Está
um dia cinzento e chove muito. Gosto de ver a água a formar bolhinhas nos vidros, escorregar como ribeirinhos, e
adivinhar, por detrás dos vidros, as árvores de folhas brilhantes.
A chuva veio de improviso. Já não a esperava, depois destes dias de Inverno de sol magnífico, de céu
azul e de frio gélido. Em certos dias de sol, até ouvi os passarinhos a
chamarem-se uns aos outros, na ramagem ainda densa dos eucaliptos e dos salgueiros. Se calhar
pensavam eles que a Primavera chegara. As pombas riscavam o espaço em frente da minha janela,
velozes, como que atarefadas, prontas a fazer alguma coisa importante.
O
Ratinho Poeta e o Ouricinho Dan estiveram de manhã a contemplar a chuva, depois foram ver uns livros e agora andam na brincadeira com os outros amigos. A casa está cada vez mais cheia de amigos!
"Que sorte
a deles de não saberem o que vai por esse mundo fora -pensei. Ou
saberão?”, interroguei-me logo a seguir. “Com eles nunca se sabe…”
De facto, ouvi-os, pouco depois, a falar com o burrinho, Piros, e com a coelhinha Rosetta. E o Ratinho dizia:
-
Não viram a popa daquele homem horrível? O loiro americano! O idiota! Parece um pombo gordo e despenteado cheio de
convencimento balofo! Como pode ele mandar seja no que for?
O
Ouricinho só se riu. Depois disse a sua opinião:
-
Será que quer mostrar que a franja dele é maior do que a dos outros? Nunca vi uma coisa daquelas a tapar os
olhos! Se calhar por isso é que não diz nada de jeito: não vê nada em frente do nariz! Como pode perceber seja o que for?
O Piros, que está a estudar cinema, respondeu.
- É um cómico dos filmes americanos rascas. lembras-te daquele filme dos irmãos Marx em que o Groucho diz: "Ele pode parecer um idiota e actuar como um idiota. Mas não se deixem enganar: ele é mesmo um idiota!"
Percebi
que estavam a falar do Trump. Lembrei-me da minha amiga MZ que há dias referiu essa frase. Falava do humor e da importância de se ter humor, nesta vida. E citou Amos Oz: "não conheço um fanático que tenha humor, nem uma pessoa com humor que seja um fanático". Quantas histórias de humor e de judeus ouvi em Telavive!
Eu a julgar que eles estavam a brincar, e afinal surpreendo-os
a falarem de coisas tão sérias. Confesso que senti necessidade da ternura deles e da despreocupação, pelo menos aparente, que mostravam.
Nestes últimos tempos, tenho
andado para aqui no blog a escrever no coisas
pesadas, a falar de temas graves – quantos deles sem solução! Será que a crise de ciática me levou a esse desespero?
Apeteceu-me um
pouco de ar puro e de juventude! Sentei-me a ouvi-los.
-
De que estão a falar?
- De política... Parece que o Hollande lá da França se vai embora. E quem virá? O do porquinho? Viste no "Economist"?
E o Ouricinho pôs-se a rir e virou-se para mim.
-
Hihihi. Sim, quem virá? Lembras-te daquela cantiga tão velha que a tua avó cantava?
E
entoou, numa voz fininha:
“Aurora teve um menino
Tão pequenino
De quem será?
É do filho da Dolores
Que foi prós Açores
E quando virá?”
-
A minha avó? Não me lembro nada disso!
E
não me lembrava se bem que a minha avó cantasse lindas canções!
-
Então era a Florinda… Tu contaste um dia.
Não
lhe respondi, não valia a pena. Só disse:
-
Ando esquecida, Ouricinho, muito esquecida. Seria a minha avó... Ponho-me
a pensar nas coisas da vida. O mundo vai mal. Assusta-me.
O
Ouricinho insistiu:
-
Não gosto de te ver assim. Assusta-te o mundo? A ti?! Anima-te! Tu, desiludida, e a falar de mortos?
- Pois é. A escrever sobre as desgraças do passado, a falar da distopia dos tempos, acrescentou o Ratinho. Aposto que os teus
leitores já andam aborrecidos! Por isso é que não te deixam comentários...
Onde
terá ido descobrir esta da “distopia”? E como é que viu que não me deixavam comentários no blog?
O Ouricinho mostrou-se espantado:
- "Distopia"? Que palavreado tão caro! O que é isso?
Professoral,
o Ratinho explicou:
-
É o contrário de "Utopia"! É quando não acreditas em nada de bom, vês tudo negro,
não tens esperança…
O
Ouricinho olhou para mim, triste:
-
Não podes falar nessa tal distopia, Jana! A vida é bela. E tu sabes!
O
Ratinho continuava a explicar, pensativo, quase sonhador, como se quisesse convencer-se a ele próprio.
-
É o desalento que nos invade e que deixamos que se espalhe dentro de nós como
uma droga…
Logo,
o protesto veemente do Ouricinho:
-
Não quero isso! Não gosto de distopias! Se não acreditássemos na vida íamos já
bater com a cabeça naquela parede! Isso são os diabinhos maus!
Dei
um grande suspiro e fez-me bem. Eu gosto muito de suspirar e lembro-me que o ‘meu’
Rabbi diz que nada faz tão bem à alma como rir, cantar ou soltar um grande
suspiro, com todo o coração! Vê-se a realidade de modo diferente e afastam-se males e tristeza!
“Tanta verdade há nestas palavras dos amigos. Tanta compreensão e tanta
vontade de andar em frente, reagir, resistir aos diabinhos que nos querem fazer
desistir das nossas lutas e crenças”.
-
Nada como ter vinte anos e acreditar em tudo! - disse. Talvez tenham razão os que dizem
que depois dos vinte anos começamos a morrer…
-
Isso é o Manuel que diz, desconfio…É mesmo coisa dele.
O
Ouricinho está sempre a ouvir as conversas dos outros. Mas os diabinhos existem! Lembrei-me
dum encontro, em Amesterdão, era eu ainda muito nova, que me impressionou.
Contei-lhes:
-
Uma senhora, que já não era nova, veio sentar-se à minha mesa, num café que dava para o canal. Tinha uns olhos azuis, sem alegria, e uns óculos redondos. Trazia um
vestido vermelho e não largava o copo de vinho branco que tinha na mão. Parece-me estar a vê-la...
Edward Hopper, Mulher`, interior
Estavam a ouvir-me, atentos.
-
Era a imagem do desespero e da desistência. Como um diabinho infeliz,
queixou-se da vida e do mundo. Do peso das coisas da vida. “Ah, dizia ela. Todo o peso do mundo está nos
nossos ombros! Eu sinto-o. Mas não podemos aguentá-lo, pois não? Temos um corpo
frágil, como vamos aguentar toda a dor do mundo?”
O silêncio era enorme.
- Eu ouvia-a calada, quase
assustada. Não a conhecia de lado nenhum e senti-me tão frágil e impotente!
Edward Hopper, Mulher a ler
Senti
a atenção dos meus jovens amigos, presos da minha história.
-
Ela continuava, incansável e num tom monocórdico: “Sim.
Mas a verdade é que se nós temos conhecimento dessa dor, desse peso, dador dos
outros, então devemos aguentar um pouco do sofrimento do mundo…” Talvez
tivesse razão. Sei que nunca esqueci o azul dos olhos dela, o olhar perdido no canal. E penso nela muitas vezes.
O
Ratinho disse:
-
Tinha razão, sim. Os nossos ombros são frágeis para tanto peso, mas há um
bocadinho que nos cabe a nós levar…
O
Ratinho calou-se. Parecia comovido o meu Poeta. O burrinho Piros estava triste, de cabeça baixa e só se via o nó do cachecol verde sobre a roupa vermelha. Até a coelhinha Rosetta se tinha chegado, a ouvir. O Ouricinho reflectia, com um ar calmo, e acrescentou:
- Sim, um bocadinho sim. Mas tudo não podemos aguentar! Se não ficamos parados, imobilizados!
Olhou para mim, como se me quisesse convencer:
- Temos que seguir em frente, ouviste!
Sempre em frente. “Quem fica parado a
olhar para trás, não avança e perde-se”!
O
Ratinho riu-se, como se estivesse aliviado:
-
Hahaha! Essa é boa! Isso dizia o Steinbeck!
-
Pois dizia! E eu gosto do que ele diz!…
-
E eu também! Era mesmo o que eu queria ouvir!
Era
bom tê-los ao meu lado. Faziam-me boa companhia! A noite descia sobre a nossa casa. Tranquila, cheia de luzinhas.