quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Seymour Hoffman: morte de um grande actor!


Philip Seymour Hoffman nasceu em Fraiport (a norte de Nova Iorque) em 23 de Julho de 1967. Morreu há três dias, 2 de Fevereiro, na sua casa de Nova Iorque, de overdose. Um presumível suicídio? Ou mero acaso? Fosse o que fosse, foi pena ter morrido... Era um grande actor!

Actor inteligente, e realizador teatral de qualidade. Na TV desde 1991, estreia-se no cinema em 1992 em alguns papéis secundários: "Perfume de Mulher", ou "O Talentoso Mr. Ripley" (do romance homónimo de Patricia Highsmith), em 1999. 


Vi-o há poucos meses, em DVD, em "The Big Lebowsky", o maravilhoso e humano filme dos irmãos Cohen, onde faz um papel secundário, mas perfeito como sempre. É Brandt, o secretário assustadiço do "velho" Big Lebowsky, o milionário. 



Em 2002, entra no filme de Spike Lee, A 25ª Hora, e, em 2003, em "Cold Mountain." 

Em 2005, é o protagonista do filme "Capote", onde personifica, magistralmente, o escritor Truman Capote. Filme de Bennett Miller, inspirado no controverso livro de Capote, "A Sangue Frio". Pelo qual recebeu um Oscar.



O seu último filme é "Em Chamas" ("The Hunger Games", 2013), de Suzanne Collins,uma saga e ficção científica, em 3 episódios, de que se espera a continuação.

Resta-me dizer que a sua morte foi uma grande perda para o cinema americano. E para o cinema de todo o mundo.

Hugo Simberg, O Anjo Ferido

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Por "Cerros e Vales", com Brito Camacho



Venho falar um pouco de um escritor alentejano de que gosto muito: Brito Camacho. Tem páginas magníficas sobre o Alentejo, sobre as vidas difíceis nos montes e povoados, as “casas da malta”, a vida dos ganhões. E retratos e descrições primorosos.

Manuel Brito Camacho nasceu em Aljustrel em 12 de Fevereiro de 1862, vai fazer 152 anos! 
Terra alentejana (MJF)

Foi médico, formou-se aos 27 anos em Medicina na Escola Médica de Lisboa.  Morreu em Lisboa em 1934.

Foi jornalista, director de um jornal republicano, escritor, político...

Brito Camacho (centro), António José de Almeida, Teófilo Braga

“Por Cerros e Vales” é um relato curioso de uma viagem, em vários episódios, que leva o autor do Algarve a Aljustrel, sua terra natal, acima e abaixo, até ao Terreiro do Paço, em Lisboa.



O Alentejo não tem sombra
Se não a que vem do céu...
canta a canção.

O primeiro episódio, “Por barlavento”, fala-nos da beleza de certos lugares do Algarve, “Pelos campos” – passa pelos Montes do  Alentejo e continuando, por aqui e por ali, "Pelas Beiras", de um lado e de outro do Mondego, andando, andando e comentando, são páginas magníficas sobre o nosso país, mas em especial sobre o Alentejo.

Alentejo, sépia

“O Alentejo não é uma província, é um país”, diz, a dada altura, o amigo Dr. Moura Pinto.
Céu alentejano MJF)

“Mais do que um país” -acrescenta Brito Camacho- “na opinião de um ignorado autor d’um poema inédito – Cardos mastigueiros, em que o Alentejo se define assim, quanto aos seu tamanho:

"Tenho de mim para mim,
E até já o vi escrito,
Que o Alentejo é infinito,
Não tem princípio nem fim."


As descrições do autor mostram bem o seu conhecimento e o seu amor pela terra alentejana.

Dórdio Gomes, A sesta dos ceifeiros

Céu  nublado, calor húmido, ares de trovoada. As searas em ondas de grande amplitude, dão aos campos a aparência de um mare magnum (...) Com as excepções do estilo, os montes da minha infância eram palhotas de taipa batida, cobertas de telha vã, de forma rectangular. A casa de fora, casa de entrada, era ao mesmo tempo cozinha, rouparia e casa de jantar.”

Céu nublado e oliveiras

Pôr do sol, num Monte alentejano (MJF)



E assim vai comentando e ensinando...

Paro, a páginas 187 do livro, para vos contar a história que ele refere, com humor.

Sabe-se que Nisa e Alpalhão – como tantas terras do Alentejo e de outras províncias- têm uma rivalidade-quase-ódio, coisa sem explicação. 

Carlos Madeira, Trecho Alentejano (aguarela)

(Como me lembro de ouvir, em criança, também, que Elvas e Portalegre não tinham comparação: cada um dos habitantes das duas cidades vizinhas (separadas por 50 kms) privilegiava as “maravilhas” da sua cidade, sentindo-a superior à outra.)



O autor tenta  dar uma explicação divertida dessa antipatia: Nisa e Alpalhão – qual a sua culpa?
Bilha de Nisa

Nisa, Praça

Eu saíra de Lisboa no firme propósito de ser um mediador da paz entre Nisa e Alpalhão, firmar nas duas povoações, há muito desavindas (...). Não imagine o leitor que os romanos de Alpalhão tinham raptado as Sabinas de Nisa. Tal não sucedeu ou pelo menos não o conta a História nem o refere a tradição.


Alentejo, fotografia de Stego


O caso foi que, num sermão da semana santa, em Nisa, um façanhudo pregador, ao reboar o estrondo do caixão, fechado com violência, depois de nele metido o corpo do Senhor, exclamou, com fúria, como quem denuncia um crime horrível: 
'- Ah, cães de Nisa, que mataram o vosso Deus'.

 E a multidão que enchia o templo, una voce, mulheres, homens e crianças, apavorados como numa antevisão do Inferno, os olhos afogados em lágrimas, a voz cortada de soluços, gritaram em direcção ao púlpito: 
'- Não fomos nós, foram os de Alpalhão'."

Tectos, em Alpalhão (MJF)

Alpalhão, o Largo (MJF)

Tenho de me rir, já me tinha esquecido da explicação! Nisa é concelho, Alpalhão é uma freguesia de Nisa...

E o autor continua, ironicamente:

"A partir desse momento, um ódio de morte atira frequentemente os habitantes de Alpalhão contra os de Nisa e os de Nisa contra os de Alpalhão, como se uns fossem guelfos e os outros gibelinos." (p.187, 1ªedição, Livraria Guimarães e Cª)

E, com esta bela história viva e cheia de humor, me fico...


Alguns dados sobre o autor: Manuel Brito Camacho nasceu em Aljustrel em 1862. Foi médico, formou-se aos 27 anos em Medicina na Escola Médica de Lisboa (com uma tese sobre a Higiene  e sobre a Hereditariedade).

 
Brito Camacho, por Aquilino Ribeiro e F. Mira


Foi também  militar de carreira –chegou a coronel. Mas foi sobretudo um político e um jornalista importante. Republicano desde a adolescência, em 1888 destaca-se como presidente da associação Académica de Lisboa. A seguir ao Ultimatum inglês (1890) colabora nos jornais a Pátria  e no efémero O Intransigente. 

Em 1906, dirige o jornal republicano Lucta.  Em 1910, com o advento da República, é Ministro do Fomento do  Governo Provisório. 


Brito Camacho, 1911

Nessa altura, a sua acção ficou marcada por ter fundado o Instituto Superior Técnico de Lisboa.

Outros livros do autor: além de “Por cerros e Vales”, “Gente Rústica”, “Terra de Lendas”, “contos Selvagens”, “Quadros Alentejanos", "Rescaldo da Guerra" são alguns títulos...




sábado, 1 de fevereiro de 2014

Falando de Myra Landau, viajante e pintora...


Pintora conhecida na América do Sul, especialmente no México e no Brasil, com mais de 60 exposições individuais, e cerca de 150 mostras colectivas. 


Myra Landau nasceu em 5 de Dezembro de 1926, na Roménia, em Bucareste, no seio de uma família judaica. 
Bucareste e o rio Dombovita


Sombra

É uma artista envolvida sempre em novas pesquisas sobre a Arte e a Pintura. Além do Brasil e do México, viveu também em Itália. Hoje vive em Israel, em Jerusalém.

Jerusalém, Praça do Teatro Gerard Behar (MJF)

Gravura, Jerusalém

Reuven Rubin, "Subida para Jerusalém"










A sua primeira exposição foi no México em 1963. 


Universidade do México

Em 1974 começou a trabalhar como professora na Universidade de Vera Cruz na Faculdade de Fine Arts.

Vera Cruz

O seu trabalho foi descrito pelo crítico de arte mexicano Jorge Alberto Manrique (México, 1936 *) como "brutal e, simultaneamente, requintado”.

Deixo um excerto da apresentação de Andrea Paladino (in blog Parole, de Myra Landau):
Roma e a Ponte Sant' Angelo

“Myra Landau nasceu na Roménia mas cresceu desde os 12 anos entre o Brasil e o México. Adoptou as colinas romanas como seu "sítio", depois de chegar a Itália em 1994”, diz-nos Palladino.
Roma e as suas 7 colinas

E cita palavras suas: 


Brasil e Teresopolis

Brasil e Belo Horizonte

“ Não tenho pátria, e até a palavra pátria não me agrada. Vivi em muitos países, mas sou uma pessoa sem limites de fronteiras e sem bandeira. Onde tenho amigos, estou em casa e a Itália é isso para mim."


"Com estas poucas palavras", continua AP, "resume a sua intensa vida, iniciada na fuga da Europa desnorteada dos tempos da guerra e dos regimes totalitários. Aproa na margem da liberdade de expressão do Brasil dos anos 50". 

Gosto da sua pintura. Vou muitas vezes ao seu blog vê-la. Pintura que me surge em estilhaços cor de cinza, linhas de azul em volutas, delicadas sombras. Às vezes assoma mos a uma janela. Muitos tons de azul, rosa e lilás, raramente vermelho. 

Vão ver porque vale a pena...

Em 2011, saiu um livro de Myra, intitulado "Vade Retro".


Myra Landau tem um blog (“Parole”) desde 2007. Para quem tiver curiosidade de ver mais, pode consultá-lo: http://myra-parole.blogspot.pt/


Jorge Alberto Manrique


(*) Um dos críticos de arte mais famosos no México. Escreveu em revistas especializadas na história da arte no México, França, Itália, Espanha, Polónia, Alemanha, Estados Unidos, Colombia, etc. (wikipedia)

Ainda a voz e a companhia de Ella Fitzgerald - Spirituals


Ella Fitzgerald, 1940, bela fotografia de Carl Van Verchten