domingo, 11 de dezembro de 2016

'Carnet' da viagem a Trieste -II




A caminho de Trieste, fui tomando notas. Caderno novo, caneta nova, preparei-me para olhar e para escrever. O avião chegara, pontual, ao aeroporto de Marco Polo de Veneza. Apanhámos o bus e fomos para a Piazzale Roma
Veneza, Outono 2016 (MJF)
Ficar em Veneza? Desta vez, não! E seguimos no primeiro comboio rápido para Trieste. 
Os turistas ficaram para trás, amontoando-se na Piazza San Marco e no Rialto. Imagino-os dando-se encontrões, pelas calles e viuzze, até na Strada Nuova -porque já chegam até Cannareggio!
Veneza 2015 (MJF)
Lá vai o tempo em que se passeava por ali quase sem ninguém - e como era belo o sol e como andávamos leves perto da ponte da Accademia. Dorsoduro, Cà Rezzonico, Santa Margherita e as ruas -calle- vazias, tudo parecia perto porque andar não custava tanto, sem os turistas aos montes em cima de nós. Porque hoje o turismo é selvagem, como tudo...
 Dorsoduro hoje (net)
Imagino-os que enchem os restaurantes, entram e saem dos museus, de corrida sempre, fazendo selfies com os telemóveis pendurados numa espécie de sticks de golf. Longe, depois, verão as fotografias e os videos. Aqui limitam-se a correr dum lado para o outro, dum lado para o outro, sem destino aparente, até chegar a noite e irem-se embora nos vaporetti cheios a transbordar.
Laguna, 2016 (MJF)

O comboio partiu de Veneza, há pouco. A laguna aparece - eternamente bela e plácida, pura. Escrevo: "O comboio é confortável, tem estofos azuis e grandes janelas. Pouca gente neste comboio, o rápido das 14:41, que sai da estação de Venezia-Santa Lucia."

 Vejo passar MestreSan Donà di PiaveQuarto d’ Altino Por estas paragens, a seguir a Mestre, vê-se apenas a água azul acinzentada da Laguna, as redes dos pescadores, que se desenham, espaçadas, negras, na imensidade da água. Nem um barco, ninguém. O vazio, o silêncio, o tempo que parece palpável.
Laguna 2016 (MJF)
"Formas desenhadas de contornos suaves, estacas espetadas nas águas onde se prendem as redes dos pescadores, em desenhos delicados, como a pena, negros, que parecem cestinhos."
O desenho das redes baloiçando é lindo. Adormece-me esse baloiçar das águas. A paisagem muda. 
Laguna, 2016 (MJF)
O que se pesca na laguna?”, penso. Aquilo que se vê, depois, no mercado do Rialto, ou no barco a motor atracado num dos canais, talvez em San Trovaso, onde tantas vezes o Aldo Zari nos levou. 
E eram verduras frescas acabadas de colher: salada de alface ou ruccola (que, em Roma, se chamava rughetta), tomates de todo o ano, fondi de alcachofras zucchini, melanzane piccole.  
E havia navalhas, caranguejos, mexilhões, lapas, gamberetti, anchovas...

Leio na 'wikipedia' agora: “A pesca artesanal no mar e na laguna continua a ser praticada pela comunidade de pescadores do Lido, Malamocco e Chioggia.”


Malamocco  (net)

Chioggia  (net)

Parece que a pesca se transformou em mais outra ‘atracção’ turística. E lá vão mais turistas, agora a acompanhar os pescadores e a ver pescar, pois de certeza que não pescam nada de nada. E lá se vêem as douradas pequenas e, de vez em quando, lá salta um branzino - que é um robalinho. Depois, param, algures num espaço qualquer das ilhas quase abandonadas, e grelham os peixes - ou fritam-nos… "Os turistas gostam destes picnics!", dizem.
 Laguna de Veneza (net)
Continuo a ler: “Fechada num extremo, a laguna está sujeita a grandes variações do nível do mar, produzidas pelas marés e pelos ventos, sendo a mais vistosa a maré do Outono, conhecida como ‘acqua alta’ e que inunda regularmente grande parte de Veneza.

E, de repente, recordo a acqua alta, num mês de Novembro de há muitos anos. Dessa vez, ficámos instalados na pensão que tinha sido, em tempos idos, a embaixada russa. De facto, a 'Pensione Accademia' era uma das residências aristocratas de Veneza que, entre as duas guerras, se transformou na Embaixada Russa. Depois, em 1950, comprada pela família Salmaso, passou a ser um hotel.  
 Interior (net)
Dela, recordo as escadas de caracol, a mobília antiga e uma magnífica biblioteca cheia de livros em todas as línguas que os hóspedes iam lendo e deixando.
Ponte delle Maravegie  (net)
Ficava na zona de Dorsoduro, perto da Galleria Accademia,  na Ponte delle MaravegieHavia também outra 'locanda' onde passámos uns dia apenas que tinha um dos nomes da Karen Blixen -Isaak Dinesen. Hotel American Dinesen creio se chama hoje. 
Hotel American Dinesen (net)
Chovia muito e a acqua estava altissima! O Manuel tinha uns botins - stivaloni!- guardados em casa do Aldo Zari mas eu só tinha levado as minhas botas altas, novas, Cervone, de um belo couro suave e amarelado. Chapinhei o tempo todo na água salmistrata da laguna que com a subida da maré enchera as ruas e transformara a Piazza San Marco num mar cinzento e baço. 
Veneza, "acqua altissima"
As botas - essas ficaram queimadas e o couro ressequido - e deitei-as fora quando voltei para Roma...
Voltando, à viagem a caminho de Trieste, vejo desfilar campos e campos, surgem algumas vinhas roxas, vermelho vivo, amarelas. Plantações de girassol secas e já amarelas. Há verde nas folhas das árvores à beira da linha férrea. Espalha-se, dominante, pela folhagem, o vermelho ferrugem do Outono.
Em pequenos pomares, cercados de sebes, vejo árvores de fruto, e, no meio, uma pequena casa amarelo-ocre. 
Os canais cortam, no seu azul suave, as manchas de cores outonais. Os choupos desfilam junto aos ribeiros que se adivinham mas não vemos. De onde em onde, um grupo de casas baixas, pequenas aldeias aglomeradas, cujos arredores foram estragados pela arquitectura recente de outras casas, quadradas, com varandas de latão sem forma, deslavadas pelas chuvas e pela humidade deste Outubro avançado que se entranha por dentro de todas as coisas. Tudo gasta e destrói e, dentro e fora das casas, a água transpira.

Em San Stino, paragem rápida. Não desce nem sobe ninguém. "Quem viverá em San Stino?", penso. 
Na estação, destaca-se um banquinho azul a condizer com a cor da placa recentemente pintada. 
Leio:
"Céu cinzento-azulado, frio e alto. Extensões de planícies, árvores delicadas, com as cores do Outono, canais ladeados de choupos, campos cultivados de vinhas vermelhas, casas isoladas, tanta beleza." 

Vou tirando fotografias (*), quero guardar certas imagens. Continuo a ler:
"Campos e campos, algumas vinhas de folhas roxas ou vermelho vivo, amarelas outras. Plantações de girassol secas neste Outono. Mas vejo também o verde nas folhas das árvores à beira da linha férrea. 
 Van Gogh, Vinhas vermelhas em Arles, 1888

Espalha-se pela folhagem, a pouco e pouco, o vermelho-ferrugem do Outono. E lembro os vermelhos de Van Gogh nas suas vinhas em Arles. As árvores de fruto em pequenos pomares de sebes e uma pequena casa amarelo-ocre. Van Gogh ainda.
Van Gogh

Cores e mais cores outonais. Os canais, de quando em quando, cortam com o azul suave essas manchas. Os choupos desfilam junto aos ribeiros que se adivinham mas não vemos." 
Adiante, prédios compridos e baixos - indústrias, fábricas, silos. É já o Veneto? A planície padana - a planície do rio Pó? 
Vem-me à memória o fime 'Arroz amargo' e a figura da belíssima Silvana Mangano, nos seus inícios de actriz. Era um filme de Giuseppe de Sanctis, de 1949. Figura inesquecível de mondadora das lezírias! Eram as jovens mulheres que vinham de longe mondar os arrozais. Trabalho duríssimo e ingrato, de costas curvas, de sol a sol, com as pernas dentro de água, a arrancar as ervas daninhas.

O comboio segue. Mais um grupo de casas muito juntas e uma chaminé no meio delas.

"Volta o amarelo queimado, o ocre e o vermelho cor de tijolo. Van Gogh. Dois ou três ciprestes e, numa extensão imensa, as vinhas. Uma casa de cor fúcsia parece destoar ao lado da construção de cimento, baixa."
Atravessamos a zona do Friul-Veneto-Venezia-Giulia

Sei que nos aproximamos de Monfalcone e sorrio. Adivinho ao longe as arcadas da estação que lhe dão um ar senhorial.

Sei - ou invento?- que esta terra tem que ver com o meu nome Falcão, mon falcone seria, pois,  'meu-falcão'!  Talvez por isso, sinta, quando ali passo, um pouco da euforia infantil com que chegava dantes à minha terra! 
Trieste  e Golfo (MJF)

E a viagem continua... Fico em Monfalcone, para já, ainda bastante longe de Trieste.


(*) Fotografias essas -cerca de 900- que uma boa amiga, bem intencionada, ao ajudar-me a passá-las do telemóvel para o computador, "perdeu" irremediavelmente. Salvaram-se as que fui pondo no Facebook e enviando aos amigos. Como sou optimista pensei: há coisas piores. Para o ano, quando lá for, tiro outras!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Outono e 'haikais'



"A libelinha vermelha
Abre
A estação do Outono"

(Kaya Shirao)

 *

"As montanhas longe
Reflectidas nos olhos
De uma libélula"

(Masaoka Shiki)

 *
sunset de Lê Thahn Tù

"Sol poente de Outono
A solidão
Também é feliz"

(Yosa Buson)

*


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Trieste, pintura e tragédia: o judeu Arturo Nathan e outros


Nathan, Nave na Tempestade, 1930

Encontrei, em Trieste, algumas pinturas de Arturo Nathan - pintor que conhecia através de imagens da internet - quando, há uns tempos, me interessei por pintores e artistas que morreram em campos de concentração.
Vi-as, no Museu Rivoltella, um museu interessantíssimo - e muito completo-  sobre a pintura e escultura triestina. 
Museu Revoltella, tela de Alberto Rieger, 1985
Arturo Nathan, Auto-retrato de olhos fechados

Arturo Nathan, judeu, nasceu em Trieste, em 17 de Dezembro de 1891, filho de Jacob Nathan e de Alice Luzzato. (Por curiosidade, lembro a minha amiga, médica em Telavive, Lea Luzzato - que era neta do grande-Rabi de Génova!)

O pai de Arturo nascera em Bombaim e era cidadão britânico. Por isso, Arturo fez o serviço militar em Londres, enquanto súbdito de Sua Majestade.

Passados alguns tempos em Génova, onde os pais esperavam que fizesse uma carreira económica, Arturo, em 1919, decide ir para Trieste. Passara a Primeira Guerra, e decide-se pela Filosofia e pelas artes. Tem 30 anos e começa a frequentar os ambientes artístico-literários  da cidade. 
Encontra o estudioso Edoardo Weiss, quase da sua idade, e interessa-se pelo estudo da Psicanálise. 
Weiss era um psicanalista famoso e, em Trieste, vivem-se os chamados "anos da psicanálise" (título de um livro de Giorgio Voghera -que tive a sorte de conhecer, em Trieste, há muitos anos, pessoa extraordinária!).

Trieste era uma cidade onde confluíam várias culturas - as do Império Austro-húngaro- em contacto com uma comunidade hebraica, muito culta, e também eslovenos, croatas, dálmatas...  
Anton Zoran Music, pintor dálmata

A certa altura, em Trieste, vivem-se anos difíceis com a chegada do regime fascista e de Mussolini ao poder. Com as medidas de discriminação racial que se abatem sobre os judeus de Trieste. O ghetto de Trieste vai ser destruído.
Mais tarde, em 1941, dá-se a anexação de Trieste, pelo IIIº Reich. Arturo tem 50 anos.

Marcello Mascherini, "Monumento a Auschwitz", 1958

Arturo Nathan foi exilado com outros judeus, para a Província das Marcas. Anos depois, é internado no campo de Bergen Belsen e, depois, no de Biberach na der RiB - onde morreu, em 1944.
Não posso deixar de referir algumas informações sobre essa anexação nazi e das suas horríveis consequências. Em Trieste existiu, a partir desse ano, um campo de internamento e de extermínio. 

Visitei o local terrível (de que falarei com mais pormenor um dia), a Risiera de San Sabba (**). 
Na sala enorme -onde eram acumulados os prisioneiros à chegada, estão hoje reunidas as 'homenagens' que recordam esses mortos e lembram os acontecimentos. 
E vemos documentos de rara dureza e simplicidade, que revelam o mais terrível sentimento de dor e de tristeza! 



Inicialmente, o edifício servira para a secagem do arroz (risiera, de 'riso', arroz). Depois, em 1943, o local foi adaptado como caserna da Polícia alemã, e depois, ainda, transformou-se  num lager nazi.


sala de interrogatório e tortura

Local sinistro por onde passaram dezenas de milhares (entre 3000 e 5000) de prisioneiros políticos e de judeus, eslovenos, dálmatas, croatas, ‘partigiani’: para morrerem ali. 
Anton Zoran Music, pintor sobrevivente de outro campo
Alguns, apenas, de passagem, em direcção a outros campos. Havia, neste edifício, a “cela da morte” e mais outras 17 'mini-celas'- cubículos-, onde viviam seis ou mais pessoas, à espera de morrer ou de serem transferidos para outro  campo. 
As duas primeiras 'celas' serviam para os interrogatórios e para tortura. 
O lager tinha um forno crematório. Ao fim da noite, vinham os soldados SS, trazer sacos carregados de cinzas humanas que despejavam no Canal Grande. 
Em 1965, o edifício foi declarado monumento nacional. Hoje, restaurado completamente, é um museu visitado, anualmente, por milhares de italianos.
Existe, felizmente, em Itália, a preocupação de levar os alunos das escolas, de Norte a Sul do país, não só a visitar os grandes Museus do Renascimento ou do Barroco, como irem a estes lugares de história negra do passado - e ter conhecimento do que ali se passou. Vêm igualmente visitá-lo muitos estrangeiros.
Mas voltemos ao pintor que aqui me trouxe hoje, Arturo Nathan. Leio sobre ele, na 'wikipedia': 
"Foi autodidacta no início, mas a sua formação como pintor faz-se no clima romano dos anos 20 onde contacta com o substrato 'mitteleuropeu' da pintura metafísica de Giorgio De Chirico e de Alfredo Savini." São desse período os auto-retratos  e os manequins que todos pintam.
Giorgio De Chirico, "Nostalgia do Infinito"

Em 1925, está, pois, em Roma, onde conhece aquele que vai mudar a sua maneira de pintar: Giorgio De Chirico. Espaços vazios, 'interiores', estátuas, figuras da antiguidade, ruínas, cavalos imóveis. Mistério e melancolia... E nostalgia...
Giorgio De Chirico, "Interior metafísico", 1916

"O elemento "metafísico" dessa pintura será o desenvolvimento futuro do pintor triestino: atmosferas mágicas e visões". 

'Metafísica' significa 'para além da física'... E todos nos lembramos de estudar essa 'definição' nos nossos manuais de Filosofia. Mundo do não-físico, pois. Do imaterial?, do onírico?, do visionário?
Arturo Nathan, "O abandonado"

Giorgio De Chirico, "Cavalete com cavalo"
Giorgio De Chirico, "Mistério e Melancolia de uma rua"
Giorgio De Chirico, "Piazza d' Italia"

Choca-me "ver" a presciência de Nathan que, cedo, pinta temas e acontecimentos estranhos, algo de angustioso, de escuro, de isolamento,  de solidão, de irremediável desespero. Como se adivinhasse...

Arturo Nathan, "Silêncio e luz"

Nathan, "Nave encalhada", 1937

Onde me parece que Nathan antecipa acontecimentos, tragédias apenas "adivinhados", que irão realizar-se na sua cidade - e, na sua vida atormentada de perseguido e de judeu que acabou assassinado num outro "lager", está a sua "poética", o seu "mal de viver". 
Arturo Nathan, "Auto-retrato", 1924
("Le mal de vivre" - que cantava Barbara- "qu'il faut bien vivre...!/On peut le mettre en bandoulière/ou comme un bijou à la main/comme une fleure en boutonnière...ou juste à la pointe du sein"...)
Arnold Böcklin, "Ilha da Morte", 1888
Arnold Böcklin, "Ruínas e mar"


Encontro esta explicação de Renato Santoro sobre essa "poética": “a perseguição contínua de naves entre gelos, de veleiros encalhados, o insistir no naufrágio e nas ruínas abandonadas à beira mar, são indícios do seu mundo poético que se alimentou do existencialismo à maneira de Kierkegaard, do pessimismo cósmico leopardiano, de sugestões desencadeadas pelo imaginário de Böcklin (*) e de De Chirico; mas são também traços, deixados como marcas  na tela, das suas angústias, inquietações, do mal-estar quotidiano, numa palavra do seu 'disagio di vivere'."
O tal mal de viver de que falei? A nostalgia do infinito? A sede do absoluto?
Arturo Nathan, "O mar gelado"

Nathan, "Costa com ruínas", 1935

Giorgio De Chirico, "Canção de amor"

Arturo Nathan, "O exilado", 1928

Deixei as imagens que me chocaram, pela desolação, solidão, imagens de destruição dum passado antigo, feita de ruínas, de restos de estátuas, de abandono e de névoa. Como pode ele ter adivinhado?
paisagem dos arredores de Trieste (MJF)

Dizia: "Só de olhos fechados conseguimos apreender a realidade que se revela para lá do véu do visível, transformando-nos a nós próprios numa caixa de ressonância para o silêncio que envolve o mundo sensível."



Arnold Böcklin, "Auto-retrato"

(*) Arnold Böcklin - Pintor suíço, simbolista, ainda  muito influenciado pelo Romantismo (1827-1901)
(**) as fotografias da Risiera di San Sabba são minhas, dolorosamente as vi e fotografei, com uma emoção que nunca esquecerei...