sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sexta feira de Paixão, dia morte de Cristo, em imagens de dois grandes pintores...


Sandro Botticelli, "Deposição da Cruz:" o choro da mãe perante o irreparável...


Botticelli, Morte de Cristo: desespero e lamentos...

Rosso Fiorentino: Um anjo musicante

Rosso Fiorentino, "Deposição de Cristo" (Volterra, 1521)

Rosso Fiorentino, a descida da Cruz e o Cristo morto

Rosso Fiorentino, O Cristo morto e o lamento da mãe

Rosso Fiorentino,  a Deposição e o choro do amigo


quinta-feira, 17 de abril de 2014

E nunca mais nada voltou a ser igual

Hoje festeja-se a Páscoa cristã. 

Leonardo da Vinci, A última ceia (1495-1498)


Hoje -segundo o Evangelho de João- ter-se-ia realizado a reunião de Cristo com os discípulos. Hoje seria a ceia, a reunião. Hoje será a última ceia. Hoje Cristo teria revelado aos apóstolos que, de entre eles, um o trairia nessa mesma noite. Hoje o espanto, a revolta de alguns. Hoje a traição de Judas.

 estudos de Leonardo para a última ceia

A última ceia, de Leonardo, depois do restauro

Na noite, até ao amanhecer, Jesus, o rabbi Yehoshua, velará sozinho, sofrerá a dúvida e o abandono, no horto das oliveiras. Numa solidão sem par. Absoluta.

Giovanni Bellini, Horto das Oliveiras

E nunca  mais nada voltou a ser igual para aquele que foi o Homem mais próximo de Deus. Nem para os outros homens que acreditaram nele. O Homem que vai morrer na cruz. Amanhã.

Giovanni Bellini, Cristo Morto, com anjos

Boa Páscoa para os meus amigos cristãos!


terça-feira, 15 de abril de 2014

Os adolescentes e a escola



Todas as coisas da adolescência giram à volta - entre outras muitas, claro- da escola. Por isso, pensar no problema é sempre útil, por vezes mesmo urgente.
cena de "Divergente"

Como professora que fui, trago atrás de mim a necessidade de me interrogar e de ver como os outros se interrogam sobre a educação e sobre os alunos.

A escola era melhor antes do 25 de Abril, ouvi para aí alguém dizer, hipocritamente. É, apenas, querer ignorar a causa da “dificuldade” da escola de hoje. É hipocrisia fingir que essa escola antiga era boa. 

Boa - para quê, antes do mais? Para aprender de memória uma data de informações muitas vezes incompletas? O que ficámos nós a saber da história verdadeira, se não foram as batalhas, os cognomes dos Reis e quando foram as cruzadas para dilatar a Fé? Tudo “empinado”, sem relacionamento no tempo ou no espaço, sem sermos estimulados a mais do que isso?
 Com excepções, como é evidente!

A verdade é que ser professor nos nossos dias da velocidade informativa, do "tecnológico", implica "ensinar" muito mais: ter um saber mais “enciclopédico”? não sei, mas um saber relacionado com o momento em que vivemos isso sim. 

Há muito mau professor - e sempre houve. Há muito bom professor - e sempre houve. Partindo daí, pela minha experiência vejo que muito se tenta fazer. Os professores são “agentes” de tudo: de comunicação, de educação quase lhes exigindo que sejam “actores”. 

Nunca me esqueci de um novo programa que apareceu para a disciplina de Português e a coordenadora dizer, perante as nossas dúvidas: “Ora, vão e improvisem!”

Os alunos são (deveriam ser) levados a pensar sozinhos, a tirar ilacções, a escrever com correcção, a ler, a entender o que lêem porque só isso (o entendimento do que se leu) é que é ler! Levados a diferenciar os modos de escrita e da fala, as diferentes funções -  e isso eu sei que se tem feito nas  nossas escolas. 

O problema fulcral é (não) tirarem ao professor o tempo necessário e fundamental para se informar, preparar, ter conhecimentos pedagógicos sérios (e didácticos, claro), em vez de lhes encherem os dias com reuniões, fichas para tudo, relatórios e presença física na escola, para fingir que estão.

Sim, trata-se de improvisar muitas vezes - e cada um o faz como pode, porque depende das turmas que se têm, da idade dos alunos, do tipo de aprendizagem, etc.
Fico por aqui, neste campo.

Vinha falar dum artigo que li sobre a adolescência, a escola e a competição! O artigo é de Fabrice Plishkin (Nouvel Observateur, 11 de Abril) e vem a propósito de dois filmes recentemente saídos em França (e, provavelmente, cá).

Trata-se de “Divergente”, do americano Neil Burger, e “Suneung” (tradução à letra: teste de aptidão aos estudos), da sul-coreana Shin Su-won (uma jovem, nascida em 1967, ex-professora).

 Shin Su-won

No primeiro, o realizador descreve uma sociedade de ficção científica (e  metafórica?), numa escola numa Chicago dividida em castas: os Eruditos, os Sinceros, os Fraternos, os Audaciosos e os Altruístas.
Isto passa-se no futuro dentro de 100 anos!

Neil Burger

Ali se propõem uma série de “testes de aptidão” que estes alunos devem fazer para poderem participar. Uma espécie de “concurso” para escolher a vida? Um exame de “aptidão” à vida?

A verdade é que os alunos que chumbam nos testes tremendamente difíceis, alguns mesmo violentos, mortíferos e irrealizáveis - são afastados da Humanidade.
São Divergentes. Divergentes, sem futuro, inadaptados para todo o sempre.

O filme coreano "Suneung" fala de outra realidade comum, mesmo por cá - sem chegarmos a tanto, felizmente: os exageros da sociedade coreana, uma das mais rigorosas no campo da educação, num sistema educativo de histeria: o excesso de competição entre os alunos, o egoísmo desenvolvido para “ser melhor do que o outro”, ficar à frente, “liderar”, ter melhores notas, vencer, entrar para a Universidade sem pensar em mais nada! 

O Suneung é o teste de entrada na Universidade, chamado "Teste Escolar de Habilidades" que se realiza todo os anos na segunda quinta-feira de Novembro! De extremo rigor e organização (exige polícia especial para o trânsito!) é um momento traumático para muitos jovens estudantes.

De facto, a Coreia do Sul regista o maior número de suicídios de adolescentes  no mundo.

https://storify.com/kim9171/suneung-life-or-death-exam-for-korean-students

Diz Plishkin: “Na hora em que as nações e as empresas só falam na palavra sagrada competição, (ser competitivo o que é afinal? “matar o outro”?), os dois filmes auscultam uma juventude monstruosa, desumanizada pelos imperativos da concorrência.”

E eu penso apenas: hoje, nesta sociedade “selvagem” de capitalismo financeiro desmedido (em que nos meteram), onde os licenciados vão logo para o desemprego, sem esperança de algum dia exercerem a profissão que escolheram, vamos olhar para o que é positivo!


E mais: num tempo em que não há emprego para ninguém, ao menos que os nossos adolescentes e jovens escolham o curso, ou a profissão manual, técnica, que lhes apetecer, que seja mesmo uma “vocação”, um desejo sincero, sem pensar no “emprego” que há ou não há. 

Já não há os cursos “com mais saídas”, os tais que seriam mais bem pagos no futuro… Então, talvez seja bom voltar às humanidades que tanta falta fazem. 

domingo, 13 de abril de 2014

Um Poeta, uma poesia... Carlos Queiroz, Poemas do Retardador


Van Gogh, Iris.

Akseli-Gallen Kalela, O Lago Keitele


CARLOS QUEIROZ

4 POEMAS DO RETARDADOR: o lírio e o lago...


Van Gogh, Lírios.


1.


Lento, no lago naufraga 
um lírio liricamente…
- E lento se torna algente
O luar que o lago alaga.

Lento, ao luar liquescente,
As lentilhas se afastaram…
Mas, logo, lento voltaram
A juntar-se novamente.

(E um leve ondular dolente
Foi o que fátuo ficou,
Do lírio que se afundou
Lento, lenta, lentamente…)


Akseli-Gallen Kalela, Nuvens sobre o lago


In Adolfo Casais Monteiro, “A Poesia da presença”, Moraes Editores, Círculo de Poesia, Lisboa 1972, pg. 236

(*) O poeta Carlos Queiroz nasceu em Lisboa em 5 de Abril de 1907 e morreu em Paris em 27/28 Outubro de 1949

(**) Akseli-Gallen Kalela, pintor finlandês, nasceu em Pori (Finlândia) em 26 de Abril de 1865 e morreu na Suécia, em Estocolmo em 7 de Março de 1931

segunda-feira, 7 de abril de 2014

E tudo é feito de mudança....




Hoje pensei em Camões e na sua ideia da mudança. Para bom, para mau? Com o cepticismo dele, creio que para o poeta seria sempre mudança para o mau e, dele, para  pior.




Ora leiam o soneto:

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança:
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança:
do mal ficam as mágoas na lembrança
e do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía."

Tudo é feito de mudança...
...

Mas hoje venho falar do mar! O poder, a força do mar... Os estragos que a violência das ondas, das correntes fazem. Da luta eterna do homem com o mar, das forças desiguais e da vontade do homem de nunca ser vencido...


E por que razão falo disto tudo hoje? Ah!, já explico...

 Porque fui ver a Praia Grande, onde muitas vezes costumava passear e agora -com os temporais deste longo Inverno- me desabituei de ir ver. E que era assim...

o areial sem fim, antes, na Praia Grande

ainda a Praia Grande, antes...

a praia, antes....

Voltei hoje: era outra praia! Parecia-me ter mudado de país! O areal vastíssimo que se  estendia do promontório, à esquerda da praia, até ao Hotel das Arribas na outra ponta extrema...bem: o areal não estava lá! 


E em vez da extensão de areia branca, que recordava, havia três praias pequeninas formadas por rochedos que nunca sonhei haver por aquelas bandas! 

mudança, na Praia Grande...






curiosos (ou estudiosos?)

O mar vem, devagarinho, rodear as rochas e retira-se, aparentemente calmo. As grandes ondas dos surfistas chegaram-se todas para um lado, receosas. 

A praia está toda mudada! Guarda a beleza, talvez ainda mais selvagem hoje, os remoinhos de espuma branca desfazem-se por perto. As pedras e pedregulhos, as fissuras nos rochedos que aparentavam tanta segurança há uns meses apenas...



"todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades..."




A praia desceu? Ou foi o mar que subiu? Os meus pontos de referência não estão lá! Quem mudou a minha praia??? 


Ah! A força do mar mudou a minha praia! E lá vem Camões outra vez! Os perigos do mar, os danos que as ondas causam, os barcos engolidos pelas vagas gigantescas, o monstrengo avistado! 


Sim, "No mar  tanta guerra, tanto dano/Tantas vezes a morte apercebida... O medo dos nautas, os pescadores sem barco, os náufragos, a morte sempre diante dos olhos .

Chegada dos Portugueses ao Japão: a nau Carrack

Os males que cercam o pobre bicho humano tão pequeno...


Diz o poeta dessa fragilidade do homem- e é tão bonito o que diz e como o diz:

"No mar,  tanta tormenta e tanto dano
Tantas vezes a morte apercebida
Na terra, tanta guerra, tanto engano
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se o fraco humano
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?” 


Sim, onde estará a minha praia segura que não venha o céu e o mar tentar movê-la? 


domingo, 6 de abril de 2014

Francesco De Gregori - Non dirle che non è così


Francesco de Gregori nasceu em 4 de Abril de 1951 em Roma... no seio de uma família da média burguesia. Passou algum tempo da sua vida em Pescara, na costa do Adriático. 

Em Itália é conhecido pelo nome “Principe dei cantautori”, ou apenas "o Poeta", título que homenageiam a delicadeza e a finura das suas letras. 
No entanto ele prefere ser apenas chamado "artista". O irmão mais velho Luigi era também músico. 
Francesco foi influenciado pela música de Dylan, Cohen e pelo italiano Fabrizio de André. 
Muitas das canções de De Gregori começaram por ser traduções de canções americanas folk. Depois começou a escrever as próprias canções. Tocou com outros músicos e cantautori como Antonello Venditti ou Lucio Dalla.
Antonello Venditti, Pádua, 2008

 com o inesquecível Lucio Dalla