terça-feira, 5 de setembro de 2017

LIVROS ESQUECIDOS A RECORDAR!


E lá volto a falar de livros, de escritores e de leitores. Alguns amigos pediram-me que continuasse a falar dos esquecidos. (Gábi, aqui estou!)

O vício de ler adquire-se cedo mas a verdade é que conheço muito boa gente que começou tarde e leu tudo e mais alguma coisa. Outros puseram-se a comprar livros, nobre atitude, e a guardar essa leitura para momentos de maior tranquilidade.
Seja como for, é um vício bom. E abre-nos "mais mundos", como diz o belo título de José Régio!
Eu, em miúda,  lia tudo o que apanhava, escondida num canto da sala  de visitas. As vezes sentada no chão, outras deitada de barriga para baixo em cima da carpete enquanto comia um pão com manteiga ou um bolinho que a Florinda nos fazia. Outras vezes, era na quinta da Serra dos avós, debaixo dum pinheiro que passava a tarde a ler...

E tenho pena que certos livros não se procurem nem se encontrem hoje. Penso em autores portugueses. Dois ou três escritores que me fazem muita pena não ver por aí.
Estava a pensar em Branquinho da Fonseca (1) que não sei se ainda é lido hoje como mereceria. 
No entanto é um grande contista que teria o seu lugar de honra numa antologia de contos mundiais!~

 Colaborou na revista “presença” (que fundou em 1927 com José Régio e João Gaspar Simões) onde escreveu com o pseudónimo de António Madeira. Antes, escrevera já na revista "Tríptico". Dedicou-se ao conto, à poesia, ao romance e ao teatro mas considerava que era o conto "a sua expressão mais natural".

A novela “O Barão” pode considerar-se uma obra-prima. Mas tantos outros títulos de “Caminhos Magnéticos” são contos excepcionais - e dignos de uma antologia de contistas a nível mundial!.

O conto “O Anjo”, por exemplo, de que gosto muito: a história do "Anjo" ou da “Russa”?
 “A vida é estar como morto até chegar o Anjo, que baterá três vezes”, pensava Amorim. “Para que sou eu? Para alguma coisa hei-de ser.” Ele sabia que cada homem nasce para fazer uma coisa pequena ou grande.”(…) a vida é andar aos tombos, até que um dia chega o anjo com a hora em que iremos fazer o que é preciso”. Até que um dia o Anjo bateu-lhe à porta. E a surpresa foi enorme. Para ele e para o leitor.

“Felicidade, ai felicidade!
Ai quem ma dera na minha mão…”


 “O Lobo branco” é um conto extraordinário que se deve ler, quanto a mim, se se quiser conhecer a nossa literatura.  “D. Vampiro”, “Os olhos de cada um”, ou “A última estrela” todos eles têm uma profundidade e uma capacidade de análise psicológica muito especiais. Para além da evocação feliz das personagens que vemos agir e quase entendemos. 

O gosto da literatura ‘psicologista’ nesse sentido vem da revista “presença”. Da revista de que foi director com Gaspar Simões e José Régio.
Outro livro de contos que me impressionou dele, foi “Bandeira Negra”. A história do Chinca e das amizades da adolescência e dos amigos que se vão antes do tempo, sentimento incomunicável de abandono, de traição, de pasmo perante a brutalidade da vida. 
A novela "Rio Turvo" deixa-nos um amargo gosto na boca e, sempre, a sensação da impossibilidade de controlar a vida que, tantas vezes, é como as águas turvas e revoltas dum rio em cheia que tudo arrastam na passagem.
Branquinho dedicou-se ao conto, poesia, romance e ao teatro - mas considerava o conto como a “sua expressão mais natural”.
Gostaria de reler o seu romance, “Porta de Minerva”, sobre os tempos de Coimbra - que tenho na lista dos meus (muitos) livros a reler.

E vem-me à memória João Gaspar Simões: tão ignorados os seus romances “Pântano”, "Internato"(1940), “Elói, ou romance numa cabeça”, ou o seu teatro. Ele que, além de crítico e ensaísta, se revelou um escritor notável.
Crítico literário, na melhor acepção da palavra -o crítico que "abre" aos leitores um livro- foi um escritor completo e é ignorado. 
Autor da primeira biografia de Fernando Pessoa e biógrafo de Eça de Queiroz, escreveu muitos outros ensaios de teoria literária e biográficos (2). 
Foi um dos mais activos intelectuais a traduzirem e a divulgarem entre nós a literatura estrangeira. Traduziu vários autores russos (de outra língua) como Dostoievski, Tolstoi ou Pushkin.
Grande apreciador do romance inglês, Gaspar Simões traduziu Henry James, "The turn of the Screw" (com o título de "Calafrio", leitura que aconselho vivamente!) e outros- cuja literatura muito apreciava, ajudando a combater o francesismo então reinante. 
Não só outros, mas  "outras", pois Gaspar Simões admirava as grandes mulheres da literatura! Como a George Eliot, Jane Austen e Elizabeth Gaskell -escritora e biógrafa de Charlotte Brontë-  e as irmãs  Brontë.


José Régio, sem dúvida um grande poeta, contista e romancista, pertence ao número dos grandes escritores portugueses mais “conhecidos”, reconheço (3). Lamento, apenas, que a edição das “Obras Completas”, da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, tenha preços demasiado altos para a camada dos estudantes e dos jovens em geral. 

A poesia de Régio é bem conhecida, claro, mas a sua prosa já o não é. O que lhe pesava, porque considerava ter igualmente valor. Recomendo a quem a não conhecer a leitura do romance "A Velha Casa" - vários volumes de uma 'saga' interessantíssima que passa por vários momentos da vida do escritor e que deixou inacabado. 

E tentem ler a história maravilhosa d' "O Príncipe com Orelhas de Burro", ou os contos de "Há mais Mundos" e as "Histórias de Mulheres" cheias de humanidade e compreensão...


Recordo, ainda, o nome de Tomaz de Figueiredo (4) romancista e contista excepcional. Hoje quem o conhece ou quem o lê? E perde muito quem o não tiver lido. 

A Toca do Lobo” (1947)é um grande romance e Tomaz de Figueiredo um mestre em escrever um português riquíssimo. E os contos? “O Muro Amarelo” -em "Vida de Cão" ou, em "A Outra Cidade", ou por exemplo, "Um senhor triste", ou "Cova Funda" e "Gente de Paz". Ou "Contos de bichos". Contos de grande poesia. E saudade do que passou um dia e não voltará mais. A nostalgia de um mundo irrecuperável. E do amor perdido para sempre, nostalgia que encontramos nos seus livros, a par duma ironia por vezes corrosiva. 


"A que era de chegar, nunca chegou.
Passaram anos, passou a vida.
Talvez que haja caído, perdida,
Em braços de quem a não amou.”
Saiu em 2013 um estudo muito completo sobre a obra do autor, de Albertina Fernandes (*), em "Calendário de Letras".
Fala-se muito de Miguel Torga (5) hoje, mas da sua poesia sobretudo, ou do "Diário". Mas quem leu “Os contos da montanha” ou “Novos contos da montanha”? 
A rudeza da vida primitiva, a pobreza que um médico de aldeia descobre, as agruras das gentes perdidas nas montanhas do seu “mundo maravilhoso” de que tão bem falou.

Outro autor que reli há pouco foi Manuel da Fonseca (6), “Aldeia Nova” (1942), e li-o comovida. 

"eram campos, campos, campos..."
O conto “O primeiro que ficou pelo caminho” faz-me sempre chorar. E tantos contos dele nos deixam marcas e recordações, como “Campaniça”, “Mestre Finezas”.
Como esquecer a figura de Maria Campaniça, a camponesa, da história que começa assim: “Valgato é terra ruim…
E "Cerromaior"? “O Fogo e as Cinzas” e o vazio das vidas perdidas no interior das aldeias? E as suas poesias?

E - para terminar- como esquecer Raul Brandão (7)? Lembro imediatamente o livro “Pescadores” com tantas páginas confrangedoras, tanta dor, tanta tragédia, tanta coragem. “Respondo por ele” era um dos meus contos preferidos. 

Igualmente terrível e grande literatura é “A Morte do Palhaço”, “A Árvore”, “O Diário de K. Maurício” são peças magníficas da nossa literatura. Ou "Os Pobres"
E a terrível “A Farsa” e “O Gebo e a Sombra”? Ou a maravilha de "As Ilhas Desconhecidas"? A fantástica descrição da Ilha do Corvo, nos Açores?
Como esquecê-los? Seria imperdoável.
***
vista de Mortágua
(1) Branquinho da Fonseca nasceu em 4 de Maio de 1905, em Mortágua, e morreu em Cascais em 7 de Maio de 1974. Colaborou na revista “presença” (que fundou em 1927 com José Régio e João Gaspar Simões) e onde escreveu com o pseudónimo de António Madeira.

(2) João Gaspar Simões nasceu em 25 de Fevereiro na Figueira da Foz e morreu em Lisboa a 6 de Janeiro de 1987, estudou em Coimbra. Crítico literário conhecido, foi também romancista e poeta. Autor da primeira e biografia de Fernando Pessoa e muitos outros.

(3) José Régio (pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira) nasceu em Vila do Conde em 17 de Setembro de 1901, onde morre em 22 de Dezembro de 1969.  

(4) Tomaz de Figueiredo nasce em Braga em 6 de Julho de 1902 e morre em Lisboa em 29 de Abril de 1970. Anteriormente publicado pela editorial Verbo, hoje a sua obra completa está a ser reeditada pela Imprensa Nacional.
   
(5) Miguel Torga é o pseudónimo do médico Adolfo da Rocha. Nasceu em São Martinho da Anta  em 12 de Agosto de 1907 e morreu Coimbra em 17 de Janeiro de 1995. Poeta, contista, romancista, dramaturgo.

(6) Manuel da Fonseca nasceu em Santiago do Cacém em 15 de Outubro de 1911 e morreu em Lisboa em 11 de Março de 1993. Poeta, contista, romancista.

 (7) Raul Brandão nasceu na Foz do Douro em 12 de Março de 1867 e morre em Lisboa em 5 de Dezembro de 1930. Militar, escritor, contista, dramaturgo.

(*) Albertina Fernandes, licenciada em Filologia Românica, Mestre em Língua e Literatura Francesas e em Expressão Dramática, é professora do ensino secundário na Escola Secundária de Arcos de Valdevez.

sábado, 2 de setembro de 2017

COMO FALAR (HOJE) DA BANALIDADE DO MAL?

Não vou usar palavras minhas, nunca seria capaz de dizer do mesmo modo lúcido e sabedor o que escreveu Simone Veil a propósito da Shoah, dos nazis e da “banalidade do mal”.

Não vou falar de grandes acontecimentos, vou referir pequenas coisas, actos impensados, que vão pôr em questão, de modo banal e irrespeituoso, coisas sobre as quais não devemos ter gestos "banais". 

E lembro apenas nos últimos tempos duas ou três coisas em que podemos falar da banalidade (inconsciente) maldosa dos gestos.
Isto a propósito de fotografias, em Auschwitz, com selfies aparentemente inocentes. Não vou pôr essas fotografias é evidente. Não sou delatora de ninguém.
Ou do vestidinho de riscas, "à Auscwitz", que a "Zara" em tempo apresentou, com a sua estrelazinha amarela no peito. Que obrigou a própria empresa "Zara" a vir pedir desculpas e a retirar as roupinhas.

E, para terminar, surgiu há pouco o livro de receitas de dieta. De modo tão infeliz intitulado "Dieta de Auschwitz", de uma autora portuguesa. Acho que em Auschwitz, de facto, as batatas cozidas eram um 'bem' quase impossível de alcançar...

Só que, com certos assuntos, não podemos ser 'inocentes' nem permitirmos brincadeiras 'banais', porque são mal apenas, penso. Erradas.
Arturo Nathan


Com o seu sentido do equilíbrio e da justiça, com a sua lucidez desiludida (como ela se considera: “Depois  de 1945 não fiquei cínica porque não era esse o meu temperamento, mas perdi as ilusões”), associado à dor vivida na pele e ao conhecimento profundo do peso de que nunca se libertará, constata simplesmente:

Os que foram vítimas nunca se salvarão disso mesmo. A muitos deles repugna falar do assunto. Outros sentem a necessidade de falar. Poucos são ouvidos. Mas todos vivem com isso dentro deles.” ("Une vie", pg. 102)
É a ela que vou buscar pois o seu "pensamento" que considero essencial e isento:

"Não partilho os julgamentos negativos sobre o silêncio culpado dos Aliados sobre os campos (*), nem o masoquismo intelectual como Hannah Arendt, sobre a responsabilidade colectiva e a banalidade do mal. Um pessimismo deste tipo desagrada-me. Tenho a noção de ver aí uma tentativa muito cómoda de escamotear o problema: ao dizermos que todo o mundo é culpado é o mesmo que afirmar que, então, ninguém o é. 

É a solução desesperada de uma alemã (H.A) que procura salvar o seu país a todo o custo e afogar a responsabilidade nazi numa responsabilidade mais difusa, tão impessoal que acaba por não significar nada. A má consciência geral permite a cada um por si de se ‘gratificar’ com uma boa consciência individual; não sou eu o culpado visto que afinal o mundo inteiro o é.” (pg. 96)

Deveriam os Aliados ter bombardeado os campos? Segundo Simone Veil, era inútil e as tentativas que se fizeram nesse sentido apenas mataram as vítimas e não atingiram os nazis.

Essas polémicas sobre os assunto não servem segundo a minha opinião senão para alimentar falsos debates – de que tanta gente se mostra ávida – sobretudo quando os acontecimentos passaram e a discussão deles não tem custos nem riscos.” (pg 95)

Voltando aos adeptos da banalidade do mal: “O que arruína esse pessimismo fundamental é o espectáculo da covardia - em confronto com a enormidade dos riscos tomados pelos Justos, esses homens e mulheres que não esperavam nada, nem sabiam o que viria depois, mas que ,apesar disso, correram todos os riscos e perigos para salvarem Judeus que, na maioria dos casos, nem conheciam. 
Os actos desta gente provam que a banalidade do mal não existe. O seu mérito é imenso, igual à dívida que temos para com eles. Salvando este ou aquele indivíduo, testemunharam da grandeza da humanidade”.(pg, 95)
É preciso coragem para ter certas opiniões. Fico contente por poder citar aqui duas mulheres fora do vulgar. E recordo Doris Lessing.
Há dias, estive a ler o seu depoimento de membro da "angry generation" a que pertenceu. 
Nascida em Kermanshah, no Irão, então Pérsia, onde o pai trabalhava, viveu grande parte da vida na África do Sul e dessa realidade e das mulheres falou.(**)
a jovem Doris Lessing

No seu depoimento, escreve: Estamos a viver uma época tão perigosa e violenta, tão explosiva e precária, que nos suscita a pergunta de se restarão pessoas vivas para escreverem livros ou para os ler. Trata-se de uma questão de vida ou de morte para todos nós e vivemos obcecados pela ameaça de que algum louco nos destrua em massa (…)”
Peter Sellers: "Dr. Strangelove" de Kubrick (1964) 
estamos em 1957. Como nos parece familiar esta conversa. Os testemunhos dos "Angry Men" referem-se sempre à realidade do deflagrar duma bomba inglesa como experiência pouco tempo antes...
Qual a responsabilidade que temos na nossa frente? Não se trata simplesmente da questão de impedir o mal mas de fortalecer a visão de um bem que pode vencer o mal.” (…) não há ninguém que hoje em dia não se encontre ameaçada, pelo medo e pela insegurança ou pelas restrições do pensamento provocadas pela miséria mundo fora.”
Para ela existem duas soluções: “Subtermo-nos a ser regidos pelos empregados inferiores do alto comércio” (ou por uma ditadura qualquer) o que conduziria à nossa própria eliminação.
Doris Lessing, 2006

Ou, então: “Que imponhamos a nós próprios o esforço de imaginação necessário para chegarmos a ser o que somos capazes de ser.”
O bem, o mal? Sobretudo, escolhermos o que podemos fazer de melhor! E não esquecer a beleza do que nos rodeia. E o respeito pela terra e pelo que nos foi deixado em herança.
Reuven Rubin, Mar da Galileia

Fico por aqui. Coisas para pensar, sim, mas com uma mensagem positiva: não nos empurram para a desistência!
Cascais, chez Jeanne (MJF)

Pelo contrário: porque há sempre alguma coisa que podemos fazer. Isso é a nossa luta, aquela em que temos de prosseguir para ser o que somos capazes de ser” e para explicarmos que há soluções alternativas à covardia de pensar que existe a banalidade do mal a desculpar-nos. Temos o nosso jardim interior para cultivarmos e, nisso, somos livres de escolher.
 o nosso jardim (MJF)
Todos somos responsáveis pelo que fizermos. Podemos ser Justos ou Carrascos. Todos podemos escolher o bem ou o mal. Todos temos as nossas sombras a colorir.
Sombras (MJF)

  (*)  Simone Veil, "Une vie", Editions Stock, 2007
 (**) Doris Lessing nasceu na Pérsia, em 22 de Outubro de 1919, viveu na Áftica do Sul e morreu em Londres em 2013. Recebeu o Prémio Nobel de Literatura em 2007 e foi o mais idoso prémio Nobel de sempre e a 11ª mulher a recebê-lo. 
Na entrega do Prémio, foi dito que premiavam: "esta epopeia da experiência feminina que com cepticismo, fogo e poder visionário sujeitou uma sociedade dividida ao seu próprio olhar.”
(***) "Depoimentos dos Angry Men", ‘perspectivas’, editorial Presença, 1963