segunda-feira, 20 de outubro de 2014

LEMBRAR O POETINHA ... COM ALEGRIA!



Angioletto Musicante, de Rosso Fiorentino



"Se tu queres que eu não chore mais, 
Diga ao tempo que não passe mais. 
Chora o tempo o mesmo pranto meu, ele e eu, tanto, 
Que só para não te entristecer, 
Que fazer, canto. 
Canto para que te lembres quando eu me for..."



Tanta poesia, tanto amor, tanta indulgência, tanta alegria para mascarar a dor - isto era o "Poetinha", como lhe chamavam os amigos. Lembremos, pois,  o Poetinha (que faria hoje 114 anos). Com o seu humor, claro!

“Quem pagará o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores? 
Quem, dentre amigos, tão amigo 
Para estar no caixão comigo? 
Quem, em meio ao funeral 
Dirá de mim:
- Nunca fez mal... 
Quem, bêbedo, chorará em voz alta 
De não me ter trazido nada? 
Quem virá despetalar pétalas 
No meu túmulo de poeta? 
Quem jogará timidamente 
Na terra um grão de semente? 
Quem elevará o olhar covarde 
Até a estrela da tarde? 
Quem me dirá palavras mágicas 
Capazes de empalidecer o mármore? 
Quem, oculta em véus escuros 
Se crucificará nos muros? 
Quem, macerada de desgosto 
Sorrirá: - Rei morto, rei posto... 
Quantas, debruçadas sobre o báratro 
Sentirão as dores do parto? 
Qual a que, branca de receio 
Tocará o botão do seio? 
Quem, louca, se jogará de bruços 
A soluçar tantos soluços 
Que há de despertar receios? 
Quantos, os maxilares contraídos 
O sangue a pulsar nas cicatrizes 
Dirão: - Foi um doido amigo... 
Quem, criança, olhando a terra 
Ao ver movimentar-se um verme 
Observará um ar de critério? 
Quem, em circunstância oficial 
Há de propor meu pedestal? 
Quais os que, vindos da montanha 
Terão circunspeção tamanha 
Que eu hei de rir branco de cal? 
Qual a que, o rosto sulcado de vento
 Lançará um punhado de sal 
Na minha cova de cimento? 
Quem cantará canções de amigo 
No dia do meu funeral? 
Qual a que não estará presente 
Por motivo circunstancial? 
Quem cravará no seio duro 
Uma lâmina enferrujada? 
Quem, em seu verbo inconsútil 
Há de orar:
- Deus o tenha em sua guarda.
 Qual o amigo que a sós consigo 
Pensará:- Não há de ser nada... 
Quem será a estranha figura 
A um tronco de árvore encostada 
Com um olhar frio e um ar de dúvida? 
Quem se abraçará comigo 
Que terá de ser arrancada?  
Quem vai pagar o enterro e as flores 
Se eu me morrer de amores?”


 "REGRA TRÊS"...  TOQUINHO & VINICIUS

sábado, 18 de outubro de 2014

Pronta a caminhar sobre a Lua! Ouvindo ."Nun me scuccia'..." e Pino Daniele

Si, pronti per andare sulla luna, ma i piedi mi fanno male.
Allora come dice Pino Daniele:

Lua em casa, foto (MJF)


"Nun me scuccia',
nun me scuccia'"


"Luar" foto de Marisa Volonterio Meira

Emil Nolde, Noite de Luar (1914) 





Nun me scuccia',
nun me scuccia',
cerca di stare almeno un'ora
senza parla'...
Nun me scuccia'
cchiù
tanto muore pure tu...
Nun me scuccia',
nun me scuccia'
coi tuoi discorsi

Nun me scuccia'
cchiù
tanto muore pure tu...
tanto muore pure tu...
A che serve 

sta' accussì
sempe 'ncazzati, ma po' pe chi?
Oggi fa friddo e nun voglio asci'!
A che serve sta'accussì
sempe 'ncazzati, ma po' pe chi?

Fora fa friddo...
Nun me scuccia',
nun me scuccia',
statte quieto ca po' vene 'a sete
a furia 'e parla'...

Nun me scuccia'
cchiù
tanto muore pure tu...
tanto muore pure tu...

Bom fim de semana! "Je so pazzo" Pino Daniele



segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Leonard Cohen - Nevermind...Slowing...e Almost like the blues. E o "céu sereno"...

O Anjo Ferido, de Hugo Simberg

NEVER MIND... "Não te preocupes..." 



SLOW ... "Devagar"... 



ALMOST LIKE THE BLUES..."No fundo, é como nos "blues"...


Ottone Rosai, Via Leonardo à Firenze

Ouço as novas canções de Leonard Cohen.O disco saiu há pouco e tive de o comprar logo que o vi. Porque sim!

Porque gosto deles, porque é uma pessoa que viveu, que escolheu a vida, que se interessou pelo mundo e pelos seus problemas. E continua a interessar-se, num aparente desinteresse, quando diz que "deixei a vida para trás/cavei sepulturas/ que nunca encontrarás"... 



A história é a verdade dos factos e das mentiras contadas. Quando diz "nevermind" - "não importa!", "não te rales" - na verdade ele importa-se! 
E continua à procura, à espera, mesmo sob a indiferença do céu. Mas os anjos nem sempre nos guardam. Porque estão feridos.


Nascido judeu, acaba monge Zen, com o nome de "O Silencioso"...

Vai devagar? Mas vai! E chegará: com calma! "Alguns gostam de chegar depressa/ eu gosto de ir devagar...

E vai falando da realidade de hoje tão -ou mais- dura como sempre foi.  
A vida é uma história parecida com a tristeza dos blues... "Quase como nos blues...
O céu está parado lá no alto, ou tremendo e distante, como diz Camões.
"Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"
(Os Lusíadas Canto I)

Van Gogh, Céu estrelado

Morre-se um bocadinho todos os dias enquanto se pensa no que vai pelo mundo. E nem sempre os anjos estão a olhar. Ao fim de tanto pensar, morre-se ainda mais: assassínios, guerras e torturas, crianças desaparecidas...
Van Dongen, Céu e medas de trigo

E lamenta-se o poeta: "Oh, Meu Deus é como nos blues! "Lord, it's almost like the blues…"
Porque pouca coisa muda e a verdade está onde está - e todos a querem do seu lado.

Mas quem tem a verdade no bolso? Há verdades que matam e por verdades se morre. 
Há verdades que vivem, há verdades que morrem. Quais? "I don’t know which/ So never mind..."

E é verdade..."There’s truth that lives/And truth that dies". 

Escolhi algumas letras um pouco ao acaso. Ora ouçam...


NEVER MIND
"I had to leave
My life behind
I dug some graves
You’ll never find

The story’s told
With facts and lies
I had a name
But never mind

Never mind
Never mind
The war was lost
The treaty signed

There’s truth that lives
And truth that dies
I don’t know which
So never mind..."



SLOW...
"I’m slowing down the tune
I never liked it fast
You want to get there soon
I want to get there last

It’s not because I’m old
It’s not the life I led
I always liked it slow
That’s what my momma said..."



ALMOST LIKE THE BLUES
"I have to die a little
Between each murderous thought
And when I'm finished thinking
I have to die a lot
There's torture and there's killing
And there's all my bad reviews
The war, the children missing
Lord, it's almost like the blues…

So I let my heart get frozen
To keep away the rot
My father said I'm chosen
My mother said I'm not
I listened to their story
Of the Gypsies and the Jews
It was good, it wasn't boring
It was almost like the blues…"



http://www.leonardcohen.com/us/lyrics/asinger.html

domingo, 12 de outubro de 2014

Beethoven - Moonlight Sonata e Childe Hassam um impressionista americano e o luar...


Childe Hassam, "Paisagem marinha  ao luar" 

Childe Hassam, "O luar e a velha casa"

Para acompanhar esta "Moonlight Sonata", de Beethoven - que lembro desde que comecei a ouvir tocar piano- escolhi o luar das pinturas do impressionista americano, F.Childe Hassam, que "descobri" há dias...

Frederick Childe Hassam (17 de Outubro  de 1859 – 27 de Agosto 1935)

Childe Hassam, "Noite de luar na cidade" 






sábado, 11 de outubro de 2014

O Ratinho e o Ouricinho querem ir comigo…


A manhã parecia-me triste porque, depois de uns dias de sol, chuviscava. Eles olhavam através dos vidros molhados. Tinham ido buscar o livro da "Gata Borralheira"! Não sei onde o foram desencantar, não o via há anos!

- Levas-me contigo?, pergunta o Ratinho Poeta com um ar grave, enquanto folheava o livro.
Sabia onde ele queria chegar, mas fiz-me desentendida.
- Levar-te onde, Ratinho?
- Sabes muito bem. Como da outra vez em que fomos os dois sozinhos.
Virou-se para o Ouricinho Dan.

- Tu ainda cá não estavas. Fomos só os dois…
Suspirou. Olhou-me, apreensivo.
- Assustei-me tanto nesses dias…
- Eu sei, Ratinho, eu sei…



- Lembras-te de estarmos à janela a ver os arranha-céus do outro lado, ao longe?
- Sim, lembro-me muito bem.

- Eram tão altos! E via-se a ponte, não era? 
O Ouricinho perguntou, interessado:
- Aquela ponte bonita que eu conheço onde passamos quando vais à tua terra?

- Não... Outra ponte, também muito bonita.
- E ouvíamos os barcos no mar, lembras-te?, interrompeu o Ratinho…
- Não, Poeta querido, ali era o rio…
Não gostou que o contrariasse, mas concordou:
- Sim, era o rio. Mas eu sei que ouvia o barco-piloto!
O Ouricinho ouvia com atenção e girava a cabeça ora para um lado, ora para o outro.
- Onde vão? E eu não vou?
O Ratinho  riu, seguro de si:
- Vais, sim. Já aí tens a tua cama...
E, para mim:
- Ele vai connosco, não vai?
- Claro, desta vez vão os dois. 
- Sim, continuou o Ratinho. E fazemos-te companhia. Conversamos contigo! Levamos umas mantinhas para dormir ao pé de ti... Como os passarinhos da Gata Borralheira!



Não me apetecia pensar naquela viagem, confesso.
- E não te vai doer?, preocupou-se o Ratinho. Tantos dedinhos…
- Vão-te  cortar os dedinhos? Não quero! Não deixo!
O Ouricinho tapava os olhos com as patinhas, aflito.

- Não… Vão só endireitá-los!
- Que coisa tão estranha, estou tão baralhado! Nunca ouvi falar numa coisa dessas. 
O Ratinho já andava a mexer em tudo e a escolher o saco-cama para levarem, mas o Ouricinho continuava confuso, a olhar para o ar. 


- Os dedos! Os dos teus pezinhos? E depois ficas a andar bem?
- Dizem que sim!, atalhou logo o Ratinho. 
E continuava a estender-se em cima dos saquinhos que encontrava, sem se decidir por nenhum.
- Sim, Ouricinho, vou ficar muito melhor!
O Ratinho queria mostrar o seu conhecimento dos factos, porque ele é muito convencido como sabem.
- É claro que ela vai andar bem! Vem mas é experimentar o teu saco-cama, ó Dan!
E, virando-se para mim, disse, a rir, como se tivesse tido uma ideia genial:
- Olha! Depois até podes calçar sapatinho altos e bonitos. Como os da Cinderella!


sapatinhos da Cinderella, no Disney Store

Ah, a Cinderella e os desenhos de Walt Disney. Como eu adorei essas histórias! Até desenhei os bonecos num caderno... Os ratinhos que falavam com ela, o vestido a ser feito de lindas mousselines, os passarinhos a esvoaçar com os fios das linhas de tantas cores e as fitas de cetim...

Pensei nos passarinhos com um lencinho na cabeça. Tanta poesia, tanta beleza inesquecível! Ainda haverá livros assim encantadores para as crianças? Não sei, sinceramente, não creio.



E pensei nas irmãs dela e nos pés enormes que elas tinham!  E no sapatinho de cristal. Que história linda era!

- Sim! 
Sentia-me mais aliviada e quase contente:
- Tens razão, depois vou poder usar uns sapatinhos de cristal!

- Hihihi, e talvez tenhas sorte e o Manuel te leve ao baile...
O Ouricinho já não estava assustado e dizia a sua graça, para me animar...
Abracei-os. Eram os meus grandes amigos! Fico sempre a pensar nestas ocasiões: o que era de mim sem eles???