terça-feira, 6 de junho de 2017

NOVA MENSAGEM II : E A CULTURA SEMPRE!


Houve amigos e amigas que se surpreenderam por eu ter decidido pôr o blog em repouso. Bem, Foi assim...
Sigrid Undset (Noruega)

Quereria eu um pouco de mimo? Queria! Queria que me animassem - a dizer que afinal valia a pena escrever? Que afinal tudo vale a pena seja qual for o tamanho da alma?
Pois deve ter sido isso tudo...
Seja como for, decidi voltar em breve. Agradeço à Gábi do blog 'Dona Redonda' que me disse que "até me tinha oferecido um "selinho Blog em Bom" no dia 3 deste mês (* Juntei mais uns selos de autores que os mereceram e os não tiveram..
Jane Austen (túmulo em Winchester Cathedral)
.
Cervantes (selo russo)
E agradeço aos amigos que seguem comigo 'em frente' com a utopia. E com a ideia que se deve falar e que mesmo que nos achem 'parvos' alguns, mais vale acreditar e ser parvo do que não acreditar em nada...
Blog em Bom
Continuemos, pois, amigos, com a nossa 'loucura' e aparente ingenuidade e constante crítica do cepticismo - e contra o "desconcerto deste mundo"!
(*)blogue http://falcaodejade.blogspot.pt/ "por a sua autora escrever tão bem sobre livros, escritores, arte e pessoas e me emocionar muitas vezes com os seus posts"...

segunda-feira, 5 de junho de 2017

MENSAGEM NOVA


Uma vez que não tem leitores, este blog vai 
estar em repouso um tempo indefinido. "Wish you were here". Esse era o tempo dos Pink Floyd.
"Passent les jours et passent les semaines/ni temps passé ni nos amours reviennent/sous le pont Mirabeau coule la Seine", já dizia Apollinaire.

Ninguém pode ser obrigado a ler o que não quer e, por vezes, os autores dos blogues sentem a solidão do corredor de fundo...

Todos temos direito a descansar os olhos e a cabeça. "Deixa as águas rolar", cantavam numa canção antiga, brasileira. Pois deixemos!

Bom descanso. Já nem os amigos Ratinho e Ouricinho querem aqui vir! Hoje aparecem excepcionalmente. Têm andado a apanhar sol na varanda!

domingo, 4 de junho de 2017

WOODY ALLEN: ELE E O SEU CLARINETE!

Para o Manuel, companhia destes filmes...


Estamos habituados a ouvir falar do realizador de cinema Woody Allen mas nem todos conhecem o Woody-músico-de-jazz.
Praticamente sabe-se tudo de Woody Allen, dos casamentos, das mulheres, das suas “manias” ou “fobias” – quer pelos jornais quer pelos seus filmes autobiográficos comoventes e inesquecíveis. Pouco se sabe, porém, da sua outra "música".
Woody e o seu clarinete

Woody e o seu saxofone


Desses filmes lembro o maravilhoso “Radio Days” (1987), para mim -com “Amarccord” de Fellini- um dos filmes mais ‘dolorosos’ sobre recordar a infância e adolescência. Desde o início, é a rádio desses tempos que é a "rainha": os concursos, as notícias, os folhetins!
“Radio Days”, além disso, junta um grupo de actores fora do vulgar, com figuras e pormenores maravilhosos.
A tia Bea, solteira e linda, um pouco míope, e que não consegue arranjar marido e que, de desilusão em desilusão, continua a esperar ser 'aquele', finalmente. E que, muitas vezes, leva o sobrinho, a descobrir novos mundos...

Também, figura extraordinária, a prima que canta ao espelho, "in a southamerica's way", as músicas brasileiras, então na moda,  Ai ai, ai ai é o canto do pregoneiro” e lá vem a música baiana e a figura de Carmen Miranda. 
Os pais e os tios que vivem com tantas dificuldades e se apoiam uns nos outros pois a família é o sítio mais seguro…

As festas religiosas hebraicas e o tio que vai "protestar" contra a música dos vizinhos e que "fica por lá" a comer e a beber no dia do Yom Kippur!
O pai que esconde ao filho a profissão de taxista – a única profissão que conseguira guardar, depois de anos de sonhos, de empresas falidas. E que sonha para o filho um destino diferente! Que seja um 'menino- prodígio" como aquele da rádio, matemático juvenil! Que um dia encontram por acaso no Zoo. Para mal dele...

Tudo ali passa até ao ano de 1942 que cada um festeja à sua maneira...
E Diane Keaton canta...

Um nunca acabar de sentimentos, emoções, entre o riso e as lágrimas ao canto dos olhos (ou não fosse ele um judeu, com a sua família e o mundo yiddish (*)… na saudade indelével – que o realizador-poeta nos traz ao coração. Não esquecer que “amarcord” de Federico Fellini significa: 'trazer, amando, ao coração'… Que me corrijam os meus amigos italianos. 
Woody e o seu saxofone

De seu nome verdadeiro Allan Stewart Konigsberg nasceu em 1 de Dezembro de 1935, no bairro de Brooklyn. O pai, Martin Konigsberg, foi livreiro e restaurador, filho de imigrantes judeus de origem alemã. E também taxista.
Woody Allen em 1953
É uma família judia da classe média que habita em Brooklyn onde ele nasceu e viveu até à juventude. É a sua infância em Brooklyn que revive nesse filme.
https://youtu.be/ZoAKvkwr_AU
Estudou numa escola hebraica, em língua  yiddish,  até  aos 8 anos, e ingressa na Midwood High School em Brooklyn. Desde miúdo que adorava o mundo da diversão e da música e das feiras, e era muito popular entre os colegas que lhe chamavam “Vermelho” (Red) por causa dos cabelos ruivos; aos 15, já com o nome de Woody Allen, começou a escrever para as colunas dos jornais e programas da rádio. 
Charlotte Rampling e filosofias em Stardust Memories

Frequenta, simultaneamente, o curso de Filosofia, na Universidade de New York que cedo abandona (é expulso…).
Cannes, 2002, Palme d'Or para a carreira

Dos filmes e do resto não vou falar. Deixo uns links para quem quiser saber mais. Agora queria só lembrar o músico, clarinetista e saxofonista que ele é!

O músico (**) Woody Allen vai aparecer por cá em Julho. Não o vou ver mas recordo-o.

Biografia resumida:

(**) Woody Allen é um "pro": de facto, toca clarinete todas as semanas num bar de Nova Iorque, com a sua New Orleans Band. A música preferida é o jazz que vamos encontrar em todos os seus filmes.

filmes e música

Sobre a vinda a Portugal:

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Do Japão, com amor e ternura...

Estou a ler um livro de Soseki, escritor de sensibilidade extraordinária, Petits contes du Printemps (*). Nele encontramos, de forma sintética e essencial, sentimentos e observações várias da natureza, dos animais e das gentes. 


De Sôseki já falei dos seus "haikus" - tão belos. É, para além de poeta, um grande contista. Tudo o que o rodeia lhe interessa, tem descrições em que nos sentimos levar os lugares por onde vai passando, vemos agir as pessoas que descreve e até a passagem breve de um gato e da sua agonia –quase humana- nos deixa ansiosos e perplexos.
Um simples gato que vai definhando sem que ninguém o ‘veja’. Só quando morre, ganha estatuto de ‘ser vivente’. E todos os anos no aniversário da sua morte a dona vai pôr um peixinho no seu pequeno túmulo no quintal. O autor gosta dos gatos pois há um outro livro do (autor que tenho guardado para ler) intitulado "Eu sou um gato".
Os lugares de que fala dividem-se entre o Japão e Londres onde viveu dois anos dos quais se lembrará sempre - dizendo apenas que “sofreu como um cão”. 
Estes 25 contos que escreveu em 1909, considera-os  ele “fragmentos de um diário íntimo” e passam-se, realmente e apenas, entre o dia 1 de Janeiro e o dia 12 de Março desse ano.

Num outro seu livro mais tardio, "A travers la vitre", escreverá: “Vou abordar temas tão ténues que devo ser só eu com certeza a interessar-me por eles.” Temas ténues, leves, de nostalgia, sim. E de ternura, de beleza - em páginas que nunca esqueceremos!

Os contos “L’odeurs du passé”, “La tombe du chat”, “L’incendie”, “Le Professeur Graig” (o especialista de Shakespeare que lhe vai ensinar inglês, em Londres), ou “O primeiro dia do ano” onde encontramos a delicadeza dos costumes do Japão, no encontro do primeiro dia, ou, melhor, noite do Ano Novo em sua casa: os amigos, o modo de se vestirem segundo a solenidade da festa, o Mestre que toca num tamborzinho - têm a humanidade das histórias que têm vida.

Sosêki fala das pequenas coisas da vida das pessoas simples - e que , no entanto, nos comovem tento!  
Temas “ténues”, aparentemente insignificantes, quem se interessará por eles? Não creio. São histórias de sentimentos vivos, de expectativas, de remorsos, de tristeza. São pedaços de vida e da afectividade que as pessoas normais e simples sentem pelas "coisas de todos os dias" que, tantas vezes, nem nos apercebemos delas -na pressa de viver, no esforço da luta de cada dia, na confusão e no cáos!


Sempre a par da contemplação da natureza - impávida e indiferente- na beleza das primeiras neves; na descrição do incêndio assustador e com ele "vemos" o brilho das chamas vermelhas na noite negra; como vemos o olhar do gato desinteressado de viver, quase blasé (“La tombe du chat”) e que, no entanto, "sente" que vai morrer. 

Ou o pergaminho, antiquíssimo e precioso, um ‘kakemono’, que alguém se vê na necessidade de vender e que ‘não vale nada’ se não para ele; ou a Gioconda oriental, o quadro da Mona Lisa que um coleccionador descobre numa loja de antiguidades e cujo sorriso o vai inquietar de tal modo que tem de o ir vender na mesma loja.

As histórias dos seus pequenos contos passam-se no Japão e em Londres onde viveu dois anos. Nele, está sempre presente o que se passa pelo coração das pessoas. Em 1914, dois anos antes de morrer, escreveu "Kokoro" (coração).
A simplicidade dos seus contos, lembra a de outro escritor japonês, Yasunari Kawabata (1889-1972), Prémio Nobel em 1968. Refiro-me aos “Contos da palma da mão”. Igualmente sintéticos – ‘essenciais’- 

edição brasileira

De Kawabata, leio nas badanas da edição italiana (“Racconti in un palmo di mano” este comentário: “trinta e dias rápidos esboços nos quais a  vida quotidiana, a vida do universo, aparecem fracturados, acontecimento depois de acontecimento, emoção após emoção.”

Obras-primas, de fineza psicológica, de saberes acumulados, ao longo do tempo. Por detrás da “fachada opaca dos dias que passam”, o escritor é o observador atento, o espião dessa realidade insuspeitada e escondida.



Kawabata Yasunari, o escritor da ternura e da angústia dolorosa, é o espião dessa realidade insuspeitada e escondida.
Outra maravilha é o romance "Terra de Neve" - editado, em Portugal, pela Dom Quixote. Um livro que leio e releio sempre com o mesmo encanto.

De género diferente, "A casa das belas adormecidas" é outra maravilha da literatura: uma história do amor pela beleza da juventude face à morte.

Kawabata foi o primeiro Prémio Nobel da Literatura Japonesa, em 1968. Em Estocolmo, discursou sobre a inutilidade do suicídio. Vários escritores japoneses da sua geração se tinham suicidado já (2).

Kawabata Yasunari (1899-1972)

Natsume Sôseki (1817-1916)

Dois livros de escritores inesquecíveis cuja leitura aconselho vivamente. Sinto que saí deles mais rica interiormente, senti-me acompanhada, para além do enorme prazer que senti ao lê-los! 

Aconselho vivamente estes dois livros. Deles saímos mais ricos interiormente, creio. Mais próximos do "coração" das coisa.

Por mim digo que me sinto sempre acompanhada, na leitura dos livros de Kawabata e Sosêki, são horas de puro prazer e de aprendizagem.
Boa leitura! As férias vêm aí!


(*) Sôseki, “Petits  contes de Printemps”, Editions Philippe Picquier, Picquier Poche, 2003.
(**) “Racconti in un palmo di mano”, Ed. Letteratura Universale, Marsilio (Venezia, 1993)

NOTA BIOGRÁFICA:

1- Natsume Sosêki (pseudónimo de Natsume Kinnosuke nasceu em 9 de Fevereiro de 1867, na época de “Edo” (hoje Tóquio)e morreu em 9 de Dezembro de 1918. Considerado um dos maiores novelistas japoneses da época Meiji – e “o primeiro a pintar a inclinação da moderna literatura alienada dos intelectuais do Japão.”
Licenciado em Literatura Inglesa na Universidade de Tóquio (1893) e ensina na províncias até 1900, altura em que segue para Inglaterra para ensinar num “leitorado”. Em 1903 torna-se professor de Inglês, na Universidade de Tóquio.
2-  Yasunari Kawabata nasceu em Osaka, em Junho de 1899 e morre, suicida, em Kanawaga, em Abril de 1972.
No seu discurso em Estocolmo, em 1968, o primeiro Prémio Nobel da Literatura Japonesa, condena o suicídio, recordando escritores e amigos que haviam escolhido essa forma de morrer.
Em 1972, porém, deprimido e angustiado, pela morte do jovem escritor e amigo, Youki Mishima, de que fizera “harakiri” em 1970, Kawabata suicida-se em Zushi, perto de Yokohama.