terça-feira, 3 de junho de 2014
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Da leitura e dos livros...
Virginia Woolf e "L'Art du Roman" (1)…
Virginia Woolf, pintada pela irmã, Vanessa Bell (pormenor)
Sempre bom aprender com os livros e com os escritores...
Desta
vez volto a Virginia Woolf, que admiro muito, pela sua inteligência,
sensibilidade e pelo espírito aberto e livre.
Woolf nasce
em 1882 e suicida-se em 1941. Tem 59 anos. Em tempos falei dela aqui no blog (*).
O livro A Arte do Romance, é uma colectânea de ensaios publicadoa com o nome The Common Reader (2). Está dividido
em vários capítulos, cada um com a sua especificidade. Nele, leva-nos a pensar
(livremente), dando apenas uma (sua) sugestão.
Os
títulos mostram a variedade e o interesse dos assuntos que
escolhe tratar: "O romance moderno"; "O ponto de vista russo;
"O que impressiona um contemporâneo"; "A ponte estreita da arte"; "As mulheres e o romance";
"As etapas do romance"; "Como ler um livro?"; "Carta a
um jovem poeta" são alguns deles.
Woolf
considera-se um leitor vulgar, um "common reader" (3) de que falava o Dr. Johnson, como tantos anónimos
que amam ler. Ela é alguém
que ama ler e para quem os livros são "uma finalidade em si próprios”...
O
primeiro capítulo do livro intitula-se “O Romance Moderno” e nele preocupa-se exactamente com o que é "moderno". Fala do (então) jovem Joyce que admira, como uma "novidade" que lhe interessa.
"Registemos os átomos tal como eles caem; na ordem em que caem; Tracemos -por mais fragmentário e incoerente que nos pareça- o desenho que cada espectáculo, cada incidente, imprime na nossa consciência". ("O romance moderno", 1919,op. cit. p. 16)
O átomo que passa, ou o "attimo", o momento: o "fluir da consciência", pois, que lhe vai interessar.
E termina :
James Joyce, 1939
"Registemos os átomos tal como eles caem; na ordem em que caem; Tracemos -por mais fragmentário e incoerente que nos pareça- o desenho que cada espectáculo, cada incidente, imprime na nossa consciência". ("O romance moderno", 1919,op. cit. p. 16)
O átomo que passa, ou o "attimo", o momento: o "fluir da consciência", pois, que lhe vai interessar.
Virginia Woolf, por Gisèle Freund
E termina :
"A
'substância própria do romance' não existe. Tudo é a substância própria do
romance, todo o sentimento, todo o pensamento; toda a qualidade do intelecto ou
da alma nos serve; nenhuma percepção se deve afastar." (op. cit. p. 20)
Virginia Woolf (Vanessa Bell, 1912)
Quem
escreve, deve escolher dentro de si, dentro da sua experiência o que o “tocou”,
o que “viu”, o que "viveu" intensamente, e o que quer comunicar a outro ser
humano. Tudo pode, pois, se substância, desde que seja o seu modo pessoal de sentir !
E
lembro o escritor Isaac Bashevis Singer (1902-1991), Prémio Nobel de Literatura de 1978, dizer isto mais ou menos: cada um tem as
suas histórias para contar porque cada um tem a sua maneira própria de “falar”.
E de tratar os “mesmos assuntos”, de modo diferente, se tiver a
sua mundividência própria, a sua voz, o seu tom pessoal.
Não
está longe do que diz Wolf :
“Todos
os métodos (e assuntos) são bons, cada método serve desde que expresse o que
queremos expressar – se formos escritores- ou que nos aproxime das intenções do
escritor, se formos leitores!" (p.17)
E diz mais adiante: “O problema que se põe ao escritor de hoje (estamos em 1919!), e que se pôs de certeza
aos escritores do passado, é inventar os meios de exprimir livremente o que se
quer exprimir. Deve ter a coragem de dizer que aquilo que lhe interessa
escrever já não é “isto”, mas sim “aquilo”; e será apenas a partir “daquilo” que
irá construir a sua obra!” (p.18)
Mulher maravilhoosa! Pensa e ajuda-nos a pensar: fala-nos de tantas coisas! De tantos escritores: de Walter Scott a Jane Austen, de Dickens a George Eliot, de Henry James a Tolstoï e Tchekhov, das irmãs Brontë a Melville e Proust ou Thomas Hardy!
Mulher maravilhoosa! Pensa e ajuda-nos a pensar: fala-nos de tantas coisas! De tantos escritores: de Walter Scott a Jane Austen, de Dickens a George Eliot, de Henry James a Tolstoï e Tchekhov, das irmãs Brontë a Melville e Proust ou Thomas Hardy!
Escrever é dar conta da diversidade, da dúvida, do conflito da vida que assume tantas faces. Tal como as pessoas, os nossos semelhantes...
"(…)
a capacidade do espírito humano é ilimitada, a vida é infinitamente bela e
repugnante, os nossos semelhantes são adoráveis e nojentos, a ciência e a
religião têm destruído a fé (…) A vida humana não dura se não um segundo. (…) É
com tudo isso, é nessa atmosfera de dúvida e de conflito que os romancistas
hoje devem criar.” (in A porta estreita da Arte, artigo de 1927, op. Cit. p. 67)
No último capítulo, intitulado “A torre inclinada”, Virginia Woolf escreve, dirigindo-se aos "aprendizes de escritores" fala da importância das palavras:
"Um
escritor, mais do que qualquer outro artista tem necessidade de ser crítico
porque as palavras são tão vulgares, tão familiares que temos que as 'tamisar', passar pelo filtro, se
quisermos que elas durem.”
E
aconselhava aos "aprendizes de escritores":
“Escrevam todos os dias, escrevam livremente; mas comparando sempre o que escreverem com o que os grandes escritores escreveram. É humilhante, mas é essencial. Se quisermos conservar, criar, é o único meio. (...) vamos já buscar os livros à primeira biblioteca pública; lendo indistintamente, simultaneamente poemas, peças de teatro, romances, histórias, biografias, os antigos e os modernos. Temos de provar todos antes de escolhermos. Cada um de nós tem um apetite diferente que deve encontrar sozinho o alimento que lhe convém.
E não nos afastemos, por timidez, dos grandes, dos reis. (,...) Seria um crime, aos olhos de Ésquilo ou Shakespeare, de Virgílio ou Dante, os quais -se pudessem falar- diriam: não nos deixem ficar para os que usam fatiotas de literatos. Lê-me, lê-me tu mesmo! (...) Claro que vamos pisar muitas flores, estragar muita relva, como num parque. Mas lembremos sempre o conselho de um Vitoriano ilustre (4) que também gostava de andar pelos campos: ‘Sempre que virem um letreiro a dizer proibido passar, avancem logo!’” (p.203)
A literatura não pertence só a alguns, a literatura é um bem público!
E os livros, afinal, como se lêem? Para que se lêem? Porquê? Simples! Porque nos dão prazer!
“Escrevam todos os dias, escrevam livremente; mas comparando sempre o que escreverem com o que os grandes escritores escreveram. É humilhante, mas é essencial. Se quisermos conservar, criar, é o único meio. (...) vamos já buscar os livros à primeira biblioteca pública; lendo indistintamente, simultaneamente poemas, peças de teatro, romances, histórias, biografias, os antigos e os modernos. Temos de provar todos antes de escolhermos. Cada um de nós tem um apetite diferente que deve encontrar sozinho o alimento que lhe convém.
E não nos afastemos, por timidez, dos grandes, dos reis. (,...) Seria um crime, aos olhos de Ésquilo ou Shakespeare, de Virgílio ou Dante, os quais -se pudessem falar- diriam: não nos deixem ficar para os que usam fatiotas de literatos. Lê-me, lê-me tu mesmo! (...) Claro que vamos pisar muitas flores, estragar muita relva, como num parque. Mas lembremos sempre o conselho de um Vitoriano ilustre (4) que também gostava de andar pelos campos: ‘Sempre que virem um letreiro a dizer proibido passar, avancem logo!’” (p.203)
A literatura não pertence só a alguns, a literatura é um bem público!
E os livros, afinal, como se lêem? Para que se lêem? Porquê? Simples! Porque nos dão prazer!
“Quem
é que lê um livro como uma finalidade em si –por mais desejável que isso possa
ser? Não existem coisas que nós fazemos apenas porque são boas em si mesma? E
não há prazeres que têm o seu fim em si? E a leitura não fará parte deles?
Sonho às vezes, pelo menos sei que já sonhei, que, no amanhecer do Dia do Julgamento Final, quando os grandes conquistadores, os grandes legisladores, os grandes homens de estado forem receber a sua recompensa, e ter os seus nomes gravados, para sempre, no mármore imortal – o Todo Poderoso, quando nos vir chegar, com os nosso livros debaixo do braço, virar-se-á para Pedro e dirá, não sem uma certa inveja:
“Vês? Estes aqui são os que não precisam de recompensa. A estes não temos nada para oferecer. Eles amaram a leitura.” (2)
De Chirico
Sonho às vezes, pelo menos sei que já sonhei, que, no amanhecer do Dia do Julgamento Final, quando os grandes conquistadores, os grandes legisladores, os grandes homens de estado forem receber a sua recompensa, e ter os seus nomes gravados, para sempre, no mármore imortal – o Todo Poderoso, quando nos vir chegar, com os nosso livros debaixo do braço, virar-se-á para Pedro e dirá, não sem uma certa inveja:
“Vês? Estes aqui são os que não precisam de recompensa. A estes não temos nada para oferecer. Eles amaram a leitura.” (2)
E
hoje fico por aqui… E tenho esperança que, um dia, num paraíso qualquer, nos encontraremos com um livro debaixo do braço: nós e ela!
(*)
(*)
(2)
“The Common Reader é uma colecção de ensaios, publicados em 2 séries: a 1ª em
1925 e a 2ª em 1932 (The Second Common Reader). Muitos desses ensaios apareceram, originalmente, em publicações no Times
Literary Supplement, The Nation, ou Athenaeum (...). O título indica a intenção da
escritora de escrever para o “leitor comum”, que lê para seu prazer pessoal.” (in Enciclopédia Britânica online)
(3) “The
common reader”, como diz Dr. Johnson, "é diferente do crítico e do estudioso. É
menos educado, e a natureza não o favoreceu tão generosamente. Lê pelo prazer
de ler mais do que para ensinar seja o que for aos outros, ou corrigir as suas
opiniões. Acima de tudo, é guiado por um instinto que o leva a criar para si
só, sem lhe interessar os fins a que poderia chegar...” (Enciclopedia Britânica)
(4) De uma conferência, numa escola – excerto de The Second Common Reader
Interessante biografia de Virginia Woolf:
Sobre Isaac Bashevis Singer:
domingo, 1 de junho de 2014
CHICK COREA AO VIVO, NO CCB
Vim
encantada com uma noite de boa música e simpatia. Não sou, como certas pessoas
acham, "uma" que quer estar sempre updated
para não envelhecer, mas "uma" que gosta de boa música: toda a boa música!
O
que senti de especial ou diferente? Foi
bom quebrar a rotina do dia a dia: é sempre bom…
Estava um fim de dia lindo, com uma luz rosada e suave e chegar ao CCB, pela Marginal, foi um lindo passeio – até porque nem sequer ia a guiar…
Estava um fim de dia lindo, com uma luz rosada e suave e chegar ao CCB, pela Marginal, foi um lindo passeio – até porque nem sequer ia a guiar…
Quero
falar do público magnífico que enchia o Grande Auditório! Somos um povo estranho, penso às
vezes, tanta coisa que dizemos de mal de "nós "próprios, tanta crítica que fazemos aos "nossos" jovens, tanta
desconfiança, tanta insegurança, tanto medo…
Pois, eu -que viajei por muitos sítios (acasos
da vida)- raramente vi público tão atento, tão receptivo e tão…sensível!
Jovens, muito jovens, menos jovens e muito menos jovens, todos “sentiam” a
qualidade da música, todos reagiam, riam, aplaudiam, com um entusiasmo saudável e contagioso.
O artista esteve à altura, no seu show maravilhoso de humor e de simpatia. Um "virtuose" (virtuoso, em português?), claro, mas isso não é um defeito para ninguém. Quem começa a tocar aos 4 anos ou vem a ser muito bom, ou -se o não for- é porque desistiu. Pelo menos, desistiu de o ser.
Chick Corea nasceu no Massachusets, em Chelsea, no
dia 12 de Junho de 1941.
Não é, pois, já, uma criança, mas é uma pessoa que está viva! E que consegue transmitir aos outros uma sua forma de viver e de amar a vida. Porque amar a música é amar a vida. Porque amar seja o que for, mesmo que disparatado, é amar a vida! E quem tem mãos, toca... Bem, toca guitarra, toca piano, toca o que pode.
Não é, pois, já, uma criança, mas é uma pessoa que está viva! E que consegue transmitir aos outros uma sua forma de viver e de amar a vida. Porque amar a música é amar a vida. Porque amar seja o que for, mesmo que disparatado, é amar a vida! E quem tem mãos, toca... Bem, toca guitarra, toca piano, toca o que pode.
Gostei
da interpretação da minha amada Sophysticated
Lady, canção de Duke Ellington -que tão bem soube interpretar Billie Holiday!
E gostei das interpretações das músicas de Stevie Wonder e de Bill Evans. De Miles Davis, também...
Ou, ainda, Desafinado de Tom Jobim.
The Duke
E gostei das interpretações das músicas de Stevie Wonder e de Bill Evans. De Miles Davis, também...
Mas sensibilzaram-me as suas próprias composições. Um tanto melancólico, um tanto
romântico, sempre “virtuose”…
Bonita a música que escreveu para Paco de Lucia. Usando
por vezes o piano como um instrumento de percussão, hábito seu.
Paco de Lucia
O
“Choir” -o coro- final, em que quase toda a gente “cantou” (harmoniosamente) em “ahhhhh”, foi grande!
Com a japonesa Hiromi Uehara
Um
pouco mais da biografia do pianista: Filho de um trompetista de jazz -que
tocava numa banda, em Boston- cedo o pai lhe incutiu o gosto pela música e
pelo piano - que começou a tocar aos 4 anos.
Aos 6 anos, inicia lições de música clássica
com o pianista Salvatore Sullo que, mais tarde, teve grande influência no seu
caminho como pianista.
Aos 8 anos, tocava
bateria.
Charlie Parker
Bud Powell
Explorou
outras músicas e compôs a sua própria música. Nelas, usa o piano como uma espécie de instrumento
de percussão.
capa do álbum Romantic Warrior
Com Al di Meola
Cria
um grupo, o “Return to Forever”, com a brasileira Flora Purim, com Stanley Clarke e Al di Meola, nos anos 1969 - um grupo jazz fusion.
Nos anos 70-71 cria outro grupo -de
“avant-garde- “Circle”, com Dave Hollande.
Gravou com Herbbie Hancock um belo "dueto" ao piano.
Dave Holland
Gravou com Herbbie Hancock um belo "dueto" ao piano.
Herbbie Hancock
Recentemente
(2008-9) gravou, em Tóquio, no Blue Note Jazz Club.
Num espectáculo ao vivo no Blue Note apresentou-se com a jovem compositora e pianista de Jazz, Uehara Hiromi (nascida em Hamamatsu em Março de 1979), e gravaram o álbum “Duet".
Mas ontem tocou em solo e gostei! Deixo para ouvirem um pouco Chck Corea e outros...
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