quarta-feira, 5 de março de 2014

Falando de Ciganos em Paris...


Volta o debate sobre os Ciganos, em França, os Roms de que tanto se tem falado. 

Desta vez é o cabeça de lista do FN (Front National, movimento de extrema direita, (que conta já 2 deputados no Parlamento Francês), Paul-Marie Coûteux, ao evocar no seu blog a ideia de "concentrar" os Roms em "campos".


Discurso de bastante mau gosto para já... Mais tarde, quando entrevistado pela AFP, desmente tê-lo "sugerido": 

Não há no meu texto nenhum momento em que eu peça a construção de campos farpados. É em forma interrogativa.” E acrescenta: "Sou católico romano, não ponho pessoas em campos, isso já não se faz há muito tempo...”

Interrogativa, como? Devem internar-se "concentrados" em campos? É uma pergunta?
Para além do "mau gosto", é extremamente "perigoso" associar as duas palavras: "campos" e "concentrar"... Sem querer, pensamos: campos de concentração? É isso que quer dizer?
O autor da "associação" de palavras é, no entanto, um "recidivista"  pois em várias ocasiões deu expressão ao seu sentimento de que os Roms “desfeiam” o ambiente e ficam mal em certos bairros. 

De facto, referira-se já à “invasão” e à “lepra” que atingem a “ordem estética” de Paris.
Um dos textos escritos Paul-Marie Coûteux (19 de Fevereiro) intitula-se mesmo:"Sobre a instalação dos ciganos em Paris e a lenta extinção do sentimento e dignidade nacional".
"Ponho-me a fotografá-los", escreve, "quando me cruzo com um número demasiado grande(...´),  para apaziguar a raiva que me dá o espectáculo desolador destas mulheres, destas crianças (...) que salpicam o bairro onde vivo -e estragam o encanto que poderia ter esse passeio por ali." 


Creio que este senhor deveria preocupar-se, sim, em como é desolador o espectáculo que ele está a dar! A falta de "estética" do seu discurso. A falta de humanidade com que se refere a gente como ele. A "coisificação" de gente que respira, come, dorme, e acorda todos os dias, como ele. 
casamento cigano no Brasil

As pessoas diferentes não são "inestéticas" só porque pobres e necessitadas. O que é "inestético" é a própria pobreza -que não deveria existir! 

É muito perigoso ter estes  discursos. Não basta desculpar-se dizendo que é "católico e romano" - porque já vimos católicos e romanos fazer isso... Ou dizer que "essas coisas (dos campos) já não se fazem há muito tempo...", que não quer dizer coisíssima nenhuma.

A Extrema Direita espalha-se pela Europa como tentáculos do grande polvo da alterofobia e do racismo. Da recusa de receber o outro na sua terra. Do nacionalismo feroz que disfarça sempre lá dentro uma forma de "racismo" populista. 

Deve preocupar-nos esse avanço da ideologia que mata! 


O outro, o que é diferente de nós, traz-nos sempre algo de bom: a diferença, pelo menos! Quebra a monotonia dos dias, dos sons, das comidas! Traz um coração-outro
E, temos de reconhecer: no modo como, nas coisas essenciais, na dor e nos sentimentos...somos todos iguais! 

P. S. Parece que houve, felizmente, um protesto do Partido Socialista francês...http://www.lemonde.fr/politique/article/2014/03/04/roms-le-ps-outre-par-la-declaration-ignoble-d-un-candidat-fn_4377483_823448.html

 Deixo um belo Duo, o "Reprenons", Duo de Jazz Manouche, logo, ciganos... 
E o  "género" "Fado Flamenco", de músicos ciganos portugueses.
http://youtu.be/uGMPjvkHcVA


E por cá? Tudo bem? Nem por isso. Podem ler estes blogues que falam do problema...É sempre bom saber o que se passa!




segunda-feira, 3 de março de 2014

....Audrey e a Vida: ler "Irresistível Audrey Hepburn", de Iris Lanelou





Um livro oferecido por uma grande amiga, que admira -como eu- Audrey Hepburn. Uma amiga que vive longe e fez há pouco 90 anos. E que se lembrou de me mandar esta biografia!

"Irrésistible Audrey Hepburn", belo título e verdadeiro: Audrey Kathleen Ruston é uma personagem irresistível! Basta começar a ler a biografia dela...


Nasceu em Ixelles, na Bélgica, em 4 de Maio de 1929. 



Era filha de uma baronesa, holandesa, Hella van Heemstra, com origens nobres próximas e influente na cidade de Arnhem, na Holanda.  



O pai Joseph Victor Anthony Ruston - britânico-irlandês-escocês-francês, com alguns antecedentes judaicos- é um leitor apaixonado e culto, e um conhecedor de línguas - fala treze, pelo menos. 
Interessa-se pela genealogia. Curiosidade genealógica da família: descende de James Hepburn, conde de Bothwell, e 3º marido de Maria Stuart. 

Decide adoptar esse apelido e passa a chamar-se Joseph Ruston-Hepburn.

Os pais encontram-se na Indonésia, apaixonam-se, casam, vão viver para Bruxelas. Mas não se vão entender muito tempo.



"Quando Audrey nasce, a família e todos os amigos extasiam-se perante a sua beleza e os lindos olhos risonhos que ela tem."

"Simplicidade e sofisticação; olhos de corça e o sorriso de uma criança".
É assim que começa a Biografia de Audrey, escrita por Iris Lanelou "Irrésistible Audrey Hepburn" (Éditions  Chêne).



Para a mãe é já o 2º casamento. Tem dois filhos do primeiro.  Mas Joseph Hepburn é uma pessoa complicada: aventureiro, cavaleiro exímio, aviador, poliglota é um original. Viaja sem meta, nem ofício: é um "diletante" em vários campos.

O casal não se vão entender muito tempo. As disputas em casa começam cedo: os pais não se entendem. 

Para a protegerem do "ambiente eléctrico" que se vivia em casa, Audrey é enviada para um colégio interno, em Kent (Inglaterra). 

"Tinha 5 anos e vive solitária e aterrorizada por se saber afastada de casa. As férias passa-as numa família inglesa. Introvertida sente-se desenraizada, até porque e perde o contacto com os meio-irmãos com qum se dava tão bem." 

Frágil de saúde, torna-se numa leitora compulsiva, lê tudo: Kipling, Edgar Wallace, Openheimer. Não participa nos desportos colectivos da escola, mas dedica-se à dança clássica. 



"É uma revelação! Audrey descobre a sua verdadeira paixão, aliando a música que já amava a uma graça natural." (p.6)

Em 1935, o pai abandona de vez o domicílio conjugal e parte para Inglaterra. Ela tem 6 anos e, para ela, a separação é um cataclismo. 

"É uma tragédia da qual nunca me recompus - contará, já adulta. Eu venerava-o e fez-me imensa falta quando desapareceu. (...) Tinha inveja de todas as meninas que tinham um pai em casa."

No entanto, apesar de estarem ambos em solo britânico, o pai nunca vai visitar a filha que o adorava e que sofre brutalmente com isso. "Passa a sofrer de enxaquecas, come pouco, e, torna-se cada vez mais inquieta e reservada."

É a dança que a vai salvar deste primeiro golpe. Em 1938, o divórcio dos pais é oficializado.

Quando a Guerra rebenta em 1939, o pai vai levá-la a Bruxelas. Vai ser a última vez que se vêem: encontrar-se-ão, brevemente, em 1964, pouco antes de o pai morrer.

Ela, a mãe, e os irmãos procuram refúgio junto dos familiares que vivem na Holanda, esperando que ali possam viver em paz. 


Picasso, A Guerra

Mas a Holanda vai ser, pelo contrário, um ponto-chave para os nazis.

Arhem, a cidade onde vivem, não está longe da fronteira alemã, mas os habitantes guardam alguma esperança. Tentam viver o dia a dia o melhor  possível, respeitam a cultura. 



A 9 de Maio de 1940, Audrey participa numa soirée de gala, organizada devido à passagem da Companhia de Ballet Sadler's Wells, onde vê dançar Margot Fonteyn, um dos seus ídolos. 




Margot Fonteyn


Nessa madrugada, os exércitos do 3º Reich entram na Holanda, que não queria entrar naquela guerra...

Audrey passa a chamar-se "Edda", por questões de segurança: o seu nome -de consonância bem inglesa- poderia trazer-lhe sarilhos. A mãe proibiu-a de falar inglès. 

Como diz Iris Lanelou: "Ser inglês, na Holanda ocupada, não era de modo nenhum recomendável. Era arriscado chamar a atenção dos alemães, qualquer coisa poderia levar à prisão e à deportação!" (p.7)

Vem o racionamento, a família sofre privações, passam fome, chegam a comer folhas de tulipa para sobreviverem. Há crianças que morrem, crianças que são mandadas para campos de concentração...

A família entra na Resistência, a própria Audrey, adolescente, leva propaganda escondida nas meias ou dentro dos sapatos. 

E "luta", sempre, como os grandes. O irmão mais velho entra na clandestinidade, para não ser incorporado no exército alemão. 

Muitas pessoas da família são mortas pelos alemães, algumas na frente dela, como um tio, em plena rua. 

A Holanda "resiste", apesar de dividida. Em Fevereiro de 1941, é organizada a primeira grande greve dos Holandeses contra o anti-semitismo. 

Será reprimida duramente essa greve e a política de deportação continuará em força. Muitas crianças serão deportadas, como se pode ver hoje no Museu da Resistência.


crianças deportadas para campos de concentração


Audrey "protesta" e age como pode: a sua forma de participar na “resistência” - que era muito activa na Holanda- é entrar em espectáculos clandestinos de ballet, cujo dinheiro ia direito para os activistas e resistentes. 



Continua a dançar no Conservatório sob a direcção da professora Winja Marova que acredita nela e a admira e lhe ensina coreografia. 


o primeiro papel, de cabeleira loira

Trabalha, com profissionalismo e coragem, quer melhorar, e esgota-se porque sofre de desnutrição e dançar é um grande esforço. Mas ela não desiste, continua em frente, faz progressos...



Acabam por ir refugiar-se, ela e a mãe, na aldeia de Velp na casa do velho barão Van Heemstra, seu avô.

Mas mesmo Velp é perigosa: a verdade é que, numa tarde de 1945, ao voltar da escola, é interpelada por um sargento alemão no meio da rua. 

Era fácil  as mulheres e as adolescentes serem raptadas ao acaso para serem enviadas para um campo militar. Pensa fugir, não consegue mexer-se. Por sorte, o soldado distrai-se a fazer um cigarro e a falar com outros e ela escapa-se. Audrey fecha-se em casa e não sai durante um mês inteiro.



Anos mais tarde, Audrey Hepburn  reconhecerá dentro de si, as fragilidades, os medos que sentira Anne Frank: 

"Tínhamos as duas dez anos quando a guerra rebentou e quinze quando chegou ao fim. Li o seu Diário em 1946. Fiquei revoltada, agitada, comovida. Era como ler a minha vida. Nunca mais fui a mesma depois dessa leitura."


A insegurança sentira-a, como Anne, porque a delação existia na Holanda. Talvez por essa razão, Audrey se tenha recusado a voltar lá.
A admiração que sinto por esta figura está ligada também, sem dúvida, à sua coragem e às acções humanitárias "a sério" em que se integrou.

Em 1988, no quadro do programa "Work for food", viaja para a Etiópia, em pleno cáos da guerra civil que grassava desde 1974. 

Audrey fala, dá conferências de imprensa, revela o que se passa, comove-se. Talvez pensasse que nunca mais voltassem os pesadelos da sua infância e da guerra. 


no filme "Guerra e Paz"

Mas, não: a guerra ali está outra vez e as crianças mais do que todos sofrem e sofrem! 

Embaixadora internacional da UNICEF, consegue que o Congresso Americano desbloqueie 60 milhões de dólares para a Etiópia. 

E continua essas viagens sempre que há crianças que sofrem. E há sempre crianças que sofrem pelo mundo fora! 

Assim, viaja para Guatemala, Venezuela, Equador, Bangladesh, Sudão, Honduras, Tailândia ou Vietname.  

com a escritora Colette que a escolhe para a peça "Gigi"



Não vai para se fazer "propaganda", como pode acontecer hoje em dia, não fo faz por uma questão de dignidade. Até porque não precisa de publicidade -ela, uma lenda viva do cinema! 

Vai porque quer agir, participar. Dirige-se aos meninos, fala-lhes e abraça-os. 

O fotógrafo John Isaac -que a acompanhava sempre- escreve: "Muitas vezes, as crianças estavam cheias de moscas, mas ela ia sempre direita a eles para os abraçar e dar um beijo. As outras hesitavam sempre..."

Audrey costumava dizer: "Não acredito na culpabilidade colectiva, mas acredito numa responsabilidade colectiva."

Acho que tem toda a razão: se não fizermos nada, seremos responsáveis! 

Ou seremos avestruzes com a cabeça bem escondida na areia, a fingir que não vemos! Esta foi a Audrey Hepburn que vos quis trazer hoje! Na sua pureza e ingenuidade! Na sua vontade de fazer alguma coisa pelos outros...

sábado, 1 de março de 2014

Woody Allen sings "I'm Thru With Love" no filme Everything says I love you!

Ouvi há pouco, num filme de Woody Allen, esta canção (do filme Toda a gente diz que te amo) e adorei ouvi-la... Um filme à Woody Allen, com encontros e desencontros (mais desencontros do que encontros), psiquismos e psiquiatras, famílias reconstituídas, com filhos de uns e outros. 

Mas com bons sentimentos e belas imagens sempre. A história é contada por DJ, a actriz Natacha Lyonne, filha de Woody e Goldie, que faz um papel bem agradável! 

Drew Barrymore, Skylar, é a filha que vem de outro casamento do novo marido da mãe... 



Depois ainda há as gémeas que são filhas de Goldie e do novo marido, o actor Alan Alda. E que estão sempre apaixonadas... pela mesma pessoa!



Enfim, vai-se percebendo pouco a pouco...
Ah, há ainda a geração dos filhos, adolescentes e jovens, que se sentem livres. E o são, com asneiras ou sem elas.

DJ vai-nos pondo a par da família antiga, da nova, dos amores incompreendidos do pai e resolve arranjar-lhe uma namorada!

A magia de certos momentos (em Paris, à beira do Sena, à noite, com Goldie Hawn (a primeira mulher). A fantasia, a recordação em que tudo é possível de reconstituir: até dançar sem sentido ... e voar! 

A música que nos leva no meio daquela história toda e o leitmotiv a canção "I'm Thru with love" - que todos cantam, num momento ou noutro. Sim, porque é um filme que "refere" os velhos filmes musicais.
E uma luz dourada e quente envolve os personagens e a vida que nada tem de dourada tantas vezes, nem de quente... 


Woody Allen e Goldie Hawn voltam ao passado...

Muito bom trabalho dos actores: o próprio, claro, insuperável no seu género, a fazer de Woody Allen, Goldie Hawn muito boa, uma Julia  Roberts bonita e desorientada. 



E Veneza bem filmada, cheia de romantismo... Onde Woody Allen mente que se farta para "conquistar" a bela Julia Roberts.
Um filme de 1996: a rever!



Deixo em baixo outras versões da mesma canção, agora por Diana Krall e Ella Fitzgerald. Para mim, a de Woody Allen é "special"! bem, "thru" é o mesmo que "trough", mas em "versão reduzida" do slang. É o acordo ortográfico deles...Mas ao contrário!