a humanidade e exortai-a ao estudo da lei Divina.” (Cap I, 12)

O Rabi que recusa a vingança, que previne os que matam o seu semelhante de que serão mortos por isso mesmo. Ao ver um crânio sobrenadando um rio, disse:

Um Van Gogh invulgar: "Caveira a fumar"

Porque afogaste outras pessoas, foste afogado, e quem te afogou virá também a ser afogado”. . (Cap II, 7)

Não por vingança, mas por justiça.

Marc Chagall, "O Rabi com a Torah vermelha"

O Rabi  Hillel, o justo Hillel,  que aconselha que se siga a ciência, o estudo, e que dá estes conselhos, ainda hoje modernos e fundamentais:


“Muito, estudo, muita ciência; muita prudência, muito entendimento; muita justiça, muita paz.” (Cap. II, 8)

Serei ateia? Pouco importa. Sei que uma religião que não seja a da recusa ou da exclusão do outro,  do ódio e da inveja, do poder de um sobre o outro, da recriminação e do castigo, essa eu aceito.
Chagall, "Árvore da Vida com cabrinha e Poeta"

A que seja a do abrir-se ao outro, abrir-se ao conhecimento da vida, deixar para trás a vingança e a ignorância, ensinar os tímidos que não aprendem, não ser presunçoso a ensinar, essa eu aceito.
Chagall, "Rabi e a Torah, em campo amarelo"

 Tanta coisa séria nos ensinam estes livros! Continuo com o Rabi Hillel:

"Aquele que quer muita celebridade, perde a que já tem; o que não aumenta os seus conhecimentos, diminui-os; quem não se quer instruir não é digno de viver. (...)” 

Chagall, "Rabi a estudar a Torah"

Somos irresponsáveis quanto ao nosso destino? Não! Ele fala da  responsabilidade que cada um tem na construção de si mesmo - em vez de deitar as culpas ao outro, como tantas vezes fazemos... Pensar:

 “Se eu não for por mim quem será por mim? E se eu não tomar conta de mim, quem sou eu? E se não for agora, quando será? (CAP I, 13)
Chagall, "Lamentação de Jeremias com a Torah"

“O idiota não teme o pecado; o ignorante não pode ser verdadeiramente devoto; o tímido não aprende; o irascível não ensina; os que se deixam absorver pelo comércio não adquirem a ciência
.”

Marc Chagall, "Rabbi" (litografia)

E conclui, apontando a Ética, que todos deveriam - deveríamos!- respeitar:

“ Onde não houver homens, procura ser homem.” (Cap II , 6) Ou Poeta...

Marc Chagall, "Aldeia Russa, ao luar"

 Fico-me hoje  pelo Rabi Hillel, mas muito haveria a dizer sobre a Ética! Aqui e noutros lugares. O importante é não ficarmos calados! Tentarmos subir um pouco: nós e os outros...

Chagall, "A Escada de Jacob"


(*) “PIRQÉ ABÓT, A ÉTICA  DOS PAIS”, traduzido do hebraico por Moses Bensabat Amzalak, lisboa, Imprensa Nacional, 1927


(**) O Rabino Hillel (60 aC- 9 eC) foi um famoso cabalista, uma das figuras mais importantes da história de Israel. Viveu no tempo de Herodes. Está associado ao estudo do Talmud e da Mishnà. Considerado um grande sábio e estudioso, foi o fundador da Escola de Hillel (Escola para Tannaïm, ou Sábios da Mishnà).

http://www.mycrandall.ca/courses/ntintro/lifej/PDFReadings/Abot.pdf