“This is about belief and faith of the
strongest type: The intangible, the unknowable, and impossible”
(Andrew Liptack)
O
romance de John Steinbeck, A Um Deus
Desconhecido (To A God Unknown) descobri-o recentemente. Será que já o tinha lido? Provavelmente
sim. Mas, na altura, não me causou uma impressão especial, o que já não
aconteceu com “A Pérola”, um dos livros de Steinbeck que mais amei!
Consegui descobrir na internet a capa do livrinho da Europa-América onde li a história...
Esse livro e o Tortilla Flat, o maravilhoso Milagre de San Francisco, foram os meus preferidos.
A Pérola
foi a minha primeira leitura “a sério”, e foi um deslumbramento. Uma dor enorme também, recordo, e uma angústia que nunca tinha sentido, o medo do que iria acontecer
àquela gente. E a incompreensão da razão por que aconteciam as coisas que o escritor
contava.
Teria
nove ou dez anos. Lembro-me muito bem de estar nessa altura em casa dos meus
avós e, à noite, ler o pequeno livro, bem tapadinha e com uma luz ao lado
esquerdo. Lembro-me do cobertor que estava aos pés do divã, um cobertor felpudo
que tinha um leão amarelo em fundo vermelho. A história de Juana e Kino e do pequeno Coyotito, a miséria e a tristeza, das suas vidas difíceis, nunca esqueci. Ficou-me nos olhos o escorpião, que ainda hoje “vejo” descer pela parede chegando-se para a criança! (*) Voltei a ler o livro umas três ou quatro vezes. E sofro sempre, do mesmo modo agudo e desesperado, a injustiça da vida dos personagens.
Livros Do Brasil, reedição 2014
Desta
vez, A Um Deus Desconhecido impressionou-me.
Escrito pelo autor, ainda muito jovem (é o seu segundo livro), a perplexidade e a
interrogação passam pelas 200 páginas do livro.
O
herói é um personagem com o qual a identificação é difícil, mas os
romances não são para nos identificarmos (sempre) com os personagens, é para
nos obrigar a pensar sobre pessoas diferentes de nós e tentar compreendê-las.
O romance passa-se no século XIX e começa em Vermont, perto de Pittsford. Joseph
Wayne é um homem estranho, muito estranho mesmo. Um solitário, com um rosto de
Cristo sofredor e espantado.
Começa
ao cair de uma tarde de Inverno, quando Joseph vai falar com o pai e lhe diz: “A terra vai deixar de bastar, senhor pai.”
E
fala-lhe do seu sonho de ir para o Oeste, à procura de terrenos.
Tem
sede de terra: “Esta terra não chega”, e acrescenta: “Não cabemos cá todos. A terra
não estica, pai, e eu estou faminto de terra.”
Soubera
que havia terrenos à venda, baratos, na Califórnia, e decide ir à aventura.
O
pai, que não se quer separar dele, responde: “Se tu esperasses mais um ano (…) eu não me importaria. Tu não és o mais
velho mas sempre pensei que era a ti que daria a minha bênção para tomares o
meu lugar. Há em ti qualquer coisa de mais seguro e íntimo.”
O filho descansa-o: “Pai, ali, passado um ano depois de lavrada, a terra é nossa e ninguém pode voltar a tirá-la.”
Galleni-Kallella, Lavrando a terra
E o pai acaba por consentir e dá-lhe uma bênção especial - e promete que um dia irá ter com
ele a essa terra bendita.
Joseph
parte, cheio de ilusões. Pouco depois de se instalar na nova terra, perto da
fronteira mexicana, com muita gente índia a viver ali, recebe a notícia da morte
do pai. O desgosto é enorme, e uma ponta de remorso vai-lhe roendo a alma, porque o
deixou e não o acompanhou na sua morte.
Edvard Munch, O Assassino na Alameda
Quando
recebeu a carta, olhava para um velho carvalho, em frente da casa, e
pareceu-lhe que as folhas se agitaram de outro modo, com outra vida. Para se
consolar, talvez, inventa para si que
o espírito do pai se tinha introduzido na velha árvore: ali mesmo, no âmago. E começou a
“adorar” a árvore.
A
partir de então, era a ela que pedia conselho, ou, silenciosamente, se recolhia
e ficava a olhá-la até decidir das coisas importantes.
Deificação
da natureza? Paganismo? Panteísmo? Penso que era uma necessidade de acreditar
numa forma diferente de “Deus”, de absoluto: um deus que ele criava, desconhecido para
todos.
“Fala da crença e da fé do tipo mais forte:
do intangível, desconhecido, e impossível”, escreve Andrew Liptack, num artigo muito interessante que
encontrei na internet.
Tentando
uma explicação, continua: “Joseph
acredita na inteireza do universo, que ele sente mais essencial e universal do
que a Igreja, que olha apenas para um único dos Deuses. Dessa sua visão mais ampla e geral do funcionamentodo
mundo, sinto-me mais próximo.”
Na
sua procura, descobre um lugar sagrado dos índios. Tradições ancestrais, cultos
esquecidos, rituais para a natureza circundante ser propícia.
Os
irmãos vêm, trazem as mulheres e os filhos, criam uma comunidade, mas não
entendem Joseph. O irmão mais velho, muito religioso, pensa que na árvore está o
Diabo, e os poderes ocultos do mal e das trevas.
Simberg, o Pobre Diabinho
Avisa-o:
“Estás dando entrada ao mal” e,
virando-se para Elizabeth, mulher de Joseph, diz: “O meu irmão está a negar Cristo. Está a adorar como os antigos pagãos. Está
a perder a alma.”
Hugo Simberg, Conto de Fadas
Joseph,
espantado, responde, sorrindo: “Não estou a negar
Cristo, estou a fazer uma coisa simples que me dá prazer.”
Seguindo
Liptack “esta história que se inspira da
Bíblia, de mitos antigos, de paganismo e de muitas outras coisas, é também uma
história sobre crença e fé, realidade e fantasia - que eu realmente chamo uma
novela de ficção especulativa.
(…) Tem
a maneira mais honesta e crua de crença: acredita na terra, e vê as suas acções
recompensadas em vários modos e punida também.
(…)
Para mim, foi um livro interessantíssimo
porque (…) as minhas crenças estão próximas das de Joseph: Deus, ou outro
qualquer poder mais alto que escapa às definições, é algo que não se pode
conhecer, que é intangível e misterioso.”
Na
Introdução ao livrinho, da “Colecção
das três abelhas”, interroga-se o editor: “Para Joseph não se trata dum amor, ou apenas
amor à terra. Poderá chamar-se amor a esta unidade mística e omnipotente com
todas as forças da natureza?”
Não
posso deixar de concordar com os dois… Este livro de Steinbeck é um canto do amor pela terra - mas igualmente da procura do tal absoluto. Do amor e do respeito pela natureza em todos os
seus aspectos. Na sua totalidade. Sente-se o "pulsar" da natureza junto do coração do
homem, como se fossem um só.
Joseph
é, no entanto, um homem martirizado, um homem que não sabe amar, nem odiar, nem ter
compaixão, mas que é generoso, numa quase indiferença. O que sacrifica de si e
dos seus, sacrifica sem dor. Como se a dimensão onde vive não fosse a mesma do
resto da humanidade.
Edvard Munch, A mulher de branco
Amou
Elizabeth, a mulher? Ele não era capaz de amar... E amá-lo a ele também era difícil. Segundo diz Rama, a cunhada de Elizabeth: "Amá-lo, não, acabarás por o adorar (...) Vais vê-lo sonhar e nunca saberás qual é o sonho dele..."
Quando
o conheceu, ele assustara-a. Ela ama-o, mas quando estão noivos e vão casar, chora: “Será que
vou mudar quando casar? Ser adulta o que é?”
Marc Chagall, Os noivos em fundo azul
E
tem saudades da criança que vai ficar para trás: “Sim, porque é amargo ser-se criança”, pensava, “há tantas superfícies novas que se podem
riscar”.
Zinaida Serebriakova, Retrato de I.Ribakova adolescente
No
dia do casamento, reza: “Ajudai-me
meu Jesus porque tenho medo. Em todo o tempo que tive para aprender a
conhecer-me, nada aprendi”.
Sente que dele também não sabe nada: aquele homem com um rosto iluminado que parece o
Cristo da paixão - e com quem vai casar, sem nada entender nem dela nem dele.
Giovanni Belini, Cristo Morto
Um
homem à procura de um “Deus” diferente? Não sei. Um homem que encontrou um
deus- desconhecido até então- que identificou com a terra? Ou um homem que se julgou um deus? Fica a pergunta.
“(…)
Primeiro havia a terra, Juanito; depois
vim eu guardar a terra; e agora a terra está quase morta. Só restam este
rochedo e eu. Eu sou a terra.” (p.186)
(I should have known (…) I am the
rain. (…) I am the land (…) and I am the rain. The grass will grow out of me in
a little while.)
Só
a terra e as forças da terra o emocionam. Porque são o deus que procurava? A
elas foi fiel, até à morte.
John Steinbeck -cortesia da Steinbeck House