sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

JACQUES BREL QUAND ON A QUE L'AMOUR



Aqui vai uma mensagem de esperança para o fim de semana. Creio que Jacques Brel acreditava no que cantava, por isso o escolhi! 

Marc Chagall e o Amor

Já agora uma frase anónima - e optimista:
"Um quarto da nossa vida é feita daquilo que se nos depara, os outros três quartos são feitos por  aquilo que escolhermos em face disso..."


"Quando só há o amor para "falar aos canhões" 
e quando uma canção 
pode convencer um tambor...


Então...
Sem mais nada se não a força de amar, 
Amigos, teremos nas mãos o mundo inteiro!"

(...)
"Quand on n’a que l’amour
Pour habiller le matin
Pauvres et malandrins
De manteaux de velours

Quand on n’a que l’amour
A offrir en prière
Pour les maux de la terre
En simple troubadour

Quand on n’a que l’amour
À offrir à ceux-là
Dont l’unique combat
Est de chercher le jour

 Quand on n’a que l’amour
Pour tracer un chemin
Et forcer le destin
à chaque carrefour

Quand on n’a que l’amour
Pour parler aux canons
Et rien qu’une chanson
Pour convaincre un tambour

Alors sans avoir rien
Que la force d’aimer
Nous aurons dans nos mains

Amis, le monde entier!"



Jacques Brel, 1963



domingo, 16 de fevereiro de 2014

O mundo de hoje...Que desgraça!


Jean Metzinger, "Pássaro Azul" (1912)

A juventude que parte, é um problema insolúvel? Não sei, não posso adiantar uma resposta, não tenho os dados necessários para fundamentar uma opinião.

Mas sei que partem à procura do "pássaro azul", ou apenas do simples "pão" - e nunca mais voltam à terra – a "nós". 
Frederick Watts, Retrato da mulher, Ellen

Ao país que é nosso e que precisa deles, do seu saber, para não desaparecer no matagal da ignorância, do pasmo desistente e quase embrutecedor dos que vão ficando.

Sim, dos que ficam e não se atrevem a exigir mais, dos que ficam e, com receio de tudo perder, aceitam todos os trabalhos, aceitando a humilhação dos ordenados vergonhosamente baixos.
Porque as lojas vão desaparecendo, uma a uma e nada é seguro como trabalho.


Dos que ficam, jovens licenciados, “caixas” nos supermercados, pagos abaixo de todos os preços decentes, com um horário de trabalho que excede as horas devidas, muitas vezes a limpar, a varrer e a lavar o local de trabalho, saindo perto da meia noite. 


Locais onde o "patrão-dono-empresário" os emprega “também” como funcionários de limpeza sem lhes pagar mais por isso.

Algures, em Inglaterra, as lojas não fecham.

"Eu se, tu sabes, ele sabe, nós sabemos" ... podíamos conjugar o verbo todo! Mas ninguém diz nada, a começar pelos próprios empregados que preferem nem falar nisso.

Queixam-se, mas depois pedem-nos: “Ah, não diga nada, ainda seria pior, porque perdíamos o lugar. Aqui ainda ganhamos o ordenado mínimo.”

Ou menos do que isso, também sabemos todos. Ter um trabalho, nos dias de hoje,  é um luxo e não um direito. E, por essa razão, torna-se mais fácil explorar os que têm necessidade de trabalhar...

Uma loja ainda aberta...


... numa cidade em que, na rua principal,  tudo fechou: Portalegre!

O desemprego mete medo, é uma avalanche que não pára de rolar! O trabalhador não conta, não tem direitos...



E não se rebelam?, aceitam tudo? Sim. Porque não têm outro remédio. Têm que ajudar com "alguma coisinha" os pais que os albergam, têm de comer, e assim ainda podem ir pagando a prestação do carro, comprado em tempos melhores. 

A vida transformou-se numa partida de xadrez, sem solução nem fim, com o futuro...

Vieira da Silva, "Partida de Xadrez"

Ou, então, começam a acalentar no peito o sonho de partir... E pensam, pensam. E fazem contas. E...fazem-nos tanta falta cá!, repito.

Renoir, "La Grenouillère"

"Pensador", de Raul A. Marques

Desemprego. Desespero. Desigualdade. Desistência. Exclusão. Humilhação.  Injustiça.

Só acontece por cá? Não. Sabemos que é um “movimento global”. Li no jornal Le Monde, a propósito da França, o seguinte que nos serve como uma luva:

 “Dum lado, temos a 'élite' mais bem formada do mundo (sic, a francesa claro), e, por outro lado, vamos fabricando a exclusão no emprego. O sistema educativo reprodutor de desigualdades sociais, tem uma parte das responsabilidades. (...) Ela (a escola) parece reproduzir gerações de excluídos ou de exilados. Tudo em detrimento do que deveria ser: o viver juntos, com um destino colectivo.” (editorial do Le Monde de 7 de Janeiro deste ano).

O belo quadro de Abel Salazar "Galleries Lafayette"

Faço minhas estas ideias e continuo a não compreender: se se fabricam gerações de sem esperança, de excluídos – ou de exilados- então alguma coisa está mal...

George-Frederick Watts, "Pobreza"

Como podemos acreditar ainda num mundo que funciona assim? Ter esperança?


Frederick Watts, "Esperança"

Não seria o momento de se pôr em questão este modo de organizar a sociedade, por  "exclusões" sucessivas.? E tentar repor, conquistar, exigir a tal possibilidade da harmonia desse "viver juntos"? Ter uma família? Ser-se ...normal?

Auguste Renoir, "Crianças" (1884)

Desse tão difícil "destino colectivo"? Ou, apenas, justo? O desespero é inevitável?

Jean-Jacques Henner, "Desespero"

Os "Iron Maiden", Solidão


Ser optimista ou pessimista? Ouçam Madeleine Peyroux, neste domingo: "Half The Perfect World"

"O sol está a chegar! É Verão!", pensou o Ouricinho... 

O Ouricinho é optimista! e eu também...E Shimon Peres também. Vamos a isso: ser optimistas e viver de outra maneira! Vamos deixar para trás os profetas das desgraças??? Muito depende de nós próprios: podemos escolher tantas vezes!

O sol está aí...

“Como ser-se pessimista? Eu sou optimista. Reparem que dobrámos a esperança de vida, melhorámos os níveis de alfabetização, realizámos descobertas tecnológicas, curámos doenças. Coisas que mais pareciam ficção científica há dez anos atrás fazem hoje parte da nossa vida quotidiana. A história não anda para trás; não temos outra escolha se não avançar. No fim e ao cabo, os optimistas e os pessimistas morrem da mesma maneira, mas vivem de maneiras diferentes. A história é optimista”...

 (Nouvel Observateur, de 30 Janeiro-5 Fevereiro, entrevista a propósito do livro recentemente publicado de Shimon Peres e Jacques Attali "Avec nous, après nous", Fayard).

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Bom Dia de S. Valentino com Simenon: mas afinal o amor não é eterno como nos livros de histórais?


Tantos livros que li, na minha vida! Talvez seja uma "livro-dependente", palavra que se devia ter já inventado. Ou biblio-dependente?


Livros de Salinger, em Paris

Não posso imaginar a vida sem livros. Aprendi neles quase tudo, cresci com eles, adolescente chorei com eles, ri com eles. Casei e continuei com eles, tentei transmitir o gosto aos meus filhos. Vou envelhecendo com eles, pode-se dizer...

Livros na minha casa...

Livros na Livraria Galileu

Li há pouco tempo uma frase mas esqueci quem a disse e tornei-a minha, modificando-a: a vida é um grande rio de livros, que flui até à morte...


Ando à volta com uma novela tremenda de Simenon: Le Chat. Abro e fecho o livro. Agora arrumei-o por uns tempos na estante.

Romance duro, sem piedade, sem comiseração: a vida a fluir, nua e crua, na sua desgraça e no ódio que às vezes separa as pessoas, mesmo quando se amaram.  


Georges Simenon

Era a matéria dos seus romances "duros" como ele lhes chamava. Simenon é um dos meus escritores preferidos - e não falo só dos romances policiais com o Comissaire Maigret. 


Das Obras Completas, Tout Simenon, da editora Omnibus, tenho  mais de 15 volumes! 

Com os livros de Georges Simenon, aprendi a ler francês e a saber falar a língua. Na Universidade, os Maigrets eram as minhas leituras para me acostumar e poder entrar noutros romances com linguagem mais difícil. Era coloquial, acessível, escrevendo muito bem, no entanto: sempre perfeito! André Gide apreciava-o muito, e Gide apreciava a forma.


Outras histórias como "Quartier Nègre", "45º à L'Ombre", "Les gens d'en face"  são inesquecíveis: de amor, de solidão, de egoísmo, de infelicidade, de vidas destruídas. 



Simenon amou muitas mulheres, "conta" a biografia dele e os livros íntimos. Dele e sobre ele tenho quase tudo. Não sei se, no seu enorme egoísmo, ele amou alguém...




A história de que vou falar é banal. Emile era viúvo, e um dia decidiu casar-se com Marguerite, também viúva. Ela aceitou. Tinha medo de viver sozinha. Creio que, acima de tudo, foi o "comodismo" da relação que lhes interessou. Ela era uma viúva ainda nova e ficou contente por se "arrumar" e não ter de pensar em ser ela a trazer a lenha para casa, no Inverno, ou despejar o balde do lixo todos os dias. 
Viúvo, ele também, precisava de alguém que lhe pusesse a casa em ordem e cozinhasse. Dividiram as tarefas...

Hoje, velhos, encontram-se num frente a frente quotidiano  onde o autor vai fazer ressaltar sobretudo o ódio e a insuportabilidade do “outro”



O autor escreve, a propósito dela:

"Marguerite era doce, quase suave. Imaginava-se a sua figura jovem e esbelta, uns anos atrás, já nessa altura vestida de cores pastel, com um grande chapéu de palha na cabeça, passeando, de sombrinha na mão, à beira do rio".



Mas a juventude passou. "Tudo passa, tudo esquece, tudo cansa", diz um velho ditado. 


Num dia de Novembro, estavam os dois sentados ao pé da lareira. Ele, com o jornal aberto, ela com o tricot no colo, na poltrona baixinha. E assim começa o livro.

"Olhavam-se, espiavam-se. Não precisavam de se olhar. Há anos que se observavam assim, dissimuladamente, trazendo todos os dias a este jogo novas subtilezas."

Ele tinha um gato. O gato estava sempre entre eles. "Se não era de raça, não deixava de ser um gato com bom aspecto. O corpo elegante, flexível esticava-se ao longo das paredes e dos móveis com o corpo de um tigre."

Ela tinha um papagaio colorido que lhe saltitava no ombro, assim que o tirava da gaiola. "Uma arara grande de cores brilhantes que nunca falava mas que, quando se zangava, dava gritos estridentes.

E eles viravam-se as costas. Durava há quatro anos esta situação. Desde que o gato morrera... Ah! Sim, porque, entretanto, o gato desaparecera! 

Ao encontrar o corpo sem vida do gato, na cave onde ela ia buscar o vinho - depois de o chamar ternamente- ele culpa-a da morte do gato. Envenenaste-o?!” 


Nunca saberemos se ela o envenenou. Encolhe os ombros e não lhe responde. 
O desabafo dele não era  pergunta, era uma afirmação. E nunca mais lhe dirige a palavra. De tempos a tempos, escreve-lhe um bilhetinho com duas palavras "o gato".

Dias depois,  é o papagaio que aparece morto. Marguerite não o censura nem acusa.  Mas quando ele escreve no papelinho  "o gato", ela responde baixinho "o papagaio". 

E assim se passam os dias. Ele sai para ir ao café, ela vai às compras, prepara o jantar e senta-se na eterna poltrona, a tricotar. As vidas deles vão-se esvaziando de sentido, como um boneco cheio de ar. Ouve-se o barulho das agulhas de tricotar, a lenha a crepitar na lareira e mais nada. 



Fora bela e jovem, Marguerite, e ele fora interessante, tivera tantas mulheres, interesses.  



E agora? Agora, os corpos envelheceram, e o sentimento gastou-se? É  o que ambos não perdoam ao outro? Quem sabe? Simenon não fala disso, limita-se a pô-los em cena. 

A verdade é que, se ele era prepotente e rude, ela era uma avarenta. E havia entre eles uma grande diferença social: Marguerite era filha de proprietários rurais, Emile tinha sido pedreiro. 

Teria sido a desilusão, a amargura, ou desgosto das pequenas coisas? Mon amour, c'est le désamour, cantava Leny Scudero. 

O romance fala, sobretudo, de ressentimento - e de ódio também. Um ódio que vai durar até à morte. Tudo está ali, naquela luz de Outono, quando o livro começa.


Ele só soube amar verdadeiramente o gato...

Uma manhã ela não consegue levantar-se da cama. Queixa-se: "É o meu coração..." E fica deitada. Sabia que era grave. Recostou-se nas almofadas, e esperou.

Ele não responde, e sai como nos outros dias.

Quando ele voltou, ela não dava acordo de si. Chamou a ambulância, foi com ela para o hospital. Era tarde, porém. Marguerite stava morta.

Arrependeu-se? Culpou-se? "E chi lo sa? Alibaba...", diria o Aldo Zari.

Não creio que Alibabá o soubesse. O coração de Emile era duro como uma pedra. Só se abrira para o gato. Alguma coisa, porém, se quebra naquele mecanismo, como brinquedo avariado, quando ela morre.




Ridículos, velhos palhaços cujo público já os não quer ver. Incomodam, a caminho da destruição. 
A quem escreveria ele agora os bilhetinhos a dizer "o gato"? A quem espreitaria agora, de olhos meio fechados, a estudar o efeito das suas farpas? A ver se a magoara o necessário. Se ela já "tinha pago" a morte do gato...

Personagens comoventes, como Simenon tão bem sabe criar, personagens que amamos porque sofrem, porque são como toda a gente. 

Numa entrevista à TV francesa, em 1967, altura em que sai o livro, o autor resume brevemente o assunto: 



"É um história que não é divertida. Dois velhos que vivem numa pequena casa em Paris e que se odeiam. Por causa da morte de um gato. Desconfiam um do outro, deixam de se falar, escrevem bilhetinhos. Cada um julga que o outro o vai envenenar." 
Simenon sorri, e acrescenta: 
"Creio, que no fundo, se trata de uma história de amor"...



Sim, talvez história de amor e de solidão. Sem a companhia do gato e sem ela, sem o ódio que o fazia viver, a vida de Emile deixou de ter sentido. A quem odiaria? É horrível de o dizê-lo, mas há pessoas que vivem para odiar os outros e enchem a vida de pedras, de vidros partidos, de latas velhas, para atirar aos que odeiam!

Emile começou a dizer coisas sem nexo e levaram-no para o hospital. Lá ficou. Ninguém o ia ver, porque ele não tinha amigos, porque amava ninguém e nunca pensara se não em si próprio. Morreu pouco depois


E e assim acaba a história! Lembro como terminavam as velhas fábulas gregas : Hó myutsos deloi?” (transcrição fonética da expressão...)

Sim, que lição tirar da "fábula"? para mim a "myutsos" não "deloi" coisa nenhuma! Cada vida é cada vida e cada um "cria" a sua vida livremente. (Ou, mais ou menos, dirão os pessimistas.)

Eu sou optimista! Sei que o ódio é um sentimento muito forte, mais forte talvez do que o amor para alguns.  Mas não para mim! Eu acredito nos bons sentimentos, no amor sentido, na ternura, na companhia. Eu sou uma grande parva, já me disseram!

Chagall e o Amor!

A verdade é que "Vidas são vidas", como diria, filosoficamente,  José Régio. Não é por acaso que é este o título do 2º volume de "A Velha Casa". 
E temos que fazer da nossa o melhor que pudermos, porque depende em grande parte de nós! E sem arranjar "gatos" a complicar!

Para quem interessar: existe um filme tirado do livro, da autoria de Pierre Grenier-Deferre (1971), com dois actores fora do comum: Simone Signoret e Jean Gabin. 



Dois mestres que dão toda a brutalidade e a tristeza da história,  de modo incomparável! 

É Dia de São Valentino! Não desanimemos com as histórias do Simenon! Depende muito de nós (sejamos optimistas!) o São Valentino. Como diz a canção, "every day is Valentine's day!" Se nós quisermos...


Bom dia de São Valentino, amigos! Bom dia de São Valentino ao amor que tive numa vida...

E ouçam Chet Baker e "Funny Valentine"!