quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

"A SOLIDÃO DO JUDEU É IMENSA", escrevia o poeta Tabenkin...


A solidão do Judeu (encontrado num campo)

"A solidão do judeu é imensa"Não é minha a frase, mas adapta-se à situação do judeu em todos os tempos. 
Ao tempo de hoje também. E de que maneira - com as extremas-direitas a ressurgirem por toda a Europa em Partidos neo-nazis descomplexados!
Em Paris, no sábado passado, o filósofo de origem judaica Alain Finkelkraut, da Académie de France, foi verbalmente agredido, insultado por alguns manifestantes do grupo dos "gilets-jaunes" que se manifestavam por outras coisas. Mas ver um judeu ali tão perto, "mesmo à mão", um "sionista", "um porco sionista" deu-lhes vontade de exprimir o ódio. 
Como ele contou ao “Journal du Dimanche”:  

Senti na minha frente o ódio absoluto. E, infelizmente, já não é a primeira vez que o sinto. (...) Fui atacado de modo muito violento pelos manifestantes e se a polícia não interviesse creio que muitos deles queriam partir-me a cara.”

Como explicar este ódio milenário? Como renasce de vez em quando das cinzas, como a Fénix da Mitologia? Por que se esconde por detrás de desculpas como: "eu não odeio os judeus, mas sim os sionistas" - o que não se não outra forma de anti-semitismos, mas camuflada.
A solidez do nevoeiro do futurista Russolo e os túmulos profanados 

Para confirmar o que afirmo, ouvi ontem num programa da Arte/TV, franco-alemã, que, em França, no ano 2018, as manifestações ou escritas anti-semitas, ou a destruição de túmulos, ou TAG de frases que lembram o nazismo, afixadas nas sinagogas, nas lojas de judeus aumentaram de 76%.  

O túmulo do jovem judeu Ilan Halimi que há catorze anos foi raptado, torturado e assassinado em Paris por um 'gang' fascista e anti-semita , que se chamavam a si próprios 'le gang des barbares' foi ultrajado e a árvore sobre a campa arrancada.


A célebre escrita acusatória amarela JUDEN - com que se assinalaram na Alemanha, na Noite dos Cristais, os armazéns e negócios que pertenciam a famílias judaicas - voltou a aparecer nas lojas dos judeus, em Paris. Com uma certa ironia judaica, o dono da loja Bagelstein, reescreveu a TAG, transformando-o em GUTEN TAG, boa tarde se não erro.

A própria imagem de Simone Veil apareceu pintada com cruzes suásticas...

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Barbara Coleman DuBois

O primeiro a falar dessa “solidão” do judeu foi Yitzhak Tabenkin, citado no livro “La mia terra promessa”, do jornalista Ari Shavit de que já falei aqui.
“Sentimos uma enorme solidão. (...) E pior ainda do que a consciência da nossa solidão é o conhecimento de que o mundo nos é adverso, inimigo sempre – e esta certeza é mais amarga ainda do que o resto.”

A frase é de Yitzhak Tabenkin - citada  pelo jornalista Ari Shavit, no livro “La mia terra promessa”.
De facto, em 1943, quando os campos de concentração e extermínio já existiam e ninguém falava deles, escrevia Tabenkin:

Sentimos uma enorme solidão (…). Quantos judeus irão sobreviver? Nenhuma garantia temos de que os nazis os não destruam, os exterminem completamente." E acrescenta: "Mas a consciência da nossa solidão é o conhecimento de que o mundo nos é adverso, inimigo sempre – e esta certeza é mais amarga ainda do que o resto.” 
Paris ocupada

E continua a ser verdade. Em 1940, Paris é ocupada. Em Março de 1942, o campo de Auschwitz torna-se 'operativo': entra o primeiro comboio de judeus franceses, vindos de Paris : iniciara-se o Holocausto.
Nesse ano de 1942, são assassinados dois milhões e setecentos judeus.

***

Desde a chegada, em 1936, no primeiro dia em Ein Harod (um dos primeiros kibbutz) os pioneiros  são realistas e sem piedade por si próprios. O ambiente circundante era cruel. As condições e as circunstâncias históricas eram funestas. Mas a esperança é enorme.
Os jovens pioneiros -rapazes e raparigas- dormem exaustos nas tendas brancas - e sabem que não há para eles outro refúgio, nenhuma sombra onde repousar, nenhuma árvore detrás da qual possam esconder-se.
 
Não há espaço para direitos, necessidades e desejos individuais. Todos são postos à prova."
Criam uma enfermaria para as primeiras vítimas da malária, onde tratam judeus e árabes; constroem uma cantina comum; um forno - e têm uma biblioteca provisória. Tudo é precário. Cada dia é uma conquista sobre a morte.
enchentes destroem as colheitas

Depois do Verão escaldante, vem o Inverno e as enchentes que destroem as primeiras culturas, as tendas e tudo o que tinham conseguido conquistar. Recomeçam do princípio.

"Vindos de um mundo que os rejeitara, deixando para trás um mar de mortos, chegam a este lugar alheio, agreste, desolado e seco, morto – que querem transformar no seu lugar.”
o Lago Kinneret ou Tiberíades

A terra “rejeita-os” também. A pressão e o trabalho são tremendos. O esforço para trabalhar a terra é brutal. Desanimam, descrêem. Muitos suicidam-se. E sentem que o mundo continua a rejeitá-los. 
A solidão do judeu é imensa!

“Adaptar-se” ao ambiente, abandonar-se, significava morrer. Para viver, pelo contrário, teriam de preservar o seu próprio “ambiente” interno: a força interior, a vontade férrea: o único meio de sobreviver era resistir. 
Mulheres e homens lutam contra a natureza adversa, sem saber que em breve lutariam com as armas para se defenderem.


As contradições de um país em guerra para a sobrevivência” - é este o subtítulo do livro de Ari Shavit. Sim, muitas são as contradições neste país.
Numa revista, Time Out in Tel Aviv, leio sobre Telavive: “O que faz esta cidade tão especial é o facto de ser aberta, uma sociedade pluralista – caracterizada pela vitalidade, pela criatividade infinita e pela aceitação do outro.”
Quem fala é Ron Huldai nessa altura Presidente da Câmara de Telavive. 
E continua: “Nasci no kibbutz Hulda, os meus pais eram dos primeiros fundadores do kibbutz. E, para mostrarem a importância desse lugar, deram-me o nome de Huldai.”

 Telavive é uma cidade única por vários motivos. Um deles foi o seu próprio nascimento. Leio:

Em Abril de 1909, 66 famílias chegaram juntas às dunas perto do mar. Usando conchinhas fizeram uma lotaria para dividir em porções aquele areal entre si. Esse areal é hoje a cidade de Tel Aviv, chamada assim “Colina da Primavera”.
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Depois de esforços infinitos, apareceram os primeiros laranjais floridos, os primeiros frutos, os pântanos secos e produtivos.
Depois chegam as guerras com os árabes, a chamada Guerra Civil. Em Novembro de 1947, o reconhecimento do Estado hebraico - reconhecido a Oeste e a Leste da Europa - não vai evitar a Iª guerra árabe. 
Para aqueles a quem interessa este assunto, aconselho um livro, muito sério, isento e lúcido, publicado na Seuil: “Israel: de Moisés aos acordos de Oslo” (2)
Leio, nesse livro, uma entrevista com Élie Barnavi, ex-embaixador de Israel em França: “Entre o Ocidente e o Oriente”.
Élie Barnavi

"As Nações Unidas aprovam pois por 33 vozes contra 13 e, apadrinhado dos dois lados da cortina de ferro, fora a Grande Bretanha, nasce o Estado Judaico, numa unanimidade tão inesperada quanto explicável." (ín artigo de Elie Barnavi, "Le temps des guerres")

Por curioso que pareça, é na Rússia, onde tantos "pogroms" aconteceram, que Andreï Gromyko -  então embaixador na ONU -  apoia com entusiasmo "as aspirações dos judeus a criarem o seu próprio estado hebraico", refere Élie Barnavi. (o.c., pg.363Nessa entrevista, Élie Barnavi responde a variadas perguntas:
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“Israel pertence ao Ocidente ou ao Oriente?”
Barnavi responde: “A sua originalidade está na ambivalência. Foi concebido por espíritos formados à europeia, essencialmente judeus da Europa Central que acreditavam na utopia socialista. 
Tem, por isso, estruturas herdadas dessa cultura: Israel é e permanece uma democracia parlamentar de estilo clássico. (…)"
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“Uma testa de ponta do Ocidente no Médio Oriente?”
Talvez um enxerto ocidental, mas ainda bem. Porque é o único estado democrático da região (...) um ‘ilhéu democrático’ num lugar onde isso não existe.”
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“Mas com o que se passa nos territórios ocupados?, - não será um Estado autoritário?”
A democracia funciona mais ou menos normalmente em Israel onde a liberdade de imprensa e de expressão se exerce sem entraves e onde os governantes são designados pelas urnas.
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“O que pretende os outros, afinal?”
“Uma terra sem Israel. Sem judeus. Como o exige hoje o Hamas, o Irão e muitos estados árabes do Médio Oriente.”
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No dia seguinte, a 29 de Novembro de 1948, começa a guerra "civil" - com uma série de ataques árabes contra o bairros judeus nas principais cidades onde todos coabitavam. 
A Legião da União Árabe, em 1948

Herman Gold, O Pátio

Aos judeus resta matar ou morrer. Agora já não se suicidam. Porque as condições que o judeu encontrou, ao chegar a Israel, são a que hoje recusam. 
Defendem-se. Resistem. Atacam. Constroem. Telavive, por exemplo, arrancada das dunas e das rochas, junto ao mar.
A Promenade de Telavive 

Há meses li um artigo, que se referia aos problemas na fronteira de Gaza com Israel, artigo que me pareceu ver a realidade do Médio Oriente com alguma independência.

Lê-se: "É fácil e popular culpar Israel por todos os massacres. Mais difícil é perceber que nunca haverá paz enquanto os palestinianos forem reféns de uma cultura de vítimas." 

Nesse artigo, perguntava o jornalista: Quantos de nós fizemos esta pergunta simples: retorno aonde? Retorno de quem? Retorno quando?” 
E respondia: “O retorno de que falam os promotores destas manifestações ‘não violentas’ é o retorno não aos territórios ocupados por Israel há meio século, na Guerra dos Seis Dias, mas a todo o território de Israel.(3)

Seria, sim, o regresso a uma terra de onde o país de Israel seria "cortado" do mapa e da terra... 
Se possível: Um sítio ... sem Israel! Um sítio...sem judeus! 
Neste conflito nada é simples, claro. Desde quando foi ocupada a Palestina pelo Império Otomano? Depois da Iª Guerra está sob o Mandado Britânico como Israel. E Gaza a quem pertencia se não ao Egipto?

Como o exigem o Hamas (que governa Gaza desde 2007 e é considerado um grupo terrorista), o Hezzbolah no Líbano, o Irão ou a Síria - onde Israel não consta sequer dos mapas. 

"As contradições de um país em guerra para a sobrevivência": É este o subtítulo do livro de Ari Shavit, "A minha terra prometida". Até quando?
Como um sonhador, desejando concretizar uma utopia, Israel é o único país democrático no mundo que tem de defender a sua existência atacando. 
rodeado de estados inimigos

Basta olhar o mapa do Médio Oriente e a 'posição' de Israel. Vêmo-lo rodeado de estados inimigos Líbano, Síria, Turquia, Irão que, como outros tantos países do Médio Oriente, afirmam claramente querer destruir Israel - um Estado que não existe no mapa deles.
"A esperança", de George-Frederick Watts 

Sim, "a solidão do judeu é imensa"! Tinha razão  Yitzhak Tabenkin, quando o disse, em 1943. Mas "a esperança é enorme também",  pensavam os pioneiros, nos Kibbutz, e os israelitas nos dias de hoje. 

"História de um sonho cheio de contradições", chamou-lhe Ari Shavit no seu livro.
Mas onde os seus habitantes guardam a utopia de terem um dia uma terra sua onde não seja preciso matar nem morrer.
***

(1) “La mia terra promessa”, Ari Shavit, edição italiana, (pg.98) Sperling & Kupfer, 2014
(2) A revista citada é Time Out in Tel Aviv, 2011
(3) "Le temps des guerres", artigo de Élie Barnavi, in "Israel, de Moïse aux accords d'Oslo", Seuil, Histoire, col. Points, Paris, 1998 (pgs 356-370).
(4) J.Manuel Fernandes, in Observador, 18 de Maio de 2018






Algumas datas importantes:
Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, 1967
Camp David (EUA), 1978
Conferência de Madrid, 1991
Acordo de Oslo, 1993
Camp David, 2000
Taba, 2001
Iniciativa de Paz Árabe, 2002

O resto é silêncio!




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

GOSTO TANTO DE CESÁRIO VERDE!




Compreendo-o na sua raiva e impaciência, certos dias. Também, como ele, amo os gumes e os ângulos agudos e percebo que certos versos possam ser poliedros de cristal. 

São belos os seus versos, o seu ritmo, o modo como corta os seus perfeitos alexandrinos.

No meu sofá-escritório, rodeada de livros e cadernos, canetas e a agenda das contas sempre ao lado para não me perder nas contas dos dias!) mais as folhas escritas e fotocopiadas a quererem ser um conto.

Um verdadeiro “balagan” diriam os meus amigos israelitas! Bem, explicar o que é balagan não é simples mas tento, Palavra vinda não sei de onde (???) exprime tudo o que estamos a pensar: balagan é gente confusa, balagan é desarrumação, balagan é não entenderes nada, etc. 
Enfim, balagan é uma palavra que serve para tudo e o meu sofá é um pouco do meu mundo, sofá onde durante cinco anos me sentei ao lado do meu cão Zac, em São Tomé, à espera que alguma coisa acontecesse e a ouvir as "ladies do Jazz" em cassetes, num rádio de pilhas, porque a maior parte do tempo não havia luz.
E também ao seu lado, em Israel, onde tudo acontecia e tudo mudava e cada dia era diferente! 
O sofá que foi forrado com seda amarela, em Casablanca- e me acompanhou-me pelas viagens - está numa confusão sempre. Não é por acaso que o considero mesmo o meu "escritório" preferido: com tudo à mão, os livros atrás e o tempo à frente. 

Tenho que me organizar, eu sei, mas não tenho tempo, vou-me desculpando.
Entretanto, sento-me no sofá e vou relendo o poema “Contrariedades” quando me sinto eu própria um pouco balagan também.

“Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.
"poliedros de cristal", raiva, "ângulos agudos" 

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes e os “ângulos agudos.”

Encontrei num caderno de apontamentos (dos muitos que estão espalhados em cima do sofá amarelo) umas notas que tinha tomado há muito tempo – talvez da última vez que ensinei nas minhas aulas Cesário Verde. 
Citava Gaspar Simões, escritor, romancista e crítico esquecido que muito admiro: 
Cesário Verde, em desenho de Columbano

Cesário cria em Portugal a poesia do concreto, do vulgar, do quotidiano. Valoriza poeticamente a linguagem por que se designam as coisas concretas. (...) 

Duma paisagem, duma máscara humana ou cena social, sem pormenorizar, consegue apreender um certo espaço da natureza. (...) A realidade é o seu ‘leitmotiv’. Teve o dom de surpreender a vida.”


Pensar no Poeta  "que surpreendeu a vida" faz-me recordar a minha gente, as alunas, os alunos, as noites de aulas, pois ensinei durante muitos anos os cursos da noite. E elas também se deixavam surpreender pela vida e pela poesia.
Na Escola de Sintra, alguns nomes nunca esquecidos: a Mónica (que veio de Sintra à apresentação do meu livro); a Marty B. (que quase pôde vir) e a irmã Erya B, claro, que é das poucas pessoas que chegou ao IV volume do "À procura do tempo perdido", de Proust.

E também a Eugénia, poetisa sensível; a Maria C. que se interessava por política e trazia, de Inverno, um chapèuzinho de lã que lhe ficava muito bem. E a Sandra V. que não vejo há anos e que amava tanto a Poesia. 
Sem esquecer a Delfina e a história do neto que, logo que nasceu, o pai embrulhou-o (quase!) num cachecol do Benfica.
E lá vem a poesia de Cesário Verde que tantos anos "ensinei". E Fernando Pessoa. E Mário de Sá-Carneiro. Havia tanta vontade de aprender!
Quantas histórias de vida contadas, enquanto a noite descia, tantas queixas abafadas, na injustiça da vida. Tantos risos disparatados para aliviar a tensão que, à noite, depois de horas de trabalho, as minhas alunas traziam.
Tantas ilusões nunca perdidas, e uma amizade continuada pelos tempos fora, cimentada no amor pela Literatura que todas tínhamos!
E por Cesário Verde, claro, também.
Pois essas linhas a que acima me refiro – de uma carta (*) do poeta ao amigo, Silva Pinto, falando do poema "Cristalizações", dizem o seguinte:
São uns versos agudos, gelados que o Inverno passado me ajudou a construir; lembram um poliedro de cristal e não sugerem por isso quase nenhuma emoção psicológica e íntima. Mas ao menos bem o conheço esse estado.” ('Obras Completas de Cesário Verde', Portugália, carta escrita em 1879)
E quero deixar alguns versos desse poema extraordinário que é "Cristalizações".
Na manhã de Dezembro fria, os calceteiros avançam calcetando a rua.  Poças geladas, como espelhos na claridade crua, reflectem as casas no seu colorido.
As peixeiras gritam seus pregões. E, campo ou cidade?- na imaginação do Poeta calceteiros e cavadores 'identificam-se' : "cospem nas mãos gretadas para que não lhes escorregue o cabo!"

Observando, Cesário vai tecendo considerações sobre a dureza das vidas, tudo o que o incomoda na frialdade da manhã de Inverno, sugerindo-lhe os versos.
Calceteiros, em Lisboa, 1880


"Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiro,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócoras, em linha os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações secaram ao relento,
E o descoberto Sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
e as poças de água, como um chão vidrento,
Reflectem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã bonita,
uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro de uma nora;
Tomam por outra parte os viandantes;
e o ferro e a pedra - que união sonora!-
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes."
......
E nesse mês que não consente as flores,
fundeiam, como a esquadra em fria paz
as árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias, vergas! Valadares
Atiram terra com as largas pás.
......
Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custosa! Que diabo!
E os cavadores pousam as enxadas,
 e cospem nas calosas mãos gretadas,
para que não lhes escorregue o cabo."

Poderia dizer, como em "Contrariedades": Hoje estou cruel, frenético, exigente.
"Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes 
e os ângulos agudos."
A noite desce, fecho o livro. Boa noite.

(*) in “Obras Completas de Cesário Verde”, Portugália Editora, Lisboa, sem data