terça-feira, 21 de outubro de 2014
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
LEMBRAR O POETINHA ... COM ALEGRIA!
Angioletto Musicante, de Rosso Fiorentino
"Se tu queres que eu não chore mais,
Diga ao tempo que não passe mais.
Chora o tempo o mesmo pranto meu, ele e eu, tanto,
Que só para não te entristecer,
Que fazer, canto.
Canto para que te lembres quando eu me for..."
Tanta poesia, tanto amor, tanta indulgência, tanta alegria para mascarar a dor - isto era o "Poetinha", como lhe chamavam os amigos. Lembremos, pois, o Poetinha (que faria hoje 114 anos). Com o seu humor, claro!
“Quem
pagará o enterro e as flores
Se
eu me morrer de amores?
Quem,
dentre amigos, tão amigo
Para
estar no caixão comigo?
Quem,
em meio ao funeral
Dirá
de mim:
-
Nunca fez mal...
Quem,
bêbedo, chorará em voz alta
De
não me ter trazido nada?
Quem
virá despetalar pétalas
No
meu túmulo de poeta?
Quem
jogará timidamente
Na
terra um grão de semente?
Quem
elevará o olhar covarde
Até
a estrela da tarde?
Quem
me dirá palavras mágicas
Capazes
de empalidecer o mármore?
Quem,
oculta em véus escuros
Se
crucificará nos muros?
Quem,
macerada de desgosto
Sorrirá:
- Rei morto, rei posto...
Quantas,
debruçadas sobre o báratro
Sentirão
as dores do parto?
Qual
a que, branca de receio
Tocará
o botão do seio?
Quem,
louca, se jogará de bruços
A
soluçar tantos soluços
Que
há de despertar receios?
Quantos,
os maxilares contraídos
O
sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão:
- Foi um doido amigo...
Quem,
criança, olhando a terra
Ao
ver movimentar-se um verme
Observará
um ar de critério?
Quem,
em circunstância oficial
Há
de propor meu pedestal?
Quais
os que, vindos da montanha
Terão
circunspeção tamanha
Que
eu hei de rir branco de cal?
Qual
a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na
minha cova de cimento?
Quem
cantará canções de amigo
No
dia do meu funeral?
Qual
a que não estará presente
Por
motivo circunstancial?
Quem
cravará no seio duro
Uma
lâmina enferrujada?
Quem,
em seu verbo inconsútil
Há
de orar:
-
Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará:- Não há de ser nada...
Quem
será a estranha figura
A
um tronco de árvore encostada
Com
um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem
se abraçará comigo
Que
terá de ser arrancada?
Quem
vai pagar o enterro e as flores
Se
eu me morrer de amores?”
"REGRA TRÊS"... TOQUINHO & VINICIUS
sábado, 18 de outubro de 2014
Pronta a caminhar sobre a Lua! Ouvindo ."Nun me scuccia'..." e Pino Daniele
Si, pronti per andare sulla luna, ma i piedi mi fanno male.
Allora come dice Pino Daniele:
Lua em casa, foto (MJF)
"Nun me scuccia',
nun me scuccia'"
nun me scuccia'"
"Luar" foto de Marisa Volonterio Meira
Emil Nolde, Noite de Luar (1914)
Nun me scuccia',
nun me scuccia',
cerca di stare almeno un'ora
senza parla'...
Nun me scuccia'
cchiù
tanto muore pure tu...
Nun me scuccia',
nun me scuccia'
coi tuoi discorsi
Nun me scuccia'
cchiù
tanto muore pure tu...
tanto muore pure tu...
A che serve
nun me scuccia',
cerca di stare almeno un'ora
senza parla'...
Nun me scuccia'
cchiù
tanto muore pure tu...
Nun me scuccia',
nun me scuccia'
coi tuoi discorsi
Nun me scuccia'
cchiù
tanto muore pure tu...
tanto muore pure tu...
A che serve
sta' accussì
sempe 'ncazzati, ma po' pe chi?
Oggi fa friddo e nun voglio asci'!
A che serve sta'accussì
sempe 'ncazzati, ma po' pe chi?
Fora fa friddo...
Nun me scuccia',
nun me scuccia',
statte quieto ca po' vene 'a sete
a furia 'e parla'...
Nun me scuccia'
cchiù
tanto muore pure tu...
tanto muore pure tu...
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Leonard Cohen - Nevermind...Slowing...e Almost like the blues. E o "céu sereno"...
O Anjo Ferido, de Hugo Simberg
SLOW ... "Devagar"...
Ottone Rosai, Via Leonardo à Firenze
Ouço as novas canções de Leonard Cohen.O disco saiu há pouco e tive de o comprar logo que o vi. Porque sim!
Porque gosto deles, porque é uma pessoa que viveu, que escolheu a vida, que se interessou pelo mundo e pelos seus problemas. E continua a interessar-se, num aparente desinteresse, quando diz que "deixei a vida para trás/cavei sepulturas/ que nunca encontrarás"...
A história é a verdade dos factos e das mentiras contadas. Quando diz "nevermind" - "não importa!", "não te rales" - na verdade ele importa-se!
E continua à procura, à espera, mesmo sob a indiferença do céu. Mas os anjos nem sempre nos guardam. Porque estão feridos.
Vai devagar? Mas vai! E chegará: com calma! "Alguns gostam de chegar depressa/ eu gosto de ir devagar...
E vai falando da realidade de hoje tão -ou mais- dura como sempre foi.
A vida é uma história parecida com a tristeza dos blues... "Quase como nos blues..."
O céu está parado lá no alto, ou tremendo e distante, como diz Camões.
"Onde
pode acolher-se um fraco humano,
Onde
terá segura a curta vida,
Que
não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra
um bicho da terra tão pequeno?"
(Os Lusíadas Canto I)
Van Gogh, Céu estrelado
Van Dongen, Céu e medas de trigo
E lamenta-se o poeta: "Oh, Meu Deus é como nos blues! "Lord, it's almost like the blues…"
Mas quem tem a verdade no bolso? Há verdades que matam e por verdades se morre.
Há verdades que vivem, há verdades que morrem. Quais? "I don’t know which/ So never mind..."
E é verdade..."There’s truth that lives/And truth that dies".
Escolhi algumas letras um pouco ao acaso. Ora ouçam...
NEVER MIND
"I
had to leave
My
life behind
I
dug some graves
You’ll
never find
The
story’s told
With
facts and lies
I
had a name
But
never mind
Never
mind
Never
mind
The
war was lost
The
treaty signed
There’s
truth that lives
And
truth that dies
I
don’t know which
So
never mind..."
SLOW...
"I’m
slowing down the tune
I
never liked it fast
You
want to get there soon
I
want to get there last
It’s
not because I’m old
It’s
not the life I led
I
always liked it slow
That’s
what my momma said..."
ALMOST LIKE THE BLUES
"I
have to die a little
Between
each murderous thought
And
when I'm finished thinking
I
have to die a lot
There's
torture and there's killing
And
there's all my bad reviews
The
war, the children missing
Lord,
it's almost like the blues…
So
I let my heart get frozen
To
keep away the rot
My
father said I'm chosen
My
mother said I'm not
I
listened to their story
Of
the Gypsies and the Jews
It
was good, it wasn't boring
It
was almost like the blues…"
http://www.leonardcohen.com/us/lyrics/asinger.html
domingo, 12 de outubro de 2014
Beethoven - Moonlight Sonata e Childe Hassam um impressionista americano e o luar...
Childe Hassam, "Paisagem marinha ao luar"
Childe Hassam, "O luar e a velha casa"
Para acompanhar esta "Moonlight Sonata", de Beethoven - que lembro desde que comecei a ouvir tocar piano- escolhi o luar das pinturas do impressionista americano, F.Childe Hassam, que "descobri" há dias...
Frederick Childe Hassam (17 de Outubro de 1859 – 27 de Agosto 1935)
Childe Hassam, "Noite de luar na cidade"
sábado, 11 de outubro de 2014
O Ratinho e o Ouricinho querem ir comigo…
A
manhã parecia-me triste porque, depois de uns dias de sol, chuviscava. Eles
olhavam através dos vidros molhados. Tinham ido buscar o livro da "Gata Borralheira"! Não sei onde o foram desencantar, não o via há anos!
Sabia
onde ele queria chegar, mas fiz-me desentendida.
-
Levar-te onde, Ratinho?
-
Sabes muito bem. Como da outra vez em que fomos os dois sozinhos.
Virou-se
para o Ouricinho Dan.
Suspirou.
Olhou-me, apreensivo.
-
Assustei-me tanto nesses dias…
-
Lembras-te de estarmos à janela a ver os arranha-céus do outro lado, ao longe?
-
Sim, lembro-me muito bem.
O Ouricinho perguntou, interessado:
- Aquela ponte bonita que eu conheço onde passamos quando vais à tua terra?
- Não... Outra ponte, também muito bonita.
- Aquela ponte bonita que eu conheço onde passamos quando vais à tua terra?
- E ouvíamos os barcos no mar, lembras-te?, interrompeu o Ratinho…
Não
gostou que o contrariasse, mas concordou:
-
Sim, era o rio. Mas eu sei que ouvia o barco-piloto!
O Ouricinho ouvia com atenção e girava a cabeça ora para um lado, ora para o outro.
O Ouricinho ouvia com atenção e girava a cabeça ora para um lado, ora para o outro.
-
Onde vão? E eu não vou?
O
Ratinho riu, seguro de si:
-
Vais, sim. Já aí tens a tua cama...
-
Ele vai connosco, não vai?
-
Claro, desta vez vão os dois.
- Sim, continuou o Ratinho. E fazemos-te companhia. Conversamos contigo! Levamos umas mantinhas para dormir ao pé de ti... Como os passarinhos da Gata Borralheira!
- Sim, continuou o Ratinho. E fazemos-te companhia. Conversamos contigo! Levamos umas mantinhas para dormir ao pé de ti... Como os passarinhos da Gata Borralheira!
Não
me apetecia pensar naquela viagem, confesso.
-
E não te vai doer?, preocupou-se o Ratinho. Tantos dedinhos…
O
Ouricinho tapava os olhos com as patinhas, aflito.
-
Que coisa tão estranha, estou tão baralhado! Nunca ouvi falar numa coisa dessas.
O Ratinho já andava a mexer em tudo e a escolher o saco-cama para levarem, mas o Ouricinho continuava confuso, a olhar para o ar.
O Ratinho já andava a mexer em tudo e a escolher o saco-cama para levarem, mas o Ouricinho continuava confuso, a olhar para o ar.
-
Os dedos! Os dos teus pezinhos? E depois ficas a andar bem?
-
Dizem que sim!, atalhou logo o Ratinho.
E continuava a estender-se em cima dos saquinhos que encontrava, sem se decidir por nenhum.
E continuava a estender-se em cima dos saquinhos que encontrava, sem se decidir por nenhum.
- Sim, Ouricinho, vou ficar muito melhor!
O
Ratinho queria mostrar o seu conhecimento dos factos, porque ele é muito convencido como sabem.
- É claro que ela vai andar bem! Vem mas é experimentar o teu saco-cama, ó Dan!
E, virando-se para mim, disse, a rir, como se tivesse tido uma ideia genial:
- Olha! Depois até podes calçar sapatinho altos e bonitos. Como os da Cinderella!
Ah, a Cinderella e os desenhos de Walt Disney. Como eu adorei essas histórias! Até desenhei os bonecos num caderno... Os ratinhos que falavam com ela, o vestido a ser feito de lindas mousselines, os passarinhos a esvoaçar com os fios das linhas de tantas cores e as fitas de cetim...
E, virando-se para mim, disse, a rir, como se tivesse tido uma ideia genial:
- Olha! Depois até podes calçar sapatinho altos e bonitos. Como os da Cinderella!
sapatinhos da Cinderella, no Disney Store
Pensei
nos passarinhos com um lencinho na cabeça. Tanta poesia, tanta beleza inesquecível! Ainda haverá livros assim encantadores para as crianças? Não sei, sinceramente, não creio.
E pensei nas irmãs dela e nos pés enormes que elas tinham! E no sapatinho de cristal. Que história linda era!
-
Sim!
Sentia-me mais aliviada e quase contente:
- Tens razão, depois vou poder usar uns sapatinhos de cristal!
- Hihihi, e talvez tenhas sorte e o Manuel te leve ao baile...
O Ouricinho já não estava assustado e dizia a sua graça, para me animar...
Abracei-os. Eram os meus grandes amigos! Fico sempre a pensar nestas ocasiões: o que era de mim sem eles???
Sentia-me mais aliviada e quase contente:
- Tens razão, depois vou poder usar uns sapatinhos de cristal!
- Hihihi, e talvez tenhas sorte e o Manuel te leve ao baile...
O Ouricinho já não estava assustado e dizia a sua graça, para me animar...
Abracei-os. Eram os meus grandes amigos! Fico sempre a pensar nestas ocasiões: o que era de mim sem eles???
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