quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Claude Monet e o quadro "Soleil Levant sur Le Havre"


 Sol nascente no Havre

Durante muito tempo se pôs em discussão este quadro, que é, a vários títulos, famoso. Hoje sabe-se muito mais: quase tudo.
É essa "redescoberta" e o "novo" estudo, que se encontram expostos no Museu Marmottan em Paris -e as conclusões. 



Na Exposição que se intitula “Impression, soleil levant –histoire vraie  du tableau de Monet” que abriu no passado dia 18 de Setembro e estará patente até 18 de Janeiro de 2015.
Li um artigo de Nathaniel Herzberg,  no jornal Le Monde do passado dia 20 de Setembro, que me despertou a atenção sobre o "sentido" dessa exposição.

Trata-se do quadro  que (involuntariamente) deu o nome ao "Impressionismo". 
A obra aparece "assinalada", pela primeira vez, em 1874, na exposição organizada pela Sociedade anónima da Cooperativa-dos-artistas-pintores que organizaram, no antigo atelier do fotógrafo Nadar, a sua primeira exposição.
Citando o próprio Monet, em 1897, diz o artigo: “Enviei uma obra realizada no Havre, à minha janela, o sol na bruma do amanhecer e alguns mastros de barcos em primeiro plano.”


E continua: “Quando me perguntaram que título escolhia para a obra, respondi: 'Impressão, sol nascente'. "

Abre em 15 de Abril de 1874, e, depressa, os pintores e a exposição vão ser atacados pelos críticos do tempo. O mais violento deles é Louis Leroy, que acusa, inclusivamente, o quadro de Monet de estar mal feito: 
Até mesmo o papel pintado, no seu estado embrionário, é mais bem feito do que esta marinha.” 

E, para ridiculizar o pintor e os amigos, intitula o artigo “A Exposição dos Impressionistas”, mal sabendo o sucesso que esses "impressionistas" iriam ter no futuro. 
Uma exposição falhada? Não creio... Reunia obras de 27 grandes artistas, entre os quais Pissarro, Monet, Renoir, Degas e Cézanne e era a primeira exposição juntos. 
Monet apresenta 5 telas, incluindo -além de  Impressão Sol Nascente- o belo quadro Boulevard des Capucines.

Monet, Carnaval Boulevard des Capucines

Renoir apresenta alguns quadros -entre eles "A Bailarina" e  “Box au Théâtre”.

La Loge au Théâtre (1874)
"Danseuse" (1874)
Paul Cézanne apresenta “Nova Olympia” e paisagens de Auvers, entre elas La Maison du Pendu.
La Maison du Pendu  (1874)

A pintora Berthe Morisot expõe 9 obras: aguarelas e óleos.

Berthe Morisot, Na Relva (1874)

Edgar Degas, 10 obras  (uma delas era "Ceifeiros" da qual não encontrei imagem) e Pissarro e Sisley expõem 5 telas cada um: paisagens. 
Edgar Degas (1873)
Pissarro, Dia de sol na estrada( 1874)
Sisley, Manhã de Inverno (1874)



 Todos ficaram famosos pelos anos fora! Até hoje....
Ele, o crítico Louis Leroy, será lembrado apenas por ter dado o nome aos “Impressionistas”…

O quadro Impression Soleil Levant entra a fazer parte da colecção do Musée Marmottan em 1940, com esse mesmo título e com a data de 1872.
Neste artigo do "Monde" tudo nos é explicado em pormenor! O que na  Exposição se veria - se a fôssemos ver au Musée Marmottan- está neste "trabalho" de Herzberg...



Em 1973, a data que o pintor pusera é contestada e atribui-se-lhe a data de 15 de Abril de 1873: não existia nenhum documento provando que Claude Monet estivera no Havre naquele ano. E, pelo contrário, havia uma carta ao amigo, Camille Pissarro, enviada do Havre, com essa data, 1873.


Monet, Pôr-do-sol de Inverno no Sena

As dúvidas começam cedo: afinal é 1872 ou 1873? Sol nascente ou pôr-do-sol? O que sabemos de verdadeiro da execução deste quadro?
O Museu decide organizar uma investigação profunda para tirar essas dúvidas, incluindo trabalhos de especialistas dos mais variados campos. 
De arquivistas de bibliotecas municipais, a restauradores, até a um engenheiro portuário. Procuram-se e "analisam-se" postais, cartas, mapas, fotografias da época: tudo é passado a pente fino.

E, por fim, é convidado o astrofísico americano, Donald W. Olson, da Universidade do Texas, "cientista" especializado em pintura.

Turner, "Sol nascente, em Veneza". Este???
Ou este??? Turner, "Sol nascente"

Especialista dos céus e dos astros que já conseguiu identificar se é sol nascente, ou poente, de Turner e de Monet e datar certos céus estrelados de Van Gogh. Não sei exactamente quais quadros foram...

Van Gogh "Céu estrelado"... Este???
Ou este????  "Céu estrelado sobre o rio Ródano" (1988)

E um quadro de Munch no qual identificou o lugar exacto da ponte que o quadro mostra.
Edvard Munch, "Meninas na ponte"

Olson estuda os documentos existentes, visita várias vezes Paris e, em 2012, vai, com um grupo dos seus estudantes, visitar Etretat, onde Monet vivera muitos anos e cujas paisagens pintara. Verifica que o artista respeitava sempre escrupulosamente a realidade dos terrenos e das paisagens que representava nos quadros.
"Assim este Sherlock Holmes texano – escreve Herzberg- decide fazer tábua rasa e partir do zero.
Estuda ventos e marés, a posição do sol, a existência das marés altas (o quadro representa o porto com maré alta) em que dias e em que anos, estuda a metereologia da época: dos anos, dias e meses possíveis. E reduz a 19 as datas possíveis.
Primeira conclusão: “O quadro foi pintado em dia de tempo suave, com uma ligeira bruma”.
 Fotografia ainda mais nublada do que essa manhã de bruma...

Tempo suave? Mas, no Havre, caracterizado pela rudeza do clima da Normandia, é raro haver desse tempo "suave". Poucos dias no ano haverá sem mau tempo. 
O "detective" continua a investigar os dias, eliminando os  de tempestade, de mar bravo, de chuva: que “somam” 13 dias. Ficam apenas 4 datas "possíveis"…
Afinal, foi a observação do quadro que se tornou determinante”, diz o articulista.
O fumozinho que sai de uma chaminé inclina-se para a esquerda, portanto, o vento soprava do leste. Eliminam-se assim mais dois dias. Restam duas datas possíveis: 13 de Novembro de 1872, às 8:35 da manhã, e 25 de Janeiro de 1873, às 9:05.
Mais : o ângulo particular do sol, no quadro, prova que se trata do fim do Outono.
Assim, a conclusão é: o quadro “Impression, soleil levant” foi pintado no Havre, no dia 13 de Novembro de 1872.

Para que serviu esta investigação, perguntarão alguns. Foi inútil este trabalho? Preciosismo? Puro diletantantismo, só para alguns escolhidos? Desnecessária, porque o que "interessa" é o quadro em si?

Sei de muitos que dirão que se tratou de um trabalho inglório e desnecessário, de “especialistas para especialistas", que só pode interessar a quem não tem mais nada que fazer…

Bem, eu cá, como sou teimosa, discordo. Eu gostei de saber que o quadro mostrava uma manhã de bruma do dia 13 de Novembro de 1872!
E isso nada tira da poesia desta manhã brumosa, no porto do Havre... A luz está lá, o mar calmo, os primeiros reflexos rosados do sol na água, os barquinhos desenhados delicadamente. Tudo!
Como defendia o astrofísico Olson “Nunca devemos destruir a mística de uma pintura pela sua análise técnica. Continua a ter o mesmo impacto emocional. Limitámo-nos a separar o real do irreal.”


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Como resistir à leitura de José Duro ? Embala-nos a sua dor...


Chagall, O violinista azul


Embala-nos a sua dor e vamos atrás dela.  Dói-me lê-lo, e continuo a ler. 
Picasso, Jovem com um cachimbo

Tanto desespero, ódio, amor, tristeza e um laivo de esperança aqui e ali - tão poucos... 
Tanto desencanto num jovem poeta! Tão novo, um rapaz ainda, e quase velho!
Picasso, Tocador de guitarra

Quantos anos tinha? Morreu cedo. Tinha 23 anos. Amou a sua dor? Não creio, sofreu e nunca amou a sua dor. Sente-se em cada verso… Lamenta-se dessa dor, do Abandono, do Desgosto, da busca perdida e do seu Azul que se desfez em astros…
As figuras de Antero, Poë, Baudelaire e de Cesário perpassam no desespero constante e no triste desafio à morte. 
Não deve ter ilusões quem abrir o seu livro ou ler um seu poema. Na epígrafe que escolheu - da Divina Comédia, de Dante, está tudo dito:
"Deixai fora toda a esperança/ vós que entrais." 
Vou-vos deixando uns poemas para lembrar o poeta da minha terra. José Duro nasceu em Portalegre em 1875 e morreu em Lisboa em 1899

Em busca

"Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,
E choro de me ver tão outro, tão mudado…
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro do meu mal – o mal de que provenho.

Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,
Não sei de meu amor, saúde não na tenho,
E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.

A minha alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do Abandono, à hora do sol posto,
Quando o Azul começa a diluir-se em astros…

E à beira dum caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu coração em busca de teus rastros…"

"Fel", Guimarães Editores, 11ª edição, 1983

Poema de José Duro, O meu amigo


Picasso, Le buveur d'absinthe (1903)


O meu amigo

Ele era um doido bom, um doido visionário,
Que andava quase sempre de olhos rasos d’ água,
E, às vezes, costumava a soluçar, com mágua,
A lenda original dum Fado extraordinário…

Entrava na taberna assim que anoitecia,
Bebia só absinto e nunca se fartava;
Daí, quem sabe lá se no absinto achava
Um meio de esquecer a dor que o oprimia…

Amava a cor do luto e odiava a cor o ouro,
E é certo que deixou –estranho tipo aquele!....-
Poemas de nevrose em que só punha Choro…

E eu, que desejo ser o que ninguém deseja,
Julguei-me, por ventura, um doido como ele…
Que um doido já eu sou, embora não no seja!

Picasso, Le bock (1902)


"Fel", O Livro do meu Amigo, Guimarães Editores, 11 edição, 1983

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Histórias de Boudha e do budismo...



O budismo tem muita coisa que me fascina. O espírito de contemplação, a justiça, a observação lúcida, a procura do saber. Sempre me interessou. E, lendo muito os escritores japoneses (*), alguma coisa se “sente” dessa religião para nos deixar curiosos. Inspira-me a contemplação, o rigor...


Mahabhatara, Vyasa- Angkor

Li no El Pais que o fotógrafo famoso -que foi (e é)- Cartier-Bresson era um budista Zen. E que para ele a fotografia era como um diário em que fixava o mundo que via, o instante, com certeza. 
E interessava-o o olhar -de olhos bem abertos e atentos na contemplação do real- tão absorto e generoso que tornava invisível a sua presença fazendo ressaltar sim o observado, traduzindo a soberania de cada vida e do mundo real. 

O mundo continuava no seu olhar.

Descobri um livrinho sobre o budismo na colecção Que sais-je. Sobre o esoterismo, para ser mais precisa, mas tinha um pequeno capítulo dedicado ao budismo. 



E ali fui dar com uma história tirada do MahabhataraOuvira falar deste Mahabhatara mas não sabia mais nada. A internet é uma grande ajuda nestes casos. Fiquei a saber que o Mahabhatara é uma das duas grandes narrativas épicas do sânscrito, sendo a outra o livro Rayanara.

"O que está aqui encontra-se noutros lugares, mas o que não está aqui não está em lado nenhum"

Interessa-me  o Mahabharat porque foi lá que descobri a história que quero contar. 
Trata-se de um romance guerreiro, de aventuras, de peripécias, sobre aquele a quem chamavam Dharmaraja: "o rei que é justo" e "respeita a dharma "(a lei). 

Como não conheço a obra, não vou falar dela mas deixo este apontamento maravilhoso: o amor por um cão! O que não é de espantar pois era desse amor aos seres da natureza que falava o Boudha quando dizia: “quero que todos os seres (não fala dos homens exclusivamente…) sejam felizes”.


o meu Boudha, o Bem-aventurado

No final desse romance, no epílogo, o herói – o piedoso príncipe, que se chamava Youdhisthira- recusa-se a entrar no paraíso se o seu cão não puder entrar com ele.


Compreendo-o bem. Tive um cão que amei.



Fiquei a saber um poucochinho mais sobre o Budismo e sobre as suas quatro verdades:  "a universalidade da dor; a ignorância do Dharma (a Lei); a obrigação de cessar a dor e, finalmente, a supressão da ignorância." 
Porque a causa da dor é a ignorância.
E como acabar com a dor? 
“Perseguindo-a na sua causa. A origem dela é a acção, que nasce do desejo, que por sua vez,  vem da ignorância. A ignorância traz o seu cortejo de “males” : a indiferença, a inconsciência e a preguiça…"

E como fazê-lo? 
Pela consciência. Uma consciência acordada, sempre desperta! 
Pelo conhecimento. 
Pelo trabalho sobre nós mesmos para a perfeição "possível". Uma certa forma de ascetismo sem dúvida...
Mas nem todos somos Budas, nem Mestres. Como fazer, então? 
Boudha pensou nisso e, no budismo, há uma "via média" para os comuns mortais... 
O essencial é procurar uma exigência intelectual sem falhas que possa controlar os nosso actos.  Nós somos os nossos actos!

Mahabhatara Pandu Shoots, the ascetic Kindama

É-se superior pelas actos que se realizam e não pelo nascimento, era um dos pensamentos budistas. "Os seres são os herdeiros dos seus actos”, máxima budista.
O que vem dar ao que escreveu o Rabbi Nahman de Breslav. Também para ele,  tudo depende de nós, da nossa vontade e perseverança. “Tu fazes o que queres, e não fazes o que não queres”…

"O que procuras tu, afinal, Maria João, no budismo?", pergunto a mim mesma. Bem, o poder de contemplar e... de saber mais. Gosto de saber! De ter os olhos abertos e estar acordada!

E Boudha significa “acordar". A finalidade desse trabalho é a “gnose”: o conhecimento. O "nirvana" é atingir o conhecimento. Por isso, deitemos para trás a ignorância! 


E outra coisa importante: se eu fosse o príncipe desta história, faria como ele. O Nirvana? Sim, mas com o meu cão! Ele era curioso de natureza e procurou sempre o conhecimento.

Zac, a olhar, na varanda do Hotel Yamit
Zac, na Kikar Atarim

 “L’ Esoterisme”, PUF, Que sais-je, pgs.69-71


(*)  "De um lado da tradição está o Xintoísmo, a religião indígena do Japão, e do outro lado, o Budismo, uma religião hindou que chegou ao Japão entre os séculos VI e VII D.C. vinda da Coreia e da China. Ao longo da enorme história japonesa, têm sido estas duas religiões que mais contribuíram para que os japoneses se compreendessem a si próprios e ao mundo a que pertencem.

(...) A visão do mundo para o Xintoísta é fundamentalmente brilhante e optimista, e, assim, nada mais apropriado do que ter como sua principal divindade, uma deusa do sol. 
(…) Religião datada de metade do primeiro milénio antes de Cristo, vai até aproximadamente ao século VI D.C.,  existia uma grande mistura de devoções à natureza.~
Depois deste período, os japoneses tiveram um contacto maior e uma influência mais rápida da civilização continental.

Na verdade, os antigos japoneses encaravam a religião com tanta naturalidade que não tinham sequer um termo para defini-la. A palavra Xinto ou "O caminho do kami (deuses ou espíritos)", veio a ser usada apenas após o século VI, quando os japoneses procuraram distinguir sua própria tradição das religiões estrangeiras que foram encontrando pela frente, como o Budismo e o Confucionismo. Assim, em sua origem, o Xintoísmo era a religião das pessoas ainda não contaminadas pelo ocidente e que, acima de tudo, eram sensíveis às forças espirituais espalhadas pela natureza em que viviam. 
Como mostra uma crónica antiga: no mundo destas pessoas, inúmeros espíritos brilhavam como vagalumes e todas as árvores e arbustos eram capazes de falar.

 Quando o Budismo entrou no Japão no século VI D.C., ela ja era uma religião mundialmente conhecida com uma história de mais de 1000 anos de idade. A forma de Budismo que predominou no Japão desde o início é conhecida como Mahayana." (wikipedia)



domingo, 5 de outubro de 2014

Boa noite! Dave Brubeck e Quiet As The Moon



A REPÚBLICA FAZ 104 ANOS...


Hoje é o dia 5 de Outubro e 104 anos passaram sobre essa data histórica da implantação da República.


Pensei nos “meus republicanos” e vem-me à lembrança o meu avô.
E fui buscar o jornal da minha terra, o semanário "Fonte Nova", que , em 2010, dedicou um espaço aos cem anos da República. E trazia, entre outras, uma fotografia do meu avô...
o meu avô, na foto em cima à direita

Fala do semanário "A Rabeca", entre outros, pouco fala dele que dirigiu "A Rabeca" tantos anos!


Houve, na cidade, uma exposição “Mostra" sobre a Imprensa Republicana em Portalegre, na sala da Galeria S. Sebastião um local digno.

“É possível percorrer os roteiros de jornais e de homens notáveis que os fizeram, diz o jornal (…) A Rabeca durou dezenas de anos”.



Houve conferências no Museu da Tapeçaria. Na Biblioteca Municipal esteve patente uma exposição de caricaturas republicanas, e os alunos da Escola José Régio recriaram a proclamação da República. 
Foram acções úteis para se não esquecer uma data importante. Que se deve lembrar...


Os tempos passam, as ideias ficam. E as pessoas também. E, hoje, quero lembrar João Diogo Casaca, meu avô, espírito "moderno" porque espírito aberto e lúcido. 

Cantor e actor de teatro nas horas vagas. E republicano dos quatro costados!

Era também um bon vivant, um homem alegre, amigo generoso e tolerante - uma pessoa adorável. 


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

~Curiosidades das religiões:é véspera de Yom Kippur


Kol Nidrei, Concerto na Sinagoga de Viena



Hoje é a véspera do Yom Kippur, o "Atonement Day". A festa mais importante, em Israel e para os judeus de todo o mundo, o dia "mais santo" do calendário hebraico: dia do Arrependimento e do Perdão. Hoje é o começo de 24 horas de jejum, de silêncio e de meditação...
Yom Kippur, Jerusalém (foto de Gabriel Steinhardt)

(Levítico, 16, 30 "Neste dia Ele perdora-te-á: purifica-te, estarás limpo de pecados perante Ele")

Voltando atrás no meu tempo, recordo as ruas, agitadas ainda a esta hora, em Telavive (se bem que lá sejam duas horas mais tarde), a azáfama a voltar para casa e a preparar o jejum: dentro em pouco, as ruas desertas …

Impressionava-me o rigor desta "marca cultural", de origem religiosa, é certo, mas depois apenas "tradição" e "cultura" para muitos ateus de Israel e do mundo, que se reconhecem nesta “tradição”.

Telavive ao cair da tarde ficava vazia. O silêncio descia sobre a cidade. Uma tranquilidade espalhava-se e o sol começava a entrar no mar, devagarinho.

Era o Yom Kippur! Quem não jejuava, fazia o possível por ter comida feita, comer coisas já preparadas, para não “ofender” com os odores de um cozinhado  o “jejum” que os outros respeitavam. 

Às vezes, lembro-me que íamos até à Promenade, com o Zac, passeávamos a ver a praia onde alguns recalcitrantes ao jejum, sentados na areia, brincavam ou olhavam para o mar. 
Descíamos até à Torre Migdalot, passávamos debaixo da passagem e estávamos na rehov Ben Yehuda, a rua da grande Sinagoga de Telavive. Algumas pessoas dirigiam-se para lá, estugando o passo. 

Por vezes andávamos mais um pouco, passando em frente da escultura de Ben-David Zadok, "Beyond Limits" - que, talvez por ter chegado de São Tomé há pouco tempo, eu imaginava ser um enorme fruto do cacau, com um macaco de pernas para o ar! 



Continuávamos até à Sheinkin a pé, pois o habitual sherut, o mini-autocarro de 7 lugares onde costumava andar, não funcionava depois desse pôr do sol. Nem havia qualquer outro meio de transporte.

Não importava, íamos andando e o passeio era agradável, no meio de um silêncio cada vez mais completo. Comunicava-se-nos uma sensação de calma.

A noite descia e "faltava" o costumado barulho dos telaviveanos, a música a sair dos carros, as janelas abertas, o movimento toda a noite – Telavive é conhecida como a “cidade sem repouso” (Ir bli hafssaka) e, de facto, de noite e de dia há gente, há barulho, há agitação.


Yom Kippur, Telavive  2013(foto de Gabriel Steinhardt)

E as ruas vazias e o silêncio continuavam pelo dia seguinte fora. As crianças, porém, podiam brincar e era então que apareciam de todos os lados com os patins, os "skateboards" e as bicicletas pois não havia perigo nenhum! E continuavam pelo dia e pela noite fora.

 Angela Buchdal

Muitas vezes fomos à Grande Sinagoga assistir ao Yom Kippur. Era impressionante ouvir o canto do hazzan (cantor), a tristeza do canto chamado Kol Nidrei (Todos os Votos), o lamento pelos que desapareceram nos campos de concentração, o desespero e a esperança ao mesmo tempo.


A Lamentação dos Anjos, de Mizrachi Motti (Telavive)

Não sei se sou religiosa –ou de que religião sou, se o sou...- mas levava o meu livrinho de “Salmos” e ia lendo o Salmo 33. Lia e relia. Ouvia o grito daquele canto. E às vezes dava-me para chorar pelos meus mortos.


Vou pensar nos meus amigos judeus que vão lamentar os seus mortos, que vão chorar enquanto cantam. Tantos mortos, tanta perseguição, tanto sofrimento.

"Gmar Hatima Tova, haverim!" Que o vosso nome seja escrito, por mais um ano, no Livro da Vida!

(*) Por curiosidade, escolhi uma mulher-rabbi-cantor para vos trazer o canto Kol Nidrei (Todos os votos).
 Buchdal, com o "talit"

É Angela Warnick Buchdal, nascida em 1972, na Coreia do Sul, Seoul, e ordenada “hazzan” em 1999 e, mais tarde, “rabbi” - em 2001. 
A mãe de Angela, coreana, era de religião budista e o pai, um judeu americano askenazita (vindo da Roménia), Frederik David Warnick, é um judeu “reformista”.
É a primeira mulher a ser “cantor(a)” no mundo e a única que é simultaneamente rabbi e hazzanÉ a Senior Cantor da Central Synagogue de Nova-Iorque.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Boa música e pintura!!! Glenn Miller e Laura Muntz ...

Enjoy the Day... Carpe diem! Ou, simplesmente: Vivam o dia! 
Um bom dia com imagens e boa música: a alegria de Laura Muntz (*)e a maravilha que é sempre ouvir Glenn Miller... 

Laura Muntz, A leitora

Laura Muntz, Colhendo papoilas orientais


Laura Muntz, A ler





(*) A pintora Laura Adeline Muntz, de seu nome, nasceu em Inglaterra, em Leamington, mas a família emigrou para o Canadá quando ela ainda era uma criança. Perto de Ontário (Muskoka),  os pais tiveram uma quinta. Criou-se, pois, no campo. Talvez daí a pintura no exterior, as flores e a tranquilidade que as suas pinturas revelam...