quinta-feira, 13 de julho de 2017

ITÁLIA NA LEMBRANÇA


o túmulo de Rafael Sanzio, no Panthéon (MJF)

“Mon père disait” era uma nostálgica canção de Jacques Brel mas a verdade é que o meu pai “dizia” também muitas coisas.
Dizia, quando eu voltava para o visitar: “Já viajaste tanto, viste tantas coisas, conheceste lugares, gentes – por que não escreves sobre isso?”
Roma e o rio Tibre (net)

A sua ideia era escrever e ler e saber mais sempre. Tinha razão e, passados tantos anos, hoje procuro falar sobre o que vi. Ser uma testemunha, contar. Tenho pena que ele nunca tenha lido nada do que eu contei. Morreu muito cedo o meu pai.
Sei que teria gostado que eu escrevesse sobre a Itália que tanto amava e onde eu estava a viver quando, na quinta da Serra, o ia encontrar. E onde falávamos do que ele vira e do que eu ia descobrindo cada dia.
Panthéon, fachada lateral (MJF)

Da Itália, porém, pouco falei. Demasiado dentro de mim, muito lá no fundo da alma, esses quinze anos hoje tão distantes.
E de repente senti vontade de falar dos últimos dias em Itália. Lembro a casa dos Orti della Sibilla, em Roma, na via Cassia, uns quilómetros ao norte de Roma, onde vivemos esses quinze anos.
Santa Maria Sopra Minerva (MJF)

Roma estava à mão e, de carro, ou de autocarro, depressa estava no centro onde havia um mundo maravilhoso à nossa espera.
Via della Pace, à noite (MJF)

Vejo a casa vazia. Lá fora, no viale, dois camiões cheios com as nossas coisas. As portadas de madeira e os vidros da sala, abertos sobre o jardim, deixam entrar o ar ainda fresco daquela manhã de Maio. No chão, os colchões onde iríamos dormir a última noite: não queríamos ir para nenhum outro lugar. Malas fechadas ao pé das escadas, nas paredes o vazio dos lugares onde tinham estado quadros e estantes – davam-me uma sensação estranha de um sonho absurdo.
a Piazza Navona (MJF)

Os espaços desenhados, a branco, na parede acinzentada por tantos invernos de lareira acesa, eram janelas abertas sobre um fantasmagórico nada.
Roma e o centro histórico, a noite de Roma, a Piazza Navona ou o Panthéon, a Piazza Santa Maria Sopra Minerva ou a Piazza del Popolo estavam longe, muito longe, e eu preferia não pensar neles. O tempo da Itália parara.
a cúpula do Panthéon (MJF)


O Zac, o nosso raposinho, deitara-se num canto, na manta escocesa e suspirava. Na manhã seguinte, a porta fechada para sempre, partimos os três no carro, o Manuel, o Zac e eu. Uma viagem que queríamos rápida, sem paragens a não ser as mínimas necessárias, com a intenção de atravessar o mais depressa possível a fronteira com a França.
 o Manuel e o Zac, no jardim em Roma (MJF)

Parar para quê? Onde? Qual o sentido? A Itália era um capítulo fechado da nossa vida. O meu pai já tinha morrido e nem sabia disso.
E fomos subindo, estrada atrás de estrada, auto-estrada depois de auto-estrada. Pouco falávamos, e nunca da viagem que se iniciara nem do regresso. 
Uma olhadela ao mapa, de vez em quando, os olhos presos nalgum ângulo da estrada, ou numa elevação em que surgia um paesino com o seu duomo, os ciprestes da Toscana, a terra vermelha, ou a montanha.
Era um olhar fugidio, sem querer fixar, o meu. E a vontade que acabassem depressa todas as imagens de beleza que iam ficando para trás, cada vez mais longe. Na urgência sentida de ver o fim duma ‘jornada’ tão difícil.

E lembro – como esquecer, se tanto me magoou esse momento?- a passagem por Génova. A estrada desenrolava-se lá no alto e, em baixo, recortava-se a cidade no golfo: Génova que não conhecíamos.
- Vamos ver Génova?
Não, não descemos para ver Génova. Lembro de ouvir a cassette, no rádio do carro que, repetidamente, incansável, tocava “Roma nun fa' la stupida stasera” e eu chorava com o rosto virado para a janela.
Lá no fundo, ao entardecer, Génova enevoada pelas lágrimas pareceu-me uma pérola colorida no azul do mar. E nunca fui a Génova. E lembro os versos da canção de Paolo Conte e o seu receio de "non tornare più". 
Se o sítio para onde vamos não nos engole de vez e nunca voltaremos mais...
Génova e o golfo (net)

auto-retrato de Van Gogh

"Noite estrelada"

Atravessámos a fronteira e recordo Aix en Provence, onde finalmente descansámos. E, depois, foi em Arles, que voltámos a reconciliar-nos com a vida, ao visitar a terra que nos falava de Vincent Van Gogh e do seu tempo na Provença, entre 1888 e 1890, os anos mais produtivos do grande pintor. 
Olivais azuis (1889)

Campos e searas (1889)

As paisagens eram as dos seus quadros: searas douradas, olivais azulados, céus turvos ou muito azuis. 
A beleza e a vida continuavam, afinal. Van Gogh ensinou-nos de novo que é preciso olhar a beleza que (ela) nunca morre e continuará a viver por toda a parte onde vamos. Basta ter os olhos abertos e querer amar a vida. É preciso viver, até ao último momento.
"Estrelas sobre o Ródano", Arles (1889)

"O Hospital de Arles", 1889

O Hospício de Saint-Rémy, 1889

"Searas e corvos" (1890)


"Café em Arles" (1988)

Uma das coisa belas que recordo desse ‘renascer’ é o Zac a passear no jardim do Hospício de Saint-Rémy, onde Van Gogh passeara, desesperara e pintara algumas das suas obras maravilhosas.
Sim, era necessário renascer...
Pomar, em Arles, 1889

Van Gogh em Arles:
Paolo Conte - "Genova e noi":

Lando Fiorini, "Roma Nun Fa' la Stupida Stasera":

domingo, 9 de julho de 2017

SIMONE VEIL, VIDA E MORTE...



Simone Veil foi enterrada, no dia 5 de Julho, no Cemitério de Montparnasse, depois de uma cerimónia fúnebre no Hôtel des Invalides (*). Presente uma multidão sobretudo de mulheres. 
Veio gente de todos os partidos políticos e de todas as classes sociais. Porque ela foi a mulher que não recuou perante nada, que não se acomodou na sua poltrona de Ministra ou de Presidente do Parlamento  e que lutou incansavelmente pela situação das mulheres. 
 no Parlamento 


Uma mulher linda, com uns olhos azuis lindos. O que não impediu que na sua vida, ainda adolescente, não passasse pelo 'martírio' dos campos de extermínio. A Shoah conheceu-a bem, ela que tinha só 16 anos. E que decidiu que nunca poderia esquecer. De facto escreveu na sua auto-biografia: "Quando estiver a morrer terei a Shoah na memória."

Em 2005, regressa a Auschwitz, com os filhos e os netos, acompanhada pelo Presidente Jacques Chirac.
Auschwitz, 2005

Toda a vida escolheu as lutas justas, talvez porque precocemente assistira à arbitrariedade e ao mal.
Quis escolher, pois, a defesa dos que sofrem injustiças, dos mais fracos que, na maioria dos casos, são as mulheres. Daí a sua luta a favor despenalização do aborto.
Por essa sua atitude foi insultada e ofendida mas nunca desistiu do que considerava ser uma medida justa para as mulheres, prisioneiras de uma lei feita por homens - lei hipócrita essa que ignorava a violência contra centenas de milhares de mulheres que abortavam em condições perigosas, ou morriam, ou acabavam na cadeia em nome de uma moral inexistente e obsoleta. 
Enquanto outras mulheres iam de avião a Londres ou à Bélgica onde abortavam sem qualquer problema ou penalização.

defendendo a lei do aborto

Simone Veil, Ministra da Saúde, vai defender a ‘lei de interrupção de gravidez’ (IVG), que ainda hoje tem o seu nome, nos anos de 1974 e inícios de 1975 quando é finalmente promulgada, em Janeiro desse ano.
No Cemitério de Montparnasse, a cerimónia decorre apenas  na presença da família e dos amigos mais próximos. Simone Veil desejara um enterro judaico. 

Criada numa família judaica ateia, ela própria agnóstica, decidira -depois da deportação para Auschwitz e Bergen-Belsen de que regressa viva- que a sua “judeicidade” seria até à morte imprescritível.

Os filhos convidaram uma mulher-Rabino, Delphyne Horvilleur, rabina do Movimento Judaico Liberal de França, para recitar o Kaddish. O Grande Rabino de França veio também. Gera-se uma certa dúvida sobre quem dirigiria a cerimónia.

Delphyne Horvilleur no final, diz: “Quando se celebra um símbolo tal do avançar das mulheres, como foi Simone Veil, é necessário ceder-nos o lugar.”

Ainda hoje, as mulheres continuam a ter de empurrar para serem vistas. De facto, nessa tarde sairá uma notícia dizendo que Mme Horvilleur não tivera nenhum papel importante na cerimónia. Não impediu que, no final do kaddish, as netas de Simone com os mesmos olhos azuis que ela tinha fossem abraçar a Rabina.

O que diria Simone Veil? Creio que mostraria uma certa impaciência, Depois de tantos anos de luta!
Achei interessante contar esta história que li em Le Monde de anteontem, sexta-feira.
 Panthéon

Seja como for é certo que Simone Veil será daqui a uns tempos trasladada para o Panthéon. E, com ela, irão as cinzas do marido, com quem viveu 67 anos e com quem queria continuar até sempre…

(*) OHôtel des Invalides, ou Palais des Invalides é um monumento mandado construir por Luís XIV, em 1670, para abrigo dos inválidos dos seus exércitos. Hoje, é nele que se realizam as cerimónias fúnebres dos militares mortos no campo de batalha e de certas personalidades do Estado. 

(**) o Kaddish é a prece especial dita nos enterros em memória aos entes falecidos, geralmente realizada pelos filhos ou parentes mais próximos ou pelo rabino.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Efémeros somos nós...

Passamos como sombras. Efémeras. E a passagem do tempo é inexorável…

Recordo uma passagem do filme (de inigualável beleza) de Luchino Visconti, “Morte em Veneza” (1971), com o actor inglês -sempre perfeito- Dirk Bogarde. E com tantos outros actores inesquecíveis.: uma Silvana Mangano, actriz com tanta classe, num papel extraordinário! 

Um filme que se baseia na novela homónima de Thomas Mann (1912) e que fala do compositor Gustav Aschenbach, convalescente de um ataque de coração, em crise com a inspiração e com dúvidas sobre a própria obra e sobre o sentido da música e da Arte.  
Ele que busca na arte a forma física e a perfeição que gostaria de ter, chega a Veneza e redescobre a sua música. É a beleza do jovem Tadzio que o emociona. E que o faz morrer. 
Silvana Mangano em “Morte em Veneza” 

Uma passagem em que se fala do tempo, 'psicológico' afinal, do qual não nos apercebemos e que ‘corre’ de modo diferente conforme os momentos da nossa vida. E conforme a vida que vivemos...
Mais lento ou mais rápido, mas inexorável… 
“Morte em Veneza” e Dirk Bogarde na cena da ampulheta

Ouço Dirk Bogarde dizer, na sua voz tão especial: “Havia na casa de meu pai uma ampulheta. A abertura pela qual passava a areia era tão estreita que à primeira vista parecia que nem se movia. Aos nossos olhos corria mas tão devagar que parecia que nunca mais ia passar. 


Só para o fim é que nos apercebemos que corria tão de repente e acabava. E nesse momento era já demasiado tarde para pensar nisso por isso.
“Morte em Veneza”, Dirk Bogarde
Tal como a ampulheta, o tempo corre lento, tantos anos seguidos e, depois, de repente acelera e parece que  vai acabar já! 
Mas não é para todos igual. Gostava de lembrar um pouco mais da vida deste actor que foi um dos jovens oficiais do Exército de Sua Majestade Britânica a assistir à libertação do campo de Bergen-Belsen.
Sir Derek Jules Gaspard Ulric Niven van den Bogaerde nasceu em Birmingham 28 de Março de 1921 e morreu em 8 de Maio de 1999. Nasceu em Birmingham numa família aristocrática. O pai era Ulric van den Bogaerde, de origem flamenga.

os Royal Angels 

 Súbdito inglês, serviu sob a bandeira inglesa, na II Guerra, primeiro com 22 anos – até 1943- nos Royal Angels e depois no Queen’s Regiment do Surrey. Esteve no Pacífico e na Europa, trabalhando especialmente nos serviços secretos .
distintivo do Queen’s Regiment

Dirk Bogarde foi um dos primeiros oficiais Aliados - que, em Abril de 1945, chegam ao campo de Bergen-Belsen na Alemanha. A experiência teve o mais profundo efeito nele e marcou-o de modo a lhe ser difícil falar dela, durante muitos anos depois dos factos.
Bergen-Belsen, 1945
Chegara à Normandia, a Sommervieu, e Bergen-Belsen foi a experiência mais dura da sua vida.
A catedral de Sommervieu

“No dia 13 de Abril, creio –pois não tenho a certeza de que data fosse (era, afinal, o dia 15)... quando ocupámos o campo e abrimos as portas de Belsen - que era o primeiro campo de concentração que tínhamos visto- nem sabíamos o que eram. Tínhamos ouvido rumores sobre 'aquilo' que eram. Quero dizer é que nunca nada poderia ser pior do que aquilo. 
Bergen-Belsen

As portas foram abertas e foi como se pensasse que estava a olhar para o 'Inferno' de Dante. Quero dizer que nunca tinha visto nada tão aterrador. E nunca mais vi. 
E uma rapariga veio ter connosco e falava inglês porque viu os nossos distintivos e ela… os seios dela eram como bolsas vazias e nada a cobri-los; trazia umas calças de pijama de homem, aqueles pijamas dos campos, e não tinha cabelo. Mas sabia que era uma rapariga por causa dos seios…vazios.”
Bergen-Belsen
Continua: 
Em redor de nós havia montanhas de gente morta, quero dizer montanhas deles e eram corpos magríssimos e nós tentávamos passar no meio deles enquanto um jovem polícia militar inglês nos seguia, dizendo: 'Venham, não vão aí pelo meio, eles estão todos com febre tifóide e vão contagiar-vos.'
A jovem seguiu-nos até ao jeep e viu um resto de comida embrulhado num jornal e pediu se podia comer. O polícia disse que se ela comesse aquela comida, naquele instante, morreria em dez minutos. Ela agarrou o jornal de encontro ao peito. Não via nenhum há uns 6 ou 8 anos. Deu-me um beijo comovido. O polícia, aterrorizado pela nossa segurança,  afastou-nos dali.

...
Muitos anos depois da guerra eu sabia sempre que nada de nada poderia alguma vez ser tão mau…mas nada poderia jamais meter-me medo nenhum homem poderia assustar nunca mais, nada poderia nunca ser tão mau como a guerra ou como as coisas que eu vi!” 

Efémero somos todos, a vida passa como um sopro... mas quantos sofrimentos insuportáveis houve para alguns durante essa passagem! 
E a ampulheta, por vezes, deixa passar a areia tão devagar! 

Penso na figura de quem se tem falado nestes últimos dias: Simone Veil que morreu há dias. Por curiosidade: ela estava no campo de Bergen-Belsen. 

Deportada com 16, anos e tinha vivido aquele horror. Sobreviveu mas a mãe, o pai e o irmão morreram nos campos. Disse: "Ninguém que tenha passado pelos campos conseguirá alguma vez esquecer o que viveu".