Tenho de lembrar logo o meu avô, João Diogo Casaca, pessoa boa, grande republicano, nascido em Portalegre, onde toda a vida lutou pelos valores e direitos republicanos e democráticos...
O meu avô foi um jornalista e tinha uma tipografia onde se imprimia o jornal que, durante anos, dirigiu: o “semanário republicano independente e regionalista”, A Rabeca. Tal qual vem definido no Órgão da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

“Em 1905(...) era o responsável pela publicação da folha O Independente. Vai então para Castelo de Vide onde funda, quatro anos mais tarde, com José Augusto Eustácio, a Tipografia Estácio & Casaca, onde se imprime o Castelovidense, em 1909. Faz parte dos corpos directivos da Sociedade Artística Popular e da Sociedade Recreativa 1º de Dezembro. Foi também um dos fundadores da Cooperativa Operária local.
Em 1912 a empresa transfere-se para Portalegre. Nas suas oficinas imprimem-se vários jornais –O Semeador, a Rabeca (que aparece em 1912), O Evolucionista...
A 30 de Março de 1913 sai A Cidade, com João Diogo Casaca como director e editor. É um periódico republicano e regionalista, à margem dos grandes partidos da República e muito crítico em relação aos excessos jacobinos. Em 1914, Estácio vai para Lisboa e Casaca, em 1916, é o editor de A Rabeca.
O plátano do Rossio, árvore centenária, nos tempos do meu avô
Em 1916, João Diogo Casaca é o proprietário e o editor de "A Rabeca"
O jornal foi sempre um órgão respeitado a nível local, conhecido em todo o país. (...) O semanário conservou sempre uma postura republicana e de oposição ao Estado Novo, marcando posição em especial nas campanhas eleitorais. João Diogo Casaca faz parte, em 1945, da Comissão de Propaganda e imprensa do Movimento de Unidade Democrática (MUD) em Portalegre.”
(In revista “Fonte Nova” Nº 313, de 31 de Janeiro de 1991- “Recordando João Diogo Casaca”-, p.5.)
Lembro que nesses anos do MUD também o meu pai, Feliciano Falcão, e José Régio escreveram nas páginas de A Rabeca.
Recordo a doçura do meu avô, aliada a um carácter forte, que nunca quebrava, mas que nunca era capaz de magoar, fosse por que motivo fosse. Brando, interiorizado aparentemente, era no entanto um grande companheiro, um amigo folgazão de festas e romarias, e actor dramático nas horas vagas...
Já falei dele aqui e volto a recordá-lo, com ternura:
“O seu maior prazer era estar na tipografia, sentado à secretária pequenina, virada para a parede, onde estava pendurada uma gravura humorística. Com a luz do candeeiro por cima dos papéis, fazia serão até tarde. O candeeiro tinha um abat-jour verde com folhos e representava um ardina a rir, com os jornais debaixo do braço, que hoje tenho em minha casa.
Corrigia as provas do jornal, revia, emendava, fazia ao lado uns sinais que para mim eram incompreensíveis.(...) 
O meu avô passava, ao serão, nas noites escuras de de Outono e de Inverno, com um cão branco e preto. Vinha deixar a avó em nossa casa e ele seguia para o cinema de que era grande apreciador... e levava consigo o cão, que se chamava Tommy.
O meu avô era uma pessoa doce. Era um homem bonito, sempre bem arranjado e não criava problemas a ninguém, pelo contrário, gostava de ajudar toda a gente. Eu acho que não tinha defeitos.
O meu avô acreditava nas pessoas, mesmo sabendo que as pessoas são fracas e que, por vezes, podem precisar de uma coisa mas acham melhor dizer que vão fazer outra.
O meu avô, quando os empregados lhe pediam para sair mais cedo, sabia que eles não iam levar a mãe ao hospital, que a filha não tivera dores de garganta, como lhe diziam... Mas se fosse verdade?
O meu avô preferia pensar que era verdade.
Era um contrato entre todos. Cada um era responsável pelas própria palavra e pelas acções, pelo respeito por si próprio. O meu avô amava a justiça e a sua tranquilidade.”
Neste aniversário grandioso, cem anos da República que tanto trouxe de liberdade, que foi como uma brisa fresca que arejou o país e tentou dar um pouco de educação e “abertura”!
Esquece-se hoje a que pontos tinha chegado o país. O analfabetismo era quase “total”, a ignorância grassava, a higiene não era conhecida, a pobreza arrastava-se pelos casais das aldeias. Luz eléctrica nem sonhar...
Foi a República que trouxe as Escolas Superiores de Educação, para formar professores primários...

Irene Lisboa, por exemplo, sempre tão esquecida, grande mulher, escritora e educadora inteligente e sensível, republicana, que estudou, ensinou, quis continuar a estudar e teve de parar. O poeta Afonso Duarte também. E José Rodrigues Miguéis vai seguir o mesmo exemplo e passar em Bruxelas pela mesma Escola onde os outros tinham estado.
Funda-se a revista "Seara Nova” onde tantas “cabeças” brilharam e a Cultura se desenvolveu...
Pobre República tão acusada! Nem teve tempo de respirar, quanto mais de crescer e fazer tudo o que não se tinha feito antes!
Em 1926 voltava tudo à estaca zero...Voltou a barbárie da ignorância, da superstição, do fecho das portas do saber. Cortados do mundo, do que se passava lá fora, restou-nos ter de ter a paciência e esperar não os 7 anos de pastor que Jacob serviu, mas muitos mais!
Apetece-me dizer! Viva a República! Viva o meu avô republicano!









Love at First Sting (Amor à primeira picada... do escorpião, claro) é o nono álbum, e data de 1984.
e "Still Loving You".
Os Scorpions venderam entre 100 e 150 milhões de álbuns pelo mundo fora... 





"le vittime del cuore"













