sábado, 22 de março de 2014
terça-feira, 18 de março de 2014
Tinha razão George Sand?... Claro que tinha!
O livro a que me refiro, “Réponse à une amie”, é uma recolha de uns artigos que George Sand foi publicando, no jornal Le Temps, alguns anos antes da sua morte.
Retrato pintado por Delacroix
A essa amiga conta ela umas histórias e interroga-se.
"Recordo um pobre louco, ainda jovem, pálido e de grande barba negra, que errava pelos campos, na minha infância, com um ar preocupado e que passava por mim. Levantava as pedras do chão, espreitava nos poços, entrava nas casas e quando lhe perguntavam o que pocurava, ele dizia : "procuro a ternura".
E continua George Sand:
"(...) Sim, amar, sim creio que é a palavra do enigma do universo. Empurrar sempre, voltar sempre, e renascer, querer sempre - e procurar- a vida, abraçar o seu contrário para o assimilar, fazer em todos os momentos o prodígio da mistura e das combinações de onde sai o prodígio das criações novas, é essa a lei da natureza."
... "Por que razão pergunta ela- o homem que sabe alguma coisa não pode ensinar aquilo que sabe a outro homem que nada sabe? Seria bem fácil - mas com a condição de amar este ignorante porque é um homem, e não de o desprezar porque é ignorante.
Instruir vários, instruir muitos ao mesmo tempo é difícil. É a mais bela das profissões e é difícil a tarefa. Mas qual é a coisa útil que não seja ao mesmo tempo difícil de realizar?..." p.126
Em nota a essa "carta-resposta a uma amiga" (que Gustave Flaubert sempre acreditou lhe fosse dirigida -até porque "responde" directamente a opiniões dele com as quais não está de acordo), escreve Brigitte Lane:

“Em 5 de Outubro de 1871, na sua casa de Nohan, George Sand escreve na sua Agenda (*):
'Como é triste a história! É sempre a humanidade estúpida e má. Gostaria de ler um dia a história de um planeta melhor e os jornais desse outro planeta!'
Tanta verdade, não é? O homem que sabe continua a desprezar o que não sabe, o ignorante continua sem aprender e nada "evolui" o suficiente.
Ela acreditava na Utopia. Eu também. E também gostava de um dia descobrir uma história de um planeta melhor...
Palazzo de Urbino, Utopia.
Ou uma história melhor deste, remodelado?
Tudo continua igual e as notícias só nos trazem a lembrança de uma e mesma realidade : "estúpida e má"!
"Recordo um pobre louco, ainda jovem, pálido e de grande barba negra, que errava pelos campos, na minha infância, com um ar preocupado e que passava por mim. Levantava as pedras do chão, espreitava nos poços, entrava nas casas e quando lhe perguntavam o que pocurava, ele dizia : "procuro a ternura".
a ternura do anjo de Raffaello
E continua George Sand:
"(...) Sim, amar, sim creio que é a palavra do enigma do universo. Empurrar sempre, voltar sempre, e renascer, querer sempre - e procurar- a vida, abraçar o seu contrário para o assimilar, fazer em todos os momentos o prodígio da mistura e das combinações de onde sai o prodígio das criações novas, é essa a lei da natureza."
... "Por que razão pergunta ela- o homem que sabe alguma coisa não pode ensinar aquilo que sabe a outro homem que nada sabe? Seria bem fácil - mas com a condição de amar este ignorante porque é um homem, e não de o desprezar porque é ignorante.
Sand pintada por Auguste Charpentier
Em nota a essa "carta-resposta a uma amiga" (que Gustave Flaubert sempre acreditou lhe fosse dirigida -até porque "responde" directamente a opiniões dele com as quais não está de acordo), escreve Brigitte Lane:

'Como é triste a história! É sempre a humanidade estúpida e má. Gostaria de ler um dia a história de um planeta melhor e os jornais desse outro planeta!'
Tanta verdade, não é? O homem que sabe continua a desprezar o que não sabe, o ignorante continua sem aprender e nada "evolui" o suficiente.
Ela acreditava na Utopia. Eu também. E também gostava de um dia descobrir uma história de um planeta melhor...
Palazzo de Urbino, Utopia.
Tudo continua igual e as notícias só nos trazem a lembrança de uma e mesma realidade : "estúpida e má"!
segunda-feira, 17 de março de 2014
Serge Reggiani canta Le Déserteur, de Boris Vian
O Cavaleiro Ferido de William Shakespeare Burton (século XIX)
Canção anti-militarista com música de Harold Berg e letra de Boris
Vian. Escrita em Maio de 1954, durante a batalha de Dien Bien Phu.
Cantada primeiro por Mouloudji, depois pelo autor Boris Vian, e mais tarde por Serge Reggiani.
Usada muitas vezes pelos movimentos pacifistas em Itália (Gianna Nannini), na América e em França.
Cantada primeiro por Mouloudji, depois pelo autor Boris Vian, e mais tarde por Serge Reggiani.
Usada muitas vezes pelos movimentos pacifistas em Itália (Gianna Nannini), na América e em França.
Edouard Manet, Fuzilamento
Sobre a canção:
http://fr.wikipedia.org/wiki/Le_D%C3%A9serteur_(chanson)
Monsieur le Président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter
Depuis que je suis né
J'ai vu mourir mon père
J'ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j'étais prisonnier
On m'a volé ma femme
On m'a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J'irai sur les chemins
Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d'obéir
Refusez de la faire
N'allez pas à la guerre
Refusez de partir
S'il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter
Depuis que je suis né
J'ai vu mourir mon père
J'ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j'étais prisonnier
On m'a volé ma femme
On m'a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J'irai sur les chemins
Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d'obéir
Refusez de la faire
N'allez pas à la guerre
Refusez de partir
S'il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer
sábado, 15 de março de 2014
A jovem morta da minha rua...
Na minha
infância, como acontece com a maior parte das crianças, eu não pensava na morte. Ela não
existia. O tempo passava-se entre brincadeiras, correrias, leituras, conversas
nos serões, à braseira.
Entrara para o Liceu há pouco,
a novidade dos estudos interessava-me, gostava de estudar coisas novas. E entretinha-me
com as histórias que vinham da rua, trazidas pela Florinda. Essas notícias bastavam a satisfazer-nos a curiosidade.
Por vezes falava-se da morte, mas era uma ideia que não conseguia
materializar. Sentir, sim, “sentira-a” nos romances. E, neles, a morte fazia-me chorar.
Zinaida Serebriakova, Menina a ler
Um dia de manhã, a Florinda entrou pela casa dentro, espavorida: tinha morrido uma menina
que era nossa vizinha. Uma jovem já crescidinha e bonita que também estudava no Liceu, mais
velha do que nós e que vivia na rua detrás da nossa casa.
As ruas da
minha cidade eram um micro-mundo comunicante, onde tudo se trocava e tudo se sabia. As casas eram baixas, de um andar, havia menos gente - e quantas vezes se falava, de janela para janela, a contar o que se passava por ali...
Ao fundo do jardim do lavrador da Mesquita, nas traseiras da nossa cozinha, ficava uma rua paralela à nossa e que, com ela, descia também até ao Rossio. Nela, morava a jovem Sofia.
Contaram depois tudo com pormenores e fiquei a saber que morrera de leucemia, doença misteriosa ainda naqueles tempos. Sem cura, isso disseram-nos logo.
rua de Portalegre (MJF)
Ao fundo do jardim do lavrador da Mesquita, nas traseiras da nossa cozinha, ficava uma rua paralela à nossa e que, com ela, descia também até ao Rossio. Nela, morava a jovem Sofia.
a minha rua
vista do Rossio sobre a cidade (MJF)
Contaram depois tudo com pormenores e fiquei a saber que morrera de leucemia, doença misteriosa ainda naqueles tempos. Sem cura, isso disseram-nos logo.
A casa ficou silenciosa, não ligávamos o rádio nem o gira-discos, e uma tristeza
invadiu-me, misturada de espanto.
"Então ela, tão nova, morreu?"
"Então ela, tão nova, morreu?"
O que era morrer? Ouvira as histórias da tia Zezinha, irmã
da minha avó materna.
Nas noites de Inverno, à braseira, ela gostava de contar coisas que nos assustavam. Histórias de mortes e mesmo de fantasmas, de enterrados que voltavam ... Mas tudo me aparecia tão longe. Eram uma imagem tão vaga, tão irreal.
Nas noites de Inverno, à braseira, ela gostava de contar coisas que nos assustavam. Histórias de mortes e mesmo de fantasmas, de enterrados que voltavam ... Mas tudo me aparecia tão longe. Eram uma imagem tão vaga, tão irreal.
John Waterhouse, O barco
Mas esta menina, que
eu sabia nova, que tinha tanta beleza, por que morrera?
Dias mais tarde, a família veio deixar em nossa casa uma fotografia. Lembro o rosto fino, os olhos tranquilos, o
sorriso, o cabelo loiro separado ao meio.
Entristeceu-me pensar que nunca mais ia sorrir, nem brincar, nem enfeitar-se nos dias de festa...
Que a Primavera nunca mais entraria pela janela do seu quarto. Que nunca mais veria os bandos de as andorinhas chegar e partir.
John Waterhouse, Psyche
Entristeceu-me pensar que nunca mais ia sorrir, nem brincar, nem enfeitar-se nos dias de festa...
Que a Primavera nunca mais entraria pela janela do seu quarto. Que nunca mais veria os bandos de as andorinhas chegar e partir.
Chamava-se Sofia
Amélia - parece-me um nome dos romances de Camilo e a verdade
é que a recordo com uma personagem de romance.
P.S. Depois de já ter publicado o post, a minha amiga Fátima Martelo, que o leu, pôs a fotografia da Sofia Amélia no Facebook. Comoveu-me a juventude destas meninas e, outra vez, o retrato da Sofia Amélia me impressionou...
Ela está na 1ª fila, é a primeira à esquerda, "de saia aos quadrados e casaco comprido", como escreveu a Fátima...
Edward Burne-Jones, A estrela da tarde
Ela está na 1ª fila, é a primeira à esquerda, "de saia aos quadrados e casaco comprido", como escreveu a Fátima...
sexta-feira, 14 de março de 2014
quinta-feira, 13 de março de 2014
quarta-feira, 12 de março de 2014
O bom Doutor Tchekhov...
Pensei esta manhã: como gostava de ter sido uma pessoa
como o Tchekhov!
Admiro não apenas o escritor terno, compreensivo mas arguto,
como também a humanidade do homem que
ele foi, passe o pleonasmo. Generoso, cheio de amor e compaixão pelo outro, no
sentido literal e bom da palavra compaixão: estar junto, com amor... Não apenas por
palavras, mas por acções concretas.
Retrato pintado por Ossip Braz, grande retratista russo
Releio um livrinho com depoimentos sobre Tchekhov, um deles
de Kornei Tchukovsky, outro de Gorky, um de Vladimir Ermilov e outro da mulher de Anton, a actriz Olga Knipper.
É muito interessante esta leitura para conhecer o “outro lado” desta pessoa. Intitula-se "Tchekhov" e foi publicado pela Arcádia na colecção BAB.
É muito interessante esta leitura para conhecer o “outro lado” desta pessoa. Intitula-se "Tchekhov" e foi publicado pela Arcádia na colecção BAB.
Chukovsky, por Ilia Repin
Conta o escritor Kornei Chukovsky que o conheceu bem: “A casa dele estava sempre cheia de gente, era uma casa aberta a todas
as pessoas que ele convidava, ou apraceiam a visitá-lo. Que ele ajudava. Cada
um que chegava estabelecia-se onde queria e se não houvesse lugar, estendiam-se
esteiras no chão. Era generosidade ou necessidade da companhia que lhe faziam. Por
vezes queixava-se desta balbúrdia: Só tenho convidados, convidados, por isso
ainda não pude escrever uma linha” (p. 79).
a casa de Melikhova
Fosse na casa de Melikhova, a propriedade que comprara em 1892, ao sul de Moscovo, porque adorava o campo, as árvores que ele próprio plantou e que "tratava como filhos", segundo dizia o irmão Nicolai; fosse em Moscovo, ou na casa da Crimeia, Tchekhov “tinha uma paixão – diz Chukovsky- a paixão de receber, de ser
anfitrião, que guardou até ao fim dos seus dias.”
Moscovo Casa-Museu
Para Tchukovsky, sem esta sua abertura e desejo de convivência e de partilhar
a vida e as dificuldades dos outros “nunca teria criado essa grandiosa
enciclopédia da vida russa dos anos 1880-90, que são os contos de Tchekhov.
Quando neles chora com amargura a “maldita realidade russa” fazia sentir a
grandeza do seu poder sobre os homens”.
Tchukovsky respeita-o imenso, todo o seu artigo está cheio de pequenas coisas admiráveis que ele conta com admiração: "Tchekhov subordinou a sua existência inteira a um grande ideal de nobreza a si próprio imposto desde a juventude."
.
"O que é preciso é trabalhar dia e noite sem tréguas, ler, estudar, ter vontade... o tempo é precioso!" Trabalhar...para ser melhor!
Tchekhov teve uma infância difícil, uma adolescência dura em que teve de pensar em si próprio, completamente só, sem dinheiro, em Tangarog. Deu lições para sobreviver aos 16 anos e dormia na casa de um e almoçava na casa de outro dos seus amigos. A família, com problemas de dinheiro, tinha-se mudado para Moscovo.
Anton Tchekhov nasceu em 29 de Janeiro de 1860, em Taganrog, no Mar de Azov, e morreu em Badenweiller, na Floresta Negra, onde fora tratar-se da tuberculose, em 15 de Junho de 1904. De facto, em Março de 1897, declarara-se a tuberculose.
Em 1898, depois da morte do pai, compra uma casa na Crimeia (a Sibéria quente, como ele dizia), porque se julgava que fazia bem à doença a proximidade do mar. Leva a mãe e a irmã a viver com ele. Em Yalta recebe todos os escritores que o admiram, de Gorky a Tolstoi que, antes, visitara em Iasnaya Polyana.
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"O que é preciso é trabalhar dia e noite sem tréguas, ler, estudar, ter vontade... o tempo é precioso!" Trabalhar...para ser melhor!
Tchekhov teve uma infância difícil, uma adolescência dura em que teve de pensar em si próprio, completamente só, sem dinheiro, em Tangarog. Deu lições para sobreviver aos 16 anos e dormia na casa de um e almoçava na casa de outro dos seus amigos. A família, com problemas de dinheiro, tinha-se mudado para Moscovo.
Casa-Museu de Taganrog, onde nasceu
Em 1898, depois da morte do pai, compra uma casa na Crimeia (a Sibéria quente, como ele dizia), porque se julgava que fazia bem à doença a proximidade do mar. Leva a mãe e a irmã a viver com ele. Em Yalta recebe todos os escritores que o admiram, de Gorky a Tolstoi que, antes, visitara em Iasnaya Polyana.
O escritor Gorki visitou-o muitas vezes em Yalta, na Crimeia, onde tentava curar a sua tuberculose. Conversavam horas a fio, de tudo. Tchekhov recordava, a rir, os ciúmes de Tolstoi: ciúmes que tinha de todos: queria ser ele o único, para todos!
E é sobre todas estas conversas e momentos que Gorky escreve um montinho de páginas inesquecível!
Tchekhov conservava os sonhos e gostava de falar neles. Sonhos para o mundo,
sonhos para os humanos...
“Estou a aborrecê-lo com os meus sonhos?, perguntava ele a
Gorky. Gosto de falar neles.”
Gorky, em poucas páginas, faz um retrato magnífico! O seu amor pela vida, pela diversão, pela brincadeira - que ele compara ao de Dickens...
A sua procura de justiça, a tentativa de "melhorar-se" sempre. "Dominar-se, educar-se..." (p.134)
As pessoas educadas "não se humilham para suscitar piedade", recomenda aos irmãos numa "carta" (...) "não intrigam" (...) "se têm um talento, respeitam-no"...
"Todos devemos evitar ser injustos", recomendava aos irmãos. Tinha horror ao despotismo que era o do pai, à violência (todos os dias pensava, logo de manhã: "o pai vai-me bater?")
Não pesar sobre os outros : "morrer sem incomodar ninguém". A preocupação ética -hoje tão fora de moda! "Deve-se libertar a alma da mesquinhez, alcançar a doçura, dominando-se" (p.135)
Para ele a "vontade" humana era essencial, e é um tema constante na sua obra: "adoptem uma estética, uma vontade poderosa".
Critica o modo de viver dos seus contemporâneos: "Senhores, viveis mal!"
A sua lição de vida penso que é esta: tudo é possível se nós quisermos, se fizermos o esforço necessário para isso - e nos "vencermos", sem nos entregarmos às fraquezas.
Trabalhou duramente como médico, deslocava-se às suas custas para ir visistar os doentes, longe, debaixo de neve, sem nunca hesitar.
"Todas as manhãs à porta da casa já estava uma fila de gente à espera do doutor". Porque ele os tratava bem, lhes falava, os ensinava.
A sua procura de justiça, a tentativa de "melhorar-se" sempre. "Dominar-se, educar-se..." (p.134)
As pessoas educadas "não se humilham para suscitar piedade", recomenda aos irmãos numa "carta" (...) "não intrigam" (...) "se têm um talento, respeitam-no"...
"Todos devemos evitar ser injustos", recomendava aos irmãos. Tinha horror ao despotismo que era o do pai, à violência (todos os dias pensava, logo de manhã: "o pai vai-me bater?")
Não pesar sobre os outros : "morrer sem incomodar ninguém". A preocupação ética -hoje tão fora de moda! "Deve-se libertar a alma da mesquinhez, alcançar a doçura, dominando-se" (p.135)
Para ele a "vontade" humana era essencial, e é um tema constante na sua obra: "adoptem uma estética, uma vontade poderosa".
Critica o modo de viver dos seus contemporâneos: "Senhores, viveis mal!"
A sua lição de vida penso que é esta: tudo é possível se nós quisermos, se fizermos o esforço necessário para isso - e nos "vencermos", sem nos entregarmos às fraquezas.
Trabalhou duramente como médico, deslocava-se às suas custas para ir visistar os doentes, longe, debaixo de neve, sem nunca hesitar.
"Todas as manhãs à porta da casa já estava uma fila de gente à espera do doutor". Porque ele os tratava bem, lhes falava, os ensinava.
“Falava do fundo do
coração, com seriedade e sinceridade, mas de repente era capaz de troçar do que
dissera e de si próprio. É nessa doce e melancólica troça sentia-se o
cepticismo subtil do homem que sabe o que valem as palavras, os sonhos; sob
essa troça escondia-se também uma modéstia encantadora, uma delicada
sensibilidade.” (p.12)
Conta Gorky:
“O dia estava claro e quente; as cigarras sussurravam (...). Ao
fundo, um cão satisfeito ladrava alegremente:- É vergonhoso e triste, mas é a verdade! Há muita gente que
inveja os cães...”
E seguem-se várias histórias, várias conversas. Um dia, um jovem professor veio do interior do país ver Anton
Tchekhov. Gorky recorda esse encontro, com pormenores.
Tímido, vem e fala-lhe num tom de respeito, cheio de frases filosóficas e
de floreados de estilo, todo “cheio de vento”. Assim passam uma tarde inteira. Tchekhov ouve, mas também pergunta muito. Quer saber como vivem os professores. E os alunos? Ouvira que, naquela região, batiam nos alunos.
"É verdade que batem nos alunos?" Ele quer saber. Ele queria sempre saber dos outros.
O professor protesta, diz que ele nunca bateu nos seus alunos mas tinha um colega, que sim. E lamenta a sorte dos professores:
"Pobres, muitas vezes tuberculosos, com mulher e filhos e mal pagos, a habitar num compartimentozinho da cave da escola, sem conforto e mal aquecido..."
Houve um pobre e desgraçado que, desesperado com a vida, um dia se enervou e excedeu-se...
"Pobres, muitas vezes tuberculosos, com mulher e filhos e mal pagos, a habitar num compartimentozinho da cave da escola, sem conforto e mal aquecido..."
Houve um pobre e desgraçado que, desesperado com a vida, um dia se enervou e excedeu-se...
Diz o professor a Tchekhov: "Com esta vida, estes sofrimentos, até se pode bater num anjo sem razão. E os nossos alunos não são anjos..."
O professor, no final, diz-lhe comovido: “Vim à sua casa como quem vem procurar um
chefe, vim tímido e a tremer. Falei “cheio de vento” porque queria mostrar que
não era um pobre diabo qualquer. E deixo-o como um amigo querido, que
compreende tudo”.
E acrescenta:
"É uma grande coisa a compreensão do outro! Foi uma bela e boa lição. Fiquei a saber que os homens a sério, de escol, são simples, mais compreensivos, mais perto de nós pelo coração do que essas nulidades no meio das quais vivemos e se dão ares. Nunca o esquecerei!"
E acrescenta:
"É uma grande coisa a compreensão do outro! Foi uma bela e boa lição. Fiquei a saber que os homens a sério, de escol, são simples, mais compreensivos, mais perto de nós pelo coração do que essas nulidades no meio das quais vivemos e se dão ares. Nunca o esquecerei!"
Depois de ele sair, Tchekhov sorri e comenta: "Uma boa pessoa. Não ensina muito tempo... - Porquê?, pergunta Gorky. - Será perseguido...expulso." (p.16)
Da Ucrânia, Gorki escreve-lhe sobre o conto “Na ravina”: “Acabo de ler o seu conto a uns camponeses. Gostava que visse como foi belo esse momento. Os ucranianos puseram-se a chorar. E eu chorava com eles.” p.92
Da Ucrânia, Gorki escreve-lhe sobre o conto “Na ravina”: “Acabo de ler o seu conto a uns camponeses. Gostava que visse como foi belo esse momento. Os ucranianos puseram-se a chorar. E eu chorava com eles.” p.92
É uma constante essa comoção que Gorki sente ao ler o
escritor. “Quantos momentos deliciosos vivi com os seus livros, quantas vezes
chorei ao lê-los, eu que sou um homem duro.”
Um homem duro pode ter um coração grande como o de Gorki! Eu, que não sou um "homem duro", farto-me de engulir as lágrimas, ao lê-lo. Contos, peças...
Lembro os amigos, o grande pintor Isaac Levitan que tanto conviveu com ele em Moscovo, as idas às galerias, a injustiça para com a pintura de Levitan da parte dos críticos.
Penso na sua "Gaivota", a actriz Olga Knipper com quem casa, tarde, em 1901, com quem pouco convive: ela, actriz, em Moscovo, ele, doente, em Yalta. Mas, em 1904, quando ele morre, ela está ao seu lado.
Anton sente-se mal, ela consegue chamar um médico. Badenweiller é uma cidade alemã, de termas, tranquila, e nesse fim de tarde, havia pouca gente no hotel.
Ele diz em alemão quando o médico chega: "Estou a morrer..."
O médico dá-lhe uma injecção de cânfora e aconselha champagne. Tchekhov bebe um pouco, encosta-se e morre.
"Como uma criança que tivesse adormecido", conta Olga. E, sozinha, vela-o toda a noite.
Ver as suas peças em Moscovo, no Teatro Maly, foi algo de tão magnífico que ainda hoje me parece mentira. Seguir, no palco, com cores suaves, a frágil silhueta de Nina, a gaivota, as suas emoções e sofrimento e observar o drama das outras personagens, era comovente! Vivíamos com eles, intensamente, o papel que representavam, sofríamos, mesmo sem entendermos o russo que falavam...
Comovi-me, depois, ao pé da sua tomba simples, simples, no cemitério Novodevitchy de Moscovo.
"O meu santo dos santos é o corpo humano, a saúde, a inteligência, o talento, a inspiração, o amor, a liberdade mais absoluta".
Como não estar de acordo com o bom Doutor Tchekhov?
Lembro os amigos, o grande pintor Isaac Levitan que tanto conviveu com ele em Moscovo, as idas às galerias, a injustiça para com a pintura de Levitan da parte dos críticos.
Penso na sua "Gaivota", a actriz Olga Knipper com quem casa, tarde, em 1901, com quem pouco convive: ela, actriz, em Moscovo, ele, doente, em Yalta. Mas, em 1904, quando ele morre, ela está ao seu lado.
Ele diz em alemão quando o médico chega: "Estou a morrer..."
O médico dá-lhe uma injecção de cânfora e aconselha champagne. Tchekhov bebe um pouco, encosta-se e morre.
"Como uma criança que tivesse adormecido", conta Olga. E, sozinha, vela-o toda a noite.
Ver as suas peças em Moscovo, no Teatro Maly, foi algo de tão magnífico que ainda hoje me parece mentira. Seguir, no palco, com cores suaves, a frágil silhueta de Nina, a gaivota, as suas emoções e sofrimento e observar o drama das outras personagens, era comovente! Vivíamos com eles, intensamente, o papel que representavam, sofríamos, mesmo sem entendermos o russo que falavam...
Comovi-me, depois, ao pé da sua tomba simples, simples, no cemitério Novodevitchy de Moscovo.
"O meu santo dos santos é o corpo humano, a saúde, a inteligência, o talento, a inspiração, o amor, a liberdade mais absoluta".
Como não estar de acordo com o bom Doutor Tchekhov?
eu, ao lado do túmulo de Tchekhov, em Moscovo
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