quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Dave Brubeck e Paul Desmond -e "Take Five"

Dave Brubeck (David Warren Brubeck) nasceu em 6 de Dezembro de 1920, em Concord, e morreu a 5 de Dezembro de 2012, com um ataque cardíaco. 
Pianista de jazz, foi reconhecido como um ‘génio’ e compôs vários “jazz standards”.
Por volta de 45, criou um “Octet” - e tocaram alguns anos e Brubeck  compôs muitas das canções que ainda hoje todos conhecemos: Laura, The way you look tonight, September in the rain. 
Em 1949, o "Oiteto" (estará correcto?) desfez-se e Brubeck criou o Dave Brubeck Trio
Por sua vez, Paul Desmond (Paul Emil Breitenfeld) nasceu em San Francisco, em 25 de Novembro de 1924, e morreu em 30 de Maio de 1977. 
San Francisco, Down Town
Conheceram-se em 1944, ainda durante os tempos da Guerra, mas só mais tarde, depois  de 1949 tocam juntos. Quando Brubeck cria um quarteto -o célebre "Dave Brubeck Quartet" - é já com Paul Desmond, compositor também. Tocaram juntos durante mais do uma década. Desmond foi o único solista do grupo.
Paul Desmond não tem o mesmo sucesso. Se bem que os unisse uma grande amizade - ao ponto de os filhos de Brubeck o considerarem como tio, Desmond tem uma vida agitada, ligado à droga, dependente do whisky e, durante uns tempos, do LSD. 



Desmond, mais tarde, tocou com Gerry Mulligan e com o grande Chet Baker. Fumador inveterado, Paul Desmond, e de saúde muito frágil, acaba por morrer de cancro. Pouco antes fizera (1976) uma última tournée com Brubek.


Alguns títulos dos seus álbuns conjuntos: At the black Hawk, Dave Brubeck Quartet, Jazz at Oberlin.
Paul Desmond (Paul Emil Breitenfeld) nasceu em San Francisco, em 25 de Novembro de 1924, e morreu em 30 de Maio de 1977, com 53 anos. 
Clarinetista, saxofonista e compositor, Desmond ficou famoso por ter tocado no Quartet de Brubeck, entre 1959 e 1967. Fazia parte do West Coast Jazz (o jazz mais suave e mais calmo da costa de Los Angeles, costa da Califórnia - que se opunha ao  frenético  ‘hard pop’. 
O Jazz da West Coast é considerado um dos sub-géneros do 'cool jazz'.
Uma das suas composições mais famosas  é a música Take Five que o 'Quartet' tornou mundialmente conhecida.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O PINTOR JOSHUA REYNOLDS E "A MENINA DOS MORANGOS"

Joshua Reynolds -Nasceu em Plymouth em 16 de Julho de 1723 e morreu em Londres e 23 de Fevereiro de 1792. Um dos principais retratistas do século XVIII. 

Estudou em Londres com o retratista Thomas Hudson, em 1740. Em 1749 viaja em Itália. 
Auto retrato em1740
O rei Jorge III concede-lhe o título de Sir, em 1769. Em 1784, torna-se pintor do rei. 
O Rei Jorge III, por Joshua Reynolds

Auto retrato 
Joshua Reynolds costumava pintar mulheres e crianças. Pintou também muitos auto-retratos.



Royal Academy School of Arts, hoje
Foi o primeiro pintor Presidente da Academia Real Inglesa das Artes. Está sepultado na Catedral de Saint Paul, em Londres.

Um dos quadros mais belos de Reynolds será, de facto, essa “Menina com morangos”. 

O quadro foi exposto, em 1773, na Royal Academy School of Arts, e foi descrito pelo próprio pintor como “um daquelas meia dúzia de coisas originais que não podemos nunca ultrapassar na nossa obra!”
Confesso que o fui procurar pela curiosidade de ver a "menina dos morangos". 
Bem, a verdade é que tudo aconteceu por causa dum filme policial que andava a ver: a série inglesa (de 1991-1996) "Principal Suspeito", com uma actriz extraordinária, Helen Mirren, no papel da 'Detective Chief Inspector' Jane Tennison.
Jane Tennison é a única mulher no DCI -esquadra de homicídios de Londres- um verdadeiro ‘club de homens’ -the boy's club-  onde, pobre dela, muito vai penar para se afirmar "como igual" e ser finalmente respeitada, como "quase-homem". 
Num dos últimos episódios há uma personagem adolescente, implicada num caso de assassínio. Tennison interroga-a, sente-a 'perdida', fechada, enredada em caminhos que não deveria seguir. 
Prende-se a ela,  afectivamente, porque se revê nela. Também fora uma menina independente, teimosa e livre. 
Para a ajudar, tenta 'cativá-la' no sentido do 'Principezinho' de Saint-Exupéry - 'pelo coração'. Um dia leva-a ao Museu da Wallace Collection e mostra-lhe as pinturas de que, com a mesma idade dela, gostava. 
Leva-a a ver Joshua Reynolds e a "Menina dos morangos" - a menina vai vender os morangos, num cestinho, e cujo olhar se perde em frente. 
Jane Tennison diz-lhe: "ela tem o futuro em frente. Está preocupada, não sabe se vai conseguir vender os morangos. Não sabe como vai ser. Como tu..."
A verdade é que a história não acaba bem. A idade da inocência (título de outro quadro famoso do pintor) é muito difícil de manter em certas circunstâncias. 
Nem sempre as meninas dos quadros têm o mesmo futuro na vida!Foi o que aconteceu à menina do filme.
´"A idade da inocência" (1888)
Aqui lhes deixo, pois, The Strawberry Girl, By Sir Joshua Reynolds, (In the Wallace Collection, London)
Wallace Collection

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

DIA DE CHUVA COM O RATINHO E O OURICINHO E OUTROS...

Está um dia cinzento e chove muito. Gosto de ver a água a formar bolhinhas nos vidros, escorregar como ribeirinhos, e adivinhar, por detrás dos vidros, as árvores de folhas brilhantes. 
A chuva veio de improviso. Já não a esperava, depois destes dias de Inverno de sol magnífico, de céu azul e de frio gélido. Em certos dias de sol, até ouvi os passarinhos a chamarem-se uns aos outros, na ramagem ainda densa dos eucaliptos e dos salgueiros. Se calhar pensavam eles que a Primavera chegara. As pombas riscavam o espaço em frente da minha janela, velozes, como que atarefadas, prontas a fazer alguma coisa importante.
O Ratinho Poeta e o Ouricinho Dan estiveram de manhã a contemplar a chuva, depois foram ver uns livros e agora andam na brincadeira com os outros amigos. A casa está cada vez mais cheia de amigos! 
"Que sorte a deles de não saberem o que vai por esse mundo fora -pensei. Ou saberão?”, interroguei-me logo a seguir. “Com eles nunca se sabe…”

De facto, ouvi-os, pouco depois, a falar com o burrinho, Piros, e com a coelhinha Rosetta. E o Ratinho dizia:
- Não viram a popa daquele homem horrível? O loiro americano! O idiota! Parece um pombo gordo e despenteado cheio de convencimento balofo! Como pode ele mandar seja no que for?
O Ouricinho só se riu. Depois disse a sua opinião:
- Será que quer mostrar que a franja dele é maior do que a dos outros? Nunca vi uma coisa daquelas a tapar os olhos! Se calhar por isso é que não diz nada de jeito: não vê nada em frente do nariz! Como pode perceber seja o que for?
O Piros, que está a estudar cinema, respondeu.
- É um cómico dos filmes americanos rascas. lembras-te daquele filme dos irmãos Marx em que o Groucho diz: "Ele pode parecer um idiota e actuar como um idiota. Mas não se deixem enganar: ele é mesmo um idiota!"
Percebi que estavam a falar do Trump. Lembrei-me da minha amiga MZ que há dias referiu essa frase. Falava do humor e da importância de se ter humor, nesta vida. E citou Amos Oz: "não conheço um fanático que tenha humor, nem uma pessoa com humor que seja um fanático". Quantas histórias de humor e de judeus ouvi em Telavive! 
Eu a julgar que eles estavam a brincar, e afinal surpreendo-os a falarem de coisas tão sérias. Confesso que senti necessidade da ternura deles e da despreocupação, pelo menos aparente, que mostravam.
Nestes últimos tempos, tenho andado para aqui no blog a escrever no coisas pesadas, a falar de temas graves – quantos deles sem solução! Será que a crise de ciática me levou a esse desespero?
Apeteceu-me um pouco de ar puro e de juventude! Sentei-me a ouvi-los.
- De que estão a falar?
- De política... Parece que o Hollande lá da França se vai embora. E quem virá? O do porquinho? Viste no "Economist"?

E o Ouricinho pôs-se a rir e virou-se para mim.
- Hihihi. Sim, quem virá? Lembras-te daquela cantiga tão velha que a tua avó cantava?
E entoou, numa voz fininha:
“Aurora teve um menino
Tão pequenino
De quem será?
É do filho da Dolores
Que foi prós Açores
E quando virá?”
- A minha avó? Não me lembro nada disso!
E não me lembrava se bem que a minha avó cantasse lindas canções!
- Então era a Florinda… Tu contaste um dia.
Não lhe respondi, não valia a pena. Só disse:
- Ando esquecida, Ouricinho, muito esquecida. Seria a minha avó... Ponho-me a pensar nas coisas da vida. O mundo vai mal. Assusta-me.
O Ouricinho insistiu:
- Não gosto de te ver assim. Assusta-te o mundo? A ti?! Anima-te! Tu, desiludida, e a falar de mortos?
- Pois é. A escrever sobre as desgraças do passado, a falar da distopia dos tempos, acrescentou o Ratinho. Aposto que os teus leitores já andam aborrecidos! Por isso é que não te deixam comentários...
Onde terá ido descobrir esta da “distopia”? E como é que viu que não me deixavam comentários no blog? 
O Ouricinho mostrou-se espantado:
- "Distopia"? Que palavreado tão caro! O que é isso? 
Professoral, o Ratinho explicou:
- É o contrário de "Utopia"! É quando não acreditas em nada de bom, vês tudo negro, não tens esperança…
O Ouricinho olhou para mim, triste:
- Não podes falar nessa tal distopia, Jana! A vida é bela. E tu sabes!
O Ratinho continuava a explicar, pensativo, quase sonhador, como se quisesse convencer-se a ele próprio.
- É o desalento que nos invade e que deixamos que se espalhe dentro de nós como uma droga…
Logo, o protesto veemente do Ouricinho:
- Não quero isso! Não gosto de distopias! Se não acreditássemos na vida íamos já bater com a cabeça naquela parede! Isso são os diabinhos maus!
Dei um grande suspiro e fez-me bem. Eu gosto muito de suspirar e lembro-me que o ‘meu’ Rabbi diz que nada faz tão bem à alma como rir, cantar ou soltar um grande suspiro, com todo o coração! Vê-se a realidade de modo diferente e afastam-se males e tristeza!

Tanta verdade há nestas palavras dos amigos. Tanta compreensão e tanta vontade de andar em frente, reagir, resistir aos diabinhos que nos querem fazer desistir das nossas lutas e crenças”.

- Nada como ter vinte anos e acreditar em tudo! - disse. Talvez tenham razão os que dizem que depois dos vinte anos começamos a morrer…
- Isso é o Manuel que diz, desconfio…É mesmo coisa dele.
O Ouricinho está sempre a ouvir as conversas dos outros. Mas os diabinhos existem! Lembrei-me dum encontro, em Amesterdão, era eu ainda muito nova, que me impressionou.  

Contei-lhes:
- Uma senhora, que já não era nova, veio sentar-se à minha mesa, num café que dava para o canal. Tinha uns olhos azuis, sem alegria,  e uns óculos redondos. Trazia um vestido vermelho e não largava o copo de vinho branco que tinha na mão. Parece-me estar a vê-la...
Edward Hopper, Mulher`, interior 
Estavam a ouvir-me, atentos.
- Era a imagem do desespero e da desistência. Como um diabinho infeliz, queixou-se da vida e do mundo. Do peso das coisas da vida. “Ah, dizia ela. Todo o peso do mundo está nos nossos ombros! Eu sinto-o. Mas não podemos aguentá-lo, pois não? Temos um corpo frágil, como vamos aguentar toda a dor do mundo?” 
O silêncio era enorme.
- Eu ouvia-a calada, quase assustada. Não a conhecia de lado nenhum e senti-me tão frágil e impotente!
Edward Hopper, Mulher a ler
Senti a atenção dos meus jovens amigos, presos da minha história.
- Ela continuava, incansável e num tom monocórdico: “Sim. Mas a verdade é que se nós temos conhecimento dessa dor, desse peso, dador dos outros, então devemos aguentar um pouco do sofrimento do mundo…” Talvez tivesse razão. Sei que nunca esqueci o azul dos olhos dela, o olhar perdido no canal. E penso nela muitas vezes.
O Ratinho disse:
- Tinha razão, sim. Os nossos ombros são frágeis para tanto peso, mas há um bocadinho que nos cabe a nós levar…
O Ratinho calou-se. Parecia comovido o meu Poeta. O burrinho Piros estava triste, de cabeça baixa e só se via o nó do cachecol verde sobre a roupa vermelha. Até a coelhinha Rosetta se tinha chegado, a  ouvir. O Ouricinho reflectia, com um ar calmo, e acrescentou:
- Sim, um bocadinho sim. Mas tudo não podemos aguentar! Se não ficamos parados, imobilizados! 

Olhou para mim, como se me quisesse convencer:
- Temos que seguir em frente, ouviste! Sempre em frente. “Quem fica parado a olhar para trás, não avança e perde-se”!
O Ratinho riu-se, como se estivesse aliviado:
- Hahaha! Essa é boa! Isso dizia o Steinbeck!
- Pois dizia! E eu gosto do que ele diz!…
- E eu também! Era mesmo o que eu queria ouvir!
Era bom tê-los ao meu lado. Faziam-me boa companhia! A noite descia sobre a nossa casa. Tranquila, cheia de luzinhas.