terça-feira, 21 de maio de 2019

Prémio Camões foi atribuídoao poeta-cantor Chico Buarque de Hollanda



Francisco Buarque de Hollanda, mais conhecido por Chico Buarque é um músico, dramaturgo, actor -  e um escritor e poeta brasileiro. 

Nascido em Rio de Janeiro, em 19 de Junho de 1944, é filho de Sérgio Buarque de Hollanda (1902-1982), importante historiador do Brasil e jornalista e de Maria Amélia Cesário Alvim (1910-2010), pintora e pianista.

Viveu pois no centro de uma família culta e ligada à música e às artes.
Em 1946, mudam para São Paulo onde o pai vai desempenhar as funções de Director do Museu Ipiranga.

Em 1953, o pai Sérgio Buarque de Hollanda é convidado para ser professor na Universidade de Roma e a família segue toda para lá, Chico e suas irmãs que são também cantoras ou artistas.

 Ana Hollanda - que foi Ministra da Cultura em 2010, Miúcha - que cantou com João Gilberto (com quem casou), 
 Ana Hollanda 

De 1963 a 1966 frequenta a Universidade de Arquitectura mas não completa os estudos. Para ele, o mais importante era a música.
Miúcha 

Volta a São Paulo e estuda. A partir de 1966, abandona os estudos e começou a cantar. Desde sempre mostrara interesse pela música e pela poesia, sobretudo depois da convivência com dois grandes mestres, Vinícius de Moraes e Paulo Vanzolini.

È considerado como um dos maiores nomes da música popular brasileira. O primeiro álbum gravado intitulado Chico Buarque de Hollanda ganhou no Brasil o Festival de Música Brasileira. Com a música A Banda cantada por Nana Leão.
Quem não ouviu a “Banda passar/cantando coisas de amor”?
Nana Leão

Em 1969, durante os anos de chumbo do regime militar no Brasil, decide exilar-se para Itália onde vive um ano. Volta em 1970 e é o artista mais activo politicamente, na crítica do regime, lutando pela democratização do país.
Em 1971, escreve a canção “Apesar de Você” considerada pelo governo uma canção de luta e uma provocação - e a canção foi proibida na rádio. E os brasileiros cantavam-na como se fosse um Hino Nacional.
Tom Jobim

Cantou com Tom Jobim, João Gilberto, Toquinho e tantos e tão bons.
Distinguiu-se com outras acções de “revolta”, festejando a nossa revolução dos cravos, no dia 25 de Abril, com a canção “Tanto mar...”

Distinguiu-se também na Literatura: ganhou três Prémios Jabuti: O prémio de Melhor Romance com o livro “Estorvo” (1992).



E o prémio Livro do Ano, quer pelo seu livro “Budapeste” (2004), lançado em 2003 pela Companhia das Letras, e por outro seu livro de 2010 “Leite Derramado”.

Em 1999 foi homenageado pela sua participação na Escola de Samba A Primeira Mangueira que ganhou o desfile do Carnaval nesse ano.
Primeira Mangueira, 2013

Chico Buarque, 1966

Hoje, depois de tantos anos a cantar e a escrever poesias, ganhou o 'Prémio Camões' 2019. Parabéns, Chico Buarque de Hollanda!


Um Prémio bem entregue. Creio que Camões teria adorado!

"Apesar de você..."



domingo, 19 de maio de 2019

BATYA GUR, A AGATHA CHRISTIE ISRAELITA



A escritora Batya Gur nasceu, em Telavive, no dia 1 de Setembro de 1947, um ano antes da criação do estado de Israel. Originariamente Batya Mann, é filha de pais sobreviventes ao Holocausto. O apelido vem-lhe do marido. 
A certa altura dos estudos, muda-se para Jerusalém onde se licencia, na Universidade Hebraica de Jerusalém, e apresenta um doutoramento em “Literatura Hebraica”. Fica a viver na cidade santa até ao fim dos seus dias. 
Morreu cedo, com um cancro, no dia 19 de Maio de 2005, deixando escritos apenas seis livros.
Penso que foi uma perda para a literatura policial como também para a cultura em geral. O que teria continuado a escrever Batya Gur?

Foi professora de Literatura na Escola e na Universidade e era colaboradora do prestigioso jornal Haaretz, onde fez crítica literária.
Batya Gur situava-se politicamente próxima do Partido Trabalhista de Israel - e defendia um estado aberto onde fosse possível viverem dois povos, através de negociações e mútuas cedências. Num diálogo procurado com os vizinhos inimigos.
Telavive, onde vivi ...e o meu Café...

Li-a, no final dos anos 90 em Telavive, onde vivi cinco anos, e fiquei a apreciá-la. Conhecia a realidade de que ela falava. Para a escritora, mais importante do que a intriga policial é a criação de ambientes e de “pessoas”. A análise psicológica das suas figuras interessa-lhe e a mim interessava-me ler o que escrevia.

Escreve sobre ambientes e submundos fechados sobre si próprios, mas tão reais quanto as inimizades e conflitos que neles se geram.

Os seus romances focam-se em realidades e grupos diferentes, sejam eles o Círculo de Psicanalistas; o Campus Universitário; uma Orquestra e os músicos; um “kibbutz”; uma comunidade étnica, a iemenita; ou, no último livro, o mundo dos “media”, da televisão. 

Os seus livros reflectem o que o país vive: os equilíbrios instáveis, causados pela insegurança, as frustrações de esperanças passadas, os ódios e ressentimentos, as invejas - que podem, num 'momento' de desconforto ou desequilíbrio mental, despoletar, numa mente frágil, um impulso mortífero e levar ao assassínio.

O seu herói, o inspector Michäel Ohayson, judeu sefardita, é aparentemente um duro mas como o fruto “sabra” – que é o nosso figo da India- por dentro é “doce e sensível”. Os israelitas já nascidos em Israel são chamados “sabras”. Com picos por fora, na defensiva, mas cheios de doçura, quando confiam e se abrem. 

Viver em Israel não é fácil, país de tantos paradoxos e controvérsias, à beira dum abismo, em luta pela sobrevivência – os “picos” fazem falta....
A literatura da autora transcende a mera intriga policial - para se “abrir” a outras questões como a situação de Israel no mapa político do Médio Oriente ou os problemas universais do ser humano, as coisas da vida.
O seu primeiro livro chamava-se “O Assassínio de sábado de manha" (Saturday Morning Murder, 1988) e tem como subtítulo “Um Caso Psicanalítico”. Está traduzido em português, na editora Relógio d’ Água (1).
Teve sucesso imediato entre o público israelita porque no fundo se baseia em figuras reais – transformadas em personagens de ficção, “de papel”. O livro foi, inclusivamente, adaptado para uma mini-série na televisão israelita - onde teve o mesmo êxito. 
Trabalho de equipa com o realizador Ram Loevy e com a assistente Assaf Tzipora na escrita e na revisão do guião.
A história é a seguinte: numa manhã de sábado, silenciosa e tranquila, surge um acontecimento estranho: Eva Neidorf, psicanalista e professora muito respeitada, é encontrada morta, com um tiro na cabeça, na sede da Sociedade Psicanalítica de Jerusalém.
Nessa tarde, deveria proferir uma conferência em que se referiria aos “casos de consciência e problemas éticos” na Psicanálise. Conferência aguardada com grande curiosidade e alguma inveja e desconfiança por parte de alguns. De notar que a morte da professora poderia tornar-se oportuna para vários colegas.
Qual a razão daquela morte? Nos livros de Batya Gur os crimes são geralmente causados por problemas e reacções psicológicas, impulsos incontroláveis. Raramente são premeditados.
É o primeiro “thriller” da romancista e, para resolver o caso, é chamado Michäel Ohayson, Inspector da Polícia de Jerusalém e protagonista de todos os seis romances da autora. 

É a sua primeira aparição. Por isso, ela descreve-o com pormenores: Ficamos a saber que tem 39 anos, é de origem sefardita, foi casado mas está divorciado há oito anos, tem um filho adolescente que ficou a viver com a mãe e com o qual tem uma relação difícil.
É um solitário, um taciturno que “se formou a si próprio” até encontrar o seu lugar. 
Nesses aspectos da sua vida, parece-se com a sua criadora – segundo ela escreve: “Eu sou Michäel Ohayson num corpo de mulher.” e grande apreciador de música, que se sente bem em casa, a ler e a ouvir música clássica, sem nunca se aborrecer.
No trabalho é respeitado porque é um perfeccionista simpático.
Fumador inveterado, detesta jornalistas e meios de comunicação e bebe cafés sobre cafés, sempre com açúcar. Guia um pequeno Renault da Polícia e é incapaz de não fazer a barba todos os dias. Segundo dizem os colegas, tem uma “memória fantástica” sobretudo para nomes.
Tem um sonho: doutorar-se em Cambridge um dia. Licenciara-se em História e Literatura nessa Universidade e arrasta consigo inacabada uma "dissertação" para a Tese.
Entrar na elite do “mundo misterioso e desconhecido” do Instituto de Psicanálise para resolver um assassínio não é fácil. Resolver o caso também não.
O segundo livro, “A Litterary Murder: a critical case” (1999) passa-se no mundo universitário e relata o assassinato de um famoso poeta e, quase a seguir, o de um professor da academia. Terão relação entre si? Ohayson vê-se, de novo, a investigar um mundo fechado– o da Literatura. Fechado e cheio de guerras: ódios, invejas, ofensas. Ohayson vai ter de agir com imenso tacto. Terá de pôr em jogo as suas qualidades.
O terceiro romance intitula-se “Murder on the kibbutz: a comunal murder” (1992). E desta vez deparamos com um ambiente quase secreto, e assassínios provocados, por um movimento interior.
O kibbutz é um mundo fechado fisicamente, é um agrupamento, uma propriedade comunitária. (3). A autora abre-nos uma porta sobre esse mundo. 
Como diz o articulista do jornal Le Monde (de 23 de Maio de 2005) a que me referi: 
Batya Gur descreve, com grande realismo e pormenores - dando elucidações importantes para o leitor - certas realidades políticas de Israel.”
O mundo do kibbutz foi criado pelos judeus askhenazi, vindos da Europa do Norte e da Rússia, chegados à Palestina sob Mandato Britânico, ao porto de Jaffa, imbuídos dos ideais socialistas do “sionismo”. Para eles, era necessário manter a cultura trazida de tão longe.
Procuram uma forma de socialismo comunitário, justo, igualitário, com regras muito rígidas.
O que se julgou ser “duro” mas cristalino, na esperança e na Utopia, na construção de um país próprio, onde viver seguros - nem tudo correu como tinham pensado.
O ideal continuou mas o que era “cristalino” ofuscou-se. Foram feitas coisas que não esperavam fazer, lutas que não tinham esperado lutar. Matar. Morrer. Para sobreviver naquela terra agreste, rodeado de inimigos.
Ao longo dos anos, alguns kibbutz foram desaparecendo. Foram-se esvaziando de gente nova: o modo de vida tinha mudado nas cidades ali perto, e atraíam-nos.
Segue-se o romance “Murder Duet: a musical murder” (1996. Uma intriga policial no ambiente de uma Orquestra, depois do assassínio brutal de dois membros da orquestra: dois violinistas.

Encontramos a figura simpática e generosa da vizinha de Michäel, Nita. O livro começa com uma história inesperada: um bebé é abandonado à porta do Inspector, dentro de um caixote. Ele recolhe-o. Para isso, pede ajuda a Nita que tinha já um filho. Fingem, então, terem uma relação.
Ao investigar o caso, Michäel descobre que as vítimas eram o pai e o irmão dessa amiga
História triste, humana, em que se pode “descobrir” o que há dentro do coração do “sabra”: a humanidade e a compaixão, a protecção ao abandonado, ao “outro”.

Anos mais tarde, Batya Gur escreve “Murder in Betlehem Road: a mystery of Mïchael Ohayson”(2004).

Dois anos passaram desde que o detective deixara a sua equipa. Estivera fora da sua unidade para estudar Direito.
Os tempos e os acontecimentos que a escritora refere são mais recentes, passam-se depois da segunda “Intifada” (6) lançada pelo Palestinos, em 2002.
São muitos e complexos os problemas de Israel e paradoxal a sua situação.
Segundo escreve Ari Shavit, “Israel é, por um lado, a única nação  ocidental que ocupa o território de um outro povo para sobreviver; por outro lado, é o único Estado ocidental cuja existência é ameaçada e que tem de atacar para se defender (...)”. (7)

Temos a sensação de que Batya Gur começa a referir-se mais directamente à situação do país, a revelar uma preocupação política e a querer ter uma maior vontade de intervenção e coragem em afrontar certos problemas políticos.
Até por isso, o facto de Batya Gur ter escolhido um herói sefardita – ela, de origem asquenazita - tem um significado importante e revela uma atitude inesperada e corajosa.
Segundo afirma Ziva Avran, professora de Hebraico e Literatura na Universidade francesa de Lille III : “escolher um herói sefardita era, para ela, um meio de valorizar essa população, durante muito tempo ignorada pelas classes dirigentes. Sabia revelar as fracturas da sociedade, mas sentia-se sempre nela o amor que tinha pelo seu país.” (8)

No romance, a vítima é uma jovem e bela iemenita, Zahara, que é encontrada morta no terraço de um prédio em reconstrução.

Estava vestida como para uma festa nocturna, roupas e sapatos de marca, bem maquilhada, cabelos perfeitamente arranjados. Mas tem o rosto completamente desfeito por um instrumento contundente,  uma pedra que será encontrada num tanque.
Completamente desfigurada, sem rosto, sem a carteira e sem qualquer documento, torna-se complicado identificá-la.

Neste preciso caso, a autora refere o conflito  entre os iemenitas, os mizraki, que preparam uma festa na Sinagoga “à maneira tradicional iemenita”, e os askhenazi que não aceitam que, no coração da Cidade Santa, possa existir uma comemoração dos judeus orientais. Os asquenazitas tiveram sempre um complexo de superioridade em relação aos outros judeus.
O caso do assassínio que acontecera na periferia da cidade desloca-se para Jerusalém - porque a morta, Zahara Bashari, vivia numa casa no centro de Jerusalém e era ela quem estava a organizar a festa na Sinagoga.

Na continuação, vêm à superfície as relações turvas entre os palestinos que vivem na Cisjordânia e os judeus.
Nota-se isto no modo como são tratados por alguns agentes da Polícia, durante os interrogatórios, em que a presunção de culpa parece formada desde o início. O primeiro suspeito  a ser levado para a esquadra é um árabe.

Ohayson encontra-se muitas vezes em desacordo com as práticas “selectivas” e discriminatórias do inspector Danny Bality ou do sargento Eli Bashar. Ele tem um bom relacionamento com os árabes.
Uma das personagens presentes à descoberta do corpo de Zahara, a jornalista Orly Sushan, antiga namorada de Michäel, protesta contra a atitude do inspector Bality.

A escritora consegue um equilíbrio extraordinário ao falar destes assuntos melindrosos. Aborda de modo claro os assuntos complicados e controversos da sociedade israelita.
Fala livremente dos casos graves que se escondem nos mundos fechados ou com características muito diversas, sempre isolados.

Falta referir o último livro de Batya Gur, “Murder in Jerusalem” (2006). “Crime em directo” foi o nome que escolheram algumas traduções - mas Batya Gur intitulou-o “Murder in Jerusalem: a mystery of Michäel Ohayson”.
Uma vez mais, alia a trama policial com a análise psicológica. A acção passa-se na sede da Televisão de estado de Israel, o Channel One, em Jerusalém. E descobrimos na dedicatória o nome de Ram Loevy e Assaf Tzipora, a quem dedica o livro, referindo-se à experiência vivida com eles tantos anos antes na realização da mini série para a Televisão.

Por que motivo é assassinada a encenadora Tizrah Rubin, mulher um pouco misteriosa e uma das personalidades importantes para a realização do filme?

 O filme foi tirado do livro de S. J. Agnon, “Iddo e Eynam”, que é considerado um dos livros mais complexos e indecifráveis do escritor israelita que ganhou o Nobel em 1966. (9)
 As filmagens estão a ser preparadas na sede da Televisão quando Tizrah aparece no “set” das filmagens, morta, debaixo de uma coluna de mármore que, aparentemente, lhe caíra em cima.
Acidente ou crime? Os acontecimentos que se seguem vão chamar Ohayson ao cenário de um novo crime, no mesmo lugar, a Televisão. 

Tal como a sua criadora, Ohayson procura um entendimento das pessoas, as causas, o “porquê” destas acções, destas mortes. Gostaria de um mundo melhor? Com certeza.

Gostaria de consertar o mundo? Não é simples de fazer - mesmo que se tenha uma alma de “escuteiro”. Ela tinha-a. E o seu detective também.

Escreve Batya Gur (citada num artigo do Haaretz, saído a 23 de Maio, poucos dias depois da sua morte) “Nunca pensei que fosse o sal da terra, mas nasci aqui e fui membro do movimento dos escuteiros.”

Michäel Ohayson entrega-se à sua missão, talvez uma das mais complicadas – pelas personalidades públicas que estão implicadas.
Deixo-vos estas “pistas”mais, para continuarem a procurar Batya Gur e a ler os seus livros. Estão traduzidos em muitas as línguas!
Em português, existe só o primeiro livro dela, saído na editora Relógio d’Água, em 2002, com o título “O assassínio de sábado de manha”. Mas a Espanha, a França e outros países publicaram toda a obra.

NOTAS

(1)Le Monde de 23 de Maio de 2005, no artigo sobre a morte de Batya Gur
(2)kibbutz significa, em hebraico, “agrupamento” e é uma aldeia colectiva, uma estrutura comunitária, fundada na abolição da propriedade privada e da comunhão das necessidades, do trabalho, da produção agrícola, cultura e educação.
(3)Ari Shavit, jornalista do Haaretz e ensaísta, escreveu My Promised Land (que li na tradução italiana, “La mia Terra Promessa”, editada por Sperling & Kupfer, 2014)
(4)“A segunda “Intifada” começa em 2000. A Intifada foi um período de violência intensificada entre Palestinos e israelitas. Começa em Setembro de 2000 quando Ariel Sharon faz uma visita ao Temple Mount considerada ofensiva pelos palestinos. Estes começaram a atacar com pedras os polícias; o Exército Israelita veio e dispersou-os com gás lacrimogéneo”. 
Daí resultaram muitos atentados suicidas com bombas por parte dos palestinos, em Cafés, Centros comerciais, em dias de festas de crianças, como no Purim, espécie de Carnaval. 
E uma noite na discoteca Dolfinarium que fica no areal da praia de Telavive, na Promenade perto de Jaffa. Ficava perto da minha casa e ouvi o ruído da bomba, a explosão do kamikaze, depois um silêncio inexplicável para mim. E imediatamente, as ambulâncias a aparecerem de todos os lados. Nesse ataque morreram 20 jovens russas e os feridos foram dezenas. 
(5) os Judeus sefarditas são oriundos da Península Ibérica, foram expulsos de Espanha, em 1492, e de Portugal, em 1497. Espalharam-se pela Europa Ocidental, pela África do Norte, Turquia, Macedónia e Grécia até aos Balcãs. Os askhenazi (asquenazitas) oriundos da França do Norte e da Alemanha e, mais tarde, da Rússia e da Europa de Leste. Os Mizrahi, são os judeus vindos do Oriente: do Iémen, da Etiópia (os falashah) e do Iraque.
(7)Ziva Avran é uma especialista de Literatura Israelita, no Departamento Hebraico da Universidade de Lille-III (França)
(8)O escritor S. J. Agnon (1887-1970) é um dos mais importantes escritores de Israel. Recebeu o Prémio Nobel em 1966, dividido com a poetisa israelita Nelly Sachs
(9)No “Haaretz” de 29 de Maio de 2005, artigo de Shiri Lev-Ari intitulado “Warm and Wise writer Batya Gur dies


sexta-feira, 3 de maio de 2019

Lugares da minha infância



Na infância, íamos brincar para a Corredoura. Era um parque, em terreno inclinado, que subia até à Corredoura de cima, na rua da Rua da Escola Técnica.
Havia o parque infantil com os seus divertimentos, cavalinhos de madeira, o "sobe e desce", o escorregador e a areia onde caíamos.
Em redor, havia flores, arbustos recortando canteiros de pedrinhas, formando sebes torneadas, com bagas pequeninas e bem encarnadas.
Havia áleas de areia batida, com bancos de madeira, de cada lado, para as pessoas descansarem do passeio, quando estavam cansadas.

Evoco sempre o quadro de Miguel Barrias, onde sinto uma atmosfera de grande intimidade, nos dois vultos que passeiam, apoiados um no outro.
~
óleo de Miguel Barrias

Para mim, aquele óleo, que vi muitos anos pendurado em casa dos meus pais -e que hoje me pertence- era a  Corredoura, no Outono, com as folhas pintalgadas de amarelo e vermelho. Talvez um choupo tremedor como o desta imagem outonal
Era o caminho que eu conhecia e ia dar ao parque infantil, ladeado entre duas filas de árvores, com um banco de madeira, de um lado e do outro.

A meio do parque, havia um lago, protegido com grades altas, onde nadavam peixinhos encarnados. De um dos lados, detrás do lago, viam-se árvores. 

Salgueiros. Olmos. Choupos. Vários tipos de choupos:  a rama de um choupo chorão pendia sobre o lago, tocando ao de leve nas águas verdes. O choupo tremente. O choupo branco - quantos estariam à volta daquele lago?
Levávamos miolinhos de pão nos bolsos para deitar no lago e chamar a atenção dos peixes. Vê-los nadar, em sinuosas linhas vermelhas, em direcção a nós, era um prazer enorme. 
Um dia tive a ideia de ir pescar! Peguei num carrinho de linhas e num alfinete que a Florinda me dobrou ao meio e prendi no bico do alfinete um bocado de pão.
Os peixinhos vieram velozes e comeram o pão. Claro que eu não pesquei nada, mas também sei que a minha intenção não era essa, porque se os pescasse, eles morriam...

Nem eu sonhava matar desse modo cruel um daqueles mágicos seres brilhantes e vivos que adorava ver!
Era na Corredoura que me lembro de encontrar as minhas amigas pequenas, a Tiça, a Julieta, a Gioconda. E lá vinham também as minhas irmãs, de laços na cabeça. 


O grupo era grande e juntávamo-nos sobretudo nos dias dos anos de uma de nós. As casas não eram grandes para permitir as brincadeiras que, ao ar livre, eram possíveis. Brincadeiras simples: o esconde-esconde, o ringue, jogar à malha ou ao macaco, ao pé-coxinho...

De Inverno, vestíamos camisolas de lã por debaixo desses tais bibes, e meias de renda grossa a sair das eternas botas de cabedal com atilhos de que eu gostava tanto.

Eu gostava muito de jogar à bola! Um dia ofereceram-me uma bola vermelha. Vejo-me na fotografia agarrada a ela, com força, com um travo de melancolia que às vezes tinha nas fotografias desse tempo.
A Corredoura está hoje enriquecida pelo restauro da bela Fábrica Real - actualmente, Câmara de Portalegre.

Num dos caminhos da Corredoura, havia um banco de pedra, caiado de branco, arqueado no espaldar. E um grande busto de perfil, de bronze, que soube ser do poeta José Duro, que morreu tuberculoso, jovem e infeliz.
Outros dias imagino-me a subir pelo caminho da Corredoura, de mão dada com a Rosalina, que me levava à escola. Preferia ficar em casa ou ir jogar à bola!

Não gostava nada de ir à escola e, quando passava perto do banco do poeta, de mala às costas carregada de livros e cadernos, sentia-me infeliz, e pensava: "Triste como o poeta, coitadinho!"
A Dona Maria da Alegria, a minha professora, esperava ao pé da porta do quintal,  tinha a respiração ofegante porque sofria bócio. Pelo menos era o que eu ouvia dizer. Tinha uma casa com e a sala de estudo dava para o jardim 
Um dia foi operada e ficou com uma cicatriz muito grande no pescoço, - tão grande que me afligia só de olhar para ela. Eu era amiga dela e fazia-me  pena.

Na memória, vejo as árvores cobrirem-se de folhas amarelas, depois os ramos secos e esticados e os troncos esbranquiçados dos salgueiros. Vejo a chuva miudinha começar a cair.

Depois chegava o Inverno, as folhas caíam todas, as árvores ficavam desprotegidas, despidas das suas folha.  Nessa estação, não íamos à Corredoura : só saíamos para brincar nos dias de sol. Mas continuava a ir à escola de mão dada com a Rosalina. 

Nos dias em que não tinha escola, ficava detrás dos vidros a ver os regatinhos de chuva escorregarem devagar pela janela. Ou, bem  chegada à braseira, ficava a ler - à espera das castanhas assadas que a Florinda fazia para nós.

Depois, vinha a Primavera e as flores brancas, ou cor de rosa, ou de todas as cores rebentavam em botões perfumados: as flores dos limoeiros, das laranjeiras.
Tão parecidos, flores lindíssimas, mas com um perfume ligeiramente diferente.
E o perfume dos lilases. Havia árvores de lilás, na Corredoura, com flores de pétalas de um roxo delicado, muito pequeninas, arrumadinhas em cachos pendentes.
Com a Primavera, voltávamos a ir brincar para a Corredoura...O ritmo das estações era claro e as nossas vidas pareciam "arrumadas" como as cantareiras dos brinquedos.
 a casa amarela

O tempo passa tão depressa. Onde estão hoje essas amigas? E a casa amarela e a toda a gente que lá vivia? Espalhados pelo mundo, alguns desaparecidos, deixam-me saudades desses. O que nós sonhámos as três, naquela casa. Hoje sonhamos ainda? Creio que sim, era impossível não continuar a sonhar. Com os filhos agora, elas já com netos...

imagem da nova Corredoura

E hoje o que resta da Corredoura? O parque da Corredoura está bonito, tem lindas árvores e alamedas no meio da erva - mas tão diferente? 
E o busto do José Duro? O poeta do livro triste a que chamou "Fel".

Disseram-me que o banco foi restaurado, mas ainda não o vi.

Escrevia o poeta, falando do seu livro de versos:

"E o livro que aí vai
É um livro brutal
É um poema a esmo
Pensei-o na rua, olhando toda a gente.

Escrevi-o no meu quarto, olhando-me a mim mesmo."

Berthe Morisot, Menina